A concentração de imigrantes de outros Estados é uma das chaves para entender o padrão geográfico de votação na cidade de São Paulo. Historicamente, os candidatos petistas a cargos majoritários são mais votados nas periferias, enquanto os anti-petistas costumam vencer no centro expandido. Esse comportamento tem menos a ver com a renda e a escolaridade do que com a origem do eleitor.
Uma pesquisa inédita realizada pelo Ibope e pelo Estadão Dados conseguiu demonstrar, estatisticamente, que nenhuma variável sociodemográfica guarda uma correlação mais forte com o voto dos eleitores paulistanos do que o bairro onde ele mora. A descoberta virou um estudo cientifico que será apresentado pela CEO do Ibope, Marcia Cavallari, no congresso mundial de opinião pública (66ª Wapor) este mês, em Boston, nos EUA.
Os resultados de um teste estatístico chamado Chi-quadrado encontraram valores mais altos para a associação da preferência eleitoral dos paulistanos com o distrito de moradia do que com outras variáveis estruturais do voto, como cor, renda e grau de escolaridade do eleitor. Novos testes descobriram, depois, que isso se deve, em grande parte, à origem dos moradores.
“A proporção de migrantes (de outros municípios, inclusive de outras cidades paulistas) na área petista é maior do que nas demais áreas”, constata o estudo: 42% contra 35% no resto da cidade. Mas a maior diferença ocorre entre os eleitores que vieram do Nordeste: 55% dos imigrantes nordestinos moram nas áreas onde os candidatos do PT sempre são os mais votados.
Isso significa que dois eleitores com diploma de nível superior ou com renda semelhante têm mais chance de votar em dois candidatos diferentes a prefeito ou a presidente do que se eles tiverem a mesma origem (no caso, os Estados do Nordeste do Brasil) e/ou morarem no mesmo bairro.
A preferência do eleitorado nordestino radicado em São Paulo por candidatos petistas transcende em muito os programas federais de transferência de renda. Uma parcela estatisticamente desprezível deles recebe benefícios do Bolsa Família ou equivalentes. O “petismo” desses eleitores paulistanos parece estar mais ligado à ascensão social e, principalmente, de consumo experimentada por seus conterrâneos ao longo dos últimos 10 anos.
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Contrariamente ao provérbio português, jabuti sobe em árvore – desde que ela esteja plantada em Brasília. Na capital do poder, quelônios praticam arvorismo todo dia. Surgem trepados em galhos com tanta frequência e há tanto tempo que só pode ser por vontade própria. Apareceu outra tartaruga ninja na semana passada.
A Câmara dos Deputados aprovou em regime de urgência projeto de lei que praticamente inviabiliza a candidatura presidencial de Marina Silva (sem partido) em 2014. A pressa não teve nada a ver com a ex-petista aparecer no Ibope como o nome de maior potencial para enfrentar Dilma Rousseff (PT). Foi coincidência.
O projeto peemedebista é pura boa intenção. Cria barreiras à proliferação de nano-partidos que infestam o Congresso. Ao impedir que siglas recém-criadas ganhem tempo de propaganda graças à adesão de deputados eleitos por outra agremiação, quebra um ciclo vicioso. Acaba com barganhas por minutos de TV. De quebra, deixa Marina falando sozinha.
Foi com esse espírito desinteressado que peemedebistas, petistas e pessedistas se juntaram para aprovar o projeto. Não importa que o PSD tenha sido criado exatamente assim e hoje seja um pilar de sustentação do governo no Congresso. O que passou passou.
Nesta semana, tão desinteressadamente quanto seus colegas, tucanos, socialistas e anexos tentarão aprimorar o texto aprovado. Vão a voto suas propostas de jogar para 2015, ou quem sabe para 3015, a entrada em vigor da nova regra saneadora. Se por acaso se beneficiam diretamente do adiamento, o que podem fazer? O que é justo é justo.
O PSB também propõe excluir do projeto a distribuição do dinheiro vindo do Fundo Partidário. Afinal, os novos partidos só não são partido no nome. Nada mais de acordo com os ideais socialistas: se é seu, é meu, é nosso.
E assim, pensando apenas no bem comum, na coisa pública e nos princípios republicanos, nossos representantes rescrevem as leis do mundo. Às vezes, revogam até postulados matemáticos.
No ano passado, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou parecer favorável a projeto que transforma em crime punível com prisão a publicação de pesquisa eleitoral cujo resultado fique fora da margem de erro. E se a pesquisa foi divulgada dias antes da eleição? Cadeia. E se o eleitor mudou de opinião? Xilindró.
Os deputados querem obrigar o eleitor a escolher seu candidato até cinco dias antes da eleição, sem direito a mudar de ideia. Se mudar, é crime. Mas a culpa não é dele, é de quem ousar constatar que o eleitor pensava em votar de um jeito e passou a votar de outro. Esse sim é quem vai passar até um ano em cana e pagar R$ 1 milhão de multa. Resumindo: cala-te ou te prendo.
Os deputados agiram com a melhor das intenções, sem nem sequer cogitar que isso fosse uma forma de censura, muito menos de legislar em causa própria. É mero acaso que políticos processem institutos por atribuir às pesquisas – e não à vontade do eleitor – a falta de votos que os impede de vencer eleições.
Tampouco os deputados têm obrigação de saber que a margem de erro só faz sentido se considerado o intervalo de confiança no qual ela se insere. Nem que todas as pesquisas eleitorais divulgadas no Brasil adotam e divulgam um intervalo de confiança de 95% – o que significa que sabe-se de antemão que o resultado de 5 a cada 100 pesquisas estará fora da margem de erro. Segundo a CCJ, isso não é estatística, é fraude criminosa.
Uma legislação que os deputados ainda estão por aprovar é a que pune – não com cadeia, mas com inelegibilidade – a apologia do cinismo. Promoveria salutar renovação do Congresso.
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Na batalha por corações e mentes, o PT perdeu a ponta da pirâmide econômica e o PSDB está cada vez mais dependente dela. Essa reviravolta numa parte pequena mas influente da sociedade brasileira ajuda a espalhar fagulhas entre os dois partidos.
Pela primeira vez, há mais brasileiros com renda superior a 10 salários mínimos que se dizem tucanos do que petistas: 23% a 13%, segundo o Ibope. Não é nada trivial. Parece ter chegado ao fim uma supremacia de 15 anos do PT no segmento onde se concentram, por exemplo, leitores de jornais e revistas.
A virada começou no auge da simpatia pelo PT, quando o então presidente Lula batia recordes de aprovação e a economia crescia num ritmo mais chinês que europeu.
Em março de 2010, o PT atingiu seu pico de popularidade. Um em cada três brasileiros declarava simpatia pelo partido. Mas entre os eleitores mais ricos o petismo estava decadente havia anos. Desde junho de 2001, quando 35% do topo da pirâmide se dissera simpatizante, o PT vinha com viés de baixa nesse estrato.
O movimento custou a ser percebido porque o sobe-desce dos índices mascarava as tendências de longo prazo. Ao mesmo tempo, a perda dos eleitores com renda mais alta era compensada pelo crescimento do PT na base da pirâmide.
Quando Dilma Rousseff assumiu sua candidatura à Presidência, no começo de 2010, a penetração petista na elite econômica já estava reduzida a 22%. Ao fim da campanha eleitoral, sete meses depois, a taxa havia caído para 16%. Hoje é de 13%. Apesar disso, a perda de simpatia do PT nada tem a ver com Dilma.
O declínio nessa ponta vem dos câmbios da direção partidária que desembocaram, em 2005, no escândalo do mensalão. O desgaste é cumulativo. A cada disputa eleitoral os adversários tiram a casca da ferida e o PT sangra novamente. Foi assim em 2010 e em 2012 – com a ajuda do julgamento do mensalão pelo STF.
Os ex-petistas do topo da pirâmide se espalharam. Muitos se desencantaram com a política e viraram sem-partido, outros migraram para pequenas legendas e alguns até tucanaram.
Só desde 2010 o PSDB cresce entre quem tem renda superior a 10 salários mínimos – e apenas entre eles. Em menos de 3 anos, a preferência tucana pulou de 7% para 23% nessa elite, que passou a ter um peso muito maior entre os simpatizantes do partido. Ou seja, o PSDB percorreu o caminho do PT no sentido oposto.
Em 2004, o professor da Universidade de Minnesota David Samuels escrevia que os petistas eram diferentes dos outros brasileiros: “São mais instruídos e politicamente conscientes do que a média. (…) acreditam que a participação do indivíduo na política pode fazer diferença”. Se houve tal diferenciação, ela se diluiu.
