A presidente Dilma Rousseff está perdendo o pé de sua popularidade. O poder de compra do consumidor que lhe dá sustentação voltou a cair, deixando a taxa de aprovação de seu governo a flutuar – nas alturas, é fato, mas a flutuar. Inércia sustenta popularidade por algum tempo, mas não indefinidamente. De duas, uma: ou o bolso do consumidor volta a encher, ou as opiniões positivas sobre Dilma podem começar a diminuir.
É cedo para a oposição comemorar com frevo e tutu de feijão orgânico, mas a situação financeira do consumidor é a menos satisfatória desde a posse de Dilma. Os que dizem que a situação é melhor do que era há 3 meses ainda são o dobro dos que acham que piorou. Mas a diferença entre os dois grupos está diminuindo. Rapidamente.
Em novembro, quando a confiança do consumidor estava no auge, 41% dos brasileiros afirmavam ao Ibope em pesquisa para a CNI que sua situação financeira havia melhorado, contra apenas 11% que diziam o contrário. Em abril, a taxa de melhora caiu a 33%, e a de piora subiu para 17%. A diferença estreitou de 30 para 16 pontos percentuais. Se os números são bons, a tendência é ruim.
Tão importante quanto o volume no bolso do consumidor no presente é o otimismo quanto ao que acontecerá com sua renda no futuro. Em novembro, 47% apostavam em melhora nos próximos seis meses. Agora, os otimistas são 36%. Ultrapassam os pessimistas por 25 pontos, mas sua vantagem caiu um terço desde novembro.
A situação financeira atual e a perspectiva do que acontecerá com a renda são os dois indicadores que guardam mais forte correlação estatística com a popularidade presidencial. Suas curvas têm mais semelhança com a sorte do governante do que as da inflação, do crescimento do PIB ou do medo do desemprego.
Não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito, porém. Garantir que é a segurança financeira do consumidor que determina a aprovação do presidente é apenas uma hipótese, mas sabe-se que ambos andam de mãos dadas. Se um oscila numa direção, o outro, mais cedo ou mais tarde, acaba seguindo no mesmo caminho. Qual vai seguir qual é questão de fé.
A oposição torce para que a confiança do consumidor puxe a popularidade de Dilma para baixo, e o governo reza no sentido oposto. Seja para onde for, as duas curvas devem convergir. Vai depender de qual santo é mais forte e tem a máquina de propaganda mais azeitada.
A insatisfação com o poder de compra aumentou mais entre os consumidores do Nordeste do que do Sudeste, e mais entre os pobres do que entre os ricos. Isso sugere uma influência grande do aumento dos preços dos alimentos. Se foi o “tomate”, trata-se de um fenômeno sazonal e não contínuo. Impossível cravar, porém.
O governo conta com o otimismo de sua base eleitoral. A euforia dos consumidores nordestinos diminuiu, mas 51% ainda estão crentes de que sua situação financeira vai continuar melhorando. Os pobres perderam menos a esperança de ver sua renda aumentar no futuro próximo do que os ricos. Manter essa chama acesa é o problema de Dilma.
Enquanto isso, Aécio Neves (PSDB-MG) assopra um balão de ensaio. O presidenciável tucano cogita propor o fim da reeleição. Brinca com fogo.
Foi o PSDB que inventou a reeleição, quando o partido ainda sonhava permanecer 20 anos no poder. Acabar com ela agora que o sonho virou pesadelo, e já a partir 2014 (o que daria anos extra de mandato para os políticos sem consentimento do eleitor), é tão casuístico quanto mudar as regras eleitorais para deixar Marina Silva sem tempo de propaganda na TV. Incoerência queima.
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Um é o mais despreocupado do mundo com a economia, nunca teve tão pouco medo de perder o emprego e está confiante de que vai poder gastar mais. O outro desconfia do futuro econômico do país, teme por seu negócio e segura investimentos. Seria irrelevante se um não consumisse o que o outro produz. Raras vezes consumidores e empresários brasileiros divergiram tanto.
Esse desencontro de pontos de vista fica claro em uma série de indicadores e pesquisas divulgados ao longo dos últimos dez dias – todos eles positivos quando o pesquisado eram os consumidores, e todos negativos quando as respostas vinham dos industriais.
O descompasso entre oferta e demanda não costuma sair de graça. Quando há mais gente disposta a comprar e não há contrapartida na oferta de produtos, o mercado tende a subir preços. Se quem demanda tem renda maior do que costumava ter, a margem de manobra fica ainda mais favorável a quem controla a oferta, e os preços tornam-se especialmente altos, como no Brasil hoje.
Mas isso não tem afetado a disposição do consumidor de fazer o que aprendeu a fazer melhor: comprar. Em parte, porque o governo tem buscado compensar os aumentos de preços com redução de impostos e taxas. E também porque os salários continuam com poder de compra alto, apesar da inflação.
O índice de confiança do consumidor voltou a subir em março. Mais do que a retomada, o indicador calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra a sustentação do otimismo em patamares historicamente altos.
Pré-governo Dilma, só em dois momentos o INEC chegou aos níveis atuais: nos finais do primeiro e do segundo mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não é coincidência. A confiança do consumidor tem alta correlação com a popularidade do governante – sobem e caem juntas. Logo, não é de surpreender que o presidente busque manter o consumidor confiante quando se aproxima a eleição que decidirá quem vai sucedê-lo.
O INEC é um índice composto a partir de seis perguntas que medem a expectativa de inflação e do emprego, a satisfação com a renda atual e a perspectiva da renda futura, o grau de endividamento e os planos do consumidor de comprar bens de valores altos. Três desses fatores se correlacionam especialmente com a popularidade presidencial: os dois relativos à renda e o medo do desemprego.
Na semana passada, a CNI divulgou pesquisa mostrando que o medo do desemprego está no menor patamar da série histórica – em linha com o que mostram as taxas de desemprego. E os dois indicadores de renda que compõem o INEC só não têm performance melhor do que o do emprego. Essas são as chaves para entender a popularidade recorde da presidente Dilma Rousseff.
O brasileiro não considera mais o emprego e o salário suas principais preocupações na vida. Com a sobrevivência garantida, ele pode se ocupar de outras questões e eleger outras prioridades. Uma pesquisa feita em 56 países e divulgada na semana passada mostrou que, entre todos, o brasileiro é o mais despreocupado com a economia – a perfeita antítese do espanhol.
Indagado sobre quais os principais problemas do mundo (leia-se o mundo ao seu redor), só 14% dos brasileiros citaram problemas econômicos. A taxa não é apenas baixa, é ridiculamente baixa. O dobro de chineses, indianos e russos disseram que as questões econômicas são as que mais os preocupam.
Essa diferença entre o Brasil e os outros BRICS é a prova de que o crescimento do Produto Interno Bruto tem muito pouco ou quase nada a ver com o grau de satisfação da população. Por isso é do interesse da oposição trocar o disco – mesmo que o crescimento econômico do Brasil medido pelo PIB seja medíocre. Importante para o país, o índice é insignificante na eleição.
A mesma pesquisa global dá uma pista para os adversários de Dilma. O levantamento mostra o que mais causa preocupação no Brasil hoje: as drogas e a criminalidade – associadas ou não. Nada preocupa mais o brasileiro, e ninguém se preocupa tanto com esses problemas. Os brasileiros têm as maiores taxas de preocupação com drogas e crime entre os 56 países.
