Viver no Piauí é, essencialmente, morar numa casa. Lá, nada é mais “diferenciado” do que manter residência em edifício: menos de 1% dos piauienses mora em apartamento. Os outros 99% habitam domicílios que, na definição do IBGE, ocupam com exclusividade o terreno onde estão situados, ou têm acesso independente para a rua. Nada de portarias ou escadas comuns.
Um viajante que rodasse todo o Piauí contaria 86 casas para cada apartamento. Se entrevistasse uma amostra representativa do universo piauiense, precisaria conversar com 117 moradores até encontrar um que declarasse viver num apê. No jargão urbanístico, o Piauí é o Estado menos “verticalizado” do Brasil.
Estatisticamente, nada distingue mais o estilo de vida piauiense do que habitar em casas. A renda é 36% menor do que a média do Brasil, os anos de estudo de seus moradores são 24% menos frequentes. Porém, tais diferenças nem se comparam ao descostume local de empilhar gente em edifícios. A taxa de moradores em apartamentos no Piauí é 90% menor do que a brasileira.
Para quem tem a ambição profissional de ser zelador de edifício residencial o Piauí é o último lugar para procurar emprego. Melhor mudar para Brasília. Lá, 23% dos moradores vivem em apartamentos. É uma tradição que vem da fundação da cidade e que se mantém: em nenhum estado tantos vivem tão sobrepostos em tantas camadas de concreto quanto no Distrito Federal.
No começo eram os apartamentos “funcionais” – imóveis do governo cedidos temporariamente a um funcionário, parlamentar ou governante. Mas a moda pegou e Brasília tem até uma painel de elevador “diferenciado”. Para se descer ao térreo não adianta procurar pelo botão “T”. Tem que apertar o “P”, de pilotis.
O Distrito Federal é a unidade mais diferenciada da Federação. O brasiliense tem dois anos a mais de estudo do que o brasileiro médio, ganha o dobro e tem 65% mais chances de ter um computador com acesso à internet em casa. Mas nenhuma dessas estatísticas o diferencia mais do resto país do que morar tão frequentemente em apartamentos: 157% acima da média brasileira.
Mais fácil do que achar um morador de apartamento no Distrito Federal é encontrar um brasiliense que tenha nascido em outro Estado. São 6 chances em 10. Só em Roraima as probabilidades são comparáveis – mas não devem continuar assim por muito tempo. A taxa de imigrantes do ex-território está diminuindo duas vezes mais rápido do que a de Brasília. Em ambos os lugares, chegam menos forasteiros do que nascem nativos.
Difícil mesmo é encontrar um imigrante no Rio Grande do Sul. Eram 4 chances em 100 no começo do século, são 4 em 100 hoje. E se encontrar, a maior probabilidade é de que tenha vindo dali do lado, de Santa Catarina. O Estado que cresceu graças a sucessivas ondas de migrantes italianos e alemães não atrai gente de outros Estados já se vão décadas.
E o que diferencia o paulista? Não é a renda nem a escolaridade. É tampouco a mistura de imigrantes. O que os moradores de São Paulo têm mais que todos os outros brasileiros é celular e telefone fixo em casa: 61% têm os dois aparelhos ao mesmo tempo -herança de quando telefone fixo valia tanto que aparecia até em declaração para o Fisco.
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O mundo nunca foi tão adolescente. A cada quatro terráqueos, um tem entre 10 e 24 anos. São 1,8 bilhão de pessoas nessa idade especial. Mas desde quando um marmanjo de 24 anos é adolescente? Num passado recente não era, mas passou a ser -ou melhor, não deixou de ser. E isso pode virar um problema. Segundo a revista científica “The Lancet”, a adolescência vem espichando a cada geração, nas duas pontas: a puberdade chega mais cedo, e a maturação do papel social dos jovens ocorre cada vez mais tarde.
Basta observar como tem avançado a idade média dos jovens ao terminar os estudos, com que conseguem seu primeiro emprego fixo, quando se casam, e com que as mulheres se tornam mães. Todos esses marcos do fim da adolescência foram adiados nas últimas gerações. As repercussões sociais dessa mudança são maiores do que nos damos conta. Daí o dossiê da “The Lancet”.
A palavra “adolescente” deriva do latim “adolescere”, que significa “crescer”, “desenvolver-se”. Adolescente é quem está crescendo, e adulto, quem já cresceu, já se desenvolveu. Mas o crescimento não se mede pelo número do sapato nem pelo comprimento da barra da calça ou da saia. É uma questão de amadurecimento, de andar com as próprias pernas sem a muleta dos pais.
A adolescência começa quando os hormônios da puberdade mudam a fisiologia e a fisionomia das crianças. É uma revolução que transforma todo o corpo, com repercussões do comportamento à capacidade cognitiva do cérebro. Jovens púberes, por exemplo, tendem a questionar regras, buscar novas experiências e tomar atitudes de risco com mais frequência que os impúberes.