O petismo perdeu influência justamente nas camadas citadas por Samuels. Ao mesmo tempo, absorveu lulistas – eleitores pragmáticos, cativados pela inclusão social via consumo. O resultado é que o petismo mudou. Com uma base menos rica, mais nordestina e, principalmente, mais numerosa, colecionou vitórias nas urnas. Mas depende cada vez mais do vaivém da economia.
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Como a eleição de prefeitos vai impactar o jogo de poder em Brasília? No varejo, uns caciques perdem penas enquanto outros aumentam seus cocares. No atacado, porém, a perda de cabos eleitorais será fatal para muitos deputados federais e, por consequência, para as bancadas de seus partidos na Câmara.
DEM, PMDB, PR e PTB são os mais ameaçados de diminuírem em 2014 por causa de 2012. PSB e PT, ao contrário, tendem a medrar. Nada aponta, entretanto, para uma revolução na balança partidária. A eleição municipal fez crescer mais partidos nanicos e projeta uma dispersão de poder ainda maior que a já existente na Câmara.
Há uma correlação muito forte entre número de prefeitos eleitos e tamanho das bancadas que os partidos levam para Brasília dois anos depois. No último ciclo eleitoral, o coeficiente foi de 0,9 num máximo de 1,0. Esse número não implica relação de causa e efeito, mas há indícios de que o sucesso do partido na eleição municipal esteja ligado ao número de deputados que ele elege.
Com uma série histórica mais ampla e metodologia científica, Leandro Piquet Carneiro e Maria Hermínia Tavares de Almeida demostraram a articulação dos votos recebidos por um partido em diferentes eleições em artigo na revista “Dados” em 2008. O que se colhe das urnas num ano semeia os resultados subsequentes.
Em setembro passado, pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas confirmaram a relação de causalidade entre um pleito e outro e ainda estimaram que a eleição de um prefeito aumenta em 20% os votos para deputado federal recebidos pelo mesmo partido naquele município dois anos depois. Suas descobertas estão no artigo “Articulações interpartidárias e desempenho eleitoral no Brasil”, publicado pelo Cepesp da FGV.
Explicam os autores: “Essa vantagem veio do maior acesso dos prefeitos aos recursos públicos, seu papel como implementadores de políticas públicas locais ou como intermediários de transferências estaduais e federais, ou até como emprestadores de credibilidade para as promessas eleitorais dos candidatos do partido”. Ou seja: prefeitos são bons cabos eleitorais.
No triênio 2008-2010, a proporção média foi de 10 prefeitos para cada deputado federal eleito por partido. Essa taxa variou muito de legenda para legenda. O PT conseguiu converter quase três vezes mais deputados por prefeito do que o PMDB, por exemplo. Isso pode mudar porque petistas avançaram nas pequenas cidades.
Adaptadas as proporções, a Câmara semeada este ano tem o PT com favorito a fazer a maior bancada em 2014, mas ainda assim menos de 20% dos deputados. O PMDB tende a encolher mas manter o segundo maior número de cadeiras. PSD e PSDB devem se equivaler em tamanho, e o PSB ameaça alcançá-los.
Em seguida viria um bloco que, em ordem decrescente, começaria no PP, passaria por PDT e PR, desceria por DEM, PTB, PC do B, PRB e PV até o PPS. Uma dezena de partidos nanicos completaria o plenário.
Haverá outros fatores em jogo em 2014, porém. No seu artigo de 2008, Carneiro e Tavares de Almeida concluíram que “a votação para governador é a variável que tem o maior efeito sobre as votações para deputado federal”. Logo, os partidos ainda têm como mudar seu destino até a próxima eleição.
É a fila, tucano
O PSDB tem dois problemas similares mas diferentes que, por aparência ou conveniência, vêm sendo debatidos como se fossem um só. Renovação partidária independe de renovação política, ou o contrário. Um partido pode arejar suas ideias com os mesmos caciques de sempre, ou pode promover curumins com ideias gastas. Seria saudável juntar caras novas a cabeças abertas, mas o ótimo é inimigo do bom. Renovação, de fato, seria fazer a fila andar.
A opinião pública já deu o recado algumas vezes, basta querer ouvir. Quem encabeçava a fileira e perdeu precisa reconhecer a derrota – qualquer uma delas. É um gesto que equivale a sair da frente, dar lugar. Sem isso, a sucessão entope. Tensões se acumulam até os conflitos implodirem o partido. Para quem obstrui, melhor retirar-se do que ser expelido ou abandonado.
Quanto às novas ideias, é mais provável que provenham da necessidade do que da hereditariedade. Na política, a repetição é mais forte do que a inovação. Se o patriarca teve sucesso, o herdeiro tende a imitá-lo, não contradizê-lo. Os exemplos se repetem, não importa o partido: Dirceus no PT, Brizolas no PDT, Covas no PSDB, Magalhães no DEM, Alves no PMDB, Arraes no PSB.
O coco raramente cai longe da palmeira – ser Vladimir é exceção.
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Os incomodados que mudem – não de endereço, mas de prefeito. Foi o que aconteceu em São Paulo. Os moradores das regiões mais críticas à gestão de Gilberto Kassab (PSD) votaram em peso no candidato que representava a mudança na prefeitura. Nas periferias petistas da cidade, onde a maioria absoluta acha o governo Kassab ruim ou péssimo, o candidato do PT venceu por 73% a 27% dos votos válidos. Essa onda se expandiu para o centro.
Fernando Haddad (PT) tomou sete zonas eleitorais da metade antipetista de São Paulo que, em tese, deveriam ter votado majoritariamente em José Serra (PSDB). O petista conquistou também as sete zonas volúveis, que oscilam historicamente entre candidatos do PT e seus adversários. Mas não são apenas essas 14 zonas que explicam a eleição de Haddad. A infidelidade ao tucano no seu reduto também fez diferença.
Excluídas as zonas que viraram casaca e sufragaram Haddad, a vantagem de Serra no conjunto das demais zonas antipetistas foi de 66% a 34% – ou seja, mesmo no coração do antipetismo, Haddad teve um voto para cada dois do tucano. Por comparação, na zona petista Serra conseguiu apenas um voto para cada três do rival.
O determinismo geográfico explica boa parte do voto em São Paulo. Ele é mais forte até do que a correlação entre opção eleitoral versus a renda e a escolaridade dos eleitores. A taxa de voto de pessoas mais ricas na área petista é diferente dos ricos na área antipetista. Provavelmente a pressão dos pares e vizinhos acaba fazendo com que a votação seja homogênea nas áreas geográficas com perfil socioeconômico semelhante.
E por que o desempenho de Haddad foi melhor na zona antipetista do que foi o de Serra na zona petista?
Por ser neófito em eleições e ostentar o título de professor da USP, Haddad não somou nada de pessoal à rejeição que qualquer candidato do PT em São Paulo sempre teve e terá. É muito diferente do que ocorreu com Marta Suplicy em eleições anteriores na cidade, por exemplo. Haddad acabou rejeitado por apenas um terço dos paulistanos, como era esperado.
Ao mesmo tempo, Serra bateu recordes de rejeição, principalmente na periferia da cidade. Por três motivos principais: 1) a imagem de que ele governa preferencialmente para os ricos, 2) a renúncia à Prefeitura de São Paulo para disputar o governo paulista e, depois, a Presidência, 3) a campanha negativa e a mistura de eleição com religião, que alienou parte do eleitorado evangélico. A ordem equivale ao peso de cada uma das razões para a rejeição.
Em resumo, a estratégia de Lula para a eleição paulistana funcionou, apesar do susto. A polarização PT x PSDB se manteve e o candidato com menor rejeição acabou vencendo. Mas a estratégia não previa que haveria o fenômeno Celso Russomnanno no primeiro turno. Muito conhecido pela exposição na TV, o candidato do PRB ocupou o espaço que deveria ser de Haddad no imaginário do eleitorado da periferia até a antevéspera do primeiro turno.
Não tivesse Russomanno mostrado toda a fragilidade de sua campanha propondo um novo tipo de tarifa de ônibus que penalizaria mais os pobres que moram na periferia e talvez Haddad tivesse ficado de fora do segundo turno. Foi apenas nos últimos 10 dias de campanha que o candidato do PRB desidratou e abriu espaço para o crescimento do petista nas periferias da cidade.
