O valor do minuto de propaganda eleitoral disparou na semana passada – e é sua cotação que vai determinar o destino dos candidatos a presidente daqui para frente. A oscilação afetou diretamente as chances de Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). Como? Em tempo. Antes, um passo atrás para olhar o contexto desse sobe-e-desce de preços.
Com o aumento do ruído de fundo e das tentações eletrônicas, a atenção do público perde-se à deriva. O cidadão é mais disperso e menos atento na razão da densidade de suas conexões. Quanto mais envolvido pelos quintiliões de bits e bytes que o novo mundo digital produz diariamente, mais difícil é para cortar pelo cipoal de dados e encontrar significado e rumo através da selva de textos, telas e fragmentos de informação.
Essa tendência está mudando as campanhas eleitorais. O tempo pelo qual o eleitor é capaz de se concentrar no tema da eleição e decidir seu voto é progressivamente mais curto. A cada pleito, o período decisório dos sem-candidato – quando o eleitor menos interessado informa-se para definir em quem votará – é tanto mais breve quanto mais próximo do dia de ele ir à urna.
Pudera ser quase impossível encontrar candidato que sobreviva à reta final da campanha eleitoral sem um estoque mínimo de tempo para propaganda de TV. E a nota de corte sobe a cada eleição: mais e mais minutos são necessários para o candidato superar intenções de voto liliputianas e assomar acima dos nanicos.
Nesse cenário, levam vantagem candidatos que têm um eleitorado cativo e se beneficiam da inércia do voto. Não basta ser muito conhecido, porém. É preciso ter marca forte e rejeição desproporcional ao grau de conhecimento, ou o candidato cai no paradoxo serrano: quanto mais aparece, menos eleitores têm. A rejeição alta – como a falta de tempo de TV – é eliminatória.
Mesmo os candidatos conhecidos batalham por mais tempo de propaganda. Se não para eles próprios aparecerem, para impedir que os adversários apareçam. Essa é a batalha em curso, e que antecipa a sucessão de 2014. Quem já tem muito tempo, como a presidente, tenta amarrar as alianças para não deixar preciosos minutos escaparem para a oposição. Quem não tem corre atrás.
Dilma é assombrada pela inflação também de aliados. Por proteção, a presidente fez um caxangá ministerial na quinta-feira: tirou Brizola Neto (PDT) do Trabalho, pôs um mineiro na Agricultura e deixou o peemedebista Moreira Franco ficar, mas num posto menos decorativo. Tudo para reforçar a aliança com o PMDB e tentar resgatar os fugidios e divididos pedetistas.
O equilibrismo presidencial amarrou os dois minutos e meio do PMDB, deu um laço nos 45 segundos do PDT mas deixou escapar o minuto e quarenta do PSD de Gilberto Kassab. O ex-prefeito percebeu que a cotação do tempo de TV está em alta e comprou uma opção de venda futura quando, aposta, o apoio de seu partido valerá mais do que o microministério oferecido por Dilma.
A manobra especulativa não foi só de Kassab. O PPS tenta reverter sua decadência eleitoral fundindo-se ao nanico PMN. Mesmo juntos, os dois partidos têm poucos segundos a oferecer em tempo de TV a um presidenciável. Mas a criação da nova sigla abre a Caixa de Pandora da fidelidade partidária: deputados de outros partidos podem aderir sem perder o mandato – foi a jurisprudência criada pelo TSE ao julgar o caso do PSD.
O PPS+PMN aposta que atrairá deputados de outras siglas se a nova legenda estiver aliada ao PSB de Eduardo Campos em 2014. Acha que atenderá uma demanda reprimida na Câmara. O movimento ajudaria o governador de Pernambuco a alcançar o mínimo de 12% do tempo de TV (98% dos candidatos a prefeito que não atingiram esse patamar não se elegeram nem chegaram ao 2º turno em 2012).
Quem mais tem a perder com a fusão é Aécio Neves. O tucano não apenas perderia os segundos de TV do PPS, como veria a candidatura oposicionista de um rival ganhar viabilidade eleitoral. Potenciais aliados, como PTB e DEM, poderiam se sentir tentados a embarcar na canoa reforçada de Campos. Pior, tucanos dissidentes poderiam pular fora do barco de Aécio.