Na economia, o presidente tem todo o bônus quando acerta e todo o ônus quando erra. No combate ao tráfico de drogas, à epidemia do crack e na repressão à violência, a responsabilidade – aos olhos do público – é compartilhada entre todos os governantes: da prefeitura ao Planalto, passando pelos palácios estaduais.
O candidato de oposição que conseguir mostrar serviço nessas áreas terá agenda própria e um discurso pós-econômico. Se a economia piorar, como prevêem os empresários, ele se beneficiará junto com todos os adversários do governo, mas com a vantagem de não parecer ter torcido para que isso acontecesse.
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A maior parte dos brasileiros (38%) acha que o noticiário foi mais favorável à presidente Dilma Rousseff nos últimos três meses. Pela primeira vez desde que ela tomou posse essa fatia é maior do que a dos que consideram que houve mais notícias neutras (34%) ou negativas (17%). Dilma não é popular só por causa disso, mas a comunicação ajudou a presidente.
Das dez notícias mais lembradas pelos brasileiros nos últimos três meses, apenas uma (aumento do preço da gasolina) foi francamente negativa para o governo – e mesmo assim, foi citada por apenas 3% das pessoas.
A grande maioria foi de boas notícias para Dilma: redução da tarifa de energia elétrica, corte de impostos da cesta básica, aumento do salário mínimo, e a presença solidária da presidente em eventos trágicos, como o incêndio em Santa Maria, ou notórios, como a despedida do papa e o enterro de Hugo Chávez.
Isso mostra que a comunicação presidencial está mais ativa, seja criando fatos positivos – como o anúncio em cadeia de TV do corte de impostos da cesta básica -, seja aproveitando bem as oportunidades que aparecem. É mais um sinal de que a campanha eleitoral de 2014 começou e com força, ao menos para Dilma.
Comunicação é o que as pessoas entendem, não o que quem falou pensa ter dito. Por enquanto, o governo está dando um banho na oposição nesse quesito. O anúncio da redução da tarifa de eletricidade, por exemplo, foi cinco vezes mais lembrado do que o noticiário sobre o pibinho. Talvez porque um afete diretamente o público, e o outro não.
Não por coincidência, o único segmento social onde a popularidade de Dilma aumentou foi entre os mais pobres, justamente aqueles que mais se beneficiam do aumento do salário mínimo e da prometida redução do preço dos alimentos e da energia.
Nada garante que o vento continue soprando a favor de Dilma até a eleição, mas é mais fácil navegar uma tendência do que revertê-la. Esse é o desafio da oposição.
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Depois de quase dois anos sem um termômetro próprio para avaliar os humores da opinião pública, a Presidência da República acaba de relançar três editais para contratar serviços de pesquisa. O orçamento total é de R$ 6,6 milhões por ano, entre quantitativas (R$ 3 milhões), qualitativas (R$ 1,9 milhão) e telefônicas (R$ 1,7 milhão). É uma conta de grande porte, se uma mesma empresa vencer as três licitações.
Segundo o assessor especial da Presidência e coordenador da área, Wladimir Gramacho, os resultados das pesquisas serão todos tornados públicos, por causa da Lei de Acesso às Informações (Leinfo). As pesquisas deverão sondar as demandas por políticas e serviços públicos, adequar a comunicação oficial e monitorar a opinião do público sobre o governo e suas ações.
A Presidência pretende fazer pesquisas mensais de avaliação do governo e divulgá-las. Se a promessa se cumprir, os resultados poderão ser confrontadas com pesquisas semelhantes encomendadas por outras instituições, como veículos de comunicação e as confederações nacionais da indústria e dos transportes. Isso será especialmente útil no período eleitoral.
A abertura das propostas à licitação foi remarcada pela Presidência para os dias 4, 5 e 6 de março. Elas incluem a habilitação técnica e documental, um estudo de caso, uma apresentação em vídeo e as planilhas de preço – entre outros itens. As empresas habilitadas na fase inicial deverão obter no mínimo 70% dos pontos possíveis na segunda fase, que avalia capacitação técnica, para chegar à fase final.
Nessa terceira fase, comparam-se os preços propostos por todas as empresas que ultrapassaram a nota de corte. Oferece-se à mais bem colocada tecnicamente a possibilidade de aceitar o contrato pelo preço mais baixo entre os propostos pelas concorrentes que chegaram à fase final. Se ela não aceitar, repete-se a oferta à segunda colocada, até que uma delas aceite.
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Quando o governante começa a olhar para o céu e torcer não costuma ser bom sinal. São Pedro não é filiado ao PMDB. Argumentos franciscanos têm pouco apelo em sua paróquia. Não há notícia de presidente que, dando uma verbinha aqui, recebeu uma chuvinha ali – mesmo quando se tem a convicção religiosa de Dilma Rousseff. Fernando Henrique Cardoso que o diga.
Para ter um pibão, a presidente precisa acordar o espírito animal dos empresários brasileiros. Ela cortou os juros e ganhou um bocejo. Teimou. Prometeu diminuir a tarifa da energia elétrica – afinal, reduzir custos é a ladainha predileta dos industriais. De quebra, Dilma faria um agrado para os eleitores-consumidores. Mas o que parecia uma boa ideia pode virar um catch-22, uma pegadinha inescapável.
Se o preço da energia cair, o consumo tende a subir – ao menos nas casas. Mais demanda por eletricidade requer garantia de produção das hidrelétricas, mas São Pedro economizou chuvas em 2012 e os reservatórios que giram as turbinas estão lá embaixo. Restam as usinas termelétricas, mas a maioria delas usa combustíveis fósseis, daqueles que Dilma prometeu aumentar o preço.
Quando a conta não fecha, sabe-se quem costuma pagar a diferença: o seu, o meu, o nosso, depositado no Tesouro Nacional. O dinheiro que vier a entrar pelo bolso que paga a conta de luz já saiu pelo que paga os impostos. Se a esmola é demais até São Francisco desconfia. Mas o ardil não termina aí.
As indústrias que acreditarem na promessa de crescimento e investirem terão que pedir cota extra de consumo de eletricidade. Até conseguirem, terão que recorrer ao mercado livre, onde o preço do gigawatt é mais caro. Ou seja, o que economizarem com a redução das tarifas regulares estarão arriscadas a gastar com a energia adicional para crescerem.
Para complicar, há que chover muito neste verão de 2013 para os reservatórios que movem as hidrelétricas chegarem a 2014 com seus níveis recompostos. Caso chova pouco, a presidente entrará no ano de sua reeleição com a água abaixo das canelas.
Mesmo sem ter que racionar energia como FHC fez em 2001, o baixo nível será suficiente para Dilma enfrentar uma inundação de especulações sobre racionamento – um risco que não é desejável para nenhum candidato à reeleição. Mais: é a desculpa que parte do empresariado precisa para manter o espírito animal no banco.
É este, no fundo, o desafio presidencial: ganhar o jogo das expectativas. Não basta o governo projetar um pibão, nem é suficiente pedir aos empresários que invistam. Tem que convencê-los de que correm mais risco de perder dinheiro deixando-o parado do que colocando o capital para girar a economia. A questão que permanece sem resposta é como alcançar tal façanha.
