José Roberto de Toledo - Estadao.com.br
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Boa dose das decisões políticas é gestada no fígado. Para muitos eleitores, mais grave do que não eleger seu candidato preferido é ver um político que odeia ganhar a eleição. Votam em adversário “menos pior” para evitar mal maior. A decisão sugere pragmatismo, mas é difícil precisar onde termina o raciocínio e começa a racionalização -a justificativa lógica construída após o ato feito. O voto útil nasce pingando bile.

É mais comum do que gostamos de admitir. Basta lembrar das tardes de domingo. Quantas vezes cada um de nós ouviu um grito de prazer escapar da janela do vizinho -quiçá da nossa- quando o time rival toma um gol? Imperativos fazem coro com expletivos e saturam o ar de animosidade. O futebol se alimenta de paixões devotas e ódios consagrados. Com a política é igual. Saem as janelas e estádios, entram as redes sociais e blogs.

Por isso não convém menosprezar o poder do ódio nas eleições. De tão decisivo, tornou-se presença obrigatória nas pesquisas de intenção de voto. Foi revestido de circunstância para soar menos cru. A pergunta clássica nos questionários é: “Em quais destes candidatos você não votaria de jeito nenhum?”. A causa subjacente às respostas é ojeriza, repulsa, antipatia, mas pode chamar de rejeição.

É muito difícil um candidato ganhar as graças do eleitorado. Mais difícil do que isso, só livrar-se da bile eleitoral. Uma vez impregnada, não sai nem lavando. A rejeição é persistente como um pernilongo. Podemos não lembrar por que sufragamos este, mas não esquecemos a razão pela qual não votamos naquele. O eleitor amadurece e envelhece abraçado ao seu rancor (apud João Antônio).

A rejeição pode inviabilizar políticos famosos e populares. Em São Paulo há casos notórios. O mais recente é de Marta Suplicy.

A petista começa quase toda eleição que disputa como favorita. Foi assim nas brigas pela prefeitura em 2000 e 2008, e na corrida por uma das duas vagas no Senado em 2010. Marta sai na frente, mas raramente termina em primeiro lugar. Elegeu-se senadora atrás de Aloysio Nunes (PSDB), e perdeu no segudo turno para José Serra (PSDB) em 2004 e para Gilberto Kassab (então no DEM) em 2008. Culpa da rejeição.

Antes dela, houve Paulo Maluf (PP). Até desencantar nos pleitos majoritários, Maluf tentou ser prefeito, presidente, governador. Por mais eleitores que tivesse, sempre era barrado pela rejeição dos demais. Em 1992, quando conseguiu vencer um segundo turno, pareceu ter iniciado um novo ciclo. Mas a maré não durou e o ex-prefeito nunca mais ganhou um mata-mata. A rejeição voltou dobrada.

Como a bile eleitoral vai influir na disputa para prefeito de São Paulo? A pesquisa Ibope mostra que, por ora, Serra é o mais rejeitado pelos eleitores de 7 dos outros 9 pré-candidatos. Ao menos metade dos eleitores de Celso Russomanno (PRB), Paulinho da Força (PDT), Netinho (PC do B), Gabriel Chalita (PMDB) e até de Soninha (PPS) dizem que não votaria em Serra. Quando elegeu-se prefeito de São Paulo, em 2004, Serra tinha apenas 15% de rejeição (Datafolha). Hoje, segundo o Ibope, 35% dos paulistanos dizem que não votariam no tucano de jeito nenhum.

Por causa da rejeição, Serra está mais perto de seu teto de votos do que seus adversários diretos. Teria menos chance que os demais de ganhar novos eleitores caso um dos seus adversários desistisse. Esse é o risco de largar muito na frente quando se é tão conhecido quanto ele e a rejeição é alta: há mais espaço para cair do que para subir.

As próximas pesquisas mostrarão se a trajetória do tucano será igual à de 2004, quando largou no patamar em que está hoje, subiu e terminou o primeiro turno com 10 pontos a mais do que quando começou a campanha, ou se repetirá Geraldo Alckmin (PSDB) em 2008, que também começou com cerca de 30% de intenção de voto, foi caindo, caindo e terminou quase com metade do cacife inicial. Tudo vai depender dos adversários com menos rejeição, se eles conseguirão sair do anonimato.

Para Fernando Haddad (PT), a única vantagem de ser tão desconhecido é que a maioria dos eleitores de outros candidatos não sabe quem ele é e, por isso, não pode rejeitá-lo. Mas essa taxa vai crescer à medida que mais gente descobrir que Haddad é o candidato do PT. Ele terá mais facilidade de assimilar a rejeição do partido do que ganhar a confiança de seus eleitores. Conquistar o voto depende de competência, o ódio vem por inércia.

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13.maio.2012 22:04:38

“Caudismo”

A maioria dos partidos brasileiros sofre de “caudismo” crônico. A divergência entre seus deputados é tão grande que a cauda formada pelos dissonantes é mais pesada do que o corpo partidário. Se fossem répteis, essas siglas seriam serpentes. A dispersão dos votos dos deputados de um mesmo partido começa no mais desapegado governismo e termina em destemida oposição. Pode significar tudo, menos coesão ideológica.

O caso mais extremo de “caudismo” é o do PSD, que foi pensado para ser assim. Seu fundador definiu o PSD como um partido que não está nem à direita, nem à esquerda, nem no centro. Proféticas palavras. Quântico, o PSD está em todo lugar ao mesmo tempo. E não está sozinho. O “caudismo” não tem lado. Vai da oposição à base governista, do DEM ao PDT, do PPS ao PR, passando por PP e PV.

O Basômetro, desenvolvido pelo Estadão Dados, revela que a taxa de governismo da bancada do PSD na Câmara está em 86%. Mas um único número não traduz o comportamento dos pesedistas. Essa taxa embute um desvio padrão que é sete vezes maior do que o do PT, o mais coeso dos grandes partidos. O governismo do PSD varia dos 95% de votos pró-Dilma de João Lyra (AL) até os 36% de Nice Lobão. A independente deputada maranhense é mulher de Edison Lobão, ministro das Minas e Enegia.

Nice Lobão não está sozinha no lado oposicionista do PSD: 7 deputados do partido votaram mais vezes contra o líder do governo na Câmara do que seguiram sua orietanção. Na outra ponta, oito pessedistas obedeceram o governo em mais de 90% das vezes. E o resto dos deputados do partido ficou no meio do caminho, entre um extremo e outro, sem deixar espaço vazio no espectro de governismo. O corpo de votos tem o formato de uma cauda.

O fenômeno se explica pela origem dos deputados do PSD. Eles foram eleitos por outras legendas, e só se juntaram na nova sigla em outubro do ano passado. Os que emigraram do PMDB, do PR e do PTB, como João Lyra, carregavam na bagagem de votações uma alta taxa de governismo. Já os que vieram do DEM, como Nice Lobão, tinham um passado oposicionista.

