José Roberto de Toledo - Estadao.com.br
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29.abril.2012 18:39:16

Brasília e seu quintal

Que o Distrito Federal é uma ilha da fantasia, sempre se desconfiou. Mas os “Resultados gerais da amostra do Censo 2010″, divulgados nesta sexta-feira pelo IBGE, transformam a suspeita em constatação oficial. O rendimento médio nominal dos domicílios brasilienses é mais do que o dobro do Brasil. A renda média de Brasília é R$ 5.663. A do Brasil, R$ 2.653.

A desproporção da riqueza da capital brasileira é um caso único, não importa a referência. Em comparação a São Paulo, cujos moradores estão em segundo lugar no ranking de renda do país, o Distrito Federal tem um rendimento médio 63% maior -com a diferença de que Brasília só produz leis, decretos e sentenças. Pior, a renda dos brasilienses é, em média, quase três vezes maior do que a dos maranhenses, donos do rendimento mais baixo do Brasil.

Essa disparidade da riqueza dos moradores da capital federal em relação ao resto do país é incomparável em termos internacionais. Distrito federal norte-americano, Washington DC também foi fundado para ser capital da República e ocupa uma área restrita. Sua renda domiciliar é 13% maior do que a dos Estados Unidos. No Brasil, a desproporção é de 113%. Por comparação, Brasília tem 100 pontos porcentuais de renda a mais do que o país que a circunda. Quais as razões de tanto exotismo?

O principal motivo é que em Brasília os funcionários mais bem remunerados definem seus próprios salários. E estes servem de referência para quem está abaixo na hierarquia funcional. Essa regra provoca uma -digamos- cachoeira para o resto do funcionalismo. Como os servidores do topo da carreira de cada Poder são generosos com sua própria remuneração, o efeito riqueza se espalha para boa parte dos domicílios brasilienses.

Tanto é assim que o valor dos imóveis na capital varia em função da política salarial do governo de plantão. Quando o funcionalismo tem seus rendimentos reajustados, os preços das casas e apartamentos sobem junto.

Alguém pode argumentar que é injusto comparar uma cidade-estado, como Brasília, com as demais unidades da Federação, que têm  áreas muito maiores e disparidades regionais muito mais acentuadas. Pois consideradas apenas as cidades brasileiras e os salários de quem tem emprego formal, Brasília fica em 5º lugar entre 5.565 municípios. Só perde para quatro cidades onde unidades da Petrobras, a maior empresa estatal, são responsáveis por grande parte dos empregos.

A segunda razão para Brasília ter uma renda média tão mais alta do que o resto do país é que a capital federal exportou seus pobres. Eles vivem no chamado entorno brasiliense, em cidades como Águas Lindas de Goiás. O salário médio dos brasilenses é 3 vezes e meia maior do que o dos vizinhos goianos menos afortunados. Isso faz a média brasiliense se elevar, pois não computa a base de sua própria pirâmide econômica. 

É uma síntese do comportamento do centro do poder no Brasil: pega e paga o que quer, e descarta o resto no quintal do vizinho.

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Grandes números

* O IBGE identificou 6.329 aglomerados subnormais, onde estão 5,6% dos domicílios e onde vive 6% da população brasileira.

* Aglomerado subnormal: + de 50 habitações, carentes de serviços essenciais, ocupando desordenada e densamente terreno de propriedade alheia.

* 323 municípios brasileiros têm favelas, grotas, palafitas, invasões, mocambos, ou o nome local que se use para aglomerados subnormais.

* O Brasil tem um Portugal de favelados: 11,4 milhões de pessoas.

 

Os favelados

* Há duas vezes mais chances de um brasileiro negro ser favelado do que um branco.

* Dois em cada três favelados são negros.

* A taxa de analfabetismo da população favelada é 55% maior do que a da população urbana não-favelada.

* A taxa de analfabetismo da população favelada é 31% menor do que a da população rural.

* O rendimento mediano da população favelada é 27,5% menor, em média, do que o da população urbana não favelada.

* O rendimento mediano da população favelada é 3 vezes maior, em média, do que o da população rural.

* Nas favelas brasileiras, 79% dos moradores vivem com uma renda mensal per capita de até 1 salário mínimo.

* A proporção de favelados vivendo com até 1 salário mínimo é 55% mais alta do que na população urbana não-favelada.

* A população brasileira favelada é, proporcionalmente, mais jovem do que a não-favelada.

 

Distribuição regional

* Há mais favelados no Sudeste do que no Norte e no Nordeste somados.

* A favelização é mais grave no Norte (12% da população), no Sudeste (7%) e no Nordeste (6%) do que no Sul (2%) e Centro-Oeste (1,5%).

* Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo reúnem metade dos brasileiros vivendo em favelas.

* 1 em cada 4 favelados brasileiros mora no estado de São Paulo.

* O Pará é o estado com maior taxa de população favelada: 17,4%, ou 1,267 milhão de pessoas.

* Goiás tem a menor proporção de favelados pelos critérios do IBGE: só 0,1% da população, ou 8.823 pessoas -metade, por causa de Brasília.

 

A favelização das metrópoles

* Destino de sucessivas ondas migratórias, as regiões metropolitanas concentram a maioria da população favelada brasileira.

