Nem Obama nem Romney, o maior acerto da eleição norte-americana foi de Nate Silver. O blogueiro do New York Times acertou todas. Especialista em modelos estatísticos eleitorais, Silver previu corretamente todos os Estados com vitória democrata ou republicana. Acertou que Obama venceria por dois pontos de diferença no voto popular e, mais impressionante ainda, acertou na casa decimal por quanto ele ganharia na Flórida.
Nada mais justo do que citar a síntese de Silver para a vitória de Obama: “Foi ampla mas rasa”. O atual presidente ganhou em oito dos nove “campos de batalha” – os Estados que oscilam entre os partidos Republicano e Democrata a cada eleição. Foi nesses lugares que as duas campanhas mais despenderam esforço, tempo e dinheiro. Obama ganhou, mas por margens muito apertadas: meio ponto na Flórida, 2 pontos em Ohio, 3 em Virgínia.
O placar de 332 a 206 votos no colégio eleitoral é enganoso. Reflete muito mais o arcaísmo do sistema norte-americano de escolha do presidente – no qual o vencedor leva todos os delegados de cada Estado – do que uma vitória avassaladora de Obama. Os EUA estavam e continuam divididos: a costa reelegeu o presidente contra a vontade do interior. As metrópoles derrotaram as pequenas cidades e os subúrbios ricos.
Obama ganhou em todas as maiores cidades dos EUA, e por margens muito amplas: 70 pontos em Manhattan (Nova York), 58 pontos em Boston, 50 pontos em Chicago, 41 pontos em Los Angeles e surpreendentes 24 pontos em Miami. Mesmo nos Estados onde perdeu, o atual presidente foi o mais votado nas cidades principais, como Atlanta na Geórgia e Dallas no Texas. As maiores cidades onde Romney venceu foram Houston e Phoenix.
Na média, o democrata teve 40 pontos de margem nas grandes cidades e a metade disso nas cidades médias. Nas cidadezinhas que ocupam todo o miolo dos EUA, o republicano abriu vantagem de 14 pontos, quase o dobro da obtida pelo correligionário John McCain em 2008. Nos subúrbios ricos, Romney bateu Obama por dois pontos – a mesma margem pela qual o democrata havia vencido nessas áreas vizinhas às metrópoles quatro anos antes.
Esse aparente determinismo geográfico do voto reflete as diferenças sociodemográficas ao longo do território dos EUA. As metrópoles têm mais diversidade étnica e cultural do que as pequenas comunidades interioranas. Entre as minorias étnicas Obama destruiu Romney: ganhou por 87 pontos entre negros, por 47 entre asiáticos e 44 entre hispânicos.
Entre os brancos, porém, Romney conseguiu vantagem maior do que a obtida por McCain quatro anos atrás: 20 pontos mais que Obama. Ou seja: dois anos e US$ 6 bilhões depois, os EUA saem da campanha eleitoral mais divididos do que entraram.
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O brasileiro é antes de tudo um otimista. Ele acredita que as coisas vão melhorar, sempre. Se estão ruins, ele aposta na virada. Se já estão boas, ele crê que vão melhorar ainda mais. Essa característica se acentuou nos últimos tempos, fruto da percepção da maioria da população de que andou para frente. O otimismo é, portanto, uma projeção do passado recente. Mas não precisávamos exagerar.
Segundo pesquisa do Gallup, o Brasil é onde há proporcionalmente menos pessoas “sofrendo” no mundo. A sondagem foi feita em 146 países, ao longo de 2011. Juntos, eles representam mais de 95% da população mundial. Computadas as dezenas de milhares de entrevistas, o instituto concluiu que só no Brasil menos de 1% da população se enquadra na categoria “sofrimento”.
Para comparar, na média mundial, 13% estão “sofrendo”. Em 18 países, pelo menos 1 em 4 habitantes está nessa situação. São aqueles pintados de verde claro no mapa que ilustra este texto. O pior é a Bulgária: 45% da população está “sofrendo”.
Se não “sofrem”, como estão os brasileiros?