O coquetel hormonal em ebulição tem impactos diretos sobre a mortalidade. O gosto por arriscar-se faz com que os adolescentes estejam entre as principais vítimas das mortes violentas. Se a adolescência se prolonga, a chance de sucumbir aos seus efeitos também. Nas últimas décadas, o mundo conseguiu reduzir drasticamente a morte na infância. Mas os avanços na redução da mortalidade de adolescentes foram bem menos impressionantes. O Brasil não é exceção.
De 1996 a 2010, as mortes de crianças brasileiras com menos de cinco anos caíram praticamente à metade, de 88 mil para 47 mil por ano. A taxa de mortalidade por 100 mil habitantes dessa faixa etária regrediu quase na mesma proporção. Já as mortes e a mortalidade de adolescentes de 10 a 24 anos permaneceram estáveis. Em 2008, pela primeira vez na história do Brasil, morreram mais adolescentes do que crianças. E a tendência só se acentuou desde então.
Nesses 15 anos, as mortes por causas naturais diminuíram, e as violentas aumentaram. Morreram mais adolescentes brasileiros por tiro e acidentes de carro e moto, e menos por doenças infecciosas como Aids, ou por problemas cardíacos. Foram e continuam sendo vítimas de causas de morte evitáveis, que podem ser amainadas por políticas públicas. Esse não é o único impacto sobre a longevidade. É na adolescência que se formam os hábitos alimentares que vão influenciar a saúde pelo resto da vida.
A adolescência tardia também tem consequências positivas, principalmente econômicas. A extensão do período sob o mesmo teto dos pais permite aos adolescentes permanecerem mais tempo na escola. Por isso as novas gerações têm potencial para formarem a força de trabalho mais qualificada que o Brasil já teve, com impactos positivos sobre a produtividade e a renda. Mas para esse potencial se concretizar é preciso que haja oportunidades de emprego compatíveis com essa escolaridade mais alta.
O ano de 2011 foi rico em exemplos de como a adolescência estendida tem impactos profundos sobre áreas improváveis, como a política. Os levantes árabes foram impulsionados por essa população adolescente, gente tão jovem quanto os indignados espanhóis, os saqueadores de Londres e os ocupadores de Wall Street. Todos eles buscando seu lugar na sociedade e topando com obstáculos maiores do que seus pais para encontrá-lo. E enquanto não encontram, sua adolescência é interminável.
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Ao radiografar o Brasil, o Censo 2010 expõe o que distingue uma localidade da outra. No amontoado de tabelas e mapas escondem-se milhares de histórias humanas inusitadas. Muitas se passam em cidades longe ou pequenas demais para serem notadas; outras, bem debaixo de nossos narizes metropolitanos. A seguir, o primeiro parágrafo de uma dúzia delas.
• Herval, no Rio Grande do Sul, é a capital brasileira da solidão: 26,6% de suas unidades domésticas são unipessoais. Traduzindo do ibegêes: 1 em cada 4 casas só tem um morador.
• Careiro da Várzea, no Amazonas, é a capital rural do Brasil. Está a apenas 25 quilômetros de Manaus, mas tem a maior proporção de moradores vivendo fora da área urbana (95,8%), em comunidades com nomes de santos, de nossa senhora ou do espírito santo. Distância é algo relativo. O município é vizinho da capital, mas tem o maior rio do mundo a ligá-los e a separá-los.
• Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, é a capital brasileira da desigualdade na riqueza. Seus ricos são mais ricos. Os parnaibanos que ocupam os 25% do topo da pirâmide de renda do município ganham mais do que todos os seus pares no resto dos municípios do País: R$ 3.993 por mês. E a renda deles é 14 vezes maior do que a dos 25% de parnaibanos mais pobres. As extremidades da pirâmide estão separadas por um muro ostensivo, de um condomínio fechado, e por outros menos visíveis, como o educacional.
• Uiramutã, em Roraima, é a capital brasileira da desigualdade na pobreza. Os uiramutenses mais ricos têm renda 26 vezes maior do que os uiramutenses mais pobres. É a maior diferença proporcional do país. Chamá-los de ricos, porém, é exagero: vivem com R$ 518 por mês. Mas os 25% mais pobres sobrevivem com apenas R$ 20, menos de R$ 1 por dia. Financeiramente, são os mais miseráveis do Brasil. Quase todos moram em tribos indígenas. Muitos nem usam moeda.
• Marajá do Sena, no Maranhão, tem a maior proporção de domicílios com saneamento inadequado do País: 85,2%. É a capital brasileira da falta de água encanada, de esgoto e de coleta de lixo -tudo ao mesmo tempo agora. A maior parte joga o lixo em terreno baldio, ou queima. Duas em cada três casas não têm sanitário exclusivo dos moradores. A água é de poço ou bica.
• Westfalia, no Rio Grande do Sul, tem os pobres mais ricos do Brasil. A renda média dos 25% da parte de baixo da pirâmide chega a R$ 573 por mês. Seus conterrâneos do andar de cima vivem com uma renda apenas 2,5 vezes maior. É um terço da desigualdade média brasileira.