* Apenas três regiões metropolitanas concentram quase metade (44%) dos domicílios favelados do Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro e Belém.

* Na maior parte das vezes, o município que é o núcleo da região metropolitana concentra a maioria da população favelada.

* Na Região Metropolitana de Salvador, 95% dos domicílios favelados estão na própria capital. Na Grande Natal (RN), 100%.

* As únicas regiões metropolitanas onde a maioria da população favelada mora nas cidades do entorno são Baixada Santista, Vitória e Recife.

* A metrópole com maior proporção de moradores vivendo em favelas é a Grande Belém: 54% da população.

* A metrópole com mais gente morando em favelas é a Grande São Paulo: 2,162 milhões de pessoas, ou 11% da população.

* Quanto maior e mais densa, pior tende a ser a qualidade de vida na favela, principalmente pela dificuldade de circulação do ar.

* 88% dos domicílios localizados em favelas estão em regiões metropolitanas com mais de 1 milhão de habitantes.

 

O ranking das cidades

* Se as favelas estivessem reunidas em um só lugar, formariam a maior cidade brasileira -maior até do que São Paulo.

* O Rio de Janeiro é a cidade com maior população favelada do Brasil: 1,393 milhão de pessoas, vivendo em 763 aglomerados subnormais.

* A taxa de favelização carioca, de 22%, é o dobro da de São Paulo, que tem 1,280 milhão de favelados, ou 11% de sua população.

* A cidade com maior proporção de favelados no Brasil é Marituba, na Grande Belém (PA): 77 em cada 100 moradores.

* A maior proporção de população favelada entre as cidades paulistas está em Cubatão, na Baixada Santista: 42%, ou 49 mil pessoas.

* A população favelada da cidade do Rio de Janeiro forma, sozinha, a 11ª cidade brasileira, à frente de Belém.

* Em Belém (PA), 9 em cada 10 favelas têm mais de mil domicílios.

* Nenhuma outra cidade paulista é mais populosa do que a soma dos moradores das 1.020 favelas paulistanas.

* Em regra, as favelas paulistanas diferem muito das do Rio de Janeiro por serem menores, dispersas e periféricas.

* A maior predominância de favelas é em cidades costeiras ou ribeirinhas.

* Os barracos mais apinhados estão no Norte. Em três cidades, a média supera 6 pessoas por domicílio: Amapá, Guajará e Santo Antonio do Içá.

 

O ranking das favelas

* A Rocinha, no Rio de Janeiro, é a maior favela do Brasil, com 69.161 moradores. Seria a 35ª mais populosa cidade fluminense. Tem UPP.

* A 2ª maior favela do Brasil fica em Brasília. Com 56.483 moradores, é a Sol Nascente, junto à cidade-satélite de Ceilândia.

* Como em Brasília tudo vira sigla, a favela é oficialmente chamada de ARIS (área de regularização de interesse social) Sol Nascente.

* A 3ª maior favela do Brasil fica também no Rio: é a Rio das Pedras, entre a Barra da Tijuca e Jacarepaguá. Tem 54.793 moradores e milícia.

* Com 42.826 moradores, Paraisópolis é a maior favela paulistana, pelos critérios do IBGE. Estaria em 146º entre 645 cidades paulistas.

* Se fosse somada às favelas adjacentes (Panorama 1 e 2), Paraisópolis ultrapassaria 55 mil moradores e seria a 114ª cidade paulista.

 

Desmistificando a favela

* Viver em favela significa ter energia elétrica (99,7% dos domicílios), água encanada (88%), esgoto adequado (67%) e coleta de lixo (95%).

* Apenas 1% dos domicílios em favelas no Brasil não tem banheiro ou sanitário.

* Apesar dos problemas urbanísticos, pobreza e violência, moradores de favelas têm mais saneamento e eletricidade do que muitas áreas rurais.

* Em 599 favelas (9,5%), todas as habitações têm todos os serviços essenciais: água encanada, esgoto ou fossa séptica, lixo recolhido e luz.

* Em Campo Belo (MG), Nova Friburgo (RJ), Martinópolis (SP), Tabatinga (SP) e Jataizinho (PR) todos os favelados têm 100% de serviços.

Leia reportagem do Estado sobre as favelas brasileiras.

Interaja com o infográfico.

Assista ao vídeo.

Todas as informações acima foram extraídas do relatório do IBGE sobre o Censo 2010 chamado “Aglomerados subnormais – primeiro resultados”, divulgado nesta quarta-feira.

 

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28.novembro.2011 04:41:55

Capitais do Censo

Ao radiografar o Brasil, o Censo 2010 expõe o que distingue uma localidade da outra. No amontoado de tabelas e mapas escondem-se milhares de histórias humanas inusitadas. Muitas se passam em cidades longe ou pequenas demais para serem notadas; outras, bem debaixo de nossos narizes metropolitanos. A seguir, o primeiro parágrafo de uma dúzia delas.

Herval, no Rio Grande do Sul, é a capital brasileira da solidão: 26,6% de suas unidades domésticas são unipessoais. Traduzindo do ibegêes: 1 em cada 4 casas só tem um morador.

