Nova Ipixuna, onde foi assassinado o casal de líderes conservacionistas na semana passada, fica no coração do “polígono da violência”, região que se tornou a mais perigosa do Brasil nos últimos anos. Em nenhum outro lugar do País tantos municípios vizinhos compartilham um número tão grande de homicídios proporcionalmente à sua população.
São 13 municípios contíguos no sudeste do Pará (mais Tailândia, um pouco ao norte). Dividem fronteiras e taxas de assassinato superiores a 60 por 100 mil habitantes, na média de 2007 a 2009. O limite de 60 habitantes mortos intencionalmente a cada grupo de 100 mil é simbólico: é a mais alta taxa do planeta e também do Brasil se considerarmos países e estados.
O “polígono da violência” chegou a 91 homicídios por 100 mil moradores em 2009. Se fosse um estado, seria 50% mais sangrento do que Alagoas, o atual campeão. Se fosse um país, bateria Honduras e se consagraria como o mais violento do mundo.
Com 84 mil quilômetros quadrados, o polígono tem área equivalente à da Áustria. Uma das grandes diferenças é a densidade populacional, 10 vezes maior no país europeu. Outra é o número total de homicídios, 20 vezes maior nessa região do Pará.
José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo eram líderes extrativistas, como Chico Mendes. Em vez de sulcar seringueiras, coletavam castanhas. Como Chico Mendes, defendiam a floresta amazônica da devastação e estavam marcados para morrer. Como Chico Mendes, Zé Claudio cansou de falar das ameaças. Não adiantaram os avisos: as profecias se cumpriram, com 22 anos de intervalo.
O casal de preservacionistas foi tragado por uma espiral de violência que vem se agravando a cada ano na região, sem que nenhuma ação oficial tenha conseguido impedir seu crescimento. A taxa de homicídio no polígono pulou de 53/100 mil em 2002 para 67/100 mil em 2005, 73/100 mil em 2007 e 91/100 mil em 2009.
Nesses oito anos, 4.601 pessoas foram mortas nos 14 municípios do “polígono da violência”. O maior número ocorreu em Marabá, a capital do proposto estado de Carajás e maior cidade da região: 1.408 assassinatos de 2002 a 2009. É também um dos locais mais perigosos, com 133 homicídios por 100 mil habitantes em 2009.
Zé Cláudio era o porta-voz, e sua mulher, a fotógrafa. Juntos, documentavam e denunciavam o corte ilegal de madeira no entorno da reserva onde exploravam a castanha-do-Pará. Denunciavam por consciência e por necessidade: a castanheira é uma das maiores árvores da floresta, pode chegar a 50 metros de altura, com tronco de até 5 metros de diâmetro. Vive mais de 1 mil anos, se um madeireiro não a encontrar antes.
O mapa do desmatamento do Ministério do Meio Ambiente revela o estrago provocado pelas moto-serras no polígono (este aqui, da Imazon, também). A maior parte da mata foi substituída por pastos e umas poucas plantações. As raras manchas de floresta são áreas indígenas. Só na zona urbana de Nova Ipixuna contam-se seis serrarias, cercadas por centenas de pilhas de toras, grandes o suficiente de serem visíveis em imagens de satélite.
Com a mata desaparecendo, aumentam os conflitos entre extrativistas, madeireiros e carvoarias. Cada um, a seu modo, tenta aproveitar o pouco de floresta que restou. Uns coletam, outros derrubam.
A riqueza da região, porém, tem outras fontes. Maior jazida de ferro em exploração no mundo, o complexo de Carajás fica em Paraupebas, segundo maior município do polígono. O terceiro, Paragominas, vive da mineração e pecuária. E o quarto, Tucuruí, é a sede da maior hidrelétrica do norte do País. Todos ricos e perigosos.
O fato de cinco municípios do “polígono da violência” ficarem às margens do lago de Tucuruí levanta preocupação sobre o impacto que novas hidrelétricas, como Belo Monte, podem provocar na violência crescente na Amazônia.
As taxas recorde de homicídio no sudeste do Pará contrastam com o pequeno número de assassinatos nos municípios paraenses mais antigos, situados ao longo do rio Amazonas. A violência é muito maior nas áreas de ocupação recente, principalmente ao longo de rodovias como a Transamazônica e a PA-150, que permitiram a chegada de milhares de migrantes para garimpo, mineração ou corte de madeira.
É nas novas fronteiras econômicas ou nas zonas onde o modelo de exploração da madeira/garimpo está perto do esgotamento que as taxas de homicídio explodem. O fenômeno se repete no norte e oeste de Mato Grosso, em municípios como Apiacás e Colniza, e em Rondônia, em locais como Ariquemes e Buritis.
Em Rondônia, outro líder rural foi assassinado na semana passada. Adelino Ramos, sobrevivente do massacre de Corumbiara, foi morto a tiros num distrito longínquo da capital Porto Velho. No sábado, foi encontrado o corpo do agriculutor Eremilton Pereira dos Santos, a 7 quilômetros de onde Zé Claudio e Maria do Espírito Santo foram mortos, também em Nova Ipixuna.
Sem uma política nacional de segurança específica para essas regiões, a epidemia de assassinatos só tende a se agravar, e o polígono da violência, a se expandir e se multiplicar pelo interior do Brasil.
…..
Os dados sobre mortes e população foram extraídos do Sistema de Informações de Mortalidade, do Ministério da Saúde, tabulados e mapeados com ajuda dos programas TabWin e TabNet. As informações são públicas e podem ser checadas no site do Datasus.
Tags: demografia, infográficos, pará, segurança
Compare as velocidades médias de download nos vários países árabes. Os que têm mais problemas políticos internos, coincidentemente, têm as internets mais lentas. São os casos do Líbano, Iraque, Egito, Líbia, Síria, Jordânia, Marrocos e Bahrein.
Há uma correlação (quanto pior a navegação, mais instável a situação interna), mas obviamente não há relação de causa e efeito. Não é a falta de internet que faz as pessoas protestarem nas ruas. É a falta de pão e liberdade para reclamar.
Mas a alta velocidade da internet na por ora estável monarquia da Arábia Saudita (melhor do que a do Brasil e igual à de Israel) indica que aumentar a velocidade da transmissão de dados não é ruim para o regime.
Tags: infográficos, internet
O número de assassinatos na cidade de São Paulo caiu 80% ao longo dos últimos nove anos. Segundo dados preliminares do Pro-Aim, um serviço da Secretaria Municipal da Saúde, os homicídios caíram de 6.683 em 2001 para 1.262 no ano passado.

A redução significa que pelo menos 30 mil vidas foram poupadas nesse período. Esse é o número de pessoas que teriam sido assassinadas a mais na década passada se a epidemia de violência não tivesse diminuído tão rapidamente.

Não há uma causa única que possa explicar um fenômeno dessa magnitude. Há três causas de fundo que, ao que tudo indica, estão entre as principais responsáveis pela redução.
A primeiro delas é demográfica: a população paulistana está envelhecendo, há cada vez menos jovens. E são os homens de 20 a 29 anos as principais vítimas e os principais autores dos assassinatos. Diminui a população de risco, cai a taxa de homicídio.
Como consequência, o peso das assassinatos de paulistanos com 50 anos ou mais mais do que dobrou ao longo dos últimos 15 anos. Não que mais veteranos estejam sendo mortos -o número absoluto diminuiu-, mas a queda foi muito mais acentuada entre os jovens.

O outro motivo é a implementação da política nacional de desarmamento. A queda das mortes violentas coincide com o começo da apreensão das armas. Um estudo acadêmico estima que um assassinato é evitado a cada 18 armas apreendidas.
