José Roberto de Toledo - Estadao.com.br
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04.maio.2012 20:00:50

A novidade de Dilma

Ao mudar as regras da caderneta de poupança, a presidente Dilma Rousseff começou a gastar o que poupou em popularidade. A medida foi precedida por uma redução agressiva dos juros, o que melhorou ainda mais sua imagem junto à opinião pública. Mas como os que a antecederam descobriram, mexer na poupança é mexer em vespeiro. Além de ser uma piada pronta.

Méritos econômicos e trocadilhos à parte, a mudança evoca o trauma do confisco collorido. Tem acesso direto a uma parte do imaginário popular onde nenhum presidente se atreve a entrar já se vão 22 anos. Se a oposição sentir cheiro de sangue, pode aproveitar a ocasião para sair do armário. Mas Dilma resolveu correr o risco. Já que é para arriscar, melhor agora, quando tem popularidade para gastar.

Se for bem sucedida, será um investimento: usará as reservas de boa vontade da população para destravar a queda dos juros e empurrar a economia para um novo ciclo de crescimento -baseado no consumo popular e em investimentos do setor privado. Pode recuperar o que aplicou de sua popularidade mais à frente. Talvez com juros. Se falhar, seu cacife ficará menor. Quão menor, ninguém sabe.

A atitude de Dilma foge à regra. Presidentes relutam em usar seus cacifes para fazer mudanças cujo resultado é incerto aos olhos da opinião pública. Mas a presidente parece ter birra com o status quo. Quer mudar mesmo quando, eleitoralmente, não precisaria. É diferente dos antecessores que promoveram mudanças -ou ao menos tentaram- por necessidade.

Fernando Collor de Mello foi eleito no auge da hiperinflação da era Maílson-Sarney. Fez uma jogada que os praticantes do poker chamam de “all in”. Apostou todas as fichas no plano que, para coroar, levava seu nome. Usou a única bala que tinha na agulha. Como se sabe, o tiro saiu pela culatra.

Itamar Franco herdou o desastre e saiu por cima ao bancar o Plano Real e domar a inflação. Quem faturou o sucesso foi seu ministro da Fazenda e sucessor, Fernando Henrique Cardoso. Eleito no primeiro turno, virou sigla. FHC acumulou um cacife inédito, e gastou boa parte dele aprovando a emenda constitucional que lhe deu o direito à reeleição. Reeleito, nunca recuperou o investimento.

Lula foi eleito para mudar. Mudou, mas não como se previa. O petista aproveitou o legado da inflação controlada na era FHC e surfou a onda da expansão econômica mundial. Não mexeu na política econômica nem no jeito de fazer política. Multiplicou o Bolsa Família, alavancou o crédito popular e criou um mercado de massa. A massa de eleitores neoconsumidores o reelegeu, com Mensalão e tudo.

Dilma é o fruto politico dessa mudança econômico-social. Foi eleita para continuar, não para mudar. Mas a mexida nas regras da popuança sugere que ela não está satisfeita com mais do mesmo. É o gesto de ruptura mais drástico que tomou até agora. Faz algo que Lula não quis fazer.

Na faxina ministerial, a presidente trocou ministros mas manteve as estruturas que sustentam sua coalizão. Centralizou o controle de verbas, mas as transações permaneceram franciscanas. No corte de juros feito até agora, operou dentro de uma margem de manobra pré-estabelecida. Com as novas regras da poupança, furou essa margem. É pouco, dirá quem clama por reformas mais profundas. É um começo? A ver. Mas certamente é uma novidade.

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23.abril.2012 11:39:17

Manipulação

A popularidade de Dilma Rousseff vai subindo: chegou a 64% de avaliação positiva. Praticamente dois em cada três brasileiros acham seu governo bom ou ótimo. Dilma só perde para Lula no auge. Em um mês, o saldo de aprovação presidencial (“ótimo+bom” menos “ruim+péssimo”) subiu 11 pontos porcentuais: de 48 pontos no Ibope de março para 59 pontos no Datafolha de abril. Vai ter gente xingando a opinião pública. De novo.

A aceleração da popularidade presidencial sugere que o corte dos juros no atacado e no varejo foi um gol aos olhos do público. Era previsível. Juros altos são mal vistos pela população. Ao derrubar as taxas do Banco Central e obrigar os bancos federais a fazerem o mesmo, Dilma ampliou o crédito e facilitou a vida do consumidor. De quebra, como o Banco do Brasil está descobrindo, cai a inadimplência.

É um paradoxo aparente: enquanto a economia está em expansão, quanto mais gente toma empréstimo ou faz crediário, menor o risco de quem empresta o dinheiro. Os caloteiros se diluem na massa de bons pagadores. Pobres tendem a pagar suas dívidas mais em dia do que ricos, logo, quanto mais gente tomando emprestado, melhor para os bancos. Em tese.

