O mundo nunca foi tão adolescente. A cada quatro terráqueos, um tem entre 10 e 24 anos. São 1,8 bilhão de pessoas nessa idade especial. Mas desde quando um marmanjo de 24 anos é adolescente? Num passado recente não era, mas passou a ser -ou melhor, não deixou de ser. E isso pode virar um problema. Segundo a revista científica “The Lancet”, a adolescência vem espichando a cada geração, nas duas pontas: a puberdade chega mais cedo, e a maturação do papel social dos jovens ocorre cada vez mais tarde.
Basta observar como tem avançado a idade média dos jovens ao terminar os estudos, com que conseguem seu primeiro emprego fixo, quando se casam, e com que as mulheres se tornam mães. Todos esses marcos do fim da adolescência foram adiados nas últimas gerações. As repercussões sociais dessa mudança são maiores do que nos damos conta. Daí o dossiê da “The Lancet”.
A palavra “adolescente” deriva do latim “adolescere”, que significa “crescer”, “desenvolver-se”. Adolescente é quem está crescendo, e adulto, quem já cresceu, já se desenvolveu. Mas o crescimento não se mede pelo número do sapato nem pelo comprimento da barra da calça ou da saia. É uma questão de amadurecimento, de andar com as próprias pernas sem a muleta dos pais.
A adolescência começa quando os hormônios da puberdade mudam a fisiologia e a fisionomia das crianças. É uma revolução que transforma todo o corpo, com repercussões do comportamento à capacidade cognitiva do cérebro. Jovens púberes, por exemplo, tendem a questionar regras, buscar novas experiências e tomar atitudes de risco com mais frequência que os impúberes.
O coquetel hormonal em ebulição tem impactos diretos sobre a mortalidade. O gosto por arriscar-se faz com que os adolescentes estejam entre as principais vítimas das mortes violentas. Se a adolescência se prolonga, a chance de sucumbir aos seus efeitos também. Nas últimas décadas, o mundo conseguiu reduzir drasticamente a morte na infância. Mas os avanços na redução da mortalidade de adolescentes foram bem menos impressionantes. O Brasil não é exceção.
De 1996 a 2010, as mortes de crianças brasileiras com menos de cinco anos caíram praticamente à metade, de 88 mil para 47 mil por ano. A taxa de mortalidade por 100 mil habitantes dessa faixa etária regrediu quase na mesma proporção. Já as mortes e a mortalidade de adolescentes de 10 a 24 anos permaneceram estáveis. Em 2008, pela primeira vez na história do Brasil, morreram mais adolescentes do que crianças. E a tendência só se acentuou desde então.
Nesses 15 anos, as mortes por causas naturais diminuíram, e as violentas aumentaram. Morreram mais adolescentes brasileiros por tiro e acidentes de carro e moto, e menos por doenças infecciosas como Aids, ou por problemas cardíacos. Foram e continuam sendo vítimas de causas de morte evitáveis, que podem ser amainadas por políticas públicas. Esse não é o único impacto sobre a longevidade. É na adolescência que se formam os hábitos alimentares que vão influenciar a saúde pelo resto da vida.
A adolescência tardia também tem consequências positivas, principalmente econômicas. A extensão do período sob o mesmo teto dos pais permite aos adolescentes permanecerem mais tempo na escola. Por isso as novas gerações têm potencial para formarem a força de trabalho mais qualificada que o Brasil já teve, com impactos positivos sobre a produtividade e a renda. Mas para esse potencial se concretizar é preciso que haja oportunidades de emprego compatíveis com essa escolaridade mais alta.
O ano de 2011 foi rico em exemplos de como a adolescência estendida tem impactos profundos sobre áreas improváveis, como a política. Os levantes árabes foram impulsionados por essa população adolescente, gente tão jovem quanto os indignados espanhóis, os saqueadores de Londres e os ocupadores de Wall Street. Todos eles buscando seu lugar na sociedade e topando com obstáculos maiores do que seus pais para encontrá-lo. E enquanto não encontram, sua adolescência é interminável.
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Ao mudar as regras da caderneta de poupança, a presidente Dilma Rousseff começou a gastar o que poupou em popularidade. A medida foi precedida por uma redução agressiva dos juros, o que melhorou ainda mais sua imagem junto à opinião pública. Mas como os que a antecederam descobriram, mexer na poupança é mexer em vespeiro. Além de ser uma piada pronta.
Méritos econômicos e trocadilhos à parte, a mudança evoca o trauma do confisco collorido. Tem acesso direto a uma parte do imaginário popular onde nenhum presidente se atreve a entrar já se vão 22 anos. Se a oposição sentir cheiro de sangue, pode aproveitar a ocasião para sair do armário. Mas Dilma resolveu correr o risco. Já que é para arriscar, melhor agora, quando tem popularidade para gastar.
Se for bem sucedida, será um investimento: usará as reservas de boa vontade da população para destravar a queda dos juros e empurrar a economia para um novo ciclo de crescimento -baseado no consumo popular e em investimentos do setor privado. Pode recuperar o que aplicou de sua popularidade mais à frente. Talvez com juros. Se falhar, seu cacife ficará menor. Quão menor, ninguém sabe.
A atitude de Dilma foge à regra. Presidentes relutam em usar seus cacifes para fazer mudanças cujo resultado é incerto aos olhos da opinião pública. Mas a presidente parece ter birra com o status quo. Quer mudar mesmo quando, eleitoralmente, não precisaria. É diferente dos antecessores que promoveram mudanças -ou ao menos tentaram- por necessidade.