Pode-se incluir entre as causas gerais o bom desempenho da economia ao longo da década passada, o que fez aumentar as oportunidades de emprego para os jovens -além do acesso ao crédito, que melhorou o padrão de consumo das fatias mais pobres da população.
Se essas causas se aplicam a toda a cidade (e ao país), questões específicas ajudam a compreender porque em alguns locais a taxa de assassinato caiu mais do que em outros. Entram nessa conta desde novos padrões de policiamento até a construção de mais e melhores equipamentos sociais, como escolas de período integral.
Isso vale, por exemplo, para o Jardim Ângela, que chegou a ser símbolo da violência na cidade, e hoje ostenta uma taxa de homicídio quase civilizada: 15 mortos para cada 100 mil habitantes. Ela chegou a ser de 111/100 mil em 2001.
Mas as diferenças entre bairros ricos e pobres persistem. O morador do Brás, um reduto popular próximo ao centro paulistano, corre um risco cinco vezes maior de ser assassinado que um morador de Moema, um bairro rico da zona sul.
É um problema que se estende a outras áreas centrais da cidade, como Sé e República. A explicação passa pela concentração de cortiços e pelo consumo e venda de drogas como o crack. E requerem ações policias específicas para resolver o problema. Desse a demografia não dará conta.
Tags: demografia, infográficos, SP, violência
O repórter Daniel Bramatti, do Estado de S.Paulo, publicou uma reportagem muito interessante nesta segunda-feira sobre como a eleição de Tiririca vai render R$ 2,7 milhões por ano ao seu partido, o PR. A grana é mais de cinco vezes o que a legenda investiu, oficialmente, na campanha do palhaço. É que o rateio do Fundo Partidário é proporcional à votação de cada agremiação.
Isso mostra como a candidatura de Tiririca não tem nada de circense. É um projeto político, engendrado pelos dirigentes do PR para reforçar a votação do partido, eleger mais deputados federais de sua coligação (mais três, no caso) e rechear os cofres da agremiação. Um artifício perfeito, executado às custas do eleitor supostamente “desiludido” com a política.
Mas um fenômeno paralelo merece registro. Até as 19h30 do dia em que foi publicada, a reportagem de Bramatti havia sido reproduzida com o mesmo lide (abertura) em diferentes sites da internet 827 vezes. Ao menos esses foram os indexados pelo Google nesse período. Em parte, isso se deve à distribuição do texto pela Agência Estado.
Como se vê no gráfico acima, apenas metade das reproduções literais se preocuparam em dar algum tipo de crédito ao autor e/ou ao veículo que publicou a reportagem originalmente e detém seus direitos autorais. Entram nessa conta os 32% que deram o crédito à agência (em suas várias denominações), os 16% que mencionaram o jornal ou seu site, e os 2% que citaram apenas o repórter.
Em 417 das 827 reproduções do texto, a fonte da informação simplesmente desapareceu. E em apenas 5% dos casos o nome de Bramatti foi mencionado.
Não se trata aqui de direitos autorais (ou a falta deles) e remuneração do trabalho/serviço. Mas de como esse pequeno caso ilustra o poder da internet de transformar o autor em um ser anônimo e o crédito em uma exceção, e não a regra.
Não por acaso, uma das frases mais comuns quando alguém relata uma notícia é “li/vi na internet que…” Como se o meio fosse a fonte, e a produção noticiosa fosse um fenômeno espontâneo e sem custos.
Isso tem inúmeras implicações sobre credibilidade da informação, viabilidade econômica do jornalismo e outros temas mais profundos do que esta nota pretende abordar. Aqui fica registrada apenas a estupefação com a rapidez da reprodução, na maior parte das vezes truncada, da informação -como ilustra o gráfico abaixo.
Tags: 2010, eleição, infográficos, internet
José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) têm a mesma estratégia geográfica, mas destinos opostos. Enquanto o tucano concentra sua campanha no Nordeste, a petista privilegia o Sul e o Sudeste. Um e outra atacam os redutos eleitorais do adversário para evitar que ele abra vantagem muito grande.
Segundo o Datafolha, Serra tem 13 pontos percentuais de vantagem no Sul e 7 pontos a mais no Sudeste. Isso dá cinco pontos percentuais de saldo sobre a adversária no eleitorado nacional. Dilma compensa essa desvantagem com 12 pontos a mais no Nordeste e 7 pontos de frente no Norte/Centro-Oeste.
As unidades da Federação representadas no mapa concentram 70% do eleitorado brasileiro. Das 9, Serra lidera em 3 (São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul), empatam em uma (Minas Gerais) e Dilma está na frente em 5: Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Ceará e Distrito Federal.
Tags: 2010, datafolha, Dilma, eleição, infográficos, Marina, pesquisa, Serra
(coluna publicada na edição impressa do Estado)
Os cerca de 20 mil candidatos às eleições de outubro não são um espelho preciso da sociedade que pretendem representar. Suas diferenças em comparação à média do eleitorado brasileiro chamam mais a atenção do que eventuais semelhanças.
O candidato típico é homem, tem 48 anos de idade, tem nível superior e é político profissional (ou empresário, ou funcionário público).
O eleitor típico é mulher, tem pouco mais de 40 anos, não foi além do ensino fundamental e é assalariada do setor privado (ou tem uma ocupação informal).
As chapas são dominadas por uma elite partidária tão afeita ao poder que, ao preencher sua ocupação no registro de candidatura, seus membros escrevem “deputado” ou “vereador”. Ao menos 1.885 candidatos fizeram isso, tornando a “profissão” de político a mais comum entre os postulantes.
Das discrepâncias entre o perfil dos eleitores e o dos potenciais eleitos, a que mais chama a atenção é a de gênero. Apesar de as mulheres serem maioria do eleitorado, elas não passam, em 2010, de 21% do total de candidatos às assembleias legislativas e à Câmara dos Deputados.
A legislação prevê pelo menos 30% de candidatas mulheres para cargos proporcionais, mas não é cumprida desde sempre. Em 2006, menos de 9% das cadeiras da Câmara dos Deputados foram preenchidas por mulheres. “O partido é o grande funil, não o eleitorado”, afirma a socióloga Fátima Pacheco Jordão, uma estudiosa do tema.
A soma da intenção de voto de Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) nas pesquisas presidenciais mostra que a maioria dos eleitores não tem nada contra candidatas. Ao contrário: mulheres já foram eleitas prefeitas e governadoras do Rio Grande do Sul ao Pará, por diferentes legendas. Mas dentro das agremiações políticas, o volume de filiadas não se reflete na cúpula.
Na composição dos principais órgãos de comando dos partidos, a proporção de mulheres é decorativa. No DEM, de 57 membros da comissão executiva nacional, só 4 são do sexo feminino. No PSDB, são 4 mulheres para 42 vagas. No PMDB, entre os 25 dirigentes, só há duas mulheres. No PT a participação é um pouco maior, mas ainda minoritária: 6 mulheres entre 21 caciques.
Fecha-se um circuito viciado: homens preterem mulheres no preenchimento das chapas partidárias, menos mulheres são eleitas, homens mantêm a maioria dos cargos de mando dentro dos partidos. Perpetua-se o machismo.
Praticamente nenhuma sigla escapa. Na eleição para a Câmara dos Deputados, apenas um partido respeita a cota mínima de candidatas do sexo feminino na disputa de 2010: o PCO (Partido da Causa Operária), com 50% de mulheres -embora elas sejam só 4.