“Mineiro” à la Getúlio Vargas, o ex-governador de Minas gostaria de esperar em cima do umbuzeiro até a undécima hora – e só saltar para a campanha presidencial quando as condições lhe fossem ideais. Mas tem tucano serrando o tronco do umbuzeiro.
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Mudam divisórias, PT e PSB ganham mais espaço, PMDB e PSDB perdem salas, mas as estruturas do edifício do poder continuam inalteradas no Brasil. Os petistas ocupam a cobertura há 10 anos, mas o resto do prédio é dividido entre 30 condôminos. O PT elege o síndico, mas não administra o condomínio sem ceder poder a outros. Ninguém tem hegemonia. E é bom que seja assim.
O PT sai maior das urnas, mas com direito a ocupar apenas 11% das prefeituras e a governar 20% do eleitorado local. Tudo bem que isso inclui o canto mais populoso do edifício, a sala São Paulo, mas está longe de configurar um domínio da política brasileira. O partido de Lula cresce, mas não é o único. O PSB vem na cola e tem seus próprios planos.
O partido do governador Eduardo Campos, de Pernambuco, elegeu 131 prefeitos a mais do que em 2008 e entrou para o seleto clube dos 10%: os prefeitos do PSB passarão a governar uma fatia que corresponde a 11% do eleitorado local a partir de janeiro. A sigla dobrou o que conseguira quatro anos atrás: governará 15 milhões de eleitores. Só outros três partidos estão nesse clube.
A base municipal obtida pelo PSB é necessária para o partido barganhar melhores condições numa coligação presidencial, mas, sem articulações com outras siglas, é insuficiente para lançar o governador pernambucano à sucessão de Dilma Rousseff (PT) em 2014. Por isso devem crescer as conversas de Campos com os tucanos, por exemplo.

O PSDB viu sua participação no bolo do eleitorado municipal cair de 14% para 13% nesses quatro anos. A maior queda foi a do PMDB: de 22% para 17% do eleitorado municipal. A fatia do PT cresceu de 16% para 20%. Todas essas participações são maiores do que o pedaço do bolo que está no prato de Eduardo Campos por enquanto. Mas o tamanho e a distribuição das fatias devem continuar mudando mesmo depois de terminada a apuração.
Há, por exemplo, as conversas de fusão entre o PP de Paulo Maluf com o PSD de Gilberto Kassab. O primeiro encolheu, e o segundo roubou prefeitos e prefeituras de todos os partidos médios e virou uma sigla com boa penetração nos rincões do Brasil profundo. O PSD é uma contradição em termos: cresceu mas encolheu. Os seus 497 novos prefeitos governarão, juntos, um eleitorado equivalente ao que Kassab deixará de governar.
Mesmo assim, se PSD e PP virarem PSDP ou PPSD comandarão 966 prefeituras e governarão 16 milhões de eleitores. Ficariam em segundo lugar no ranking de prefeitos e em quarto no de eleitorado a governar. Como serão, na imensa maioria, cidades pequenas, não devem movimentar muito dinheiro, mas, a depender a distribuição geográfica, têm potencial para eleger a terceira ou quarta maior bancada de deputados federais em 2014.
Colocados em perspectiva, os avanços do PT mostram que o partido de Dilma e Lula está longe de ter se tornado hegemônico: 89% das prefeituras e 80% do eleitorado municipal estarão nas mãos de outras legendas partidárias. Não dá para fazer o que bem entender na assembleia do condomínio sem colher uma reação negativa dos outros condôminos. O poder petista é consorciado. Para ser exercido continuará dependente de alianças. O edifício do poder não fica no 13 nem no 45, segue sem número.
O resultado do segundo turno em si mostra que quando o PT enfrenta um duelo dois a dois seu desempenho piora bastante. Dos 22 segundos turnos que disputaram, os petistas ganharam só em oito municípios. A taxa de sucesso foi de apenas 36%, praticamente duas derrotas para cada vitória.