Na prática, depende da posição relativa de cada banco no mercado de crédito. Para não verem sua fatia murchar, os bancos privados precisam correr atrás do consumidor. Mas não é fácil recuperar o terreno perdido. Quem saiu na frente leva vantagem, capturou a clientela.

No Brasil pré-consumo de massa, os bancos se acostumaram à alta rentabilidade de poucos empréstimos. Agora, com os juros menores do BB e da CEF, os bancos precisam compensar a perda de margem de lucro com ganhos de escala. Nem todos vão conseguir. A gritaria vai piorar.

Nessas horas desponta o discurso de autoridade. Especialistas esgrimem argumentos técnicos e jargão incompreensíveis ao senso comum. Agouram o crescimento e alertam para a catástrofe na esquina. Embora o retrospecto não lhes favoreça, podem ter razão. Ou pode ser que estejam apenas defendendo o status quo.

Não é incomum. No Brasil como nos EUA, toda vez que as coisas não saem como quer a minoria, a culpa é da maioria ignorante e manipulada. Nem se imagina a possibilidade de a opinião pública agir racional e pragmaticamente em prol de seus próprios e egoísticos interesses.

Por essa versão, o republicano George W. Bush foi um dos presidentes mais impopulares da história norte-americana simplesmente porque a mídia liberal manipulou a verdade (e não porque ele foi incompetente). O democrata John Kerry tomou uma lavada eleitoral do mesmo Bush por causa da propaganda mentirosa dos republicanos (e não porque ele foi inapto). É reconfortante. Exime a autocrítica. Dá férias ao superego.

No Brasil, quando Lula perdeu três eleições presidenciais seguidas foi por culpa da mídia, que manipulou a massa de manobra que, afinal de contas, deve ser o eleitorado. Quando o petista ganhou três eleições presidenciais seguidas foi culpa do mesmo eleitor manobrável. A minoria muda de lado, suas desculpas não.

No último meio século, estudo após estudo tem chegado à mesma constatação: o eleitor é mais esperto do que seu estereótipo nos faz acreditar.

Os eleitores votam de acordo com sua percepção dos méritos e do passado dos candidatos. O eleitor identifica diferenças nas propostas dos candidatos e vota nas que gosta mais. Apesar dos seus limites de tempo e conhecimento, os eleitores encontram guias para votar de acordo com seus interesses. São conclusões das ciências sociais, calçadas em pesquisas de opinião.

Se, como diz a ciência, o eleitor não é um cordeiro temperado para digitar na urna o que lhe mandam, quem ganha com a repetição interminável da ideia de que ele é manipulável? Os pretensos manipuladores, é claro.

Como escreve o professor emérito da Rutgers University (EUA), Gerald Pomper, “se o eleitor é um idiota, por comparação os especialistas são espertos; se o eleitor não tem noção, ele precisa de alguém sabido para lhe indicar o caminho”. Ou seja, mesmo que o estereótipo do eleitor manobrável seja falso, a sua propagação abre um rico mercado de “manipulação” para marqueteiros, politicólogos, consultores, jornalistas e blogueiros. Além de servir de consolação para a minoria derrotada na batalha da opinião pública.

No limite, quem compra acriticamente a ideia de que o eleitor é um inocente útil está pronto para comprar também os pretensos serviços de manipulação do eleitorado. Quem é manipulável, afinal?

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A popularidade de Dilma Rousseff está no mesmo nível a que chegou a de Luiz Inacio Lula da Silva aos 15 meses do seu segundo mandato. Foi nesse estágio, em março de 2008, que a aprovação do ex-presidente começou a decolar e a se descolar dos patamares históricos das avaliações presidenciais, elevando-o ao status de mito -merecido ou não.

Não há como afirmar -nem negar- que a história vá se repetir. A aprovação de Lula estava acelerando mais rapidamente em 2008, por exemplo, mas há indícios de que Dilma esteja desenvolvendo poderes “Teflon”, como seu antecessor. Na pesquisa CNI/Ibope divulgada nesta quarta-feira, fica claro que a percepção sobre o noticiário é cada vez mais positiva para a presidente. Não que haja menos notícias de “malfeitos” envolvendo o governo, apenas elas não estão colando na imagem presidencial.

O dobro de brasileiros vê um noticiário mais favorável (28%) do que desfavorável ao governo (14%). A taxa de percepção de notícias negativas já foi de 25% em julho do ano passado, quando começou a crise ministerial. Mas a troca de ministros virou “faxina” e, hoje, a agenda de Dilma, aos olhos da população, tem mais boas notícias do que problemas: “programas sociais para as mulheres”, “viagens da presidente”, “Dilma recebe prêmio”. Mesmo as notícias potencialmente negativas, como prisões e demissões, são lidas como sinais de limpeza e não de sujeira.

Isso ajuda a explicar por que Dilma chegou a este patamar com “um mandato” de antecedência em comparação a Lula, mas não explica as razões desse “efeito Teflon”. As causas fundamentais estão ligadas à situação econômica do país e, mais especificamente, à capacidade de consumo do eleitor.