Fernando Collor de Mello foi eleito no auge da hiperinflação da era Maílson-Sarney. Fez uma jogada que os praticantes do poker chamam de “all in”. Apostou todas as fichas no plano que, para coroar, levava seu nome. Usou a única bala que tinha na agulha. Como se sabe, o tiro saiu pela culatra.
Itamar Franco herdou o desastre e saiu por cima ao bancar o Plano Real e domar a inflação. Quem faturou o sucesso foi seu ministro da Fazenda e sucessor, Fernando Henrique Cardoso. Eleito no primeiro turno, virou sigla. FHC acumulou um cacife inédito, e gastou boa parte dele aprovando a emenda constitucional que lhe deu o direito à reeleição. Reeleito, nunca recuperou o investimento.
Lula foi eleito para mudar. Mudou, mas não como se previa. O petista aproveitou o legado da inflação controlada na era FHC e surfou a onda da expansão econômica mundial. Não mexeu na política econômica nem no jeito de fazer política. Multiplicou o Bolsa Família, alavancou o crédito popular e criou um mercado de massa. A massa de eleitores neoconsumidores o reelegeu, com Mensalão e tudo.
Dilma é o fruto politico dessa mudança econômico-social. Foi eleita para continuar, não para mudar. Mas a mexida nas regras da popuança sugere que ela não está satisfeita com mais do mesmo. É o gesto de ruptura mais drástico que tomou até agora. Faz algo que Lula não quis fazer.
Na faxina ministerial, a presidente trocou ministros mas manteve as estruturas que sustentam sua coalizão. Centralizou o controle de verbas, mas as transações permaneceram franciscanas. No corte de juros feito até agora, operou dentro de uma margem de manobra pré-estabelecida. Com as novas regras da poupança, furou essa margem. É pouco, dirá quem clama por reformas mais profundas. É um começo? A ver. Mas certamente é uma novidade.
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A quantidade de prefeitos eleitos por um partido está correlacionada ao que acontece com sua bancada de deputados federais dois anos depois. Em 2008, os principais partidos de oposição ao governo federal elegeram menos prefeitos. Não por coincidência, viram suas cadeiras federais minguarem quase na mesma proporção em 2010.
No sentido inverso, o ciclo eleitoral passado favoreceu petistas e aliados: ganharam prefeitos e, na eleição seguinte, deputados. Mas também aumentou a dispersão partidária. Mais legendas conquistaram espaço nas prefeituras e isso levou à pulverização ainda maior do poder na Câmara dos Deputados. A base de sustentação do governo federal ficou mais fluida, movediça.
Só por isso, o governo Dilma Rousseff já teria muito interesse no que vai acontecer nas eleições de 2012. Mas não fica aí. O pleito será o primeiro teste real de popularidade da presidente. Mesmo que os problemas locais sejam mais relevantes na decisão do voto de prefeito do que as ações federais, o resultado das urnas será creditado ou debitado parcialmente na conta de Dilma. Sua imagem sairá fortalecida ou enfraquecida. É uma prévia de 2014.
O governo federal influencia a eleição de prefeitos com transferências preferenciais de verbas, priorizando obras, alimentando ONGs -como fazem também os governos estaduais. Mas Brasília tem um poder a mais, o de influir no clima geral da opinião pública, pelo que faz com a economia. Otimismo ou pessimismo nascem no bolso e dali se espalham até chegar ao dedo que tecla “confirma” na urna eletrônica.
Um eleitor otimista é mais propenso a reeleger seus governantes. O pessimista é mais aberto a mudanças. Portanto, é do interesse geral dos prefeitos candidatos à reeleição que a economia esteja aquecida no próximo ano. Assim como é do interesse de Dilma.
É difícil encontrar algo que se correlacione mais com a popularidade do presidente no Brasil do que a confiança do consumidor. Se esse índice sobe, a avaliação do governo federal tende a melhorar, e vice-versa. Dentre os itens que compõem a versão do índice divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), dois têm correlação ainda maior: a situação financeira do entrevistado hoje (comparada ao período imediatamente anterior), e a expectativa do que deve acontecer com essa mesma situação financeira no futuro próximo.
A combinação desses dois indicadores, pesquisados mensalmente em sondagem CNI/Ibope, tem um coeficiente de correlação de 0,9 com o saldo de aprovação do governo federal. Grosso modo, é possível antecipar com 90% de acerto a tendência da popularidade de um presidente a partir desse índice composto -que poderia ser batizado de “bolso eleitoral”.
O mais surpreendente é o quão mais forte é essa correlação entre o bolso e a popularidade presidencial do que entre a imagem do governo e os outros indicadores que compõem o índice de confiança do consumidor. O medo do desemprego tem correlação, mas significativamente mais fraca do que o “bolso eleitoral”. E a expectativa de inflação simplesmente não se correlaciona com a popularidade presidencial. Oscilam frequentemente em direções opostas.
É mais um sinal de que o discurso da estabilidade econômica perdeu para o do crescimento. Talvez porque os últimos oito anos mostraram ser possível crescer sem perder o controle da inflação. Mais do que isso, esses anos de bonança criaram na opinião pública uma expectativa de que a capacidade de consumo não só pode como deve aumentar continuamente.
Quando o governo reativa o crédito, corta impostos sobre operações de financiamento e diminui a taxa de juros básica ele está tomando medidas para tentar reaquecer a economia e gerar mais consumo. O eventual aumento da atividade tem vários efeitos positivos para o próprio governo: aumenta a arrecadação de impostos e a disponibilidade de recursos para gastar.
Mas não dá para ignorar que a retomada do ritmo da atividade econômica também paga bônus eleitoral para aos governantes ao elevar o nível de confiança do consumidor. Toda ação governamental gera uma reação na opinião pública. Não existe o ato de governar exclusivamente técnico. Quem governa são os políticos, não os tecnocratas.
