A partir de maio, os governos federal, estadual e municipal, além do Legislativo e do Judiciário, estarão sujeitos à nova Lei de Acesso à Informação Pública. Nada que não for classificado oficialmente como segredo de Estado poderá ser ocultado da população. Ao mesmo tempo, pululam sites oficiais com os chamados “dados abertos”, em cópia a iniciativa semelhante do governo Obama. Nunca tanto foi tão público. Chegamos à transparência absoluta? Nem perto.
Vivemos o “Big Bang” da informação. O estoque de dados brutos que se produz no mundo dobra a cada ano. A progressão é geométrica, expandindo em quantidade e velocidades inumanas. Ocultos nesse universo em explosão estão padrões de comportamento, indícios de corrupção e tendências de mercado – entre outras milhares de informações relevantes. O desafio é descobrir o que importa em meio ao caos, ver através da espuma.
Em meio à inundação, é tentador agarrar-se a um dado aleatório e, sem possibilidade de encaixá-lo no contexto, atribuir-lhe importância exagerada. Quando se avalia o todo pela parte, tudo depende da qualidade da amostra. Se ela for defeituosa, parcial, não espelhará o universo, mas um cantinho dele. É o que aconteceu com os despachos diplomáticos do governo norte-americano vazados pelo WikiLeaks em 2010. E, em diferentes graus, com os vazamentos espetaculares que o antecederam e o seguiram.
À época, cada um dos vazamentos foi vendido como o maior evento de quebra do sigilo governamental da história. Comparou-se o último deles a uma biblioteca de 2 mil volumes.
Mesmo assim, o total de documentos sigilosos tornados públicos pelo WikiLeaks cabia num pen drive de 2 gigabytes de memória que se compra em qualquer camelô da esquina. Por comparação, ao final do governo W. Bush, a quantidade de documentos eletrônicos transferida dos computadores do governo federal para o US National Archives foi de 77 terabytes – quase 40 mil pen drives do WikiLeaks.
Não foi apenas um problema de quantidade, mas de qualidade dos dados. Os despachos eram menos de 10% da correspondência dos diplomatas dos EUA no período e não continham nenhum informe classificado como “top secret”, o mais relevante na escala de sigilo. É como ir a uma churrascaria rodízio e, sem experimentar a picanha, julgar a qualidade da carne pelos espetinhos de coração de frango servidos de entrada.
Afora o fetiche tecnológico, nada de novo. Uma das maneiras clássicas de esconder a verdade é divulgar apenas parte dela. É do que os meios de comunicação são acusados desde sempre. O WikiLeaks juntou-se ao clube ao pedir ajuda aos sócios mais antigos. O grupo comandado por Julian Assange não foi capaz de lidar sozinho com todos os documentos e formou um consórcio com alguns dos mais tradicionais jornais do planeta.
Sem a experiência dos jornalistas, a força de trabalho conjunta não teria conseguido desbastar nem parte da já parcial floresta de documentos sigilosos. Mas, como contrapartida, o gargalo de informações divulgadas foi ainda mais estreitado, porque passou pelo crivo também dos departamentos jurídicos dos jornais. Como se vê, nada de transparência radical ou revolucionária.
Em artigo publicado na revista International Review of Administrative Sciences, o pesquisador Alasdair Roberts, da Universidade de Suffolk, questiona o conceito subjacente aos vazamentos bombásticos de que basta tornar pública uma quantidade de dados governamentais que parece gigantesca para provocar clamor na população e mudar o regime de poder. A ideia não é apenas pueril. É errada. Não existe tal relação de causa e efeito – ao menos não do dia para a noite.
A divulgação de milhares de relatórios de campo das ações militares dos EUA no Afeganistão não mudou a percepção da opinião pública norte-americana sobre a guerra -ao menos não como pretendiam os “vazadores”. Aumentou o apoio à intervenção, a despeito da divulgação de barbaridades cometidas pelos soldados. Essa não é uma guerra de uma batalha só.
A regra vale para os dados do governo brasileiro que afluem cada vez em maior volume à luz.
Para descobrir o que é de interesse público serão essenciais a experiência e dedicação constantes da imprensa, de pesquisadores e de organizações não governamentais como Transparência Brasil e Contas Abertas – além de interfaces tecnológicas que ajudem a dar sentido à multidão de informações. Ou morreremos afogados em dados.