O barateamento do custo da eletricidade parecia ser um passo nessa direção. Dilma ganhou a queda-de-braço com as concessionárias de energia elétrica tucanas e, pela sua determinação, deve conseguir derrubar as tarifas de energia ao longo das próximas semanas. Mas a batalha está longe do fim, e o timing não é dos mais favoráveis à presidente.
Caso os reservatórios não se recomponham ao longo de 2013, as consequências vão aparecer bem no começo da campanha presidencial à reeleição em 2014. O período de seca no Sudeste e Sul começa em abril/maio e se estende até setembro/outubro. É praticamente simultâneo à época em que Dilma estará pedindo votos. E é de se perguntar se até lá os consumidores ainda se lembrarão da redução das tarifas ocorrida mais de um ano antes.
Em 2012, o consumo de energia no Brasil cresceu 3,3% na média anualizada. Mas o crescimento foi muito desigual. Enquanto a indústria, responsável por 4 em cada 10 megawatts consumidos, cresceu quase nada (0,1%), o uso de eletricidade no comércio cresceu 6,2%, e nas residências, 3,8%. É mais um descompasso entre consumo e produção da economia brasileira.
Isso significa também que se o plano de Dilma der certo, ao aumento de demanda comercial e residencial já existente se somaria o crescimento do segmento que é o maior consumidor de energia, a indústria. Se isso ocorrer num cenário de escassez de oferta, por causa do baixo nível dos reservatórios, aumentam as chances de a oposição ter munição para usar na campanha. Se o plano der errado, bem, o plano terá dado errado.
Assim, melhor Dilma olhar para o céu e torcer. Tampouco custa mandar uma ficha de filiação ao PMDB para São Pedro.
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Eles foram populistas populares na mesma época e, de tanto poder, intitularam livros que juntaram um “ismo” ao final de seus nomes. O sufixo implica um líder acima dos partidos conduzindo multidões anos a fio. Ambos lideraram movimentos populares, mas quão duradouros? Por vias diversas, os legados de Hugo Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva estão à prova.
Nem todo governante que desfruta de popularidade em algum momento do mandato acaba substantivo. A “Era FHC” virou título de livro sem que houvesse um “fernandohenriquismo”. A herança do tucano foi estruturante para o Brasil, mas impessoal. Crismando Aécio Neves, o ex-presidente tenta rescrever seu testamento.
O personalismo é um divisor entre presidentes. Chávez levou a mitificação ao limite. O congênere brasileiro ficou a meio termo. Lula adotou a continuidade sem continuísmo. Já o venezuelano apostou que nunca viria a faltar.
Afora o simbolismo, o tratamento em Cuba oferece mais do que qualidade médica. Garante sigilo e provoca boatos contraditórios sobre a saúde de Chávez. A opacidade serve ao modelo cubano-chavista. Se houvesse transparência, seria mais difícil sustentar a versão de que o presidente reeleito pode ter sua posse adiada por não se configurar a “ausência permanente” que – manda a Constituição da Venezuela – provocaria nova eleição.
No Twitter, venezuelanos comparam a situação do “chavismo” à dos castelhanos que criaram o mito de El Cid. Pela lenda, o corpo sem vida do cavaleiro símbolo da reconquista ibérica foi assentado em sua montaria para parecer imortal e afugentar os inimigos. A metáfora é tentadora, embora precipitada. No Brasil, a prática de congelar presidentes está, felizmente, superada.
Antes de Lula, só o “getulismo” durou além de Vargas, após se espalhar de sul a norte. Seus fiéis trataram de cumprir a profecia do líder de que, ao deixar a vida, ele entraria na história. Os demais caciques ficaram limitados no espaço – como as tribos de carlistas, malufistas e brizolistas – ou no tempo: o “janismo” não sobreviveu a seu inspirador.
Os “ismos” colam bem em espanhol. A Argentina saiu do “peronismo” para cair no “kirchnerismo”. Em ambos os casos, a popularidade do marido foi herdada pela viúva. No Brasil, a transição pela via feminina se deu em vida. Mas o sucesso inicial não responde à questão de sempre: por quanto tempo?
Chávez não deixa uma, mas dezenas de herdeiros, de concepções diferentes. Eles propagandeiam união, só por conveniência da possível eleição que se avizinha. Mesmo que ganhem, o que será um governo “chavista” sem Chávez? Prevalecerá o militarismo nacionalista dos ex-oficiais do Exército tornados políticos? Ou o socialismo pró-Cuba do vice-presidente e suposto sucessor?
As contradições são mais do que aparentes. Enquanto o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, passa o rolo compressor na oposição parlamentar e imita os arroubos de Chávez (“Estamos prontos para o debate, mas não para a negociação”), seu rival, o vice Nicolás Maduro, conversa discretamente com os EUA para restabelecer relações diplomáticas plenas.
O “chavismo” ainda precisa passar pelo teste das urnas sem o nome de Chávez entre os candidatos. O “lulismo” passou. Mais do que isso, incorporou milhões de eleitores pobres ao petismo ao longo da última década. Numericamente, o legado de Lula superou o que o PT perdeu por causa do mensalão.
Segundo o Ibope, o PT saiu de 8% da preferência nacional em julho de 1989 para 33% em março de 2010. A trajetória de crescimento teve altos, associados às vitórias eleitorais de Lula (33% em março de 2003 e 2010), e baixos, durante a denúncia e julgamento do mensalão (24% em junho de 2005 e outubro de 2012). No caminho, mudou o perfil socioeconômico dos petistas. A nova classe média tomou espaço da elite sindical-universitária.
A mágica que popularizou o PT foi o aumento de renda e crédito que incluiu dezenas de milhões de neoconsumidores ao mercado nacional. O PSDB finalmente se deu conta de que não há como fazer oposição sem confrontar o petismo na economia. Daí conduzir o debate para os baixos índices de crescimento do PIB em detrimento, por exemplo, da queda das taxas de desemprego.
No Brasil e na Venezuela, a batalha é pela opinião pública. A diferença é que Dilma Rousseff cavalga ao lado do padrinho vivo, enquanto os herdeiros de Chávez manobram à sombra de El Cid.
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Imagine se você tivesse que falar em público quatro dias sem parar. Está no preço de ser presidente. Mesmo pouco expansiva, Dilma Rousseff encarou essa maratona verbal ao longo dos dois anos no cargo. Foram 96 horas de verborragia, diluídas em 730 dias. Um pronunciamento público dia sim, dia não, em média. Acha muito? Ela não fala nem a metade do que Lula falava.
Comunicar-se é parte vital do exercício da Presidência. Foram 350 falas de Dilma desde a posse, entre discursos, mensagens, homenagens e pronunciamentos. Por comparação, Lula discursou 2.407 vezes em oito anos como presidente – praticamente todo dia útil e mais um pouco. Ele não só fazia uso mais frequente da palavra, como gastava muito mais o verbo. Seus discursos eram duas vezes e meia mais palavrosos do que os da sucessora.
Há dois motivos para tanta diferença. Lula preferia o improviso, e falando de cabeça gastava mais tempo, repetia mais palavras, redundava. Mas soava espontâneo, arrancava reações da plateia e se alimentava delas. Dilma segue o script, até agora.