A taxa líquida de popularidade da presidente (“ótimo”+”bom” subtraído o porcentual de “ruim”+”péssimo”) medida pela pesquisa CNI/Ibope está colada à situação financeira do brasileiro, aferida pela mesma sondagem. A superporsição das duas curvas ocorre praticamente desde o começo do governo Dilma. Para onde uma vai, a outra vai atrás. Estatisticamente, seu coeficiente de correlação é muito alto: 0,88 num máximo de 1,00.

Basicamente, quando cresce o número de brasileiros que avaliam que seu bolso está mais cheio agora do que estava três meses antes e, ao mesmo tempo, preveem que ele vai continuar estufando nos próximos meses, cresce também a quantidade de brasileiros que dizem que o governo Dilma é “bom” ou “ótimo”. Por essa correlação, a popularidade presidencial é uma função direta do poder de compra e da capacidade de consumo do eleitor.

Essa percepção não depende apenas da renda, mas de outros fatores indiretos, como facilidade de o brasileiro obter crédito, de sua estabilidade no emprego ou facilidade de conseguir uma ocupação remunerada e, em menor grau, do medo de descontrole inflacionário.

Em outras palavras, enquanto a economia continuar se expandindo, o emprego seguir em alta e os consumidores continuarem comprando e se endividando, Dilma deverá permanecer com uma avaliação positiva de seu governo. E se essas tendências se intensificarem, a boa vontade da população com sua gestão pode crescer ainda mais.

Essa correlação entre consumo e popularidade não é um fenômeno jabuticaba, que ocorre apenas no Brasil. Ela acontece nos EUA também. Barack Obama tem se beneficiado dela. O presidente norte-americano só voltou a melhorar sua posição nas pesquisas de intenção de voto depois que o índice de confiança do consumidor cresceu, refletindo a aquecimento do mercado de trabalho e a retomada do consumo.

Não é por acaso que, tanto nos EUA quanto no Brasil, os presidentes dedicam muito mais atenção à economia do que às rusgas com o Congresso. Quanto melhor o emprego e o consumo, mais popular eles ficam e mais poder eles têm para negociar o que lhes convém, tanto com sua base de apoio quanto com a oposição. Lá como cá, a avaliação do trabalho dos parlamentares é muito pior do que a do Executivo federal. E quando o presidente se populariza, a balança de força entre os Poderes se desequilibra, sempre em detrimento do Legislativo.

Se aparece um escândalo envolvendo um dos principais porta-vozes da oposição, menor ainda o poder de barganha dos parlamentares. Aos olhos da população, quando um crítico do governo é pego praticando o que condenava, reforça-se a ideia de que “político é tudo igual”. E se a percepção de que a conduta ética é a mesma para todos, melhor salvar pelo menos o bolso.

Presidentes que perderam sua base de apoio e a chamada “governabilidade” perderam antes o controle da economia. Foram os casos de José Sarney e Fernando Collor. O primeiro acabou tutelado pelo PMDB de Ulysses Guimarães, e o segundo foi forçado para fora do governo. Desde Fernando Henrique Cardoso, o bom desempenho econômico tem precedido a estabilidade política. Foi assim com Lula, é assim com Dilma.

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Pesquisa Gallup nos 27 países membros da União Europeia mede o grau de descrédito a que chegaram os governantes e banqueiros do continente. Na média, só 1 em cada 3 europeus confia no governo do seu país (36%). A confiança nos bancos e instituições financeiras não é muito melhor: 43%. Para um sistema que é baseado só em confiança, esses 43% são alarmantes. Alarmante também é o fato de a instituição na qual o europeu médio mais confia são os militares.

De 27 governos avaliados por seus governados, apenas cinco passaram no teste de confiança e tiveram mais de 50% de respostas positivas. Ao mesmo tempo, em 13 países menos de um terço da população diz confiar no seu governo. São os casos da Espanha (31%), Itália (26%) e Portugal (21%). Nesses casos, é preciso levar em conta que as pesquisas foram feitas antes da troca de governo.

O resultado não é muito melhor quando se comparam os graus de confiança nos bancos de cada país. Embora as pesquisas tenham alguns meses de idade, elas indicam a profundidade da crise europeia e apontam para uma enorme dificuldade de recuperação diante de um grau de desconfiança tão alto.

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18.dezembro.2011 22:00:11

O ano e a vez da vox

Apesar de faltarem apenas 13 dias no calendário, 2011 está longe de chegar ao fim. É daqueles anos que -com a licença de Zuenir Ventura- não terminam quando acabam. As ondas verberadas nos últimos 12 meses ainda vão ressoar por muito tempo. 2011 é o ano em que a opinião pública ganhou voz: rompeu a virtualidade das redes sociais, e se materializou em marchas, ocupações e revoluções. Nenhum governante, democrata ou ditador, dormirá com a mesma tranquilidade de 2010.

