José Roberto de Toledo - Estadao.com.br
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Pesquisa não elege ninguém. No máximo, ajuda ou atrapalha candidatos a levantar dinheiro, anima ou deprime seus cabos-eleitorais. Porém, gasta-se mais tempo discutindo o sexo das pesquisas do que analisando-se os erros induzidos pelo sistema de votação no Brasil.

A adoção do voto eletrônico aumentou drasticamente o acerto formal do eleitor nos últimos 12 anos. A urna informatizada ajudou milhões de brasileiros a concretizarem a intenção de sufragar seus candidatos, de todos os partidos.

(clique na imagem para ampliar)

O gráfico ilustra o momento em que os votos válidos para todos os cargos eletivos convergiram para valores muito próximos. Foi na eleição de 1998, quando a Justiça eleitoral implantou a urna eletrônica na grande maioria dos municípios brasileiros.

Até então, a dificuldade de escrever impedia grande parte do eleitorado de transformar seu desejo em marca legível na cédula. Isso ficava evidente nas eleições de deputado estadual e federal. À época, confundia-se problemas no manejo do lápis com voto de protesto.

Trocada a grafia pela digitação, instantaneamente despencaram as taxas de brancos e nulos, multiplicando os porcentuais de votos válidos para Câmara e Assembléia.

Em 2002, universalizou-se o voto eletrônico. Aumentaram os votos válidos para presidente, mas, surpreendentemente, eles ficaram aquém dos dados a deputados estaduais e federais. Não era mais motivo de comemoração, mas sinal de que havia algo errado.

É um sintoma de outro tipo de engano do eleitor, até hoje tratado com indiferença pela Justiça eleitoral e propositalmente ignorado pelo Congresso: o erro na sequência de votação.

Bombardeado por centenas de horas de propaganda na TV e no rádio, dezenas de manchetes de jornal, milhares de mensagens via internet, todas sobre eleição presidencial, o eleitor chega à urna e a primeira coisa que lhe pedem é votar para… deputado estadual.

A cena repetiu-se milhões de vezes. O eleitor sai da cabine e o mesário avisa que ele ainda não terminou. Ele diz que sim. O mesário explica: são seis votos, precisa digitar todos. Envergonhado diante da fila, o eleitor se livra dos votos restantes cada vez mais apressado. O último é para presidente.

Sabe-se que o erro na ordem de votação chegou aos sete dígitos no primeiro turno de 2010 por vários indícios. Todos apontam na mesma direção:

• Em comparação ao primeiro turno, houve menos 2,5 milhões de votos brancos e nulos no segundo turno presidencial. A queda entre turnos se repete desde 2002.

• Segundo o Ibope, 15% do eleitorado de Marina Silva e 33% do de Plínio Sampaio anularam ou votaram em branco no segundo turno.

• O número de votos brancos e nulos deveria ter crescido 45% com o acréscimo dos ex-eleitores do PV e do PSOL, que ficaram sem candidato. Mas caiu para 7 milhões.

• A votação de José Serra cresceu 10,6 milhões de um turno para outro. Disso, segundo o Ibope, 9,8 milhões vieram de Marina e 200 mil de Plínio. Faltam 600 mil votos.

• A votação de Dilma Rousseff cresceu 8,1 milhões. Desses, 6,5 milhões vieram de Marina e 200 mil de Plínio. Faltam 1,4 milhão de votos.

• Ao menos 2 milhões de eleitores que anularam ou votaram em branco no primeiro turno votaram em Dilma ou em Serra no segundo. Por que? Muito provavelmente porque se confundiram com a ordem esdrúxula de votação em 3 de outubro, mas não no turno final, quando votaram apenas uma ou duas vezes.

• Como a abstenção aumentou no segundo turno, eleitores que deixaram de votar podem também ter errado em 3 de outubro. Logo, mais de 2 milhões podem ter se enganado no primeiro turno na ordem de votos.

• Na única eleição “solteira” para presidente (1989), 94% dos votos foram válidos, recorde até hoje.

Há duas saídas: 1) inverter a ordem de votação e priorizar a de presidente; 2) “descasar” as eleições de presidente, senador e deputado federal das de governador e deputado estadual. Ambas as soluções dependem dos inventores da atual ordem de votação e do casamento das eleições.

Lembrete: não fosse a pesquisa do Ibope, seria quase impossível estimar os erros provocados pela ordem de votação.