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Tags: dados, governo, tecnologia, transparência
Nos EUA, um pai ficou indignado ao encontrar, na sua caixa de correio, cupons de desconto para roupas de bebê enviados por uma cadeia de varejo em nome de sua filha menor de idade. Acusou a loja de tentar induzir a garota a ser mãe precocemente. Mas, após confrontar a adolescente, descobriu que a filha já estava grávida. Só ele não sabia.
Os estatísticos da loja de departamentos Target não tiveram acesso a nenhum teste de gravidez. Apenas inferiram que aquela consumidora iria dar à luz cruzando informações de compras: a mudança no seu padrão de consumo era consistente com o de outras grávidas. Foram tão precisos quanto um exame de ultrassom.
A história -quase boa demais para ser verdade- ilustra reportagem do “New York Times” intitulada “Como companhias aprendem os seus segredos”. A rigor, não são dos segredos de uma pessoa, mas dos hábitos da multidão que as empresas estão atrás. Juntando os seus aos meus, descobrem os nossos. Tudo para determinar padrões e prever comportamentos. No conjunto, somos muito mais parecidos uns com os outros do que gostamos de admitir.
Na reportagem, analistas da Target revelaram, orgulhosos, como são capazes de prever, com pequena margem de erro, a data do parto ou o sexo da criança. Tudo com base no consumo de loção de pele, na quantidade de tufos de algodão comprados e na cor do tapete encomendado para o quarto do bebê. Esses itens fazem parte de uma cesta de 25 produtos que compõem o “índice de predição de gravidez” criado pela loja. Não é piada, é dinheiro.
Você pode achar que ninguém está prestando muita atenção em como usa seu cartão de crédito, no que faz com seu mouse e com seu celular ou por onde você anda com seu carro, mas isso não muda o fato de que há gente cuja missão profissional é colecionar, organizar e analisar dados sobre você. É íntimo, mas não é pessoal: é universal.
No mundo do chamado “Big Data”, o nome importa menos que o CPF, que o endereço eletrônico ou que o número do cartão de crédito. Importante é juntar dados sobre a maior massa possível de consumidores, contribuintes, motoristas e internautas. Não para espioná-los -em princípio-, mas para transformar cada um deles num código numérico unificado. Afinal, há menos algarismos do que letras, o que agiliza a computação.
Há cada vez melhores aplicativos para reconciliar bilhões de dados de diferentes origens com o objetivo de determinar que o dono do CPF “tal” é também a pessoa por trás daquele email, deste cartão de crédito, de certo endereço I.P. e -por que não?- de um determinado título de eleitor.
Na caça ao seu voto, políticos fazem “microtargeting”. O site Pro Publica relatou como um casal norte-americano recebeu ao mesmo tempo, enquanto ambos assistiam TV no sofá, duas mensagens diferentes do comitê de campanha de Barack Obama em seus celulares. Com palavras e argumentos diversos, elas pediam a mesma coisa: dinheiro. O site descobriu pelo menos seis versões diferentes da mesma mensagem disparadas para os celulares de possíveis apoiadores do presidente dos EUA.
A diferenciação da forma se deve a diferentes estratégias elaboradas pelos marqueteiros de Obama para diferentes perfis de eleitor. A meta é evocar o tema que mais interessa a cada um, no momento certo e do jeito que, imaginam, tornará o apelo mais sedutor -do mesmo jeito que a Target manda cupons de desconto de roupas de bebê para adolescentes grávidas pouco antes de elas darem à luz, em vez de enviar para seus pais indignados.
Enquanto isso, a Casa Branca tenta regular a fome de dados das empresas. Propôs a lei de direitos de privacidade do consumidor. O texto prevê transparência por parte das empresas, controle individual dos consumidores sobre suas informações e limites ao uso dos dados. Mas, como os emails de campanha demonstram, o próprio Obama pratica microtargeting.
No Brasil, essa técnica foi usada em campanhas de presidente e governador, em 2010. Apesar da carência de dados -quando comparadas às bases de dados dos EUA, onde o marqueteiro conhece centenas de características de cada eleitor-, estrategistas de Marina Silva e Sergio Cabral, por exemplo, conseguiram “fatiar” o eleitorado e desenvolver um tipo de campanha para cada segmento, de acordo com seus interesses e prioridades.
É algo que está fazendo falta ao governo federal. Não só para avaliar políticas públicas com eficiência, mas para mirar com precisão os interesses de cada parlamentar da chamada base aliada. Sem esse controle fino, o Planalto corre o risco de, como o pai daquela adolescente grávida, ser o último a saber das estripulias de seus afilhados no Congresso.