Raras vezes uma ideia contaminou tanta gente em tantos lugares tão rapidamente. Entre a primavera na Tunísia e o outono na Rússia, centenas de milhares de pessoas abdicaram da segurança doméstica e foram às ruas gritar em árabe, grego, espanhol, inglês, francês e russo. Ocuparam praças e chacoalharam governos. Em comum, o desejo de se fazer ouvir, de expressar sua inconformidade e de mudar o estado das coisas.

Para os governos totalitários, sem válvulas de escape, foi um estouro de boiada. A multidão atropelou o que tinha pela frente. E, como mostra a revolução permanente no Egito, reprimida cada vez com mais violência pelos militares que tentaram tutelá-la, é quase impossível guardar o gênio de volta na lâmpada depois que ele sente o gosto de liberdade. Os cadáveres nas ruas do Iraque, Líbia e Egito testemunham que derrubar um regime é muito mais fácil do que construir uma democracia.

E mesmo para os governos democráticos, há uma crise de representatividade. Setores expressivos das sociedades grega, espanhola, inglesa, francesa, russa e norte-americana, entre outras, mostraram que não se sentem representados pela política tradicional, pelos partidos nem pelos respectivos parlamentos. Seus protestos, pacíficos ou incendiários, nasceram da desigualdade crescente, mesmo quando a falta de oportunidade econômica deu brecha ao oportunismo saqueador.

Em um dos melhores trabalhos de investigação jornalística dos últimos tempos, o jornal “The Guardian” conseguiu georreferenciar onde mora grande parte dos jovens que participaram dos saques e das revoltas em Londres e em outras cidades inglesas. A superposição entre pobreza, violência e alto desemprego juvenil não deixou dúvidas sobre o que eles tinham em comum.

A economia decadente explica, em grande parte, as rebeliões nos países europeus e nos Estados Unidos. Os “indignados” espanhóis e os ocupadores de Wall Street são de uma geração que percebe ter menos opções profissionais e alternativas de emprego do que a de seus pais. E que se ressente da lenta resposta dos mecanismos da democracia representativa.

Acostumados ao imediatismo das novas tecnologias de comunicação, os jovens excluídos se impacientam com as discussões parlamentares bizantinas, com o partidarismo estéril e com a sucessão de promessas sempre repetidas e nunca cumpridas. Sua ação é diretamente proporcional à inércia de seus representantes.

A economia recessiva é regra nos países chacoalhados pela vox publica, mas há exceções. Na Rússia, quem desafiou o regime, temperaturas abaixo de zero e foi gritar contra a perpetuação no poder de Vladimir Putin foi a nova classe média, que, ironicamente, se consolidou durante o seu interminável governo. O ex-espião saiu do frio e seus compatriotas emergentes entraram nele de peito e boca abertos.

Também no Chile, altos porcentuais de crescimento do PIB não impediram que os estudantes se organizassem e demonstrassem meses a fio contra o governo conservador de Sebastián Piñera, por uma reforma educacional. O presidente chileno demonstrou tanta inabilidade política e usou tamanha violência contra marchas pacíficas que praticamente unificou a opinião pública do país contra si.

E no Brasil? Houve marchas de fim-de-semana e invasão de reitoria. Faltaram, porém, volume de manifestantes, persistência nos protestos e radicalização que tornassem as manifestações da opinião pública brasileira comparáveis às árabes, europeias e norte-americanas -a ponto de provocar protestos de correspondentes estrangeiros sem notícia.

As pesquisas de avaliação de governo captam o silêncio da maioria da opinião pública e o traduzem em taxas de popularidade recorde para Dilma Rousseff. Também crescentes são a confiança do consumidor e o otimismo dos brasileiros quanto à sua situação financeira pessoal. Consumo em alta é igual a eleitor satisfeito, e o governo sabe disso. A fórmula funciona no curto prazo, mas é insuficiente para mudar um país. 2011 termina sem acabar para o mundo, nem para o Brasil e tampouco para Dilma.

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Enquanto a confiança do consumidor estiver em alta, é improvável que a popularidade do governo mova-se no sentido contrário. Antes de a aprovação de Dilma Rousseff subir, cresceu o Índice de Expectativa do Consumidor (Inec) medido pela mesma dupla CNI/Ibope que aferiu a popularidade presidencial. Quando o bolso está cheio, outros problemas, como notícias de corrupção, incomodam menos o cidadão.

Apesar de a crise econômica internacional ter atrofiado o crescimento do PIB brasileiro, ela não diminuiu o otimismo do consumidor. Pelo menos até agora. Os indicadores da situação financeira individual que compõem o Inec melhoraram em novembro e em dezembro. Nada guarda correlação mais estreita com a popularidade presidencial do que a combinação desses dois indicadores.