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Dilma Rousseff (PT) venceu em 3.878 municípios brasileiros no segundo turno. José Serra (PSDB) venceu em 1.686. Em porcentagem: 70% a 30% para a petista. Como ela teve 56% dos votos válidos, a desproporção se explica pela maciça vitória de Dilma nas pequenas cidades (de todo o país, menos de São Paulo), e pelo equilíbrio dos dois nas cidades grandes e médias.

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Por que Serra não cobra Índio da Costa e o DEM como, implicitamente, fez com Aécio Neves (PSDB)? Diferença por diferença, foi praticamente igual no Rio de Janeiro e em Minas Gerais sua distância em relação a Dilma: 1,797 milhão de votos entre os mineiros contra 1,710 milhão entre os fluminenses. Proporcionalmente, a derrota no Rio foi maior.

A resposta tem a ver com o futuro e não com o passado.

Será curioso ver quem o PSDB preferirá seguir: um senador eleito de 50 anos que fez o governador do segundo maior colégio eleitoral do país, ou um candidato derrotado duas vezes a presidente, de 68 anos, que ficou sem cargo e terá que negociar espaço com uma liderança emergente (Geraldo Alckmin) em seu Estado natal.

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Se é para cobrar resultados de seus aliados mineiros, José Serra (PSDB) deveria dar um puxão de orelha também no senador eleito Itamar Franco (PPS). O tucano perdeu feio em Juiz de Fora, terra do ex-presidente: teve só 31% dos votos válidos, contra 69% de Dilma Rousseff (PT).

Aécio Neves (PSDB) pode ao menos argumentar que Serra venceu na terra de sua família, São João del Rei. Embora tenha sido por pouco: 52% a 48%.

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Comparados aos do primeiro turno, os percentuais de votos em branco no segundo turno foram menores em todas as regiões. Seria natural que o percentual aumentasse, já que havia menos opções de candidatos para os eleitores.

É mais um indicativo de que as seis votações seguidas na urna eletrônica atrapalham o eleitor e levam não poucos a anular ou votar em branco em vez de no candidato a presidente de sua preferência.

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No Nordeste, o percentual de votos nulos no segundo turno foi quase metade do que no primeiro turno (4,67% a 8,02%). A diminuição da taxa indica que pelo menos 1 milhão de eleitores nordestinos erraram o voto para presidente no primeiro turno, provavelmente por terem que votar seis vezes e numa ordem que deixa o voto presidencial por último. Congresso e Justiça eleitoral deveriam mudar a ordem esdrúxula de votação.

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Diferentemente do publicado anteriormente aqui, o percentual de acerto do Ibope no 2º turno foi de 90% e não de 100%. A margem de erro da pesquisa no Distrito Federal foi de 2 pontos percentuais, e não de 3 pontos, como na tabela abaixo. Assim, o resultado no DF ficou um ponto fora da margem de erro prevista. O vencedor teve 66% dos votos válidos, contra os 63% apontados pela pesquisa de véspera.

Foi um ponto só de diferença, mas, tecnicamente, está errado. Isso é suficiente para desacreditar a metodologia das pesquisas que acertaram todas as outras eleições dentro da margem?

O principal mérito das pesquisas é contar a história da eleição, os altos e baixos, as quedas e ascensões, a segmentação do eleitorado, suas preferências, suas mudanças de opinião. Nisso, tanto no primeiro turno quanto no segundo, a maioria das pesquisas contribuiu muito mais do que atrapalhou.

Sem as pesquisas do Ibope não teríamos ficado sabendo, por exemplo, que parte do eleitorado evangélico e depois católico saiu da canoa de Dilma Rousseff no fim do primeiro turno. Nem que retornaram na reta final do segundo turno. Teríamos assistido o PT correr atrás de bispos de todas as igrejas sem entender o motivo. A carta de Dilma descartando mudar a legislação que proíbe o aborto seria inexplicável.

As pesquisas de intenção de voto foram fundamentais para ajudar a contar a história desta eleição. Como uma margem de erro muito menor do que se dependêssemos exclusivamente das declarações dos políticos e candidatos.

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A eleição de Dilma Rousseff (PT) expressa o desejo do eleitor pela continuidade do atual governo. Com economia e consumo em alta, a maioria dos eleitores votou para não mudar. É também uma vitória rara na política brasileira: a de um projeto, e não a de uma pessoa física.