Depois que o PSD formou sua bancada na Câmara, o comportamento de seus deputados tornou-se majoritariamente governista, votando quase sempre de acordo com a vontade de Dilma. Nas 26 votações nominais ocorridas entre outubro e dezembro do ano passado, a taxa de governismo do PSD foi de 97%: 45 dos 48 deputados do partido votaram com o governo em mais de 90% das vezes. Mas isso mudou no começo deste ano.

Desde fevereiro, aumentaram os votos oposicionistas do PSD. Só sobraram dois pessedistas no “núcleo duro” do governo na Câmara. Na média, a taxa de governismo do PSD caiu de 97% para 68%. A causa dessa mudança de comportamento é a eleição municipal. Em fevereiro, o presidente do partido, Gilberto Kassab, trocou a aliança com o PT em São Paulo pelo apoio a José Serra, do PSDB. A troca de aliado refletiu-se em outras cidades.

Seria injusto dizer que o PSD inventou o “caudismo”. Ele só aperfeiçou-o. Tome-se o partido de onde migraram mais pessedistas, o DEM. Nas 53 votações nominais anteriores à defecção de seus parlamentares para o PSD, o DEM tinha uma taxa média de governismo de apenas 22%. Só 4 de seus 43 deputados tinham votado mais de metade das vezes com o governo. Desde então, o governismo do DEM subiu para 29%, e 5 demistas deram mais de 50% dos seus votos para Dilma. Um deles, Lael Varela, é um renitente membro do “núcleo duro” do governo: tem 100% de votos pró-Dilma em 2012.

É tentador identificar o “caudismo” como um reflexo do comportamento caudatário que a maioria dos partidos tem em relação ao governo. Afinal, apenas 4 das 23 legendas com representação na Câmara podem dizer que fazem oposição a Dilma. Na média, suas bancadas votaram mais de metade das vezes contra o governo em 98 votações nominais: PSDB (78% de oposicionismo), DEM (74%), PSOL (72%) e PPS (66%).

Mas enquanto PSDB e PSOL são razoavelmente coesos nos votos de seus deputados, os outros dois sofrem de “caudismo”. Entre os deputados do PPS, a taxa de governismo varia dos 25% de Roberto Freire (SP) a mais do que o dobro disso, como é o caso de Almeida Lima (SE), que votou mais vezes com o governo do que contra ele. O desvio padrão dos votos da bancada do PPS é 26% maior do que a dos tucanos, por exemplo.

Não é coincidência que PT e PSDB, os partidos que polarizam a política brasileira há 18 anos, estejam entre os mais coesos. Nem que PSB e PMDB, que buscam romper essa polarização, rivalizem com eles em coesão.

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A eleição paulistana tem dez candidatos, mas só duas candidaturas e meia. Com 31% no Ibope, José Serra (PSDB) catalisa, por ora, o eleitorado anti-petista. A outra candidatura é a do PT, mesmo que só 3% do eleitorado declare voto em Fernando Haddad por enquanto. O PT tem a simpatia de 31% do eleitorado paulistano e nunca ficou fora de um segundo turno na cidade. A terceira candidatura está em fase de projeto: há espaço, mas falta um nome. Oito candidatos tentam ser o tertius, a alternativa à bipolarização tucano-petista. Juntos, os oito têm 44% de intenção de voto estimulada.

A pesquisa Ibope dá pistas de quem tem mais chances de ser a terceira via da eleição paulistana. Mais importante do que a intenção de voto nesta fase fria da campanha, é o potencial de crescimento. E isso depende de uma baixa rejeição dos eleitores e de mais oportunidade de exposição quando a campanha chegar à TV.

À esta altura, quando 4 em cada 5 eleitores não têm o nome de nenhum dos candidatos na ponta da língua, as intenções de voto são mais um exercício de memória do que a decisão definitiva do eleitor. Hoje, a pesquisa espelha o grau de conhecimento do eleitorado sobre os candidatos. É algo que tende a mudar muito à medida que a propaganda se intensificar e a eleição se tornar uma preocupação real para os eleitores.

Entre os candidatos a tertius, Celso Russomanno (PRB) é o mais conhecido. Tem 16% no Ibope, mas bateu no teto e lhe falta tempo de propaganda eleitoral. Ele é alavancado pela exposição constante na TV, especialmente na Record, onde trabalha. Mas a partir de 10 de junho -manda a lei- Russomanno não poderá mais apresentar seu quadro de defesa do consumidor. Para ele se manter com chances, precisaria se aliar a partidos que têm muitas inserções na TV. Está difícil.

Netinho de Paula (PC do B) também deve seus 8% no Ibope à TV. Na eleição para senador, ele largou bem, mas perdeu terreno à medida que a rejeição a seu nome aumentava. Desta vez, será obrigado a se afastar dos programas televisivos sem a contrapartida da propaganda eleitoral que a aliança com o PT lhe garantiu dois anos atrás. É um caso semelhante ao de Russomanno, agravado por uma rejeição três vezes maior: 38%, contra 13% do rival.

Por sua origem petista, Soninha (PPS) teria chances de se viabilizar como terceira via pela esquerda. Mas a aliança do PPS com o PSDB em São Paulo, além de sua participação pessoal no mal-avaliado governo do prefeito Gilberto Kassab (58% desaprovam), fragilizam o discurso oposicionista. Soninha tende a ficar espremida pela candidatura de Serra. Também lhe falta tempo de propaganda. A seu favor, é a única mulher na disputa.

Na terceira via, Gabriel Chalita (PMDB) tem o maior potencial. Sua rejeição (11%) é a mais baixa. Ele patina em 6% de intenção de voto desde janeiro, mas tem algo que nenhum outro candidato a tertius tem: tempo de TV. Como Haddad, o peemdebista dependerá de um bom desempenho na TV. Sua missão é duplamente difícil: em 45 dias de horário eleitoral, precisará se firmar como terceira via e suplantar uma das candidaturas supostamente favoritas.

Se chegar ao segundo turno, Chalita tem potencial para roubar votos de Serra ou de Haddad. Pode posar de aliado tanto de Dilma Rousseff (PT) quanto de Geraldo Alckmin (PSDB). O difícil é chegar lá.

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Quem percorre os 20 quilômetros da avenida Sapobemba, cortando a zona leste da cidade de São Paulo, desde os limites da Mooca até os confins de São Rafael, assiste a uma paulatina mudança de paisagem urbana: marcas famosas vão sumindo das fachadas do comércio, construções perdem o acabamento, e os anos de uso dos carros em circulação se tornam proporcionais à quantidade de lombadas e buracos interpostos pelo caminho.

Enquanto rodam dígitos no hodômetro, terrenos baldios intercalam conjuntos habitacionais e casas cada vez mais modestas. O mato invade o espaço que seria das calçadas e até uma multicolorida lona surge na tangente de uma curva à esquerda: “Circo de Cuba”. A coincidência assume ares premonitórios.

Entre a esquina com a avenida Salim Farah Maluf e a encruzilhada com a estrada do Rio Claro, o conteúdo das urnas eletrônicas sofre um câmbio tão radical quanto a substituição do falar italianado -típico dos moradores de bairros adjacentes ao começo do trajeto- pelo sotaque nordestino, de quem vive no extremo oposto.

São dois territórios com preferências partidárias arraigadas e muito diferentes entre si. No 2º turno da eleição presidencial de 2010, José Serra (PSDB) teve 72% dos votos na 4ª Zona Eleitoral, a da Mooca. Mas a proporção mudava a cada quilômetro adiante, até Dilma Rousseff (PT) alcançar 65% da votação na zona eleitoral de São Mateus.

O voto do paulistano está relacionado ao bairro onde ele mora. O PT tem seus maiores redutos na região periférica da cidade, enquanto o PSDB é forte no centro expandido. Esse padrão se repete desde os anos 90 em todas as votações -para vereador ou presidente, passando por prefeito, deputado e governador.

O determinismo geográfico do voto reflete uma divisão de classe. A explosão demográfica de São Paulo centrifugou imigrantes e trabalhadores de baixa renda entre os anos 40 e 80 do século passado. Em regra, quanto mais longe a moradia, mais pobre o morador. Quanto mais periferia, menos calçamento, iluminação e hospitais.

O PT reforçou o geovoto durante os governos de Luiza Erundina (1989 a 1992) e Marta Suplicy (2001 a 2004). Canalizou investimentos, programas assistenciais e assistencialistas para as regiões mais pobres e distantes das zonas sul e leste da cidade. Cativou seu eleitorado em Paralheiros e Guianases, por exemplo, mas alienou eleitores dos bairros mais centrais que se sentiram preteridos com a mudança de prioridade.

O PSDB é menos organizado que o PT, como provou o baixo quórum das prévias tucanas na cidade. Mas se faltam militantes, seu eleitorado é tão fiel quanto o petista. Em 2008, PT e PSDB lideraram, juntos, os votos de legenda para vereador em São Paulo: 21% para cada partido. A divisão se repetiu em 2010 na eleição para deputado federal. A legenda do PT recebeu 22%, e a do PSDB ficou com 19% -bem à frente dos demais partidos.

A concentração do eleitorado tucano é proporcional à riqueza dos moradores. No centro expandido, varia de 82% no homogêneo Jardim Paulista a 68% no Butantã, uma zona eleitoral que mescla bairros ricos como Cidade Jardim e Morumbi com comunidades pobres, como Jardim Jaqueline e Morro da Fumaça.

Em décadas passadas, a outra parte do eleitorado antipetista foi janista e malufista. É o segmento que se concentra numa faixa contínua, desde o Jaçanã e a Vila Maria, ao norte, até a Vila Prudente, onde a zona leste faz esquina com a zona sul. Decepcionado e/ou desamparado por seus líderes, esse eleitor voltou-se para quem tem mais chances de derrotar os petistas. Votou em Serra em 2004 e em Gilberto Kassab (então no DEM) em 2008.

Nesses pedaços da cidade, só muda a intensidade da vitória, mas o vencedor é sempre o mesmo: petistas na extrema periferia e tucanos no centro expandido e no colar janio-malufista. Por isso, tornou-se estratégico o meio do caminho entre o petismo e o antipetismo. São as zonas eleitorais que oscilam de um partido a outro de eleição para eleição. É também uma zona de transição social, de emergência da nova classe média, que muda de hábitos de consumo e pode mudar também de partido.

Na zona leste, os termômetros que indicarão para qual lado a eleição vai virar são Ermelino Matarazzo, São Miguel Paulista, Vila Jacuí, Ponte Rasa, Vila Matilde, Itaquera, Conjunto José Bonifácio e Sapobemba. Na zona sul: Jardim São Luís, Socorro e Campo Limpo. Juntos, eles somam 1 milhão de votos válidos. O futuro prefeito de São Paulo deve sair de para onde essa zona balançar.

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As notícias divulgadas até agora sobre a pesquisa Datafolha dão conta de que 41% “conhecem” Fernando Haddad (PT), pois foi como o instituto qualificou essa taxa. Não é bem assim. Nesses 41% foi computada uma metade que apenas “ouviu falar” do pré-candidato petista a prefeito de São Paulo. Ou melhor, diz que ouviu.

Sabe-se que às vezes o pesquisado se sente intimidado pelo pesquisador, especialmente quando a pergunta é se ele sabe alguma coisa ou conhece alguém. Não saber é admitir ignorância, algo não muito lisonjeiro se o entrevistado partir do pressuposto que deveria saber o que lhe é perguntado.

A opção “só de ouvir falar o nome” é a escapatória para o eleitor intimidado não admitir ignorância, mas também não mentir e dizer que conhece (as opções anteriores são “conhece muito bem” e “conhece um pouco”) o candidato que, na verdade, ele desconhece. É ficar em cima do muro. Não vale como conhecimento, assim como “regular” não conta como avaliação positiva nem negativa de um governo.

O leitor pode ou não concordar com a argumentação apresentada até agora, mas será mais difícil resistir aos números da própria pesquisa Datafolha. Apenas 6% dizem conhecer Haddad “muito bem”. Por comparação, o dobro de paulistanos conhece Levy Fidelix (PRTB) “muito bem” -é o do “aerotrem”.

Entre o terço do eleitorado paulistano que se diz simpatizante do PT, apenas 5% afirma conhecer “muito bem” o candidato do partido. Entre os simpatizantes do PSDB, o grau de alto conhecimento de Haddad é o dobro: 11%. Ou seja, Lula escolheu um candidato que tem duas vezes mais penetração entre os rivais do que entre os petistas. E não foi por acaso.

A estratégia paulistana traçada pelo ex-presidente dá de barato que Marta Suplicy não se reelegeu prefeita em 2004 porque à alta rejeição ao PT somou-se a rejeição pessoal da agora senadora. Para 2012, Lula escolheu, propositalmente, um desconhecido -e, portanto, não rejeitado- com potencial de agradar à classe média que não vota no PT desde 2000: “novo”, bem apessoado e especialista em educação.

O plano foi concebido para vencer o segundo turno. Mas, antes, é preciso chegar lá. E o peso de carregar um ilustre desconhecido até 3 de outubro ficou inteiramente sobre o ex-presidente. Haddad sofre de “lulodependência” aguda. O PT, à margem, assiste o rival PSDB cooptar aliados e somar tempo de TV. Enquanto isso, a grande maioria do eleitorado nem se deu conta da novela.

O Datafolha perguntou aos paulistanos quem Lula está apoiando em São Paulo. Mesmo com o entrevistador estimulando a resposta com os nomes dos pré-candidatos, só 10% responderam que o ex-presidente apoia Haddad. Essa taxa cai para 5% entre as mulheres, para 6% entre quem não passou do ensino fundamental e 7% entre quem ganha até 5 salários mínimos. Mesmo entre os petistas, só 8% sabem.

Nenhum segmento social sabe melhor que Haddad é o candidato de Lula do que os simpatizantes do PSDB: 1 em cada 4 respondeu corretamente à pergunta do Datafolha. E isso explica porque Haddad tem cinco vezes mais rejeição (15%) do que intenção de voto (3%). Quem sabe que ele foi ministro da Educação lembra-se também dos vazamentos das provas do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) em sua gestão.

Quando decidiu monocraticamente enterrar as prévias do PT em São Paulo e apontar sozinho o candidato a prefeito do partido, Lula assumiu um compromisso. Implicitamente, disse “deixa comigo” e se comprometeu a levar Haddad nas costas. A potência eleitoral do ex-presidente é comprovada, mas acidentes acontecem. E quando o cavalo tropeça, quem cai é o cavaleiro.

Lula ficou doente. É um acidente. Sua recuperação, embora notável, não é milagrosa. Como é comum em casos de câncer, leva tempo, consome energia, desgasta. Curar-se deve ser e tem sido a sua prioridade. Com exceção dos hidrófobos e ressentidos, a grande maioria torce por sua recuperação. Enquanto isso, Haddad espera sua montaria.

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* Lula ainda é o maior eleitor em São Paulo (44% poderiam ser levados a votar no seu candidato a prefeito), mas esse número era ligeiramente maior em janeiro: 49%. Outros 21% não votariam no candidato dele. O saldo da influência de Lula, portanto, é positivo em 23 pontos percentuais, mas caiu um terço quando comparado ao saldo de janeiro (era 33 pontos).

* Dilma Rousseff e Geraldo Alckmin têm o mesmo percentual de influência positiva sobre o eleitorado paulistano: 31% cada um. Mas a influência negativa (24% não votariam no seu candidato) do tucano é ligeiramente maior, levando a um saldo mais baixo. Dilma: 31% – 19% = 12 pontos. Alckmin: 31% – 24% = 7 pontos. O saldo de Dilma caiu em relação a janeiro (era de 17 pontos) e o do tucano se manteve estável.

* A pequena melhora na avaliação de seu governo não reverteu em cacife eleitoral para o prefeito de São Paulo. Gilberto Kassab (PSDB) continua sendo mais um peso do que um alavancador de votos: apenas 14% dizem que poderiam votar no candidato apoiado por ele, enquanto 47% não votariam pelo mesmo motivo. Seu apoio equivale a um saldo negativo de 33 pontos. Era de -32 em janeiro. Não mudou.

* Essa influência, positiva ou negativa, não é absoluta nem definitiva. Convém contextualizar a pesquisa, especialmente enquanto a grande maioria não tiver candidato na ponta da língua nem estiver pensando na eleição antes de ser abordada pelo pesquisador. Basta ver que 1 em cada 3 eleitores de José Serra dizem que poderiam votar no candidato apoiado por Lula. Isso indica menos a possibilidade de “traição” do eleitor do tucano e mais a falta de firmeza das intenções de voto, de um modo geral, neste momento da campanha.

* Outras inconsistências típicas da pré-campanha: 12% dos eleitores de Serra não votariam no candidato de Alckmin, 11% dos eleitores de Fernando Haddad não votariam no candidato de Dilma Rousseff, e 34% dos eleitores de Serra não votariam no candidato de Kassab. Ainda mais curioso: 21% dos que acham a gestão Kassab ótima ou boa dizem que o apoio do prefeito faria eles não votarem no seu candidato…

* É preciso cruzar as respostas para encontrar os segmentos do eleitorado que são consistentes em suas opiniões. Por exemplo: dos 30% que rejeitam Serra, 60% (quase 2 em cada 3) dizem que não votariam no candidato apoiado por Kassab. Ou ainda: dos 15% que não votariam de jeito nenhum em Fernando Haddad, 27% não votariam no candidato de Lula.

* Por fim, muito poucos eleitores votam em um candidato apenas porque um líder político mandou votar. O voto é pragmático e racional, uma conta de ganha e perde. O apoio de Lula, Alckmin, Dilma e Kassab é apenas um elemento a somar ou subtrair simpatias. Não é o único fator que o eleitor avalia.

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07.março.2012 12:29:59

No embalo da pesquisa

O termômetro esquenta ou esfria o objeto cuja temperatura ele pretende medir. Assim também, a pesquisa eleitoral influi na disputa que ela acompanha. A sondagem do Datafolha sobre a eleição paulistana criou um fato positivo para José Serra e praticamente liquidou as já remotas chances dos outros pré-candidatos do PSDB a prefeito de São Paulo. Mais do que isso, aumentou o magnetismo do tucano no jogo das alianças partidárias.

Na atual fase da corrida eleitoral, o mais importante para cada um dos principais candidatos é unir seus partidos em torno de seu nome e conseguir o máximo de coligações com outras siglas, de preferência com aquelas que têm direito a pelo menos uma inserção diária durante o horário eleitoral obrigatório. Serra largou na frente.

Ao bater em 30% das intenções de voto no Datafolha, ele tornou-se líder e -mais relevante- passou a ser percebido como o favorito. Nada mais atraente para os políticos do que a perspectiva de poder. Não importa que Serra cresceu por em evento efêmero -o tumulto causado pela sua entrada tardia na disputa e a grande exposição na mídia que se seguiu-, nem que parte de sua intenção de voto seja, de fato, efeito memória. A pesquisa criou um fato político e deu impulso a Serra.

Antes que obscurantistas venham clamar contra a liberdade de informação, é bom lembrar que isso é do jogo. Assim como ajudou, a pesquisa poderia ter atrapalhado se o resultado fosse diferente. Em 2010, quando Dilma Rousseff, em ascensão, começou a encostar no tucano, em queda, cada pesquisa era uma dose de vitamina para a campanha da petista e um tormento para Serra. Neste momento, os papéis se inverteram.

Para o PT e para Fernando Haddad, a pesquisa Datafolha foi uma notícia duplamente ruim. A estagnação do petista em 3% mostrou que a estratégia de Lula não deu certo. Ao atropelar as prévias do partido e impor um nome que ele escolheu sozinho, o ex-presidente pretendia ganhar tempo para tornar seu candidato conhecido e evitar rachas internos. Aconteceu o oposto.