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Tags: consumo, dados, eleição, tecnologia
Por mais revoluções que Steve Jobs tenha feito no mundo digital, por mais produtos inovadores que tenha lançado nada tem correlação mais forte com seu nome no Twitter do que o seu maior rival, a Microsoft, e seu sistema operacional, o Windows. É o que se constata na série de gráficos de dispersão abaixo. Eles comparam o nome do fundador da Apple, morto aos 56 anos na quarta-feira, com uma série de nomes de empresas, produtos, conceitos e pessoas, em posts publicados no Twitter em 2010.
Nada bateu o coeficiente de correlação de “Steve Jobs” com “Microsoft”: 0,8, em um máximo de 1. Em segundo lugar ficou a dupla “Steve Jobs” x “Windows”, com 0,79. O produto criado por Jobs mais associado a seu nome foi o “iPhone” (0,75), seguido de termos mais genéricos, como “software” (0,73), ou conceitos que Jobs manejou com excelência, como inovação (0,72) e design (0,71).
Também fica claro na comparação dos gráficos que os produtos de consumo criados por Jobs, como o iPhone, o iPad e até mesmo o iPod têm uma associação muito mais frequente ao seu nome do que aquilo que o projetou no mundo digital em primeiro lugar: os computadores Macintosh. Não é à toa que a Apple tirou o Computer do nome.
O que essas comparações mostram é que no Twitter, pelo menos em casos nos quais há forte concorrência, a oposição de duas ideias, marcas, pessoas e conceitos é mais forte do que as associações positivas. Para os tuiteiros, Jobs foi, antes de mais nada, o anti-Bill Gates, o anti-Windows.
Quando a correlação entre dois termos é forte -isto é, quando ambos são citados na mesma nota com frequência- o gráfico tende a mostrar uma linha de tendência diagonal (em azul). Se a correlação for positiva, a linha sobe; se for negativa, cai. Quando não há correlação, a linha tende a ser horizontal ou próxima disso.
Pode-se classificar os resultados pelo coeficiente de correlação. Ele varia de -1 a +1, e quanto mais perto das extremidades, mais forte a correlação, ou seja, mais associadas estão as duas palavras/expressões. Para que se possa dizer que há uma correlação entre os dois termos pesquisados é necessário que o coeficiente seja menor do que -0,5 ou maior do que +0,5, pelo menos. Um coeficiente de 0,8 indica uma correlação positiva (quanto mais um termo aparece, mais o outro aparece também) mais forte do que um coeficiente de 0,62, por exemplo.
Quem quiser repetir o experimento ou testar as suas próprias correlações, pode fazê-lo no site onde o pesquisador Scott Golder hospedou a base de milhões de notas publicadas no Twitter e criou mecanismos gráficos para analisá-las.
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Steve Jobs melhorou a vida de todos que leram esta frase. Ele não inventou a interface gráfica dos computadores (no começo era o verbo, na forma de aborrecidas linhas de código), mas fez elas funcionarem direito. Como está lendo este texto em uma tela, você usa uma interface aperfeiçoada por Jobs.
Tampouco ele inventou a tela sensível a múltiplos toques, mas antes de colocá-la nos produtos certos (a família iPad, iPod, iPhone), o multi touch era uma solução em busca de um problema. O criador da Apple deu o melhor propósito às melhores tecnologias, sempre com muita elegância e estilo.
Elegância é o comprador se sentir mais esperto só de olhar um produto. Perceber a genialidade dos detalhes, a integridade do desenho, a generosidade na escolha dos materiais. É um bombardeio de sinapses visuais e táteis que faz o consumidor sorrir internamente, como sorri após ler uma frase inteligente ou ouvir uma ironia refinada. É a sedução do ego, a ilusão de que ao possuir esse objeto ele incorpora suas qualidades.
Estilo é reconhecer que um produto é da Apple antes mesmo de ver sua logomarca. Não só porque ele é bonito, mas porque parece “natural”, intuitivo, óbvio até. Mesmo que ninguém tivesse feito assim antes. E quando a última geração do mesmo produto é lançada, jogando fora boa parte da interface anterior, o consumidor adere ao novo formato sem pensar duas vezes, porque ele é ainda mais “natural” e intuitivo.