A nova presidente, ao contrário de seu antecessor, não é uma líder carismática com canal direto de comunicação com o eleitorado. Apontada pessoalmente por Luiz Inácio Lula da Silva para sucedê-lo, foi eleita exclusivamente pela transfusão de votos do atual presidente.

O PT entrou de carona no processo. Embora tenha sido importante para consolidar suas chances eleitorais no início da campanha, o partido não participou do processo decisório sobre a candidatura de Dilma. Foi uma decisão solitária do presidente.

As pesquisas Ibope mostram que Lula conseguiu transformar 4 em cada 5 fãs de seu governo em eleitores de Dilma. São aqueles que avaliam a atual administração como “ótima”. Além disso, o presidente conseguiu transferir para sua candidata metade dos que acham seu governo “bom”.

O cruzamento das pesquisas de véspera e dos resultados da urna indica que cerca de um terço desses votos veio de beneficiados pelos programas assistenciais do governo federal, principalmente o Bolsa Família. Mas a maior parte de quem votou em Dilma não recebe nenhum tipo de bolsa ou auxílio.

Esses eleitores optaram por Dilma porque a economia, de modo geral, vai bem. É a expansão da renda, do emprego e, especialmente, do crédito que alavancou eleitoralmente a candidatura da petista em Estados onde o Bolsa Família importa menos, como no Rio de Janeiro.

Isso foi fundamental também para evitar que José Serra (PSDB) abrisse uma vantagem muito grande em São Paulo e no Sul do país. O tucano conseguiu 2 milhões de votos a mais do que a rival no maior colégio eleitoral do país, que ele governou até abril. Em compensação, Dilma abriu 10 milhões de votos no Nordeste, por exemplo.

O desejo de continuidade que elegeu Dilma foi responsável também pela eleição da maioria dos governadores, de oposição e da situação, que tentaram voltar ao cargo. Da mesma maneira, a taxa de reeleição dos deputados federais foi muito alta: 70%.

No final, o consumo e economia pesaram mais do que as questões morais e religiosas. Para ter governabildidade, Dilma precisará ser capaz de manter o bolso dos eleitores como estão: cheios.

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O mapa abaixo mostra as vitórias de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) em cada município brasileiro, representados na proporção do peso de seu eleitorado. Cidades com mais eleitores aparecem maiores. Tons mais escuros indicam vitória por mais de 65% dos votos válidos.

Há uma equivalência das áreas vermelha e azul. Isso significa que, considerados os pesos dos colégios eleitorais, houve um equilíbrio entre os locais onde Dilma e Serra venceram. Então por que a petista ganhou com 12 milhões de votos de diferença?

Principalmente por causa da intensidade de sua vitória no Nordeste, representada pela ampla área pintada de vermelho escuro no mapa. Ou seja, nessa região, no norte de Minas Gerais e no Amazonas, Dilma teve pelo menos 2 votos para cada voto do tucano.

Serra, por sua vez, venceu por margens bem mais apertadas nos seus redutos. Isso fica evidenciado pela grande área azul claro do mapa, em comparação à relativamente pequena área azul escura. Essas se limitam a pequenas áreas do interior de São Paulo e do Paraná, principalmente.

Em outras palavras, Serra não conseguiu compensar no Sul e em São Paulo a vantagem que Dilma abriu no Nordeste, em Minas e no Rio de Janeiro.

(clique na imagem para interagir com o mapa)

Dos 10 principais colégios eleitorais do Brasil, Dilma venceu em 7. A maior diferença, em números absolutos, foi no Rio de Janeiro: 700 mil votos a mais do que Serra. O tucano abriu sua maior margem em São Paulo: 465 mil votos.

Proporcionalmente, a maior vantagem da petista entre esses grandes municípios foi em Manaus (500 mil votos, ou 79% dos votos válidos). Para o tucano, foi em Curitiba (270 mil votos, ou 64% dos válidos).

Dilma venceu ainda em Brasília, Salvador, Fortaleza e Recife. E Serra, em Porto Alegre.

O mapa distorcido evidencia que a vitória de Dilma no Nordeste não foi total. Serra ganhou em capitais como Maceió (AL) e Natal (RN), além de em cidades importantes, como Campina Grande (PB) e Vitória da Conquista (BA).

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Quanto maior o peso do Bolsa Família no município, maior a votação de Dilma Rousseff (PT). Para José Serra (PSDB), a correlação é rigorosamente oposta: mais famílias atendidas na cidade, menos votos para o tucano. Já para Marina Silva (PV), a regra não fez diferença na sua votação.

