José Roberto de Toledo - Estadao.com.br
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* Lula ainda é o maior eleitor em São Paulo (44% poderiam ser levados a votar no seu candidato a prefeito), mas esse número era ligeiramente maior em janeiro: 49%. Outros 21% não votariam no candidato dele. O saldo da influência de Lula, portanto, é positivo em 23 pontos percentuais, mas caiu um terço quando comparado ao saldo de janeiro (era 33 pontos).

* Dilma Rousseff e Geraldo Alckmin têm o mesmo percentual de influência positiva sobre o eleitorado paulistano: 31% cada um. Mas a influência negativa (24% não votariam no seu candidato) do tucano é ligeiramente maior, levando a um saldo mais baixo. Dilma: 31% – 19% = 12 pontos. Alckmin: 31% – 24% = 7 pontos. O saldo de Dilma caiu em relação a janeiro (era de 17 pontos) e o do tucano se manteve estável.

* A pequena melhora na avaliação de seu governo não reverteu em cacife eleitoral para o prefeito de São Paulo. Gilberto Kassab (PSDB) continua sendo mais um peso do que um alavancador de votos: apenas 14% dizem que poderiam votar no candidato apoiado por ele, enquanto 47% não votariam pelo mesmo motivo. Seu apoio equivale a um saldo negativo de 33 pontos. Era de -32 em janeiro. Não mudou.

* Essa influência, positiva ou negativa, não é absoluta nem definitiva. Convém contextualizar a pesquisa, especialmente enquanto a grande maioria não tiver candidato na ponta da língua nem estiver pensando na eleição antes de ser abordada pelo pesquisador. Basta ver que 1 em cada 3 eleitores de José Serra dizem que poderiam votar no candidato apoiado por Lula. Isso indica menos a possibilidade de “traição” do eleitor do tucano e mais a falta de firmeza das intenções de voto, de um modo geral, neste momento da campanha.

* Outras inconsistências típicas da pré-campanha: 12% dos eleitores de Serra não votariam no candidato de Alckmin, 11% dos eleitores de Fernando Haddad não votariam no candidato de Dilma Rousseff, e 34% dos eleitores de Serra não votariam no candidato de Kassab. Ainda mais curioso: 21% dos que acham a gestão Kassab ótima ou boa dizem que o apoio do prefeito faria eles não votarem no seu candidato…

* É preciso cruzar as respostas para encontrar os segmentos do eleitorado que são consistentes em suas opiniões. Por exemplo: dos 30% que rejeitam Serra, 60% (quase 2 em cada 3) dizem que não votariam no candidato apoiado por Kassab. Ou ainda: dos 15% que não votariam de jeito nenhum em Fernando Haddad, 27% não votariam no candidato de Lula.

* Por fim, muito poucos eleitores votam em um candidato apenas porque um líder político mandou votar. O voto é pragmático e racional, uma conta de ganha e perde. O apoio de Lula, Alckmin, Dilma e Kassab é apenas um elemento a somar ou subtrair simpatias. Não é o único fator que o eleitor avalia.

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12.fevereiro.2012 21:57:16

Eleição quântica

O PSD kassabista tem poder de personagem de história em quadrinhos. Contamina os partidos do qual se aproxima com sua capacidade quântica, a de não estar em nenhuma e estar em todas as posições do espectro político simultaneamente. O alvo da vez é o PT.

Selada a parceria psdo-petista em São Paulo, a candidatura de Fernando Haddad se contorcionará para fazer uma campanha de oposição que defende a situação. Bom para Gilberto Kassab, cuja gestão aprovada por só 2 em cada 10 eleitores paulistanos terá de ser defendida pelo ex-futuro crítico -feito aliado por Lula.

Em troca de um apoio virtual da bancada federal do PSD ao governo Dilma, o prefeito paulistano ganhará espaço na propaganda eleitoral compulsória para lavar sua imagem. De quebra, Kassab ainda pode receber uma cadeira em Brasília para se encostar após a eleição.

Com tantos bônus, que é que custa enfrentar mais uma vaia de petistas durante a festa de aniversário do neo-aliado? Quase nada. Os apupos entraram por um ouvido e saíram pelo bolso, convertidos em moeda de troca para Kassab.

Parece uma barganha desigual. O PT troca tudo isso por um apoio parlamentar que, na prática, já tem. Afinal, boa parte dos deputados que se bandearam para o PSD o fez justamente por não ver muita vantagem em continuar militando na oposição.

Talvez haja outra variável no cálculo. Será que diante do apoio de Lula, Dilma Rousseff e do PT, o PSD ganha mais força junto à Justiça eleitoral? O partido tem uma ação em curso no TSE cuja vitória beneficiaria todas as siglas coligadas a ele nas próximas eleições -inclusive candidatos petistas.

A assessoria do Tribunal Superior Eleitoral defende o direito do recém-criado PSD de ter acesso ao dinheiro do Fundo Partidário e -melhor- ao tempo de propaganda eleitoral compulsória na proporção de sua bancada parlamentar. São minutos preciosos para Haddad numa eleição nivelada pelo desconhecimento dos candidatos junto à população.

O processo precisa ser julgado logo para valer nesta campanha. Quem não acredita na independência entre os Poderes pode desconfiar que a aliança psdo-petista pode ter a ver com o julgamento do caso. Céticos!