Essa é uma característica do PT. Para continuar crescendo, o partido de Lula precisará fazer um esforço cada vez maior. Como elege proporcionalmente menos candidatos do que o PMDB e o PSDB, por exemplo, precisará lançar um número ainda maior de postulantes a prefeito em 2016 para aumentar sua fatia de poder municipal. Até agora tem conseguido, mas a um custo relativamente mais alto do que o de seus aliados e rivais.
O PT chegou ao posto de maior partido brasileiro graças a uma organização nacional, a um projeto de poder e a lideranças carismáticas. Seu principal concorrente, o PSDB, tem uma lição de casa mais trabalhosa. Precisa renovar suas lideranças, ajustar seu discurso eleitoral e corrigir deficiências regionais.
Das 7 centenas de prefeitos tucanos, 45% estão concentrados em São Paulo (176) e em Minas Gerais (142). Isso pode ser um problema para o PSDB eleger deputados federais em 2014, principalmente no Ceará, na Bahia e no Rio Grande do Norte.
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A taxa de reeleição dos prefeitos caiu para o nível mais baixo desde 2000, quando a disputa por um segundo mandato passou a valer pela primeira vez. Em 2012, 55% dos prefeitos que tentaram se reeleger conseguiram se manter no cargo, abaixo da taxa de 2008, de 65%. Em 2004 e 2000, as taxas foram de 58%. No total, são 1510 reeleitos e 14 prefeitos classificados para o segundo turno em 2012.
O percentual de renovação no comando das cidades também foi mais alto que nas últimas eleições municipais. Em 73% dos municípios, os eleitos não ocupam o cargo atualmente. Em 2008, a renovação foi de 60%. O levantamento foi feito pelo Estadão Dados comparando o resultado do primeiro turno com informações da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) sobre os candidatos à reeleição.
O PSB, partido que registrou o maior crescimento tanto em número de prefeitos como em eleitorado a governar a partir de 2013, teve o melhor resultado na corrida pela reeleição. Entraram na disputa 163 prefeitos da sigla e reelegeram-se 71%.
Quatro entre dez prefeitos reeleitos do PSB estão no Nordeste, mas foi em Belo Horizonte que o partido teve a sua maior conquista, ao reeleger Márcio Lacerda contra o candidato petista Patrus Ananias. A disputa mineira gerou atritos entre os dois partidos, aliados no plano nacional, e provocou rusgas públicas entre a presidente Dilma Rousseff e o senador Aécio Neves (PSDB), apoiador de Lacerda.
Prefeitos. Metade dos atuais prefeitos concorreram à reeleição em 2012, de acordo com a CNM. O PMDB foi o partido que mais lançou candidatos a um segundo mandato consecutivo (527) e também o que mais reelegeu prefeitos em número absoluto (296). Mas os peemedebistas ficaram próximos à taxa nacional de reeleição, com 56%.
O DEM registrou a segunda melhor taxa de reeleição, atrás apenas do PSB. Sete entre dez prefeitos candidatos da sigla se reelegeram. Mas o bom desempenho dos democratas fica apagado pela redução no número de candidatos à reeleição, já que pelo menos 100 prefeitos dos 500 eleitos pela sigla em 2008 debandaram para outros partidos até agora.
A maioria migrou para o novato PSD, criado em 2011 pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Por isso, o PSD também teve candidatos à reeleição nesta que é sua primeira eleição. Em Ribeirão Preto, por exemplo, a atual prefeita pelo PSD, Dárcy Vera, foi classificada para o 2º turno. O partido não soube informar o número de prefeitos que tem atualmente e por isso não foi possível checar a sua taxa de reeleição.
Ciclos. Devido à introdução recente da possibilidade de concorrer a um segundo mandato, os pleitos municipais têm intercalado ciclos altos e baixos de reeleição. Isso ocorre porque nas eleições de 2000 todos os prefeitos poderiam se candidatar novamente, marcando um ciclo alto. Assim, na eleição seguinte, o percentual dos que podiam concorrer foi menor.