É o que se descobre ao se correlacionar a votação dos candidatos a presidente no primeiro turno com a proporção da famílias atendidas pelo programa federal de transferência de renda nos mesmos municípios.

Essa correlação positiva para Dilma tem implicações importantes para o segundo turno. A petista tem uma espécie de paraquedas eleitoral que lhe garante um patamar mínimo de votos, especialmente nas regiões onde o programa é mais importante para a economia local.

Em cerca de metade dos municípios brasileiros, o Bolsa Família atende pelo menos um terço das famílias, segundo dados do governo federal obtidos pelo repórter Daniel Bramatti.

Na soma desses municípios, Dilma obteve, no primeiro turno, nada menos do que dois terços dos votos válidos. Serra ficou com apenas 24%, e Marina, com 10%. Em 9 de cada 10 dessas cidades, Dilma teve mais de 50% dos votos válidos e seria eleita já no primeiro turno.

Para sorte de Serra, essas cidades têm um alto porcentual de atendimento pelo Bolsa Família porque suas populações não são muito grandes. Assim, esses 2.623 municípios somaram pouco menos de um quarto dos votos válidos para presidente no primeiro turno.

Se estendermos a análise para todo o País, veremos que a petista venceu o tucano em três quartos dos municípios brasileiros. Neles, o programa federal atende em média 40% das famílias. Já nas outras cidades onde ele teve mais votos do que ela, a média de atendimento é metade disso.

Mas seria um erro achar que Dilma só tem votos onde o Bolsa Família é forte. Ela é mais forte nessas cidades, mas seu eleitorado não é pequeno nas cidades onde o programa de transferência de renda é menos influente.

As 538 cidades onde menos de 10% das famílias são atendidas por bolsas federais responderam por pouco menos de um terço dos votos válidos no primeiro turno. Nelas, Serra bateu Dilma, mas por uma margem apertada; 12,4 milhões de votos, contra 12,1 milhões da petista.

Fazem parte desse grupo os maiores municípios brasileiros fora do Norte e Nordeste do País. E é neles que deve ser travada a batalha do segundo turno. Marina teve 7,7 milhões de votos nessas cidades. E são esses seus eleitores que decidirão quem será o próximo presidente.

Como mostrou o Datafolha, Dilma mantém uma vantagem folgada sobre Serra no Nordeste e no Norte na primeira pesquisa do segundo turno. Provavelmente porque a influência do Bolsa Família funciona como um piso mínimo de votação.

No Sul, Serra já aparece em vantagem no Datafolha. Logo, suas chances de virar estão concentradas no Sudeste, onde a eleição está mais parelha e onde o Bolsa Família influencia menos a eleição.

Para entender os gráficos

A correlação entre o porcentual de votos válidos da Dilma com o porcentual de alcance do Bolsa Família é muito forte: 0,749. O coeficiente de correlação varia de -1 a +1, quanto mais próximo das pontas, mais forte a correlação.

Uma correlação positiva, como a do voto em Dilma com o porcentual de atendimento do Bolsa Família, significa que as duas variáveis se movem na mesma direção: se uma sobe, a outra sobe junto. Ou seja, quanto mais pessoas recebendo bolsa, mais cresce o voto na petista.

A correlação não permite, porém, estabelecer uma relação de causa e efeito. Estatisticamente, não podemos dizer que é o Bolsa Família que faz aumentar o voto em Dilma ou vice-versa. Sempre pode haver uma terceira variável, não analisada, que seja a responsável pelas variações.

Há uma correlação negativa entre o voto em Serra e o alcance do programa. O coeficiente é forte: -0,678. Ou seja, quanto maior o atendimento pelas bolsas federais, menor o porcentual de votos válidos de Serra.

Mais uma vez, não se pode dizer que uma coisa provoca a outra. Pode ser, por exemplo, que o tucano vá naturalmente melhor entre os mais ricos, que não precisam do BF, e por isso a correlação seja negativa.

Finalmente, não há correlação, nem negativa nem positiva, entre o voto em Marina e o Bolsa Família. O que só reforça a ideia de que há outros fatores, não econômicos, que explicam esse voto, sejam eles morais ou relacionados à escolaridade do eleitor.

Nos gráficos, cada ponto representa um município. O posicionamento é dado pelo cruzamento do porcentual de alcance do Bolsa Família (eixo horizontal) com o porcentual de votos válidos de cada candidato (eixo vertical).