Segundo o Gallup, 59% estão “prosperando”, e os demais 41%, “batalhando”. O Brasil é o 9º colocado na proporção de “prósperos”, empatado com a Áustria. Só perde para Dinamarca (74% “prosperando”), Holanda e Canadá (66% ambos), Israel e Suécia (65%), Austrália e Finlândia (64%) e, por pouco, para a Nova Zelândia (60%).
Segundo o instituto, há proporcionalmente mais brasileiros “prosperando” do que há norte-americanos (56%), sul-coreanos (50%), britânicos (50%), franceses (46%), alemães (42%) e japoneses (26%). Todas essas nações aparecem muito à frente do Brasil tanto no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) quanto no da renda per capita.
Mesmo em comparação a outros países ditos emergentes o Brasil aparece muito mais bem colocado na pesquisa. Tem 37 pontos porcentuais de “prosperidade” a mais do que a Rússia (22% “prosperando”, 58% “batalhando” e 19% “sofrendo), 41 pontos mais do que a China (18%, 70% e 12%, respectivamente) e inacreditáveis 48 pontos a mais do que a Índia (11%, 66% e 24%).
O Brasil é, portanto, um ponto muito fora da curva. O que explica esse resultado literalmente excepcional? O otimismo.
Para compreender o porquê, só entendendo com funciona a metodologia do índice de bem-estar. Um dos maiores institutos do mundo, o Gallup desenvolveu seu indicador a partir da tradicional escala Cantril de auto-avaliação, e vem usando-o há décadas.
Pioneiro no estudo da opinião pública, Hadley Cantril desenvolveu um método que se tornou referência. Ele permite a cada indivíduo estabelecer sua própria escala de valores sem, todavia, abrir mão da capacidade de compará-las. A “escada de Cantril” também elimina o viés provocado pelas diferenças de significado que o mesmo conceito tem para diferentes pessoas, ou que uma expressão tem em diferentes idiomas.
O grau de “sofrimento” no indicador de bem-estar do Gallup não é fruto de uma pergunta direta do entrevistador, mas de uma combinação de resultados. O entrevistado é convidado a imaginar uma escada que vai de 0 a 10, onde o topo representa a melhor condição de vida possível, e o zero, a pior. Em seguida, o pesquisador pergunta em qual degrau o entrevistado se encontra e em qual degrau ele estará daqui a cinco anos.
A divisão em três grupos (“prosperando”, “batalhando” e “sofrendo”) é obtida pela combinação das respostas. Para entrar no grupo da “prosperidade”, o entrevistado tem que estar hoje no degrau 7 ou acima dele, mas não só. Ele tem também que enxergar um futuro melhor, ou seja, deve projetar estar no mínimo no degrau 8 daqui a cinco anos. Já para cair no grupo “sofrendo”, o entrevistado tem que se ver em má situação hoje (degrau 4 ou inferior) e achar que o futuro permanecerá ruim (abaixo do 5º degrau). Quem não se encaixa em nenhuma dessas categorias está “batalhando”.
Os 59% de brasileiros classificados pelo Gallup como “prosperando” não estão hoje no topo da escada, nem a um passo de chegar lá. Estão concentrados entre o 7º e o 8º degraus. Porém, quando indagados onde estarão daqui a cinco anos, a grande maioria afirma que chegará ao último degrau, ou seja, à melhor condição de vida que pode imaginar.
Mesmo aqueles brasileiros que estão abaixo do 7º degrau acham que chegarão, no futuro próximo, ao topo da escada, ou muito perto disso. Quase ninguém acha que está mal (abaixo do 5º degrau) e vai continuar assim ou piorar. Por isso menos de 1% está “sofrendo”. Se essa auto-avaliação otimista dos brasileiros é exagerada, só saberemos daqui a cinco anos. Mas certamente é uma jabuticaba. Só tem aqui.
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E se a opção ideológica de cada um não for fruto apenas do livre arbítrio, mas uma tendência impressa em nossos genes? E se estivéssemos biologicamente programados a sermos conservadores ou liberais? A questão soa absurda e pode ser revoltante para os mais engajados, mas contém uma dose de fundamentação científica. Ao menos é o que sugere um estudo a ser publicado na próxima edição da centenária revista inglesa Philosophical Transactions of the Royal Society B.