Entre os grandes partidos, o PSDB está na média da desigualdade de gênero no pleito para deputado federal: 79% de candidatos homens e apenas 21% de mulheres. PMDB e PT têm uma proporção equivalente: 22% de postulantes do sexo feminino. Já o DEM tem apenas 14% de candidatas mulheres para a Câmara.
Na disputa dos cargos majoritários, a desproporção é ainda maior. A eleição para o Senado este ano tem 34 mulheres entre os 265 candidatos, ou seja, elas conseguiram 13% das vagas. E no pleito para os governos estaduais, há 18 candidatas num total de 167, o que significa só 11% de mulheres.
É um problema global, inscrito nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Mas o Brasil está ficando para trás. O Congresso argentino, por exemplo, tem uma proporção de mulheres três vezes maior do que o brasileiro.
A questão vai além do sexo do chefe de governo. Trata-se de assegurar a participação das mulheres em todas as arenas políticas. Relatório das Nações Unidas mostra que congressistas mulheres têm prioridades diferentes das dos homens, beneficiam mais as crianças e a família. E há ao menos três estudos que correlacionam o aumento da participação feminina no poder com menores níveis de corrupção.
Tags: 2010, coluna, eleição, infográficos
(texto publicado na edição impressa de O Estado de S.Paulo)
Alguns detalhes da pesquisa Ibope/Estado/Rede Globo são melhores para Dilma Rousseff (PT) do que para José Serra (PSDB): ela é favorita para a maior parte do eleitorado, seu voto está mais consolidado, e seu eleitor, mais confiante. Mas o calendário próximo favorece o tucano.
A maior mudança detectada pela pesquisa foi no favoritismo dos presidenciáveis aos olhos dos eleitores: agora, 40% apostam que Dilma será a sucessora do presidente Lula, contra 35% que jogam suas fichas em Serra. Em abril, a situação era inversa: 43% apostavam no tucano, e apenas 34% achavam que ela venceria.
Essa virada reflete o aumento da confiança do eleitor de Dilma: 84% apostam na vitória de sua candidata. Embora também alto, o percentual de correligionários de Serra que acreditam na sua eleição é menor: 71%. E pior, 1 a cada 8 dos eleitores serristas crê na vitória de Dilma.
O aumento do otimismo petista é consequência do empate de Dilma com Serra há três semanas. Confiança é um combustível importante para animar a campanha, mas é também volátil: um tropeço nas pesquisas pode reverter a opinião de alguns desses otimistas.
Menos mutável é a intenção de voto espontânea. Dilma chegou a 19%, contra 15% de Serra. Ou seja, metade do eleitorado da petista têm seu nome na ponta da língua. É um voto mais difícil de perder. Para Serra, essa proporção é de 40%. Mas pode crescer com o aumento de sua exposição na mídia.
Serra pode ocupar até uma hora e meia da faixa nobre na TV e no rádio ao longo de junho. Desde que seja a principal atração dos programas de 10 minutos e inserções de 30 segundos que PSDB, PTB e PPS terão direito a veicular este mês. Seria uma repetição do que ocorreu com o horário de propaganda do DEM.
Dilma não tem nenhuma propaganda programada para este mês. Apenas a convenção do PT, que deve formalizar sua candidatura no dia 13. Mas o PSDB também fará a sua, para oficializar Serra, na véspera.
Para os tucanos, a pesquisa Ibope não foi tão ruim. Ao menos Dilma não cresceu nas últimas duas semanas, se comparados os resultados aos da Datafolha. Por isso que eles dizem que maio foi de Dilma e que junho será de Serra. Mas isso, só as pesquisas de julho poderão confirmar. Ou não.
Tags: 2010, Dilma, eleição, ibope, infográficos, pesquisa, Serra
Os gráficos a seguir mostram como se dividem os eleitores segundo a avaliação que fazem do governo Lula, e sua intenção de voto. Todos os dados foram extraídos da mais recente pesquisa Datafolha.
A disputa é pelos 20% que dão nota 8 ao governo Lula. Serra e Dilma estão tecnicamente empatados nesse segmento: 39% a 37%. Mas em março a vantagem era do tucano: 36% a 31%, com Ciro na disputa. A petista avançou e Serra ficou onde estava. Para onde esses eleitores penderem daqui para frente, penderá também a eleição.
José Serra (PSDB) ganha por larga margem entre os eleitores que dão nota de zero a 7 ao governo. Mas é um grupo proporcionalmente pequeno, que representa apenas um terço do eleitorado. Os eleitores do tucano estão distribuídos em um terço que dá notas altas (9 e 10) ao governo, um terço que dá notas médias (5 a 7) e o resto se distribui entre os mais críticos e os que dão nota 8.
Dilma Rousseff (PT) consolidou sua vantagem entre os 47% do eleitorado que dão nota 9 ou 10 ao governo, e agora tem o dobro dos votos de Serra nesse segmento. O eleitorado de Dilma ainda está muito concentrado nos 47% que dão notas 9 ou 10 ao governo Lula. Embora ainda possa disputar mais votos nesse segmento com Serra, seu maior potencial de crescimento está nos 20% que dão nota 8 à administração federal.
Tags: 2010, datafolha, Dilma, eleição, infográficos, Marina, Serra
(texto publicado na edição impressa de O Estado de S.Paulo)
Na média móvel das pesquisas de intenção de voto as curvas de José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) tendem a se encontrar após a inclusão das sondagens de Vox Populi e Sensus. Ambas as pesquisas apontaram empate técnico entre os pré-candidatos a presidente tucano e petista.
A diferença média entre os dois primeiros colocados caiu de 7 pontos em meados de abril para 2 pontos agora. Em abril, as pesquisas Ibope e Datafolha haviam apontado um pequeno aumento da vantagem de Serra. As sondagens foram feitas poucos dias após o lançamento da pré-candidatura tucana, que teve grande repercussão na mídia.
Agora, o fato novo foi a propaganda partidária do PT. Ela foi veiculada ao longo da semana passada e da anterior, o que pode explicar o crescimento de Dilma.
Os spots petistas de 30 segundos foram ao ar no rádio e na TV nos dias 6, 8 e 11 deste mês. E o programa de 10 minutos foi transmitido na noite da última quinta-feira. Em todos eles, Dilma ocupou a maior parte do tempo. Na quinta, fez um jogral com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se desdobrou em elogios à sua candidata e chegou a compará-la ao líder sul-africano Nelson Mandela.
Ainda hoje, 6 a cada 10 eleitores não sabem citar espontaneamente um presidenciável que esteja na disputa. Parte desse eleitorado é volúvel, e quando se defronta com um pesquisador que lhe apresenta uma questão sobre a qual ele não havia pensado, sua reação é responder o primeiro nome que lhe vem à cabeça. É o que os pesquisadores chamam de recall. É o que pode ter beneficiado Serra nas pesquisas feitas em abril, e que pode ter alavancado a intenção de voto em Dilma agora.
Nas próximas duas semanas será a vez do DEM veicular sua propaganda. Tudo indica que o partido, aliado do PSDB, deve emprestar sua propaganda no rádio e na TV para Serra. Se isso acontecer e o tucano voltar a se distanciar de Dilma nas pesquisas, será sinal de que o crescimento da petista foi apenas recall. Mas se Dilma continuar liderando, estará confirmada uma nova tendência na corrida presidencial.
Como sempre, o cálculo da média móvel das pesquisas levou em conta as três sondagens mais recentemente divulgadas. Entraram no cálculo a pesquisa Ibope cuja coleta de dados terminou no dia 19 de abril, e as pesquisas Vox Populi, concluída no quinta-feira passada, e a do Sensus, cujo último dia de campo foi na sexta-feira.