A presidente terminou 2011 tão bem quanto começou, com os mesmos 56% de “ótimo” e “bom”. É um índice historicamente alto. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisou de quatro anos de governo para chegar a esse patamar. E seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, só atingiu-o uma vez, em março de 1997.

Dilma herdou grande parte da popularidade de Lula, mas conseguiu mantê-la alta graças ao bom desempenho do consumo. Para isso contaram não apenas a renda individual mas também o acesso do consumidor ao crédito pessoal. Não por coincidência, facilitar o crédito é uma das primeiras medidas que o governo toma quando a economia esfria.

Juros mais baixos e crédito fácil têm impacto principalmente no bolso dos mais pobres. São as pessoas que ganham até 1 salário mínimo que mais bem avaliam o governo Dilma. São também as mais otimistas com o futuro de sua gestão e as que mais confiam na presidente.

Como no governo Lula, o grau de aprovação é inversamente proporcional à renda e à escolaridade. Os mais críticos à presidente são os que ganham mais e quem têm diploma de nível superior. Mas as diferenças são menos dramáticas do que foram no governo do antecessor. Dilma vai proporcionalmente melhor entre as mulheres e no Sul, por exemplo.

Nesse cenário, até as notícias de queda de ministros têm viés positivo para Dilma. As demissões dos auxiliares são interpretadas pela maioria como ações da presidente contra a corrupção. Cada ministro que cai, maior a faxina. É um mau sinal para os aliados da presidente, cada vez mais vulneráveis a trocas. Só lhes resta retaliar nos bastidores do Congresso Nacional e -novidade da semana- do Supremo Tribunal Federal.

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05.dezembro.2011 02:56:52

Escravos do sucesso

A quantidade de prefeitos eleitos por um partido está correlacionada ao que acontece com sua bancada de deputados federais dois anos depois. Em 2008, os principais partidos de oposição ao governo federal elegeram menos prefeitos. Não por coincidência, viram suas cadeiras federais minguarem quase na mesma proporção em 2010.

No sentido inverso, o ciclo eleitoral passado favoreceu petistas e aliados: ganharam prefeitos e, na eleição seguinte, deputados. Mas também aumentou a dispersão partidária. Mais legendas conquistaram espaço nas prefeituras e isso levou à pulverização ainda maior do poder na Câmara dos Deputados. A base de sustentação do governo federal ficou mais fluida, movediça.

Só por isso, o governo Dilma Rousseff já teria muito interesse no que vai acontecer nas eleições de 2012. Mas não fica aí. O pleito será o primeiro teste real de popularidade da presidente. Mesmo que os problemas locais sejam mais relevantes na decisão do voto de prefeito do que as ações federais, o resultado das urnas será creditado ou debitado parcialmente na conta de Dilma. Sua imagem sairá fortalecida ou enfraquecida. É uma prévia de 2014.

O governo federal influencia a eleição de prefeitos com transferências preferenciais de verbas, priorizando obras, alimentando ONGs -como fazem também os governos estaduais. Mas Brasília tem um poder a mais, o de influir no clima geral da opinião pública, pelo que faz com a economia. Otimismo ou pessimismo nascem no bolso e dali se espalham até chegar ao dedo que tecla “confirma” na urna eletrônica.

Um eleitor otimista é mais propenso a reeleger seus governantes. O pessimista é mais aberto a mudanças. Portanto, é do interesse geral dos prefeitos candidatos à reeleição que a economia esteja aquecida no próximo ano. Assim como é do interesse de Dilma.

É difícil encontrar algo que se correlacione mais com a popularidade do presidente no Brasil do que a confiança do consumidor. Se esse índice sobe, a avaliação do governo federal tende a melhorar, e vice-versa. Dentre os itens que compõem a versão do índice divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), dois têm correlação ainda maior: a situação financeira do entrevistado hoje (comparada ao período imediatamente anterior), e a expectativa do que deve acontecer com essa mesma situação financeira no futuro próximo.

A combinação desses dois indicadores, pesquisados mensalmente em sondagem CNI/Ibope, tem um coeficiente de correlação de 0,9 com o saldo de aprovação do governo federal. Grosso modo, é possível antecipar com 90% de acerto a tendência da popularidade de um presidente a partir desse índice composto -que poderia ser batizado de “bolso eleitoral”.

O mais surpreendente é o quão mais forte é essa correlação entre o bolso e a popularidade presidencial do que entre a imagem do governo e os outros indicadores que compõem o índice de confiança do consumidor. O medo do desemprego tem correlação, mas significativamente mais fraca do que o “bolso eleitoral”. E a expectativa de inflação simplesmente não se correlaciona com a popularidade presidencial. Oscilam frequentemente em direções opostas.

É mais um sinal de que o discurso da estabilidade econômica perdeu para o do crescimento. Talvez porque os últimos oito anos mostraram ser possível crescer sem perder o controle da inflação. Mais do que isso, esses anos de bonança criaram na opinião pública uma expectativa de que a capacidade de consumo não só pode como deve aumentar continuamente.

