1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Mergulho nas profundezas dos sentidos

Luiz Ventura

14 agosto 2014 | 17:03

Porque há um momento no qual você pensa ter esgotado todas as possibilidades de reconstrução, mas é fundamental acreditar que não devemos ser indivíduos isolados, que precisamos sempre reiniciar a busca por recursos, por luzes que ainda não enxergamos em nossa escuridão particular. Há sempre caminhos que não conhecemos e que podem nos levar a novas paisagens.

Curta Facebook.com/VencerLimites
Siga @LexVentura
Mande mensagem para blogvencerlimites@gmail.com
O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

Imagem: Reprodução

Muito antes de pensar em ser jornalista, pensei em ser ator de teatro. E, naquela época, lá no começo dos anos 1990, decidi que só iria concretizar essa ideia se eu tivesse talento real, vocação para esse trabalho. Desta forma, entrei de cabeça nos estudos do que significa ser ator e como é vivenciar uma personagem. Li muitos livros, peças de teatro, roteiros e scripts.

Foi nessa época que conheci Constantin Stanislavski e Carl Gustav Jung. O primeiro é uma referência incontestável e fundamental para o trabalho de ator. O segundo, na minha avaliação, é revelador. E me fez repensar tudo o que imaginava saber na época sobre o ser humano.

Durante esse período de estudos, no qual convivi muito com atores, diretores e escritores (famosos e anônimos), um dos debates mais frequentes era sobre quando o ator deveria se desprender da personagem. E se essa libertação era possível. Jamais houve acordo sobre o tema. Imagino que ainda não exista. Depois de aproximadamente quatro anos de estudos, percebi que o jornalismo era a minha ‘praia’ e decidi pela carreira nas redações, mas como nenhum conhecimento é irrelevante, os ensinamentos permaneceram.

Lembro do mergulho nas profundezas dos sentidos e a libertação da personagem toda vez que surge a notícia da morte de um grande ator, daqueles geniais, com opiniões que vinculam essa morte à profundidade que a ‘interpretação’ desse ator alcançava.

Foi assim quando morreu Heath Ledger, logo após finalizar as filmagens de ‘Batman: O Cavaleiro das Trevas’. O Coringa que Ledger nos apresentou, e com o qual no presenteou, é transcedental. Na época, após investigações, foi divulgado pelo setor de Medicina Legal de Nova Iorque que a causa da morte havia sido “intoxicação acidental de remédios prescritos (oxicodona, hidrocodona, diazepam, temazepam, alprazolam e doxilamina) com efeito calmante e sonífero”. Houve também muita especulação sobre a ligação que o ator desenvolveu com a personagem e sobre como ele não conseguia destruir esse vínculo.

Imagem: Reprodução

Nesta semana, a morte de Robin Willians me fez refletir, mais uma vez, sobre como a sensibilidade de uma pessoa é transportada para cada personagem, principalmente porque o que o vimos fazer ultrapassa muito os limites do que imaginamos saber sobre o que significa sentir.

Muitos outros atores já deram depoimentos sobre esse mecanismo de busca da personagem e de suas características, dores, conflitos, emoções. E sobre como essa construção pode ser perigosa para a pessoa real, que irá voltar ao mundo em algum momento.

Não estou buscando aqui justificativas para comportamentos ou decisões pessoais. Na verdade, uma vez que esse blog se propõe a tratar não apenas de assuntos relacionados a pessoas com deficiência, mas de temas ligados a pessoas (porque é isso todos nós somos, independente das características), me parece oportuno destacar a importância da avaliação constante de nossas intenções, sensações e caminhos.

Porque há um momento no qual você pensa ter esgotado todas as possibilidades de reconstrução, mas é fundamental acreditar que não devemos ser indivíduos isolados, que precisamos sempre reiniciar a busca por recursos, por luzes que ainda não enxergamos em nossa escuridão particular. Há sempre caminhos que não conhecemos e que podem nos levar a novas paisagens.