Um grupo de biólogos, psicólogos e cientistas políticos norte-americanos submeteu suas cobaias humanas a uma bateria de testes para achar respostas a tais perguntas. Basicamente, os pesquisadores lhes mostraram uma combinação de cenas agradáveis e desagradáveis e mediram suas reações emocionais e cognitivas. Para isso, usaram múltiplos sensores, capazes de captar mudanças na atividade cerebral e até rastrear o mais sutil movimento dos olhos das pessoas pesquisadas.
O que eles descobriram é que as pessoas politicamente conservadoras reagiram com mais intensidade às imagens desagradáveis: seu olhar era mais fixo e demorado em fotos de feridas abertas ou de um banheiro sujo. Os politicamente liberais, ao contrário, dedicaram muito mais atenção e tempo às cenas aprazíveis, como gente brincando na praia.
“Literalmente, conservadores e liberais não enxergam as coisas da mesma maneira”, resume o principal autor da pesquisa, Mike Dodd, professor de psicologia da Universidade de Nebraska-Lincoln. E isso tem impacto, no mínimo parcial, sobre as inclinações político-partidárias de cada grupo -afirma um dos co-autores do estudo, o cientista político Kevin Smith.
Liberais e conservadores foram expostos a imagens de políticos dos partidos Democrata e Republicano, dos EUA. Consistentemente com a hipótese de que os conservadores reagem principalmente a estímulos negativos, eles tiveram uma reação fisiológica mais forte às fotos de conhecidos políticos democratas -supostamente seus adversários políticos- do que às dos rivais republicanos.
Previsivelmente, os integrantes do grupo liberal mostraram sinais fisiológicos mais intensos em resposta às imagens dos líderes democratas que -também supostamente- defendem pontos-de-vista semelhantes aos seus. Essa reação está de acordo com a observação de que os liberais reagem mais a estímulos positivos, ao contrário dos conservadores.
A conclusão seria que as pessoas com natureza conservadora são mais sensíveis aos problemas e tendem a confrontá-los com maior intensidade do que os naturalmente liberais. Na vida real, isso se traduziria em apoio a políticas que pretendem proteger a sociedade do que os conservadores percebem como ameaças, internas e externas. Daí defenderam intervenções policiais e militares mais duras, ou apoiarem restrições a imigrantes -enquanto os liberais advogam exatamente o oposto.
Se os autores estiverem corretos, a polarização política não seria consequência (apenas) da desinformação ou da má intenção, como os adversários partidários costumam se acusar uns aos outros. Ela seria um mecanismo biológico, desenvolvido durante o processo evolutivo dos humanos, para temperar reações exageradas de ambos os lados.
O medo pode ser evolutivamente útil em situações de risco real, aumentando as chances de sobrevivência dos tementes por forçá-los a se exporem menos ao perigo. Mas em situações normais, o excesso de temor pode ser paralisante e impedir um grupo de experimentar novos hábitos, de se adaptar a lugares diferentes, de mudar. Em suma, o medo pode tanto garantir a existência quanto retardar o seu desenvolvimento.
Se a seleção natural fez os humanos se dividirem em dois grupos biologicamente antagônicos, a política seria a resposta cultural para equilibrar esse antagonismo. E a alternância no poder, uma necessidade para evitar o atraso ou a auto-aniquilação pelo excesso de experimentalismo.
A teoria de Mike Dodd, John Hibbing e Kevin Smith se encaixa bem à política norte-americana, há mais de um século bipartida entre conservadores republicanos e liberais democratas. Nesse cenário preto e branco, os “cinzas” (eleitorado independente, que oscila de um lado a outro conforme as circunstâncias) costumam decidir a parada, definindo as eleições ora para cá, ora para lá.
Ela também ajuda a entender porque os republicanos fritam seus pré-candidatos durante as primárias. Os conservadores parecem mais preocupados em achar um anti-Obama, ou seja, o mais capaz de derrotar o que eles identificam como o mal (ou o problema), do que de eleger o que seria o seu líder ideal. É uma política pragmática, menos de auto-afirmação e mais de anulação do adversário.
O modelo político-biológico proposto pelos cientistas não funciona tão automaticamente assim no cenário partidário brasileiro. Nos últimos 18 anos, a polarização PSDB-PT reflete uma briga pelo poder entre duas alas que, ao menos na origem, estavam do mesmo lado que derrotou o que seria o grupo conservador, representado pela ditadura militar e seus apoiadores.
