José Roberto de Toledo - Estadao.com.br
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A concentração de imigrantes de outros Estados é uma das chaves para entender o padrão geográfico de votação na cidade de São Paulo. Historicamente, os candidatos petistas a cargos majoritários são mais votados nas periferias, enquanto os anti-petistas costumam vencer no centro expandido. Esse comportamento tem menos a ver com a renda e a escolaridade do que com a origem do eleitor.

Uma pesquisa inédita realizada pelo Ibope e pelo Estadão Dados conseguiu demonstrar, estatisticamente, que nenhuma variável sociodemográfica guarda uma correlação mais forte com o voto dos eleitores paulistanos do que o bairro onde ele mora. A descoberta virou um estudo cientifico que será apresentado pela CEO do Ibope, Marcia Cavallari, no congresso mundial de opinião pública (66ª Wapor) este mês, em Boston, nos EUA.

Os resultados de um teste estatístico chamado Chi-quadrado encontraram valores mais altos para a associação da preferência eleitoral dos paulistanos com o distrito de moradia do que com outras variáveis estruturais do voto, como cor, renda e grau de escolaridade do eleitor. Novos testes descobriram, depois, que isso se deve, em grande parte, à origem dos moradores.

“A proporção de migrantes (de outros municípios, inclusive de outras cidades paulistas) na área petista é maior do que nas demais áreas”, constata o estudo: 42% contra 35% no resto da cidade. Mas a maior diferença ocorre entre os eleitores que vieram do Nordeste: 55% dos imigrantes nordestinos moram nas áreas onde os candidatos do PT sempre são os mais votados.

Isso significa que dois eleitores com diploma de nível superior ou com renda semelhante têm mais chance de votar em dois candidatos diferentes a prefeito ou a presidente do que se eles tiverem a mesma origem (no caso, os Estados do Nordeste do Brasil) e/ou morarem no mesmo bairro.

A preferência do eleitorado nordestino radicado em São Paulo por candidatos petistas transcende em muito os programas federais de transferência de renda. Uma parcela estatisticamente desprezível deles recebe benefícios do Bolsa Família ou equivalentes. O “petismo” desses eleitores paulistanos parece estar mais ligado à ascensão social e, principalmente, de consumo experimentada por seus conterrâneos ao longo dos últimos 10 anos.

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05.maio.2013 12:45:42

Popularidade flutuante

A presidente Dilma Rousseff está perdendo o pé de sua popularidade. O poder de compra do consumidor que lhe dá sustentação voltou a cair, deixando a taxa de aprovação de seu governo a flutuar – nas alturas, é fato, mas a flutuar. Inércia sustenta popularidade por algum tempo, mas não indefinidamente. De duas, uma: ou o bolso do consumidor volta a encher, ou as opiniões positivas sobre Dilma podem começar a diminuir.

É cedo para a oposição comemorar com frevo e tutu de feijão orgânico, mas a situação financeira do consumidor é a menos satisfatória desde a posse de Dilma. Os que dizem que a situação é melhor do que era há 3 meses ainda são o dobro dos que acham que piorou. Mas a diferença entre os dois grupos está diminuindo. Rapidamente.

Em novembro, quando a confiança do consumidor estava no auge, 41% dos brasileiros afirmavam ao Ibope em pesquisa para a CNI que sua situação financeira havia melhorado, contra apenas 11% que diziam o contrário. Em abril, a taxa de melhora caiu a 33%, e a de piora subiu para 17%. A diferença estreitou de 30 para 16 pontos percentuais. Se os números são bons, a tendência é ruim.

Tão importante quanto o volume no bolso do consumidor no presente é o otimismo quanto ao que acontecerá com sua renda no futuro. Em novembro, 47% apostavam em melhora nos próximos seis meses. Agora, os otimistas são 36%. Ultrapassam os pessimistas por 25 pontos, mas sua vantagem caiu um terço desde novembro.

A situação financeira atual e a perspectiva do que acontecerá com a renda são os dois indicadores que guardam mais forte correlação estatística com a popularidade presidencial. Suas curvas têm mais semelhança com a sorte do governante do que as da inflação, do crescimento do PIB ou do medo do desemprego.

Não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito, porém. Garantir que é a segurança financeira do consumidor que determina a aprovação do presidente é apenas uma hipótese, mas sabe-se que ambos andam de mãos dadas. Se um oscila numa direção, o outro, mais cedo ou mais tarde, acaba seguindo no mesmo caminho. Qual vai seguir qual é questão de fé.

A oposição torce para que a confiança do consumidor puxe a popularidade de Dilma para baixo, e o governo reza no sentido oposto. Seja para onde for, as duas curvas devem convergir. Vai depender de qual santo é mais forte e tem a máquina de propaganda mais azeitada.

A insatisfação com o poder de compra aumentou mais entre os consumidores do Nordeste do que do Sudeste, e mais entre os pobres do que entre os ricos. Isso sugere uma influência grande do aumento dos preços dos alimentos. Se foi o “tomate”, trata-se de um fenômeno sazonal e não contínuo. Impossível cravar, porém.

O governo conta com o otimismo de sua base eleitoral. A euforia dos consumidores nordestinos diminuiu, mas 51% ainda estão crentes de que sua situação financeira vai continuar melhorando. Os pobres perderam menos a esperança de ver sua renda aumentar no futuro próximo do que os ricos. Manter essa chama acesa é o problema de Dilma.

Enquanto isso, Aécio Neves (PSDB-MG) assopra um balão de ensaio. O presidenciável tucano cogita propor o fim da reeleição. Brinca com fogo.

Foi o PSDB que inventou a reeleição, quando o partido ainda sonhava permanecer 20 anos no poder. Acabar com ela agora que o sonho virou pesadelo, e já a partir 2014 (o que daria anos extra de mandato para os políticos sem consentimento do eleitor), é tão casuístico quanto mudar as regras eleitorais para deixar Marina Silva sem tempo de propaganda na TV. Incoerência queima.

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Um é o mais despreocupado do mundo com a economia, nunca teve tão pouco medo de perder o emprego e está confiante de que vai poder gastar mais. O outro desconfia do futuro econômico do país, teme por seu negócio e segura investimentos. Seria irrelevante se um não consumisse o que o outro produz. Raras vezes consumidores e empresários brasileiros divergiram tanto.

Esse desencontro de pontos de vista fica claro em uma série de indicadores e pesquisas divulgados ao longo dos últimos dez dias – todos eles positivos quando o pesquisado eram os consumidores, e todos negativos quando as respostas vinham dos industriais.

O descompasso entre oferta e demanda não costuma sair de graça. Quando há mais gente disposta a comprar e não há contrapartida na oferta de produtos, o mercado tende a subir preços. Se quem demanda tem renda maior do que costumava ter, a margem de manobra fica ainda mais favorável a quem controla a oferta, e os preços tornam-se especialmente altos, como no Brasil hoje.

Mas isso não tem afetado a disposição do consumidor de fazer o que aprendeu a fazer melhor: comprar. Em parte, porque o governo tem buscado compensar os aumentos de preços com redução de impostos e taxas. E também porque os salários continuam com poder de compra alto, apesar da inflação.

O índice de confiança do consumidor voltou a subir em março. Mais do que a retomada, o indicador calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra a sustentação do otimismo em patamares historicamente altos.

Pré-governo Dilma, só em dois momentos o INEC chegou aos níveis atuais: nos finais do primeiro e do segundo mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não é coincidência. A confiança do consumidor tem alta correlação com a popularidade do governante – sobem e caem juntas. Logo, não é de surpreender que o presidente busque manter o consumidor confiante quando se aproxima a eleição que decidirá quem vai sucedê-lo.

O INEC é um índice composto a partir de seis perguntas que medem a expectativa de inflação e do emprego, a satisfação com a renda atual e a perspectiva da renda futura, o grau de endividamento e os planos do consumidor de comprar bens de valores altos. Três desses fatores se correlacionam especialmente com a popularidade presidencial: os dois relativos à renda e o medo do desemprego.

Na semana passada, a CNI divulgou pesquisa mostrando que o medo do desemprego está no menor patamar da série histórica – em linha com o que mostram as taxas de desemprego. E os dois indicadores de renda que compõem o INEC só não têm performance melhor do que o do emprego. Essas são as chaves para entender a popularidade recorde da presidente Dilma Rousseff.

O brasileiro não considera mais o emprego e o salário suas principais preocupações na vida. Com a sobrevivência garantida, ele pode se ocupar de outras questões e eleger outras prioridades. Uma pesquisa feita em 56 países e divulgada na semana passada mostrou que, entre todos, o brasileiro é o mais despreocupado com a economia – a perfeita antítese do espanhol.

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Indagado sobre quais os principais problemas do mundo (leia-se o mundo ao seu redor), só 14% dos brasileiros citaram problemas econômicos. A taxa não é apenas baixa, é ridiculamente baixa. O dobro de chineses, indianos e russos disseram que as questões econômicas são as que mais os preocupam.

Essa diferença entre o Brasil e os outros BRICS é a prova de que o crescimento do Produto Interno Bruto tem muito pouco ou quase nada a ver com o grau de satisfação da população. Por isso é do interesse da oposição trocar o disco – mesmo que o crescimento econômico do Brasil medido pelo PIB seja medíocre. Importante para o país, o índice é insignificante na eleição.

A mesma pesquisa global dá uma pista para os adversários de Dilma. O levantamento mostra o que mais causa preocupação no Brasil hoje: as drogas e a criminalidade – associadas ou não. Nada preocupa mais o brasileiro, e ninguém se preocupa tanto com esses problemas. Os brasileiros têm as maiores taxas de preocupação com drogas e crime entre os 56 países.

Na economia, o presidente tem todo o bônus quando acerta e todo o ônus quando erra. No combate ao tráfico de drogas, à epidemia do crack e na repressão à violência, a responsabilidade – aos olhos do público – é compartilhada entre todos os governantes: da prefeitura ao Planalto, passando pelos palácios estaduais.

O candidato de oposição que conseguir mostrar serviço nessas áreas terá agenda própria e um discurso pós-econômico. Se a economia piorar, como prevêem os empresários, ele se beneficiará junto com todos os adversários do governo, mas com a vantagem de não parecer ter torcido para que isso acontecesse.

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A maior parte dos brasileiros (38%) acha que o noticiário foi mais favorável à presidente Dilma Rousseff nos últimos três meses. Pela primeira vez desde que ela tomou posse essa fatia é maior do que a dos que consideram que houve mais notícias neutras (34%) ou negativas (17%). Dilma não é popular só por causa disso, mas a comunicação ajudou a presidente.

Das dez notícias mais lembradas pelos brasileiros nos últimos três meses, apenas uma (aumento do preço da gasolina) foi francamente negativa para o governo – e mesmo assim, foi citada por apenas 3% das pessoas.

A grande maioria foi de boas notícias para Dilma: redução da tarifa de energia elétrica, corte de impostos da cesta básica, aumento do salário mínimo, e a presença solidária da presidente em eventos trágicos, como o incêndio em Santa Maria, ou notórios, como a despedida do papa e o enterro de Hugo Chávez.

Isso mostra que a comunicação presidencial está mais ativa, seja criando fatos positivos – como o anúncio em cadeia de TV do corte de impostos da cesta básica -, seja aproveitando bem as oportunidades que aparecem. É mais um sinal de que a campanha eleitoral de 2014 começou e com força, ao menos para Dilma.

Comunicação é o que as pessoas entendem, não o que quem falou pensa ter dito. Por enquanto, o governo está dando um banho na oposição nesse quesito. O anúncio da redução da tarifa de eletricidade, por exemplo, foi cinco vezes mais lembrado do que o noticiário sobre o pibinho. Talvez porque um afete diretamente o público, e o outro não.

Não por coincidência, o único segmento social onde a popularidade de Dilma aumentou foi entre os mais pobres, justamente aqueles que mais se beneficiam do aumento do salário mínimo e da prometida redução do preço dos alimentos e da energia.

Nada garante que o vento continue soprando a favor de Dilma até a eleição, mas é mais fácil navegar uma tendência do que revertê-la. Esse é o desafio da oposição.

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11.fevereiro.2013 15:16:39

Político indeterminado

Após as eleições dos novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado e o noticiário associado a elas, o desinteresse recorde pela política partidária detectado pelo Ibope no fim do ano passado deve ter repicado. Quando política e polícia se confundem, só ganha a desilusão. Bom para os políticos.

Quanto menos interessado o público, maior a liberdade de ação dos profissionais da política. Reações esparsas como as manifestações durante a posse do senador Renan Calheiros ou manifestos virtuais não mudam a opinião pública. Isso acontece apenas quando a ação política alcança seu objetivo. Os cara-pintadas só viraram história porque Fernando Collor caiu.

Por mais méritos que eventualmente tivesse a causa, quem vai lembrar do “Cansei” daqui a 20 anos? Um nome de movimento raramente foi tão apropriado, por metafórico e auto-realizável.

Se os cidadãos estão mais “cansados” do que “indignados”, ganham os operadores da política, os partidos e seus consorciados. O político indeterminado, aquela figura genérica e caricatural que simboliza o que está de errado com o sistema, se beneficia da desilusão da maioria. Medra na sensação de impotência, na impressão de que não há jeito.

Por isso é compreensível que nenhum presidente do Congresso tenha feito algo para tentar mudar a imagem cada vez pior do Legislativo. Ou que os partidos políticos nem se preocupem em salvar a cara da política partidária. O desgaste das instituições que comandam não os afeta. Talvez os ajude.

Continuam valendo, porém, todos os lugares-comuns sobre o tema. A política ainda é importante demais para ser deixada apenas nas mãos dos políticos – e quem diz não gostar dela permanecerá para sempre condenado a ser governado pelos que gostam. Que fazer?

Como a democracia no Brasil ainda está associada principalmente às eleições, qualquer tentativa de reverter a tendência de alienação e reaproximar o público da política tem que passar pelas urnas. Embora as campanhas eleitorais sejam cada vez mais curtas e despolitizadas, elas ainda são o único momento de mobilização de massa com data fixa no calendário.

O primeiro movimento para salvar a política das mãos de seus operadores, portanto, tem que estar colado ao ato de votar. Por mais contraditório que pareça, transformando-o em uma ação voluntária. Afinal, antes de ser dever, o voto é um direito.

O filósofo Renato Janine Ribeiro observou, no livro “Política: para não ser idiota”, que o voto obrigatório cria um mercado cativo para os políticos. Não importa o que eles aprontem, terão sempre a garantia de que a quase totalidade do eleitorado estará lá, digitando sues números e referendando seus nomes. Não precisam defender a política nem convencer ninguém para se legitimarem.

Se o voto fosse voluntário, a decisão do eleitor seria precedida por uma nova reflexão: vale a pena votar? Há algum candidato que mereça o meu esforço de sair de casa e ir à seção de votação?

Nas palavras de Janine Ribeiro: “Se eles tiverem que convencer o povo de que votar é importante, terão de militar em favor da política, e não só da política deles. Terão de mostrar que a política significa alguma coisa. Hoje, quem faz essa campanha é a Justiça Eleitoral. Deveriam ser os partidos, os candidatos.”