• Na planilha, a paulista Balbinos tem dois títulos nacionais: a maior taxa de crescimento populacional da década passada, e a maior proporção de homens no total da população: 81%. Mas ambos são consequência da recente instalação de duas penitenciárias, para onde foram levados mais detentos do que há balbinenses no resto do município.
• História semelhante à de Balbinos aconteceu em Pracinha, Lavínia, Iaras, Reginópolis, Álvaro de Carvalho, Marabá Paulista, Guareí, Serra Azul, Itirapina e Pacaembu. As dez foram alvo da política de distribuição penitenciária do governo paulista. Se os presos todos pudessem votar nessas cidades teriam grande chance de eleger o prefeito local -um novo paradigma ético da política brasileira.
• Niterói, no Rio de Janeiro, tem potencial para ser a capital brasileira do golpe do baú. Lá vivem as mulheres mais afluentes do Brasil, na média. A renda mensal delas chega a R$ 2.176 por mês. Mas o golpe do baú pode ser também no sentido oposto: os niteroienses ganham, em média, 50% mais do que suas caras-metade.
• Lajeado Grande, em Santa Catarina, é a capital da desigualdade financeira entre os sexos. Os lajeado grandenses ganham, em média, 3 vezes mais do que as conterrâneas do gênero feminino: R$ 2.411 a R$ 800.
• O município brasileiro onde sobram proporcionalmente mais homens livres (e fora do presídio) é Tapurah, no Mato Grosso. A população masculina é 40% maior do que a feminina. O desequilíbrio se concentra na área rural, ao norte da cidade. Lá, há 8 vezes mais jovens de 15 a 30 anos -que moram em domicílios coletivos cedidos por seus patrões, em sítios e fazendas- do que garotas da mesma idade.
• A cidade onde há excedente proporcionalmente maior de mulheres é Santos (SP): 19% a mais do que homens. O problema começa aos 20 anos e se agrava -muito- com o passar do tempo. Na idade fértil, dos 15 aos 49 anos, a defasagem é de 12%. Mas a partir de 60 anos, há 62% mais mulheres do que homens.
Pensando bem, Santos e Tapurah disputam com Herval o título de capital da solidão.
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Notícias são como leis, algumas pegam, outras não. Dependem do destaque nos meios de comunicação, mas também do interesse da opinião pública. Quando ambos se casam, cascateiam reportagens em série, continuações. Nem sempre, porém, o assunto é socialmente relevante. Outras vezes, o relevante não é interessante. O bom editor é um malabarista que equilibra o interesse público com o interesse do público.
Atropelamentos dramáticos ocorridos em São Paulo nos últimos meses provocaram grande repercussão na mídia e a chamada “comoção do público”. As vítimas caminhavam inocentemente por calçadas de bairros de classe média alta quando foram esmagadas por carros de luxo em alta velocidade. Invariavelmente, a polícia levantou a possibilidade de os motoristas estarem embriagados.
Notícia? A audiência prova que sim. Novidade? Somente por causa do local onde as pessoas morreram.
As circunstâncias que levaram à morte desses pedestres vitimaram 576 paulistanos em 2010. É um número menor que o de 2009, que é inferior ao de 2008, e assim por diante até 2005 -o ano do pico de atropelamentos de moradores de São Paulo ocorridos na própria cidade. Nos últimos cinco anos, as mortes de pedestres paulistanos caíram 18%, apesar de a população e, mais importante, a frota de veículos terem aumentado. Ainda morrem três pedestres a cada dois dias, mas a tendência é de queda. O mesmo acontece na média do Brasil.
Onde moram as vítimas mais frequentes de atropelamentos fatais? Em bairros pobres e periféricos.
Os campeões de mortes de pedestres em 2010 foram Jardim São Luís (19 moradores mortos), Grajaú (18) e Capão Redondo (15), todos na distante zona sul paulistana. No mesmo ano, bairros mais afluentes, como Higienópolis, Morumbi e Jardins registraram apenas um morador morto por atropelamento. Outros, como Moema e Alto de Pinheiros, nenhum.
Mesmo descontando-se a diferença do tamanho da população entre bairros ricos e pobres, o risco de um morador do Jardim São Luís morrer atropelado em São Paulo é 7 vezes maior do que o de um morador do Jardim Paulista. Logo, pela cruel definição de notícia (é a exceção, não a regra), quando o morador do Jardim Paulista morre atropelado ele tem muito mais chances de aparecer no jornal e na TV.
O problema é quando se resolve elaborar políticas públicas a partir de notícias de jornal. Nem sempre a ênfase do noticiário acompanha tendências cientificamente verificadas. Seus critérios, que levam em conta obrigatoriamente a interesse da audiência, não são os mesmos dos epidemiologistas.
Após o noticiário sobre atropelamentos notáveis, a prefeitura paulistana diminuiu a velocidade máxima nas vias centrais, e o Ministério da Saúde lançou uma campanha contra beber e dirigir. No passado, controle de velocidade, obrigatoriedade do cinto de segurança e medidas punitivas contra motoristas embriagados já mostraram resultados positivos na redução do número de mortes no trânsito.