Tags: 2010, eleição, ibope, infográficos, média móvel, pesquisa, sensus, vox populi
Dois em cada três eleitores dá notas entre 8 e 10 ao governo Lula (Datafolha 26/03/2010). Mas concordar com a avaliação do governo não implica preferir o mesmo presidenciável. Candidata do presidente, Dilma Rousseff (PT) só tem mais intenção de voto do que José Serra (PSDB) entre os eleitores que dão nota 9 ou 10 ao governo. O tucano é o preferido entre quem dá nota 8 ou inferior à atual gestão do Palácio do Planalto (com exceção de quem dá nota 1).
A disputa pelo voto de quem dá nota 8 é a mais imediata entre a petista e o tucano. Eles representam 22% do eleitorado total, e estão mais divididos do que os demais grupos de eleitores: 36% votam em Serra, 31% preferem Dilma, 8% escolhem Ciro Gomes (PSB), 7% vão de Marina Silva (PV), 5% anulam (ou votam em branco) e 13% estão indecisos.
Entre os que dão nota 8 até 4, a vantagem do tucano é inversamente proporcional à avaliação do governo: pior a nota, maior a intenção de voto de Serra. Dilma, por sua vez, segue a proporção inversa: só tem eleitores entre quem dá nota 5 ou maior ao governo, e quanto maior a nota, maior sua intenção de voto.
Os esforços de identificação entre Lula e sua candidata podem surtir efeito mais rapidamente entre quem dá nota 10 ao governo. Dilma tem 37% entre eles, dez pontos a mais do que Serra, mas tem chances de crescer um pouco mais nesse eleitorado porque há ainda 11% de indecisos entre eles.
Como se pode ver pelos gráficos abaixo, Dilma tem uma concentração muito maior do que Serra entre os eleitores que avaliam muito bem o governo Lula. Fica clara a sua dependência do presidente e da boa avaliação de que desfruta neste momento.
Tags: 2010, Ciro, datafolha, Dilma, eleição, infográficos, Lula, Marina, pesquisa, Serra
(texto publicado na edição impressa de 29/03/2010 de O Estado de S.Paulo)
Do total do eleitorado, 76% avaliam que o governo Lula é bom ou ótimo, segundo o Datafolha. É o mesmo percentual de dezembro de 2002, que dava a dimensão da expectativa em relação ao futuro governo. Se Lula está entregando o que a maioria dos eleitores esperava, não se pode dizer o mesmo de sua candidata à sucessão, Dilma Rousseff (PT).
A ministra patina no eleitorado-chave para sua candidatura: entre os 76% que aprovam o governo, ela oscilou de 35% para 33% no último mês. E está tecnicamente empatada com José Serra (PSDB), que cresceu de 27% para 32% nesse segmento. Se não ganhar os simpatizantes do governo, Dilma terá poucas chances de se eleger.
Serra lidera por ampla margem entre os que julgam o governo Lula regular. Desde dezembro, o tucano subiu de 46% para 51% nesse grupo, que representa 20% do eleitorado. Nesse campo Dilma tem tão poucas possibilidades (9%) quanto Ciro Gomes (10%) e Marina Silva (10%). Os 4% que desaprovam o governo Lula também têm preferência por Serra (48%).
Logo, ou Dilma reverte a atual tendência entre os que aprovam o governo, ou pode morrer na praia. Nada menos do que 25 pontos dos 27% de sua intenção vêm desses eleitores. Serra, por sua vez, conta com 10 pontos de seus 36% de intenção de voto entre os que dizem que o governo é “regular”.
Mantida alta aprovação de Lula, a única possibilidade de sua candidata vir a sucedê-lo é “roubar” de Serra eleitores pró-governo. Para ultrapassar o tucano além da margem de erro, Dilma precisaria tirar 10 pontos de Serra nesse segmento e chegar a pelo menos 43% dos pró-Lula. Aí o placar geral ficaria 35% a 29% em favor da petista.

Mas não é fácil chegar a 43% entre os eleitores governistas. Nem mesmo Lula conseguiu a totalidade dos votos de quem o aprovava. Em 2006, quando disputava a reeleição, o presidente chegou, no final do 1º turno, a 80% da preferência entre os que apoiavam seu governo.
Isso porque há gradações na aprovação. Quanto mais enfático o apoio, maior a transferência de voto. Os eleitores que mais tendem a votar no candidato governista são os que avaliam o governo como “ótimo” ou que dão nota 8 ou superior à administração.
Infelizmente, na maioria das vezes os institutos de pesquisa agregam as respostas “ótimo” e “bom” em um só percentual e perde-se a informação sobre a intensidade da aprovação.
Tags: 2010, datafolha, Dilma, eleição, infográficos, Lula, pesquisa, Serra
Já há alguns anos, o site norte-americano Real Clear Politics (RLP) vem fazendo uma interessante cobertura política e eleitoral nos EUA. Seus editores compilam o que há de mais importante e criam sínteses analíticas para os leitores. Essa fórmula se mostrou especialmente eficiente quando aplicada às pesquisas de opinião pública, porque consegue resumir em um único número médio os resultados mais recentes.
A comparação da média calculada pelo RLP com o resultado das eleições para presidente de 2008 mostra a acurácia do método desenvolvido pelo site. O objetivo da média RLP é eliminar oscilações fora da curva entre um instituto e outro, normalizar os dados e filtrar a quantidade assombrosa de pesquisas que surge em uma eleição presidencial norte-americana.
No Brasil, alguns estudiosos experientes das pesquisas de opinião, como Fátima Pacheco Jordão, vêm advogando uma adaptação dessa metodologia às nossas sondagens eleitorais. O pesquisador do Iuperj Marcus Figueiredo desenvolveu um estudo com vários métodos de cálculo de tendência (polinominais, logarítimico, potenciais) e apresentou um resumo no mais recente congresso da Abep (Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa).
Apresento, abaixo, um gráfico de tendências elaborado a partir das médias móveis das três pesquisas mais recentemente divulgadas. Como a frequência com que são feitas as sondagens no Brasil é muito inferior à norte-americana, tive que limitar a média a três pesquisas para evitar que o intervalo entre elas superasse um mês.
Como sempre acontece quando se aplica uma média, as oscilações das curvas tornam-se muito menos dramáticas. Isso aplaina picos e vales das intenções de voto. Pelo seu efeito calmante, não é muito bom para produzir manchetes, mas favorece uma análise mais desapaixonada das tendências eleitorais.
As linhas pontilhadas coloridas representam as médias de intenção de voto dos candidatos. Os pontos coloridos isolados são os resultados das pesquisas dos quatro principais institutos.
O gráfico mostra dois movimentos em duas fases distintas. Na primeira delas, Dilma Rousseff (PT), ao tornar-se mais conhecida como candidata do governo, conseguiu reduzir a distância que a separava de José Serra (PSDB) a quase um terço, entre meados de dezembro e fins de janeiro: de 21 pontos para 7,7 pontos, na média. Parte de seu crescimento saiu de intenções de voto do tucano.
De fevereiro até agora, a tendência mudou. Serra conseguiu, sempre considerando-se a média, sustentar sua intenção de voto em torno de 34%. Ao mesmo tempo, o crescimento da média de Dilma desacelerou significativamente, o que levou a distância média entre tucano e petista cair pouco, para 6%. Hoje, a intenção média de voto de Serra é 34,3%, e a de Dilma, 28,3%.