As eleições de 2012 são de um ciclo baixo, após o ciclo alto de 2008. Seis entre dez prefeitos poderiam se candidatar à reeleição, mas cinco concorreram de fato. O resultado final, de 27% do total de prefeitos reeleitos, é maior que do último ciclo baixo, que ficou em 23%. Nos ciclos altos de 2000 e 2008, a taxa foi de 36% e 40%, respectivamente.
* Amanda Rossi, Daniel Bramatti, José Roberto de Toledo e Diego Rabatone
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O PMDB é, ao mesmo tempo, o segundo maior partido governista e a terceira maior força da oposição na Câmara dos Deputados. Morde uma vez para cada nove assopradas, mas nunca deixa de fazê-lo. É um lembrete à presidente Dilma Rousseff de que seu apoio depende de compensações. Uma mordida do PMDB dói mais do que as muitas dentadas da oposição. Sua mandíbula tem força para virar o jogo no Congresso.
Levantamento feito pelo Estadão Dados a partir do Basômetro mostra que o partido do vice-presidente da República foi responsável por 17% dos votos a favor do governo em 102 votações nominais na Câmara. Só ficou atrás dos petistas, que deram 22% dos votos governistas.
Nessas mesmas votações, todavia, 8% dos votos contra o governo vieram de peemedebistas. E não partiram de uns poucos rebeldes: na maioria das vezes que o fizeram, os deputaddos do PMDB votaram contra o governo orientados por seu líder. Só PSDB (30%) e DEM (20%) tiveram uma fatia maior no total de votos oposicionistas. Mas os 8% peemedibistas foram oportunamente desfechados, e resultaram em mais estrago aparente.
Três mordidas do PMDB levaram Dilma a três revezes no Código Florestal. A fatura foi emitida em nome da multipartidária frente agropecuária, mas seus integrantes não são nem mais nem menos oposicionistas do que a média da Câmara. Fora essas três ocasiões, nunca mostraram os dentes em plenário. Se atacaram durante a votação do Código Florestal é porque tiveram a ajuda indispensável da cúpula do PMDB, que orientou seus deputados a votarem contra o governo.
Nem sempre, porém, as dentadas peemedebistas conseguem virar uma votação contra a maioria governista. Quando a regulamentação das tarifas aeroportuárias foi a voto, o PMDB tentou isentar empresas concessionárias de aeroportos. Perdeu, graças a uma associação inédita de petistas e tucanos, que se uniram contra a mudança.
Se a mordida do PMDB não é suficiente para impor uma derrota a Dilma, ela é uma condição absolutamente necessária. Nenhuma das votações perdidas pela presidente, na Câmara ou no Senado, ocorreu sem que a maioria dos parlamentares peemedebistas votasse contra o governo. O PMDB é o único partido capaz de mover o equilíbrio do Congresso em favor da oposição. Mas há outros ensaiando para esse papel.
Desde a “faxina” ministerial, o PR está em crise de identidade. É da base governista, mas ensaia bandear-se para a oposição. Às vezes ameaça, em outras vai às vias de fato. Dos que participam do governo, é o partido mais infiel: 1 voto contra para cada 4 votos a favor de Dilma. Mas está longe de ter o poder de coerção do PMDB. Além de porte, falta ao PR senso de oportunidade. Seus deputados tentaram impor derrotas ao governo nas votações da Lei Geral da Copa e de subsídios para estocagem de etanol. Acabaram sempre do lado perdedor.
O PSD do prefeito paulistano Gilberto Kassab também almeja virar fiel da balança. Ora vota com Dilma, ora contra ela. Mas esse vaivém não desempatou nenhuma votação. Por enquanto, só o PMDB ladra, morde e tira pedaço.
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A maioria dos partidos brasileiros sofre de “caudismo” crônico. A divergência entre seus deputados é tão grande que a cauda formada pelos dissonantes é mais pesada do que o corpo partidário. Se fossem répteis, essas siglas seriam serpentes. A dispersão dos votos dos deputados de um mesmo partido começa no mais desapegado governismo e termina em destemida oposição. Pode significar tudo, menos coesão ideológica.