Mas a mais recente epidemia de mortes violentas em curso no Brasil tem muito pouco a ver com isso. O que fez disparar o número de mortes no trânsito na década passada foi a explosão da frota de veículos de duas rodas. A quantidade de motocicletas e motonetas aumentou quatro vezes desde 2000. E, não por coincidência, o número de mortes de motociclistas aumentou também quatro vezes. Se recuarmos mais no tempo, as cifras são ainda mais impressionantes.
Desde 1996, as mortes de motociclistas cresceram 1.298% no Brasil. Enquanto isso, a mortes por atropelamento caíram 30%. As mortes de ocupantes de automóveis também aumentaram, mas em uma velocidade muito mais baixa do que as de motoqueiros. Desde o ano passado, as motos matam mais gente (10.134) do que morrem pessoas dentro de carros (8.659) e atropeladas no Brasil (9.078). Somados todos os motociclistas mortos desde 2000, o resultado equivale ao de soldados que os EUA perderam no Vietnã: 68.136.
No entanto, essa epidemia não virou notícia. Por duas razões. Nas cidades grandes, as mortes de motoboys se tornaram tão corriqueiras que há muito deixaram de provocar manchetes. E no lugar onde as motos começaram a fazer mais vítimas nos últimos anos, as pequenas cidades do interior do Brasil, elas ocorrem de modo tão espalhado que não chocam.
De um modo tragicamente irônico, foi o aumento da renda e a facilidade de crédito que permitiram a troca do jegue, do cavalo e da bicicleta pela moto no Brasil profundo. Há uma relação direta entre tamanho da frota de duas rodas e vitimização. Mais motos equivalem a mais mortes. Obviamente, não há política pública contra o avanço do consumo.
Saiba mais sobre a epidemia de mortes de motociclistas aqui
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“E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. (…) Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos”.
Em 1938, Graciliano Ramos vaticinava o destino de milhões de nordestinos nas décadas seguintes. A cíclica busca da sobrevivência em outra parte. Em 1963, Nelson Pereira dos Santos filmava Vidas secas no auge das migrações do Nordeste para o Sudeste. A essa altura, um menino fugido do agreste pernambucano aprendera coisas necessárias no Senai em São Paulo. A geração de Luiz Inácio Lula da Silva ajudaria a quebrar o ciclo.
O que foi sina para Fabiano/Aristides Inácio da Silva e Sinhá Vitória/Eurídice Ferreira, é história para seus netos. O saldo migratório do Nordeste para o Sudeste na década passada foi quase nulo: cerca de 50 mil pessoas. Se 992 mil nordestinos vieram, 940 mil voltaram para seus estados de origem desde São Paulo e Rio de Janeiro, principalmente. A principal causa dessa reversão é a diminuição das desigualdades regionais.
Enquanto o Sudeste saturou e ficou menos atraente, a economia do Nordeste cresceu acima da média nacional, tornando a região menos inóspita. A valorização do salário mínimo e a distribuição de renda -iniciadas no governo Fernando Henrique Cardoso e ampliadas no de Lula- garantiram a sobrevivência de quem antes só tinha alternativa na arribação. As cidades grandes do sul perderam vigor para prover emprego e realizar sonhos, de tão cheias de pessoas. No fim das contas, o sertão parou de mandar gente.
Se 11 milhões de nordestinos permanecem em terra desconhecida, sua proporção entre moradores de Sudeste é cadente, nem 9%. Emigrar menos é uma tendência nacional. Cada vez mais nativos compõem a população dos estados onde nasceram: de 49% de brasilienses no Distrito Federal a 96% de gaúchos no Rio Grande do Sul. Em quase todos os estados, a fatia de forasteiros é menor do que 10 anos atrás.
Entre as raras exceções, os paulistas em Santa Catarina pularam de 1,2% para 1,9% da população catarinense entre 2001 e 2009. Já somam 116 mil, ou 50 mil a mais do que há 10 anos. Esses novos bandeirantes não buscam índios guaranis como seus antepassados, mas qualidade de vida (por ironia, sua presença interfere negativamente na própria meta, ao inflacionar os preços locais).
Do mesmo modo como as comunidades de migrantes ajudaram a fixar novos baianos, pernambucanos e alagoanos em São Paulo, as redes sociais de conterrâneos atraem paulistas para solo catarinense. Amigos, parentes e conhecidos dão suporte uns aos outros e ajudam na transição.
Os 2,7 milhões de paulistas longe de São Paulo são responsáveis pelas maiores colônias de forasteiros em cinco estados: Ceará, Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná. Nisso, só encontram rivais nos mineiros. Os 4,4 milhões de nativos das Gerais que moram fora de Minas formam as maiores comunidades exóticas de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Distrito Federal e Goiás.