A terceira linha, em verde, mostra de onde saiu a maior parte dos votos conquistados pela petista: de Ciro Gomes (PSB) e dos eleitores sem candidato (que pretendem votar em branco, anular ou que não souberam responder). A média desse consolidado tem mostrado uma queda persistente ao longo de todo o período analisado: caiu 10 pontos, de 39,7% em novembro para 29,7% entre março.
Marina Silva (PV) não entrou no gráfico porque sua média tem se mantido estável, sem ganhar nem perder eleitores de modo a constituir uma tendência.
O método de análise por médias móveis ainda precisa ser testado no Brasil. O principal problema é o pequeno volume de pesquisas divulgadas. As diferenças de metodologia entre institutos não é impeditiva: não é porque a marca do termômetro é diferente que a febre do paciente vai mudar. Esta eleição é uma boa oportunidade para testar as médias móveis. É o que pretendo fazer, sem abrir mão das abordagens mais ortodoxas.
…
PS: Você encontrará outros gráficos, com vários tipos de visualização dos resultados das pesquisas eleitorais, aqui.
Tags: 2010, eleição, infográficos, pesquisa
Dilma Rousseff (PT) consolidou-se no eleitorado cativo do seu partido, mas parou de crescer. José Serra (PSDB) manteve a liderança e vai começar sua campanha com os ânimos renovados pela diferença de nove pontos percentuais em relação à principal adversária. Todas as pesquisas mostram que a eleição deve ser polarizada entre os dois, com Ciro Gomes (PSB) e Marina Silva (PV) em papéis secundários.
O gráfico abaixo mostra os resultados de todos os principais institutos. A linha tracejada representa a média móvel das últimas três pesquisas. Nesta fase da campanha, em que a grande maioria dos eleitores ainda não consegue nem citar um candidato presidencial espontaneamente, as tendências são mais relevantes do que as flutuações pontuais. Os valores dentro dos círculos são os divulgados pelos institutos. O raio da circunferência corresponde à margem de erro.
Primeiro estágio
Dilma deu um salto entre dezembro e fevereiro, à medida que ficou claro para os simpatizantes do PT que ela é a candidata do partido. Ela conseguiu galvanizar esse eleitorado cativo e chegou ao patamar histórico de Lula no mês de março. Mas a pesquisa mostra que para ir além dos 27% a que chega agora, ela terá um terreno mais difícil, o do eleitorado “independente”.
Resiliência tucana
Serra mostrou resiliência: de dezembro a fevereiro, o governador paulista caiu de um patamar próximo aos 40% para uma faixa pouco acima de 30%. Voltou agora para 36%. Isso mostra que ele se beneficia pelo fato de ser o mais conhecido dos presidenciáveis. Bastou aparecer em um programa nacional de TV (Datena) se afirmando como candidato para recuperar parte da intenção de voto perdida no período que antecedeu o lançamento de sua candidatura.
Prestidigitação e salto alto
A pesquisa também joga água fria nas prestidigitações eleitorais que pregavam uma ultrapassagem iminente de Dilma sobre Serra. Embora o pano de fundo, dada a popularidade de Lula, seja o de uma eleição governista, não será calçando saltos altos que os petistas conseguirão eleger sua candidata.
Dilma tem um adversário que sai de um patamar bem mais alto do que partiu na eleição de 2002. Serra tem 36% agora, contra os 22% de oito anos atrás. E a recuperação do tucano, nesse momento, vai energizar o lançamento de sua candidatura, previsto para 10 de abril.
Quem define a eleição
O eleitorado que não é nem cativo do PT (entre 1/4 e 1/3 do total), nem francamente oposicionista (outro 1/3 ou 1/4) é quem vai decidir a eleição. Esses cerca de 40% de “independentes”, na sua maioria, aprovam o governo Lula. Mas não será apenas porque o presidente disse que Dilma é sua candidata que automaticamente decidirão votar nela. Apesar de poderem ser convencidos disso, esses eleitores estarão também abertos aos argumentos de Serra. Por isso que existe campanha, e ela só se define no dia da eleição.
Câmbio no Sul
Sem ter acesso aos relatórios completos desta pesquisa Datafolha, o que só deve ocorrer nesta segunda-feira, é difícil determinar as causas exatas das oscilações das intenções de voto dos candidatos. Mas chama a atenção que grande parte da recuperação de Serra tenha se devido a um salto de 10 pontos percentuais, de 38% para 48%, na região Sul. É provável que a campanha de Dilma reforce a agenda da candidata nesses Estados nas próximas semanas.
PMDB em alta
Outra consequência da pesquisa Datafolha é que o cacife do PMDB volta a crescer. Com Serra na frente, é essencial para o PT somar o tempo de TV dos peemedebistas ao da sua candidata. Os líderes do PMDB sabem disso e ficarão, agora, em uma posição de força na hora de negociar espaço não apenas na chapa de Dilma, mas em postos neste e no futuro governo (seja ele de quem for).
Grid de largada
O Datafolha volta a mostrar a grande dificuldade que Ciro Gomes e Marina Silva enfrentarão para conseguir entrar de fato na disputa. Apenas um imprevisto (e eles acontecem) poderia lhes dar chances reais nesse páreo. Serra larga na frente. Dilma corre atrás dos independentes.
Esse é o grid de largada da campanha presidencial de 2010. Ainda tem muito chão pela frente.
…
A pesquisa Datafolha foi realizada entres os dias 25 e 26 de março, com 4.158 eleitores, em todas as regiões do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Foi registrada no TSE com o número de protocolo 6617/2010.
Tags: 2010, Ciro, datafolha, Dilma, eleição, infográficos, Marina, pesquisa, Serra
Diferentemente das pesquisas dos institutos Datafolha e Vox Populi em 2010, o Ibope não identificou queda na intenção de voto de José Serra (PSDB) na pesquisa contratada pela Confederacão Nacional da Indústria (CNI) e divulgada nesta quarta-feira. Os pesquisadores foram a campo entre os dias 5 e 10 de março.
No cenário mais provável, Serra mantém a liderança, com 35% das intenções de voto, contra 30% de Dilma Rousseff (PT). São seguidos por Ciro Gomes (PSB), com 11%, e por Marina Silva (PV), com 6%. Os eleitores sem candidato somam 18% -são os que pretendem anular, votar em branco ou que não souberam responder. A margem de erro máxima é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.
No gráfico abaixo, com os resultados de todos os institutos, nota-se que desde dezembro a intenção de voto do candidato tucano apresenta uma tendência de queda. Segundo o Datafolha, Serra caiu de 37% para 32%. E, pelo Vox Populi, a queda foi de 39% para 34%. O Sensus não mostra queda do tucano porque já indicava o candidato do PSDB com 32% desde novembro.
Já na comparação das últimas pesquisas do Ibope, Serra mantém-se no mesmo patamar de intenção de voto, oscilando dentro da margem de erro: de 38% em novembro, para 36% em fevereiro e 35% em março.
Ao mesmo tempo, a tendência de crescimento de Dilma é unânime entre os quatro institutos. Os 30% alcançados pela petista na pesquisa mais recente, do Ibope, indicam que ela continua crescendo e atingiu o patamar histórico dos candidatos a presidente do PT (leia-se Lula) em março.
A diferença de tendência de Serra no Ibope em comparação aos outros institutos é pequena mas consistente. Cabe dentro da margem de erro e pode, portanto, ser casual. Ou pode ser provocada por diferenças metodológicas, seja na maneira de abordar o eleitor, seja no desenho da amostra selecionada para representar o eleitorado brasileiro.