Quando o governo reativa o crédito, corta impostos sobre operações de financiamento e diminui a taxa de juros básica ele está tomando medidas para tentar reaquecer a economia e gerar mais consumo. O eventual aumento da atividade tem vários efeitos positivos para o próprio governo: aumenta a arrecadação de impostos e a disponibilidade de recursos para gastar.

Mas não dá para ignorar que a retomada do ritmo da atividade econômica também paga bônus eleitoral para aos governantes ao elevar o nível de confiança do consumidor. Toda ação governamental gera uma reação na opinião pública. Não existe o ato de governar exclusivamente técnico. Quem governa são os políticos, não os tecnocratas.

Nem toda medida com impacto eleitoral é ruim em si. A adaptação da política econômica às circunstâncias é do jogo. Entre as circunstâncias estão o ambiente político e a opinião pública. Um governo com popularidade em baixa perde sustentação política e, por tabela, graus de liberdade para determinar sua própria política econômica.

O problema acontece quando os interesses eleitoreiros de curto prazo de chocam com o que é melhor para o País no longo prazo. Por ora, o governo Dilma tem espaço para administrar as contradições entre a pressão inflacionária e o ritmo do consumo. Mas nem sempre é assim.

Logo após o massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, Fernando Henrique Cardoso experimentou seu único momento de impopularidade durante o primeiro mandato presidencial. Logo que as mortes saíram das manchetes, FHC recuperou a boa imagem conquistada pela estabilidade econômica. Reelegeu-se meses depois. Porém, ele nunca recuperou a popularidade perdida pela desvalorização abrupta do real, logo no início do segundo mandato.

Os governantes se tornam escravos do próprio sucesso. Quando não o seguem, pagam por isso.

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13.novembro.2011 22:11:44

Bunga-lenga

Não foram as festas bunga-bunga que derrubaram o libidinoso premiê italiano, Silvio Berlusconi. Foi a debacle econômica da Itália. Não foi (apenas) amor à camisa que segurou Neymar no Santos, mas a decadência dos mercados europeus e o crescimento financeiro do futebol brasileiro. Não é o terrorismo nem são os republicanos que mais ameaçam a reeleição do presidente Barack Obama, e sim o risco de duas recessões sucessivas nos EUA.

Cada vez mais, é o bolso do eleitor que determina o sucesso dos políticos mundo afora. O Brasil, apesar de suas jabuticabeiras, não é exceção. As principais forças da oposição, entretanto, têm dificuldades de aceitar isso. Faz uma década que não acertam nem sequer o discurso. Não é de estranhar: sem um diagnóstico correto, é quase impossível estabelecer uma estratégia vitoriosa nas urnas.

O primeiro passo é entender no que os adversários acertaram. Creditar tudo à sorte do outro é condenar a sua própria. Nos seminários, artigos e entrevistas com líderes do PSDB nunca se admite que houve algo positivamente diferente na gestão dos rivais petistas. Foi apenas a continuidade do modelo tucano em uma circunstância internacional mais favorável. Em suma, o sucesso alheio é mero acaso. Enquanto persistir nessa lenga-lenga, a oposição dificilmente sairá de onde está.

Quando se comparam os gráficos de indicadores econômicos do período FHC com os da era Lula, o que mais chama a atenção não é o crescimento da renda nem a diminuição da desigualdade, como a máquina de propaganda petista gosta de matraquear. É o de crédito. Do crédito das pessoas físicas. Para adquirir carros, eletrodomésticos, aparelhos eletrônicos ou fazer compras no cartão.

Quando Fernando Henrique Cardoso deixou a Presidência, as operações de crédito para a pessoa física eram 5% do PIB (Produto Interno Bruto). Desde então, cresceram mais de três vezes em proporção a tudo o que o Brasil produz de bens e serviços ao longo de um ano. O Brasil entrou no maravilhoso mundo do gastar por conta, e a oposição não percebeu -ou pelo menos não admitiu.

Tudo indica que -no cenário de economia estabilizada e baixa inflação deixado pelo PSDB- as transferências de renda para as populações semi-indigentes misturadas às políticas de micro-crédito e aumento real do salário mínimo do governo petista criaram um círculo econômico virtuoso: com uma renda mínima garantida e crescente, dezenas de milhões se tornaram neoconsumidores. Não necessariamente porque têm dinheiro no bolso, mas porque têm crédito.

Essa história de gastar por conta não dura indiscriminadamente, mas dura. Enquanto a conta vem a prazo, a satisfação é imediata. Por isso é tão difícil encontrar um discurso para convencer o eleitor de que é melhor mudar do que deixar tudo como está.

É por causa do crédito fácil e dos gastos exagerados que o Primeiro Mundo está enfrentando uma das maiores crises financeiras de sua história. A pirâmide financeira que levou Bernard Madoff à cadeia é brincadeira de criança quando comparada aos trilhões de euros em empréstimos sem lastro a governos europeus, ou ao megacassino do mercado de derivativos de Wall Street.