Nem toda medida com impacto eleitoral é ruim em si. A adaptação da política econômica às circunstâncias é do jogo. Entre as circunstâncias estão o ambiente político e a opinião pública. Um governo com popularidade em baixa perde sustentação política e, por tabela, graus de liberdade para determinar sua própria política econômica.
O problema acontece quando os interesses eleitoreiros de curto prazo de chocam com o que é melhor para o País no longo prazo. Por ora, o governo Dilma tem espaço para administrar as contradições entre a pressão inflacionária e o ritmo do consumo. Mas nem sempre é assim.
Logo após o massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, Fernando Henrique Cardoso experimentou seu único momento de impopularidade durante o primeiro mandato presidencial. Logo que as mortes saíram das manchetes, FHC recuperou a boa imagem conquistada pela estabilidade econômica. Reelegeu-se meses depois. Porém, ele nunca recuperou a popularidade perdida pela desvalorização abrupta do real, logo no início do segundo mandato.
Os governantes se tornam escravos do próprio sucesso. Quando não o seguem, pagam por isso.
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Não foram as festas bunga-bunga que derrubaram o libidinoso premiê italiano, Silvio Berlusconi. Foi a debacle econômica da Itália. Não foi (apenas) amor à camisa que segurou Neymar no Santos, mas a decadência dos mercados europeus e o crescimento financeiro do futebol brasileiro. Não é o terrorismo nem são os republicanos que mais ameaçam a reeleição do presidente Barack Obama, e sim o risco de duas recessões sucessivas nos EUA.
Cada vez mais, é o bolso do eleitor que determina o sucesso dos políticos mundo afora. O Brasil, apesar de suas jabuticabeiras, não é exceção. As principais forças da oposição, entretanto, têm dificuldades de aceitar isso. Faz uma década que não acertam nem sequer o discurso. Não é de estranhar: sem um diagnóstico correto, é quase impossível estabelecer uma estratégia vitoriosa nas urnas.
O primeiro passo é entender no que os adversários acertaram. Creditar tudo à sorte do outro é condenar a sua própria. Nos seminários, artigos e entrevistas com líderes do PSDB nunca se admite que houve algo positivamente diferente na gestão dos rivais petistas. Foi apenas a continuidade do modelo tucano em uma circunstância internacional mais favorável. Em suma, o sucesso alheio é mero acaso. Enquanto persistir nessa lenga-lenga, a oposição dificilmente sairá de onde está.
Quando se comparam os gráficos de indicadores econômicos do período FHC com os da era Lula, o que mais chama a atenção não é o crescimento da renda nem a diminuição da desigualdade, como a máquina de propaganda petista gosta de matraquear. É o de crédito. Do crédito das pessoas físicas. Para adquirir carros, eletrodomésticos, aparelhos eletrônicos ou fazer compras no cartão.
Quando Fernando Henrique Cardoso deixou a Presidência, as operações de crédito para a pessoa física eram 5% do PIB (Produto Interno Bruto). Desde então, cresceram mais de três vezes em proporção a tudo o que o Brasil produz de bens e serviços ao longo de um ano. O Brasil entrou no maravilhoso mundo do gastar por conta, e a oposição não percebeu -ou pelo menos não admitiu.
Tudo indica que -no cenário de economia estabilizada e baixa inflação deixado pelo PSDB- as transferências de renda para as populações semi-indigentes misturadas às políticas de micro-crédito e aumento real do salário mínimo do governo petista criaram um círculo econômico virtuoso: com uma renda mínima garantida e crescente, dezenas de milhões se tornaram neoconsumidores. Não necessariamente porque têm dinheiro no bolso, mas porque têm crédito.
Essa história de gastar por conta não dura indiscriminadamente, mas dura. Enquanto a conta vem a prazo, a satisfação é imediata. Por isso é tão difícil encontrar um discurso para convencer o eleitor de que é melhor mudar do que deixar tudo como está.
É por causa do crédito fácil e dos gastos exagerados que o Primeiro Mundo está enfrentando uma das maiores crises financeiras de sua história. A pirâmide financeira que levou Bernard Madoff à cadeia é brincadeira de criança quando comparada aos trilhões de euros em empréstimos sem lastro a governos europeus, ou ao megacassino do mercado de derivativos de Wall Street.
O problema, para a oposição, é que o Brasil estava tão atrasado nesse jogo que parece haver muito chão até a economia do País bater nos limites que levaram Grécia, Irlanda e Portugal à bancarrota. Ou seja, não dá para a oposição esperar sentada até que a sorte internacional do governo Dilma mude.
No fim do governo FHC, o endividamento das famílias era menos de 20% da renda acumulada pelos seus integrantes nos últimos 12 meses. Agora, é de mais de 40%. O gráfico da evolução desse porcentual parece uma rampa íngreme: cresce em linha reta, sem solavancos nos últimos seis anos. Apesar disso, ainda há espaço para crescer mais. Entre outros motivos, porque a situação demográfica brasileira é muito mais favorável do que a europeia.
A base economicamente ativa da população ainda é muito mais larga do que a soma de aposentados e estudantes. Por isso, a pirâmide brasileira permanece de pé. Ao contrário da oposição, o governo parece entender isso. A qualquer sinal de desaceleração da economia, o Banco Central solta os mecanismos de crédito, como fez novamente na sexta-feira passada. A confiança do consumidor reage e, por tabela, a popularidade do governante de plantão.
A continuar essa tendência, o cenário da próxima eleição municipal tende a ser mais parecido com o do pleito de 2008 do que com o de 2004: melhor para os candidatos governistas do que para os de oposição.