Nem tudo são votos favoráveis nessa aliança inusitada, todavia. Há o pequeno problema da opinião pública: 4 em 10 eleitores acham a gestão Kassab ruim ou péssima. E a rejeição ao manda-chuva do PSD beira os 60% entre os eleitores que manifestam espontaneamente intenção de votar num candidato petista.

O prefeito se dá nota 10, mas recebe nota 4,6 da população. Segundo o Datafolha, 46% não votariam no candidato apoiado por Kassab. O percentual chega a 59% entre petistas.

Kassab é um peso pesado que pode arrastar aliados para o fundo. Será especialmente difícil de carregar para Haddad, que ainda precisa convencer a militância petista de que ele é o cara. Curiosamente, o PT -ou melhor, Lula- escolheu Haddad justamente por ele não somar rejeição pessoal à rejeição partidária.

Após eleger Dilma, Lula deve apostar que, com bastante propaganda, pode transformar qualquer um em algo palatável. Até Kassab.

Os poderes quânticos do PSD também têm o efeito oposto, de transformar o indeciso PSDB num partido de oposição. A aliança Kassab-Haddad enfraquece pré-candidatos tucanos que vão melhor na base pró-kassabista, como Andrea Matarazzo, e ajuda os mais fortes entre os oposicionistas, como Bruno Covas. Coisa de história em quadrinhos.

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A presidente Dilma Rousseff exagerou mandando três ministros irem pessoalmente assistir às consequências do incêndio de uma favela no centro de São Paulo, na quinta-feira. O trio não sabia como ir nem o que fazer. Por sorte ou azar, nem os dois corpos da tragédia despertaram clamor nacional. Mas demostrar preocupação com fatos sensíveis à opinião pública é vital à popularidade de um governante. Melhor errar pelo excesso do que pela omissão.

A lição que a novata Dilma tenta aprender já foi um dos trunfos do agora veterano prefeito Gilberto Kassab. Logo que assumiu a Prefeitura de São Paulo, devido à renúncia de José Serra, o então neófito Kassab dava plantão ao lado do buraco do metrô que engoliu sete pessoas em 2007. Mesmo sem ser sua responsabilidade direta -a obra é estadual-, ele era sempre a autoridade mais disponível para dar entrevistas e satisfações. Matou a crise no peito e faturou com ela.

No começo deste ano, durante a inauguração da estação que desabou, Kassab foi vaiado. Por essa época, sua popularidade já afundava pelos subterrâneos. Entre um evento e outro, o prefeito deixou transparecer que dava menos importância à administração da caótica cidade do que à criação de mais um partido quântico -que não está no centro, nem na esquerda, tampouco na direita do espectro político, muito pelo contrário. Kassab esqueceu-se da própria lição.

Na quinta-feira, o prefeito foi pessoalmente ao local do incêndio. Nova vaia. A desaprovação ao seu governo está ainda mais profunda do que uma estação de metrô. As entrevistas ao lado do local da tragédia já não satisfazem. As aparências são só aparências. Está difícil para o prefeito escapar do buraco de impopularidade em que se meteu.

Já o exagero presidencial indica o quanto Dilma vai tentar influir na eleição paulistana no próximo ano. Para a mineira radicada gaúcha e famosa por sua passagem por Brasília, São Paulo é o centro estratégico da disputa eleitoral de 2012.

No Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, por exemplo, a corrida eleitoral tem favoritos aparentes, ambos aliados de Dilma (ao menos no papel). Hoje, esses pleitos prometem ser mais passeios eleitorais do que embates acirrados. Eleições assim despertam menos interesse da mídia e do público de fora da cidade. Vitórias dos favoritos não são conquistas, são obrigação.

É o oposto do que acontece em São Paulo. A eleição na maior cidade do País é o grande palco do embate entre o PT e a oposição federal -num cenário onde, pela primeira vez, todos os candidatos convivem na planície do semi-anonimato. Quem galgar um lugar no segundo turno já terá conquistado uma vitória. Com a liderança disputada voto a voto, promete ser uma eleição emocionante e chamar atenção além das fronteiras da cidade. Mas não é só isso.

Se perder mais uma vez nas urnas na capital paulista, o PT verá ofuscado o impacto de um eventual crescimento em outras metrópoles do País. Ganhar de volta o comando de São Paulo, após oito anos, teria um efeito simbólico único. Dilma conquistaria uma vitória que Lula não logrou em 2004 nem em 2008. Um candidato petista -a presidente, governador ou prefeito- não consegue maioria na cidade desde 2002, quando Lula chegou a 51% dos votos válidos.

Do lado do PSDB, o pleito também é vital. O pico de popularidade tucana na capital paulista foi em 2006, quando alcançou maioria absoluta para presidente (nos dois turnos) e governador (no 1º e único turno). Desde então a votação do partido na cidade teve altos e baixo: Serra ganhou de Dilma nos dois turnos em 2010, mas não alcançou o patamar de Geraldo Alckmin quatro anos antes; sem contar 2008, quando o PSDB, rachado, não chegou nem ao 2º turno.

Por enquanto, o lance mais ousado da oposição em São Paulo foi o movimento de Aécio Neves tentando aproximar o PSDB do PMDB. Na cidade, uma coligação dos dois partidos isolaria o PT e multiplicaria o tempo de TV para o candidato da chapa unificada. Em Brasília, criaria mais um embaraço para a dificultosa relação entre peemedebistas e petistas.