Os votos perdidos por Russomanno foram diretamente para Haddad e o petista acabou passando ao segundo turno ligeiramente atrás de Serra. No segundo turno valeu a regra do “mal menor”. Como a rejeição ao tucano era mais alta e intensa do que a rejeição ao petista, a maioria dos paulistanos que haviam votado em Russomanno, Gabriel Chalita (PMDB) e até em Soninha (PPS) migraram para a conta de Haddad.
Em resumo, o novo prefeito de São Paulo deve sua eleição à estratégia de Lula, à rejeição de Serra e, acima de tudo, à má avaliação da gestão de Kassab, o que fez a maioria dos paulistanos optar pela mudança.
Mudam divisórias, PT e PSB ganham mais espaço, PMDB e PSDB perdem salas, mas as estruturas do edifício do poder continuam inalteradas no Brasil. Os petistas ocupam a cobertura há 10 anos, mas o resto do prédio é dividido entre 30 condôminos. O PT elege o síndico, mas não administra o condomínio sem ceder poder a outros. Ninguém tem hegemonia. E é bom que seja assim.
O PT sai maior das urnas, mas com direito a ocupar apenas 11% das prefeituras e a governar 20% do eleitorado local. Tudo bem que isso inclui o canto mais populoso do edifício, a sala São Paulo, mas está longe de configurar um domínio da política brasileira. O partido de Lula cresce, mas não é o único. O PSB vem na cola e tem seus próprios planos.
O partido do governador Eduardo Campos, de Pernambuco, elegeu 131 prefeitos a mais do que em 2008 e entrou para o seleto clube dos 10%: os prefeitos do PSB passarão a governar uma fatia que corresponde a 11% do eleitorado local a partir de janeiro. A sigla dobrou o que conseguira quatro anos atrás: governará 15 milhões de eleitores. Só outros três partidos estão nesse clube.
A base municipal obtida pelo PSB é necessária para o partido barganhar melhores condições numa coligação presidencial, mas, sem articulações com outras siglas, é insuficiente para lançar o governador pernambucano à sucessão de Dilma Rousseff (PT) em 2014. Por isso devem crescer as conversas de Campos com os tucanos, por exemplo.

O PSDB viu sua participação no bolo do eleitorado municipal cair de 14% para 13% nesses quatro anos. A maior queda foi a do PMDB: de 22% para 17% do eleitorado municipal. A fatia do PT cresceu de 16% para 20%. Todas essas participações são maiores do que o pedaço do bolo que está no prato de Eduardo Campos por enquanto. Mas o tamanho e a distribuição das fatias devem continuar mudando mesmo depois de terminada a apuração.
Há, por exemplo, as conversas de fusão entre o PP de Paulo Maluf com o PSD de Gilberto Kassab. O primeiro encolheu, e o segundo roubou prefeitos e prefeituras de todos os partidos médios e virou uma sigla com boa penetração nos rincões do Brasil profundo. O PSD é uma contradição em termos: cresceu mas encolheu. Os seus 497 novos prefeitos governarão, juntos, um eleitorado equivalente ao que Kassab deixará de governar.
Mesmo assim, se PSD e PP virarem PSDP ou PPSD comandarão 966 prefeituras e governarão 16 milhões de eleitores. Ficariam em segundo lugar no ranking de prefeitos e em quarto no de eleitorado a governar. Como serão, na imensa maioria, cidades pequenas, não devem movimentar muito dinheiro, mas, a depender a distribuição geográfica, têm potencial para eleger a terceira ou quarta maior bancada de deputados federais em 2014.
Colocados em perspectiva, os avanços do PT mostram que o partido de Dilma e Lula está longe de ter se tornado hegemônico: 89% das prefeituras e 80% do eleitorado municipal estarão nas mãos de outras legendas partidárias. Não dá para fazer o que bem entender na assembleia do condomínio sem colher uma reação negativa dos outros condôminos. O poder petista é consorciado. Para ser exercido continuará dependente de alianças. O edifício do poder não fica no 13 nem no 45, segue sem número.
O resultado do segundo turno em si mostra que quando o PT enfrenta um duelo dois a dois seu desempenho piora bastante. Dos 22 segundos turnos que disputaram, os petistas ganharam só em oito municípios. A taxa de sucesso foi de apenas 36%, praticamente duas derrotas para cada vitória.
Essa é uma característica do PT. Para continuar crescendo, o partido de Lula precisará fazer um esforço cada vez maior. Como elege proporcionalmente menos candidatos do que o PMDB e o PSDB, por exemplo, precisará lançar um número ainda maior de postulantes a prefeito em 2016 para aumentar sua fatia de poder municipal. Até agora tem conseguido, mas a um custo relativamente mais alto do que o de seus aliados e rivais.
O PT chegou ao posto de maior partido brasileiro graças a uma organização nacional, a um projeto de poder e a lideranças carismáticas. Seu principal concorrente, o PSDB, tem uma lição de casa mais trabalhosa. Precisa renovar suas lideranças, ajustar seu discurso eleitoral e corrigir deficiências regionais.
Das 7 centenas de prefeitos tucanos, 45% estão concentrados em São Paulo (176) e em Minas Gerais (142). Isso pode ser um problema para o PSDB eleger deputados federais em 2014, principalmente no Ceará, na Bahia e no Rio Grande do Norte.
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Em 1947, Victor Nunes Leal defendeu a tese que viraria “Coronelismo, enxada e voto”, o clássico sobre as relações de poder no Brasil rural. Nesses 65 anos, o país mudou e se tornou 85% urbano. Mas o livro de Nunes Leal continua útil para compreender as eleições municipais de hoje.
No prefácio à edição de 2012, o historiador José Murilo de Carvalho sintetiza a obra. Observa que o autor descreveu o coronelismo como um sistema que transcende o mandonismo local: “Tem a ver com a conexão entre município, Estado e União, entre coronéis, governadores e presidente, num jogo de coerção e cooptação exercido nacionalmente”. Familiar?
Troquem-se coronéis por prefeitos e temos a descrição do papel do PMDB, com sua extensa rede municipal e volumosa base no Congresso. Do outro lado, o partido que exerça o poder central naquele momento, seja o PT ou o PSDB. Essas três siglas, por seu protagonismo, simbolizam as demais, que jogam o mesmo jogo, mas como coadjuvantes ou meros figurantes.
Nesta eleição, porém, há atores emergentes tentando roubar a cena, enquanto o trio principal troca de personagem. Cada vez mais parecido com o PMDB, o PT busca ampliar o número de prefeitos no interior do Brasil para, daqui a dois anos, formar a maior bancada da Câmara dos Deputados, suplantando o aliado. Mas os petistas sofrem um contragolpe do PSB nas capitais.
O partido de Eduardo Campos segue passos que o PT trilhou para ser protagonista. O PSB investe para ganhar capitais como Fortaleza e Recife, e manter Curitiba e Belo Horizonte. A aliança segue no Brasil profundo, mas nas grandes cidades o PSB se emancipou do PT.
Um resultado possível a sair das urnas é o PT, desgastado pelas condenações do mensalão, perder espaço nas capitais mas crescer no interior. Será mais um passo para virar o novo PMDB.
Isso tem tudo a ver com o sistema descrito por “Coronelismo, enxada e voto”. Prefeituras do interior são mais dependentes de repasses federais e da liberação de verbas para emendas assistencialistas dos parlamentares. É o tal “jogo de coerção e cooptação” que explica o porquê de Lula e Dilma Rousseff terem mantido uma taxa de apoio na Câmara sempre acima de 80% dos votos dos deputados mesmo depois de o mensalão ter sido exposto.
O escândalo é insuficiente para explicar um governismo tão avassalador. Puni-lo é indispensável, mas reduzir o diagnóstico dos males da política brasileira a mesadas parlamentares é uma boa maneira de manter tudo como está e sempre foi. Mudanças de fachada são eficientes para conservar as estruturas intactas.
Desde 2001, a pirâmide da distribuição da renda no Brasil mudou, pela primeira vez ampliando a base e emagrecendo o topo. Isso se deveu primeiro ao fim da inflação e, depois, a aumentos reais sucessivos do salário mínimo. É o que se vê no gráfico que ilustra este texto. Essa mudança está na origem do novo consumismo e da popularidade de Lula e Dilma.
Isso ocorreu a despeito de um movimento inverso na distribuição de terras desde os tempos de “Coronelismo, enxada e voto”. Enquanto as micro propriedades rurais são proporcionalmente menos numerosas e ocupam uma área menor do que em 1940, as grandes, impulsionadas por novas tecnologias e ganhos de escala, cresceram e dominaram praticamente a metade da área destinada à produção agropecuária do país. Ou seja, do título do livro, a única coisa que ficou obsoleta foi a enxada.