Lula foi um presidente falante e conversador. Viajou mais, esteve em mais lugares, interagiu mais com o público. Recebeu melhor feedback e fez disso o seu termômetro da opinião pública – por mais enviesado que fosse o tipo de amostra selecionado, já que na maioria das vezes o governante discursa para sua claque ou para um público cativo, que depende de sua boa vontade.
Dilma não é tão palaciana quanto os presidentes militares, mas é mais dependente de intermediários para sentir o pulso da rua. Isso não é necessariamente ruim, mas faz diferença no governar.
Boa parte das decisões de Lula era gestada nesse contato com o seu eleitor, numa dinâmica de retroalimentação intuitiva. Essa sensibilidade para captar o que pensa e quer a maioria está na gênese tanto da sua popularidade quanto do seu populismo. Quanto mais crescia sua aprovação, mais Lula discursava. O fim do governo foi uma avalanche de sintagmas, boa parte deles propagandeando o nome de sua candidata à sucessão.
Dilma segue um processo mais cartesiano. Deu certo até agora, mas têm crescido as pressões para a presidente conversar mais, principalmente com os empresários. E conversar implica ouvir.
A presidente não parece apaixonada pelo som da própria voz, como grande parte dos políticos é. Mas isso não a faz automaticamente mais disposta a escutar a voz dos outros. Durante a campanha eleitoral, Dilma conseguiu encher uma sala virtual maior do que qualquer outro político brasileiro no Twitter. Eleita, não deu mais nenhum pio na rede social. Fechou o canal que tinha aberto.
Quando tem a palavra, Dilma costuma disparar cerca de 100 delas por minuto. Mas a ocasião faz a média. Em situações formais, como quando se dirige aos militares, a presidente faz uso do papel ou do teleprompter para ler seus discursos. Acaba falando mais rapidamente. No pronunciamento de final de ano veiculado em cadeia de rádio e TV na antevéspera do Natal, Dilma conseguiu emendar 1.304 palavras em 11 minutos: 118 por minuto.
Quando está mais descontraída e arrisca algum improviso, a presidente fala mais devagar. Há dez dias, no discurso de reinauguração do Mineirão, Dilma até puxou corinho (“Ô, ô, o Mineirão voltou”), e a velocidade de sua língua caiu para 92 palavras por minuto. Em contrapartida, interagiu com a audiência. No dia seguinte, numa inauguração em Caxias do Sul, ela voltou a quebrar o protocolo. Pode virar uma tendência.
Aos monólogos oficiais, contrapõe-se quase uma centena de diálogos com jornalistas. Foram 98 entrevistas em dois anos – boa parte em viagens internacionais ou em visitas de governantes estrangeiros. Nessas ocasiões as entrevistas coletivas fazem parte do protocolo. Assim, em temporada de viagens ao exterior aumentam as vezes em que Dilma responde perguntas de repórteres.
Foi o que aconteceu em dezembro, o mês mais prolífico em discursos e entrevistas de Dilma em 2012: 8 bate-papos com a imprensa e 30 discursos, um recorde para a presidente. Tantas palavras têm dois motivos: as viagens à Rússia e à França, e um aparente esforço de convencimento, mirando os empresários, de que a economia vai bem.
Há sinais de que Dilma começou a se comunicar mais. Talvez seja a urgência de vencer a batalha das expectativas econômicas. Talvez seja mais prática em eventos públicos. Mais provável que seja uma combinação de necessidade e experiência. Está na hora.
Nos próximos dois anos, a presidente precisará exercitar a conversação com mais frequência, engenho e arte, se não quiser correr risco de cumprir a maldição de Chacrinha.
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A popularidade de Dilma Rousseff continua em alta em todos os segmentos socioeconômicos e regiões do país. A avaliação positiva da presidente e a boa expectativa quanto aos seus próximos dois anos de mandato superam em 55 pontos as opiniões e prognósticos negativos. Em nenhum extrato da sociedade – seja de renda, idade, escolaridade ou regional – a reprovação supera 10 pontos.
O pior desempenho da presidente continua sendo na saúde, cobrança de impostos e segurança. Na ponta oposta, combate à pobreza, ao desemprego e preservação do meio ambiente são os pontos mais positivos na percepção popular. Embora saúde e educação sempre apareçam como as prioridades politicamente corretas nas sondagens à população, é o bolso que decide.
A repetição dos resultados favoráveis a Dilma na pesquisa Ibope/CNI confirma, de novo, a forte correlação entre confiança do consumidor e popularidade presidencial. As duas andam de mãos dadas: sobem e descem juntas pelas vias da opinião pública.
O consumidor, também consultado em pesquisa Ibope/CNI, segue confiante que não vai perder o emprego, que sua renda melhorou nos últimos meses e tende a melhorar ainda mais. Essa combinação está no centro da popularidade de Dilma e supera até o noticiário negativo sobre o baixo crescimento da economia.
Em paralelo, mas com menos peso, as demissões sumárias de servidores públicos pegos com a boca na botija ajudam a fixar em Dilma a imagem de quem não compactua com malfeitos. Importa menos a verdade do que a verossimilhança. Assim, quando a presidente demite Rosemary Noronha – apesar de todas as insinuações de que a funcionária é próxima de Lula -, Dilma aparece bem na foto a despeito do cenário de horrores ao fundo.
A pesquisa só não pegou eventuais efeitos do noticiário sobre as denúncias de Marcos Valério contra Lula, pois as pessoas foram entrevistadas antes de o caso vir a público. Essa situação é nova. Dilma não pode se distanciar do denunciado porque pareceria traição. Fez o contrário do que costuma fazer e demonstrou solidariedade irrestrita ao padrinho.
A tática funciona enquanto as denúncias se limitarem às palavras de um condenado pela Justiça. O problema será se investigações posteriores corroborarem o que diz Marcos Valério. Mas essa é uma questão para Dilma lidar se e quando ela aparecer.
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A popularidade de Dilma Rousseff subiu como um balão em junho. Insuflada pelo otimismo do consumidor, superou 50% de saldo positivo, pelo altímetro Ibope/CNI. Isso significa que, mesmo descontados os que não apreciam seu governo, ela tem a aprovação de mais da metade da população. Quem duvida se uma taxa dessas faz diferença pode consultar o recém-ex-presidente Lugo, do Paraguai. Fernando Collor também serve.
Que a situação financeira do eleitor é a ignição da popularidade presidencial todos os ocupantes do Palácio do Planalto podem atestar. Seus balões subiram ou caíram na proporção direta da capacidade de consumo da população. Quanto mais viva a tocha do consumo, mais alta a aprovação presidencial. Mas quando ela se apaga a queda é inevitável. Essa relação se repetiu em 9 a cada 10 vezes na última década no Brasil.
Como pode, então, a popularidade de Dilma seguir em alta se as projeções para o crescimento da economia só diminuem? Diferanças de percepção. Enquanto a evolução do PIB embica para baixo, o Índice Nacional de Expectativa do Consumidor (INEC) segue em patamar elevado. Nos últimos meses, o otimismo do consumidor melhorou. Ele tem menos medo de perder o emprego e da inflação, além de manter-se confiante quanto à sua renda.