O problema, para a oposição, é que o Brasil estava tão atrasado nesse jogo que parece haver muito chão até a economia do País bater nos limites que levaram Grécia, Irlanda e Portugal à bancarrota. Ou seja, não dá para a oposição esperar sentada até que a sorte internacional do governo Dilma mude.

No fim do governo FHC, o endividamento das famílias era menos de 20% da renda acumulada pelos seus integrantes nos últimos 12 meses. Agora, é de mais de 40%. O gráfico da evolução desse porcentual parece uma rampa íngreme: cresce em linha reta, sem solavancos nos últimos seis anos. Apesar disso, ainda há espaço para crescer mais. Entre outros motivos, porque a situação demográfica brasileira é muito mais favorável do que a europeia.

A base economicamente ativa da população ainda é muito mais larga do que a soma de aposentados e estudantes. Por isso, a pirâmide brasileira permanece de pé. Ao contrário da oposição, o governo parece entender isso. A qualquer sinal de desaceleração da economia, o Banco Central solta os mecanismos de crédito, como fez novamente na sexta-feira passada. A confiança do consumidor reage e, por tabela, a popularidade do governante de plantão.

A continuar essa tendência, o cenário da próxima eleição municipal tende a ser mais parecido com o do pleito de 2008 do que com o de 2004: melhor para os candidatos governistas do que para os de oposição.

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31.outubro.2011 15:26:30

Lula, Dilma e o câncer

O câncer tem 10% de chances contra Luiz Inácio da Silva, mas 0% contra Lula. Do ponto de vista da opinião pública, a doença tende a reforçar o mito, como o tiro no peito transformou Getúlio Vargas de suspeito em herói -com todas as simplificações que isso implica. Nunca é bom subestimar a empatia do brasileiro por quem está perdendo mas demonstra garra para virar o jogo.

Lula intui isso ao dar transparência total à doença desde o diagnóstico. O “The New York Times” comparou-o ao mistério com que Hugo Chávez tratou o próprio câncer no início. Mas o presidente da Venezuela ganhou popularidade desde que o tratamento o fez raspar os cabelos e tornou a doença de conhecimento público. Certamente não foi a nova aparência que fez Chávez somar pontos no eleitorado.

Nesse cenário de mitificação renovada, quais as consequências da doença de Luiz Inácio para Dilma Rousseff e para o jogo político-eleitoral? Para ensaiar uma resposta, só fazendo suposições. Mas convém calçá-las em fatos.

Como o gráfico que ilustra este texto mostra, o crescimento do consumo de massa esteve intimamente ligado à disparada de popularidade de Lula. As curvas que representam a confiança do consumidor (em cinza, medida pelo INEC da CNI) e o saldo de aprovação presidencial (em preto, medido pelo Ibope) correram paralelas, num trajeto cheio de altos e baixos, mas com coeficiente de correlação de 0,83 -num máximo de 1,0.

É uma correlação muito forte. Significa que se um dos indicadores sobe ou cai, o outro tem enormes chances de acompanhá-lo. Foi assim ao longo de todo o governo Fernando Henrique Cardoso e no primeiro mandato de Lula. Mas a partir da segunda metade do segundo mandato, a popularidade de Lula e a confiança do consumidor, embora mantivessem o mesmo rumo ladeira acima, se descolaram. A aprovação ganhou uma camada extra de cobertura.

Há vários nomes para esse exagero de doçura com que o eleitor avaliou o ex-presidente no último período de seu governo, um deles é mitificação: apesar dos ditos e feitos, nada de ruim cola na imagem presidencial. Foi nesse clima que Lula elegeu Dilma.

O gráfico mostra, porém, que terminado o mandato de Lula, a fase mitológica acabou. As curvas de aprovação presidencial e a confiança do consumidor voltaram a convergir durante o governo Dilma -para um patamar muito parecido com o que Lula iniciou seu segundo mandato, antes de começar a virar mito.

Nada indica, por ora, que Dilma repetirá a façanha do antecessor. Além das doses incomparáveis de carisma pessoal, Lula vinha em ascensão, de melhoria da sua avaliação em relação ao mandato anterior. Com Dilma ocorre o oposto: apesar da alta aprovação, ela perde na maioria da população quando comparada a Lula.

A popularidade de Dilma depende, antes de mais nada, de ela conseguir equilibrar as variáveis econômicas para manter a expectativa de consumo em alta. Mas uma coisa ela não pode fazer, sob risco de ficar em impedimento na opinião pública: dar a impressão de trair seu criador. Especialmente agora.Vai se desdobrar para demonstrar o oposto.

Talvez Lula fale menos por causa da doença, mas também por causa da doença o que ele falar contará mais. As atenções vão voltar, pelo menos enquanto ele estiver em tratamento. Nesse período, em vez de perder, o ex-presidente ganha espaço. E Lula sabe transformar espaço em poder. No máximo vai ficar de mau humor por não poder beber nem fumar.