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O feito hoje é uma lembrança desbotada, mas Barack Obama foi o presidente norte-americano eleito com maior margem nas últimas duas décadas. Com o “sim, podemos”, encheu os EUA de esperança. Porém, a inabilidade para lidar com a crise econômica herdada do governo George W. Bush minou a confiança da maioria dos norte-americanos na capacidade do seu presidente. E ameaça a sua reeleição.
Hoje, o que mais ajuda o democrata na corrida eleitoral é a incapacidade da oposição republicana de produzir um adversário vencedor.
“Será que Obama é capaz de exercer o cargo?” – essa é a pergunta subjacente à curva de popularidade do presidente desde a posse. Foi um escorregão de quase três anos ladeira abaixo, com dois leves e fugazes momentos de recuperação. O primeiro foi no fim de janeiro deste ano, provocado por seu discurso sinalizando uma guinada ainda mais ao centro do espectro político, que foi bem recebido pelos eleitores independentes. Durou pouco, porém.
Em maio, o assassinato de Bin Laden produziu um pico ainda mais curto de popularidade, que evaporou junto com os empregos e a confiança do consumidor norte-americano.
Obama bateu no fundo no começo de setembro. Desde então, o saldo de sua avaliação (% de “aprova” menos o % de “desaprova”, segundo o Gallup) tem estado consistentemente negativo em -10 pontos percentuais. A um ano da eleição, pode não parecer, mas isso é uma boa notícia para Obama. Pelo menos ele parou de cair antes de chegar ao nível de impopularidade de Jimmy Carter, o último democrata a não conseguir se reeleger.
A média móvel dos últimos 30 dias feita a partir do tracking diário do Gallup mostra que há chance de recuperação para Obama. Seu anúncio de retirada das tropas norte-americanas no Iraque foi bem recebido por 3 em cada 4 eleitores e produziu um soluço positivo em sua aprovação. Depois de meses de más notícias na área econômica, os indicadores de emprego começam a sugerir algum grau de recuperação. É insuficiente para Obama sair do vermelho, mas permite que diga para seus botões “sim, eu posso”.
A chave em qualquer eleição presidencial norte-americana é o eleitorado dito “independente”, aquele que não é republicano nem democrata. Para onde ele pende, vai a avaliação do presidente e as suas chances de reeleição. Desde Bill Clinton que a polarização se exacerbou na política norte-americana: eleitores democratas e republicanos ficam em extremos opostos da opinião pública, aumentando a importância relativa dos independentes.
No gráfico, eles são representados pelas curvas amarelas. Enquanto os democratas (em azul) e os republicanos (em vermelho) se afastam, os independentes convergem para a média (em verde). Se menos da metade deles aprova a gestão de Obama, a média geral do presidente fica negativa.
Isso significa que além de tentar estimular a economia, o emprego e o consumo, Obama deve fazer de tudo para agradar os independentes em seu discurso. Ou seja: mais concessões ao centro. Se serve de consolo, o candidato republicano, seja ele quem for, terá que fazer a mesma coisa, mas no sentido contrário.
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Por que o movimento dos “indignados”, que ganhou notoriedade na Espanha, se espalhou para o Chile e agora ocupa Wall Street (EUA) não comoveu multidões no Brasil? Desde julho, quando o jornal espanhol El País fez essa pergunta, parece haver mais indignação com a falta de resposta do que, propriamente, com a corrupção da política nacional.
Tentativas de mobilização das massas não foram muito além de um trending topic ou outro nas redes sociais. Quando chegaram às ruas, não saíram dos bairros mais afluentes, tampouco tiveram sustentação ao longo do tempo. Nos termos de seus idealizadores, cansaram logo.
As explicações aventadas variam da mitológica cordialidade nacional ao efeito lavador de cérebros da propaganda governamental. A despeito de exemplos como os dos “cara-pintadas” e das “diretas já”, os argumentos rapidamente se voltam contra o objeto da mobilização: o brasileiro -que seria, antes de tudo, um apático. Vale a pena, então, comparar o que ele pensa com o que pensam outros povos mais indignados.
A começar pelas semelhanças e diferenças na opinião pública de Brasil e Chile, onde o Ibope fez pesquisas com metodologias idênticas. O Índice de Confiança nas Instituições varia de 0 a 100. Quanto maior, mais confiante a população naquela instituição. Na média, o índice chileno pende bem mais para o lado da desconfiança do que o brasileiro: 46 a 55.
Semelhanças positivas – Bombeiros: (Chile) 92 a 86 (Brasil). Polícia: (Chile) 60 a 55 (Brasil). Forças Armadas: (Chile) 56 a 72 (Brasil). Organizações da sociedade civil: (Chile) 60 a 59 (Brasil).
Semelhanças negativas – Partidos políticos: (Chile) 17 a 28 (Brasil). Congresso Nacional: 23 (Chile) 23 a 35 (Brasil). Sistema público de saúde: (Chile) 40 a 41 (Brasil). Sindicatos: (Chile) 47 a 44 (Brasil).
Semelhanças neutras – Governo municipal: (Chile) 50 a 47 (Brasil). Eleições: (Chile) 49 a 52 (Brasil).
Diferenças: Presidente da República: (Chile) 27 a 60 (Brasil). Governo federal: (Chile) 36 a 52 (Brasil). Justiça: (Chile) 30 a 49 (Brasil). Igrejas: (Chile) 44 a 72 (Brasil). Meios de comunicação: (Chile) 51 a 65 (Brasil). Empresas: (Chile) 49 a 59 (Brasil).
Nos EUA, o instituto Gallup com metodologia diferente chegou a conclusões semelhantes. Como no Chile e no Brasil, nenhuma instituição é mais desacreditada entre os norte-americanos do que o Congresso. E apenas como no Chile, a Presidência da República está em processo de descrédito -desde a posse de George W. Bush, com leve mas fugaz recuperação da confiança no começo do governo de Barack Obama.