Quando há uma correlação forte, os pontos tendem a se agrupar em torno de uma linha de tendência. Os municípios mais próximos da linha apresentam uma correlação mais forte. Quando são muitos, formam uma mancha, que é a representação da regra, como nesse caso. E os pontos perdidos longe da linha são a exceção.

Exemplo de município que segue a regra: Ouro Branco (AL) tem 77% de alcance do Bolsa Família e deu 79% dos votos válidos para Dilma. Exemplo de municípios que fogem à regra: Herveiras (RS) tem apenas 16% de atendimento dá 85% dos votos válidos para Dilma. Essas são as exceções acima da linha de tendência, aquelas em que Dilma vai bem apesar de um baixo atendimento.

Exemplo do contrário é Roteiro, também em Alagoas, onde as bolsas atendem 77% das famílias e Dilma só teve 37% dos votos válidos.

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Aloysio Nunes (PSDB) terminou na ponta a eleição para senador em São Paulo por dois motivos: foi a primeira opção de tucanos e dos peemedebistas órfãos da candidatura de Orestes Quércia; e porque nada menos do que 8 em cada 10 de seus eleitores “esterilizaram” seu segundo voto.

Como eles fizeram isso? Metade votou em um candidato que aparecia muito atrás nas pesquisas e não ameaçava a vitória de Aloysio, como Ricardo Young (PV) ou Romeu Tuma (PTB). E 27% simplesmente anularam ou votaram em branco.

O leitor deve estar se perguntado como é possível saber tudo isso, se o voto é secreto. Pelo cruzamento da pesquisa de boca-de-urna do Ibope com o resultado da votação. Na saída da seção, o entrevistado dizia em quem tinha votado para senador, e em qual ordem.

Combinando-se as duas informações, é possível estimar que dos 11,2 milhões de votos obtidos pelo candidato tucano, cerca de 9,4 milhões foram a primeira opção do eleitor. O restante veio de segundos votos de eleitores de Romeu Tuma (PTB), por exemplo.

Ou seja: mesmo que não tivesse sido a segunda opção de mais ninguém, Aloysio teria sido eleito na frente de Marta Suplicy (PT), que recebeu 8,3 milhões de votos e ficou com a segunda vaga paulista no Senado. Isso em tese.

Porque se mais eleitores seus tivessem feito uma dobradinha informal com Marta e/ou Netinho, o tucano poderia não ter tido o mesmo sucesso. Juntos, a candidata do PT e o do PC do B receberam cerca de 2 milhões de votos de eleitores que primeiro votaram em Aloysio.

O número absoluto impressiona, mas representa pouco mais de 20% do eleitorado do tucano. É tanto quanto o desconhecido Ricardo Young recebeu de outros eleitores de Aloysio, e menos do que os que anularam ou votaram em branco após sufragar o candidato do PSDB.

Esses dois segundos votos denotam uma estratégia deliberada do eleitorado tucano. Após Quércia abandonar a disputa por problemas de saúde, uma grande parte desses eleitores se viu sem uma dobradinha. Nas pesquisas, citavam apenas Aloysio.

Deixaram para decidir o que fazer com o segundo voto praticamente na urna e privilegiaram uma tática que minimizava o risco de seu candidato principal ficar de fora do Senado. Se a maioria dos eleitores de Aloysio tivesse votado também em Netinho, o cantor teria sido eleito.

Dois em cada três dos 7,8 milhões de votos recebidos pelo candidato do PC do B foram segundos votos: 78% deles vieram dos eleitores de Marta. Praticamente todo o resto saiu dos dedos de eleitores “distraídos” de Aloysio.

Marta, por sua vez, foi a primeira opção de 5,7 milhões de eleitores, cerca de 70% do seu total de votos. Ela formou com Netinho a dobradinha mais popular da eleição para o Senado em São Paulo, o duplo-voto de 16% dos paulistas que foram às urnas.

Os eleitores da candidata do PT foram mais fiéis à aliança com Netinho do que os do cantor foram com Marta. Mesmo assim, ela ficou com a segunda vaga por ter o dobro de primeiros votos do que o candidato do PC do B.

Mais surpreendente do que a atropelada de Aloysio na reta final da corrida para o Senado foi a votação de Ricardo Young. Ele teve quase 150 mil votos a mais do que Tuma, que, mesmo hospitalizado com graves problemas cardíacos, concorria à reeleição.