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A ascensão de Celso Russomanno (PRB) na corrida municipal em São Paulo é um fenômeno, mas não é um acidente. Não tem causa única, nem motivo principal. É uma conjunção de fatores. Vão de sua origem malufista até a ajuda dos adversários, passando por religião, consumismo e desejo de mudança. Tudo misturado no momento certo deu em Russomanno.
Ele é um fenômeno (por ora) porque, pelo retrospecto, teria uma chance em 93 de chegar ao segundo turno. Em 2008, nas eleições das capitais, só um candidato com menos de 50 comerciais por semana conseguiu ficar entre os dois primeiros -e perdeu. A correlação entre tempo de propaganda eleitoral e sucesso nas urnas é tão forte que deu-se de barato que Russomanno seria mais um sem-TV a sumir tão rápido quanto apareceu.
Embora a correlação seja estatística, essa assunção é sempre reforçada pelo marketing. Sendo os estrategistas das campanhas quase sempre marqueteiros que produzem os programas para a televisão, tendem a dar desproporcional importância ao palanque eletrônico e deixar tudo o mais em segundo plano.
É uma jabuticaba eleitoral. Nos EUA, os estrategistas pensam, os marqueteiros executam -para não haver conflito de interesses entre quem aloca o dinheiro da campanha e quem se beneficia dessa alocação. No Brasil, o marqueteiro cobra o escanteio e aparece na área para cabecear -às vezes contra o próprio gol.
Não fosse assim, os adversários de Russomanno em São Paulo não teriam demorado tanto para acreditar que ele veio para ficar. Passados 10 dias de campanha na TV, petistas e tucanos ainda acreditavam que se enfrentariam no segundo turno paulistano. Só depois de a segunda bateria de pesquisas mostrar que Russomanno não só resistia como ameaçava crescer mais que a ficha caiu.
De onde veio esse fenômeno?
Não haveria Russomanno se o eleitor paulistano não estivesse farto do prefeito Gilberto Kassab (PSD) e quisesse mudar. O candidato do PRB lidera entre quase todos os segmentos do eleitorado, mas vai especialmente bem entre aqueles que acham o governo do atual prefeito ruim ou péssimo. Russomanno conseguiu personificar o desejo de mudança, mesmo sendo muito conhecido.

Não haveria Russomanno se ele tivesse aparecido agora para a política. O eleitor quer novidade mas não quer surpresa. E Russomanno orbita o mundo político há 32 anos. Só acha que ele nasceu ontem quem não está prestando atenção. O candidato do PRB veio à luz sob José Maria Marin (atual presidente da CBF), batizou-se sob Paulo Maluf (foi assessor do braço-direito e caixa do malufismo, Calim Eid) e crismou-se apadrinhado pelo último vice-presidente do regime militar, Aureliano Chaves.
Não haveria Russomanno se ele não fosse um exímio comunicador. Na mais recente troca de padrinho, deixou o ninho do decadente Maluf para acomodar-se sob o bispado de Edir Macedo na TV Record e no PRB, o partido cujo presidente trabalha na Igreja Universal do Reino de Deus e na emissora de TV. No seu “Patrulha do Consumidor”, Russomanno usa o que aprendeu apresentando memoráveis bailes de carnaval na Gazeta e o “Aqui Agora” do SBT.
Não haveria Russomanno se ele não caísse no gosto de alguns nichos do eleitorado, como os evangélicos. Eles são donos de quase 30% dos votos paulistanos. Apesar de outros candidatos terem negociado o apoio de seus pastores, bispos e apóstolos, o eleitor evangélico optou majoritariamente por Russomanno -seja porque ele vai bem entre os pobres, onde há mais pentecostais, seja porque o seu discurso “família” lhes cai bem. Ou seja: os líderes evangélicos estão sendo conduzidos por seu rebanho.
Não haveria Russomanno se o Brasil não tivesse sofrido uma explosão do mercado interno e o eleitor não tivesse virado consumidor antes de virar cidadão. Afora Lula, que detonou o processo, nenhum outro político brasileiro compreendeu e soube usar tão bem o consumismo de massa a seu favor. O discurso de defesa dos direitos do consumidor foi adaptado com maestria por Russomanno à política – e de quebra lhe rendeu um cadastro com centenas de milhares de eleitores registrados no seu Inadec.
Não haveria Russomanno se não fossem os adversários. Não só o deixaram em paz até anteontem, como ajudaram ao ponto de lhe arrumar um vice. Tucanos apostando que ele só atrapalharia os petistas e vice-versa. Criaram um clima de disputa tão pesado quanto repetitivo, até saturarem o eleitor com suas picuinhas. A cada vez que José Serra (PSDB) ataca o PT ou o contrário, um eleitor olha Russomanno com mais simpatia -além jogar o rival no colo do candidato do PRB num eventual segundo turno.
E aonde o fenômeno vai chegar? Só o eleitor sabe.
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Eleitora da zona sul, explicando por que ela não pretende votar em José Serra (PSDB): “Ele começa e não termina”. Eleitor da zona leste, tentando lembrar o nome do candidato petista: “Esqueci… Não é um dos famosos. A gente acaba esquecendo o nome dele”. Eleitor jovem, prestes a votar pela primeira vez: “Esse negócio de PT e PSDB não tem frescura, é tudo a mesma coisa”.
As frases acima são tão reveladoras do que vai pela cabeça do eleitorado quanto as pesquisas quantitativas. Embora não tenham o rigor de uma amostra científica, as 52 entrevistas do repórter Lourival Sant’Anna em sete bairros-chave da cidade revelam aspectos tão importantes quanto as taxas de intenção de voto. Entrevistas e estatísticas se complementam para descrever a corrida sucessória paulistana antes do horário eleitoral.
A frase da eleitora resume em cinco palavras o principal problema de Serra na campanha municipal. Embora ela já tenha votado nele e elogie o tucano, diz que Serra não serve para prefeito, por achar que não é o que ele quer de verdade. Não duvida de sua capacidade, mas de seu compromisso.
Isso ajuda a explicar o recorde de rejeição ao tucano. É uma soma de petismo, cansaço e descrédito. Um lado não vota em Serra por ele personificar o “inimigo”. Porém, o crescimento de sua rejeição vem de outra banda: de quem já votou ou poderia votar no nome do PSDB em outras circunstâncias, mas hoje quer renovação. Quase metade dos que rejeitam Serra vem de onde ele é mais forte, da zona antipetista da cidade, segundo o Ibope.
Num primeiro turno, com múltiplas possibilidades de escolha, esse “neo-anti-serrista” tende a votar em outro candidato. Mas, num eventual segundo turno contra o PT, é possível e até provável que ele reconsidere sua posição. No turno final, não se trata de eleger o preferido, mas de barrar o arquirrival.
Logo, o problema de Serra é duplo. Não basta ele chegar ao segundo turno. Tem que torcer para que o petista Fernando Haddad também chegue. No confronto contra Celso Russomanno, Serra corre mais risco de perder, como mostra a simulação do Ibope: 42% a 35% para o candidato do PRB, que não carrega a rejeição ao PT.
Nunca um candidato petista esteve tão longe do segundo turno paulistano. O grau de desconhecimento de Haddad entre tradicionais eleitores do PT é inédito. Só 38% dizem conhecê-lo ou ter alguma informação sobre ele. Haddad é mais conhecido até entre simpatizantes do PSDB: por 44%, segundo o Ibope. Russomanno tem o dobro de conhecimento entre os petistas.
O atraso de Haddad é incomparável ao tempo que Dilma Rousseff levou para decolar em 2010. A esta altura da campanha, a então presidenciável disputava a liderança das pesquisas. Haddad não alcançou dois dígitos. Até o nome atrapalha. Eleitores da periferia não sabem como pronunciar o “H” inicial. O obstáculo fonético bloqueia a memória. Mesmo quando o eleitor sabe de quem se trata não sabe nominá-lo. Se fosse só isso estaria fácil.
Há um desinteresse recorde na eleição deste ano. E o mais desinteressado é justamente o eleitor das áreas que costumam votar em peso nos candidatos do PT. Na zona petista, 69% dizem ter pouco ou nenhum interesse pela eleição, contra 53% na área antipetista. Até o novo visual de Lula atrapalha Haddad, pois tem eleitor que não reconhece o ex-presidente sem barba.