Careiro da Várzea, no Amazonas, é a capital rural do Brasil. Está a apenas 25 quilômetros de Manaus, mas tem a maior proporção de moradores vivendo fora da área urbana (95,8%), em comunidades com nomes de santos, de nossa senhora ou do espírito santo. Distância é algo relativo. O município é vizinho da capital, mas tem o maior rio do mundo a ligá-los e a separá-los.

Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, é a capital brasileira da desigualdade na riqueza. Seus ricos são mais ricos. Os parnaibanos que ocupam os 25% do topo da pirâmide de renda do município ganham mais do que todos os seus pares no resto dos municípios do País: R$ 3.993 por mês. E a renda deles é 14 vezes maior do que a dos 25% de parnaibanos mais pobres. As extremidades da pirâmide estão separadas por um muro ostensivo, de um condomínio fechado, e por outros menos visíveis, como o educacional.

Uiramutã, em Roraima, é a capital brasileira da desigualdade na pobreza. Os uiramutenses mais ricos têm renda 26 vezes maior do que os uiramutenses mais pobres. É a maior diferença proporcional do país. Chamá-los de ricos, porém, é exagero: vivem com R$ 518 por mês. Mas os 25% mais pobres sobrevivem com apenas R$ 20, menos de R$ 1 por dia. Financeiramente, são os mais miseráveis do Brasil. Quase todos moram em tribos indígenas. Muitos nem usam moeda.

Marajá do Sena, no Maranhão, tem a maior proporção de domicílios com saneamento inadequado do País: 85,2%. É a capital brasileira da falta de água encanada, de esgoto e de coleta de lixo -tudo ao mesmo tempo agora. A maior parte joga o lixo em terreno baldio, ou queima. Duas em cada três casas não têm sanitário exclusivo dos moradores. A água é de poço ou bica.

Westfalia, no Rio Grande do Sul, tem os pobres mais ricos do Brasil. A renda média dos 25% da parte de baixo da pirâmide chega a R$ 573 por mês. Seus conterrâneos do andar de cima vivem com uma renda apenas 2,5 vezes maior. É um terço da desigualdade média brasileira.

• Na planilha, a paulista Balbinos tem dois títulos nacionais: a maior taxa de crescimento populacional da década passada, e a maior proporção de homens no total da população: 81%. Mas ambos são consequência da recente instalação de duas penitenciárias, para onde foram levados mais detentos do que há balbinenses no resto do município.

• História semelhante à de Balbinos aconteceu em Pracinha, Lavínia, Iaras, Reginópolis, Álvaro de Carvalho, Marabá Paulista, Guareí, Serra Azul, Itirapina e Pacaembu. As dez foram alvo da política de distribuição penitenciária do governo paulista. Se os presos todos pudessem votar nessas cidades teriam grande chance de eleger o prefeito local -um novo paradigma ético da política brasileira.

Niterói, no Rio de Janeiro, tem potencial para ser a capital brasileira do golpe do baú. Lá vivem as mulheres mais afluentes do Brasil, na média. A renda mensal delas chega a R$ 2.176 por mês. Mas o golpe do baú pode ser também no sentido oposto: os niteroienses ganham, em média, 50% mais do que suas caras-metade.

Lajeado Grande, em Santa Catarina, é a capital da desigualdade financeira entre os sexos. Os lajeado grandenses ganham, em média, 3 vezes mais do que as conterrâneas do gênero feminino: R$ 2.411 a R$ 800.

• O município brasileiro onde sobram proporcionalmente mais homens livres (e fora do presídio) é Tapurah, no Mato Grosso. A população masculina é 40% maior do que a feminina. O desequilíbrio se concentra na área rural, ao norte da cidade. Lá, há 8 vezes mais jovens de 15 a 30 anos -que moram em domicílios coletivos cedidos por seus patrões, em sítios e fazendas- do que garotas da mesma idade.

• A cidade onde há excedente proporcionalmente maior de mulheres é Santos (SP): 19% a mais do que homens. O problema começa aos 20 anos e se agrava -muito- com o passar do tempo. Na idade fértil, dos 15 aos 49 anos, a defasagem é de 12%. Mas a partir de 60 anos, há 62% mais mulheres do que homens.

Pensando bem, Santos e Tapurah disputam com Herval o título de capital da solidão.

 

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25.julho.2011 12:01:24

Dilma e a inflação

No encontro com colunistas de jornais na sexta-feira, a presidente Dilma Rousseff deixou subentendido que pretende controlar a inflação “pero no mucho”. A alta de preços não pode ultrapassar 6% ao ano, mas, para não comprometer o crescimento da economia, o governo não fará força para trazê-la para o centro da meta, de 4,5%. É um jogo arriscado.

Em primeiro lugar, porque o governo não controla todas as variáveis. Entre as causas que, a seu ver, pressionam a inflação, a presidente citou o preço do etanol, para dizer que o problema está “minimizado”. Se está, é por pouco tempo. Vai haver quebra da safra de cana este ano e, provavelmente, no próximo. O preço do etanol vai voltar a subir.

Além disso, a inflação é um jogo de expectativas. Como todo jogo, em boa parte seu desfecho está nas mãos do acaso. Operar no limite é dar margem para o azar.

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18.julho.2011 13:33:45

Vindas e voltas

“E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. (…) Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos”.