Uma hipótese surge das pesquisas: quando a população se desencanta com seu governante e não enxerga representatividade no Congresso nem nos partidos nem nos sindicatos nem na mídia para expressar sua indignação, deságua sua insatisfação em protestos de rua. Não por coincidência, o chileno Sebastián Piñera é o governante mais mal avaliado das Américas, e o espanhol José Luis Zapatero está na lanterna na Europa.
E o que Obama, Piñera e Zapatero têm em comum, que presidentes com melhores índices de avaliação, como Dilma Rousseff (Brasil), Dmitry Medvedev (Rússia) e Cristina Kirchner (Argentina), não têm? Sérios problemas na economia de seus países.
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Barack Obama continua no ponto mais baixo de sua popularidade (41% de aprovação, na média mensal do Gallup), mas não está sozinho. O Congresso dos EUA, de maioria republicana, lhe serve de consolo. Segue no mesmo caminho do presidente, mas muitos andares abaixo: só 13% aprovam o trabalho dos congressistas. Em comum, a queda das opiniões otimistas (ou neutras) sobre a economia norte-americana: só 22%.

Resumindo: ninguém ganha quando a economia vai mal. Os oposicionistas republicanos podem argumentar que Obama ganharia mais se ela fosse bem. Mas daí a sabotar as tentativas de resolver o problema do déficit das contas públicas, da recessão e do desemprego vai um longo e duvidoso tiro no escuro. Por isso, não vai ser um discurso que vai mudar as tendências. Se não sabem, os norte-americanos ao menos desconfiam que ninguém é inocente nessa história.
Na era Bush filho, os republicanos financiaram uma guerra que os EUA não podiam pagar aumentando irresponsavelmente a sua dívida. O “mercado”, que de racional só tem a aparência, engoliu dólares e títulos da dívida pública norte-americana às toneladas, sem se importar com os “fundamentos” macroeconômicos do país. Vieram o desequilíbrio da economia, Obama e mais do mesmo. Nada foi feito, nem por democratas nem por republicanos, para consertar o problema. A fatura está demonstrada no gráfico acima.
A guerra (contra o terrorismo, contra o Islã ou o que o leitor preferir) foi uma resposta política a um problema que, como a história mostrou, as bombas não podem resolver. Depois de 10 anos, os EUA gastaram bilhões e bilhões de dólares, mataram o terrorista-símbolo do ataque sofrido em 11/9, mas estão em situação muito pior do que estavam. Perderam o respeito político de boa parte do mundo e dividiram a hegemonia econômica com a China.
A satisfação do público norte-americano pela morte de Osama Bin Laden é registrada por aquele último e fugaz pico de otimismo nas três linhas do gráfico. Foi tão pequena e rápida que mal pode ser notada na tendência morro abaixo da popularidade do presidente e do Congresso e da confiança na economia. A vingança custou tão caro que não compensou.
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Mais norte-americanos desaprovam do que aprovam o acordo para aumentar a capacidade de endividamento do governo dos EUA: 46% a 39%, além dos 15% que não têm opinião à respeito. Os dados são de pesquisa Gallup feita nesta terça-feira à noite para o jornal USA Today e divulgados há poucos minutos.
A sondagem mostra uma grande divisão de opiniões em função da opção política dos norte-americanos: 58% dos democratas aprovam o acordo aprovado no Congresso, contra 64% de reprovação entre os republicanos. A maior parte dos chamados “independentes” também não gostou do acordo: 50%. Apenas numa coisa a maior parte dos três lados concorda: o acordo vai fazer piorar a economia dos EUA (41%), ou não terá nenhum efeito sobre ela (33%).

O principal problema do novo teto de endividamento, sugere a pesquisa do Gallup, é que só 20% dos norte-americanos acreditam que ele representa um “passo à frente” para resolver o problema da monstruosa dívida do governo dos EUA. Outros 20% (principalmente os conservadores e republicanos) acham que é um “passo atrás”, e metade acha que é um passo para o lado, ou seja, o acordo não muda nada.
Do ponto de vista de Barack Obama, que foi à TV “vender” os termos do acordo, o resultado não é dos melhores. Embora mais democratas apóiem (58%) do que rejeitem (28%), só 30% acham que foi um “passo à frente” para resolver o problema. Pior, 2 em cada 3 eleitores do partido do presidente acham que o acordo vai piorar ou deixar a economia como está, ou seja, em recessão. É tudo o que Obama não quer nos próximos 15 meses.
A margem de erro é de 4 pontos porcentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95% (se repetida 100 vezes, em 95 delas os resultados estariam dentro da margem de erro). A pesquisa foi feita no dia 2 de agosto, com 1.012 pessoas de 18 anos ou mais, pelo telefone (60% fixo e 40% celular). Ao contrário do Brasil, pesquisas telefônicas nos EUA cobrem 100% da população adulta.
São Paulo está ficando para trás. A desaceleração da velha locomotiva é suave, mas persistente. Enquanto o interior do Brasil e outras metrópoles pisam no acelerador, a capital paulista anda com o freio de mão puxado. Nem por isso seus governantes deixam de dar nota máxima a si mesmos, como se não tivessem mais nada a fazer. Talvez não tenham mesmo.
Entre 2000 e 2010, a renda dos paulistanos cresceu apenas 4% acima da inflação, uma fração do que cresceu o rendimento dos brasileiros e o pior desempenho entre todas as capitais. Nas outras 26, a renda teve um crescimento real de 37%, na média.