Se a diferença fosse apenas em comparação ao Datafolha, ela poderia ser explicada por um instituto fazer pesquisas domiciliares e outro abordar o eleitor na rua (saiba mais sobre isso lendo outra nota deste blog). Mas o Vox Populi também faz suas pesquisas com entrevistas na casa do eleitor. Logo, a diferença pode ser tributada ao acaso ou ao desenho da amostra e execução da pesquisa.
Outras “explicações” vão se basear nas declarações reiteradas do presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, segundo as quais Serra será eleito presidente, porque “o brasileiro não é pau mandado” e não votará em Dilma apenas por causa da popularidade de Lula. A aposta do dirigente do Ibope é isso, apenas uma aposta. É difícil acreditar que possa ter contaminado as pesquisas do instituto.
Tags: 2010, Ciro, CNI, Dilma, eleição, ibope, infográficos, Marina, pesquisa, Serra
São cinco eleições presidenciais polarizadas entre PSDB e PT, entre PT e PSDB. Mas a análise de cada uma delas mostra que a história nunca se repete de forma idêntica. Olhar para um momento da campanha eleitoral e, a partir dele, tentar fazer previsões para o futuro é um exercício tão científico quanto a quiromancia. Em eleições e, portanto, em pesquisas eleitorais, o passado não é espelho do futuro.
O gráfico abaixo mostra o percentual de intenção de voto dos candidatos a presidente tucano (azul) e petista (vermelho) nas eleições de 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010, sempre nos meses de março e maio, segundo o Datafolha.
O percentual de Dilma Rousseff (PT) em 2010 é muito semelhante aos do candidato do seu partido, na mesma fase da campanha, em 1994 e em 2002. Em ambas as eleições, Luiz Inácio Lula da Silva chegou a um patamar próximo de 30% em março e cresceu para mais de 40% dois meses depois. Mas com desfechos opostos: uma ele perdeu, a outra ele ganhou. Um petista poderia olhar para o passado e dizer que Dilma vai repetir o Lula vitorioso de 2002. Um tucano diria que ela fará como Lula em 1994: subir antes da hora para cair na reta final.
Já o percentual de José Serra (PSDB) é maior do que o da maioria dos presidenciáveis tucanos nessa época da eleição em anos anteriores. Só perde para o de Fernando Henrique Cardoso em 1998. Um petista olharia o gráfico e poderia arriscar que, assim como em 2002, o tucano tende a continuar caindo até ser ultrapassado por Dilma. Já um militante do PSDB enxergaria uma repetição de 1998, quando FHC saiu de um patamar alto, teve uma inflexão no meio do ano, mas terminou eleito no 1º turno.
Como dizem os estatísticos, “os números, bem torturados, revelam qualquer coisa”. Especialmente quando se trata de fazer projeções. O gráfico mostra apenas que:
1) o candidato do PT costuma sair de um patamar de pelo menos 25% ou 30%, por ser o partido com mais simpatizantes no país;
2) diferentemente do adversário petista, a velocidade inicial do candidato tucano depende do seu grau de conhecimento pelo eleitorado, como se pode ver pelos percentuais de FHC antes e depois de ser presidente (e como se vê pelos percentuais de Serra e Aécio Neves nesta eleição);
3) maio costuma ser um mês bom para os candidatos do PT, mas isso estava associado a uma piora da aprovação dos governos tucanos nessa época do ano; não há garantia de que a “regra” valerá para 2010, especialmente com Dilma fora do governo e ainda sem palanques eletrônico e físico;
4) os percentuais de intenção de voto são voláteis: nem sempre quem estava na frente nesta época do ano acabou eleito, tampouco todos os que cresceram no primeiro semestre sustentaram essa tendência na reta final da campanha.
Não sou candidato, mas prometo: farei uma previsão definitiva sobre o resultado da eleição assim que os votos tiverem sido contados.
Tags: 2010, datafolha, eleição, infográficos, pesquisa
Em 1998, as pesquisas de ponto fluxo feitas pelo Datafolha detectaram com mais rapidez o crescimento da candidatura de Mario Covas (PSDB) ao governo de São Paulo do que as pesquisas domiciliares. Ao ponto de surpreender assessores tucanos que já estavam para jogar a toalha na disputa.
Em 2008, o fenômeno se repetiu, dessa vez no Rio de Janeiro: as pesquisas fetas na rua apontaram a ultrapassagem de Fernando Gabeira (PV) sobre Marcelo Crivella (PRB) antes que as feitas nas casas dos eleitores. ”Isso aconteceu porque nossas pesquisas são domiciliares e as do Datafolha são feitas na rua, o que dá um resultado mais rápido”, explicou Márcia Cavallari diretora do Ibope, à jornalista Consuelo Diegues na edição de março de 2010 da revista Piauí.
Márcia expôs o que muitos analistas e pesquisadores intuíam: o indivíduo que vai à rua, que trabalha e que tem contato com um grupo mais heterogêneo de pessoas tende a tomar decisões eleitorais antes daqueles que ficam em casa, restritos ao ambiente doméstico. Talvez por ter mais acesso a informação, por discutir mais política ou por ser um formador de opinião do ambiente familiar, esse eleitor “rueiro” é um termômetro que mede câmbios de humor do eleitorado com antecedência.
Como as pesquisas do Datafolha são feitas exclusivamente em pontos de fluxo de pessoas, o instituto tende a refletir a opinião do eleitor da rua. Já o Ibope migrou de um sistema puramente domiciliar para um sistema misto, mas no qual a maioria das entrevistas ainda é feita na casa das pessoas. Quando realizada durante a semana, a visita do pesquisador tende a ser recebida por eleitores que não trabalham fora. Isso dá uma diferença nos resultados, pequena, mas perceptível.
Tome-se como exemplo a evolução da intenção de voto para presidente da República. A mais recente pesquisa Ibope, feita antes do Carnaval, parece estar um tanto fora da curva, quando comparada às pesquisas Vox Populi e Datafolha imediatamente anterior e posterior (é o penúltimo ponto das curvas dos candidatos no gráfico acima). A diferença é pequena e admissível dentro da margem de erro. A confirmação disso teremos no começo desta semana, quando a nova pesquisa Ibope for divulgada.
Se ela apontar uma a subida de Dilma Rousseff (PT) e a queda de José Serra (PSDB), teremos a confirmação de que as pesquisas domiciliares estão “atrasadas” em comparação às feitas em ponto de fluxo. Nesse caso, será melhor comparar a nova pesquisa Ibope com a anterior do Datafolha, para evitar o risco de as análises apontarem um movimento que já ocorreu.
Tags: 2010, datafolha, eleição, ibope, infográficos, pesquisa
O sucesso da campanha de Barack Obama na internet em 2008 nos EUA criou uma comoção entre políticos para ampliar sua presença nas redes sociais como Twitter, Facebook, Orkut e afins. Em ano de eleição, essa moda está ainda mais popular. Candidatos e partidos montam não apenas seus sites institucionais, mas criam outras plataformas para fazer propaganda de si próprios ou, principalmente, atacar os adversários.
Uma das vantagens para os políticos e partidos ao usar as redes sociais e os fóruns de debates online é que eles podem veicular ataques anonimamente, atingindo o alvo sem necessariamente receber os efeitos negativos, o efeito bumerangue das críticas.
Por isso é interessante acompanhar a presença dos presidenciáveis nas redes sociais. Tome-se o caso do Twitter, o microblog que virou febre nos EUA e no Brasil.

Na semana passada, Dilma Rousseff (PT) teve o maior volume de citações no sábado e no domingo, por conta do congresso do PT que lançou sua candidatura.