Como não existe vácuo em política, o espaço deixado pelo anônimo petista foi ocupado por Russomanno. Ele personifica a “novidade conhecida”, um perfil difuso e paradoxal que escapa do discurso de muitos paulistanos. Ou seja: alguém que aparenta ser renovação, mas que o eleitor já viu fazer algo que acha útil.
“Vou votar no Russomanno”, diz a eleitora de uma das zonas eleitorais mais volúveis de São Paulo. “Eu assisto a ‘Patrulha do Consumidor’”, conta a jovem de 18 anos, referindo-se ao programa apresentado pelo candidato do PRB. “Ele (Russomanno) resolve as coisas, ou pelo menos tenta”.
A frase explica por que Russomanno lidera a corrida eleitoral, por ora. Não é só por ele ser conhecido da TV, nem apenas por representar uma alternativa à polarização PT-PSDB. É por ele parecer dar solução aos problemas do dia-a-dia das pessoas.
O paulistano conquistou respeito como consumidor, mas não como cidadão. Sua relação com o poder público é de eterna espera: pelo ônibus que não chega, pelo médico no posto de saúde, por vaga na creche. Por isso o bolso é menos decisivo na eleição municipal. O eleitor deseja um prefeito que solucione seus problemas cotidianos nunca resolvidos. Que corte a espera.
Muita coisa tende a mudar na percepção dos paulistanos após o início do horário eleitoral. O grau de conhecimento dos candidatos aumenta, afinidades se formam, rejeições aparecem.
Com até cinco vezes mais tempo de TV do que os rivais, Serra e Haddad levam muita vantagem. Mas não é apenas com superexposição que conseguirão sufocar os candidatos a tertius. O novo prefeito terá que convencer o eleitor de que ele é o mais capaz para fazer o paulistano não ter que esperar tanto.
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JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
Do Estadão Dados
A pesquisa Ibope em São Paulo tem três sinais amarelos para José Serra (PSDB): sua rejeição foi de 34% para 37%, Celso Russomanno (PRB) venceria se o segundo turno fosse hoje, e a avaliação de seu aliado, o prefeito Gilberto Kassab (PSD), piorou. Para completar, Fernando Haddad (PT) passou a crescer à medida que o eleitor começa a ter mais informação sobre a campanha municipal.
A boa notícia para Serra é que, apesar disso, a maior parte dos paulistanos ainda acredita que ele será eleito o próximo prefeito de São Paulo: 46%, contra 21% que apostam em Russomanno. Essa percepção e o quádruplo do tempo de propaganda do que o rival são os fatores que mantêm o tucano como favorito.
O paulistano está mais bem informado sobre quem é quem na disputa de prefeito do que estava no começo de agosto. Todos os principais candidatos cresceram na intenção de voto espontânea. A taxa de eleitores que têm o nome de um candidato na ponta da língua saltou de 27% para 46% desde o começo do mês. É um sinal de que a campanha está começando a esquentar.
Serra e Russomanno estão empatados também na pesquisa espontânea; rejeição do candidato tucano é a maior
O horário eleitoral começa na próxima terça-feira, e o grau de informação do eleitorado deve se intensificar. Até agora, os adversários de Serra lucraram mais com isso do que ele.
Haddad ainda está muito abaixo do patamar de votação histórico do PT em São Paulo, mas cresceu de 6% para 9% na estimulada (considerando-se que a margem de erro é proporcional à intenção de voto), enquanto os outros ficaram praticamente onde estavam. É cedo para saber se a tendência vai continuar, mas o petista conta a seu favor com o maior tempo de TV, junto com Serra.
Todos os candidatos estão com um eleitorado mais consolidado do que estavam duas semanas atrás. Mas uns consolidaram mais do que outros. Serra viu sua taxa de espontânea subir quatro pontos, de 11% para 15%, enquanto a de Russomanno cresceu sete pontos (de 9% para 16%). Proporcionalmente, Haddad cresceu mais. Dobrou de 3% para 6%. É mais difícil perder eleitores espontâneos.
Na zona pró-PT, Russomanno tem maior intenção de voto que Haddad; desempenho de Serra na zona anti-PT cai
Russomanno continua crescendo na região mais petista da cidade. Ele chegou a 30% nas áreas periféricas e pobres onde os candidatos do PT foram os mais votados nas últimas três eleições majoritárias. Serra permanece com 20% nessa região, e Haddad foi de 7% para 11%, ainda muito atrás dos principais adversários.
Russomanno oscilou positivamente nas regiões de eleitorado mais volúvel, onde também foi de 26% para 30%. Mas parou de crescer na área onde disputa o voto diretamente com Serra, o centro expandido. Nessa região mais rica da cidade, Russomanno oscilou de 24% para 23%, e Serra manteve a liderança com 30%.
Se essas oscilações servem de mapa, Russomanno vai enfrentar uma batalha em duas frentes nas próximas semanas: contra Haddad na periferia petista, e contra Serra no centro antipetista. As próximas pesquisas mostrarão se ele vai ter fôlego para tanto.
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Um candidato a vereador do PSDB é, em média, 57% mais rico do que um adversário do PT. Erros e médias à parte, essa diferença reforça a aparência de que os políticos, militantes e, em última análise, eleitores dos dois partidos têm origem social muito distinta. A imagem da diferença ficou estampada nas duas figuras de proa das duas agremiações: o operário Lula e o professor universitário Fernando Henrique Cardoso. Mas até onde vai essa diferença?
É na base da pirâmide política que a distinção entre PT e PSDB fica mais evidente. Os mapas de votação dos candidatos majoritários dos dois partidos nos últimos pleitos refletem essa divisão. No Brasil, os petistas Lula e Dilma Rousseff foram proporcionalmente muito mais votados nas regiões mais pobres do país, principalmente no Nordeste, enquanto os tucanos José Serra e Geraldo Alckmin tiveram proporcionalmente mais votos nos Estados e municípios mais ricos.
Dentro das cidades, a mesma lógica político-geográfica se repete. Na cidade de São Paulo, o PT tem um histórico de votação massiva nas periferias pobres e distantes, enquanto os candidatos tucanos -a prefeito, governador e presidente- costumam ter suas maiores margens de vitória no centro expandido e rico da capital.
Mas essa visão em preto e branco (ou em vermelho e azul) omite as votações, muitas vezes expressivas, que ambas as siglas conseguem no quintal do adversário. O PT não tem apenas eleitores pobres nem o PSDB só tem eleitores bem de vida. Se fosse assim, os tucanos nunca teriam conseguido eleger nenhum candidato majoritário.
Subindo-se os degraus da pirâmide política, as discrepâncias entre petistas e tucanos vão se diluindo. Se entre candidatos a vereador -a porta de entrada para a vida partidária- a diferença de patrimônio é de 57%, entre os candidatos a prefeito dos dois partidos a distância é muito menor. Os tucanos que disputam prefeituras este ano são apenas 11%, em média, mais ricos do que os seus rivais do PT.
Isso porque um candidato a prefeito petista é 9 vezes mais rico do que um candidato a vereador do seu próprio partido. No PSDB essa distância é de 6 vezes. Esse fosso se explica por duas razões complementares: de um lado, o sucesso na política partidária e nas eleições é um atalho para os militantes subirem na vida (se não por outro motivo, porque seus rendimentos aumentam), de outro, candidatos mais ricos têm mais facilidade de financiar as cada vez mais caras campanhas eleitorais.
A carreira política é ao mesmo tempo um filtro e um trampolim. Assim, quanto mais para cima na pirâmide, menores as diferenças de patrimônio entre tucanos e petistas. Logo, a tendência é eles se tornarem todos iguais? O dinheiro tende a neutralizar as diferenças de origem social? A resposta a essa pergunta guarda, provavelmente, o futuro da política brasileira.
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JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
e AMANDA ROSSI
Se suas declarações de bens estiverem corretas, os políticos do PSDB que disputam as eleições municipais de 2012 são, na média, os mais ricos do país. Seus cerca de 36 mil candidatos têm um patrimônio somado de R$ 7 bilhões, ou R$ 196 mil por candidato. Essa taxa per capita dos tucanos é 46% mais alta do que a média geral de todos os partidos. É também 57% maior na comparação com os bens declarados pelos seus rivais do PT.
O que puxa a média dos tucanos para cima é o patrimônio declarado por seus candidatos a vereador. Ele totaliza R$ 5 bilhões, ou R$ 152 mil por candidato, o que é 47% maior do que a média geral. Porém esse número pode estar artificialmente inflado por erros nas declarações de bens de alguns tucanos. Isso não acontece entre os candidatos a prefeito do partido, e o seu patrimônio médio fica apenas 10% acima do dos outros partidos.