O ressentimento de petistas alijados da disputa, como Marta Suplicy, é cada vez mais notório, e Haddad continua patinando no desconhecimento, apesar de estar em campanha há meses. Sem adversário interno, o pré-candidato petista mal aparece no noticiário. Ao mesmo tempo, a doença de Lula não permitiu que ele propagandeasse o nome de seu pupilo à exaustão, como fez com Dilma em 2009 e 2010.

Desconhecimento e inexperiência são defeitos que não pioram com o tempo. Ainda há muito chão pela frente, Lula está praticamente recuperado e o PT tem um eleitorado cativo que levou seu candidato ao segundo turno nas últimas cinco eleições de prefeito em São Paulo. O problema petista imediato são as coligações perdidas.

É muito mais difícil -e caro- convencer um partido a apoiar o 7º colocado do que o líder da pesquisa. Especialmente quando Dilma enfrenta uma rebelião na base de apoio ao seu governo. O PTB só é aliado do PT em Brasília. O PDT, cada vez menos. O PP malufista tucanou. O PSD kassabista também. PRB, PC do B e PMDB têm candidatos próprios mais bem colocados que o petista. O PR ameaça com Tiririca. Sobra o PSB, talvez.

Serão necessários muitos ministérios e muita verba federal para o PT seduzir outras siglas e levá-las para sua coligação. Sem isso, Haddad, que precisa de tempo na TV para o eleitor descobrir que ele existe, corre alto risco de ficar com menos tempo de propaganda do que o principal rival, o universalmente conhecido Serra.

Se não fizer amigos e influenciar outros partidos, Haddad pode ficar empatado em inserções publicitárias com Gabriel Chalita (PMDB), que corre por fora e não perdeu pontos com a entrada de Serra: tem 7% das intenções de voto (tinha 6%).

A dificuldade petista de arrumar coligações para seu candidato em São Paulo se deve aos aliados de Dilma terem caído na real. Perceberam que jogam, em 2012, a sua sobrevivência daqui a dois anos, quando serão renovadas as bancadas na Câmara dos Deputados e um terço do Senado. Os principais cabos eleitorais em 2014 serão -como sempre foram- os prefeitos que ganharem a eleição no próximo mês de outubro. E está difícil elegê-los.

Os aliados acham que o PT é o bicho-papão. Mas foi o recém-criado PSD que bagunçou a base aliada de Dilma. Das suas 272 prefeituras, o partido de Gilberto Kassab “roubou” a maioria (153) de partidos que apóiam a presidente no Congresso: 31 do PMDB, 30 do PP, 23 do PR, 15 do PTB e 10 do PSB, por exemplo.

Como resultado, PMDB, PP, PDT, PR e PTB têm menos prefeitos hoje do que elegeram em 2008. Ao mesmo tempo, PT e PSB conseguiram cooptar novas prefeituras e estão jogando pesado para engordar ainda mais esse número nesta eleição. São Paulo é apenas o caso mais visível de um problema nacional: a disputa pelo poder municipal entre partidos que só são aliados no plano federal por força do presidencialismo de coalizão brasileiro.

O mau desempenho no Datafolha e a busca pelas coligações perdidas mostram que não será apenas na base da ligação direta com o eleitor e seu bolso que Lula vai conseguir eleger Haddad, nem que Dilma vai conseguir governar. A política é necessária, como sempre foi.

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A entrada de paraquedas de José Serra (PSDB) na corrida eleitoral em São Paulo altera alguns, mas não todos os aspectos da sucessão paulistana. Continua sendo uma eleição mais favorável à oposição do que à situação. Permanece a divisão do eleitorado em três grupos: petistas, antipetistas e independentes. O clima econômico positivo não prejudica o candidato federal. O que muda, então?

1) Grau de conhecimento dos candidatos.

Por comparação, Serra é um gigante entre nanicos: 92% o conhecem bem (73%) ou ao menos um pouco (19%), segundo pesquisa Datafolha de janeiro. Ele é quatro vezes mais conhecido do que seu principal adversário, o petista Fernando Haddad, e três vezes mais do que Gabriel Chalita (PMDB), que concorre com o tucano à segunda vaga no segundo turno.

Serra alcançou 21% das intenções de voto quando seu nome foi estimulado pelo pesquisador (embora fique em 2% na pesquisa espontânea, porque disse e repetiu que não seria candidato a prefeito). Não se sabe quanto disso é fama e quanto é voto, mas os 21% lhe dão uma velocidade inicial muito maior do que a de seus adversários diretos. Haddad e Chalita ainda patinam entre 4% e 6%.

No caso de Serra, porém, mais reconhecimento implica mais rejeição: um terço dos paulistanos disse que não votaria nele, principalmente petistas e os mais críticos à atual gestão municipal. Por isso, interessa a Serra uma campanha curta e intensiva. Uma longa exposição, como aconteceu em 2010, só aumentaria o risco de desgastar sua imagem. É o oposto do que seria a campanha do PSDB se o candidato do partido fosse, por exemplo, Bruno Covas.

2) Quem representa o governo do prefeito Gilberto Kassab.

Se a articulação de Lula para cooptar o PSD em São Paulo tivesse dado certo, o ônus de defender a gestão kassabista ficaria dividido entre PT e PSDB. Com Serra na disputa, o atual prefeito sai da esfera petista para a tucana. Serra ganha a ajuda da máquina municipal, um tempinho a mais na TV e o peso de falar bem de uma prefeitura mal-vista por 4 em cada 10 eleitores paulistanos. O saldo tende a ser mais negativo do que positivo, porque reforça sua rejeição.

Kassab só virou prefeito por causa de Serra, que deixou a prefeitura com menos de dois anos de mandato para eleger-se governador. O tucano tem uma escolha a fazer: ignorar ou defender a atual gestão. Os adversários não tornarão fácil a primeira opção -e ficar em cima do muro já mostrou ser uma má ideia em 2010. Restará tentar melhorar a imagem do governo Kassab durante o horário eleitoral na TV. Para isso, Serra precisará de tempo de propaganda.

3) Quem galvanizará o antipetismo.

Serra sai na frente das pesquisas, mas não é certo que chegue ao segundo turno. O fracasso de Geraldo Alckmin em 2008 relembrou que quando o PSDB racha e tem pouco tempo de TV o candidato tucano chega em terceiro ou quarto lugar -também foi assim em 1988, 1992, 1996 e 2000. A primeira missão de Serra é curar as feridas tucanas, depois somar partidos coligados, e, só então, mirar no eleitorado antipetista.

O primeiro turno em São Paulo deverá replicar as prévias republicanas nos EUA: uma corrida para o eleitorado conservador decidir quem tem mais chances de bater Barack Obama no turno final. Haddad não é Obama, obviamente, mas o candidato do PT, fosse quem fosse, sempre chegou ao segundo turno paulistano. Foram cinco vezes em seguida. Isso fecha a porta para um candidato à esquerda do petista.

Quem mais ameaça tomar a vaga do PSDB no segundo turno é o PMDB, pois tem o segundo maior número de spots publicitários na TV, atrás apenas do PT. Se fechar alianças com PSC e PTB, adotar um discurso crítico a Kassab, repisar a promessa descumprida por Serra de não abandonar a prefeitura e cativar o eleitorado religioso, Chalita pode se viabilizar no final. Hoje, porém, ele perde eleitores com a entrada do tucano.

São os spots, estúpido!

Por essas três razões, o nome do jogo é coligação. A primeira briga é por tempo de TV -especialmente pelas propagandas de 15 a 60 segundos distribuídas ao longo da programação. Elas são o principal trampolim para alcançar o eleitor a partir de 21 de agosto. É vital para PT, PSDB e PMDB o tempo de outros partidos, que vão cobrar caro pelo apoio. O leilão está aberto.

Quanto vale um spot de propaganda eleitoral na TV em São Paulo? Os spots são diários e variam de 15 a 60 segundos. Eles devem ser distribuídos em quantidades iguais em quatro faixas de horário, com diferentes audiências: das 8h ao meio-dia, do meio-dia às 18h, das 18h às 21h e das 21h à meia-noite. Vão ao ar em todos os canais. Na média, dá mais de R$ 250 mil por 30 segundos. São 45 dias de propaganda só no primeiro turno. Faça as contas.

 

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12.fevereiro.2012 21:57:16

Eleição quântica

O PSD kassabista tem poder de personagem de história em quadrinhos. Contamina os partidos do qual se aproxima com sua capacidade quântica, a de não estar em nenhuma e estar em todas as posições do espectro político simultaneamente. O alvo da vez é o PT.

Selada a parceria psdo-petista em São Paulo, a candidatura de Fernando Haddad se contorcionará para fazer uma campanha de oposição que defende a situação. Bom para Gilberto Kassab, cuja gestão aprovada por só 2 em cada 10 eleitores paulistanos terá de ser defendida pelo ex-futuro crítico -feito aliado por Lula.

Em troca de um apoio virtual da bancada federal do PSD ao governo Dilma, o prefeito paulistano ganhará espaço na propaganda eleitoral compulsória para lavar sua imagem. De quebra, Kassab ainda pode receber uma cadeira em Brasília para se encostar após a eleição.

Com tantos bônus, que é que custa enfrentar mais uma vaia de petistas durante a festa de aniversário do neo-aliado? Quase nada. Os apupos entraram por um ouvido e saíram pelo bolso, convertidos em moeda de troca para Kassab.

Parece uma barganha desigual. O PT troca tudo isso por um apoio parlamentar que, na prática, já tem. Afinal, boa parte dos deputados que se bandearam para o PSD o fez justamente por não ver muita vantagem em continuar militando na oposição.

Talvez haja outra variável no cálculo. Será que diante do apoio de Lula, Dilma Rousseff e do PT, o PSD ganha mais força junto à Justiça eleitoral? O partido tem uma ação em curso no TSE cuja vitória beneficiaria todas as siglas coligadas a ele nas próximas eleições -inclusive candidatos petistas.

A assessoria do Tribunal Superior Eleitoral defende o direito do recém-criado PSD de ter acesso ao dinheiro do Fundo Partidário e -melhor- ao tempo de propaganda eleitoral compulsória na proporção de sua bancada parlamentar. São minutos preciosos para Haddad numa eleição nivelada pelo desconhecimento dos candidatos junto à população.

O processo precisa ser julgado logo para valer nesta campanha. Quem não acredita na independência entre os Poderes pode desconfiar que a aliança psdo-petista pode ter a ver com o julgamento do caso. Céticos!

Nem tudo são votos favoráveis nessa aliança inusitada, todavia. Há o pequeno problema da opinião pública: 4 em 10 eleitores acham a gestão Kassab ruim ou péssima. E a rejeição ao manda-chuva do PSD beira os 60% entre os eleitores que manifestam espontaneamente intenção de votar num candidato petista.

O prefeito se dá nota 10, mas recebe nota 4,6 da população. Segundo o Datafolha, 46% não votariam no candidato apoiado por Kassab. O percentual chega a 59% entre petistas.

Kassab é um peso pesado que pode arrastar aliados para o fundo. Será especialmente difícil de carregar para Haddad, que ainda precisa convencer a militância petista de que ele é o cara. Curiosamente, o PT -ou melhor, Lula- escolheu Haddad justamente por ele não somar rejeição pessoal à rejeição partidária.

Após eleger Dilma, Lula deve apostar que, com bastante propaganda, pode transformar qualquer um em algo palatável. Até Kassab.

Os poderes quânticos do PSD também têm o efeito oposto, de transformar o indeciso PSDB num partido de oposição. A aliança Kassab-Haddad enfraquece pré-candidatos tucanos que vão melhor na base pró-kassabista, como Andrea Matarazzo, e ajuda os mais fortes entre os oposicionistas, como Bruno Covas. Coisa de história em quadrinhos.

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A presidente Dilma Rousseff exagerou mandando três ministros irem pessoalmente assistir às consequências do incêndio de uma favela no centro de São Paulo, na quinta-feira. O trio não sabia como ir nem o que fazer. Por sorte ou azar, nem os dois corpos da tragédia despertaram clamor nacional. Mas demostrar preocupação com fatos sensíveis à opinião pública é vital à popularidade de um governante. Melhor errar pelo excesso do que pela omissão.

A lição que a novata Dilma tenta aprender já foi um dos trunfos do agora veterano prefeito Gilberto Kassab. Logo que assumiu a Prefeitura de São Paulo, devido à renúncia de José Serra, o então neófito Kassab dava plantão ao lado do buraco do metrô que engoliu sete pessoas em 2007. Mesmo sem ser sua responsabilidade direta -a obra é estadual-, ele era sempre a autoridade mais disponível para dar entrevistas e satisfações. Matou a crise no peito e faturou com ela.

No começo deste ano, durante a inauguração da estação que desabou, Kassab foi vaiado. Por essa época, sua popularidade já afundava pelos subterrâneos. Entre um evento e outro, o prefeito deixou transparecer que dava menos importância à administração da caótica cidade do que à criação de mais um partido quântico -que não está no centro, nem na esquerda, tampouco na direita do espectro político, muito pelo contrário. Kassab esqueceu-se da própria lição.

Na quinta-feira, o prefeito foi pessoalmente ao local do incêndio. Nova vaia. A desaprovação ao seu governo está ainda mais profunda do que uma estação de metrô. As entrevistas ao lado do local da tragédia já não satisfazem. As aparências são só aparências. Está difícil para o prefeito escapar do buraco de impopularidade em que se meteu.

Já o exagero presidencial indica o quanto Dilma vai tentar influir na eleição paulistana no próximo ano. Para a mineira radicada gaúcha e famosa por sua passagem por Brasília, São Paulo é o centro estratégico da disputa eleitoral de 2012.

No Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, por exemplo, a corrida eleitoral tem favoritos aparentes, ambos aliados de Dilma (ao menos no papel). Hoje, esses pleitos prometem ser mais passeios eleitorais do que embates acirrados. Eleições assim despertam menos interesse da mídia e do público de fora da cidade. Vitórias dos favoritos não são conquistas, são obrigação.

É o oposto do que acontece em São Paulo. A eleição na maior cidade do País é o grande palco do embate entre o PT e a oposição federal -num cenário onde, pela primeira vez, todos os candidatos convivem na planície do semi-anonimato. Quem galgar um lugar no segundo turno já terá conquistado uma vitória. Com a liderança disputada voto a voto, promete ser uma eleição emocionante e chamar atenção além das fronteiras da cidade. Mas não é só isso.

Se perder mais uma vez nas urnas na capital paulista, o PT verá ofuscado o impacto de um eventual crescimento em outras metrópoles do País. Ganhar de volta o comando de São Paulo, após oito anos, teria um efeito simbólico único. Dilma conquistaria uma vitória que Lula não logrou em 2004 nem em 2008. Um candidato petista -a presidente, governador ou prefeito- não consegue maioria na cidade desde 2002, quando Lula chegou a 51% dos votos válidos.

Do lado do PSDB, o pleito também é vital. O pico de popularidade tucana na capital paulista foi em 2006, quando alcançou maioria absoluta para presidente (nos dois turnos) e governador (no 1º e único turno). Desde então a votação do partido na cidade teve altos e baixo: Serra ganhou de Dilma nos dois turnos em 2010, mas não alcançou o patamar de Geraldo Alckmin quatro anos antes; sem contar 2008, quando o PSDB, rachado, não chegou nem ao 2º turno.

Por enquanto, o lance mais ousado da oposição em São Paulo foi o movimento de Aécio Neves tentando aproximar o PSDB do PMDB. Na cidade, uma coligação dos dois partidos isolaria o PT e multiplicaria o tempo de TV para o candidato da chapa unificada. Em Brasília, criaria mais um embaraço para a dificultosa relação entre peemedebistas e petistas.

A articulação PSDB-PMDB em São Paulo é improvável, pois implicaria os tucanos abrirem mão de ter um candidato para serem vice de Gabriel Chalita. Mas está em linha com a tática de Aécio de minar as alianças eleitorais do PT, já visando 2014. De quebra, o senador mineiro cria um constrangimento para o rival Serra. O lance confunde ainda mais uma eleição na qual o PSDB está atrasado em relação ao PT, que ao menos já escolheu o seu candidato anônimo.

Por essas e outras, o pleito paulistano é a metonímia das eleições de 2012, a parte pelo todo.

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Deu no Ibope: paulistanos intensificam o uso de carros. Em 2010, só 13% declararam nunca usar automóvel -o ponto mais baixo de uma sequência sucessiva de quedas. Em 2007, eram 27% os sem-carro na cidade. O crescimento se intensificou nos últimos três anos, período que coincide com o aumento da venda de veículos e, para azar do prefeito Gilberto Kassab (sem partido), com o seu mandato.

Desde que o prefeito tomou posse, aumentaram tanto o uso frequente do carro em São Paulo (todo dia ou quase: de 21% para 26%) quanto o esporádico (de 23% para 36%). Não por acaso, a parcela de paulistanos que considera o trânsito um problema saltou de 35% para 43% nesse intervalo. É óbvio: mais carros nas ruas, mais congestionamentos; mais motoristas dirigindo, mais gente descontente com o trânsito parado.

Kassab deve achar que é coincidência ou má vontade da população, mas desde 2007 ele caiu de 41% de ótimo e bom em sua avaliação como prefeito para 41% de ruim e péssimo, segundo o Datafolha. Nisso que dá fomentar uma política baseada no transporte individual. Quanto mais avenidas se abrem, marginais de duplicam, rodoanéis se inauguram, mais carros vão para as ruas, só que numa proporção maior e mais frequente do que as novas pistas são capazes de suportar.

Seria injusto culpar apenas o prefeito por cavar a própria cova de popularidade. O boom de consumo de veículos foi provocado por medidas essencialmente federais: redução de impostos, aumento da renda e facilidade do crédito. O problema, para Kassab, é que o eleitor associa o ato da compra (positivo) ao governo federal, mas o fato de não conseguir usar o carro como gostaria (negativo) à prefeitura.

No limite, quanto mais carros vendidos, melhor para o presidente e pior para o prefeito. Sob esse aspecto, Kassab e os administradores de todos as metrópoles engarrafadas deveriam saudar o aumento do IPI para os carros importados. Mas não farão isso por achar que perderão votos -como se houvesse algo mais a perder.

Veja aqui a pesquisa do Ibope.

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Uma pesquisa a mais de um ano da eleição é apenas um indicativo do grau de conhecimento do eleitorado em relação aos pré-candidatos, e uma medida da simpatia ou antipatia que cada um deles desperta. Ou seja, o cenário de hoje não será o do dia da votação. Mas, feita essa ressalva, a pesquisa mostra tendências, dificuldades e, por si só, cria um fato político. A eles:

1. Gilberto Kassab vai precisar gastar muito, mas muito dinheiro público para ter uma influência positiva na sua sucessão. Se a eleição fosse hoje, o candidato do prefeito partiria de saldo negativo: para cada eleitor que diz que votaria no nome indicado por Kassab, dois dizem que fariam justamente o contrário, que não votariam nesse candidato – 15% de apoio contra 38% de rejeição.

2. A pesquisa joga uma balde de água fria nos que ainda tinham esperança de ver José Serra disputando a Prefeitura de São Paulo em 2012. Ficar à frente de todos os outros candidatos do PSDB é esperado, mas ficar 11 pontos atrás de Marta Suplicy (PT) -29% a 18%- é um resultado muito ruim para quem acabou de disputar a Presidência. Especialmente porque Serra tem uma rejeição alta, de 32% do eleitorado, equivalente à da petista, de 30%. Seria uma eleição arriscada demais para Serra. Apesar de já ter sido eleito prefeito uma vez, ele perdeu em três outras ocasiões. Uma quarta derrota seria a última e definitiva.

3. Ao colocar Marta Suplicy isolada na liderança, a pesquisa dá novo fôlego à pré-candidatura da senadora, que havia quase naufragado após o apoio público de Lula ao ministro da Educação, Fernando Haddad. Nos quatro cenários em que seu nome aparece na pesquisa, Marta lidera com entre 29% e 31%, enquanto o preferido de Lula não passa de 2%. Com Marta candidata do PT, a eleição iria para o cenário clássico: 1/3 de eleitores a favor dela, 1/3 contra e 1/3 de “independentes” decidindo a eleição.