O caso mais extremo de “caudismo” é o do PSD, que foi pensado para ser assim. Seu fundador definiu o PSD como um partido que não está nem à direita, nem à esquerda, nem no centro. Proféticas palavras. Quântico, o PSD está em todo lugar ao mesmo tempo. E não está sozinho. O “caudismo” não tem lado. Vai da oposição à base governista, do DEM ao PDT, do PPS ao PR, passando por PP e PV.
O Basômetro, desenvolvido pelo Estadão Dados, revela que a taxa de governismo da bancada do PSD na Câmara está em 86%. Mas um único número não traduz o comportamento dos pesedistas. Essa taxa embute um desvio padrão que é sete vezes maior do que o do PT, o mais coeso dos grandes partidos. O governismo do PSD varia dos 95% de votos pró-Dilma de João Lyra (AL) até os 36% de Nice Lobão. A independente deputada maranhense é mulher de Edison Lobão, ministro das Minas e Enegia.
Nice Lobão não está sozinha no lado oposicionista do PSD: 7 deputados do partido votaram mais vezes contra o líder do governo na Câmara do que seguiram sua orietanção. Na outra ponta, oito pessedistas obedeceram o governo em mais de 90% das vezes. E o resto dos deputados do partido ficou no meio do caminho, entre um extremo e outro, sem deixar espaço vazio no espectro de governismo. O corpo de votos tem o formato de uma cauda.
O fenômeno se explica pela origem dos deputados do PSD. Eles foram eleitos por outras legendas, e só se juntaram na nova sigla em outubro do ano passado. Os que emigraram do PMDB, do PR e do PTB, como João Lyra, carregavam na bagagem de votações uma alta taxa de governismo. Já os que vieram do DEM, como Nice Lobão, tinham um passado oposicionista.
Depois que o PSD formou sua bancada na Câmara, o comportamento de seus deputados tornou-se majoritariamente governista, votando quase sempre de acordo com a vontade de Dilma. Nas 26 votações nominais ocorridas entre outubro e dezembro do ano passado, a taxa de governismo do PSD foi de 97%: 45 dos 48 deputados do partido votaram com o governo em mais de 90% das vezes. Mas isso mudou no começo deste ano.
Desde fevereiro, aumentaram os votos oposicionistas do PSD. Só sobraram dois pessedistas no “núcleo duro” do governo na Câmara. Na média, a taxa de governismo do PSD caiu de 97% para 68%. A causa dessa mudança de comportamento é a eleição municipal. Em fevereiro, o presidente do partido, Gilberto Kassab, trocou a aliança com o PT em São Paulo pelo apoio a José Serra, do PSDB. A troca de aliado refletiu-se em outras cidades.
Seria injusto dizer que o PSD inventou o “caudismo”. Ele só aperfeiçou-o. Tome-se o partido de onde migraram mais pessedistas, o DEM. Nas 53 votações nominais anteriores à defecção de seus parlamentares para o PSD, o DEM tinha uma taxa média de governismo de apenas 22%. Só 4 de seus 43 deputados tinham votado mais de metade das vezes com o governo. Desde então, o governismo do DEM subiu para 29%, e 5 demistas deram mais de 50% dos seus votos para Dilma. Um deles, Lael Varela, é um renitente membro do “núcleo duro” do governo: tem 100% de votos pró-Dilma em 2012.
É tentador identificar o “caudismo” como um reflexo do comportamento caudatário que a maioria dos partidos tem em relação ao governo. Afinal, apenas 4 das 23 legendas com representação na Câmara podem dizer que fazem oposição a Dilma. Na média, suas bancadas votaram mais de metade das vezes contra o governo em 98 votações nominais: PSDB (78% de oposicionismo), DEM (74%), PSOL (72%) e PPS (66%).
Mas enquanto PSDB e PSOL são razoavelmente coesos nos votos de seus deputados, os outros dois sofrem de “caudismo”. Entre os deputados do PPS, a taxa de governismo varia dos 25% de Roberto Freire (SP) a mais do que o dobro disso, como é o caso de Almeida Lima (SE), que votou mais vezes com o governo do que contra ele. O desvio padrão dos votos da bancada do PPS é 26% maior do que a dos tucanos, por exemplo.