O mais “rico” candidato a vereador pelo PSDB é o pastor Waldeci Ferreira, da Assembleia de Deus, que tenta voltar a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de Aparecida de Goiânia (GO). Ele declarou à Justiça eleitoral que sua fazenda de 40 alqueires em Morro Agudo de Goiás vale R$ 600 milhões. Seria o hectare de terra mais caro do Brasil, talvez do mundo: R$ 6,2 milhões.
Assim como o pastor Waldeci, pelo menos outros quatro candidatos a vereador tucanos parecem ter digitado três zeros a mais em um de seus bens, elevando seu valor às centenas de milhões. São casas, sítios, apartamentos e terrenos que, segundo as declarações, valeriam até R$ 500 milhões cada um.
Se fossem excluídos os zeros adicionais da conta, a riqueza dos candidatos tucanos a vereador cairia à média dos outros partidos. Mas eventuais correções só podem ser feitas pelos próprios candidatos, e devem ser formalizadas junto a um cartório eleitoral. Enquanto isso, vale o que está registrado junto ao Tribunal Superior Eleitoral.
Os possíveis zeros a mais no valor de bens declarados não são exclusividade do PSDB. Candidatos a vereador do PMDB, PSL, PV, PTB, PC do B, PSB, PDT e PT parecem também ter se confundido ao preencer as declarações para o TSE. Outro pastor, este do PPS, declarou uma kombi por R$ 199 milhões. São tantos erros aparentes que, acertadas as contas, o PSDB poderia até voltar ao topo do ranking da riqueza por candidato.
As declarações de bens dos candidatos a prefeito são menos exageradas. Examinando-se o patrimônio dos mais ricos é menos comum encontrar valores estranhamente altos -apenas três ou quatro fogem escandalosamente à média, e nenhum deles é tucano. Entre os que disputam prefeituras, há mais erros aparentes (para cima) em declarações de petistas. Como o apartamento de R$ 586 milhões do candidato a prefeito de Verdejante (PE).
O PDT é o partido com a mais alta média de patrimônio de candidatos a prefeito: R$ 1,314 milhão por cabeça. Ela é puxada para cima por um candidato apenas, Otaviano Pivetta, um dos dois Pivettas que concorrem à Prefeitura de Lucas do Rio Verde (MT). Os R$ 321 milhões declarados pelo empresário do agronegócio não são miragem estatística. Excluídas as aberrações, ele é o mais rico dos 464.658 candidatos que aparecerão nas urnas em outubro.
O PP aparece em segundo lugar no ranking partidário dos patrimônios dos candidatos a prefeito, com média de R$ 1,266 milhão. Mas, ao contrário do PDT, essa taxa é inflacionada por um possível erro de declaração. Concorrente à Prefeitura de Vitória do Xingu (PA), Sebastião Pretinho Ferreira da Silva declarou que sua fazenda de 1 mil hectares vale R$ 500 milhões -menos de 1/10 do valor do hectare do Pastor Waldeci, mas ainda assim, um hectare muito caro.
O PSDB é o terceiro colocado no ranking da riqueza dos prefeitos, com média de R$ 888 mil. É 11% maior do que a do PT. Mas nenhum tucano parece ter errado na conta, pelo menos na casa dos milhões. Os R$ 86 milhões de Jales Fontoura (Goianésia-GO) e os R$ 60 milhões de João Andrade (Pitangueiras-SP) são oriundos de participações em grandes empresas. Em compensação, dois petistas parecem ter acrescido zeros a seus bens.
Mesmo assim, o patrimônio declarado dos tucanos cresceu proporcionalmente mais do que o dos petistas nos últimos quatro anos. Em comparação à eleição de prefeitos de 2008, a média do PSDB aumentou 16% acima da inflação, enquanto a do PT cresceu 9% além do INPC do período. Nada menos do que 18 candidatos a prefeito do PSDB têm patrimônio declarado superior a R$ 10 milhões, contra 7 do PT -dois quais dois parecem conter erros.
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Se você não conhece um candidato a vereador pessoalmente, melhor repensar sua inserção na vida política da sua cidade. Nas próximas eleições, mais de 400 mil pessoas devem se candidatar a um assento numa câmara municipal. É 1 candidato a vereador para cada 320 eleitores, na média brasileira. Ou seja, há uma boa chance de qualquer um ter um primo, um vizinho, um colega de trabalho ou escola que seja candidato.
As probabilidades, é claro, variam de lugar para lugar. Quanto maior a cidade, menor a chance. Em São Paulo, o risco de trombar com um postulante (1 em 7 mil) é uma pequena fração do que é em Araguainha (MT), com seus 21 candidatos para 925 eleitores. Isso não serve de desculpa, todavia. É improvável que a Câmara da pequena cidade matogrossense empregue um garagista com salário de R$ 23 mil -até por falta de garagem. A de São Paulo sim.
Na média, o candidato a vereador é cinco anos mais novo do que o candidato a prefeito, além de ter passado menos tempo na escola. Tem 45 anos, é homem e não chegou a completar o ensino médio. A maioria é de casados, embora 1 em cada 3 ainda seja solteiro. Tem uma boa chance de ser servidor público municipal. Se não for funcionário, é provável que seja agricultor ou comerciante. Se for mulher, dona-de-casa ou professora.
A Câmara Municipal não é a única porta de entrada para a política partidária. Nenhum dos últimos presidentes brasileiros foi vereador. Nem Dilma Rousseff, nem Lula, nem FHC, nem Itamar Franco (tentou mas não conseguiu), nem José Sarney nem Fernando Collor -muito menos os militares. O último -e talvez o único- presidente que havia sido vereador foi Jânio Quadros. OK, não é o melhor exemplo. Mas que não sirva de desencorajamento.
Se ninguém está olhando, vereadores podem se sentir à vontade para fazer de conta que compareceram a sessões nas quais nunca estiveram, a terceirizar seu voto para funcionários da Câmara e sabe-se lá mais o que. A prudência recomenda procurar conhecer pessoalmente um candidato a vereador e acompanhar o que ele vier a fazer, se for eleito. Nem que seja para ter um pistolão e se candidatar àquela vaga de garagista.
Tudo bem, seu negócio não é política e você não é muito bom em manobrar carros. Mesmo assim, as eleições municipais são mais importantes do que parecem. É muito mais do que o início de uma carreira política promissora. É a base onde todos os partidos, sem exceção, assentam suas pretensões políticas. Não há partido grande sem base municipal. Sem vereadores é difícil eleger prefeitos, e, sem prefeitos, não se elegem deputados federais.
Há uma correlação estatística quase perfeita entre a quantidade de votos para prefeito que um partido recebe e o número de representantes que a mesma sigla elege dois anos depois para a Câmara dos Deputados. O coeficiente é de 0,96 num máximo de 1. Nenhum dos maiores partidos brasileiros recebeu, em 2008, menos do que 150 mil votos a prefeito por deputado federal eleito em 2010. A proporção parece exdrúxula, mas não é.
Os prefeitos são os principais cabos eleitorais dos deputados. Sem algumas centenas de prefeitos um partido não elege uma dezena de deputados. Obviamente que o tamanho dos eleitorados governados pelos prefeitos faz diferença, mas, na média, um partido médio ou grande precisa eleger 12 prefeitos para levar um deputado à Câmara no pleito seguinte. Alguns precisam mais, outros menos.
O PT precisou de seis prefeitos por deputado; o PTB, de 20. Mas os deputados petistas foram empurrados também pela campanha de Dilma e a popularidade de Lula. O PT, portanto, é a exceção. A regra é o PMDB e o PSDB, que precisaram eleger 15 prefeitos em 2008 para cada deputado federal eleito dois anos depois. Ou o PP, que precisou de 13; ou ainda DEM e PDT, de 12; PSB e PR, de 9. Por isso, os voos partidários em 2014 decolam este ano.
Na política brasileira, há dois astros (PT e PSDB) em torno de qual orbitam quase todas as outras siglas. O número de satélites varia em função de qual dos dois está no poder ou na oposição. A grande exceção, por ora, é o PMDB, que tenta ser o fiel da balança sem o qual é impossível governar. Mas há duas novidades em cena, disputando o papel dos protagonistas.