Entre emigrantes e imigrantes, o Sudeste perdeu 228 mil pessoas na década passada. De hospitaleira, a região passou a exportadora de gente. Fora a migração de retorno dos nordestinos, os principais destinos dos “exportados” foram o Sul (dos paulistas para Santa Catarina a paranaenses repatriados) e o Centro-Oeste.
Embora tenham perdido parte de seu magnetismo demográfico, as fronteiras agrícolas de Goiás e Mato Grosso e o entorno de Brasília ainda atraem muitos imigrantes inter-regionais. O Norte reverteu sua tradição de atrator de migrantes e perdeu mais gente do que recebeu na segunda metade da dácada passada. Pode ajudar a conter a devastação da Amazônia.
A redução da migração interna é uma oportunidade. Com mais igualdade de renda, novas gerações têm melhores chances de sucesso naquilo que a de Lula não conseguiu: diminuir também a disparidade educacional entre Nordeste e Sudeste, ter mais meninos em escolas aprendendo coisas difíceis e necessárias.
Veja mais sobre migrações aqui.
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O aumento a renda média dos municípios mais pobres acima dos mais ricos não se traduziu em avanços proporcionais na educação dos moradores dessas cidades. Os habitantes de Salgadinho, no agreste pernambucano, viram sua renda crescer 69% acima da inflação na década passada, mas o analfabetismo entre eles só diminuiu 6% no mesmo período: 4 em cada 10 continuam sem sabem ler nem escrever.
O Censo 2010 mostrou que a região Nordeste foi onde a renda média municipal mais cresceu desde 2000. Mas a mesma pesquisa indica que os municípios nordestinos ainda concentram as maiores taxas de analfabetismo do País. Pior, foi lá que a alfabetização das pessoas de 15 anos ou mais de idade cresceu mais lentamente na década passada.
Os mapas mostram que na maior parte do Nordeste ainda predominam taxas de analfabetismo superiores a 20% da população que já passou da idade escolar obrigatória. A mancha se espalha por todos os Estados da região e transborda para o norte de Minas Gerais e para o oeste do Pará e do Tocantins.
Enquanto na maior parte do Sul e do Sudeste, as regiões mais ricas do Brasil, a redução da taxa de analfabetismo de adultos foi superior a 30%, no Nordeste, onde o problema é mais grave, o avanço da alfabetização ficou abaixo desse patamar na maioria das cidades.
Por causa disso, a redução em um terço da desigualdade regional que aconteceu na renda não se repetiu no analfabetismo. Ao contrário. Em 2000, a proporção de analfabetos com 15 anos ou mais em Alagoas era 6 vezes maior do que no Distrito Federal. Em 2010 essa relação havia crescido para 7 vezes.
Há uma forte correlação negativa entre analfabetismo e renda: quanto menor o rendimento médio do município, maior a sua taxa de analfabetismo, e vice-versa. Mas não há relação direta de causa e efeito. Os dados de Censo 2010 mostram que não basta transferir dinheiro para as famílias mais pobres para reduzir o analfabetismo.
Programas como o Bolsa Família conseguiram promover a redução da taxa de analfabetismo da população em idade escolar (de 10 a 14 anos), porque as famílias com filhos nessa faixa etária têm que comprovar que as crianças estão frequentando a escola para receber o dinheiro. Nesse segmento, a queda do analfabetismo foi mais dramática no Nordeste do que em qualquer outra parte do País.
Mesmo assim, todos os Estados nordestinos continuam com taxas de analfabetismo de 10 a 14 anos superiores à média nacional, de 3,9%. O melhor no Nordeste é o Ceará, que reduziu a taxa de 14,2% para 5,4% em 10 anos. E o pior é Alagoas, que foi de 22,8% para 10,7%. O problema também é grave no Pará, no Amazonas e no Acre.
Taxas tão altas nessa faixa etária denunciam não apenas o precário estado do sistema de ensino local, como alimentam a perpetuação da taxa de analfabetismo de adultos. Crianças que ainda não aprenderam a ler e escrever após três ou quatro anos na escola tendem a abandoná-la e não se alfabetizarem mais. É uma fábrica de analfabetos.
O efeito da transferência de renda é nulo sobre a melhoria educacional da população acima de 15 anos, que não tem obrigação legal de ir à escola. Para diminuir as desigualdades regionais em educação e cortar drasticamente o analfabetismo é necessário um programa de alfabetização de adultos com alcance amplo nos Estados onde o problema é mais agudo, como Alagoas, Maranhão, Piauí e Paraíba. Mas não só lá.
Alagoinha do Piauí, perto da fronteira com o Ceará, tem a maior taxa de analfabetismo do Brasil: 44,4% da população de 15 anos ou mais. Em quantidade, porém, não são tantos assim os que não sabem ler e escrever: 2,5 mil.
Quando se trata de pessoas, os números absolutos são tão importantes quanto os porcentuais. E não há mais analfabetos em qualquer cidade do País do que no município de São Paulo: 279 mil. É um contingente maior do que o de 12 Estados brasileiros, como Sergipe, Amazonas, Espírito Santo, Mato Grosso e Santa Catarina.