Em 1938, Graciliano Ramos vaticinava o destino de milhões de nordestinos nas décadas seguintes. A cíclica busca da sobrevivência em outra parte. Em 1963, Nelson Pereira dos Santos filmava Vidas secas no auge das migrações do Nordeste para o Sudeste. A essa altura, um menino fugido do agreste pernambucano aprendera coisas necessárias no Senai em São Paulo. A geração de Luiz Inácio Lula da Silva ajudaria a quebrar o ciclo.

O que foi sina para Fabiano/Aristides Inácio da Silva e Sinhá Vitória/Eurídice Ferreira, é história para seus netos. O saldo migratório do Nordeste para o Sudeste na década passada foi quase nulo: cerca de 50 mil pessoas. Se 992 mil nordestinos vieram, 940 mil voltaram para seus estados de origem desde São Paulo e Rio de Janeiro, principalmente. A principal causa dessa reversão é a diminuição das desigualdades regionais.

Enquanto o Sudeste saturou e ficou menos atraente, a economia do Nordeste cresceu acima da média nacional, tornando a região menos inóspita. A valorização do salário mínimo e a distribuição de renda -iniciadas no governo Fernando Henrique Cardoso e ampliadas no de Lula- garantiram a sobrevivência de quem antes só tinha alternativa na arribação. As cidades grandes do sul perderam vigor para prover emprego e realizar sonhos, de tão cheias de pessoas. No fim das contas, o sertão parou de mandar gente.

Se 11 milhões de nordestinos permanecem em terra desconhecida, sua proporção entre moradores de Sudeste é cadente, nem 9%. Emigrar menos é uma tendência nacional. Cada vez mais nativos compõem a população dos estados onde nasceram: de 49% de brasilienses no Distrito Federal a 96% de gaúchos no Rio Grande do Sul. Em quase todos os estados, a fatia de forasteiros é menor do que 10 anos atrás.

Entre as raras exceções, os paulistas em Santa Catarina pularam de 1,2% para 1,9% da população catarinense entre 2001 e 2009. Já somam 116 mil, ou 50 mil a mais do que há 10 anos. Esses novos bandeirantes não buscam índios guaranis como seus antepassados, mas qualidade de vida (por ironia, sua presença interfere negativamente na própria meta, ao inflacionar os preços locais).

Do mesmo modo como as comunidades de migrantes ajudaram a fixar novos baianos, pernambucanos e alagoanos em São Paulo, as redes sociais de conterrâneos atraem paulistas para solo catarinense. Amigos, parentes e conhecidos dão suporte uns aos outros e ajudam na transição.

Os 2,7 milhões de paulistas longe de São Paulo são responsáveis pelas maiores colônias de forasteiros em cinco estados: Ceará, Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná. Nisso, só encontram rivais nos mineiros. Os 4,4 milhões de nativos das Gerais que moram fora de Minas formam as maiores comunidades exóticas de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Distrito Federal e Goiás.

Entre emigrantes e imigrantes, o Sudeste perdeu 228 mil pessoas na década passada. De hospitaleira, a região passou a exportadora de gente. Fora a migração de retorno dos nordestinos, os principais destinos dos “exportados” foram o Sul (dos paulistas para Santa Catarina a paranaenses repatriados) e o Centro-Oeste.

Embora tenham perdido parte de seu magnetismo demográfico, as fronteiras agrícolas de Goiás e Mato Grosso e o entorno de Brasília ainda atraem muitos imigrantes inter-regionais. O Norte reverteu sua tradição de atrator de migrantes e perdeu mais gente do que recebeu na segunda metade da dácada passada. Pode ajudar a conter a devastação da Amazônia.

A redução da migração interna é uma oportunidade. Com mais igualdade de renda, novas gerações têm melhores chances de sucesso naquilo que a de Lula não conseguiu: diminuir também a disparidade educacional entre Nordeste e Sudeste, ter mais meninos em escolas aprendendo coisas difíceis e necessárias.

Veja mais sobre migrações aqui.

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O aumento a renda média dos municípios mais pobres acima dos mais ricos não se traduziu em avanços proporcionais na educação dos moradores dessas cidades. Os habitantes de Salgadinho, no agreste pernambucano, viram sua renda crescer 69% acima da inflação na década passada, mas o analfabetismo entre eles só diminuiu 6% no mesmo período: 4 em cada 10 continuam sem sabem ler nem escrever.

O Censo 2010 mostrou que a região Nordeste foi onde a renda média municipal mais cresceu desde 2000. Mas a mesma pesquisa indica que os municípios nordestinos ainda concentram as maiores taxas de analfabetismo do País. Pior, foi lá que a alfabetização das pessoas de 15 anos ou mais de idade cresceu mais lentamente na década passada.

Os mapas mostram que na maior parte do Nordeste ainda predominam taxas de analfabetismo superiores a 20% da população que já passou da idade escolar obrigatória. A mancha se espalha por todos os Estados da região e transborda para o norte de Minas Gerais e para o oeste do Pará e do Tocantins.

Enquanto na maior parte do Sul e do Sudeste, as regiões mais ricas do Brasil, a redução da taxa de analfabetismo de adultos foi superior a 30%, no Nordeste, onde o problema é mais grave, o avanço da alfabetização ficou abaixo desse patamar na maioria das cidades.