O PSB de Eduardo Campos pretende em 2014 (mais difícil) ou em 2018 (mais provável) se tornar um astro com candidato a presidente viável. E o PSD de Gilberto Kassab quer ser o novo PMDB. O sucesso ou fracasso desses planos depende, principalmente, do desempenho de PSB e PSD nas próximas eleições. Para chegarem ao estrelato, precisarão eleger mais prefeitos do que têm hoje. Por isso 2012 é a mãe de todas as eleições.
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Na Rio+20, Lula não passou recibo da avalanche de críticas. Fez piada da foto com Paulo Maluf, dizendo que seu retrato com Dilma Rousseff seria “ambientalmente correto”. Sobre a aliança com o antigo adversário, saiu-se com uma meta-referência: “Pior seria se não houvesse repercussão”. É a versão ambientalmente correta do “falem mal mas falem de mim”, que notabilizou o jeito malufista de ser.

Se o mais importante é vencer, Lula tem razão. Como disse Fernando Henrique Cardoso, também na Rio+20, “(a foto) só terá impacto eleitoral se a oposição usar. Mas nem todos podem usar”. José Serra (PSDB) tem lá seus aliados incômodos, a exemplo do PR de Valdemar Costa Neto. A missão de criticar sobra para as linhas auxiliares tucanas, mas seu tempo de TV é escasso -pela falta de alianças com outros partidos.
Lula, pelo dito, não se arrepende de ter imposto a aliança com Maluf. Nem mesmo de ter posado para os fotógrafos na casa do ex-inimigo. Afinal, pelo raciocínio do ex-presidente, o único problema de seu candidato a prefeito paulistano, Fernando Haddad, é o desconhecimento. Logo, um episódio que rende manchetes mais ajuda do que atrapalha, pois puxa o pupilo do anonimato para a ribalta -não importa em que papel.
Se Haddad ganhar a eleição, Lula corre o risco de ser chamado de gênio -maquiavélico, mas gênio-, por ter arquitetado e implementado uma estratégia criticada por todos. Como aconteceu com Getúlio Vargas, vai ter quem diga “esse pernambucano é mineiro”. Se Haddad perder, a derrota será compartilhada. É o clássico “eu ganho, nós perdemos”.
A eleição de outro neófito pinçado por Lula seria a confirmação de sua doutrina: prévias partidárias são uma bobagem; a coerência política que importa é ganhar sempre; o aliado faz a hora e vice-versa. Seja qual for o resultado da eleição, Lula marcha para o caudilhismo getulista, e o PT, obediente, evoca cada vez mais o antigo PTB. Não existe vitória grátis.
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A metáfora da corrida de cavalos para representar a campanha eleitoral é mais apropriada do que a sua vulgarização pode sugerir. Como no turfe, os candidatos precisam dosar suas forças e traçar suas estratégias com precisão para não arrancar antes da hora nem se deixar “encaixotar” no pelotão intermediário. Tanto um erro quanto o outro pode impedir o maior favorito de cruzar o disco em primeiro lugar.
Na eleição paulistana, José Serra (PSDB) surgiu nas primeiras pesquisas como barbada, tão à frente dos demais que só caberia prognóstico para o segundo colocado da dupla vencedora. Mas o apostador experiente sabe que cânter não ganha páreo. Galopar garboso na apresentação ao público não é garantia de bom desempenho quando o chicote começa a vibrar. E a semana não foi nada boa para o haras tucano.
A um custo ainda difícil de contabilizar, o stud petista tirou um grande peso da sela de Fernando Haddad. Na última hora, cooptou o PP de Paulo Maluf, formalizou a aliança com o PSB de Luiza Erundina e ultrapassou todos os rivais em tempo de propaganda no rádio e na televisão. O apoio malufista se deu em troca da Secretaria de Saneamento do Ministério das Cidades -responsável por programas de esgoto e lixo. Sem comentários.
Nas contas dos repórteres Daniel Bramatti e Julia Duailibi, o candidato a prefeito do PT deve aparecer em 107 inserções de 30 segundos por semana a partir de agosto. Ou seja, 15% a mais do que Serra e quase 50% a mais do que Gabriel Chalita (PMDB). Isso significa só uma coisa: Dilma Rousseff e Luiz Inacio Lula da Silva fizeram a parte deles. Cabe a Haddad mostrar se tem força para atropelar na reta final ou se é o matungo que os adversários tentam pintar.
A chapa petista-malufista-socialista (e, talvez, comunista, se o PC do B também aderir) é o melhor exemplo da grande zona cinzenta que é a política brasileira. Enxergar branco e preto num cenário desses é miragem. Vale lembrar que Maluf estava mais perto da cocheira tucana até ser seduzido pelo churrasco de verbas petista. E que o impoluto PR de Valdemar Costa Neto segue firme no bridão do PSDB paulista.
Esse é o jogo político-eleitoral brasileiro. Joga quem quer, ganha quem pode. E quem não pode denuncia -pelo menos até passar a poder.
A perda da aliança com o PP não custou apenas algumas inserções comerciais a Serra. Produziu um desconforto no campo tucano. Segundo o noticiário, Geraldo Alckmin não quis dar os cargos estaduais reivindicados por Maluf, o que teria empurrado o ex-prefeito para o colo adversário. Administrativamente defensável, a atitude do governador ressuscita velhos murmúrios sobre lealdades e traições que remontam à eleição de 2008, quando ele estava no papel de Serra, e o correligionário apoiou veladamente Gilberto Kassab, então no DEM.
Nada indica que sejam mais do que fofoca, mas tais intrigas bastam para dar a impressão de que uma campanha perde confiança, enquanto a do adversário ganha ritmo. É um jogo psicológico restrito a candidatos, articuladores e assessores -que, por enquanto, a grande maioria dos paulistanos não está nem aí para a eleição. Mas é o que alimenta o blablablá político até a corrida começar para valer.
Pela lei, a campanha eleitoral só começa em julho. Para o eleitor desengajado, a largada é em agosto, com a entrada no ar do horário eleitoral obrigatório. O calendário já condicionou o eleitorado. Raras vezes uma campanha mobiliza corações e mentes antes de o palanque eletrônico entrar no ar. Uma dessas exceções ocorreu na sucessão de Lula.
A eleição de 2010 começou a tomar corpo muito antes da propaganda formal. O principal motivo foi a campanha desabrida que o ex-presidente fez por sua candidata desde muito antes da votação. A frequência com que Lula repetiu o nome de Dilma em palanques, inaugurações, discursos e festas de aniversário é inédita na história moderna do Brasil. A oposição reagiu indignada, esquentou o debate e, sem querer, ajudou Lula a promover a desconhecida Dilma.
Tudo muito diferente do que nesta morna eleição paulistana. Fora da Presidência, Lula não teve palanque nem saúde para repetir o nome do desconhecido Haddad como fez com Dilma. A campanha não empolgou ninguém. Vai sobrar tudo para a TV. Por isso, os minutos de propaganda ganhos por Haddad via PP e PSB valem muito mais do que os 8% a que ele chegou no Datafolha esta semana.
A corrida eleitoral paulistana será curta, sem curvas. Ganha quem alcançar momentum no final.
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Marta Suplicy (PT-SP) virou notícia por contrariar um dogma da política: está lavando roupa suja em público. Inconformada com o chega-pra-lá de Lula, não disfarça sua indignação por ter sido afastada da disputa pela Prefeitura de São Paulo sem nem sequer ter ido a voto. Por palavras, atos e omissões ela deixa claro que não vai gastar seus saltos altos pelo ungido do ex-presidente. É um direito da senadora. Marta deve saber o risco que assume.
Se Fernando Haddad entrar para a história como o primeiro petista a não chegar ao segundo turno paulistano, o PT não precisará procurar bode expiatório -Marta já assumiu o papel. Em caso de derrota, pouco importa que a culpa seja do próprio candidato e de seu padrinho, vai sobrar para a senadora. Em caso de vitória, será apesar de Marta. Ou seja, a ex-prefeita satisfaz seu orgulho ferido, mas se enfraquece policamente com qualquer resultado.

Na prática, que diferença faz se Marta vai ou não à cerimônia de lançamento da candidatura de Haddad? Fora a simbologia, nenhuma. Haddad vai mal nas pesquisas de intenção de voto porque é desconhecido do eleitorado. O PT não conseguiu fazer mais alianças até agora para aumentar seu tempo de propaganda na TV por dificuldades que nada têm a ver com a ex-prefeita. Se ela tivesse ido à cerimônia, esses problemas permaneceriam.