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Veja a íntegra da pesquisa do Gallup
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Mateiros, no sudeste do Tocantins, era um vilarejo sem luz elétrica em 2000. Uma ponta de mapa na fronteira com Maranhão, Piauí e Bahia, lugar esquecido e seco, sem plantação ou criação de valor. Dez anos depois, Mateiros é conhecida como a capital do Jalapão, o deserto mais cenográfico do Brasil. E um polo agrícola emergente.
Graças ao ecoturismo, e a dezenas de milhares de hectares plantados de soja, milho e arroz, a renda média de seus habitantes foi de R$ 117 para R$ 1.110 por mês entre 2000 e 2010, um pulo de 1.667%, já descontada a inflação. De 5.417º cidade mais pobre, passou à 53º mais rica do Brasil. Seu PIB per capita bateu em R$ 45 mil por ano.
Transformações tão revolucionárias são raras, mas em 95% dos municípios do País houve ganhos de renda reais na década passada. E eles foram proporcionalmente maiores entre as localidades mais pobres. Como consequência, a desigualdade de renda entre os municípios brasileiros caiu 32%, ao longo dos últimos dez anos.

Em 2000, a renda média dos 1.110 municípios mais ricos era 4,7 vezes maior do que a dos 1.110 municípios mais pobres. Em 2010, segundo novos dados do Censo, essa proporção caiu para 3,2 vezes.
Em moeda atualizada, a renda média dos 20% de municípios que compõem a base da pirâmide brasileira era de R$ 155 por habitante por mês em 2000. Por causa do crescimento da economia, das transferências governamentais à população pobre e dos aumentos sucessivos do salário mínimo além da inflação essa renda média dos municípios em situação mais precária pulou para R$ 263. Foi um ganho médio de R$ 108 por habitante.
Ao mesmo tempo, a renda dos 20% de municípios que estão no topo da pirâmide nacional variou de R$ 725 para R$ 839. Foram R$ 114 a mais no bolso dos seus moradores, mas, proporcionalmente, o salto da renda dos mais pobres foi quatro vezes maior. Encurtaram, portanto, as distâncias econômicas e sociais entre o topo e a base.
Como regra geral, quanto mais pobre o município, maior foi seu ganho de renda. E não é difícil entender o porquê. A base de comparação é tão pequena que injetar R$ 100 por mês por habitante equivale a um aumento de 78% na renda média dos 550 municípios que compõem os 10% mais pobres do País.
Nos municípios do interior do Centro-Oeste, esses R$ 100 foram aportados, por exemplo, pela expansão da fronteira agrícola. Já no Norte e, principalmente, no Nordeste, foram os programas de transferência de renda como o Bolsa Família que incrementaram os ganhos da população mais pobre. Somem-se os aumentos reais do salário mínimo e seu efeito sobre aposentadorias e pensões e está explicado grande parte do aumento da renda na base da pirâmide.
Olhando-se o mapa da evolução da renda municipal entre 2000 e 2010 fica evidente onde os ganhos foram mais mais dramáticos.
As áreas vermelhas representam os municípios cuja renda diminuiu ao longo da última década, se descontarmos a inflação acumulada de 96% no período. Eles estão distribuídos por todo o mapa, mas têm menor incidência no Norte e Nordeste. Nessas duas regiões mais localidades viram sua renda per capita subir acima da média dos municípios brasileiros. São as áreas verdes do mapa.
O crescimento médio dos municípios da região Norte foi de 107% reais, contra 87% da média nacional. De 449 municípios dessa parte do País, 210 (o equivalente a 47%) cresceram acima da média dos 5.565 municípios brasileiros, e 37 tiveram redução da renda média entre 2000 e 2010. O destaque foi Mateiros (TO), dono do maior crescimento não apenas no Norte, mas em todo o Brasil.
O Nordeste foi a região cuja renda média municipal mais avançou na década: 118% acima da inflação. Nada menos do que 70% dos municípios nordestinos (1.256) cresceram acima da média nacional. Só 24 perderam renda. Proporcionalmente, o maior salto de renda se deu em Centro do Guilherme, no oeste maranhense: de R$ 152 para R$ 543, ou 562% de aumento real.
O crescimento médio dos municípios da região Sudeste foi de 58%, o mais baixo do País. De 1.666 municípios da região, apenas 391 (23%) cresceram acima da média dos municípios brasileiros. Nada menos do que 152 tiveram redução da renda média entre 2000 e 2010. Álvaro de Carvalho, em São Paulo, registrou a maior alta. Sua renda média pulou 437%, de R$ 179 para R$ 576.
O crescimento também foi proporcionalmente no interior do que nas capitais. A média de aumento real da renda dessas cidades foi bem baixa: 36% em 10 anos. Mesmo aquela onde o rendimento cresceu mais, Rio Branco (AC), teve um incremento de 62%, inferior à média nacional. O pior resultado foi o de São Paulo: apenas 4% de aumento acima da inflação.
