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Amor, o melhor sofrimento de todos

Lusa Silvestre

03 junho 2014 | 14:24

Não consta que Drummond tenha escrito um soneto – qualquer um – se queixando de dinheiro. Muito menos tenho conhecimento de algum poema do Fernando Pessoa falando de dor no joelho, ácido úrico ou labirintite.

 

Se o sofrimento é inspirador, não adianta sofrer por saúde ou pindaíba. Dá samba bom, dá novela boa, dá filme bom, mas poesia mesmo, literatura de verdade, só mesmo o mais nobre dos sofrimentos: a dor de amor.

 

Primeiro que dor no joelho só precisa de uma pessoa para o sofrimento acontecer: o próprio dono do joelho. Sofrimento por amor, não: por definição, obriga a participação de outra pessoa. É trabalho em equipe. Pede namorada, ex-mulher, peguete, cacho. E quando envolve a participação de outra pessoa, rapaz, aí que complica. Porque relações pessoais são mesmo complexas: diferente de uma dor no joelho, que é óbvia e não admite muita interpretação – dói e pronto – o sofrimento por amor pode ser muito subjetivo. Uma palavra errada, um ciúme desnecessário, e pronto: estamos sofrendo.

 

Sofrer por dinheiro também é um sofrimento meio besta. É sem graça. Passa rápido, teoricamente:  basta compor um Lepo-Lepo desses ou inventar o Facebook. Não tem as camadas subjetivas, os mal entendidos, o futrico, a dificuldade de se explicar as coisas. Não vamos diminuir o poder de sofrer por dinheiro ou por uma topada de dedinho – mas não inspira obras eternas.

 

A agonia pela falta de dinheiro não é incapacitante como sofrer por amor. Por exemplo: sujeito está devendo. Mesmo assim ele vai e compra irresponsavelmente uma calça. Ele sofre pela falta de grana, mas tem uma calça nova pra aliviar. Já o amor não alivia: tem vezes que a pessoa sofre até sem o primeiro beijo consumado -  hoje conhecido vulgarmente como Amor Platônico. Nossa mãe, quantas vezes não há nem o amor consumado ! E não dá pra aliviar o sofrimento dividindo o rancor em doze vezes.

 

Pensemos então no irmão gêmeo do amor: o ódio. A raiva de quem deve dinheiro é pouca coisa perto da raiva do amor. Basta ver as pragas soltas pelo chifrado, pelo largado, pelo não correspondido. Você não quer que o gerente do banco broxe pelo resto da vida – só pra imaginar uma comparação.

 

Sofrer por amor tem variações, não é frio e direto como o saldo no banco ou o raio-X. Se o amor for recíproco, a gente sofre de saudade. Se for amor proibido, a gente sofre uma tristeza que não cabe nem em duas pessoas. Se por acaso já foi amor e hoje é descaso, temos a raiva. São muitas as possibilidades; é um assunto com muito potencial criativo.

 

Basta olhar o trabalho de um Chico Buarque (que até escreveu sobre outros sofrimentos), de um Shakespeare, de um Tolstói. Por mais que o joelho lateje, o bolso doa, é sofrendo por amor que o mundo progride.

 

Por isso, castigada leitora, machucado leitor, aproveite a dor do amor. Essa agonia incurável, esse espanto diante do inexplicável, essa insônia chorosa, esse passarinho se debatendo e soltando penas dentro da Aorta, tudo isso é ótimo.

 

Sim, uma hora cai a casquinha e não vai ter mais machucado. Mas enquanto isso não acontece, aproveite. Sofra mesmo. Como disse Vinicius: ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão.