A política brasileira, segundo Paulo Maluf (PP-SP): “Não há mais direita e esquerda, o que há são segundos de TV”. Há uma inegável verdade na frase do deputado predileto da Interpol. Mas ao não engolir a aliança do PT de Lula com o PP de Maluf e renunciar a ser vice de Fernando Haddad (PT) à Prefeitura de São Paulo, Luiza Erundina (PSB-SP) mostrou que nem sempre a Realpolitik conta mais do que aversões pessoais e escrúpulos morais.
Se não tivesse abandonado a chapa de Haddad, Erundina teria provado que Maluf está certo. Como esperneou e saiu, acabou lhe tirando a razão -ao menos no seu caso pessoal. A deputada é a menos governista dos parlamentares do PSB. Vota com o governo Dilma apenas quando concorda com as propostas. Vota contra quando discorda. É anocronicamente “ideológica” no exercício do mandato. Mas é também uma exceção. Vai ter fila para ocupar o lugar que ela deixou.
Se o adágio malufista vale para a imensa maioria dos políticos, e são os segundos de propaganda que contam, então vamos contá-los.
A tendência de polarização PSDB-PT ficou mais evidente na mais recente pesquisa Datafolha. Mas José Serra e Haddad estão em situações opostas. Os segundos de exposição na TV a partir de agosto têm utilidade e peso muito diferentes para cada um deles.
Praticamente todos os eleitores paulistanos conhecem Serra. Nos últimos dez anos, ele se elegeu prefeito e governador, além de ter ficado em segundo lugar em duas eleições presidenciais. Seu problema é ser conhecido demais: 32% dizem que não votariam nele de jeito nenhum. O tucano precisa de propaganda para se manter na cabeça do eleitor, mas não pode abusar da superexposição na TV, ou pode se queimar.
O que importa mais para Serra é impedir que o desconhecido Haddad apareça tanto na propaganda televisiva que acabe se tornando tão conhecido quanto o tucano. Foi o que aconteceu com Dilma Rousseff na campanha de 2010. Embora ela tivesse uma velocidade inicial maior do que Haddad, graças à propaganda desabrida de Lula em palanques oficiais desde 2009, foi a partir da propaganda de TV que Dilma deixou Serra para trás.
Por isso, os segundos malufistas são um problema para Serra não pelo tempo de vídeo que ele “perdeu”, mas pelas inserções que Haddad ganhou. Pouco importa se Serra cooptar o PTB e somar seus minutos. Não vai com isso compensar o que Maluf deu a Lula e seu pupilo. Do mesmo modo, o desgaste provocado pela foto de Maluf com Lula e Haddad é muito menor do que o potencial ganho que os segundos malufistas trarão para o petista.

Diante de tantos ganhos, nem Lula nem Haddad pensaram -nem uma, muito menos duas vezes. Quando a Realpolitik é tão avassaladora que abarca todo o espectro partidário -com raras Erundinas-, caciques como Maluf, Valdemar Costa Neto (PR), José Sarney (PMDB) e quetais só têm a ganhar -especialmente quando não são candidatos e podem negociar o tempo de TV de seus partidos com aliados de ocasião. Os preços são cada vez mais inflacionados.
Não há alternativa à vista, fora uma reforma política que jamais será feita enquanto os principais interessados forem os donos do processo decisório. Não reformarão nada relevante. Não importa quem esteja no governo, pois o sistema ajuda a manter no poder quem já chegou lá. Foi desenhado para isso. Restam medidas paliativas.
Uma delas seria mudar as regras de distribuição do tempo de propaganda eleitoral na TV. Se um partido não tiver candidato, ele não deveria ter direito a somar tempo para a coligação majoritária. Sem essa moeda de troca, as siglas que aderem ao princípio malufista perderiam valor de mercado.
A mudança de uma pequena regra não muda a essência do sistema, como o gesto de Erundina não transforma a Realpolitik. Mas, mesmo fugazmente, é divertido atrapalhar os poderosos.
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A metáfora da corrida de cavalos para representar a campanha eleitoral é mais apropriada do que a sua vulgarização pode sugerir. Como no turfe, os candidatos precisam dosar suas forças e traçar suas estratégias com precisão para não arrancar antes da hora nem se deixar “encaixotar” no pelotão intermediário. Tanto um erro quanto o outro pode impedir o maior favorito de cruzar o disco em primeiro lugar.