“Eles”, no caso, são o político indeterminado.

É difícil prever quais partidos se beneficiariam ou se prejudicariam com o fim da obrigatoriedade do voto. Tanto é assim que são raros os políticos brasileiros que concordam com a ideia. Na dúvida, calculam, melhor defender o status quo – afinal, em time que está ganhando não se mexe. Mas o voto obrigatório é uma jabuticaba que azeda nosso sistema eleitoral.

As duas últimas vitórias do Partido Democrata nas eleições presidenciais nos EUA se deveram, principalmente, ao sucesso do seu esforço de mobilização para levar os eleitores às urnas. Isso implicou muito mais do que fazer propaganda na TV. Foi preciso mobilizar milhares de militantes e desenvolver argumentos convincentes. Tudo isso favorece a politização da campanha – exatamente o contrário do que tem ocorrido no Brasil.

Como o fim da obrigatoriedade do voto escapa ao cálculo político e avança no campo da incerteza, é improvável que tal ideia entre espontaneamente em debate no Congresso. O voto não-obrigatório só tem chance de prosperar se vier de fora para dentro do mundo partidário. Seria um avanço e uma provocação. Afinal, nada incomoda mais o político indeterminado do que perder o controle.

 

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21.janeiro.2013 15:28:59

Petistas e tucanos de ponta

Na batalha por corações e mentes, o PT perdeu a ponta da pirâmide econômica e o PSDB está cada vez mais dependente dela. Essa reviravolta numa parte pequena mas influente da sociedade brasileira ajuda a espalhar fagulhas entre os dois partidos.

Pela primeira vez, há mais brasileiros com renda superior a 10 salários mínimos que se dizem tucanos do que petistas: 23% a 13%, segundo o Ibope. Não é nada trivial. Parece ter chegado ao fim uma supremacia de 15 anos do PT no segmento onde se concentram, por exemplo, leitores de jornais e revistas.

A virada começou no auge da simpatia pelo PT, quando o então presidente Lula batia recordes de aprovação e a economia crescia num ritmo mais chinês que europeu.

Em março de 2010, o PT atingiu seu pico de popularidade. Um em cada três brasileiros declarava simpatia pelo partido. Mas entre os eleitores mais ricos o petismo estava decadente havia anos. Desde junho de 2001, quando 35% do topo da pirâmide se dissera simpatizante, o PT vinha com viés de baixa nesse estrato.

O movimento custou a ser percebido porque o sobe-desce dos índices mascarava as tendências de longo prazo. Ao mesmo tempo, a perda dos eleitores com renda mais alta era compensada pelo crescimento do PT na base da pirâmide.

Quando Dilma Rousseff assumiu sua candidatura à Presidência, no começo de 2010, a penetração petista na elite econômica já estava reduzida a 22%. Ao fim da campanha eleitoral, sete meses depois, a taxa havia caído para 16%. Hoje é de 13%. Apesar disso, a perda de simpatia do PT nada tem a ver com Dilma.

O declínio nessa ponta vem dos câmbios da direção partidária que desembocaram, em 2005, no escândalo do mensalão. O desgaste é cumulativo. A cada disputa eleitoral os adversários tiram a casca da ferida e o PT sangra novamente. Foi assim em 2010 e em 2012 – com a ajuda do julgamento do mensalão pelo STF.

Os ex-petistas do topo da pirâmide se espalharam. Muitos se desencantaram com a política e viraram sem-partido, outros migraram para pequenas legendas e alguns até tucanaram.

Só desde 2010 o PSDB cresce entre quem tem renda superior a 10 salários mínimos – e apenas entre eles. Em menos de 3 anos, a preferência tucana pulou de 7% para 23% nessa elite, que passou a ter um peso muito maior entre os simpatizantes do partido. Ou seja, o PSDB percorreu o caminho do PT no sentido oposto.

Em 2004, o professor da Universidade de Minnesota David Samuels escrevia que os petistas eram diferentes dos outros brasileiros: “São mais instruídos e politicamente conscientes do que a média. (…) acreditam que a participação do indivíduo na política pode fazer diferença”. Se houve tal diferenciação, ela se diluiu.

O petismo perdeu influência justamente nas camadas citadas por Samuels. Ao mesmo tempo, absorveu lulistas – eleitores pragmáticos, cativados pela inclusão social via consumo. O resultado é que o petismo mudou. Com uma base menos rica, mais nordestina e, principalmente, mais numerosa, colecionou vitórias nas urnas. Mas depende cada vez mais do vaivém da economia.

 

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17.dezembro.2012 11:37:11

Viés, cada um tem o seu

O dinheiro está trocando de mãos como raramente ocorreu. No Brasil e no exterior, o rentismo deixou de ser uma opção para multiplicar o patrimônio. Ao contrário, nos países desenvolvidos a remuneração do capital financeiro é negativa. Quem vive de renda fica mais pobre. O jeito de fazer o dinheiro dar cria é investir em novos e velhos negócios, ou seja, arriscar.

O risco é a justificativa moral do capitalismo quando acelera a redistribuição do patrimônio. Alguns novos negócios vão dar certo, mas muitos vão dar errado. E o dinheiro vai trocar de mãos ainda mais rapidamente. Tudo isso provoca desconforto. Rompe estruturas seculares, desconstrói estilos de vida, revoluciona a sedimentação social.

Com juro baixo ou negativo, é mais fácil ter dívida do que patrimônio. No Brasil, esse rearranjo provoca dores de parto e reações proporcionais às perdas. O impacto varia de setor a setor. Empresas voltadas para o mercado de consumo interno estão geralmente melhor do que as dependentes da economia chinesa, que por sua vez estão melhor do que concessionárias de serviços públicos ou aquelas reguladas diretamente pelo governo.

O intervencionismo pontual do estado faz aumentar desigualdades. Beneficiários e prejudicados não são produzidos apenas pela aleatoriedade do mercado, mas pela caneta da burocracia. A grita aumenta não só por reação às injustiças, mas por ficar claro aos atores econômicos que quem não chora não mama.

No meio desse vendaval, alguns setores têm dose extra de drama. Estão sendo batidos pela revolução digital e experimentam a rápida agonia de suas fontes tradicionais de faturamento. Para esses setores, à perda das receitas financeiras soma-se o risco de perda do próprio negócio.

Por isso as percepções são muito díspares e dois observadores podem ter compreensões muito distintas do mesmo fenômeno. Depende de onde estão situados, do seu ângulo de visão do problema. Todo observador tem seu viés. O desafio é estar ciente dele e tentar compensá-lo reconhecendo outros pontos de vista.

Em novembro, o índice de confiança do consumidor alcançou seu patamar mais alto nos dois anos de governo Dilma Rousseff. Os confiantes acham que sua renda aumentou e vai continuar aumentando, não temem perder o emprego e planejam consumir mais. Estreitamente correlacionada ao INEC da CNI/Ibope, a popularidade da presidente também bateu recorde em dezembro.

Os 78% de aprovação presidencial são difíceis de compreender pelos 17% que desaprovam seu governo. Eles estão concentrados no Sul/Sudeste, nas periferias das metrópoles e entre quem tem diploma de faculdade mas renda proporcionalmente mais baixa. As diferenças são pequenas porém, tornando difícil isolar um fator que explique a desaprovação.

Os consumidores confiantes não estão sozinhos no seu otimismo. Os empresários do setor de serviços também estão mais confiantes do que nos meses anteriores, segundo a FGV. Entre eles, não por coincidência, destacam-se os prestadores de serviços para as famílias. Servidores e servidos têm a mesma percepção.