A queda da taxa de juros real ajudou a reforçar essa perspectiva otimista. Nos últimos três meses, a aprovação de como Dilma está lidando com o custo do dinheiro deu um duplo mortal carpado: saltou de 33% para 49%, superando pela primeira vez em seu governo a taxa de desaprovação (41%). É mais um sinal de que valeu o risco assumido pela presidente ao mudar as regras da poupança -e, assim, abrir espaço a uma queda maior dos juros.
Em algum momento no futuro haverá um ajuste das expectativas. Dependendo de sua intensidade, a desaceleração da economia pode acabar contaminando a percepção do consumidor e, por tabela, murchar o balão de Dilma. Mas nada indica que, se isso ocorrer, será de forma abrupta. Ao contrário, as curvas do INEC sugerem que o brasileiro assimilou os ciclos de expansão e retração do país e já faz suas contas pensando nisso.
Ou seja: o balão presidencial estaria suficientemente alto para que Dilma fosse um bom cabo eleitoral durante as eleições municipais. Mas a presidente não dá sinais de que vai entrar de cabeça na disputa, como fez e faz Lula. É fato que, quando o PT precisou, Dilma deu a Secretaria de Saneamento do Ministério das Cidades para ajudar a cooptar o apoio de Paulo Maluf em São Paulo. Mas ela não apareceu na foto.
Manter a distância regulamentar da política explícita evita que Dilma perca ar quente do seu balão. É também uma necessidade. Cabe à presidente zelar pelo equilíbrio de forças entre os partidos de sua base, principalmente entre PT e PMDB. As duas siglas disputam em 2012 a hegemonia do poder municipal e as bases para eleger maiores bancadas na Câmara dos Deputados em 2014. As tensões são altas. Mexer pode dar choque.
Céu paulistano
Em São Paulo, os balões de Fernando Haddad (PT) e de Gabriel Chalita (PMDB) não sobem nem com gás hélio. Enquanto isso, o de Celso Russomanno (PRB) vai cada vez mais alto no céu. Em tese, o apresentador da TV Record está no ápice: não pode mais apresentar-se regularmente no vídeo e, quando o horário eleitoral começar, ele terá bem menos tempo que os concorrentes. Mas e se o balão de Russumanno não murchar?
É simples: não sobra espaço para os de Haddad e Chalita subirem. O Datafolha mostrou que Russomanno é o mais forte, por enquanto, entre o terço do eleitorado que se diz simpatizante do PT. Praticamente 3 em cada 10 petistas declaram voto no apresentador depois de ver seu nome na cartela de possíveis candidatos. Haddad não consegue nem a metade disso. Com menos intensidade, o fenômeno se repete com o PMDB de Chalita.
Para Haddad e Chalita subirem, o candidato do PRB precisa cair. Mas, por enquanto, Russomanno cumpre um papel importante para o PT: evita o “já ganhou” em torno de José Serra (PSDB). Metade dos eleitores que declaram voto em Russomanno diz que não votaria no tucano de jeito nenhum. Mas se a outra metade se bandeasse para o candidato do PSDB começariam as contas sobre a chance de Serra vencer no primeiro turno.
Ao preencher esse espaço, o atual segundo colocado mantém a disputa aberta. O problema dos petistas é que Russomanno está cada vez mais à vontade no papel.
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Ao mudar as regras da caderneta de poupança, a presidente Dilma Rousseff começou a gastar o que poupou em popularidade. A medida foi precedida por uma redução agressiva dos juros, o que melhorou ainda mais sua imagem junto à opinião pública. Mas como os que a antecederam descobriram, mexer na poupança é mexer em vespeiro. Além de ser uma piada pronta.
Méritos econômicos e trocadilhos à parte, a mudança evoca o trauma do confisco collorido. Tem acesso direto a uma parte do imaginário popular onde nenhum presidente se atreve a entrar já se vão 22 anos. Se a oposição sentir cheiro de sangue, pode aproveitar a ocasião para sair do armário. Mas Dilma resolveu correr o risco. Já que é para arriscar, melhor agora, quando tem popularidade para gastar.
Se for bem sucedida, será um investimento: usará as reservas de boa vontade da população para destravar a queda dos juros e empurrar a economia para um novo ciclo de crescimento -baseado no consumo popular e em investimentos do setor privado. Pode recuperar o que aplicou de sua popularidade mais à frente. Talvez com juros. Se falhar, seu cacife ficará menor. Quão menor, ninguém sabe.
A atitude de Dilma foge à regra. Presidentes relutam em usar seus cacifes para fazer mudanças cujo resultado é incerto aos olhos da opinião pública. Mas a presidente parece ter birra com o status quo. Quer mudar mesmo quando, eleitoralmente, não precisaria. É diferente dos antecessores que promoveram mudanças -ou ao menos tentaram- por necessidade.
Fernando Collor de Mello foi eleito no auge da hiperinflação da era Maílson-Sarney. Fez uma jogada que os praticantes do poker chamam de “all in”. Apostou todas as fichas no plano que, para coroar, levava seu nome. Usou a única bala que tinha na agulha. Como se sabe, o tiro saiu pela culatra.
Itamar Franco herdou o desastre e saiu por cima ao bancar o Plano Real e domar a inflação. Quem faturou o sucesso foi seu ministro da Fazenda e sucessor, Fernando Henrique Cardoso. Eleito no primeiro turno, virou sigla. FHC acumulou um cacife inédito, e gastou boa parte dele aprovando a emenda constitucional que lhe deu o direito à reeleição. Reeleito, nunca recuperou o investimento.
Lula foi eleito para mudar. Mudou, mas não como se previa. O petista aproveitou o legado da inflação controlada na era FHC e surfou a onda da expansão econômica mundial. Não mexeu na política econômica nem no jeito de fazer política. Multiplicou o Bolsa Família, alavancou o crédito popular e criou um mercado de massa. A massa de eleitores neoconsumidores o reelegeu, com Mensalão e tudo.
Dilma é o fruto politico dessa mudança econômico-social. Foi eleita para continuar, não para mudar. Mas a mexida nas regras da popuança sugere que ela não está satisfeita com mais do mesmo. É o gesto de ruptura mais drástico que tomou até agora. Faz algo que Lula não quis fazer.
Na faxina ministerial, a presidente trocou ministros mas manteve as estruturas que sustentam sua coalizão. Centralizou o controle de verbas, mas as transações permaneceram franciscanas. No corte de juros feito até agora, operou dentro de uma margem de manobra pré-estabelecida. Com as novas regras da poupança, furou essa margem. É pouco, dirá quem clama por reformas mais profundas. É um começo? A ver. Mas certamente é uma novidade.
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A popularidade de Dilma Rousseff vai subindo: chegou a 64% de avaliação positiva. Praticamente dois em cada três brasileiros acham seu governo bom ou ótimo. Dilma só perde para Lula no auge. Em um mês, o saldo de aprovação presidencial (“ótimo+bom” menos “ruim+péssimo”) subiu 11 pontos porcentuais: de 48 pontos no Ibope de março para 59 pontos no Datafolha de abril. Vai ter gente xingando a opinião pública. De novo.