A articulação PSDB-PMDB em São Paulo é improvável, pois implicaria os tucanos abrirem mão de ter um candidato para serem vice de Gabriel Chalita. Mas está em linha com a tática de Aécio de minar as alianças eleitorais do PT, já visando 2014. De quebra, o senador mineiro cria um constrangimento para o rival Serra. O lance confunde ainda mais uma eleição na qual o PSDB está atrasado em relação ao PT, que ao menos já escolheu o seu candidato anônimo.

Por essas e outras, o pleito paulistano é a metonímia das eleições de 2012, a parte pelo todo.

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12.dezembro.2011 01:52:09

Eleição de síndico

O paulistano não percebeu, mas foi dada a largada para mais uma eleição de prefeito de São Paulo. É a oitava desde a redemocratização, e a primeira sem favoritos nem estrelas. Em quase três décadas, nunca houve uma eleição majoritária na cidade sem Suplicys, Malufes nem Serras. E a renovação não fica por aí. É uma disputa sem outros caciques. Os candidatos são todos índios -uns menos anônimos do que outros, é fato, mas nenhum comanda uma tribo própria.

E os 20% de Celso Russomano (PRB), ou os 15% de Netinho de Paula (PC do B) na mais recente pesquisa Datafolha? Essas taxas entram mais na categoria recall do que na de intenção de voto. São um apelo desesperado do eleitor à própria memória diante de uma lista de ilustres desconhecidos. Dá até para imaginar o entrevistado pensando: “Ah, desse eu já ouvi falar”.

Quando o pesquisador aparece com uma pergunta que o entrevistado não sabe responder, muitos respondem mesmo assim -seja para agradar o entrevistador, seja por vergonha de admitir ignorância. Cabe a quem analisa o resultado discernir o que é voto firme de simples efeito lembrança. O eleitor responde a pesquisas com a memória, mas vota com outras partes do cérebro.

O dado mais relevante da pesquisa Datafolha é que nenhum pré-candidato é citado espontaneamente por mais do que 1% ou 2% dos paulistanos. Os nomes mais ditos de pronto são os de Marta Suplicy (PT), com 8% de citações espontâneas, e o do prefeito Gilberto Kassab (PSD), com 3%. Graças a Lula e à legislação, ambos estão fora do páreo.

No cenário aplainado pelo anonimato coletivo dos prefeituráveis, outras forças que não o carisma pessoal comandarão a eleição. A atual geração de eleitores paulistanos verá a primeira campanha que não é uma disputa de personalidades. Sem intimidade com os candidatos, o voto não deverá ser apenas na pessoa física. Afinidades e antipatias pessoais serão secundárias no processo.

Quais vetores levarão o eleitor a confirmar este ou aquele nome na urna eletrônica, então?

Em regra, o prefeito de turno é um forte cabo eleitoral. Não é o caso de Kassab. Com apenas 20% de “ótimo” e “bom” contra 40% de “ruim” e “péssimo”, o prefeito paulistano transfere mais ônus do que bônus para seu candidato. A curva de popularidade de Kassab é um espelho invertido do seu primeiro mandato. A recuperação de 2006 a 2008 virou franca decadência nos últimos três anos. Nada indica reversão dessa tendência. O trânsito está cada vez pior, não há melhorias sensíveis na saúde nem na educação.

Na eleição passada, o prefeito candidato à reeleição vinha em ascensão e usou a propaganda eleitoral para melhorar ainda mais a imagem de sua gestão. Desta vez, nem muito tempo de TV o candidato de Kassab terá. Se a Justiça não mudar as regras, o nome do PSD ficará no bloco dos nanicos. Só lhe sobra o dinheiro, que é suficiente para atrair políticos para uma nova sigla, mas não compra, nem metaforicamente, os votos necessários para eleger o prefeito num colégio eleitoral de mais de 7 milhões de almas.

Apesar do esforço comovente do governador Geraldo Alckmin (PSDB) no sentido oposto, a gestão de Kassab tem tudo para ser a Geni da campanha eleitoral de 2012. Essa é a primeira desvantagem dos pré-candidatos tucanos. Enquanto seus adversários estão livres para criticar um prefeito cada vez mais impopular, os quatro são pressionados pelo governador a pegar leve com o possível futuro aliado.

A segunda desvantagem é que enquanto outros partidos trabalham há meses para dar visibilidade aos seus respectivos candidatos quase-anônimos, o PSDB patina para escolher o seu entre nomes que oscilam de 2% a 6% na pesquisa estimulada do Datafolha. Tempo é voto nesta eleição.

Antecipando que a sucessão paulistana seria a mais simbólica entre todos os 5.565 pleitos de 2012, e que a disputa se daria entre desconhecidos, Lula atropelou o PT e impingiu Fernando Haddad ao partido. O ministro da Educação não passa de 4% na estimulada, mas terá o ex-presidente e Dilma Rousseff como padrinhos. Mais importante, conta com o apoio da máquina eleitoral petista.

Desde 1988, o candidato a prefeito do PT sempre foi um dos dois primeiros colocados na eleição paulistana. Por esse retrospecto, Haddad só precisa se fazer conhecido entre militantes e simpatizantes do partido para chegar ao 2º turno. A questão é: quem mobilizará o anti-petismo e ocupará a outra vaga no turno final? Tucanos, egressos do malufismo ou surgirá uma quarta força política na cidade?