Intuição é palavra-chave para compreender os feitos de Jobs. Ele queimou os manuais do usuário. Da embalagem ao ato de tirar o brinquedo da caixa, do ligar ao usar, tudo nos produtos da Apple deve ser feito sem que o comprador precise pensar no que está fazendo. Ele intui, flui e frui. O ápice desse conceito é observar uma criança de dois anos brincando com um iPad sem auxílio de adultos.
A esta altura você já deve estar cansado de ler que o iPod revolucionou o jeito de ouvir e comprar música, que o iPhone fez do celular um aparelho inteligente e que o iPad está mudando o jeito de as pessoas lerem revistas, jornais, livros, navegarem na internet e matando o notebook. A questão é “como Jobs fez tudo isso?”
Imagine que você tivesse o poder de saber o que as pessoas querem antes de elas saberem que querem. O chavão do marketing é “encontre uma necessidade e preencha-a”. Jobs tinha o dom de criar necessidades. Ou você sempre precisou levar seu celular consigo o tempo todo, até o banheiro e para a cama?
Após o pródigo retorno do fundador, a Apple abandonou os focus groups para descobrir o que o consumidor quer. Jobs personificou o departamento de pesquisa de mercado da Apple. Ele era o consumidor dos seus produtos. Sabia o que queria, como queria e mandava fazer. Se era bom para Jobs, era bom para nós. Centenas de protótipos recusados e milhões de produtos vendidos não deixam dúvida quanto a isso.
Mas há enorme distância entre saber o que quer e fazer isso acontecer. Jobs criou uma companhia capaz de realizar seus sonhos -uma não, duas, porque através da Pixar ele reinventou os desenhos de animação. E fez isso sem ser engenheiro, programador, desenhista, roteirista ou administrador, sem ter um diploma universitário, muito menos um MBA. Aprendeu, por tentativa e erro, a atrair talentos e liderar pessoas.
Tantas genialidades combinadas reuniram uma legião de consumidores devotos, que frequenta as Apple Store com quem vai a templos de culto e faz fila para comprar o mais novo lançamento da marca como fãs acampam na frente de bilheterias para garantir um ingresso ao show do seu artista preferido.
A Apple é pop mas pode não sobreviver ao seu criador. Toda companhia sofre com a perda de um gênio, ainda mais um gênio do tamanho de Steve Jobs. Tudo que der errado com seus produtos daqui para frente será por causa da falta que ele faz, e tudo o que der certo será parte de sua herança. Pobre Tim Cook.
O legado de Jobs transcende as empresas que fundou, os produtos que criou, o modelo de negócio que consolidou. A excelência no design, a interface funcional, a eficiência energética, a inovação constante e a obstinação em fazer melhor do que a concorrência beiram o máximo que o capitalismo tem a oferecer. É a sociedade de consumo elevada ao estado de arte, com todas as contradições e desigualdades que encerra.
PS: Em caso de dúvida sobre o poder de inovação da Apple e de seu criador, dê uma olhada nesta coleção de desenhos e patentes compilada pelo The New York Times.
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Tags: consumo, tecnologia
Há uma forte correlação entre o que as pessoas fazem no dia-a-dia e o que elas publicam ou procuram na internet. Já se sabia isso pela frequência de buscas mais comuns no Google em cada hora e dia da semana. Mas um novo estudo e uma nova ferramenta mostram que isso é ainda mais verdadeiro no Twitter.
Os tuiteiros lusófonos costumam publicar notas sobre “trânsito” justamente nos horários de maior congestionamento, como às 7h da manhã, ou nas sextas-feiras no fim da tarde. Como os brasileiros são imensa maioria entre os usuários do Twitter em português, eles preponderam nos resultados.
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“Futebol” é mais comentado no Twitter em português nos domingos à tarde e nas quartas à noite, horário dos principais jogos do Brasileirão.
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A “hora do almoço” é a mesma no Twitter e no cotidiano. Mantém até as peculiaridades de cada dia da semana: mais tarde aos domingos e mais longa aos sábados.
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Como na vida real, “novela” é um hábito diário, com hora certa no Twitter em português. É mais assunto principalmente às segundas-feiras, e perde importância no fim-de-semana, quando muda a programação na TV.
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“Balada” virou exclusivamente sinônimo de noitada. E como tal, tem seu pico na madrugada de sábado para domingo, com os tuiteiros comentando o que fizeram. Há um segundo ponto alto no começo da noite de sábado, quando eles combinam ou anunciam o que estão prestes a fazer.