Não é coincidência que PT e PSDB, os partidos que polarizam a política brasileira há 18 anos, estejam entre os mais coesos. Nem que PSB e PMDB, que buscam romper essa polarização, rivalizem com eles em coesão.
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O PSD kassabista tem poder de personagem de história em quadrinhos. Contamina os partidos do qual se aproxima com sua capacidade quântica, a de não estar em nenhuma e estar em todas as posições do espectro político simultaneamente. O alvo da vez é o PT.
Selada a parceria psdo-petista em São Paulo, a candidatura de Fernando Haddad se contorcionará para fazer uma campanha de oposição que defende a situação. Bom para Gilberto Kassab, cuja gestão aprovada por só 2 em cada 10 eleitores paulistanos terá de ser defendida pelo ex-futuro crítico -feito aliado por Lula.
Em troca de um apoio virtual da bancada federal do PSD ao governo Dilma, o prefeito paulistano ganhará espaço na propaganda eleitoral compulsória para lavar sua imagem. De quebra, Kassab ainda pode receber uma cadeira em Brasília para se encostar após a eleição.
Com tantos bônus, que é que custa enfrentar mais uma vaia de petistas durante a festa de aniversário do neo-aliado? Quase nada. Os apupos entraram por um ouvido e saíram pelo bolso, convertidos em moeda de troca para Kassab.
Parece uma barganha desigual. O PT troca tudo isso por um apoio parlamentar que, na prática, já tem. Afinal, boa parte dos deputados que se bandearam para o PSD o fez justamente por não ver muita vantagem em continuar militando na oposição.
Talvez haja outra variável no cálculo. Será que diante do apoio de Lula, Dilma Rousseff e do PT, o PSD ganha mais força junto à Justiça eleitoral? O partido tem uma ação em curso no TSE cuja vitória beneficiaria todas as siglas coligadas a ele nas próximas eleições -inclusive candidatos petistas.
A assessoria do Tribunal Superior Eleitoral defende o direito do recém-criado PSD de ter acesso ao dinheiro do Fundo Partidário e -melhor- ao tempo de propaganda eleitoral compulsória na proporção de sua bancada parlamentar. São minutos preciosos para Haddad numa eleição nivelada pelo desconhecimento dos candidatos junto à população.
O processo precisa ser julgado logo para valer nesta campanha. Quem não acredita na independência entre os Poderes pode desconfiar que a aliança psdo-petista pode ter a ver com o julgamento do caso. Céticos!
Nem tudo são votos favoráveis nessa aliança inusitada, todavia. Há o pequeno problema da opinião pública: 4 em 10 eleitores acham a gestão Kassab ruim ou péssima. E a rejeição ao manda-chuva do PSD beira os 60% entre os eleitores que manifestam espontaneamente intenção de votar num candidato petista.
O prefeito se dá nota 10, mas recebe nota 4,6 da população. Segundo o Datafolha, 46% não votariam no candidato apoiado por Kassab. O percentual chega a 59% entre petistas.
Kassab é um peso pesado que pode arrastar aliados para o fundo. Será especialmente difícil de carregar para Haddad, que ainda precisa convencer a militância petista de que ele é o cara. Curiosamente, o PT -ou melhor, Lula- escolheu Haddad justamente por ele não somar rejeição pessoal à rejeição partidária.
Após eleger Dilma, Lula deve apostar que, com bastante propaganda, pode transformar qualquer um em algo palatável. Até Kassab.
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Os poderes quânticos do PSD também têm o efeito oposto, de transformar o indeciso PSDB num partido de oposição. A aliança Kassab-Haddad enfraquece pré-candidatos tucanos que vão melhor na base pró-kassabista, como Andrea Matarazzo, e ajuda os mais fortes entre os oposicionistas, como Bruno Covas. Coisa de história em quadrinhos.
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Os dois mais estridentes partidos de oposição estão deitados, um no leito hospitalar e o outro no divã. O DEM sofre de anorexia política: está à beira da inanição, mas olha-se no espelho e vê uma imagem engordada de si próprio. O PSDB ensaia nova crise de identidade e liderança. Motivos para o governo de Dilma Rousseff comemorar? Certamente não.