Entre os empresários da indústria, a confiança cresceu pouco no mês passado, segundo a CNI. O índice continua abaixo da sua média histórica. Entre os industriais, as diferenças de percepção são grandes. A confiança é 13 pontos maior no setor farmacêutico do que no de manutenção e reparação. É 10 pontos mais alta na indústria de limpeza do que na de extração mineral.

Quando há reacomodação traumática do dinheiro, a política é um canal de desafogo. Perdedores vão tentar cavar compensações com o governo ou se entrincheirar junto à oposição. As tensões aumentam, a corda estica. Posições se radicalizam e adversários se distanciam. Nesse cenário, as visões se estreitam e é mais difícil encontrar um campo comum. Diminuem os consensos e aumentam os conflitos. É o cenário para 2014.

“Unbrazilian”

“They are quite ‘unbrazilian’, very difficult to break!” A repórter da TV inglesa buscava uma explicação para a derrota do milionário Chelsea para um “pouco brasileiro” e “difícil de quebrar” Corinthians, na final do mundial de clubes. O time corredor, disciplinado e sem malabarismos não encaixa no estereótipo do futebol brasileiro de exportação.

O Corinthians chegou ao Japão graças à melhor campanha defensiva da história da Libertadores. Sem um Neymar, seu astro foi o goleiro. Nem por isso o time é menos brasileiro. No meio dos 20 mil torcedores corintianos em Yokohama, a faixa “the favela is here” (a favela está aqui) mostrava que o Brasil não cabe em um lugar-comum apenas.

 

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17.setembro.2012 15:02:41

Presidente pé-frio

Quem são os principais padrinhos nesta eleição municipal? O que conta mais: boas avaliações de prefeitos ou o apoio de um presidente ou ex-presidente da República? O Estadão Dados fez um levantamento, com ajuda do Ibope, para responder essas questões.

Nunca é demais lembrar que governante mal avaliado não faz sucessor. Continuidade ou mudança é o “drive” principal de qualquer eleição. Quando o prefeito, o governador ou o presidente é bem avaliado, a chance de ele se reeleger ou de eleger seu candidato é diretamente proporcional ao seu grau de aprovação. Aprovação popular do incumbente é condição necessária, mas nem sempre suficiente.

Vejamos então quem tem popularidade para usar e quem está devendo. No ranking das capitais feito pelo Ibope, metade dos atuais prefeitos está no vermelho: têm mais ruim ou péssimo do que bom ou ótimo entre os eleitores. Dos 13 com saldo negativo, só dois concorrem à reeleição: Roberto Goes (PDT) em Macapá e João Castelo (PSDB) em São Luís. Ambos estão na margem de erro e podem usar a campanha para virar a avaliação para o positivo.

Entre os que estão mais para baixo na classificação não há candidatos a reeleição. Seja porque já estão no segundo mandato, seja porque não teriam a mínima chance se concorressem, como é o caso de Micarla de Sousa (PV), prefeita de Natal, e dona da pior avaliação já registrada pelo Ibope: saldo de -91%.

Na parte de cima do ranking há seis candidatos à reeleição. Todos são líderes das pesquisas de intenção de voto: José Fortunati (PDT) em Porto Alegre, Márcio Lacerda (PSB) em Belo Horizonte, Eduardo Paes (PMDB) no Rio de Janeiro, Paulo Garcia (PT) em Goiânia, Elmano Férrer (PTB) em Teresina e Luciano Ducci (PSB) em Curitiba. Os quatro primeiros são líderes isolados.

Não é só isso. Os candidatos apoiados pelos prefeitos mais bem avaliados também estão entre os líderes nas pesquisas. É o que acontece em Campo Grande e em Rio Branco, cujos prefeitos -Nelsinho Trad (PMDB) e Raimundo Angelim (PT), respectivamente – ostentam o maior saldo de aprovação nas capitais: ambos com 61% positivo. E tem sido assim historicamente.

Em São Paulo, desde a eleição de 1996, só conseguiram se reeleger ou fazer seu sucessor os prefeitos com saldo positivo superior a 25%. Paulo Maluf fez Celso Pitta porque tinha 35% de saldo em setembro e melhorou com a campanha eleitoral. O mesmo ocorreu com Gilberto Kassab em 2008. Marta Suplicy (PT) ganhou em 2000 porque disputava contra um governo com déficit de popularidade de 74%, e perdeu depois porque o saldo de sua própria avaliação nunca passou de 24% em 2004.

Se existe transferência de votos, ela só ocorre na horizontal. Ou seja, de prefeito para candidato a prefeito, de presidente para candidato a presidente. A transferência cruzada é bem mais rara. O candidato a prefeito apoiado por um presidente popular não se elege por causa disso, especialmente em cidades com autonomia orçamentária, pouco dependentes de repasses federais.

Vejamos o caso de São Paulo. Em 1985 o presidente era José Sarney (PMDB), mas o candidato do seu partido, Fernando Henrique Cardoso, perdeu a eleição para Jânio Quadros. Na eleição seguinte, Sarney continuava presidente, e quem se elegeu foi Luiza Erundina, a candidata do PT, partido que mais lhe fazia oposição à época. Sarney era impopular. Fernando Collor também.

Pulemos para Fernando Henrique. Na eleição de 1996, o então presidente recuperava sua popularidade após o massacre de Eldorado dos Carajás. Tinha cacife para influir positivamente na eleição paulistana, mas o candidato do seu partido, José Serra (PSDB), não chegou nem ao segundo turno. Deu Celso Pitta (PPB).

Ainda sob FHC, em 2000, o candidato tucano, dessa vez Geraldo Alckmin, ficou novamente fora do segundo turno. Elegeu-se Marta Suplicy, do PT, que fazia oposição ao presidente.

Lula chegou ao poder em 2002, e dois anos depois Marta tentou a reeleição em São Paulo. O petista tinha saldo positivo de avaliação, mas a incumbente foi derrotada por Serra, que havia perdido a eleição presidencial para Lula dois anos antes. Em 2008, o presidente estava nos píncaros de sua popularidade, mas viu sua candidata, Marta, perder novamente, para Kassab.

Resumo da ópera: desde a redemocratização nenhum presidente, popular ou não, petista ou tucano, elegeu seu candidato a prefeito de São Paulo. Foram sete eleições e sete derrotas. Mesmo que Fernando Haddad (PT) surpreenda e se eleja, não será por causa das aparições de Dilma Rousseff na TV ou em comícios -mesmo ela tendo saldo positivo de 50% na capital paulista.

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O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), continua em 21º lugar no ranking dos prefeitos das capitais feito pelo Ibope. O ranking foi atualizado com as últimas pesquisas de avaliação feitas antes do primeiro turno municipal. Kassab tem saldo negativo de 33%, pois há mais paulistanos que julgam seu governo ruim ou péssimo (50%) do que bom ou ótimo (17%).

Escondido por José Serra (PSDB) no final da campanha, Kassab viu sua avaliação piorar na última semana. O prefeito tentou reprisar a estratégia que adotou no primeiro mandato, quando saiu de uma avaliação negativa para a reeleição graças à propaganda eleitoral. Desta vez não colou.

Sem um candidato que o defenda na campanha, Nelsinho Trad (PMDB), de Campo Grande (MS), perdeu a liderança do ranking para Raimundo Angelim (PT), de Rio Branco (AC), que tem 61% de saldo. Nenhum dos dois pode disputar a reeleição.