No meio da semana, Ciro Gomes (PSB) ganhou espaço e ultrapassou os rivais graças à entrevista em que cutucou José Serra (PSDB) e que provocou notícias sobre sua eventual candidatura a governador de São Paulo.
Até que na sexta-feira, Marina Silva (PV) passou à ponta pela repercussão da série de entrevistas que deu na RedeTV!, na rádio CBN e no Programa do Ratinho. Ela é uma usuária recente: @silva_marina, com 5,7 mil seguidores apenas 166 posts.
Dos quatro presidenciáveis, o usuário mais frequente é Serra (@joseserra_): já postou 1.573 vezes. O candidato tem cerca de 170 mil seguidores e costuma publicar notas sobre temas variados ao longo do dia e, principalmente, durante a madrugada.
Tags: 2010, eleição, infográficos, internet
A diferença entre o potencial de voto e a rejeição dos pré-candidatos a presidente da República mostra por que a campanha tende à polarização entre José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT). Ou seja, entre o principal nome da oposição e a representante governista. Mais do que a intenção de voto estimulada, que a esta altura mostra mais a memória do eleitor sobre os candidatos do que uma decisão firmada, é o que o Ibope apresenta como “saldo” no gráfico abaixo que revela quem tem cacife hoje.

Ibope, fevereiro, 2010, potencial de voto
Serra aparece com saldo de 35%, mais do que o dobro do de Dilma, que fica em 14%. A vantagem do tucano sobre a petista se deve à combinação de dois fatores: é mais conhecido (só 8% não sabem quem ele é) e tem menor rejeição (29% não votam nele de jeito nenhum). O potencial de voto de 64%, ilustrado pela coluna azul, é consequência. Dilma ainda é desconhecida por 15% e rejeitada por 35% dos eleitores, resultando em um potencial de 49%.
Na prática, apenas esses dois favoritos têm “saldo”. Ciro Gomes (PSB), a linha auxiliar do governo, sobra com 2%: a soma dos eleitores que dizem hoje que votariam nele certamente ou poderiam votar (43%) é praticamente igual ao contingente daqueles que dizem que não votariam nele de jeito nenhum (41%). Talvez esse resultado fosse um pouco diferente se a pesquisa tivesse sido feita após o programa do PSB que foi ao ar esta semana em cadeia nacional de TV.
Marina Silva (PV), a linha auxiliar da oposição, tem déficit de 12%: mais eleitores dizem que não votariam nela (39%) do que declaram simpatia por sua candidatura (27%). Isso se explica porque a ex-ministra do Meio Ambiente é a menos conhecida dos quatro pré-candidatos: um terço do eleitorado nunca ouviu falar dela.
Esses números são a fotografia de um momento e devem mudar à medida que a campanha se desenrola. Na verdade, eles já mudaram em relação à pesquisa concluída pelo Ibope em 30 de novembro passado. Naquela ocasião, Dilma tinha um déficit de 8%. Seu saldo ficou positivo porque ela se tornou mais conhecida dos eleitores, e uma parte deles passou a admitir votar nela.
O saldo de Serra também teve uma oscilação positiva, de quatro pontos percentuais, puxada pela elevação do seu potencial de voto de 60% para 64% (a rejeição manteve-se estável).
Ciro fez o caminho inverso, seu saldo de 13% foi praticamente anulado pelo crescimento de sua rejeição desde novembro: ela aumentou de 33% para 41%. Marina, por fim, viu crescer seu grau de conhecimento e seu potencial de voto, cortando o déficit de 18% para 12%.
Deve-se analisar os dados das pesquisas como um filme. É da comparação dos fotogramas de cada momento que resultam as tendências. A tendência atual é a polarização entre Serra e Dilma. Nada impede, porém, que os ventos mudem e o cenário se transforme. Mas é preciso um fato novo, que quebre a inércia da polarização PSDB x PT.
…
A pesquisa, encomendada pelo Diário do Comércio da Associação Comercial de São Paulo, foi feita pelo Ibope entre 6 e 9 de fevereiro. Ouviu 2002 eleitores de 16 anos ou mais em 144 cidades de todas as regiões do Brasil. Se repetida 100 vezes, em 95 delas os resultados deveriam oscilar dentro de uma margem de erro máxima de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
Tags: 2010, eleição, ibope, infográficos, pesquisa, potencial de voto
“É o consumo, estúpido!” Essa parece ser a tradução, para o Brasil de 2010, da famosa frase do estrategista de campanha de Bill Clinton sobre o que define uma eleição: “The economy, stupid”. Naquele ano de 1992, o candidato democrata foi eleito presidente graças à recessão em que os republicanos haviam metido os EUA. E James Carville entrou para a história como o marqueteiro que enxergou o ponto fraco do governo Bush (pai) e soube explorá-lo.
A frase virou moda no Brasil porque a economia definiu todas as eleições presidenciais desde então. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso elegeu-se por ser identificado como o pai do Real e do fim da inflação. Em 1998, reelegeu-se na esteira da crise econômica mundial e da “ameaça” que a vitória de Lula representaria à estabilização da economia. Em 2002, desemprego e inflação em alta atrapalharam os tucanos e ajudaram o petista. Em 2006, a inclusão de milhões de pessoas ao universo do consumo, graças a programas como Bolsa Família, asseguraram o segundo mandato de Lula. E em 2010?
O ano da sucessão começa com a aprovação recorde do governo federal (72% de ótimo/bom) e pode terminar, se as previsões se confirmarem, com um crescimento entre 5,5% e 6,1% da economia do país. Mais: o consumo do setor privado, que vem aumentando a uma taxa anual média próxima a 5% desde 2004, deve se elevar ainda mais, e crescer 6,6%, segundo a MCM Consultores.
Popularidade e consumo em alta estão diretamente ligados. A comparação das séries históricas da taxa de aprovação do governo com a do Índice Nacional de Confiança (do consumidor) mostra um alto coeficiente de correlação entre eles: quando os consumidores estão confiantes, a popularidade de Lula cresce, e vice-versa.
Uma hipótese para explicar a oscilação combinada dessas duas variáveis é a ascensão social de nada menos do que 13% da população brasileira às classes econômicas A, B e C durante os seis primeiros anos do governo Lula. São 30 milhões de novos remediados. Essa história começa antes, na gestão tucana, mas quem faturou o resultado foi o petista.
Quando virou ministro da Fazenda, FHC encontrou uma sociedade onde apenas 37% dos brasileiros pertenciam às classes média e alta. Nos dois anos seguintes, o controle da inflação sozinho fez esse percentual crescer para 45%. O problema é que, nos sete anos que vieram depois, a ascensão social perdeu impulso. Fernando Henrique entregou o governo com 47% de brasileiros nas classes A, B e C.
Após ratear no primeiro ano do governo Lula, a inclusão de mais pessoas ao rol dos consumidores não parou mais de crescer, batendo em 60% em 2008, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (com dados da PNAD, do IBGE). E, nos pisos inferiores da pirâmide, o elevador também funcionou: a classe E foi reduzida quase à metade, de 27% em 2002, para 16% em 2008. Isto é: muitos daqueles que não chegaram à classe média ao menos conseguiram recuar uma letra no alfabeto do consumo e pular da E para a D (que oscilou de 26% para 24% da população). São os pobres que ficaram menos pobres.
É bom que se diga: classe econômica, no caso, é sinônimo de classe de consumo. Nada a ver com nível educacional, por exemplo. Ou seja, a ascensão descrita acima se deve à maior capacidade de compra, seja pelo aumento real do salário mínimo, seja pelos programas de distribuição de renda, seja pelo acesso ao crédito, seja pela redução temporária de impostos sobre bens de consumo duráveis, como automóveis e eletrodomésticos.