É provável que nem tucanos nem petistas concordem com essa descrição e atribuam uns ao outros a pecha de conservador e liberal (no jargão político brasileiro, são quase sinônimos). Mas ambos, PSDB e PT, foram, a seu tempo, vitais para promover mudanças na sociedade brasileira -o que é a antítese da definição de conservadorismo usada pelos autores do estudo.
Errada ou certa, simplista ou não, a hipótese do determinismo biológico na política evidencia ao menos que o problema está nos olhos de quem vê.
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Apesar de faltarem apenas 13 dias no calendário, 2011 está longe de chegar ao fim. É daqueles anos que -com a licença de Zuenir Ventura- não terminam quando acabam. As ondas verberadas nos últimos 12 meses ainda vão ressoar por muito tempo. 2011 é o ano em que a opinião pública ganhou voz: rompeu a virtualidade das redes sociais, e se materializou em marchas, ocupações e revoluções. Nenhum governante, democrata ou ditador, dormirá com a mesma tranquilidade de 2010.
Raras vezes uma ideia contaminou tanta gente em tantos lugares tão rapidamente. Entre a primavera na Tunísia e o outono na Rússia, centenas de milhares de pessoas abdicaram da segurança doméstica e foram às ruas gritar em árabe, grego, espanhol, inglês, francês e russo. Ocuparam praças e chacoalharam governos. Em comum, o desejo de se fazer ouvir, de expressar sua inconformidade e de mudar o estado das coisas.
Para os governos totalitários, sem válvulas de escape, foi um estouro de boiada. A multidão atropelou o que tinha pela frente. E, como mostra a revolução permanente no Egito, reprimida cada vez com mais violência pelos militares que tentaram tutelá-la, é quase impossível guardar o gênio de volta na lâmpada depois que ele sente o gosto de liberdade. Os cadáveres nas ruas do Iraque, Líbia e Egito testemunham que derrubar um regime é muito mais fácil do que construir uma democracia.
E mesmo para os governos democráticos, há uma crise de representatividade. Setores expressivos das sociedades grega, espanhola, inglesa, francesa, russa e norte-americana, entre outras, mostraram que não se sentem representados pela política tradicional, pelos partidos nem pelos respectivos parlamentos. Seus protestos, pacíficos ou incendiários, nasceram da desigualdade crescente, mesmo quando a falta de oportunidade econômica deu brecha ao oportunismo saqueador.
Em um dos melhores trabalhos de investigação jornalística dos últimos tempos, o jornal “The Guardian” conseguiu georreferenciar onde mora grande parte dos jovens que participaram dos saques e das revoltas em Londres e em outras cidades inglesas. A superposição entre pobreza, violência e alto desemprego juvenil não deixou dúvidas sobre o que eles tinham em comum.
A economia decadente explica, em grande parte, as rebeliões nos países europeus e nos Estados Unidos. Os “indignados” espanhóis e os ocupadores de Wall Street são de uma geração que percebe ter menos opções profissionais e alternativas de emprego do que a de seus pais. E que se ressente da lenta resposta dos mecanismos da democracia representativa.
Acostumados ao imediatismo das novas tecnologias de comunicação, os jovens excluídos se impacientam com as discussões parlamentares bizantinas, com o partidarismo estéril e com a sucessão de promessas sempre repetidas e nunca cumpridas. Sua ação é diretamente proporcional à inércia de seus representantes.
A economia recessiva é regra nos países chacoalhados pela vox publica, mas há exceções. Na Rússia, quem desafiou o regime, temperaturas abaixo de zero e foi gritar contra a perpetuação no poder de Vladimir Putin foi a nova classe média, que, ironicamente, se consolidou durante o seu interminável governo. O ex-espião saiu do frio e seus compatriotas emergentes entraram nele de peito e boca abertos.
Também no Chile, altos porcentuais de crescimento do PIB não impediram que os estudantes se organizassem e demonstrassem meses a fio contra o governo conservador de Sebastián Piñera, por uma reforma educacional. O presidente chileno demonstrou tanta inabilidade política e usou tamanha violência contra marchas pacíficas que praticamente unificou a opinião pública do país contra si.