É preciso levar em conta que a avaliação de Angelim é a mais antiga do ranking – por um motivo insólito: a Justiça eleitoral do Acre vetou pesquisas eleitorais que avaliassem os governos municipal, estadual e federal, sob o argumento de que isso induziria o voto do eleitor. O detalhe é que as perguntas sobre avaliação são feitas depois de o eleitor ter dito em quem votaria.

Metade dos prefeitos das capitais chega à véspera do primeiro turno com saldo de avaliação negativa. Ou seja, mais rejeitados do que aprovados: só 13 têm saldo positivo.

 

 

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02.julho.2012 14:38:26

Ora, balões

A popularidade de Dilma Rousseff subiu como um balão em junho. Insuflada pelo otimismo do consumidor, superou 50% de saldo positivo, pelo altímetro Ibope/CNI. Isso significa que, mesmo descontados os que não apreciam seu governo, ela tem a aprovação de mais da metade da população. Quem duvida se uma taxa dessas faz diferença pode consultar o recém-ex-presidente Lugo, do Paraguai. Fernando Collor também serve.

Que a situação financeira do eleitor é a ignição da popularidade presidencial todos os ocupantes do Palácio do Planalto podem atestar. Seus balões subiram ou caíram na proporção direta da capacidade de consumo da população. Quanto mais viva a tocha do consumo, mais alta a aprovação presidencial. Mas quando ela se apaga a queda é inevitável. Essa relação se repetiu em 9 a cada 10 vezes na última década no Brasil.

Como pode, então, a popularidade de Dilma seguir em alta se as projeções para o crescimento da economia só diminuem? Diferanças de percepção. Enquanto a evolução do PIB embica para baixo, o Índice Nacional de Expectativa do Consumidor (INEC) segue em patamar elevado. Nos últimos meses, o otimismo do consumidor melhorou. Ele tem menos medo de perder o emprego e da inflação, além de manter-se confiante quanto à sua renda.

A queda da taxa de juros real ajudou a reforçar essa perspectiva otimista. Nos últimos três meses, a aprovação de como Dilma está lidando com o custo do dinheiro deu um duplo mortal carpado: saltou de 33% para 49%, superando pela primeira vez em seu governo a taxa de desaprovação (41%). É mais um sinal de que valeu o risco assumido pela presidente ao mudar as regras da poupança -e, assim, abrir espaço a uma queda maior dos juros.

Em algum momento no futuro haverá um ajuste das expectativas. Dependendo de sua intensidade, a desaceleração da economia pode acabar contaminando a percepção do consumidor e, por tabela, murchar o balão de Dilma. Mas nada indica que, se isso ocorrer, será de forma abrupta. Ao contrário, as curvas do INEC sugerem que o brasileiro assimilou os ciclos de expansão e retração do país e já faz suas contas pensando nisso.

Ou seja: o balão presidencial estaria suficientemente alto para que Dilma fosse um bom cabo eleitoral durante as eleições municipais. Mas a presidente não dá sinais de que vai entrar de cabeça na disputa, como fez e faz Lula. É fato que, quando o PT precisou, Dilma deu a Secretaria de Saneamento do Ministério das Cidades para ajudar a cooptar o apoio de Paulo Maluf em São Paulo. Mas ela não apareceu na foto.

Manter a distância regulamentar da política explícita evita que Dilma perca ar quente do seu balão. É também uma necessidade. Cabe à presidente zelar pelo equilíbrio de forças entre os partidos de sua base, principalmente entre PT e PMDB. As duas siglas disputam em 2012 a hegemonia do poder municipal e as bases para eleger maiores bancadas na Câmara dos Deputados em 2014. As tensões são altas. Mexer pode dar choque.

Céu paulistano

Em São Paulo, os balões de Fernando Haddad (PT) e de Gabriel Chalita (PMDB) não sobem nem com gás hélio. Enquanto isso, o de Celso Russomanno (PRB) vai cada vez mais alto no céu. Em tese, o apresentador da TV Record está no ápice: não pode mais apresentar-se regularmente no vídeo e, quando o horário eleitoral começar, ele terá bem menos tempo que os concorrentes. Mas e se o balão de Russumanno não murchar?

É simples: não sobra espaço para os de Haddad e Chalita subirem. O Datafolha mostrou que Russomanno é o mais forte, por enquanto, entre o terço do eleitorado que se diz simpatizante do PT. Praticamente 3 em cada 10 petistas declaram voto no apresentador depois de ver seu nome na cartela de possíveis candidatos. Haddad não consegue nem a metade disso. Com menos intensidade, o fenômeno se repete com o PMDB de Chalita.

Para Haddad e Chalita subirem, o candidato do PRB precisa cair. Mas, por enquanto, Russomanno cumpre um papel importante para o PT: evita o “já ganhou” em torno de José Serra (PSDB). Metade dos eleitores que declaram voto em Russomanno diz que não votaria no tucano de jeito nenhum. Mas se a outra metade se bandeasse para o candidato do PSDB começariam as contas sobre a chance de Serra vencer no primeiro turno.

Ao preencher esse espaço, o atual segundo colocado mantém a disputa aberta. O problema dos petistas é que Russomanno está cada vez mais à vontade no papel.

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A eleição paulistana tem dez candidatos, mas só duas candidaturas e meia. Com 31% no Ibope, José Serra (PSDB) catalisa, por ora, o eleitorado anti-petista. A outra candidatura é a do PT, mesmo que só 3% do eleitorado declare voto em Fernando Haddad por enquanto. O PT tem a simpatia de 31% do eleitorado paulistano e nunca ficou fora de um segundo turno na cidade. A terceira candidatura está em fase de projeto: há espaço, mas falta um nome. Oito candidatos tentam ser o tertius, a alternativa à bipolarização tucano-petista. Juntos, os oito têm 44% de intenção de voto estimulada.

A pesquisa Ibope dá pistas de quem tem mais chances de ser a terceira via da eleição paulistana. Mais importante do que a intenção de voto nesta fase fria da campanha, é o potencial de crescimento. E isso depende de uma baixa rejeição dos eleitores e de mais oportunidade de exposição quando a campanha chegar à TV.

À esta altura, quando 4 em cada 5 eleitores não têm o nome de nenhum dos candidatos na ponta da língua, as intenções de voto são mais um exercício de memória do que a decisão definitiva do eleitor. Hoje, a pesquisa espelha o grau de conhecimento do eleitorado sobre os candidatos. É algo que tende a mudar muito à medida que a propaganda se intensificar e a eleição se tornar uma preocupação real para os eleitores.

Entre os candidatos a tertius, Celso Russomanno (PRB) é o mais conhecido. Tem 16% no Ibope, mas bateu no teto e lhe falta tempo de propaganda eleitoral. Ele é alavancado pela exposição constante na TV, especialmente na Record, onde trabalha. Mas a partir de 10 de junho -manda a lei- Russomanno não poderá mais apresentar seu quadro de defesa do consumidor. Para ele se manter com chances, precisaria se aliar a partidos que têm muitas inserções na TV. Está difícil.

Netinho de Paula (PC do B) também deve seus 8% no Ibope à TV. Na eleição para senador, ele largou bem, mas perdeu terreno à medida que a rejeição a seu nome aumentava. Desta vez, será obrigado a se afastar dos programas televisivos sem a contrapartida da propaganda eleitoral que a aliança com o PT lhe garantiu dois anos atrás. É um caso semelhante ao de Russomanno, agravado por uma rejeição três vezes maior: 38%, contra 13% do rival.

Por sua origem petista, Soninha (PPS) teria chances de se viabilizar como terceira via pela esquerda. Mas a aliança do PPS com o PSDB em São Paulo, além de sua participação pessoal no mal-avaliado governo do prefeito Gilberto Kassab (58% desaprovam), fragilizam o discurso oposicionista. Soninha tende a ficar espremida pela candidatura de Serra. Também lhe falta tempo de propaganda. A seu favor, é a única mulher na disputa.