O DEM foi a sigla mais afetada pela criação do PSD. Perdeu muitos de seus poucos deputados, prefeitos e senadores. Presidente do partido, Agripino Maia (RN) vê mais ganhos do que perdas: “Estamos não só recuperando nossas forças, mas ficando mais fortes”. Acredita quem quiser.
Só é difícil compartilhar a fé do senador e crer em aritmética ao mesmo tempo. Contas não fecham. O ex-PFL tende ao nanismo porque confundiu reunião de diretório partidário com encontro de família, a admissão controlada pelo sobrenome. Por mais numerosos que sejam, Maias e Magalhães não compõem, sozinhos, um partido nacional.
De todas as declarações do senador sobre o destino da agremiação que comanda, a mais verossímil é que o partido elegerá mais prefeitos e vereadores do que tem hoje. Questão de probabilidade: a chance de a afirmação estar certa é inversamente proporcional à base de comparação. Mesmo assim, o DEM terá que superar a inércia. Trocar o nome do partido, talvez?
No PSDB, o problema também é decidir quem manda e quem obedece. Os tucanos paulistas não dedicaram nenhum minuto de sua propaganda gratuita na TV ao seu senador, Aloysio Nunes. Tampouco citaram José Serra. “Vamos bem”, ironizou Aloysio no Twitter. Serra não passou recibo -em público.
Apesar da fama de que não frequenta restaurante com cardápio para não ter que decidir, o governador Geraldo Alckmin (SP) fez seu prato e não quer dividi-lo com os serristas. Em vez de se opor, Alckmin aceita a aproximação de Dilma. Elogia a presidente em público e faz parcerias com o governo federal. Verbas em vez de verbo.
Enquanto Serra, Alckmin e Aécio Neves medem-se para ver quem estará onde na cédula eletrônica em 2014, a cúpula tucana faz pesquisas e seminários para encontrar um rumo. Segundo marqueteiros contratados pelo partido, o problema é de imagem: o eleitor quer a social-democracia, mas não a identifica com o PSDB, que a leva no nome.
Por mais científica que seja a metodologia que levou a essa conclusão, é difícil imaginar uma discussão na fila do ônibus no Parque D. Pedro (ou na Cinelândia) em que um emergente pergunta ao outro: “Onde estão os sociais-democratas deste país?”
A ala intelectual do PSDB buscou respostas em outra freguesia. Após seminário patrocinado por Fernando Henrique Cardoso, a pesquisadora norte-americana Frances Hagopian disse que os tucanos deram um primeiro passo à direita. E “podem se destacar, nesse espaço de centro-direita, se tiverem coragem”. Ao que FHC comentou: “Não foi provocação. Ela disse a verdade”.
Esses fragmentos do noticiário da semana passada evidenciam que o maior partido de oposição do Brasil não tem claro se quer mesmo ser contra o governo, se segue pela direita ou pela esquerda, nem sabe quem vai liderá-lo no caminho. De novo.
Petistas podem se divertir, mas Dilma não tem motivo para comemorar. Quanto mais enfraquecida a oposição formal, mais forte a oposição interna. O PMDB e sua linha-auxiliar, o PSD, crescem às custas do DEM e do PSDB. Mais anêmicos os partidos de oposição, maior o cacife da base dita aliada, maior a chantagem, maior o fisiologismo.
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É difícil seguir a bússola verbal do recém-criado PSD. Às vezes ela aponta para o centro, às vezes para a esquerda e a direita ao mesmo tempo, e até para lugar nenhum. Melhor do que guiar-se pelo que dizem os ponteiros do 28º partido brasileiro, é seguir o que eles fazem.
O prefeito Gilberto Kassab, por exemplo, já foi malufista, liberal, democrata, serrista. Em comum, o permanente voo de mariposa em torno do calor emanado pelo poder. Nada mais natural, portanto, que seu novo partido seja criado para se aproximar do governo federal petista sem se afastar do governo estadual tucano.
Kassab tem faro de sabujo para detectar quando um astro da política está perdendo a força e rapidez de neutrino para achegar-se à fonte de poder emergente. É uma atração irresistível pelo centro, não importa quem esteja nele. Oposição, só como contingência temporária.