Na imagem criada pelo filósofo Marcos Nobre, o governo Lula ampliou o diâmetro do círculo da inclusão traçado no governo FHC, mas ainda deixou muita gente de fora, 4 em cada 10 brasileiros. Como explicar então a adesão de tantos excluídos ao lulismo? Pela perspectiva, real ou não, de passar para dentro do círculo. Quando apenas um vizinho seu melhora de vida, você pode sentir admiração ou inveja. Mas quando se dá conta que muitos vizinhos estão melhorando, você passa a sentir esperança de ser o próximo a se dar bem.
A perspectiva de mobilidade pode explicar porque tantas pessoas que ainda estão nas classes D e E apóiem o governo Lula. Otimistas, estão consumindo mais, sem se preocupar com a prestação que terão que pagar depois, pois o futuro promete ser melhor do que o presente. Entre janeiro e setembro de 2009, as compras de bens não-duráveis da classe D/E foram 17% maiores do que em 2008. Pães, iogurte, desodorante, água sanitária, detergente, entre outros produtos, lotaram suas cestas.
Esse otimismo é persistente, como demonstram os vários índices de confiança do consumidor divulgados em dezembro. O INC, um índice nacional elaborado mensalmente pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo, fechou 2009 com 146 pontos, numa escala que varia de 0 a 200. Acima de 100, é sinal de confiança. A marca de dezembro é recorde, superando em um ponto a de dezembro de 2008, antes da crise financeira mundial.
É sintomático que os consumidores mais confiantes sejam os emergentes da classe C. Entre eles o índice chegou a 156 pontos, mantendo-se à frente dos das classes A/B (142 pontos) e D/E (136 pontos). Muitos deles trocaram de geladeira e compraram um carro novo. Todas as classes de consumo demonstram desejo de consumir ainda mais em 2010 do que já consumiram em 2009.
Somem-se a esse otimismo os dados frios da economia: população ocupada aumentando, taxa de desemprego caindo, renda subindo, juros em queda e inflação sob controle. Todos são fatores que, aliados à popularização do crédito, estimulam o consumo e, com ele, a inadimplência: ela já atinge 20% dos consumidores paulistanos. Mas não há sinais de que haja uma bolha prestes a estourar antes das eleições.
O mais provável é que a febre consumista continue mantendo aquecida a popularidade do presidente. Não seria surpresa se ela aumentasse ainda mais ao longo de 2010. A disputa será, então, pelo imaginário desse eleitor-consumidor. O presidenciável que demonstrar maior capacidade de manter os carrinhos de supermercado cheios, os impostos sobre bens duráveis reduzidos e a perspectiva de mover mais gente para dentro do círculo de inclusão deverá ser eleito o sucessor de Lula.
Tags: 2010, consumo, eleição, infográficos
O PT entra no ano eleitoral de 2010 como a maior popularidade de sua história. Um em cada quatro eleitores brasileiros diz ter preferência pelo Partido dos Trabalhadores. É o maior percentual de simpatia alcançado por qualquer agremiação partidária nacional nos últimos 20 anos. E a razão desse neopetismo é a boa avaliação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Levantamento feito pelo Estado com base em pesquisas Datafolha desde 1989 mostra que nas últimas duas décadas o PT multiplicou por quatro a sua área de influência: saiu de 6% para 25% de preferência entre os eleitores brasileiros. Mas foi um caminho com muitos altos e baixos. Nem sempre a popularidade se transformou em votos para a legenda.
Na primeira década após a retomada das eleições diretas para presidente da República, o PT foi o maior favorecido pela dramática perda de popularidade do governo Collor. O impeachment do presidente que havia derrotado Lula em 1989 criou uma imagem para parte do eleitorado de que os petistas eram fiscais da corrupção. A sigla chegou a 17% de preferência em dezembro de 1992, tecnicamente empatada com o PMDB (19%), então o partido mais popular do país.
Sob efeito das manifestações de rua dos cara-pintadas e com esperança renovada na política, mais brasileiros do que em qualquer outra época recente declaravam ter simpatia por alguma agremiação partidária, fosse ela qual fosse: 58%.
O período seguinte, porém, foi de refluxo para todos os partidos, com exceção do PSDB. A recusa em participar do governo de transição de Itamar Franco e a aposta no fracasso do Plano Real custaram ao PT uma regressão a apenas 9% das preferências, em dezembro de 1994. A partir daí, os tucanos se consolidariam como a terceira legenda em popularidade, embora não tenham conseguido usar os bons anos do governo FHC para ultrapassar a barreira dos 6% de preferência.
Após a reeleição de Fernando Henrique Cardoso e a imediata desvalorização do real, em 1999, o PT voltou a crescer no imaginário do eleitorado. E, pela primeira vez, ultrapassou o PMDB na preferência partidária. Após alguns solavancos nos meses seguintes, o partido entrou no novo século com 21% de citações, e dez pontos a mais que o segundo colocado.
A eleição de Lula em 2002 e a posterior implantação de programas populares de combate à fome e disseminação do crédito renderam ao PT seu patamar mais alto de preferência até então, culminando com 24% de citações em dezembro de 2004. Aí vieram os escândalos de corrupção envolvendo o partido.
O Mensalão, em 2005, e os “aloprados” petistas em 2006, às vésperas do 1º turno da sucessão presidencial, fizeram despencar a popularidade do PT, que bateu em 16% em setembro daquele ano. Mas a desilusão dos eleitores foi tão grande que ninguém se beneficiou da queda. Nesse mesmo mês, dois em cada três brasileiros diziam não ter preferência partidária, um novo recorde de desinteresse pela política.
Desde então, o segundo mandato de Lula foi marcado, no imaginário do eleitor, por uma onda econômica que permitiu a diminuição do desemprego, o aumento exponencial do consumo das classes C e D e a superação da crise financeira mundial de maneira inédita pelo Brasil. Os recordes de popularidade do presidente e de seu governo foram acompanhados por uma recuperação da preferência pelo PT.
O partido parece ter ficado imune ao desgaste de novas acusações de corrupção. Cresceu nove pontos em três anos e bateu o recorde de preferência partidária das últimas duas décadas. Foi ajudado pela inércia dos adversários. O PFL, mesmo virando DEM, viu sua preferência, em 20 anos, minguar de 4% para 1%. O PSDB não passou de 8%, mesmo patamar do PMDB.
Embora seja um capital importante, o crescimento não é garantia de sucesso automático nas eleições de 2010. Como a história recente demonstra, anos de eleição presidencial não têm sido especialmente bons para a popularidade do PT, ao contrário.
Os neopetistas são os mais entusiasmados com o govenro Lula, mas muitos mostram um alto grau de desconexão com o partido. A dez meses da eleição, só 14% dos que declaram preferência pelo PT afirmaram espontaneamente que pretendem votar na petista Dilma Rousseff para presidente. Depois de serem apresentados aos nomes dos presidenciáveis, esse percentual subiu para 44%. Ainda assim, há 23% que preferem o tucano José Serra, 13% que vão de Ciro Gomes (PSB) e 8% que citam Marina Silva (PV).
Entre agosto e dezembro, a intenção de voto dos petistas na ministra cresceu de 8% para 14% na espontânea, e de 36% para 44% na estimulada. Para Dilma, ainda há mais da metade de simpatizantes do partido a conquistar. Eles são vitais para suas pretensões eleitorais, pois são o caminho mais rápido para ela incrementar sua posição nas pesquisas.
2012
2011
2010
2009