Na terceira via, Gabriel Chalita (PMDB) tem o maior potencial. Sua rejeição (11%) é a mais baixa. Ele patina em 6% de intenção de voto desde janeiro, mas tem algo que nenhum outro candidato a tertius tem: tempo de TV. Como Haddad, o peemdebista dependerá de um bom desempenho na TV. Sua missão é duplamente difícil: em 45 dias de horário eleitoral, precisará se firmar como terceira via e suplantar uma das candidaturas supostamente favoritas.

Se chegar ao segundo turno, Chalita tem potencial para roubar votos de Serra ou de Haddad. Pode posar de aliado tanto de Dilma Rousseff (PT) quanto de Geraldo Alckmin (PSDB). O difícil é chegar lá.

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04.maio.2012 20:00:50

A novidade de Dilma

Ao mudar as regras da caderneta de poupança, a presidente Dilma Rousseff começou a gastar o que poupou em popularidade. A medida foi precedida por uma redução agressiva dos juros, o que melhorou ainda mais sua imagem junto à opinião pública. Mas como os que a antecederam descobriram, mexer na poupança é mexer em vespeiro. Além de ser uma piada pronta.

Méritos econômicos e trocadilhos à parte, a mudança evoca o trauma do confisco collorido. Tem acesso direto a uma parte do imaginário popular onde nenhum presidente se atreve a entrar já se vão 22 anos. Se a oposição sentir cheiro de sangue, pode aproveitar a ocasião para sair do armário. Mas Dilma resolveu correr o risco. Já que é para arriscar, melhor agora, quando tem popularidade para gastar.

Se for bem sucedida, será um investimento: usará as reservas de boa vontade da população para destravar a queda dos juros e empurrar a economia para um novo ciclo de crescimento -baseado no consumo popular e em investimentos do setor privado. Pode recuperar o que aplicou de sua popularidade mais à frente. Talvez com juros. Se falhar, seu cacife ficará menor. Quão menor, ninguém sabe.

A atitude de Dilma foge à regra. Presidentes relutam em usar seus cacifes para fazer mudanças cujo resultado é incerto aos olhos da opinião pública. Mas a presidente parece ter birra com o status quo. Quer mudar mesmo quando, eleitoralmente, não precisaria. É diferente dos antecessores que promoveram mudanças -ou ao menos tentaram- por necessidade.

Fernando Collor de Mello foi eleito no auge da hiperinflação da era Maílson-Sarney. Fez uma jogada que os praticantes do poker chamam de “all in”. Apostou todas as fichas no plano que, para coroar, levava seu nome. Usou a única bala que tinha na agulha. Como se sabe, o tiro saiu pela culatra.

Itamar Franco herdou o desastre e saiu por cima ao bancar o Plano Real e domar a inflação. Quem faturou o sucesso foi seu ministro da Fazenda e sucessor, Fernando Henrique Cardoso. Eleito no primeiro turno, virou sigla. FHC acumulou um cacife inédito, e gastou boa parte dele aprovando a emenda constitucional que lhe deu o direito à reeleição. Reeleito, nunca recuperou o investimento.

Lula foi eleito para mudar. Mudou, mas não como se previa. O petista aproveitou o legado da inflação controlada na era FHC e surfou a onda da expansão econômica mundial. Não mexeu na política econômica nem no jeito de fazer política. Multiplicou o Bolsa Família, alavancou o crédito popular e criou um mercado de massa. A massa de eleitores neoconsumidores o reelegeu, com Mensalão e tudo.

Dilma é o fruto politico dessa mudança econômico-social. Foi eleita para continuar, não para mudar. Mas a mexida nas regras da popuança sugere que ela não está satisfeita com mais do mesmo. É o gesto de ruptura mais drástico que tomou até agora. Faz algo que Lula não quis fazer.

Na faxina ministerial, a presidente trocou ministros mas manteve as estruturas que sustentam sua coalizão. Centralizou o controle de verbas, mas as transações permaneceram franciscanas. No corte de juros feito até agora, operou dentro de uma margem de manobra pré-estabelecida. Com as novas regras da poupança, furou essa margem. É pouco, dirá quem clama por reformas mais profundas. É um começo? A ver. Mas certamente é uma novidade.

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23.abril.2012 11:39:17

Manipulação

A popularidade de Dilma Rousseff vai subindo: chegou a 64% de avaliação positiva. Praticamente dois em cada três brasileiros acham seu governo bom ou ótimo. Dilma só perde para Lula no auge. Em um mês, o saldo de aprovação presidencial (“ótimo+bom” menos “ruim+péssimo”) subiu 11 pontos porcentuais: de 48 pontos no Ibope de março para 59 pontos no Datafolha de abril. Vai ter gente xingando a opinião pública. De novo.

A aceleração da popularidade presidencial sugere que o corte dos juros no atacado e no varejo foi um gol aos olhos do público. Era previsível. Juros altos são mal vistos pela população. Ao derrubar as taxas do Banco Central e obrigar os bancos federais a fazerem o mesmo, Dilma ampliou o crédito e facilitou a vida do consumidor. De quebra, como o Banco do Brasil está descobrindo, cai a inadimplência.

É um paradoxo aparente: enquanto a economia está em expansão, quanto mais gente toma empréstimo ou faz crediário, menor o risco de quem empresta o dinheiro. Os caloteiros se diluem na massa de bons pagadores. Pobres tendem a pagar suas dívidas mais em dia do que ricos, logo, quanto mais gente tomando emprestado, melhor para os bancos. Em tese.

Na prática, depende da posição relativa de cada banco no mercado de crédito. Para não verem sua fatia murchar, os bancos privados precisam correr atrás do consumidor. Mas não é fácil recuperar o terreno perdido. Quem saiu na frente leva vantagem, capturou a clientela.

No Brasil pré-consumo de massa, os bancos se acostumaram à alta rentabilidade de poucos empréstimos. Agora, com os juros menores do BB e da CEF, os bancos precisam compensar a perda de margem de lucro com ganhos de escala. Nem todos vão conseguir. A gritaria vai piorar.

Nessas horas desponta o discurso de autoridade. Especialistas esgrimem argumentos técnicos e jargão incompreensíveis ao senso comum. Agouram o crescimento e alertam para a catástrofe na esquina. Embora o retrospecto não lhes favoreça, podem ter razão. Ou pode ser que estejam apenas defendendo o status quo.

Não é incomum. No Brasil como nos EUA, toda vez que as coisas não saem como quer a minoria, a culpa é da maioria ignorante e manipulada. Nem se imagina a possibilidade de a opinião pública agir racional e pragmaticamente em prol de seus próprios e egoísticos interesses.

Por essa versão, o republicano George W. Bush foi um dos presidentes mais impopulares da história norte-americana simplesmente porque a mídia liberal manipulou a verdade (e não porque ele foi incompetente). O democrata John Kerry tomou uma lavada eleitoral do mesmo Bush por causa da propaganda mentirosa dos republicanos (e não porque ele foi inapto). É reconfortante. Exime a autocrítica. Dá férias ao superego.

No Brasil, quando Lula perdeu três eleições presidenciais seguidas foi por culpa da mídia, que manipulou a massa de manobra que, afinal de contas, deve ser o eleitorado. Quando o petista ganhou três eleições presidenciais seguidas foi culpa do mesmo eleitor manobrável. A minoria muda de lado, suas desculpas não.

No último meio século, estudo após estudo tem chegado à mesma constatação: o eleitor é mais esperto do que seu estereótipo nos faz acreditar.