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Domingo é dia de “missa” e de “culto“, com preponderância do rito católico, embora em proporção menor do que os dados censitários sobre preferência religiosa da população poderiam fazer supor.
Possível sinal de perda de influência relativa da Igreja católica aparece na comparação do número de citações ao “padre” e ao “pastor” no Twitter.
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O pesquisador Scott Golder (@redlog), da Universidade de Cornell, nos EUA, reuniu uma base de dados com centenas de milhões de tuitadas de 84 países. Fez um estudo dos tuítes em inglês usando software que distingue palavras que identificam atitudes positivas e negativas. Isso rendeu reportagem no The New York Times e foi reproduzido no Brasil, inclusive aqui. Mas a base de dados está disponível online, e contém tuítes em português. É com base nela que foram montados os gráficos acima.
Nos gráficos multicoloridos, cada linha corresponde a um dia da semana e é identificada por cores diferentes, como a seguir: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, sábado e domingo.
Esta nota teve a colaboração dos jornalistas Amanda Rossi e Bruno Meirelles.
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Quem usa sabe que a repercussão nas redes sociais varia de zero a 1 milhão. E o zero é muito mais frequente. Só de vez em nunca um tuíte/post é maciçamente reproduzido por quem segue o seu autor, e pelos seguidores dos seus seguidores, até vários graus de separação. Quando isso acontece, o fenômeno é dito “viral”.
A virulência é o Eldorado do marketing virtual. E, como tal, raramente alcançada. O instituto Gallup verificou a quase irrelevância das campanhas institucionais via Twitter e Facebook. Os esposos dos usuários de redes sociais, por exemplo, têm 40 vezes mais influência na opinião formada sobre marcas e produtos do que as propagandas no Twitter e no Facebook. Não fosse rara, a virulência mataria o seu alvo por sobrecarga.
Poucos microorganismos hostis conseguem se espalhar maciçamente. Só os que encontram uma brecha no sistema de defesa do hospedeiro/vítima e condições ambientais favoráveis se expandem ao nível de epidemia. Notícias, mensagens políticas e ideias em geral só se propagam se conseguem driblar a apatia, essa arma imunológica da opinião pública.
Quem fala não impõe a quem escuta o que é relevante. Por isso, tentativas de controle do que é publicado -por conselhos ou pela censura- são inúteis, além de anti-democráticas. Uma mensagem só é passada adiante nas redes sociais se o “receptor” comprá-la com entusiasmo suficiente para reproduzi-la. Mas mesmo isso é insuficiente para alcançar a virulência.
Para pular etapas, marqueteiros virtuais contratam celebridades do Twitter como garotos-propaganda. Mas essa adaptação anacrônica do tiro de canhão para matar uma mosca, típica dos meios de massa unidirecionais, não costuma levar a lugar algum.
Na mesma linha, usuários com escores altos em serviços como “Klout” (que medem a suposta influência de cada perfil no Twitter, Facebook, YouTube etc) são bombardeados com mensagens “pessoais” de produtos. Se você está recebendo uma enxurrada de tuítes que começam por seu codinome, conforme-se: você é um trendsetter.
Esses recursos primitivos do marketing social são insuficientes para superar os muitos anticorpos que evitam infopandemias. Mesmo quando ultrapassa as primeiras barreiras da transmissão, a mensagem tende a ficar restrita ao segmento da população mais vulnerável àquele conteúdo, a pessoas que compartilham as mesmas características demográficas, que têm um DNA social comum.
Raríssimas campanhas saem dos trending topics para as ruas e influenciam um país. Sem um caldo de cultura propício, campanhas virtuais como “Cansei”, pelo voto distrital ou protestos anti-corrupção tendem a contaminar sempre a mesma parcela da população -que acaba por se desencantar com a falta de repercussão do movimento e troca a mobilização por frustração, quando não por ressentimento com o resto da sociedade.
Para mobilizarem multidões, como nos países árabes, é preciso um tipo de engajamento que só costuma ser produzido por causas muito palpáveis, como fome e perda de direitos fundamentais -ou convicções ideológicas inflamadas, cuja expressão mais atual é o fanatismo religioso.
Sem o acúmulo de tensões sociais nenhum movimento sai do sofá para a praça. O trendsetter ou marqueteiro virtual pode estapear o fundo da garrafa quantas vezes quiser que a virulência não sairá pelo gargalo. Comunicação não é catchup.