A resposta passa pelo clima geral da opinião pública no momento da eleição (e, portanto, pelo ritmo do consumo/economia), pelo bom aproveitamento do palanque digital (TV + internet), pela impopularidade de Kassab e por um fator ainda pouco lembrado, mas muito importante: o efeito abandono.

Cresce a percepção entre paulistanos de que Kassab largou a cidade para se dedicar à política comezinha. O trauma se soma à renúncia de José Serra para disputar o governo paulista em 2006, menos de dois anos após ter sido eleito prefeito. A Prefeitura de São Paulo virou escada eleitoral. O cargo de prefeito perdeu importância, e a gestão da cidade ficou em segundo plano.

Ganhará votos em 2012 o candidato que conseguir convencer o eleitor que administrar São Paulo é seu maior objetivo na vida, e que dedicar-se à cidade lhe é mais importante do que disputar outras eleições. O paulistano é bem capaz de eleger um síndico.

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Correção: versão anterior desta nota indicou incorretamente o partido de Celso Russomano.

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É difícil seguir a bússola verbal do recém-criado PSD. Às vezes ela aponta para o centro, às vezes para a esquerda e a direita ao mesmo tempo, e até para lugar nenhum. Melhor do que guiar-se pelo que dizem os ponteiros do 28º partido brasileiro, é seguir o que eles fazem.

O prefeito Gilberto Kassab, por exemplo, já foi malufista, liberal, democrata, serrista. Em comum, o permanente voo de mariposa em torno do calor emanado pelo poder. Nada mais natural, portanto, que seu novo partido seja criado para se aproximar do governo federal petista sem se afastar do governo estadual tucano.

Kassab tem faro de sabujo para detectar quando um astro da política está perdendo a força e rapidez de neutrino para achegar-se à fonte de poder emergente. É uma atração irresistível pelo centro, não importa quem esteja nele. Oposição, só como contingência temporária.

É de acreditar que Kassab e os 40 e tantos deputados contabilizados pelo PSD compartilhem a mesma aderência ideológica. Não chega a ser um novo “centrão” -a frente pluripartidária que comandou votações importantes do Congresso Constituinte-, mas ambiciona reformar pontos nada específicos da Constituição.

Líder ruralista da sigla, a senadora Katia Abreu deve propor uma assembleia constituinte, paralela ao Congresso Nacional, para mudar as cláusulas que sustentam os sistemas político, trabalhista e previdenciário. É claro que, uma vez instalada, seus limites podem se estender a temas como a função social da terra.

Como se vê, o PSD pretende-se protagonista. Se apresenta ao governo -qualquer governo- como alternativa ao PMDB, o centro da política brasileira desde a redemocratização. Mas para ocupar o núcleo do poder, Kassab & cia. precisarão de muita musculação. Dois votos no Senado é tanto quanto têm o PC do B e o PSOL. Só ajuda quando não atrapalha.

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Deu no Ibope: paulistanos intensificam o uso de carros. Em 2010, só 13% declararam nunca usar automóvel -o ponto mais baixo de uma sequência sucessiva de quedas. Em 2007, eram 27% os sem-carro na cidade. O crescimento se intensificou nos últimos três anos, período que coincide com o aumento da venda de veículos e, para azar do prefeito Gilberto Kassab (sem partido), com o seu mandato.

Desde que o prefeito tomou posse, aumentaram tanto o uso frequente do carro em São Paulo (todo dia ou quase: de 21% para 26%) quanto o esporádico (de 23% para 36%). Não por acaso, a parcela de paulistanos que considera o trânsito um problema saltou de 35% para 43% nesse intervalo. É óbvio: mais carros nas ruas, mais congestionamentos; mais motoristas dirigindo, mais gente descontente com o trânsito parado.

Kassab deve achar que é coincidência ou má vontade da população, mas desde 2007 ele caiu de 41% de ótimo e bom em sua avaliação como prefeito para 41% de ruim e péssimo, segundo o Datafolha. Nisso que dá fomentar uma política baseada no transporte individual. Quanto mais avenidas se abrem, marginais de duplicam, rodoanéis se inauguram, mais carros vão para as ruas, só que numa proporção maior e mais frequente do que as novas pistas são capazes de suportar.

Seria injusto culpar apenas o prefeito por cavar a própria cova de popularidade. O boom de consumo de veículos foi provocado por medidas essencialmente federais: redução de impostos, aumento da renda e facilidade do crédito. O problema, para Kassab, é que o eleitor associa o ato da compra (positivo) ao governo federal, mas o fato de não conseguir usar o carro como gostaria (negativo) à prefeitura.

No limite, quanto mais carros vendidos, melhor para o presidente e pior para o prefeito. Sob esse aspecto, Kassab e os administradores de todos as metrópoles engarrafadas deveriam saudar o aumento do IPI para os carros importados. Mas não farão isso por achar que perderão votos -como se houvesse algo mais a perder.

Veja aqui a pesquisa do Ibope.

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Uma pesquisa a mais de um ano da eleição é apenas um indicativo do grau de conhecimento do eleitorado em relação aos pré-candidatos, e uma medida da simpatia ou antipatia que cada um deles desperta. Ou seja, o cenário de hoje não será o do dia da votação. Mas, feita essa ressalva, a pesquisa mostra tendências, dificuldades e, por si só, cria um fato político. A eles:

1. Gilberto Kassab vai precisar gastar muito, mas muito dinheiro público para ter uma influência positiva na sua sucessão. Se a eleição fosse hoje, o candidato do prefeito partiria de saldo negativo: para cada eleitor que diz que votaria no nome indicado por Kassab, dois dizem que fariam justamente o contrário, que não votariam nesse candidato – 15% de apoio contra 38% de rejeição.