Dos 4,1 milhões de votos de Young, 30% foram primeiros votos e podem ser atribuídos ao “efeito Marina Silva”: eleitores da presidenciável do PV que votaram verde do começo ao fim. Mas a maioria veio do segundo voto de eleitores de Aloysio.

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Compare a projeção do Ibope publicada aqui no dia da eleição com as bancadas eleitas pelos partidos.


As fatias pintadas de vermelho indicam os partidos que compõem a coligação de apoio a Dilma Rousseff (PT). Eles compõem mais de 60% dos votos da nova Câmara.
As fatias azuis representam os partidos que apóiam José Serra (PSDB) para presidente. São 26,5%.
As fatias verdes são dos partidos independentes.

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Dos 513 deputados federais eleitos para a próxima legislatura, apenas 35 chegaram lá exclusivamente pelo desejo de seus eleitores. Olhando-se o copo meio vazio: 93% da nova Câmara será composta por parlamentares que precisaram de votos alheios para se eleger.

É fruto do sistema eleitoral brasileiro: os candidatos derrotados e os votos na legenda do partido são canalizados para a eleição dos mais bem colocados na chapa partidária ou da coligação. O eleitor vota em fulano, mas ajuda a eleger sicrano -às vezes do partido rival.

Em 11 estados, nenhum deputado se elegeu às próprias custas. No Amapá, apesar de um dos quocientes eleitorais mais baixos do país, ninguém alcançou o mínimo de 39,4 mil votos. Os 8 eleitos precisaram “emprestar” votos de seus companheiros de chapa. Resultado: 60% dos eleitores amapaenses ficaram sem representante na Câmara dos Deputados.

Em São Paulo, apenas dois deputados federais, Tiririca (PR) e Gabriel Chalita (PSB), ultrapassaram o quociente eleitoral de 304 mil votos e ajudaram outros a se eleger com suas sobras. Os outros 68 representantes paulistas irão a Brasília na garupa.

Outra consequência desse sistema é que 38 milhões de eleitores brasileiros ficaram sem representação direta no Congresso. Ou seja, os eleitos representam apenas 61% do eleitorado que foi às urnas e votou em um candidato a deputado ou na legenda de um partido.

Os defensores do sistema de listas dizem que assim é melhor, pois todos os eleitores de coligações ou partidos que conseguiram eleger deputados estão, mesmo que indiretamente, representados na Câmara. Na prática, a teoria é outra.

O eleitor de Adamantina (SP), por exemplo, não deve concordar com a tese. Afinal, nenhum dos três deputados federais mais votados no município foi eleito. O prefeito terá que apelar a um parlamentar que teve mais votos em outras cidades para ter suas reivindicações ouvidas em Brasília.
(clique na imagem para ampliar)

O que os dez maiores colégios eleitorais paulistas têm em comum? Além de Tiririca entre os cinco deputados federais mais votados, essas cidades elegeram “vereadores federais”. São ex-prefeitos (ou candidatos a prefeito derrotados), seus parentes ou lideranças locais que concentram sua votação num município e adjacências.

A regra se aplica a todos os partidos. São os casos do tucano Emanuel Fernandes em São José dos Campos e da petista Janete Pietá em Guarulhos; ou de Vicentinho (PT) e Dib (PSDB) em São Bernardo do Campo. E ainda de Jonas Donizete (PSB) e Carlos Sampaio (PSDB) em Campinas.

Cada vez há menos puxadores de votos que se destacam pela defesa de um tema ou que atravessam as barreiras geográficas por sua celebridade e conquistam grandes quantidades de eleitores em lugares distantes e diferenciados. Na próxima bancada paulista, com esse perfil, há Tiririca e Chalita.

O problema dessa distritalização de facto do voto é que largas áreas de território ficam sem representação na Câmara. Em países que adotam o voto distrital isso não ocorre, porque as disputas se dão entre candidatos do mesmo distrito. E os distritos cobrem todo o País.

Oitavo maior colégio eleitoral paulista, Sorocaba dispersou seus eleitores entre vários candidatos regionais, com os ex-prefeitos Renato Amary e Pannunzio (ambos do PSDB) e um filho de ex-prefeito (Crespo, do DEM). Acabou não elegendo nenhum deles. Vai ter que contar com Tiririca, o quarto mais votado no município, para ter voz em Brasília.