E no Brasil? Houve marchas de fim-de-semana e invasão de reitoria. Faltaram, porém, volume de manifestantes, persistência nos protestos e radicalização que tornassem as manifestações da opinião pública brasileira comparáveis às árabes, europeias e norte-americanas -a ponto de provocar protestos de correspondentes estrangeiros sem notícia.
As pesquisas de avaliação de governo captam o silêncio da maioria da opinião pública e o traduzem em taxas de popularidade recorde para Dilma Rousseff. Também crescentes são a confiança do consumidor e o otimismo dos brasileiros quanto à sua situação financeira pessoal. Consumo em alta é igual a eleitor satisfeito, e o governo sabe disso. A fórmula funciona no curto prazo, mas é insuficiente para mudar um país. 2011 termina sem acabar para o mundo, nem para o Brasil e tampouco para Dilma.
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O ser humano é especialmente mal equipado quando se trata de calcular riscos. Ele tende a exagerar tudo o que parece comprometer sua segurança pessoal. Afinal, segunda vida só existe em videogame. Por isso, levanta muros, instala câmeras de segurança, prefere carros com airbag e compra armas, muitas armas.
Talvez seja a consequência de um processo de seleção natural: os precavidos foram bem sucedidos na sobrevivência e se reproduziram mais do que os espécimes com especial gosto por se arriscarem. Há 7 bilhões de razões a confirmar essa hipótese. Até por serem minoria, os valentes são motivo de admiração, tema de filme e objeto de homenagens póstumas.
Mas esse defeito de fabricação também leva o ser humano a minimizar perigos reais e a maximizar outros riscos nem tão prováveis assim. O fenômeno é especialmente complicado quando envolve a opinião pública. Dependendo de sua repercussão, um fato isolado pode desencadear um comportamento de manada que beira a histeria coletiva.
Desde a metade dos anos 90, os Estados Unidos vêm experimentando uma queda rápida e consistente na taxa de crimes violentos. A despeito dos filmes policiais de Hollywood, a percepção dos norte-americanos sobre o tema acompanhava o ritmo de queda das estatísticas criminais.
De 1992 até 2001, o porcentual daqueles que diziam que estavam acontecendo mais crimes violentos do que no ano anterior despencou de 89% para 43% da população, segundo o Gallup. Os EUA estavam ficando mais seguros e seus habitantes percebiam isso. Aí veio o 11/9.

Após os atentados terroristas, a sensação de insegurança dos norte-americanos se espalhou como gripe. E reverteu a percepção da opinião pública sobre a criminalidade no país. A partir de 2002, a cada ano mais norte-americanos começaram a dizer que os crimes violentos haviam aumentado em comparação ao ano anterior. Em 2010, essa parcela chegou a 74% da população. Ao mesmo tempo, a taxa de criminalidade violenta caiu quase pela metade.

A esse crescimento irracional de 72% na percepção da violência pelos norte-americanos, completamente desvinculado dos fatos, se pode chamar de medo genérico. Ele molda a opinião pública dos EUA não apenas na percepção da violência, mas nas consequências dessa mudança de atitude.
Entre os atentados terroristas de 11 de setembro e este ano, aumentou de 39% para 53% o porcentual dos norte-americanos que se dizem contra uma lei que proíba a venda e posse de armas semi-automáticas conhecidas como fuzis de assalto -aqueles usados por franco-atiradores malucos. A fatia dos contrários à proibição chega a 73% quando se trata da posse de armas de mão, como revólveres e pistolas. Ou seja, os fabricantes de armas lucram com o medo.
Como se vê, a realidade e sua percepção são coisas distintas. Vivem uma relação de amor e ódio, alternando momentos de união com grandes hiatos de separação. E é mais fácil dissociar uma da outra quando o assunto é segurança.
Quem já passou pela experiência sabe que a percepção individual de risco aumenta enormemente após um assalto. A sensação de perigo iminente nos dias posteriores ao trauma pode ser avassaladora. Uma notícia de grande impacto, ou uma sucessão delas, tem o efeito de um assalto sobre a opinião pública. Pode mudá-la profundamente.