Por causa disso, a redução em um terço da desigualdade regional que aconteceu na renda não se repetiu no analfabetismo. Ao contrário. Em 2000, a proporção de analfabetos com 15 anos ou mais em Alagoas era 6 vezes maior do que no Distrito Federal. Em 2010 essa relação havia crescido para 7 vezes.

Há uma forte correlação negativa entre analfabetismo e renda: quanto menor o rendimento médio do município, maior a sua taxa de analfabetismo, e vice-versa. Mas não há relação direta de causa e efeito. Os dados de Censo 2010 mostram que não basta transferir dinheiro para as famílias mais pobres para reduzir o analfabetismo.

Programas como o Bolsa Família conseguiram promover a redução da taxa de analfabetismo da população em idade escolar (de 10 a 14 anos), porque as famílias com filhos nessa faixa etária têm que comprovar que as crianças estão frequentando a escola para receber o dinheiro. Nesse segmento, a queda do analfabetismo foi mais dramática no Nordeste do que em qualquer outra parte do País.

Mesmo assim, todos os Estados nordestinos continuam com taxas de analfabetismo de 10 a 14 anos superiores à média nacional, de 3,9%. O melhor no Nordeste é o Ceará, que reduziu a taxa de 14,2% para 5,4% em 10 anos. E o pior é Alagoas, que foi de 22,8% para 10,7%. O problema também é grave no Pará, no Amazonas e no Acre.

Taxas tão altas nessa faixa etária denunciam não apenas o precário estado do sistema de ensino local, como alimentam a perpetuação da taxa de analfabetismo de adultos. Crianças que ainda não aprenderam a ler e escrever após três ou quatro anos na escola tendem a abandoná-la e não se alfabetizarem mais. É uma fábrica de analfabetos.

O efeito da transferência de renda é nulo sobre a melhoria educacional da população acima de 15 anos, que não tem obrigação legal de ir à escola. Para diminuir as desigualdades regionais em educação e cortar drasticamente o analfabetismo é necessário um programa de alfabetização de adultos com alcance amplo nos Estados onde o problema é mais agudo, como Alagoas, Maranhão, Piauí e Paraíba. Mas não só lá.

Alagoinha do Piauí, perto da fronteira com o Ceará, tem a maior taxa de analfabetismo do Brasil: 44,4% da população de 15 anos ou mais. Em quantidade, porém, não são tantos assim os que não sabem ler e escrever: 2,5 mil.

Quando se trata de pessoas, os números absolutos são tão importantes quanto os porcentuais. E não há mais analfabetos em qualquer cidade do País do que no município de São Paulo: 279 mil. É um contingente maior do que o de 12 Estados brasileiros, como Sergipe, Amazonas, Espírito Santo, Mato Grosso e Santa Catarina.

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Pesquisa anual do CGI.BR, o Comitê Gestor da Internet no Brasil

* Cresceu de 27% para 31% a taxa de domicílios com acesso à internet (2009/2010)
* Essa taxa é equivalente à argentina mas 60% menor que a alemã e 1/3 da japonesa
* Extremamente desigual, ainda: 36% no Sudeste contra 11% no Nordeste
* Extremamente desigual: 90% na classe A contra 3% na classe D/E e 24% na C
* 48% dos brasileiros dizem já ter acessado a internet
* mas só 41% acessaram nos últimos 3 meses, pelo menos
* Essa taxa cresce 13% ao ano, o que logo deve igualar acesso a computador e internet
* desses 41%, 60% o fazem diariamente (25%)
* ou seja, só 1 em cada 4 brasileiros de 10 anos ou mais acessa a internet todo dia
* Dos 41%, a maioria (56%) acessa de casa, ou da casa de outra pessoa (27%); só 22% acessa do trabalho. Ainda há 35% de usuários de lan-houses ou similares
…..
* Atividade mais comum é se comunicar: 94% dos 41% (38% dos brasileiros)
* 79% enviam/recebem email (32% dos brasileiros)
* 74% mandam/recebem mensagens instantâneas (30%)
* 69% participam do orkut ou sites de relacionamento similares (28%)
* 60% buscam informações sobre diversão e entretenimento (25%)
* 59% fazem pesquisas escolares (24%)
* 58% buscam informações sobre bens e serviços (24%)
* 53% assistem filmes/vídeos, no YouTube, por exemplo (22%)
* 50% pesquisam preços (21%)
* 47% fazem download de músicas (19%)
* 44% lêem jornais e revistas (18%)
* 43% jogam online (18%)
* 36% ouvem rádio online (15%)
* 35% buscam informações sobre saúde (14%)
* 30% fazem download de filmes (12%)
* 28% buscam informações em enciclopédias digitais e similares (11%)
* 26% buscam emprego (11%)
* 26% buscam informações sobre o governo (11%)
* 24% usam dicionários (10%)
* 21% fazem download de jogos (9%)
* 21% buscam informações sobre livros/artigos em bibliotecas (9%)
* 19% já compraram pela internet (8%)
* 17% usam Skype (7%)
* 16% assistem TV em tempo real (7%)
* 14% usam Twitter (6%)
* 13% interagem com o governo (6%)
* 11% fazem cursos online (5%)
* 9% participam de realidade virtual, tipo Second Life (4%)
* 9% fazem pagamentos/transações bancárias (4%)
* 9% buscaram CPF de alguém (4%)
* 8% blogam (3%)
* 7% declararam IR (2%)
* 4% já venderam/anunciaram alguma coisa online (1%)

Veja a íntegra da pesquisa do cgi.br

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04.julho.2011 16:37:47

Procura-se maquinista

São Paulo está ficando para trás. A desaceleração da velha locomotiva é suave, mas persistente. Enquanto o interior do Brasil e outras metrópoles pisam no acelerador, a capital paulista anda com o freio de mão puxado. Nem por isso seus governantes deixam de dar nota máxima a si mesmos, como se não tivessem mais nada a fazer. Talvez não tenham mesmo.