A aceleração da popularidade presidencial sugere que o corte dos juros no atacado e no varejo foi um gol aos olhos do público. Era previsível. Juros altos são mal vistos pela população. Ao derrubar as taxas do Banco Central e obrigar os bancos federais a fazerem o mesmo, Dilma ampliou o crédito e facilitou a vida do consumidor. De quebra, como o Banco do Brasil está descobrindo, cai a inadimplência.
É um paradoxo aparente: enquanto a economia está em expansão, quanto mais gente toma empréstimo ou faz crediário, menor o risco de quem empresta o dinheiro. Os caloteiros se diluem na massa de bons pagadores. Pobres tendem a pagar suas dívidas mais em dia do que ricos, logo, quanto mais gente tomando emprestado, melhor para os bancos. Em tese.
Na prática, depende da posição relativa de cada banco no mercado de crédito. Para não verem sua fatia murchar, os bancos privados precisam correr atrás do consumidor. Mas não é fácil recuperar o terreno perdido. Quem saiu na frente leva vantagem, capturou a clientela.
No Brasil pré-consumo de massa, os bancos se acostumaram à alta rentabilidade de poucos empréstimos. Agora, com os juros menores do BB e da CEF, os bancos precisam compensar a perda de margem de lucro com ganhos de escala. Nem todos vão conseguir. A gritaria vai piorar.
Nessas horas desponta o discurso de autoridade. Especialistas esgrimem argumentos técnicos e jargão incompreensíveis ao senso comum. Agouram o crescimento e alertam para a catástrofe na esquina. Embora o retrospecto não lhes favoreça, podem ter razão. Ou pode ser que estejam apenas defendendo o status quo.
Não é incomum. No Brasil como nos EUA, toda vez que as coisas não saem como quer a minoria, a culpa é da maioria ignorante e manipulada. Nem se imagina a possibilidade de a opinião pública agir racional e pragmaticamente em prol de seus próprios e egoísticos interesses.
Por essa versão, o republicano George W. Bush foi um dos presidentes mais impopulares da história norte-americana simplesmente porque a mídia liberal manipulou a verdade (e não porque ele foi incompetente). O democrata John Kerry tomou uma lavada eleitoral do mesmo Bush por causa da propaganda mentirosa dos republicanos (e não porque ele foi inapto). É reconfortante. Exime a autocrítica. Dá férias ao superego.
No Brasil, quando Lula perdeu três eleições presidenciais seguidas foi por culpa da mídia, que manipulou a massa de manobra que, afinal de contas, deve ser o eleitorado. Quando o petista ganhou três eleições presidenciais seguidas foi culpa do mesmo eleitor manobrável. A minoria muda de lado, suas desculpas não.
No último meio século, estudo após estudo tem chegado à mesma constatação: o eleitor é mais esperto do que seu estereótipo nos faz acreditar.
Os eleitores votam de acordo com sua percepção dos méritos e do passado dos candidatos. O eleitor identifica diferenças nas propostas dos candidatos e vota nas que gosta mais. Apesar dos seus limites de tempo e conhecimento, os eleitores encontram guias para votar de acordo com seus interesses. São conclusões das ciências sociais, calçadas em pesquisas de opinião.
Se, como diz a ciência, o eleitor não é um cordeiro temperado para digitar na urna o que lhe mandam, quem ganha com a repetição interminável da ideia de que ele é manipulável? Os pretensos manipuladores, é claro.
Como escreve o professor emérito da Rutgers University (EUA), Gerald Pomper, “se o eleitor é um idiota, por comparação os especialistas são espertos; se o eleitor não tem noção, ele precisa de alguém sabido para lhe indicar o caminho”. Ou seja, mesmo que o estereótipo do eleitor manobrável seja falso, a sua propagação abre um rico mercado de “manipulação” para marqueteiros, politicólogos, consultores, jornalistas e blogueiros. Além de servir de consolação para a minoria derrotada na batalha da opinião pública.
No limite, quem compra acriticamente a ideia de que o eleitor é um inocente útil está pronto para comprar também os pretensos serviços de manipulação do eleitorado. Quem é manipulável, afinal?
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A popularidade de Dilma Rousseff está no mesmo nível a que chegou a de Luiz Inacio Lula da Silva aos 15 meses do seu segundo mandato. Foi nesse estágio, em março de 2008, que a aprovação do ex-presidente começou a decolar e a se descolar dos patamares históricos das avaliações presidenciais, elevando-o ao status de mito -merecido ou não.
Não há como afirmar -nem negar- que a história vá se repetir. A aprovação de Lula estava acelerando mais rapidamente em 2008, por exemplo, mas há indícios de que Dilma esteja desenvolvendo poderes “Teflon”, como seu antecessor. Na pesquisa CNI/Ibope divulgada nesta quarta-feira, fica claro que a percepção sobre o noticiário é cada vez mais positiva para a presidente. Não que haja menos notícias de “malfeitos” envolvendo o governo, apenas elas não estão colando na imagem presidencial.
O dobro de brasileiros vê um noticiário mais favorável (28%) do que desfavorável ao governo (14%). A taxa de percepção de notícias negativas já foi de 25% em julho do ano passado, quando começou a crise ministerial. Mas a troca de ministros virou “faxina” e, hoje, a agenda de Dilma, aos olhos da população, tem mais boas notícias do que problemas: “programas sociais para as mulheres”, “viagens da presidente”, “Dilma recebe prêmio”. Mesmo as notícias potencialmente negativas, como prisões e demissões, são lidas como sinais de limpeza e não de sujeira.
Isso ajuda a explicar por que Dilma chegou a este patamar com “um mandato” de antecedência em comparação a Lula, mas não explica as razões desse “efeito Teflon”. As causas fundamentais estão ligadas à situação econômica do país e, mais especificamente, à capacidade de consumo do eleitor.
A taxa líquida de popularidade da presidente (“ótimo”+”bom” subtraído o porcentual de “ruim”+”péssimo”) medida pela pesquisa CNI/Ibope está colada à situação financeira do brasileiro, aferida pela mesma sondagem. A superporsição das duas curvas ocorre praticamente desde o começo do governo Dilma. Para onde uma vai, a outra vai atrás. Estatisticamente, seu coeficiente de correlação é muito alto: 0,88 num máximo de 1,00.
Basicamente, quando cresce o número de brasileiros que avaliam que seu bolso está mais cheio agora do que estava três meses antes e, ao mesmo tempo, preveem que ele vai continuar estufando nos próximos meses, cresce também a quantidade de brasileiros que dizem que o governo Dilma é “bom” ou “ótimo”. Por essa correlação, a popularidade presidencial é uma função direta do poder de compra e da capacidade de consumo do eleitor.
Essa percepção não depende apenas da renda, mas de outros fatores indiretos, como facilidade de o brasileiro obter crédito, de sua estabilidade no emprego ou facilidade de conseguir uma ocupação remunerada e, em menor grau, do medo de descontrole inflacionário.
Em outras palavras, enquanto a economia continuar se expandindo, o emprego seguir em alta e os consumidores continuarem comprando e se endividando, Dilma deverá permanecer com uma avaliação positiva de seu governo. E se essas tendências se intensificarem, a boa vontade da população com sua gestão pode crescer ainda mais.