4. Mas a pesquisa mostra que ninguém tem mais peso do que o ex-presidente na composição do quadro eleitoral. Lula (40% poderiam votar no seu candidato) é, teoricamente, mais influente em São Paulo do que o próprio PT, do que Dilma Rousseff (26%) e do que Geraldo Alckmin (27%), segundo o Datafolha. Essas perguntas impõem uma problemática ao eleitor sobre a qual ele não havia pensado e, por isso, as respostas não necessariamente se igualarão ao que o eleitor fará no dia da eleição. De qualquer modo, é significativo que 61% dos simpatizantes do PT digam que votariam no candidato de Lula a prefeito. É o único cacife de Haddad. Pode ser suficiente para ele ganhar a indicação petista, mas não o transforma em favorito na eleição geral.

5. A grande dispersão das intenções de voto, com nenhum candidato ultrapassando um terço dos eleitores, abre espaço para que um “desconhecido” chegue ao segundo turno -sim, porque é quase certo que a eleição terá dois turnos. Os “azarões” que melhor se saíram da pesquisa foram o do PP, Celso Russomanno (15% a 19% de intenção de voto versus 16% de rejeição), o do PDT, Paulinho da Força (6% a 11% versus 23% de rejeição), a do PPS, Soninha Francine (6% a 11% versus 18% de rejeição). Gabriel Chalita (PMDB) vai precisar de muito tempo de TV para sair do patamar de 3% a 5% de intenção de voto. Entre os nanicos tucanos, Bruno Covas mostrou que pode, eventualmente, se beneficiar do sobrenome do avô e se destacar dos demais.

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O número de assassinatos na cidade de São Paulo caiu 80% ao longo dos últimos nove anos. Segundo dados preliminares do Pro-Aim, um serviço da Secretaria Municipal da Saúde, os homicídios caíram de 6.683 em 2001 para 1.262 no ano passado.

A redução significa que pelo menos 30 mil vidas foram poupadas nesse período. Esse é o número de pessoas que teriam sido assassinadas a mais na década passada se a epidemia de violência não tivesse diminuído tão rapidamente.

Não há uma causa única que possa explicar um fenômeno dessa magnitude. Há três causas de fundo que, ao que tudo indica, estão entre as principais responsáveis pela redução.

A primeiro delas é demográfica: a população paulistana está envelhecendo, há cada vez menos jovens. E são os homens de 20 a 29 anos as principais vítimas e os principais autores dos assassinatos. Diminui a população de risco, cai a taxa de homicídio.

Como consequência, o peso das assassinatos de paulistanos com 50 anos ou mais mais do que dobrou ao longo dos últimos 15 anos. Não que mais veteranos estejam sendo mortos -o número absoluto diminuiu-, mas a queda foi muito mais acentuada entre os jovens.

O outro motivo é a implementação da política nacional de desarmamento. A queda das mortes violentas coincide com o começo da apreensão das armas. Um estudo acadêmico estima que um assassinato é evitado a cada 18 armas apreendidas.

Pode-se incluir entre as causas gerais o bom desempenho da economia ao longo da década passada, o que fez aumentar as oportunidades de emprego para os jovens -além do acesso ao crédito, que melhorou o padrão de consumo das fatias mais pobres da população.

Se essas causas se aplicam a toda a cidade (e ao país), questões específicas ajudam a compreender porque em alguns locais a taxa de assassinato caiu mais do que em outros. Entram nessa conta desde novos padrões de policiamento até a construção de mais e melhores equipamentos sociais, como escolas de período integral.

Isso vale, por exemplo, para o Jardim Ângela, que chegou a ser símbolo da violência na cidade, e hoje ostenta uma taxa de homicídio quase civilizada: 15 mortos para cada 100 mil habitantes. Ela chegou a ser de 111/100 mil em 2001.

Mas as diferenças entre bairros ricos e pobres persistem. O morador do Brás, um reduto popular próximo ao centro paulistano, corre um risco cinco vezes maior de ser assassinado que um morador de Moema, um bairro rico da zona sul.

É um problema que se estende a outras áreas centrais da cidade, como Sé e República. A explicação passa pela concentração de cortiços e pelo consumo e venda de drogas como o crack. E requerem ações policias específicas para resolver o problema. Desse a demografia não dará conta.

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A pesquisa Ibope sobre a relação dos moradores de São Paulo com sua cidade mostra algumas curiosidades e diferenças que dependem do bairro onde cada um vive e do seu nível de escolaridade.

• Quem mora em São Paulo e fez faculdade tem pelo menos 60% de chance de estar muito mais satisfeito com sua vida do que outros paulistanos com menor escolaridade.

• O morador de São Paulo que não estudou além da quarta série do ensino fundamental tem três vezes mais probabilidade de estar mais insatisfeito com sua vida do que os que passaram mais tempo na escola.

• Tem mais chances de estar insatisfeito quem mora na zona leste.

• Quanto mais na periferia da cidade alguém mora, menos essa pessoa acha que São Paulo está no caminho certo.

• Dois em cada três paulistanos aptos a votar acham que a saúde é uma área problemática da cidade. São 50% mais citações do que o segundo problema: violência associada ao consumo e tráfico de drogas.

• Não por coincidência, os programas municipais mais bem avaliados pela população são na área de saúde: mãe paulistana, distribuição gratuita de medicamentos e entrega de remédios na casa. Mais do que uma contradição, mostra uma demanda por serviços de saúde.

• Se drogas é problema de saúde pública, então a saúde é o grande problema da cidade. Se drogas são um problema de segurança pública, então deu empate na escolha do principal problema, entre saúde e segurança.

• A violência associada às drogas é um problema 50% maior para quem mora na zona sul do que para quem mora nas áreas mais ricas da cidade -a não ser que o morador viva no extremo da zona sul. Nesse caso, porém, seus problemas com transporte coletivo serão duas vezes e meia mais preocupantes do que os de seus vizinhos que moram mais perto do centro.

• O trânsito é duas vezes mais lembrado como problema de São Paulo pelos moradores do centro em comparação a quem mora na zona norte da cidade.

• O transporte coletivo é citado como problema da cidade três vezes mais por quem tem nível superior do que por quem só estou até a 4ª série do fundamental.

• O saldo de popularidade do prefeito Gilberto Kassab (DEM) é quase quatro vezes maior entre os eleitores que cursaram faculdade do que entre os que estudaram até o ensino médio.

• Kassab tem um ano e meio para fazer algo para melhorar a vida dos moradores da zona norte, e dos extremos das zonas sul e leste. Lá, seu saldo de aprovação é nulo ou insuficiente para influenciar positivamente a eleição de seu sucessor.

A pesquisa foi feita entre os dias 21 e 23 de dezembro, com 812 moradores da cidade de São Paulo com 16 anos ou mais de idade. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%.

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