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Eu e os gringos numa Kombi indo pra festa junina

Lusa Silvestre

segunda-feira 30/06/14

O cronista faz a lotação para levar os gringos em uma festa junina.

Deixa eu contar pra vocês o que eu fiz depois do jogo do sábado. Fui na Vila Madalena com minha Kombi, abri a porta lateral no epicentro da muvuca, e gritei: partiu festa junina !

 

Não precisou de grande convencimento. É dos gringos, isso: você abre a porta da Kombi, eles entram. Pouco importa pra onde vai – se tem brasileiro na direção eles pulam dentro mesmo. De vez em quando eles se arrependem, tipo quando a gente leva os caras pra conhecer o Poupa Tempo.

 

Chegamos. Argentinos, chilenos, holandeses, americanos, japoneses. O cheiro de espeto já fez os gringos chorarem da calçada, como se churrasquinho fosse disputa de pênalti. As cores, as bandeirinhas, a fogueira, os chapéus de palha, tudo aquilo era outstanding, muy rico, ontzagwekkend e até  壮大な.

 

Em segundos os japoneses acharam a barraca das bebidas. O chileno veio perguntar se aquele quentão era forte. Eu, ainda impactado pelo jogo, quis me vingar das emoções desnecessárias: “imagina, isso aí que nem chá. Pode tomar de gut-gut.”

 

Nessa, o americano sumiu.

 

Aí, o holandês recebeu um correio elegante. Claro que foi o holandês. Desde Maurício de Nassau que as brasileiras preferem os holandeses. E pra traduzir o bilhete ? Como é “seu tamanco é o número que eu calço” em holandês?

 

O argentino tirou a camisa do Messi e saiu pelo arraial. Já tinha aprendido: no Brasil, ser argentino é pior que ser casado – do ponto de vista da balada. Começou a conversar com uma brasileira. Aí a menina saiu de perto, brava, comentando com a amiga:  “se eu quisesse argentino ia pra Floripa”.

 

Depois de meia hora, o americano reapareceu todo sorridente. Havia descoberto que podia pôr pessoas na cadeia. Igual Guantânamo ! Já tinha arregaçado o cartão de crédito prendendo todo mundo.  Tinha especial predileção pelos barbudinhos – o que fez com que metade da festa fosse em cana. Essa moda da barbinha rala uma hora ia cair em desgraça mesmo.

 

Já o chileno, pra lá de Ushuaia, resolveu aplicar justo na noiva da festa – de nome Marcelo. Como chileno tem mais intimidade com Merlots e Cabernets, fugi com ele pra barraca do vinho quente.  “És fuerte?” – me perguntou de novo, copo na mão. Eu, ainda com um resto de rancor, respondi “como chá”.

 

Começou a quadrilha. Todo mundo dançando, integração total. Olha a chuva ! É mentira. Olha a cobra… cobra ? O japonês na hora sacou o celular: cadê a cobra ? Tinham dito que no Brasil aparecia cobra no meio da rua. Cadê ?

Aí o chileno, de pileque, tentou subir no pau-de-sebo. O japonês foi correndo pra lá: tinha perdido a cobra mas não ia perder o chileno no pau-de-sebo.

 

Fim da festa, os gringos começaram a se reagrupar. O chileno chegou do pau-de-sebo imundo feito gaivota quando tem óleo no mar. Só o holandês que não aparecia. Eu esperei mais dez minutos. Nada. Resolvi ir embora. Se os holandeses se viraram bem em Recife, idos de 1600 (nem celular tinha), agora ia ser fácil. Eu podia deixar o cara pra trás.

 

Fomos todos para a Kombi, de volta pra Vila. O chileno foi lá atrás, em cima do motor. O quê ? Podia ser a Copa do Mundo que fosse: ele não ia sujar minha Kombi. Ainda mais depois de sábado.