2. A pesquisa joga uma balde de água fria nos que ainda tinham esperança de ver José Serra disputando a Prefeitura de São Paulo em 2012. Ficar à frente de todos os outros candidatos do PSDB é esperado, mas ficar 11 pontos atrás de Marta Suplicy (PT) -29% a 18%- é um resultado muito ruim para quem acabou de disputar a Presidência. Especialmente porque Serra tem uma rejeição alta, de 32% do eleitorado, equivalente à da petista, de 30%. Seria uma eleição arriscada demais para Serra. Apesar de já ter sido eleito prefeito uma vez, ele perdeu em três outras ocasiões. Uma quarta derrota seria a última e definitiva.

3. Ao colocar Marta Suplicy isolada na liderança, a pesquisa dá novo fôlego à pré-candidatura da senadora, que havia quase naufragado após o apoio público de Lula ao ministro da Educação, Fernando Haddad. Nos quatro cenários em que seu nome aparece na pesquisa, Marta lidera com entre 29% e 31%, enquanto o preferido de Lula não passa de 2%. Com Marta candidata do PT, a eleição iria para o cenário clássico: 1/3 de eleitores a favor dela, 1/3 contra e 1/3 de “independentes” decidindo a eleição.

4. Mas a pesquisa mostra que ninguém tem mais peso do que o ex-presidente na composição do quadro eleitoral. Lula (40% poderiam votar no seu candidato) é, teoricamente, mais influente em São Paulo do que o próprio PT, do que Dilma Rousseff (26%) e do que Geraldo Alckmin (27%), segundo o Datafolha. Essas perguntas impõem uma problemática ao eleitor sobre a qual ele não havia pensado e, por isso, as respostas não necessariamente se igualarão ao que o eleitor fará no dia da eleição. De qualquer modo, é significativo que 61% dos simpatizantes do PT digam que votariam no candidato de Lula a prefeito. É o único cacife de Haddad. Pode ser suficiente para ele ganhar a indicação petista, mas não o transforma em favorito na eleição geral.

5. A grande dispersão das intenções de voto, com nenhum candidato ultrapassando um terço dos eleitores, abre espaço para que um “desconhecido” chegue ao segundo turno -sim, porque é quase certo que a eleição terá dois turnos. Os “azarões” que melhor se saíram da pesquisa foram o do PP, Celso Russomanno (15% a 19% de intenção de voto versus 16% de rejeição), o do PDT, Paulinho da Força (6% a 11% versus 23% de rejeição), a do PPS, Soninha Francine (6% a 11% versus 18% de rejeição). Gabriel Chalita (PMDB) vai precisar de muito tempo de TV para sair do patamar de 3% a 5% de intenção de voto. Entre os nanicos tucanos, Bruno Covas mostrou que pode, eventualmente, se beneficiar do sobrenome do avô e se destacar dos demais.

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Com jeito, mas sem muita paciência, Luiz Inácio Lula da Silva vai impondo ao PT sua vontade de não realizar prévias para escolha do candidato do partido a prefeito de São Paulo. É como se dissesse que, mais do que os militantes, sabe o que é melhor para o PT. Talvez seja verdade, mas não é lá muito democrático.

O argumento de Lula: o partido precisa de uma “cara nova” para vencer. Ponto, parágrafo. No seu cenário eleitoral, o ex-presidente não vê José Serra (PSDB) entre os adversários petistas em 2012. Se estiver correto, será uma eleição sui generis, com os principais partidos apresentando “caras novas”, que é uma maneira simpática de dizer candidatos desconhecidos (Paulo Maluf é café-com-leite).

Um modo de entender o argumento sumário de Lula é que ele não quer uma candidata com rejeição particular, como a senadora Marta Suplicy, somando à rejeição coletiva do partido. Foi o que aconteceu em 2004, quando a prefeita, apesar do saldo positivo de avaliação, perdeu a reeleição para si mesma e ressuscitou Serra.

A “cara nova” pedida pelo ex-presidente tem apenas um nome: Fernando Haddad, seu ministro da Educação. Os deputados Jilmar Tatto e Carlos Zarattini, embora tão desconhecidos quanto do grande eleitorado, não parecem se qualificar ao status de novidade defendido por Lula. A cara, além de nova, deve ser atraente.

Aceita essa premissa, Haddad tem potencial para melhorar a desempenho do PT no eleitorado feminino de classe média, um dos pontos fracos do partido. Além de poder se apresentar como pai do CEU -sem trocadilho- e do Pro-Uni. E só. Será o suficiente para eleger-se prefeito? Depende da concorrência.

No cenário traçado por Lula -só com desconhecidos e o desgastado Maluf- o candidato do PT, mesmo partindo do zero, teria boas chances de chegar ao segundo turno, empurrado por ele, pelo voto petista na periferia paulistana e pelo tempo de propaganda compulsória na TV. Lula tem o case de Dilma Rousseff para ilustrar sua teoria. Mas há furos.