Na eleição paulistana, José Serra (PSDB) surgiu nas primeiras pesquisas como barbada, tão à frente dos demais que só caberia prognóstico para o segundo colocado da dupla vencedora. Mas o apostador experiente sabe que cânter não ganha páreo. Galopar garboso na apresentação ao público não é garantia de bom desempenho quando o chicote começa a vibrar. E a semana não foi nada boa para o haras tucano.
A um custo ainda difícil de contabilizar, o stud petista tirou um grande peso da sela de Fernando Haddad. Na última hora, cooptou o PP de Paulo Maluf, formalizou a aliança com o PSB de Luiza Erundina e ultrapassou todos os rivais em tempo de propaganda no rádio e na televisão. O apoio malufista se deu em troca da Secretaria de Saneamento do Ministério das Cidades -responsável por programas de esgoto e lixo. Sem comentários.
Nas contas dos repórteres Daniel Bramatti e Julia Duailibi, o candidato a prefeito do PT deve aparecer em 107 inserções de 30 segundos por semana a partir de agosto. Ou seja, 15% a mais do que Serra e quase 50% a mais do que Gabriel Chalita (PMDB). Isso significa só uma coisa: Dilma Rousseff e Luiz Inacio Lula da Silva fizeram a parte deles. Cabe a Haddad mostrar se tem força para atropelar na reta final ou se é o matungo que os adversários tentam pintar.
A chapa petista-malufista-socialista (e, talvez, comunista, se o PC do B também aderir) é o melhor exemplo da grande zona cinzenta que é a política brasileira. Enxergar branco e preto num cenário desses é miragem. Vale lembrar que Maluf estava mais perto da cocheira tucana até ser seduzido pelo churrasco de verbas petista. E que o impoluto PR de Valdemar Costa Neto segue firme no bridão do PSDB paulista.
Esse é o jogo político-eleitoral brasileiro. Joga quem quer, ganha quem pode. E quem não pode denuncia -pelo menos até passar a poder.
A perda da aliança com o PP não custou apenas algumas inserções comerciais a Serra. Produziu um desconforto no campo tucano. Segundo o noticiário, Geraldo Alckmin não quis dar os cargos estaduais reivindicados por Maluf, o que teria empurrado o ex-prefeito para o colo adversário. Administrativamente defensável, a atitude do governador ressuscita velhos murmúrios sobre lealdades e traições que remontam à eleição de 2008, quando ele estava no papel de Serra, e o correligionário apoiou veladamente Gilberto Kassab, então no DEM.
Nada indica que sejam mais do que fofoca, mas tais intrigas bastam para dar a impressão de que uma campanha perde confiança, enquanto a do adversário ganha ritmo. É um jogo psicológico restrito a candidatos, articuladores e assessores -que, por enquanto, a grande maioria dos paulistanos não está nem aí para a eleição. Mas é o que alimenta o blablablá político até a corrida começar para valer.
Pela lei, a campanha eleitoral só começa em julho. Para o eleitor desengajado, a largada é em agosto, com a entrada no ar do horário eleitoral obrigatório. O calendário já condicionou o eleitorado. Raras vezes uma campanha mobiliza corações e mentes antes de o palanque eletrônico entrar no ar. Uma dessas exceções ocorreu na sucessão de Lula.
A eleição de 2010 começou a tomar corpo muito antes da propaganda formal. O principal motivo foi a campanha desabrida que o ex-presidente fez por sua candidata desde muito antes da votação. A frequência com que Lula repetiu o nome de Dilma em palanques, inaugurações, discursos e festas de aniversário é inédita na história moderna do Brasil. A oposição reagiu indignada, esquentou o debate e, sem querer, ajudou Lula a promover a desconhecida Dilma.
Tudo muito diferente do que nesta morna eleição paulistana. Fora da Presidência, Lula não teve palanque nem saúde para repetir o nome do desconhecido Haddad como fez com Dilma. A campanha não empolgou ninguém. Vai sobrar tudo para a TV. Por isso, os minutos de propaganda ganhos por Haddad via PP e PSB valem muito mais do que os 8% a que ele chegou no Datafolha esta semana.
A corrida eleitoral paulistana será curta, sem curvas. Ganha quem alcançar momentum no final.
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Boa dose das decisões políticas é gestada no fígado. Para muitos eleitores, mais grave do que não eleger seu candidato preferido é ver um político que odeia ganhar a eleição. Votam em adversário “menos pior” para evitar mal maior. A decisão sugere pragmatismo, mas é difícil precisar onde termina o raciocínio e começa a racionalização -a justificativa lógica construída após o ato feito. O voto útil nasce pingando bile.