É de acreditar que Kassab e os 40 e tantos deputados contabilizados pelo PSD compartilhem a mesma aderência ideológica. Não chega a ser um novo “centrão” -a frente pluripartidária que comandou votações importantes do Congresso Constituinte-, mas ambiciona reformar pontos nada específicos da Constituição.
Líder ruralista da sigla, a senadora Katia Abreu deve propor uma assembleia constituinte, paralela ao Congresso Nacional, para mudar as cláusulas que sustentam os sistemas político, trabalhista e previdenciário. É claro que, uma vez instalada, seus limites podem se estender a temas como a função social da terra.
Como se vê, o PSD pretende-se protagonista. Se apresenta ao governo -qualquer governo- como alternativa ao PMDB, o centro da política brasileira desde a redemocratização. Mas para ocupar o núcleo do poder, Kassab & cia. precisarão de muita musculação. Dois votos no Senado é tanto quanto têm o PC do B e o PSOL. Só ajuda quando não atrapalha.
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Cem dias sem dores. Mas soou o gongo e a disputa vai começar. A manifestação de milhares de ruralistas e a reclamação de centenas de prefeitos em Brasília foi o aquecimento. Aécio Neves (PSDB) tenta marcar oposição desferindo o primeiro “punch” em previsível discurso no Senado.
Acabou a lua-de-mel de Dilma Rousseff na Presidência.
De todos os movimentos oposicionistas, o mais insinuante vem de dentro da base aliada. A aproximação do governador Eduardo Campos (PSB-PE) com uma facção da enésima versão da Arena (já foi PFL, PL, DEM e agora PSD) é vendida como cooptação de parte da oposição para ajudar Dilma.
Mas, como diria Miguel Arraes, avô do governador pernambucano, jabuti não sobe em árvore. Se está lá é porque alguém colocou. Acreditar que Gilberto Kassab, Afif Domingos, Katia Abreu e Índio da Costa viraram groupies da presidente é crer em tartaruga ninja trepadeira.
Os apropriadores da sigla que elegeu Juscelino Kubitschek estão de olho em uma fatia da classe média que votou com ressentimento na eleição de 2010. “A classe média -que constrói o nosso País à (sic) cada dia- carece de representação partidária efetiva. PSD ocupará esse campo”, tuitou Índio.
São os brasileiros que viram se aproximar uma legião de emergentes compradores dos símbolos de status que antes os diferenciavam das classes D e E. Ao olhar para cima, a classe média tradicional se viu com menos chances de subir à classe A. Ficou mais longe de ser elite.
Comparativamente aos outros, o governo Lula foi um retrocesso para veteranos da classe média. Seu custo de serviços disparou: escola particular, telefonia, internet e TV paga. Ao mesmo tempo, passaram a disputar com uma multidão um lugar no avião e no trânsito, muitas vezes com os emergentes dirigindo carros mais novos do que o seu.
Dificilmente esse segmento social votará em um candidato do PT. O PSDB tampouco tem sido um porta-voz convincente da sua insatisfação. O DEM, por mais vezes que tenha trocado de sigla, só muda o prenome de seus caciques e recende a naftalina. Daí o PSD, e a evocação dos anos dourados de JK, quando essa classe média se formou.
O problema de Eduardo Campos não é sociológico, mas geográfico. Forte no Nordeste, onde conseguiu surfar a maré social emergente, o PSB patina nos maiores colégios eleitorais do País. Para se tornar um jogador nacional e ter aspirações presidenciais, Campos e o PSB precisam colocar uma cunha na principal base de petistas e tucanos: São Paulo.
Por alguma razão, apostam que Kassab e Afif têm chances de casar viúvas quercistas e malufistas e, coligados, terem um desempenho eleitoral que vá muito além dos inexpressivos 4,6% que o candidato “socialista” obteve na eleição de governador paulista em 2010. É uma aposta.
Enquanto isso, uns fazem de conta que estão reforçando a base aliada de Dilma, e os outros, fingindo que acreditam. Ou pior, acreditam de verdade.
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