Eleição para prefeito tem lógica diferente da eleição para presidente. O que está em jogo é trânsito, ônibus, metrô, escola e posto de saúde. Tem pouco a ver com política econômica e consumo. O aval de Lula conta muito menos.

Numa eleição apenas com “caras novas”, o eleitorado pode se enfeitiçar por outro rosto. Com diferentes graus de novidade, podem estar na disputa Gabriel Chalita (PMDB), Soninha (PPS), Paulinho da Força Sindical (PDT), Celso Russomanno (PP) e um representante do prefeito Gilberto Kassab -o secretário Eduardo Jorge (PV) ou o vice-governador Afif Domingos (PSD).

Além disso há a questão tucana. No cálculo de Lula, o candidato do PSDB seria escolhido -em prévias, vale destacar- entre o senador Aloysio Nunes, o deputado Ricardo Trípoli e os secretários José Aníbal, Bruno Covas e Andrea Matarazzo.

Na hipótese de Haddad chegar ao segundo turno paulistano, seu adversário seria um tucano pouco conhecido ou uma das “caras novas” dos outros partidos, com mais chance para Chalita. Ganha quem tiver menos rejeição. Como são todos pouco conhecidos, são também pouco rejeitados -salvo o candidato do PT, que carrega a ojeriza da elite paulistana e de boa parte de sua classe média ao partido.

Esse é o cenário positivo para Haddad. O negativo é Lula estar errado na sua avaliação e Serra se tornar o candidato do PSDB. O tucano sairia favorito para chegar ao segundo turno. E sobraria para o petista disputar com as outras “caras novas” a segunda vaga. Se não decolar logo, corre o risco de se embolar com outros neófitos e, no limite, cair fora ainda no primeiro turno.

Para a tática de Lula funcionar, o PT precisaria escolher logo Haddad e começar a trabalhar seu nome o quanto antes, para que ele chegasse com uma velocidade inicial mais alta em 2012.

Esse cronograma é oposto ao do PSDB. Os tucanos devem fazer suas prévias apenas no próximo ano. E, no que depender das viúvas de Serra, quanto mais demorar melhor. Assim, o candidato derrotado a presidente manteria chances de entrar na disputa se o cenário lhe convier e as pesquisas estimularem.

Lula já mostrou que tem pressa e vai forçar uma definição rápida do PT. Pode ser uma vantagem, se os tucanos apresentarem também uma “cara nova” -ou um problema, se Serra entrar na disputa.

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A pesquisa Vox Poluli/Força Sindical publicada nesta quinta mostra pontos interessantes, mas tem limitações: a eleição ainda está muito longe (70% não tem candidato espontâneo), o relatório não informa se as entrevistas foram por telefone ou presenciais (influencia o resultado) e não se pode saber se o partido dos candidatos foi informado pelo entrevistador ao entrevistado, como o instituto fez nas pesquisas presidenciais de 2010.

Descontados esses poréns, dá para concluir que:

  • 1) a liderança de Marta Suplicy (PT) em todos os cenários em que aparece como candidata do PT à Prefeitura de São Paulo, somado ao fato de ela ter o maior porcentual (9%) de intenções de voto espontâneas, mostra que ela é a mais conhecida dos pré-candidatos, petistas ou não, e a mais associada com a cadeira ocupada por Gilberto Kassab (sem partido). Mas o fato de Marta ser também a mais rejeitada evoca o cenário da eleição que ela perdeu para José Serra (PSDB) em 2004. Nem todo o recall de Marta pode se transformar em voto, como não se transformou no caso de Serra em 2010. A vantagem de Marta é que tem de 2 a 3 vezes mais recall do que Aloizio Mercadante, o que aumenta sua velocidade inicial.
  • 2) os 3% de Serra na espontânea indicam que os eleitores tucanos não vêem seu candidato derrotado a presidente como candidato natural a prefeito. Serra sobe para 22% a 26% na estimulada e chega a empatar tecnicamente com Marta (a margem de erro é de 3 pontos), mas trata-se de uma situação em que o eleitor é confrontado com um cenário em que ele, Serra, é a única opção conhecida pelo eleitor tucano para derrotar o rival petista.
  • 3) Fora da polarização PT/PSDB, Celso Russomanno (PP) aparece como tertius mais viável. É um papel que ele tentou desempenhar na eleição de governador paulista em 2010, sem sucesso. Gabriel Chalita (PMDB) não sai de patamar melhor do que Luiza Erundina (PSB) ou Paulinho (PDT).
  • 4) Os pré-candidatos menos conhecidos de PT (Fernando Haddad e Jilmar Tatto) e PSDB (Aloysio Nunes, Zé Aníbal, Trípoli e Andrea Matarazzo) precisarão ter muita exposição para aumentar seu grau de conhecimento e terem chances reais na disputa pela prefeitura. Prévias partidárias poderiam ajudar a torná-los mais famosos entre os simpatizantes de seus partidos, o que é um passo indispensável para se tornarem candidatos de verdade.
  • 5) Kassab não é um eleitor forte, pelo menos até agora.

Em resumo, o quadro está aberto. Não dá para descartar nenhum candidato a priori. Nem há um franco favorito. O cenário atual aponta para uma eleição em dois turnos, o que permite duas coisas: 1) que um não-tucano-nem-petista repita Kassab em 2008 e chegue ao segundo turno, 2) que ter uma rejeição baixa é fundamental para manter as chances de vitória no turno final.