Quais problemas atrasaram o desenvolvimento da cidade na década passada? Uma série deles. Desde a mudança do perfil do emprego até o baixo desempenho de seu sistema de ensino, passando pela perda de competitividade ocasionada, entre outras coisas, pela piora do trânsito e aumento do custo de vida.
Menos qualidade no dia a dia associada à possibilidade de trabalhar à distância expulsaram muitos paulistanos dos extratos mais altos de renda para o exterior, cidades do entorno ou para outras capitais. Foi o caso de Florianópolis, destino de muitos ex-moradores de São Paulo que queriam viver melhor. Não por acaso, a catarinense tornou-se a 1.ª no ranking de renda das capitais e a 2.ª entre todas as cidades brasileiras.
Enquanto Florianópolis subia, São Paulo caía: do 4.º para o 7.º lugar no ranking de renda das capitais, e para o 15.º, entre todas as cidades do País. Vitória, Brasília, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Curitiba já têm renda por habitante maior do que a paulistana. E, no ritmo atual, logo Belo Horizonte também ultrapassará São Paulo. Está no Censo 2010.
Não foi só na renda que a posição relativa da capital paulista piorou em comparação a outras capitais. A taxa de analfabetismo das pessoas de 10 a 14 anos que moram em São Paulo oscilou de 1,9% para 2% na década passada. Parece baixa, mas não é. A taxa das crianças curitibanas era maior do que a das paulistanas dez anos atrás, agora é metade. São Paulo caiu do 9.º para o 10.º lugar no ranking de alfabetização de crianças em idade escolar. A cidade não mais importa analfabetos, os produz aqui.
Crianças que não são alfabetizadas no momento certo engrossam as estatísticas do atraso escolar e acabam abandonando seus estudos precocemente, sem saber o básico para arrumar um bom emprego. Vão ganhar mal e alimentar a espiral do baixo crescimento da renda.
Nos últimos dez anos, a oferta de emprego – motor que fez São Paulo crescer e atrair imigrantes do mundo inteiro em outras eras – mudou de marcha. A indústria e a administração pública, que pagam melhores salários, viram sua fatia diminuir pouco a pouco no bolo do mercado de trabalho paulistano, enquanto cresceram as do comércio e, principalmente, dos serviços. Proporcionalmente menos metalúrgicos e professores, mais office-boys e balconistas.
Como pizza ainda não é material de exportação, a balança comercial da cidade também sofreu. De um superávit de quase US$ 1 bilhão, em 2003, para o maior déficit do século em 2010: menos US$ 7,9 bilhões.
Se São Paulo fosse uma empresa com ações na Bolsa, sua cotação estaria em baixa. Não uma queda abrupta, daquelas que provocam manchetes, mas um suave e confortável plano inclinado que leva do protagonismo à mediocridade. Ainda não chegou lá, mas está a caminho.
Esse câmbio de locomotiva a vagão mais lento do comboio já foi detectado por pesquisadores, como André Urani (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade – Iets). Mas talvez o bairrismo e a falta de drama tenham evitado que o assunto ganhasse o destaque necessário – para sorte dos políticos que, em tese, deveriam liderar o processo oposto.
Nenhum partido que passou pela Prefeitura de São Paulo nos últimos 15 ou 20 anos tem a ganhar politicamente com a desaceleração paulistana. Nenhum nível de governo (municipal, estadual e federal) é inocente. Da falta de planejamento (de estratégia, de prioridades corretas) à taxa de câmbio supervalorizada, passando pela guerra fiscal, todos deram sua contribuição para inclinar o plano no sentido errado.
A eleição de 2012 é mais uma oportunidade para encarar o problema e enfrentá-lo. Mas os representantes dos paulistanos parecem mais ocupados com o rame-rame de seus joguetes pelo poder. O trem passa e eles olham da estação. Falta um maquinista.
Relatório quinzenal da UNICA divulgado nesta terça-feira aponta quebra de 23% da safra de cana-de-açúcar em comparação ao mesmo período da safra anterior. A associação, que reúne os produtores do centro-sul do País, atribui a diferença ao atraso da colheita por causa das chuvas. Mas pelo menos três fatores indicam que não se trata só de atraso e que parte dessa quebra é definitiva.
O próprio relatório da UNICA aponta uma perda de 3% do total de açúcares recuperado (ATR) da cana na safra atual (2011/2012) em comparação à anterior. Mantida a média no que falta colher (60% a 70%), apenas essa perda de produtividade já diminuiria na mesma proporção a produção de etanol e/ou de açúcar. Mas não é só isso.
Usineiros ouvidos pelo blog dizem que o excesso de chuvas do começo do ano atrapalhou o desenvolvimento da cana (faltou luz e sobrou água). O canavial está mais ralo e baixo, o que pode ser constatado visualmente. Isto é: há menos cana por hectare plantado. Há estimativas de que essa perda seja de 7%. O relatório da UNICA não indica a área colhida, logo não permite calcular a média de toneladas de cana por hectare.
Finalmente, o relatório da UNICA foi feito antes de a geada atingir canaviais de São Paulo esta madrugada. A geada inibe a germinação da cana e obriga o corte antecipado dos talhões mais afetados. Ainda não se sabe a extensão da área atingida pela geada. Mas ela deve aumentar a quebra da safra atual e pode comprometer a de 2012/2013.
Somados esses três fatores, a quebra definitiva da safra passa de 10%. É um fato conhecido que se reflete nas cotações. O preço do açúcar no mercado internacional subia 4% no momento em que este texto foi escrito. O preço do etanol na usina já batia em R$ 1,40 por litro.