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Ao longo da última década, caiu em um terço a desigualdade de renda entre municípios no Brasil. Os rendimentos dos moradores das 557 localidades mais pobres cresceram duas vezes mais rápido do que os das 557 localidades mais ricas. Resultado: o andar de baixo ficou mais parecido com o andar de cima.
Não que o Brasil tenha se transformado na Noruega, pois a renda média das cidades que formam os 10% do topo ainda é quatro vezes maior do que a dos 10% da base. Mas a aproximação dos extremos é boa notícia porque vai contra a tendência histórica brasileira. Dez anos atrás a diferença era de seis vezes.
O encurtamento da distância entre lugares ricos e pobres se deu pelo crescimento acelerado da renda dos municípios do Norte e, principalmente, do Nordeste. Entre 2000 e 2010, o rendimento médio das cidades nordestinas cresceu a uma velocidade 54% maior do que o das do Sudeste, por exemplo.
Os números divulgados até agora pelo IBGE sobre o Censo 2010 associados a outros estudos e pesquisas indicam que as molas que impulsionaram os municípios mais pobres foram as políticas federais de distribuição de renda, como o Bolsa Família, e os repetidos aumentos do salário mínimo acima da inflação.
Essas políticas se tornaram viáveis por causa da estabilização econômica e do controle da inflação ocorridas no período anterior. Mas a redução da disparidade regional só acelerou nos últimos dez anos. Houve uma reversão em relação à década de 90, quando as desigualdades ficaram imutáveis (Nordeste versus Sudeste), ou se aprofundaram (entre Sul e Norte).
As consequências dessa mudança brusca foram sentidas em múltiplas dimensões da sociedade brasileira, dos fluxos migratórios à geopolítica.
Na demografia, diminuiu a evasão populacional dos municípios mais pobres do Nordeste para os mais ricos do Sudeste. Com um cenário menos desigual, muitos viram uma oportunidade para voltar a seus Estados natais. Essa migração de retorno diminuiu a pressão por serviços básicos nas metrópoles do Sudeste. Ganharam quem voltou e quem ficou.
Na economia, o aumento da renda do andar de baixo fez girar um círculo virtuoso de consumo que propiciou o surgimento de um inédito mercado de massa. Pela primeira vez em muito tempo, o PIB (produto interno bruto) do Nordeste cresceu acima do das outras regiões do País.
Na política, PT e aliados se beneficiaram da memória imediata da população e faturaram a mudança cooptando eleitores que antes votavam nos seus adversários. Petistas e socialistas conquistaram governos e prefeituras importantes nos maiores estados nordestinos, como Bahia, Pernambuco e Ceará. Os votos do Norte e Nordeste ajudaram Lula a reeleger-se e a fazer sua sucessora.
E daí?
Não cola mais o argumento segundo o qual a única maneira de equilibrar o peso econômico do Sul/Sudeste é aumentar o peso político do Norte/Nordeste. Os desequilíbrios regionais estão diminuindo e isso não tem nada a ver com a desproporção representativa na Câmara dos Deputados e no Senado.
Ao contrário, a desigualdade entre pobres e ricos está menor apesar de o sistema eleitoral desrespeitar o princípio de uma pessoa um voto. As políticas nacionais de estabilização e promoção da renda básica provaram-se muito mais eficientes no combate às iniquidades regionais do que iniciativas divisionistas e paroquiais.
Destacados de Goiás, os municípios de Tocantins não tiveram desenvolvimento mais rápido do que os dos estados vizinhos. Palmas, a nova capital, sugou os recursos enviados pela União. Funcionou como ralo financeiro e populacional, drenando moradores das outras cidades tocantinenses. Sua renda é 2,5 vezes maior do que a média das demais.
Não é gastando com palácios e inchando burocracias estaduais que os moradores dos pretendidos novos estados de Carajás, Tapajós, Gurguéia e Maranhão do Sul vão melhorar de vida. A divisão beneficia apenas a pequena elite política que administra os recursos públicos. Concentra em vez de distribuir.
A União não faz necessariamente a força, mas sem ela não há redução de desigualdades regionais. Já o divisionismo é atalho conhecido para beneficiar poucos em detrimento de muitos. Além de reforçar o discurso xenófobo e separatista em estados que vão ajudar a pagar a conta. É óbvio: dividir não soma.
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Nova Ipixuna, onde foi assassinado o casal de líderes conservacionistas na semana passada, fica no coração do “polígono da violência”, região que se tornou a mais perigosa do Brasil nos últimos anos. Em nenhum outro lugar do País tantos municípios vizinhos compartilham um número tão grande de homicídios proporcionalmente à sua população.
São 13 municípios contíguos no sudeste do Pará (mais Tailândia, um pouco ao norte). Dividem fronteiras e taxas de assassinato superiores a 60 por 100 mil habitantes, na média de 2007 a 2009. O limite de 60 habitantes mortos intencionalmente a cada grupo de 100 mil é simbólico: é a mais alta taxa do planeta e também do Brasil se considerarmos países e estados.