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Foram apenas 4% de crescimento da renda média da população paulistana entre 2000 e 2010. É o pior resultado entre as capitais brasileiras na década. No ranking de renda dessas 27 cidades, São Paulo foi ultrapassada por Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro, caindo do 4º para o 7º lugar, com R$ 1.495 por morador. A locomotiva foi parar na rabeira da composição.

Nesse intervalo, a cidade de São Paulo foi governada pela petista Marta Suplicy (de 2001 a 2004), pelo tucano José Serra (de 2005 a 2006), pelo ex-democrata e agora pessedista Gilberto Kassab (de 2006 até hoje). Os dois primeiros são cogitados como postulantes ao cargo de prefeito em 2012. E o atual prefeito reafirmou nesta segunda, em sabatina, que se dá nota 10 por sua gestão.

Não por acaso, nesse período, São Paulo expulsou mais gente do que recebeu. De cidade formada por ondas sucessivas de migrantes, estrangeiros e brasileiros, a capital paulista se transformou em centrífuga demográfica. Entre chegadas e partidas, o saldo negativo foi de cerca de 130 mil habitantes na década.

Ao mesmo tempo, uma das cidades que mais recebeu paulistanos em busca de melhor qualidade de vida pulou para o primeiro lugar no ranking de renda por habitante das capitais: Florianópolis (SC) aumentou sua renda 30% acima da inflação, chegou a R$ 1.905 e desbancou Porto Alegre (RS) no topo da classificação.

As capitais que ganharam posições no ranking foram: Rio de Janeiro, Aracajú, João Pessoa e Macapá (duas cada); Florianópolis, Vitória, Brasília, Palmas, Porto Velho e Rio Branco (uma cada). As que perderam: São Paulo e Salvador (três cada); Maceió, Campo Grande e Porto Alegre (duas cada); São Luís e Belém (uma cada). As 10 restantes ficaram onde estavam.

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06.abril.2011 13:00:26

Acabou a trégua

Cem dias sem dores. Mas soou o gongo e a disputa vai começar. A manifestação de milhares de ruralistas e a reclamação de centenas de prefeitos em Brasília foi o aquecimento. Aécio Neves (PSDB) tenta marcar oposição desferindo o primeiro “punch” em previsível discurso no Senado.

Acabou a lua-de-mel de Dilma Rousseff na Presidência.

De todos os movimentos oposicionistas, o mais insinuante vem de dentro da base aliada. A aproximação do governador Eduardo Campos (PSB-PE) com uma facção da enésima versão da Arena (já foi PFL, PL, DEM e agora PSD) é vendida como cooptação de parte da oposição para ajudar Dilma.

Mas, como diria Miguel Arraes, avô do governador pernambucano, jabuti não sobe em árvore. Se está lá é porque alguém colocou. Acreditar que Gilberto Kassab, Afif Domingos, Katia Abreu e Índio da Costa viraram groupies da presidente é crer em tartaruga ninja trepadeira.

Os apropriadores da sigla que elegeu Juscelino Kubitschek estão de olho em uma fatia da classe média que votou com ressentimento na eleição de 2010. “A classe média -que constrói o nosso País à (sic) cada dia- carece de representação partidária efetiva. PSD ocupará esse campo”, tuitou Índio.

São os brasileiros que viram se aproximar uma legião de emergentes compradores dos símbolos de status que antes os diferenciavam das classes D e E. Ao olhar para cima, a classe média tradicional se viu com menos chances de subir à classe A. Ficou mais longe de ser elite.

Comparativamente aos outros, o governo Lula foi um retrocesso para veteranos da classe média. Seu custo de serviços disparou: escola particular, telefonia, internet e TV paga. Ao mesmo tempo, passaram a disputar com uma multidão um lugar no avião e no trânsito, muitas vezes com os emergentes dirigindo carros mais novos do que o seu.

Dificilmente esse segmento social votará em um candidato do PT. O PSDB tampouco tem sido um porta-voz convincente da sua insatisfação. O DEM, por mais vezes que tenha trocado de sigla, só muda o prenome de seus caciques e recende a naftalina. Daí o PSD, e a evocação dos anos dourados de JK, quando essa classe média se formou.

O problema de Eduardo Campos não é sociológico, mas geográfico. Forte no Nordeste, onde conseguiu surfar a maré social emergente, o PSB patina nos maiores colégios eleitorais do País. Para se tornar um jogador nacional e ter aspirações presidenciais, Campos e o PSB precisam colocar uma cunha na principal base de petistas e tucanos: São Paulo.

Por alguma razão, apostam que Kassab e Afif têm chances de casar viúvas quercistas e malufistas e, coligados, terem um desempenho eleitoral que vá muito além dos inexpressivos 4,6% que o candidato “socialista” obteve na eleição de governador paulista em 2010. É uma aposta.

Enquanto isso, uns fazem de conta que estão reforçando a base aliada de Dilma, e os outros, fingindo que acreditam. Ou pior, acreditam de verdade.

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28.março.2011 00:55:32

O PSD, de JK a GG

Na política brasileira, quase tudo que se recicla se degrada. De Kubitschek a Kassab, o PSD é mais uma na longa lista de siglas repaginadas para confundir o eleitor e vender raposa por cordeiro.