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A Índia está fazendo algo que mais parece ficção científica, uma mistura de 1984 e Admirável mundo novo. E que vai provocar um grande debate sobre os limites da democracia representativa, da privacidade e do controle do estado sobre o indivíduo. Imagine fotografar 1,2 bilhão de rostos, escanear 2,4 bilhões de íris e coletar 12 bilhões de impressões digitais, juntar tudo isso num banco de dados digital, e torná-lo acessível pela rede de telefonia celular. Deve demorar 10 anos, mas já começou a acontecer.
O projeto chama-se Aadhaar e em pouco mais de um ano emitiu 30 milhões de números de identificação únicos para indianos de 13 dias de vida até 103 anos de idade. Participa quem quer, mas os atrativos para ganhar os 12 dígitos são muitos: com ele e sua impressão digital, qualquer um, mesmo o mais miserável sem-teto, pode abrir uma conta bancária, receber benefícios governamentais e descolar um telefone celular. Em vez de meses de idas e vindas de papelada, a identificação digital demora 8 segundos.
A meta é driblar a burocracia, evitar o desvio de recursos do equivalente local ao Bolsa Família e diminuir as desigualdades de um país que é estratificado em castas e onde há oficialmente 400 milhões de pobres. O sistema está sendo implementado por uma espécie de “start-up” estatal, comandada pelo mais icônico “self-made man” indiano, o bilionário Nandan Nilekani, fundador da Infosys. Ele se afastou do seu império de software e terceirização de serviços de informática só para tocar o projeto.
Os benefícios são óbvios, assim como os riscos. No limite, seria possível ao governo monitorar todos os cidadãos cadastrados, um verdadeiro Big Brother. Reportagem do The New York Times conta que as resistências foram grandes, mas o Aadhaar deslanchou graças ao aval do primeiro-ministro Manmohan Singh e -mais importante- da família Gandhi, que comanda o poderoso Partido do Congresso. Pode ser que tenham avalizado apenas pelo apelo eleitoral de diminuir a kafkiana burocracia da Índia. Ou não.
O Aadhaar resolve o problema da identificação à distância. Através das câmeras dos celulares seria possível, em tese, identificar qualquer pessoa para realizar todo tipo de atividade, até votar. Hoje isso é impensável. Daqui a dez anos (ou menos) não será. O processo será tão fácil e rápido que pode colocar em xeque o sistema de democracia representativa, em prol da democracia direta.
É tudo o que os políticos e partidos não querem. Imagine uma votação instantânea dos eleitores do Distrito Federal cassando o mandato da deputada Jaqueline Roriz (aquela que foi absolvida pelos seus pares apesar de ter sido flagrada em vídeo recebendo dinheiro vivo). Ou decidindo pelo voto direto sobre a criação ou extinção de tributos.
A democracia direta pode ser também um atalho para a ditadura da maioria. Sem limites, favorece perseguições e ameaça direitos fundamentais do cidadão, dependendo de para onde o vento da opinião pública estiver soprando.
Mas as rebeliões em países democráticos como Espanha, Grécia, Chile e Inglaterra demostram que a democracia representativa não satisfaz a nova geração de eleitores, que se sente excluída do processo decisório. Somem-se as novas tecnologias, as redes sociais e projetos como o Aadhaar e o resultado é um debate que pode ser adiado, mas não evitado para sempre.
E no Brasil?
O Tribunal Superior Eleitoral coletou as digitais (nada de escanear íris) de pouco mais de um milhão de eleitores até agora. Eles votaram em 2010 usando o indicador para se identificarem. Essas pessoas terão prioridade para receber o RIC (Registro de Identidade Civil), um número de identificação que substituirá o R.G. e, em tese, unificará CIC, PIS/PASEP e todos os outros cadastros federais.
O “em tese”, no caso, é para ser levado a sério. O decreto diz que “os demais cadastros públicos federais (…) poderão adotar”. Ou seja, não é compulsório. E os documentos velhos continuam valendo… Ou seja, o roteiro é o mesmo do “imposto único”, que virou mais um: a CPMF.
Num país onde cartório equivale a uma capitania hereditária, e TSE e IBGE têm códigos diferentes para identificar os mesmos municípios, é difícil acreditar que até 2018 você terá apenas um número de identificação federal para decorar. Mas se até a Índia -com seis vezes mais habitantes que o Brasil- está conseguindo, não custa torcer.
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