Entre 2000 e 2010, a renda dos paulistanos cresceu apenas 4% acima da inflação, uma fração do que cresceu o rendimento dos brasileiros e o pior desempenho entre todas as capitais. Nas outras 26, a renda teve um crescimento real de 37%, na média.

Quais problemas atrasaram o desenvolvimento da cidade na década passada? Uma série deles. Desde a mudança do perfil do emprego até o baixo desempenho de seu sistema de ensino, passando pela perda de competitividade ocasionada, entre outras coisas, pela piora do trânsito e aumento do custo de vida.

Menos qualidade no dia a dia associada à possibilidade de trabalhar à distância expulsaram muitos paulistanos dos extratos mais altos de renda para o exterior, cidades do entorno ou para outras capitais. Foi o caso de Florianópolis, destino de muitos ex-moradores de São Paulo que queriam viver melhor. Não por acaso, a catarinense tornou-se a 1.ª no ranking de renda das capitais e a 2.ª entre todas as cidades brasileiras.

Enquanto Florianópolis subia, São Paulo caía: do 4.º para o 7.º lugar no ranking de renda das capitais, e para o 15.º, entre todas as cidades do País. Vitória, Brasília, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Curitiba já têm renda por habitante maior do que a paulistana. E, no ritmo atual, logo Belo Horizonte também ultrapassará São Paulo. Está no Censo 2010.

Não foi só na renda que a posição relativa da capital paulista piorou em comparação a outras capitais. A taxa de analfabetismo das pessoas de 10 a 14 anos que moram em São Paulo oscilou de 1,9% para 2% na década passada. Parece baixa, mas não é. A taxa das crianças curitibanas era maior do que a das paulistanas dez anos atrás, agora é metade. São Paulo caiu do 9.º para o 10.º lugar no ranking de alfabetização de crianças em idade escolar. A cidade não mais importa analfabetos, os produz aqui.

Crianças que não são alfabetizadas no momento certo engrossam as estatísticas do atraso escolar e acabam abandonando seus estudos precocemente, sem saber o básico para arrumar um bom emprego. Vão ganhar mal e alimentar a espiral do baixo crescimento da renda.

Nos últimos dez anos, a oferta de emprego – motor que fez São Paulo crescer e atrair imigrantes do mundo inteiro em outras eras – mudou de marcha. A indústria e a administração pública, que pagam melhores salários, viram sua fatia diminuir pouco a pouco no bolo do mercado de trabalho paulistano, enquanto cresceram as do comércio e, principalmente, dos serviços. Proporcionalmente menos metalúrgicos e professores, mais office-boys e balconistas.

Como pizza ainda não é material de exportação, a balança comercial da cidade também sofreu. De um superávit de quase US$ 1 bilhão, em 2003, para o maior déficit do século em 2010: menos US$ 7,9 bilhões.

Se São Paulo fosse uma empresa com ações na Bolsa, sua cotação estaria em baixa. Não uma queda abrupta, daquelas que provocam manchetes, mas um suave e confortável plano inclinado que leva do protagonismo à mediocridade. Ainda não chegou lá, mas está a caminho.

Esse câmbio de locomotiva a vagão mais lento do comboio já foi detectado por pesquisadores, como André Urani (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade – Iets). Mas talvez o bairrismo e a falta de drama tenham evitado que o assunto ganhasse o destaque necessário – para sorte dos políticos que, em tese, deveriam liderar o processo oposto.

Nenhum partido que passou pela Prefeitura de São Paulo nos últimos 15 ou 20 anos tem a ganhar politicamente com a desaceleração paulistana. Nenhum nível de governo (municipal, estadual e federal) é inocente. Da falta de planejamento (de estratégia, de prioridades corretas) à taxa de câmbio supervalorizada, passando pela guerra fiscal, todos deram sua contribuição para inclinar o plano no sentido errado.

A eleição de 2012 é mais uma oportunidade para encarar o problema e enfrentá-lo. Mas os representantes dos paulistanos parecem mais ocupados com o rame-rame de seus joguetes pelo poder. O trem passa e eles olham da estação. Falta um maquinista.

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Foram apenas 4% de crescimento da renda média da população paulistana entre 2000 e 2010. É o pior resultado entre as capitais brasileiras na década. No ranking de renda dessas 27 cidades, São Paulo foi ultrapassada por Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro, caindo do 4º para o 7º lugar, com R$ 1.495 por morador. A locomotiva foi parar na rabeira da composição.

Nesse intervalo, a cidade de São Paulo foi governada pela petista Marta Suplicy (de 2001 a 2004), pelo tucano José Serra (de 2005 a 2006), pelo ex-democrata e agora pessedista Gilberto Kassab (de 2006 até hoje). Os dois primeiros são cogitados como postulantes ao cargo de prefeito em 2012. E o atual prefeito reafirmou nesta segunda, em sabatina, que se dá nota 10 por sua gestão.