Mas o principal problema de representação do sistema eleitoral brasileiro é outro. De tão recorrente, deixou de ser notícia. No último domingo, o voto de um paulista registrado em Roraima teve peso 11 vezes maior do que o de um roraimense registrado em São Paulo, na eleição para a Câmara.

Essa foi a diferença entre o quociente eleitoral do maior e do menor colégio eleitoral. Mas a desproporção ocorre entre Estados de todas as regiões: um deputado potiguar representa cinco vezes mais eleitores que um do Acre, um mineiro representa duas vezes mais eleitores do que um tocantinense.

Em resumo, pelo atual sistema eleitoral brasileiro, um eleitor pode valer até 11 vezes mais do que o outro, as listas privilegiam celebridades apolíticas como Tiririca e a distritalização de facto deixa grandes áreas do território sem representação parlamentar na Câmara.

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Deputado federais mais votados nas 10 cidades com maiores colégios eleitorais do Estado de São Paulo:

Cidade de São Paulo: Tiririca (PR), Luiza Erundina (PSB), Jilmar Tatto (PT), Ota (PSB) e Gabriel Chalita (PSB).

Guarulhos: Janete Pietá (PT), Carlos Roberto (PSDB-suplente), Tiririca (PR), Jovino Candido (PV-suplente), Jorge Tadeu (DEM).

Campinas: Jonas Donizete (PSB), Carlos Sampaio (PSDB), Tiririca (PR), Renato Simões (PT-suplente), Carlos Henrique (PDT-suplente).

São Bernardo do Campo: Vicentinho (PT), Dib (PSDB), Tiririca (PR), Chalita (PSB), Mauricio Soares Jr (PDT-suplente).

Osasco: João Paulo Cunha (PT), Bruna Furlan (PSDB), Toniolo (PRB – não-eleito), Tiririca (PR), Dr. André Sacco (PSDB-suplente).

Santo André: Vanderlei Siraque (PT), Tiririca (PR), Ota (PSB), Gabriel Chalita (PSB) e Dib (PSDB).

São José dos Campos:Emanuel Fernandes (PSDB), Carlinhos Almeida (PT), Gabriel Chalita (PSB), Tiririca (PR) e Valdir Alvarenga (PSB-suplente).

Sorocaba: Renato Amary (PSDB-suplente), Iara Bernardi (PT-suplente), Pannunzio (PSDB-suplente), Tiririca (PR) e Crespo (DEM-suplente).

Ribeirão Preto: Duarte Nogueira (PSDB), Léo Oliveira (PMDB-suplente), Fernando Chiarelli (PDT-suplente), Tiririca (PR) e Gilberto Abreu (PV-suplente).

Santos: Cascione (DEM-suplente), Maria Lucia Prandi (PT-suplente), Márcio França (PSB), Tiririca (PR) e Raul Christiano (PSDB-suplente).

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No Senado, saem as duas vozes mais altas e estridentes do PSDB: Arthur Virgílio (AM) e Tasso Jereissati (CE). A maior bancada tucana da Câmara, a paulista, não consegue reeleger metade de seus 16 componentes (apesar de tentar), e emagrece para 13 membros. No total, o partido perde três cadeiras.

Esses dois sinais deveriam servir de alerta para a cúpula do PSDB de que passou da hora de promover uma renovação no partido, antes que os eleitores o façam. Na verdade, já começaram. Aécio Neves (MG) e Beto Richa (PR) são as caras novas tucanas (por comparação e por idade) que emergem das urnas.

Aos 50 anos, o ex-governador de Minas Gerais elegeu-se senador com tranquilidade e chegará a Brasília com uma bancada de 8 deputados federais, dois a mais do que bancada mineira atual. De quebra, fez a lição de casa e elegeu seu sucessor, Antonio Anastasia, ainda no primeiro turno.

Richa tem 45 anos, foi prefeito de Curitiba, e chega agora ao governo do Paraná, eleito no primeiro turno. No plano federal, tem menos peso do que Aécio: sua bancada na Câmara terá apenas três deputados, e as duas vagas no Senado foram conquistadas por seus opositores.

Governador de São Paulo pela terceira vez, Geraldo Alckmin, aos 58 anos, representa uma geração de transição dos tucanos. Teve sua chance de disputar a Presidência e perdeu para Lula. É menos opção de poder para 2014 do que Serra (se este vencer Dilma Rousseff no segundo turno) ou Aécio.

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