Mix e atraso
As usinas podem -dentro de uma margem de 10 a 15 pontos porcentuais- mudar o mix de produção entre açúcar e álcool. Puxada pelo preço alto, a safra passada foi “açucareira” (56% de açúcar e 44% de etanol). Este ano, por pressão do governo e do preço do álcool, a proporção é inversa até agora: 44% a 56%.
A diferença está sendo direcionada para o mercado de álcool anidro (o que não tem água e é misturado à gasolina), cuja produção aumentou 9% em comparação ao mesmo período do ano passado. Em compensação, a fabricação de álcool hidratado (que move os carros flex) tem perda acumulada de 37%, e a de açúcar, de 25%.
É fato que essas perdas eram maiores no começo da safra, mas o ritmo de recuperação está caindo. A colheita da cana começou atrasada este ano por causa das chuvas acima da média entre janeiro e abril (quando chove forte ou por muito tempo a colheita é suspensa).
Em 1º de maio, a diferença em toneladas de cana colhidas era de menos 59% em relação a 2010. Mas 15 dias depois, já caíra 20 pontos, para 39%. Na quinzena seguinte, a recuperação foi menor: 14 pontos, para 25%. E, nos últimos 15 dias, ela tirou apenas 2 pontos da diferença, que ficou em 23%.
A geada em São Paulo deve acelerar o corte da cana, para evitar que as plantas mais queimadas não apodreçam no campo. Isso pode implicar colher cana não-amadurecida, diminuindo ainda mais a produtividade por hectare e a média de ATRs por tonelada. Os próximos três relatórios quinzenais da UNICA deverão medir o tamanho do estrago.
Inflação e eleição
Por que um blog que trata principalmente de política e eleições dedica atenção ao canavial? Porque o preço dos combustíveis e dos alimentos tem sido o principal vilão da inflação. A inflação é a pior vilã da popularidade dos governantes, porque influencia negativamente o consumo. E o bolso é a parte mais sensível do eleitor.
Além de já ter afetado o otimismo e a confiança do consumidor/eleitor, a inflação ameaça a popularidade da presidente Dilma Rousseff. Ela se manteve estável na mais recente pesquisa Datafolha, mas os sinais de preocupação foram acesos em Brasília. Se 2012 repetir 2011, a eleição pode favorecer a oposição pela primeira vez desde 2002.
Veja aqui a íntegra do relatório da UNICA.
* Aumentou o grau de conhecimento da população sobre Dilma e seu governo. Uma medida parcial, mas que pode ser lida como proxy de toda a população, é que o porcentual de pessoas que não sabiam o que pensar sobre o governo Dilma caiu de 12% para 3% nos últimos três meses.
* Esses 9 pontos porcentuais dos indecisos e que entraram agora na avaliação foram mais para as opiniões negativas (+3) e neutras (+4) do que para as positivas (+2). Como o resultado das positivas menos as negativas, o saldo de Dilma foi de 40% para 39%. É estável, mas não significa que nada se passou com a opinião pública. Apenas o resultado dessas mudanças foi um jogo de soma zero.
* A pesquisa sinaliza que o período “esperar para ver” da opinião pública acabou. O jogo começou para valer e a imagem pessoal da presidente começou a se cristalizar. Aos poucos Dilma vai deixando de ser “a mulher do Lula” para ser a presidente de fato no imaginário das pessoas.
* A maioria absoluta (51%) acha que a inflação vai aumentar (eram 41% há três meses). Também caiu 10 pontos o porcentual dos que acreditam que o poder de compra vai aumentar. Cresceu 7 pontos a fatia dos que acham que ele vai diminuir (são 25%) e a dos que acham que ficará estável tornou-se a maior (foi d e34% para 37%).
* O ímpeto de melhora na renda das famílias perdeu força desde o final do governo Lula. O porcentual de “não é suficiente (dinheiro) às vezes falta” está em 45% há cinco anos, mas o de “exatamente o que precisam para viver” parou de subir em novembro do ano passado e permaneceu em 31% agora.
* O aumento significativo do pessimismo quanto à inflação é uma ameaça séria à popularidade da presidente no futuro próximo. Previsões de aumento de preços são auto-realizáveis. Se as pessoas esperaram que os preços vão subir, podem ficar mais inclinadas a antecipar as compras, aumentando a demanda e pressionando os preços.
* O aumento do porcentual de regular é um sinal amarelo porque não se trata de opiniões que migraram de opiniões negativas para neutras, mas de positivas ou indecisas para neutro.
* O Datafolha mostra que nos segmentos mais escolarizados o saldo positivo de Dilma caiu de 34 pontos para 25 pontos. No menos escolarizado permaneceu estável em 43 pontos. Também ficou assim na população com ensino médio: 39 pontos de saldo.
* Nas faixas de renda, a maior queda de aprovação de Dilma foi na intermediária, onde o saldo caiu de 34 pontos para 29 pontos. Entre os mais ricos também diminuiu, de 25 para 22 pontos. Na maior faixa, porém, de quem ganha até 5 salários mínimos, ficou praticamente estável, oscilando de 42 para 41 pontos.
* Regionalmente, a popularidade presidencial cresceu no Nordeste, onde o saldo positivo foi de 43 para 47 pontos, oscilou positivamente dentro da margem de erro no Norte/Centro-Oeste (de 38 para 40 pontos) e negativamente no Sul (de 37 para 34 pontos) e caiu no Sudeste (de 40 para 34 pontos).
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A pesquisa Datafolha sinaliza que acabou o período de carência do governo Dilma Rousseff. Caiu 75% o porcentual dos brasileiros sem opinião a respeito do desempenho presidencial. Dilma manteve um saldo positivo alto -ele variou de 40 para 39 pontos nos últimos três meses- mas aumentou o pessimismo sobre a economia, o que às vezes é um primeiro passo para as pessoas mudarem de opinião sobre o governo.