Os eleitores votam de acordo com sua percepção dos méritos e do passado dos candidatos. O eleitor identifica diferenças nas propostas dos candidatos e vota nas que gosta mais. Apesar dos seus limites de tempo e conhecimento, os eleitores encontram guias para votar de acordo com seus interesses. São conclusões das ciências sociais, calçadas em pesquisas de opinião.

Se, como diz a ciência, o eleitor não é um cordeiro temperado para digitar na urna o que lhe mandam, quem ganha com a repetição interminável da ideia de que ele é manipulável? Os pretensos manipuladores, é claro.

Como escreve o professor emérito da Rutgers University (EUA), Gerald Pomper, “se o eleitor é um idiota, por comparação os especialistas são espertos; se o eleitor não tem noção, ele precisa de alguém sabido para lhe indicar o caminho”. Ou seja, mesmo que o estereótipo do eleitor manobrável seja falso, a sua propagação abre um rico mercado de “manipulação” para marqueteiros, politicólogos, consultores, jornalistas e blogueiros. Além de servir de consolação para a minoria derrotada na batalha da opinião pública.

No limite, quem compra acriticamente a ideia de que o eleitor é um inocente útil está pronto para comprar também os pretensos serviços de manipulação do eleitorado. Quem é manipulável, afinal?

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15.abril.2012 22:30:50

O otimismo da jabuticaba

O brasileiro é antes de tudo um otimista. Ele acredita que as coisas vão melhorar, sempre. Se estão ruins, ele aposta na virada. Se já estão boas, ele crê que vão melhorar ainda mais. Essa característica se acentuou nos últimos tempos, fruto da percepção da maioria da população de que andou para frente. O otimismo é, portanto, uma projeção do passado recente. Mas não precisávamos exagerar.

Segundo pesquisa do Gallup, o Brasil é onde há proporcionalmente menos pessoas “sofrendo” no mundo. A sondagem foi feita em 146 países, ao longo de 2011. Juntos, eles representam mais de 95% da população mundial. Computadas as dezenas de milhares de entrevistas, o instituto concluiu que só no Brasil menos de 1% da população se enquadra na categoria “sofrimento”.

Para comparar, na média mundial, 13% estão “sofrendo”. Em 18 países, pelo menos 1 em 4 habitantes está nessa situação. São aqueles pintados de verde claro no mapa que ilustra este texto. O pior é a Bulgária: 45% da população está “sofrendo”.

Se não “sofrem”, como estão os brasileiros?

Segundo o Gallup, 59% estão “prosperando”, e os demais 41%, “batalhando”. O Brasil é o 9º colocado na proporção de “prósperos”, empatado com a Áustria. Só perde para Dinamarca (74% “prosperando”), Holanda e Canadá (66% ambos), Israel e Suécia (65%), Austrália e Finlândia (64%) e, por pouco, para a Nova Zelândia (60%).

Segundo o instituto, há proporcionalmente mais brasileiros “prosperando” do que há norte-americanos (56%), sul-coreanos (50%), britânicos (50%), franceses (46%), alemães (42%) e japoneses (26%). Todas essas nações aparecem muito à frente do Brasil tanto no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) quanto no da renda per capita.

Mesmo em comparação a outros países ditos emergentes o Brasil aparece muito mais bem colocado na pesquisa. Tem 37 pontos porcentuais de “prosperidade” a mais do que a Rússia (22% “prosperando”, 58% “batalhando” e 19% “sofrendo), 41 pontos mais do que a China (18%, 70% e 12%, respectivamente) e inacreditáveis 48 pontos a mais do que a Índia (11%, 66% e 24%).

O Brasil é, portanto, um ponto muito fora da curva. O que explica esse resultado literalmente excepcional? O otimismo.

Para compreender o porquê, só entendendo com funciona a metodologia do índice de bem-estar. Um dos maiores institutos do mundo, o Gallup desenvolveu seu indicador a partir da tradicional escala Cantril de auto-avaliação, e vem usando-o há décadas.

Pioneiro no estudo da opinião pública, Hadley Cantril desenvolveu um método que se tornou referência. Ele permite a cada indivíduo estabelecer sua própria escala de valores sem, todavia, abrir mão da capacidade de compará-las. A “escada de Cantril” também elimina o viés provocado pelas diferenças de significado que o mesmo conceito tem para diferentes pessoas, ou que uma expressão tem em diferentes idiomas.

O grau de “sofrimento” no indicador de bem-estar do Gallup não é fruto de uma pergunta direta do entrevistador, mas de uma combinação de resultados. O entrevistado é convidado a imaginar uma escada que vai de 0 a 10, onde o topo representa a melhor condição de vida possível, e o zero, a pior. Em seguida, o pesquisador pergunta em qual degrau o entrevistado se encontra e em qual degrau ele estará daqui a cinco anos.

A divisão em três grupos (“prosperando”, “batalhando” e “sofrendo”) é obtida pela combinação das respostas. Para entrar no grupo da “prosperidade”, o entrevistado tem que estar hoje no degrau 7 ou acima dele, mas não só. Ele tem também que enxergar um futuro melhor, ou seja, deve projetar estar no mínimo no degrau 8 daqui a cinco anos. Já para cair no grupo “sofrendo”, o entrevistado tem que se ver em má situação hoje (degrau 4 ou inferior) e achar que o futuro permanecerá ruim (abaixo do 5º degrau). Quem não se encaixa em nenhuma dessas categorias está “batalhando”.

Os 59% de brasileiros classificados pelo Gallup como “prosperando” não estão hoje no topo da escada, nem a um passo de chegar lá. Estão concentrados entre o 7º e o 8º degraus. Porém, quando indagados onde estarão daqui a cinco anos, a grande maioria afirma que chegará ao último degrau, ou seja, à melhor condição de vida que pode imaginar.

Mesmo aqueles brasileiros que estão abaixo do 7º degrau acham que chegarão, no futuro próximo, ao topo da escada, ou muito perto disso. Quase ninguém acha que está mal (abaixo do 5º degrau) e vai continuar assim ou piorar. Por isso menos de 1% está “sofrendo”. Se essa auto-avaliação otimista dos brasileiros é exagerada, só saberemos daqui a cinco anos. Mas certamente é uma jabuticaba. Só tem aqui.

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Carlinhos Cachoeira e Demóstenes Torres subiram juntos, pelo menos no interesse do público. A pesquisa pelos seus nomes (e apelido) no Google Trends revela a exposição recorde que ambos tiveram nos meios de comunicação nas últimas semanas. Nunca nenhum deles despertou tanta atenção.

No caso do senador, as buscas pelo seu nome e o noticiário a seu respeito nunca chegaram nem à metade do pico que alcançaram desde 27 de março, quando foram divulgadas suas conversas com o acusado de comandar o crime organizado em Goiás e arredores.

O senador corre o risco de ter acertado em cheio quando disse a colegas que estava morto politicamente. O Estado onde mais internautas buscaram por seu nome e pelo de Cachoeira foram os de Goiás, especialmente de Anápolis e Goiânia, dois redutos eleitorais seus.

Para a defesa do senador goiano, um outro problema: o noticiário redivivo sobre Cachoeira puxa novos títulos e textos sobre o seu cliente. Ou seja, não adianta Demóstenes se fingir de morto que o caso não será esquecido enquanto houver notícias novas sobre a extensão da rede de tráfico de influência montada pelo amigo preso. Cachoeira e Demóstenes estão colados como siameses no imaginário dos internautas.