Essa correlação entre consumo e popularidade não é um fenômeno jabuticaba, que ocorre apenas no Brasil. Ela acontece nos EUA também. Barack Obama tem se beneficiado dela. O presidente norte-americano só voltou a melhorar sua posição nas pesquisas de intenção de voto depois que o índice de confiança do consumidor cresceu, refletindo a aquecimento do mercado de trabalho e a retomada do consumo.
Não é por acaso que, tanto nos EUA quanto no Brasil, os presidentes dedicam muito mais atenção à economia do que às rusgas com o Congresso. Quanto melhor o emprego e o consumo, mais popular eles ficam e mais poder eles têm para negociar o que lhes convém, tanto com sua base de apoio quanto com a oposição. Lá como cá, a avaliação do trabalho dos parlamentares é muito pior do que a do Executivo federal. E quando o presidente se populariza, a balança de força entre os Poderes se desequilibra, sempre em detrimento do Legislativo.
Se aparece um escândalo envolvendo um dos principais porta-vozes da oposição, menor ainda o poder de barganha dos parlamentares. Aos olhos da população, quando um crítico do governo é pego praticando o que condenava, reforça-se a ideia de que “político é tudo igual”. E se a percepção de que a conduta ética é a mesma para todos, melhor salvar pelo menos o bolso.
Presidentes que perderam sua base de apoio e a chamada “governabilidade” perderam antes o controle da economia. Foram os casos de José Sarney e Fernando Collor. O primeiro acabou tutelado pelo PMDB de Ulysses Guimarães, e o segundo foi forçado para fora do governo. Desde Fernando Henrique Cardoso, o bom desempenho econômico tem precedido a estabilidade política. Foi assim com Lula, é assim com Dilma.
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Pesquisa Gallup nos 27 países membros da União Europeia mede o grau de descrédito a que chegaram os governantes e banqueiros do continente. Na média, só 1 em cada 3 europeus confia no governo do seu país (36%). A confiança nos bancos e instituições financeiras não é muito melhor: 43%. Para um sistema que é baseado só em confiança, esses 43% são alarmantes. Alarmante também é o fato de a instituição na qual o europeu médio mais confia são os militares.

De 27 governos avaliados por seus governados, apenas cinco passaram no teste de confiança e tiveram mais de 50% de respostas positivas. Ao mesmo tempo, em 13 países menos de um terço da população diz confiar no seu governo. São os casos da Espanha (31%), Itália (26%) e Portugal (21%). Nesses casos, é preciso levar em conta que as pesquisas foram feitas antes da troca de governo.

O resultado não é muito melhor quando se comparam os graus de confiança nos bancos de cada país. Embora as pesquisas tenham alguns meses de idade, elas indicam a profundidade da crise europeia e apontam para uma enorme dificuldade de recuperação diante de um grau de desconfiança tão alto.

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Apesar de faltarem apenas 13 dias no calendário, 2011 está longe de chegar ao fim. É daqueles anos que -com a licença de Zuenir Ventura- não terminam quando acabam. As ondas verberadas nos últimos 12 meses ainda vão ressoar por muito tempo. 2011 é o ano em que a opinião pública ganhou voz: rompeu a virtualidade das redes sociais, e se materializou em marchas, ocupações e revoluções. Nenhum governante, democrata ou ditador, dormirá com a mesma tranquilidade de 2010.
Raras vezes uma ideia contaminou tanta gente em tantos lugares tão rapidamente. Entre a primavera na Tunísia e o outono na Rússia, centenas de milhares de pessoas abdicaram da segurança doméstica e foram às ruas gritar em árabe, grego, espanhol, inglês, francês e russo. Ocuparam praças e chacoalharam governos. Em comum, o desejo de se fazer ouvir, de expressar sua inconformidade e de mudar o estado das coisas.
Para os governos totalitários, sem válvulas de escape, foi um estouro de boiada. A multidão atropelou o que tinha pela frente. E, como mostra a revolução permanente no Egito, reprimida cada vez com mais violência pelos militares que tentaram tutelá-la, é quase impossível guardar o gênio de volta na lâmpada depois que ele sente o gosto de liberdade. Os cadáveres nas ruas do Iraque, Líbia e Egito testemunham que derrubar um regime é muito mais fácil do que construir uma democracia.
E mesmo para os governos democráticos, há uma crise de representatividade. Setores expressivos das sociedades grega, espanhola, inglesa, francesa, russa e norte-americana, entre outras, mostraram que não se sentem representados pela política tradicional, pelos partidos nem pelos respectivos parlamentos. Seus protestos, pacíficos ou incendiários, nasceram da desigualdade crescente, mesmo quando a falta de oportunidade econômica deu brecha ao oportunismo saqueador.
Em um dos melhores trabalhos de investigação jornalística dos últimos tempos, o jornal “The Guardian” conseguiu georreferenciar onde mora grande parte dos jovens que participaram dos saques e das revoltas em Londres e em outras cidades inglesas. A superposição entre pobreza, violência e alto desemprego juvenil não deixou dúvidas sobre o que eles tinham em comum.
A economia decadente explica, em grande parte, as rebeliões nos países europeus e nos Estados Unidos. Os “indignados” espanhóis e os ocupadores de Wall Street são de uma geração que percebe ter menos opções profissionais e alternativas de emprego do que a de seus pais. E que se ressente da lenta resposta dos mecanismos da democracia representativa.
Acostumados ao imediatismo das novas tecnologias de comunicação, os jovens excluídos se impacientam com as discussões parlamentares bizantinas, com o partidarismo estéril e com a sucessão de promessas sempre repetidas e nunca cumpridas. Sua ação é diretamente proporcional à inércia de seus representantes.
A economia recessiva é regra nos países chacoalhados pela vox publica, mas há exceções. Na Rússia, quem desafiou o regime, temperaturas abaixo de zero e foi gritar contra a perpetuação no poder de Vladimir Putin foi a nova classe média, que, ironicamente, se consolidou durante o seu interminável governo. O ex-espião saiu do frio e seus compatriotas emergentes entraram nele de peito e boca abertos.
Também no Chile, altos porcentuais de crescimento do PIB não impediram que os estudantes se organizassem e demonstrassem meses a fio contra o governo conservador de Sebastián Piñera, por uma reforma educacional. O presidente chileno demonstrou tanta inabilidade política e usou tamanha violência contra marchas pacíficas que praticamente unificou a opinião pública do país contra si.
E no Brasil? Houve marchas de fim-de-semana e invasão de reitoria. Faltaram, porém, volume de manifestantes, persistência nos protestos e radicalização que tornassem as manifestações da opinião pública brasileira comparáveis às árabes, europeias e norte-americanas -a ponto de provocar protestos de correspondentes estrangeiros sem notícia.
As pesquisas de avaliação de governo captam o silêncio da maioria da opinião pública e o traduzem em taxas de popularidade recorde para Dilma Rousseff. Também crescentes são a confiança do consumidor e o otimismo dos brasileiros quanto à sua situação financeira pessoal. Consumo em alta é igual a eleitor satisfeito, e o governo sabe disso. A fórmula funciona no curto prazo, mas é insuficiente para mudar um país. 2011 termina sem acabar para o mundo, nem para o Brasil e tampouco para Dilma.