Não por acaso, nesse período, São Paulo expulsou mais gente do que recebeu. De cidade formada por ondas sucessivas de migrantes, estrangeiros e brasileiros, a capital paulista se transformou em centrífuga demográfica. Entre chegadas e partidas, o saldo negativo foi de cerca de 130 mil habitantes na década.

Ao mesmo tempo, uma das cidades que mais recebeu paulistanos em busca de melhor qualidade de vida pulou para o primeiro lugar no ranking de renda por habitante das capitais: Florianópolis (SC) aumentou sua renda 30% acima da inflação, chegou a R$ 1.905 e desbancou Porto Alegre (RS) no topo da classificação.

As capitais que ganharam posições no ranking foram: Rio de Janeiro, Aracajú, João Pessoa e Macapá (duas cada); Florianópolis, Vitória, Brasília, Palmas, Porto Velho e Rio Branco (uma cada). As que perderam: São Paulo e Salvador (três cada); Maceió, Campo Grande e Porto Alegre (duas cada); São Luís e Belém (uma cada). As 10 restantes ficaram onde estavam.

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Mateiros, no sudeste do Tocantins, era um vilarejo sem luz elétrica em 2000. Uma ponta de mapa na fronteira com Maranhão, Piauí e Bahia, lugar esquecido e seco, sem plantação ou criação de valor. Dez anos depois, Mateiros é conhecida como a capital do Jalapão, o deserto mais cenográfico do Brasil. E um polo agrícola emergente.

Graças ao ecoturismo, e a dezenas de milhares de hectares plantados de soja, milho e arroz, a renda média de seus habitantes foi de R$ 117 para R$ 1.110 por mês entre 2000 e 2010, um pulo de 1.667%, já descontada a inflação. De 5.417º cidade mais pobre, passou à 53º mais rica do Brasil. Seu PIB per capita bateu em R$ 45 mil por ano.

Transformações tão revolucionárias são raras, mas em 95% dos municípios do País houve ganhos de renda reais na década passada. E eles foram proporcionalmente maiores entre as localidades mais pobres. Como consequência, a desigualdade de renda entre os municípios brasileiros caiu 32%, ao longo dos últimos dez anos.

Em 2000, a renda média dos 1.110 municípios mais ricos era 4,7 vezes maior do que a dos 1.110 municípios mais pobres. Em 2010, segundo novos dados do Censo, essa proporção caiu para 3,2 vezes.

Em moeda atualizada, a renda média dos 20% de municípios que compõem a base da pirâmide brasileira era de R$ 155 por habitante por mês em 2000. Por causa do crescimento da economia, das transferências governamentais à população pobre e dos aumentos sucessivos do salário mínimo além da inflação essa renda média dos municípios em situação mais precária pulou para R$ 263. Foi um ganho médio de R$ 108 por habitante.

Ao mesmo tempo, a renda dos 20% de municípios que estão no topo da pirâmide nacional variou de R$ 725 para R$ 839. Foram R$ 114 a mais no bolso dos seus moradores, mas, proporcionalmente, o salto da renda dos mais pobres foi quatro vezes maior. Encurtaram, portanto, as distâncias econômicas e sociais entre o topo e a base.

Como regra geral, quanto mais pobre o município, maior foi seu ganho de renda. E não é difícil entender o porquê. A base de comparação é tão pequena que injetar R$ 100 por mês por habitante equivale a um aumento de 78% na renda média dos 550 municípios que compõem os 10% mais pobres do País.

Nos municípios do interior do Centro-Oeste, esses R$ 100 foram aportados, por exemplo, pela expansão da fronteira agrícola. Já no Norte e, principalmente, no Nordeste, foram os programas de transferência de renda como o Bolsa Família que incrementaram os ganhos da população mais pobre. Somem-se os aumentos reais do salário mínimo e seu efeito sobre aposentadorias e pensões e está explicado grande parte do aumento da renda na base da pirâmide.

Olhando-se o mapa da evolução da renda municipal entre 2000 e 2010 fica evidente onde os ganhos foram mais mais dramáticos.

As áreas vermelhas representam os municípios cuja renda diminuiu ao longo da última década, se descontarmos a inflação acumulada de 96% no período. Eles estão distribuídos por todo o mapa, mas têm menor incidência no Norte e Nordeste. Nessas duas regiões mais localidades viram sua renda per capita subir acima da média dos municípios brasileiros. São as áreas verdes do mapa.

O crescimento médio dos municípios da região Norte foi de 107% reais, contra 87% da média nacional. De 449 municípios dessa parte do País, 210 (o equivalente a 47%) cresceram acima da média dos 5.565 municípios brasileiros, e 37 tiveram redução da renda média entre 2000 e 2010. O destaque foi Mateiros (TO), dono do maior crescimento não apenas no Norte, mas em todo o Brasil.

O Nordeste foi a região cuja renda média municipal mais avançou na década: 118% acima da inflação. Nada menos do que 70% dos municípios nordestinos (1.256) cresceram acima da média nacional. Só 24 perderam renda. Proporcionalmente, o maior salto de renda se deu em Centro do Guilherme, no oeste maranhense: de R$ 152 para R$ 543, ou 562% de aumento real.