É mais comum do que gostamos de admitir. Basta lembrar das tardes de domingo. Quantas vezes cada um de nós ouviu um grito de prazer escapar da janela do vizinho -quiçá da nossa- quando o time rival toma um gol? Imperativos fazem coro com expletivos e saturam o ar de animosidade. O futebol se alimenta de paixões devotas e ódios consagrados. Com a política é igual. Saem as janelas e estádios, entram as redes sociais e blogs.
Por isso não convém menosprezar o poder do ódio nas eleições. De tão decisivo, tornou-se presença obrigatória nas pesquisas de intenção de voto. Foi revestido de circunstância para soar menos cru. A pergunta clássica nos questionários é: “Em quais destes candidatos você não votaria de jeito nenhum?”. A causa subjacente às respostas é ojeriza, repulsa, antipatia, mas pode chamar de rejeição.
É muito difícil um candidato ganhar as graças do eleitorado. Mais difícil do que isso, só livrar-se da bile eleitoral. Uma vez impregnada, não sai nem lavando. A rejeição é persistente como um pernilongo. Podemos não lembrar por que sufragamos este, mas não esquecemos a razão pela qual não votamos naquele. O eleitor amadurece e envelhece abraçado ao seu rancor (apud João Antônio).
A rejeição pode inviabilizar políticos famosos e populares. Em São Paulo há casos notórios. O mais recente é de Marta Suplicy.
A petista começa quase toda eleição que disputa como favorita. Foi assim nas brigas pela prefeitura em 2000 e 2008, e na corrida por uma das duas vagas no Senado em 2010. Marta sai na frente, mas raramente termina em primeiro lugar. Elegeu-se senadora atrás de Aloysio Nunes (PSDB), e perdeu no segudo turno para José Serra (PSDB) em 2004 e para Gilberto Kassab (então no DEM) em 2008. Culpa da rejeição.
Antes dela, houve Paulo Maluf (PP). Até desencantar nos pleitos majoritários, Maluf tentou ser prefeito, presidente, governador. Por mais eleitores que tivesse, sempre era barrado pela rejeição dos demais. Em 1992, quando conseguiu vencer um segundo turno, pareceu ter iniciado um novo ciclo. Mas a maré não durou e o ex-prefeito nunca mais ganhou um mata-mata. A rejeição voltou dobrada.
Como a bile eleitoral vai influir na disputa para prefeito de São Paulo? A pesquisa Ibope mostra que, por ora, Serra é o mais rejeitado pelos eleitores de 7 dos outros 9 pré-candidatos. Ao menos metade dos eleitores de Celso Russomanno (PRB), Paulinho da Força (PDT), Netinho (PC do B), Gabriel Chalita (PMDB) e até de Soninha (PPS) dizem que não votaria em Serra. Quando elegeu-se prefeito de São Paulo, em 2004, Serra tinha apenas 15% de rejeição (Datafolha). Hoje, segundo o Ibope, 35% dos paulistanos dizem que não votariam no tucano de jeito nenhum.
Por causa da rejeição, Serra está mais perto de seu teto de votos do que seus adversários diretos. Teria menos chance que os demais de ganhar novos eleitores caso um dos seus adversários desistisse. Esse é o risco de largar muito na frente quando se é tão conhecido quanto ele e a rejeição é alta: há mais espaço para cair do que para subir.
As próximas pesquisas mostrarão se a trajetória do tucano será igual à de 2004, quando largou no patamar em que está hoje, subiu e terminou o primeiro turno com 10 pontos a mais do que quando começou a campanha, ou se repetirá Geraldo Alckmin (PSDB) em 2008, que também começou com cerca de 30% de intenção de voto, foi caindo, caindo e terminou quase com metade do cacife inicial. Tudo vai depender dos adversários com menos rejeição, se eles conseguirão sair do anonimato.
Para Fernando Haddad (PT), a única vantagem de ser tão desconhecido é que a maioria dos eleitores de outros candidatos não sabe quem ele é e, por isso, não pode rejeitá-lo. Mas essa taxa vai crescer à medida que mais gente descobrir que Haddad é o candidato do PT. Ele terá mais facilidade de assimilar a rejeição do partido do que ganhar a confiança de seus eleitores. Conquistar o voto depende de competência, o ódio vem por inércia.
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