O prefeito de São Paulo foi pego numa mentirinha para alavancar seu novo partido. Disse que conversara com a filha do presidente JK sobre batizar a fundação partidária com o nome do pai dela. Maria Estela Kubitschek desdisse Gilberto Kassab e ameaçou processá-lo.

É bom desencorajar o prefeito antes que ele mude a letra do primeiro nome para tomar emprestada também a sigla presidencial. Assim como Kadafi tem mil grafias, haverá sempre um especialista disposto a provar que, em árabe, Gilberto se escreve com “J”.

O único problema é que haverá outros dizendo que Kassab é, na verdade, Gassab (afinal, Kadafi pode ser Gaddafi). E aí, em vez de JK, o prefeito viraria GG.

Ele não é o único às voltas com palavras cruzadas.

Marina Silva trocou o PT pelo PV para disputar a Presidência. Agora, descobriu que o verde do partido vem da cor que ficam os filiados ao tentarem desalojar alguns aprendizes de Mubarak da cúpula do PV. Abriu uma dissidência.

O grupo marinista tem até nome: Transição Democrática. Transição para que? Para um novo partido, pelo jeito. Não seria supresa. É da tradição brasileira.

Aqui, partido tem dono. Eles se eternizam no poder asfixiando a concorrência interna. Fecham as brechas que poderiam arejar as estruturas partidárias. Vedam o acesso a cargos, a vagas nas chapas eleitorais e aos cofres da agremiação.

Quando um político de expressão se vê sem espaço na legenda que o abriga, ele joga as letras da sigla partidária no liquidificador e sai com uma nova combinação. Vide o PSDB que brotou do PMDB.

Franco Montoro, Mario Covas e Fernando Henrique Cardoso estavam emparedados por Orestes Quércia em São Paulo. Da crise local surgiu um novo partido nacional. Foram-se os caciques, mas ficaram os índios, hoje confederados.

Num país em que a maioria da população prefere nenhum partido (57%, no mais recente Datafolha), os políticos brasileiros têm uma estranha fixação pelos nomes das legendas passadas. Como se letras se transubstanciassem em votos.

Ao fim da ditadura, Leonel Brizola brigou pelo legado político-eleitoral de Getúlio Vargas encarnado na sigla PTB. Derrotado, fundou uma variação sobre o tema, o PDT. O novo PTB ficou com Ivete Vargas e, após sua morte, deu no que deu.

Kassab e o vice-governador paulista Afif Domingos estão interessados em outra herança do período Vargas, o conceito de linha auxiliar.

Os dois compartilham mais do que o comando do novo PSD e a carteirinha da Associação Comercial de São Paulo. São experientes em dissidência partidária. Participaram do finado PL, que se ramificou de outro defunto, o PFL.

Desencantada com os dividendos eleitorais do “liberalismo” de fachada partidária, a dupla voltou-se para o apelo do mito “democrata” no DEM e, agora, no PSD -um partido ideológico, nascido para agradar dilmistas e tucanos.

Com a popularidade do prefeito em queda (saldo negativo de 14 pontos no Datafolha) e a previsão de chuvas abundantes em São Paulo (leiam-se inundações), é desafiador imaginar qual “sex appeal” tem atraído políticos para a nova legenda.

A Prefeitura de São Paulo tem o quinto(*) maior orçamento público do País, mas será só isso? “Tudo isso”, responderão os cínicos. “Nada disso”, dirão os crédulos, “é o carisma de GG (ou GK)”.

Virar sigla ou ser conhecido pelo primeiro nome na política brasileira é uma ambição perseguida por candidatos e seus marqueteiros em toda eleição. Desde 2000 Alckmin luta para virar Geraldo. Serra tentou ser Zé em 2010, sem sucesso.

Uns mimetizam Getúlio, Jango, Lula (apelidos que viraram marca). Outros aspiram a JK, ACM, FHC. Mas esse status não se fabrica, se conquista.

Enquanto homens suam para ter intimidade com o eleitor e serem conhecidos pelo primeiro nome, as mulheres ganham o prenome de guerra sem esforço. São chamadas apenas assim na machista política brasileira. Dilma é “presidente Rousseff” só na boca de Barack Obama.

PS: (*) Originalmente, o texto classificava o orçamento paulistano como o terceiro maior do País, mas este foi superado pelos dos Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais.

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O resultado do Datafolha é um feito para Dilma Rousseff. Ela igualou a aprovação de Lula no começo do segundo mandato. Isso é mais do que qualquer outro presidente conseguiu desde a redemocratização.

É sinal também de que a presidente continua surfando a onda do rápido crescimento da economia. E que as medidas restritivas que ela adotou, como reajuste menor para o salário mínimo e corte de gastos, ainda não foram percebidas pela população.

Daqui para frente, Dilma vai se ver num paradoxo. Se a sua popularidade continuar em alta, pode ser sinal de que as medidas para conter o consumo e a inflação não estão funcionando, o que seria um problema para a aprovação de seu governo no longo prazo.

Mas a situação de Dilma é muito melhor do que a de Gilberto Kassab. O prefeito de São Paulo lançou hoje um novo partido, e ganhou de presente dos paulistanos a pior avaliação desde que assumiu a prefeitura. Se seu cacife eleitoral está diminuindo, como será que Kassab conseguiu adesões à sua legenda? Ele deve ter algum outro cacife na manga.

Veja aqui a íntegra do relatório da pesquisa Datafolha sobre a popularide de Dilma. E aqui, a de Kassab.

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