A maioria absoluta acha que a inflação vai aumentar. Eram 41% há três meses, agora são 51%. Também caiu 10 pontos o porcentual dos que acreditam que o poder de compra vai subir. Ao mesmo tempo, cresceu 7 pontos a fatia dos que acham que ele vai diminuir.
A preocupação com a inflação é uma ameaça séria à popularidade da presidente no futuro próximo. Previsões de aumento de preços são auto-realizáveis. Se as pessoas esperaram que os preços vão subir, podem ficar mais inclinadas a antecipar as compras, aumentando a demanda e pressionando os preços.
O apoio à presidente depende mais agora do Nordeste e Norte/Centro-Oeste do que há três meses. Sua popularidade cresceu ou ficou estável nessas regiões, enquanto caiu no Sudeste e oscilou negativamente (dentro da margem de erro) no Sul. Dilma também perdeu apoio entre os mais escolarizados (talvez por causa do caso Palocci) e na camada da população que está na faixa de renda intermediária.
A presidente ainda tem capital político para gastar, mas as medidas de controle da inflação que ela foi levada a adotar já começaram a cobrar seu preço. Dilma se segura nas regiões onde a economia ainda segue acelerada. Mais do que o prestígio herdado de Lula, é o consumo das famílias que vai ditar a popularidade de Dilma nos próximos meses.
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Ao longo da última década, caiu em um terço a desigualdade de renda entre municípios no Brasil. Os rendimentos dos moradores das 557 localidades mais pobres cresceram duas vezes mais rápido do que os das 557 localidades mais ricas. Resultado: o andar de baixo ficou mais parecido com o andar de cima.
Não que o Brasil tenha se transformado na Noruega, pois a renda média das cidades que formam os 10% do topo ainda é quatro vezes maior do que a dos 10% da base. Mas a aproximação dos extremos é boa notícia porque vai contra a tendência histórica brasileira. Dez anos atrás a diferença era de seis vezes.
O encurtamento da distância entre lugares ricos e pobres se deu pelo crescimento acelerado da renda dos municípios do Norte e, principalmente, do Nordeste. Entre 2000 e 2010, o rendimento médio das cidades nordestinas cresceu a uma velocidade 54% maior do que o das do Sudeste, por exemplo.
Os números divulgados até agora pelo IBGE sobre o Censo 2010 associados a outros estudos e pesquisas indicam que as molas que impulsionaram os municípios mais pobres foram as políticas federais de distribuição de renda, como o Bolsa Família, e os repetidos aumentos do salário mínimo acima da inflação.
Essas políticas se tornaram viáveis por causa da estabilização econômica e do controle da inflação ocorridas no período anterior. Mas a redução da disparidade regional só acelerou nos últimos dez anos. Houve uma reversão em relação à década de 90, quando as desigualdades ficaram imutáveis (Nordeste versus Sudeste), ou se aprofundaram (entre Sul e Norte).
As consequências dessa mudança brusca foram sentidas em múltiplas dimensões da sociedade brasileira, dos fluxos migratórios à geopolítica.
Na demografia, diminuiu a evasão populacional dos municípios mais pobres do Nordeste para os mais ricos do Sudeste. Com um cenário menos desigual, muitos viram uma oportunidade para voltar a seus Estados natais. Essa migração de retorno diminuiu a pressão por serviços básicos nas metrópoles do Sudeste. Ganharam quem voltou e quem ficou.
Na economia, o aumento da renda do andar de baixo fez girar um círculo virtuoso de consumo que propiciou o surgimento de um inédito mercado de massa. Pela primeira vez em muito tempo, o PIB (produto interno bruto) do Nordeste cresceu acima do das outras regiões do País.
Na política, PT e aliados se beneficiaram da memória imediata da população e faturaram a mudança cooptando eleitores que antes votavam nos seus adversários. Petistas e socialistas conquistaram governos e prefeituras importantes nos maiores estados nordestinos, como Bahia, Pernambuco e Ceará. Os votos do Norte e Nordeste ajudaram Lula a reeleger-se e a fazer sua sucessora.
E daí?
Não cola mais o argumento segundo o qual a única maneira de equilibrar o peso econômico do Sul/Sudeste é aumentar o peso político do Norte/Nordeste. Os desequilíbrios regionais estão diminuindo e isso não tem nada a ver com a desproporção representativa na Câmara dos Deputados e no Senado.
Ao contrário, a desigualdade entre pobres e ricos está menor apesar de o sistema eleitoral desrespeitar o princípio de uma pessoa um voto. As políticas nacionais de estabilização e promoção da renda básica provaram-se muito mais eficientes no combate às iniquidades regionais do que iniciativas divisionistas e paroquiais.
Destacados de Goiás, os municípios de Tocantins não tiveram desenvolvimento mais rápido do que os dos estados vizinhos. Palmas, a nova capital, sugou os recursos enviados pela União. Funcionou como ralo financeiro e populacional, drenando moradores das outras cidades tocantinenses. Sua renda é 2,5 vezes maior do que a média das demais.
Não é gastando com palácios e inchando burocracias estaduais que os moradores dos pretendidos novos estados de Carajás, Tapajós, Gurguéia e Maranhão do Sul vão melhorar de vida. A divisão beneficia apenas a pequena elite política que administra os recursos públicos. Concentra em vez de distribuir.
A União não faz necessariamente a força, mas sem ela não há redução de desigualdades regionais. Já o divisionismo é atalho conhecido para beneficiar poucos em detrimento de muitos. Além de reforçar o discurso xenófobo e separatista em estados que vão ajudar a pagar a conta. É óbvio: dividir não soma.
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