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Enquanto a confiança do consumidor estiver em alta, é improvável que a popularidade do governo mova-se no sentido contrário. Antes de a aprovação de Dilma Rousseff subir, cresceu o Índice de Expectativa do Consumidor (Inec) medido pela mesma dupla CNI/Ibope que aferiu a popularidade presidencial. Quando o bolso está cheio, outros problemas, como notícias de corrupção, incomodam menos o cidadão.
Apesar de a crise econômica internacional ter atrofiado o crescimento do PIB brasileiro, ela não diminuiu o otimismo do consumidor. Pelo menos até agora. Os indicadores da situação financeira individual que compõem o Inec melhoraram em novembro e em dezembro. Nada guarda correlação mais estreita com a popularidade presidencial do que a combinação desses dois indicadores.
A presidente terminou 2011 tão bem quanto começou, com os mesmos 56% de “ótimo” e “bom”. É um índice historicamente alto. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisou de quatro anos de governo para chegar a esse patamar. E seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, só atingiu-o uma vez, em março de 1997.
Dilma herdou grande parte da popularidade de Lula, mas conseguiu mantê-la alta graças ao bom desempenho do consumo. Para isso contaram não apenas a renda individual mas também o acesso do consumidor ao crédito pessoal. Não por coincidência, facilitar o crédito é uma das primeiras medidas que o governo toma quando a economia esfria.
Juros mais baixos e crédito fácil têm impacto principalmente no bolso dos mais pobres. São as pessoas que ganham até 1 salário mínimo que mais bem avaliam o governo Dilma. São também as mais otimistas com o futuro de sua gestão e as que mais confiam na presidente.
Como no governo Lula, o grau de aprovação é inversamente proporcional à renda e à escolaridade. Os mais críticos à presidente são os que ganham mais e quem têm diploma de nível superior. Mas as diferenças são menos dramáticas do que foram no governo do antecessor. Dilma vai proporcionalmente melhor entre as mulheres e no Sul, por exemplo.
Nesse cenário, até as notícias de queda de ministros têm viés positivo para Dilma. As demissões dos auxiliares são interpretadas pela maioria como ações da presidente contra a corrupção. Cada ministro que cai, maior a faxina. É um mau sinal para os aliados da presidente, cada vez mais vulneráveis a trocas. Só lhes resta retaliar nos bastidores do Congresso Nacional e -novidade da semana- do Supremo Tribunal Federal.
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A quantidade de prefeitos eleitos por um partido está correlacionada ao que acontece com sua bancada de deputados federais dois anos depois. Em 2008, os principais partidos de oposição ao governo federal elegeram menos prefeitos. Não por coincidência, viram suas cadeiras federais minguarem quase na mesma proporção em 2010.
No sentido inverso, o ciclo eleitoral passado favoreceu petistas e aliados: ganharam prefeitos e, na eleição seguinte, deputados. Mas também aumentou a dispersão partidária. Mais legendas conquistaram espaço nas prefeituras e isso levou à pulverização ainda maior do poder na Câmara dos Deputados. A base de sustentação do governo federal ficou mais fluida, movediça.
Só por isso, o governo Dilma Rousseff já teria muito interesse no que vai acontecer nas eleições de 2012. Mas não fica aí. O pleito será o primeiro teste real de popularidade da presidente. Mesmo que os problemas locais sejam mais relevantes na decisão do voto de prefeito do que as ações federais, o resultado das urnas será creditado ou debitado parcialmente na conta de Dilma. Sua imagem sairá fortalecida ou enfraquecida. É uma prévia de 2014.
O governo federal influencia a eleição de prefeitos com transferências preferenciais de verbas, priorizando obras, alimentando ONGs -como fazem também os governos estaduais. Mas Brasília tem um poder a mais, o de influir no clima geral da opinião pública, pelo que faz com a economia. Otimismo ou pessimismo nascem no bolso e dali se espalham até chegar ao dedo que tecla “confirma” na urna eletrônica.
Um eleitor otimista é mais propenso a reeleger seus governantes. O pessimista é mais aberto a mudanças. Portanto, é do interesse geral dos prefeitos candidatos à reeleição que a economia esteja aquecida no próximo ano. Assim como é do interesse de Dilma.
É difícil encontrar algo que se correlacione mais com a popularidade do presidente no Brasil do que a confiança do consumidor. Se esse índice sobe, a avaliação do governo federal tende a melhorar, e vice-versa. Dentre os itens que compõem a versão do índice divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), dois têm correlação ainda maior: a situação financeira do entrevistado hoje (comparada ao período imediatamente anterior), e a expectativa do que deve acontecer com essa mesma situação financeira no futuro próximo.
A combinação desses dois indicadores, pesquisados mensalmente em sondagem CNI/Ibope, tem um coeficiente de correlação de 0,9 com o saldo de aprovação do governo federal. Grosso modo, é possível antecipar com 90% de acerto a tendência da popularidade de um presidente a partir desse índice composto -que poderia ser batizado de “bolso eleitoral”.
O mais surpreendente é o quão mais forte é essa correlação entre o bolso e a popularidade presidencial do que entre a imagem do governo e os outros indicadores que compõem o índice de confiança do consumidor. O medo do desemprego tem correlação, mas significativamente mais fraca do que o “bolso eleitoral”. E a expectativa de inflação simplesmente não se correlaciona com a popularidade presidencial. Oscilam frequentemente em direções opostas.
É mais um sinal de que o discurso da estabilidade econômica perdeu para o do crescimento. Talvez porque os últimos oito anos mostraram ser possível crescer sem perder o controle da inflação. Mais do que isso, esses anos de bonança criaram na opinião pública uma expectativa de que a capacidade de consumo não só pode como deve aumentar continuamente.
Quando o governo reativa o crédito, corta impostos sobre operações de financiamento e diminui a taxa de juros básica ele está tomando medidas para tentar reaquecer a economia e gerar mais consumo. O eventual aumento da atividade tem vários efeitos positivos para o próprio governo: aumenta a arrecadação de impostos e a disponibilidade de recursos para gastar.
Mas não dá para ignorar que a retomada do ritmo da atividade econômica também paga bônus eleitoral para aos governantes ao elevar o nível de confiança do consumidor. Toda ação governamental gera uma reação na opinião pública. Não existe o ato de governar exclusivamente técnico. Quem governa são os políticos, não os tecnocratas.
Nem toda medida com impacto eleitoral é ruim em si. A adaptação da política econômica às circunstâncias é do jogo. Entre as circunstâncias estão o ambiente político e a opinião pública. Um governo com popularidade em baixa perde sustentação política e, por tabela, graus de liberdade para determinar sua própria política econômica.
O problema acontece quando os interesses eleitoreiros de curto prazo de chocam com o que é melhor para o País no longo prazo. Por ora, o governo Dilma tem espaço para administrar as contradições entre a pressão inflacionária e o ritmo do consumo. Mas nem sempre é assim.
Logo após o massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, Fernando Henrique Cardoso experimentou seu único momento de impopularidade durante o primeiro mandato presidencial. Logo que as mortes saíram das manchetes, FHC recuperou a boa imagem conquistada pela estabilidade econômica. Reelegeu-se meses depois. Porém, ele nunca recuperou a popularidade perdida pela desvalorização abrupta do real, logo no início do segundo mandato.
Os governantes se tornam escravos do próprio sucesso. Quando não o seguem, pagam por isso.
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