O crescimento médio dos municípios da região Sudeste foi de 58%, o mais baixo do País. De 1.666 municípios da região, apenas 391 (23%) cresceram acima da média dos municípios brasileiros. Nada menos do que 152 tiveram redução da renda média entre 2000 e 2010. Álvaro de Carvalho, em São Paulo, registrou a maior alta. Sua renda média pulou 437%, de R$ 179 para R$ 576.

O crescimento também foi proporcionalmente no interior do que nas capitais. A média de aumento real da renda dessas cidades foi bem baixa: 36% em 10 anos. Mesmo aquela onde o rendimento cresceu mais, Rio Branco (AC), teve um incremento de 62%, inferior à média nacional. O pior resultado foi o de São Paulo: apenas 4% de aumento acima da inflação.

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12.junho.2011 21:41:33

Distribuir X Dividir

Ao longo da última década, caiu em um terço a desigualdade de renda entre municípios no Brasil. Os rendimentos dos moradores das 557 localidades mais pobres cresceram duas vezes mais rápido do que os das 557 localidades mais ricas. Resultado: o andar de baixo ficou mais parecido com o andar de cima.

Não que o Brasil tenha se transformado na Noruega, pois a renda média das cidades que formam os 10% do topo ainda é quatro vezes maior do que a dos 10% da base. Mas a aproximação dos extremos é boa notícia porque vai contra a tendência histórica brasileira. Dez anos atrás a diferença era de seis vezes.

O encurtamento da distância entre lugares ricos e pobres se deu pelo crescimento acelerado da renda dos municípios do Norte e, principalmente, do Nordeste. Entre 2000 e 2010, o rendimento médio das cidades nordestinas cresceu a uma velocidade 54% maior do que o das do Sudeste, por exemplo.

Os números divulgados até agora pelo IBGE sobre o Censo 2010 associados a outros estudos e pesquisas indicam que as molas que impulsionaram os municípios mais pobres foram as políticas federais de distribuição de renda, como o Bolsa Família, e os repetidos aumentos do salário mínimo acima da inflação.

Essas políticas se tornaram viáveis por causa da estabilização econômica e do controle da inflação ocorridas no período anterior. Mas a redução da disparidade regional só acelerou nos últimos dez anos. Houve uma reversão em relação à década de 90, quando as desigualdades ficaram imutáveis (Nordeste versus Sudeste), ou se aprofundaram (entre Sul e Norte).

As consequências dessa mudança brusca foram sentidas em múltiplas dimensões da sociedade brasileira, dos fluxos migratórios à geopolítica.

Na demografia, diminuiu a evasão populacional dos municípios mais pobres do Nordeste para os mais ricos do Sudeste. Com um cenário menos desigual, muitos viram uma oportunidade para voltar a seus Estados natais. Essa migração de retorno diminuiu a pressão por serviços básicos nas metrópoles do Sudeste. Ganharam quem voltou e quem ficou.

Na economia, o aumento da renda do andar de baixo fez girar um círculo virtuoso de consumo que propiciou o surgimento de um inédito mercado de massa. Pela primeira vez em muito tempo, o PIB (produto interno bruto) do Nordeste cresceu acima do das outras regiões do País.

Na política, PT e aliados se beneficiaram da memória imediata da população e faturaram a mudança cooptando eleitores que antes votavam nos seus adversários. Petistas e socialistas conquistaram governos e prefeituras importantes nos maiores estados nordestinos, como Bahia, Pernambuco e Ceará. Os votos do Norte e Nordeste ajudaram Lula a reeleger-se e a fazer sua sucessora.

E daí?

Não cola mais o argumento segundo o qual a única maneira de equilibrar o peso econômico do Sul/Sudeste é aumentar o peso político do Norte/Nordeste. Os desequilíbrios regionais estão diminuindo e isso não tem nada a ver com a desproporção representativa na Câmara dos Deputados e no Senado.

Ao contrário, a desigualdade entre pobres e ricos está menor apesar de o sistema eleitoral desrespeitar o princípio de uma pessoa um voto. As políticas nacionais de estabilização e promoção da renda básica provaram-se muito mais eficientes no combate às iniquidades regionais do que iniciativas divisionistas e paroquiais.

Destacados de Goiás, os municípios de Tocantins não tiveram desenvolvimento mais rápido do que os dos estados vizinhos. Palmas, a nova capital, sugou os recursos enviados pela União. Funcionou como ralo financeiro e populacional, drenando moradores das outras cidades tocantinenses. Sua renda é 2,5 vezes maior do que a média das demais.

Não é gastando com palácios e inchando burocracias estaduais que os moradores dos pretendidos novos estados de Carajás, Tapajós, Gurguéia e Maranhão do Sul vão melhorar de vida. A divisão beneficia apenas a pequena elite política que administra os recursos públicos. Concentra em vez de distribuir.

A União não faz necessariamente a força, mas sem ela não há redução de desigualdades regionais. Já o divisionismo é atalho conhecido para beneficiar poucos em detrimento de muitos. Além de reforçar o discurso xenófobo e separatista em estados que vão ajudar a pagar a conta. É óbvio: dividir não soma.

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