À época da eleição de governador, a percepção era que, com as UPPs (a polícia dita pacificadora), o estado havia retomado o controle de porções do território do Rio de Janeiro antes dominadas pela criminalidade. A imagem simbólica dessa percepção foi a cena de dezenas de traficantes em fuga durante operação policial-militar no final de 2010. As estatísticas policias apontando queda dos homicídios complementaram essa percepção.
Desde então, uma juíza que punia com rigor o crime organizado no Rio de Janeiro foi assassinada por uma quadrilha de policiais, um deputado estadual ameaçado de morte dezenas de vezes anunciou que iria deixar o país e mais um jornalista foi morto enquanto retratava a violência do narcotráfico numa favela carioca.
Publicou-se também que as estatísticas policiais escondiam centenas de mortes violentas na rubrica “intenção indeterminada”, na qual cadáveres com múltiplas perfurações a bala não eram classificados como vítima de homicídio porque não se podia descartar a possibilidade de a pessoa ter se suicidado.
Na política, a percepção é a realidade. Se um político parece honesto e competente, aumentam suas chances de se eleger -independentemente de ele ser de fato honesto e competente. Mas, às vezes, a percepção se reconcilia com a realidade. Difícil é o casamento ocorrer em ano eleitoral.
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O feito hoje é uma lembrança desbotada, mas Barack Obama foi o presidente norte-americano eleito com maior margem nas últimas duas décadas. Com o “sim, podemos”, encheu os EUA de esperança. Porém, a inabilidade para lidar com a crise econômica herdada do governo George W. Bush minou a confiança da maioria dos norte-americanos na capacidade do seu presidente. E ameaça a sua reeleição.
Hoje, o que mais ajuda o democrata na corrida eleitoral é a incapacidade da oposição republicana de produzir um adversário vencedor.
“Será que Obama é capaz de exercer o cargo?” – essa é a pergunta subjacente à curva de popularidade do presidente desde a posse. Foi um escorregão de quase três anos ladeira abaixo, com dois leves e fugazes momentos de recuperação. O primeiro foi no fim de janeiro deste ano, provocado por seu discurso sinalizando uma guinada ainda mais ao centro do espectro político, que foi bem recebido pelos eleitores independentes. Durou pouco, porém.
Em maio, o assassinato de Bin Laden produziu um pico ainda mais curto de popularidade, que evaporou junto com os empregos e a confiança do consumidor norte-americano.
Obama bateu no fundo no começo de setembro. Desde então, o saldo de sua avaliação (% de “aprova” menos o % de “desaprova”, segundo o Gallup) tem estado consistentemente negativo em -10 pontos percentuais. A um ano da eleição, pode não parecer, mas isso é uma boa notícia para Obama. Pelo menos ele parou de cair antes de chegar ao nível de impopularidade de Jimmy Carter, o último democrata a não conseguir se reeleger.
A média móvel dos últimos 30 dias feita a partir do tracking diário do Gallup mostra que há chance de recuperação para Obama. Seu anúncio de retirada das tropas norte-americanas no Iraque foi bem recebido por 3 em cada 4 eleitores e produziu um soluço positivo em sua aprovação. Depois de meses de más notícias na área econômica, os indicadores de emprego começam a sugerir algum grau de recuperação. É insuficiente para Obama sair do vermelho, mas permite que diga para seus botões “sim, eu posso”.
A chave em qualquer eleição presidencial norte-americana é o eleitorado dito “independente”, aquele que não é republicano nem democrata. Para onde ele pende, vai a avaliação do presidente e as suas chances de reeleição. Desde Bill Clinton que a polarização se exacerbou na política norte-americana: eleitores democratas e republicanos ficam em extremos opostos da opinião pública, aumentando a importância relativa dos independentes.
No gráfico, eles são representados pelas curvas amarelas. Enquanto os democratas (em azul) e os republicanos (em vermelho) se afastam, os independentes convergem para a média (em verde). Se menos da metade deles aprova a gestão de Obama, a média geral do presidente fica negativa.
Isso significa que além de tentar estimular a economia, o emprego e o consumo, Obama deve fazer de tudo para agradar os independentes em seu discurso. Ou seja: mais concessões ao centro. Se serve de consolo, o candidato republicano, seja ele quem for, terá que fazer a mesma coisa, mas no sentido contrário.
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