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A popularidade de Dilma Rousseff está no mesmo nível a que chegou a de Luiz Inacio Lula da Silva aos 15 meses do seu segundo mandato. Foi nesse estágio, em março de 2008, que a aprovação do ex-presidente começou a decolar e a se descolar dos patamares históricos das avaliações presidenciais, elevando-o ao status de mito -merecido ou não.

Não há como afirmar -nem negar- que a história vá se repetir. A aprovação de Lula estava acelerando mais rapidamente em 2008, por exemplo, mas há indícios de que Dilma esteja desenvolvendo poderes “Teflon”, como seu antecessor. Na pesquisa CNI/Ibope divulgada nesta quarta-feira, fica claro que a percepção sobre o noticiário é cada vez mais positiva para a presidente. Não que haja menos notícias de “malfeitos” envolvendo o governo, apenas elas não estão colando na imagem presidencial.

O dobro de brasileiros vê um noticiário mais favorável (28%) do que desfavorável ao governo (14%). A taxa de percepção de notícias negativas já foi de 25% em julho do ano passado, quando começou a crise ministerial. Mas a troca de ministros virou “faxina” e, hoje, a agenda de Dilma, aos olhos da população, tem mais boas notícias do que problemas: “programas sociais para as mulheres”, “viagens da presidente”, “Dilma recebe prêmio”. Mesmo as notícias potencialmente negativas, como prisões e demissões, são lidas como sinais de limpeza e não de sujeira.

Isso ajuda a explicar por que Dilma chegou a este patamar com “um mandato” de antecedência em comparação a Lula, mas não explica as razões desse “efeito Teflon”. As causas fundamentais estão ligadas à situação econômica do país e, mais especificamente, à capacidade de consumo do eleitor.

A taxa líquida de popularidade da presidente (“ótimo”+”bom” subtraído o porcentual de “ruim”+”péssimo”) medida pela pesquisa CNI/Ibope está colada à situação financeira do brasileiro, aferida pela mesma sondagem. A superporsição das duas curvas ocorre praticamente desde o começo do governo Dilma. Para onde uma vai, a outra vai atrás. Estatisticamente, seu coeficiente de correlação é muito alto: 0,88 num máximo de 1,00.

Basicamente, quando cresce o número de brasileiros que avaliam que seu bolso está mais cheio agora do que estava três meses antes e, ao mesmo tempo, preveem que ele vai continuar estufando nos próximos meses, cresce também a quantidade de brasileiros que dizem que o governo Dilma é “bom” ou “ótimo”. Por essa correlação, a popularidade presidencial é uma função direta do poder de compra e da capacidade de consumo do eleitor.

Essa percepção não depende apenas da renda, mas de outros fatores indiretos, como facilidade de o brasileiro obter crédito, de sua estabilidade no emprego ou facilidade de conseguir uma ocupação remunerada e, em menor grau, do medo de descontrole inflacionário.

Em outras palavras, enquanto a economia continuar se expandindo, o emprego seguir em alta e os consumidores continuarem comprando e se endividando, Dilma deverá permanecer com uma avaliação positiva de seu governo. E se essas tendências se intensificarem, a boa vontade da população com sua gestão pode crescer ainda mais.

Essa correlação entre consumo e popularidade não é um fenômeno jabuticaba, que ocorre apenas no Brasil. Ela acontece nos EUA também. Barack Obama tem se beneficiado dela. O presidente norte-americano só voltou a melhorar sua posição nas pesquisas de intenção de voto depois que o índice de confiança do consumidor cresceu, refletindo a aquecimento do mercado de trabalho e a retomada do consumo.

Não é por acaso que, tanto nos EUA quanto no Brasil, os presidentes dedicam muito mais atenção à economia do que às rusgas com o Congresso. Quanto melhor o emprego e o consumo, mais popular eles ficam e mais poder eles têm para negociar o que lhes convém, tanto com sua base de apoio quanto com a oposição. Lá como cá, a avaliação do trabalho dos parlamentares é muito pior do que a do Executivo federal. E quando o presidente se populariza, a balança de força entre os Poderes se desequilibra, sempre em detrimento do Legislativo.

Se aparece um escândalo envolvendo um dos principais porta-vozes da oposição, menor ainda o poder de barganha dos parlamentares. Aos olhos da população, quando um crítico do governo é pego praticando o que condenava, reforça-se a ideia de que “político é tudo igual”. E se a percepção de que a conduta ética é a mesma para todos, melhor salvar pelo menos o bolso.

Presidentes que perderam sua base de apoio e a chamada “governabilidade” perderam antes o controle da economia. Foram os casos de José Sarney e Fernando Collor. O primeiro acabou tutelado pelo PMDB de Ulysses Guimarães, e o segundo foi forçado para fora do governo. Desde Fernando Henrique Cardoso, o bom desempenho econômico tem precedido a estabilidade política. Foi assim com Lula, é assim com Dilma.

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Na falta de uma pesquisa mensal e pública sobre a quantas anda a popularidade presidencial, o melhor proxy -indicador por aproximação- disponível é o Índice de Confiança do Consumidor (Inec) da CNI/Ibope. Ele guarda uma forte correlação estatística com a aprovação do presidente de plantão. Assim, a leve queda do Inec de fevereiro é má notícia para Dilma Rousseff -ao menos em tese.

A queda foi de apenas 0,7%, mas interrompeu uma tendência de alta que já se estendia por cinco meses. Isso significa que a popularidade de Dilma, que cresceu no final de 2012 (Datafolha), também parou de melhorar? A resposta curta é um frustrante “talvez”. Vale tentar entender o porquê.

No histórico dos últimos 11 anos, o coeficiente de correlação entre o Inec e o saldo de aprovação presidencial (“ótimo/bom” menos “ruim/péssimo”) é de 0,83 num máximo de 1. É uma correlação muito forte. Grosso modo, há 8 chances em 10 de os dois indicadores oscilarem na mesma direção: se um sobe, o outro sobe junto, e vice-versa. Mas há uma correlação ainda mais forte.

O Inec é composto por seis índices, que medem diferentes perspectivas econômicas do entrevistado: suas expectativa quanto à inflação, e ao desemprego, seu grau de endividamento, sua intenção de comprar bens caros, sua situação financeira pessoal e a expectativa quanto ao que vai acontecer com sua renda. Desses seis, os dois últimos são os mais intimamente ligados à popularidade dos governantes.

A média desses dois índices, que medem o volume do bolso do brasileiro, tem uma correlação de 0,88 com o saldo de aprovação do presidente de plantão: ou seja, em 9 de cada 10 vezes eles variam juntos, para baixo ou para cima. Essa média caiu 0,6% em fevereiro, mas ainda é superior à de fevereiro de 2011.

O problema de se usar uma proxy para analisar a popularidade presidencial é que ela é um indicador seguro apenas para as tendências de médio e longo prazos. Variações pontuais podem não ter significado algum.

É o caso da queda de 0,7% do Inec de fevereiro. Pode ser uma reversão de tendência ou apenas um soluço estatístico. Isso é mais provável quando não há consistência com outros indicadores. Enquanto o Inec caiu, dois “primos” seus subiram em fevereiro: o Índice de Confiança do Consumidor da FECESP e o homônimo da FGV.

Por enquanto, só dá para dizer que, a julgar pela confiança do consumidor, Dilma continua num patamar alto de popularidade, mas é preciso acompanhar o Inec e seus pares nos próximos dois meses para ver se se confirma ou não uma mudança de tendência.

Curiosamente, também o Palácio do Planalto vai ter que usar uma proxy ou contar com a boa vontade de terceiros para saber como anda a popularidade da presidente. A Secretaria de Comunicação da Presidência está sem fornecedor de pesquisas oficiais no momento.

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