Se prevalecerem os 10%, e o câncer ganhar, todas as apostas estão zeradas. Como Getúlio, Lula tem sucessor administrativo mas não político. Sua saída prematura de cena abriria um novo capítulo na história.

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10.outubro.2011 17:59:43

Indignados e desacreditados

Por que o movimento dos “indignados”, que ganhou notoriedade na Espanha, se espalhou para o Chile e agora ocupa Wall Street (EUA) não comoveu multidões no Brasil? Desde julho, quando o jornal espanhol El País fez essa pergunta, parece haver mais indignação com a falta de resposta do que, propriamente, com a corrupção da política nacional.

Tentativas de mobilização das massas não foram muito além de um trending topic ou outro nas redes sociais. Quando chegaram às ruas, não saíram dos bairros mais afluentes, tampouco tiveram sustentação ao longo do tempo. Nos termos de seus idealizadores, cansaram logo. 

As explicações aventadas variam da mitológica cordialidade nacional ao efeito lavador de cérebros da propaganda governamental. A despeito de exemplos como os dos “cara-pintadas” e das “diretas já”, os argumentos rapidamente se voltam contra o objeto da mobilização: o brasileiro -que seria, antes de tudo, um apático. Vale a pena, então, comparar o que ele pensa com o que pensam outros povos mais indignados.

A começar pelas semelhanças e diferenças na opinião pública de Brasil e Chile, onde o Ibope fez pesquisas com metodologias idênticas. O Índice de Confiança nas Instituições varia de 0 a 100. Quanto maior, mais confiante a população naquela instituição. Na média, o índice chileno pende bem mais para o lado da desconfiança do que o brasileiro: 46 a 55.

Semelhanças positivas – Bombeiros: (Chile) 92 a 86 (Brasil). Polícia: (Chile) 60 a 55 (Brasil). Forças Armadas: (Chile) 56 a 72 (Brasil). Organizações da sociedade civil: (Chile) 60 a 59 (Brasil).

Semelhanças negativas – Partidos políticos: (Chile) 17 a 28 (Brasil). Congresso Nacional: 23 (Chile) 23 a 35 (Brasil). Sistema público de saúde: (Chile) 40 a 41 (Brasil). Sindicatos: (Chile) 47 a 44 (Brasil).

Semelhanças neutras – Governo municipal: (Chile) 50 a 47 (Brasil). Eleições: (Chile) 49 a 52 (Brasil).

Diferenças: Presidente da República: (Chile) 27 a 60 (Brasil). Governo federal: (Chile) 36 a 52 (Brasil). Justiça: (Chile) 30 a 49 (Brasil). Igrejas: (Chile) 44 a 72 (Brasil). Meios de comunicação: (Chile) 51 a 65 (Brasil).  Empresas: (Chile) 49 a 59 (Brasil).

Nos EUA, o instituto Gallup com metodologia diferente chegou a conclusões semelhantes. Como no Chile e no Brasil, nenhuma instituição é mais desacreditada entre os norte-americanos do que o Congresso. E apenas como no Chile, a Presidência da República está em processo de descrédito -desde a posse de George W. Bush, com leve mas fugaz recuperação da confiança no começo do governo de Barack Obama.

Uma hipótese surge das pesquisas: quando a população se desencanta com seu governante e não enxerga representatividade no Congresso nem nos partidos nem nos sindicatos nem na mídia para expressar sua indignação, deságua sua insatisfação em protestos de rua. Não por coincidência, o chileno Sebastián Piñera é o governante mais mal avaliado das Américas, e o espanhol José Luis Zapatero está na lanterna na Europa.

E o que Obama, Piñera e Zapatero têm em comum, que presidentes com melhores índices de avaliação, como Dilma Rousseff (Brasil), Dmitry Medvedev (Rússia) e Cristina Kirchner (Argentina), não têm? Sérios problemas na economia de seus países. 

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O instituto de pesquisa mexicano Consulta Mitofsky (sic) compilou resultados de avaliação de governo nos países das Américas divulgados entre junho e setembro. Além das datas de campo dos levantamentos, a metodologia e a confiabilidade dos institutos variam muito. Por isso, ao contrário do que fez o autor, não convém chamar de ranking dos presidentes -seja porque as diferenças entre eles às vezes estão dentro da margem de erro, seja porque, como no caso do Brasil, haja levantamentos mais recentes (o usado para Dilma é do Sensus). Mas serve como um panorama da opinião pública na região.

Vale notar que, na média, os governantes latino-americanos estão muito mais bem avaliados do que seus colegas europeus. Na Inglaterra, França, Itália e Espanha, por exemplo, os governantes têm aprovação inferior a 40%. Como sempre, a popularidade dos mandatários acompanha o desempenho da economia de seus países.

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