A única coisa que a ausência de Marta na campanha de Haddad prova é que a escolha de cima para baixo causa tantos desgastes quanto uma disputa aberta -ou até mais. Depois do semi-fiasco nas prévias tucanas que referendaram seu nome como candidato a prefeito, José Serra não teve que responder mais perguntas sobre divisão interna do PSDB. O tucano mudou de marcha e avançou nas coligações. Enquanto isso o PT patina.
Não convencida de que cometeu um erro estratégico em São Paulo, a cúpula petista repete a intervenção autoritária no Recife. Enterra de vez a tradição de fazer prévias para escolher seus candidatos. O PT se arrisca a inverter a máxima: ao renegar a própria história, está sujeito a não repeti-la.
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O PMDB é, ao mesmo tempo, o segundo maior partido governista e a terceira maior força da oposição na Câmara dos Deputados. Morde uma vez para cada nove assopradas, mas nunca deixa de fazê-lo. É um lembrete à presidente Dilma Rousseff de que seu apoio depende de compensações. Uma mordida do PMDB dói mais do que as muitas dentadas da oposição. Sua mandíbula tem força para virar o jogo no Congresso.
Levantamento feito pelo Estadão Dados a partir do Basômetro mostra que o partido do vice-presidente da República foi responsável por 17% dos votos a favor do governo em 102 votações nominais na Câmara. Só ficou atrás dos petistas, que deram 22% dos votos governistas.
Nessas mesmas votações, todavia, 8% dos votos contra o governo vieram de peemedebistas. E não partiram de uns poucos rebeldes: na maioria das vezes que o fizeram, os deputaddos do PMDB votaram contra o governo orientados por seu líder. Só PSDB (30%) e DEM (20%) tiveram uma fatia maior no total de votos oposicionistas. Mas os 8% peemedibistas foram oportunamente desfechados, e resultaram em mais estrago aparente.
Três mordidas do PMDB levaram Dilma a três revezes no Código Florestal. A fatura foi emitida em nome da multipartidária frente agropecuária, mas seus integrantes não são nem mais nem menos oposicionistas do que a média da Câmara. Fora essas três ocasiões, nunca mostraram os dentes em plenário. Se atacaram durante a votação do Código Florestal é porque tiveram a ajuda indispensável da cúpula do PMDB, que orientou seus deputados a votarem contra o governo.
Nem sempre, porém, as dentadas peemedebistas conseguem virar uma votação contra a maioria governista. Quando a regulamentação das tarifas aeroportuárias foi a voto, o PMDB tentou isentar empresas concessionárias de aeroportos. Perdeu, graças a uma associação inédita de petistas e tucanos, que se uniram contra a mudança.
Se a mordida do PMDB não é suficiente para impor uma derrota a Dilma, ela é uma condição absolutamente necessária. Nenhuma das votações perdidas pela presidente, na Câmara ou no Senado, ocorreu sem que a maioria dos parlamentares peemedebistas votasse contra o governo. O PMDB é o único partido capaz de mover o equilíbrio do Congresso em favor da oposição. Mas há outros ensaiando para esse papel.
Desde a “faxina” ministerial, o PR está em crise de identidade. É da base governista, mas ensaia bandear-se para a oposição. Às vezes ameaça, em outras vai às vias de fato. Dos que participam do governo, é o partido mais infiel: 1 voto contra para cada 4 votos a favor de Dilma. Mas está longe de ter o poder de coerção do PMDB. Além de porte, falta ao PR senso de oportunidade. Seus deputados tentaram impor derrotas ao governo nas votações da Lei Geral da Copa e de subsídios para estocagem de etanol. Acabaram sempre do lado perdedor.
O PSD do prefeito paulistano Gilberto Kassab também almeja virar fiel da balança. Ora vota com Dilma, ora contra ela. Mas esse vaivém não desempatou nenhuma votação. Por enquanto, só o PMDB ladra, morde e tira pedaço.
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A maioria dos partidos brasileiros sofre de “caudismo” crônico. A divergência entre seus deputados é tão grande que a cauda formada pelos dissonantes é mais pesada do que o corpo partidário. Se fossem répteis, essas siglas seriam serpentes. A dispersão dos votos dos deputados de um mesmo partido começa no mais desapegado governismo e termina em destemida oposição. Pode significar tudo, menos coesão ideológica.
O caso mais extremo de “caudismo” é o do PSD, que foi pensado para ser assim. Seu fundador definiu o PSD como um partido que não está nem à direita, nem à esquerda, nem no centro. Proféticas palavras. Quântico, o PSD está em todo lugar ao mesmo tempo. E não está sozinho. O “caudismo” não tem lado. Vai da oposição à base governista, do DEM ao PDT, do PPS ao PR, passando por PP e PV.
O Basômetro, desenvolvido pelo Estadão Dados, revela que a taxa de governismo da bancada do PSD na Câmara está em 86%. Mas um único número não traduz o comportamento dos pesedistas. Essa taxa embute um desvio padrão que é sete vezes maior do que o do PT, o mais coeso dos grandes partidos. O governismo do PSD varia dos 95% de votos pró-Dilma de João Lyra (AL) até os 36% de Nice Lobão. A independente deputada maranhense é mulher de Edison Lobão, ministro das Minas e Enegia.
Nice Lobão não está sozinha no lado oposicionista do PSD: 7 deputados do partido votaram mais vezes contra o líder do governo na Câmara do que seguiram sua orietanção. Na outra ponta, oito pessedistas obedeceram o governo em mais de 90% das vezes. E o resto dos deputados do partido ficou no meio do caminho, entre um extremo e outro, sem deixar espaço vazio no espectro de governismo. O corpo de votos tem o formato de uma cauda.
O fenômeno se explica pela origem dos deputados do PSD. Eles foram eleitos por outras legendas, e só se juntaram na nova sigla em outubro do ano passado. Os que emigraram do PMDB, do PR e do PTB, como João Lyra, carregavam na bagagem de votações uma alta taxa de governismo. Já os que vieram do DEM, como Nice Lobão, tinham um passado oposicionista.
Depois que o PSD formou sua bancada na Câmara, o comportamento de seus deputados tornou-se majoritariamente governista, votando quase sempre de acordo com a vontade de Dilma. Nas 26 votações nominais ocorridas entre outubro e dezembro do ano passado, a taxa de governismo do PSD foi de 97%: 45 dos 48 deputados do partido votaram com o governo em mais de 90% das vezes. Mas isso mudou no começo deste ano.
Desde fevereiro, aumentaram os votos oposicionistas do PSD. Só sobraram dois pessedistas no “núcleo duro” do governo na Câmara. Na média, a taxa de governismo do PSD caiu de 97% para 68%. A causa dessa mudança de comportamento é a eleição municipal. Em fevereiro, o presidente do partido, Gilberto Kassab, trocou a aliança com o PT em São Paulo pelo apoio a José Serra, do PSDB. A troca de aliado refletiu-se em outras cidades.
Seria injusto dizer que o PSD inventou o “caudismo”. Ele só aperfeiçou-o. Tome-se o partido de onde migraram mais pessedistas, o DEM. Nas 53 votações nominais anteriores à defecção de seus parlamentares para o PSD, o DEM tinha uma taxa média de governismo de apenas 22%. Só 4 de seus 43 deputados tinham votado mais de metade das vezes com o governo. Desde então, o governismo do DEM subiu para 29%, e 5 demistas deram mais de 50% dos seus votos para Dilma. Um deles, Lael Varela, é um renitente membro do “núcleo duro” do governo: tem 100% de votos pró-Dilma em 2012.
É tentador identificar o “caudismo” como um reflexo do comportamento caudatário que a maioria dos partidos tem em relação ao governo. Afinal, apenas 4 das 23 legendas com representação na Câmara podem dizer que fazem oposição a Dilma. Na média, suas bancadas votaram mais de metade das vezes contra o governo em 98 votações nominais: PSDB (78% de oposicionismo), DEM (74%), PSOL (72%) e PPS (66%).
Mas enquanto PSDB e PSOL são razoavelmente coesos nos votos de seus deputados, os outros dois sofrem de “caudismo”. Entre os deputados do PPS, a taxa de governismo varia dos 25% de Roberto Freire (SP) a mais do que o dobro disso, como é o caso de Almeida Lima (SE), que votou mais vezes com o governo do que contra ele. O desvio padrão dos votos da bancada do PPS é 26% maior do que a dos tucanos, por exemplo.
Não é coincidência que PT e PSDB, os partidos que polarizam a política brasileira há 18 anos, estejam entre os mais coesos. Nem que PSB e PMDB, que buscam romper essa polarização, rivalizem com eles em coesão.
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