O “polígono da violência” chegou a 91 homicídios por 100 mil moradores em 2009. Se fosse um estado, seria 50% mais sangrento do que Alagoas, o atual campeão. Se fosse um país, bateria Honduras e se consagraria como o mais violento do mundo.
Com 84 mil quilômetros quadrados, o polígono tem área equivalente à da Áustria. Uma das grandes diferenças é a densidade populacional, 10 vezes maior no país europeu. Outra é o número total de homicídios, 20 vezes maior nessa região do Pará.
José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo eram líderes extrativistas, como Chico Mendes. Em vez de sulcar seringueiras, coletavam castanhas. Como Chico Mendes, defendiam a floresta amazônica da devastação e estavam marcados para morrer. Como Chico Mendes, Zé Claudio cansou de falar das ameaças. Não adiantaram os avisos: as profecias se cumpriram, com 22 anos de intervalo.
O casal de preservacionistas foi tragado por uma espiral de violência que vem se agravando a cada ano na região, sem que nenhuma ação oficial tenha conseguido impedir seu crescimento. A taxa de homicídio no polígono pulou de 53/100 mil em 2002 para 67/100 mil em 2005, 73/100 mil em 2007 e 91/100 mil em 2009.
Nesses oito anos, 4.601 pessoas foram mortas nos 14 municípios do “polígono da violência”. O maior número ocorreu em Marabá, a capital do proposto estado de Carajás e maior cidade da região: 1.408 assassinatos de 2002 a 2009. É também um dos locais mais perigosos, com 133 homicídios por 100 mil habitantes em 2009.
Zé Cláudio era o porta-voz, e sua mulher, a fotógrafa. Juntos, documentavam e denunciavam o corte ilegal de madeira no entorno da reserva onde exploravam a castanha-do-Pará. Denunciavam por consciência e por necessidade: a castanheira é uma das maiores árvores da floresta, pode chegar a 50 metros de altura, com tronco de até 5 metros de diâmetro. Vive mais de 1 mil anos, se um madeireiro não a encontrar antes.
O mapa do desmatamento do Ministério do Meio Ambiente revela o estrago provocado pelas moto-serras no polígono (este aqui, da Imazon, também). A maior parte da mata foi substituída por pastos e umas poucas plantações. As raras manchas de floresta são áreas indígenas. Só na zona urbana de Nova Ipixuna contam-se seis serrarias, cercadas por centenas de pilhas de toras, grandes o suficiente de serem visíveis em imagens de satélite.
Com a mata desaparecendo, aumentam os conflitos entre extrativistas, madeireiros e carvoarias. Cada um, a seu modo, tenta aproveitar o pouco de floresta que restou. Uns coletam, outros derrubam.
A riqueza da região, porém, tem outras fontes. Maior jazida de ferro em exploração no mundo, o complexo de Carajás fica em Paraupebas, segundo maior município do polígono. O terceiro, Paragominas, vive da mineração e pecuária. E o quarto, Tucuruí, é a sede da maior hidrelétrica do norte do País. Todos ricos e perigosos.
O fato de cinco municípios do “polígono da violência” ficarem às margens do lago de Tucuruí levanta preocupação sobre o impacto que novas hidrelétricas, como Belo Monte, podem provocar na violência crescente na Amazônia.
As taxas recorde de homicídio no sudeste do Pará contrastam com o pequeno número de assassinatos nos municípios paraenses mais antigos, situados ao longo do rio Amazonas. A violência é muito maior nas áreas de ocupação recente, principalmente ao longo de rodovias como a Transamazônica e a PA-150, que permitiram a chegada de milhares de migrantes para garimpo, mineração ou corte de madeira.
É nas novas fronteiras econômicas ou nas zonas onde o modelo de exploração da madeira/garimpo está perto do esgotamento que as taxas de homicídio explodem. O fenômeno se repete no norte e oeste de Mato Grosso, em municípios como Apiacás e Colniza, e em Rondônia, em locais como Ariquemes e Buritis.
Em Rondônia, outro líder rural foi assassinado na semana passada. Adelino Ramos, sobrevivente do massacre de Corumbiara, foi morto a tiros num distrito longínquo da capital Porto Velho. No sábado, foi encontrado o corpo do agriculutor Eremilton Pereira dos Santos, a 7 quilômetros de onde Zé Claudio e Maria do Espírito Santo foram mortos, também em Nova Ipixuna.
Sem uma política nacional de segurança específica para essas regiões, a epidemia de assassinatos só tende a se agravar, e o polígono da violência, a se expandir e se multiplicar pelo interior do Brasil.
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Os dados sobre mortes e população foram extraídos do Sistema de Informações de Mortalidade, do Ministério da Saúde, tabulados e mapeados com ajuda dos programas TabWin e TabNet. As informações são públicas e podem ser checadas no site do Datasus.
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Há uma correlação entre a idade da mulher ao casar pela primeira vez e a média de anos de estudo da população feminina em idade reprodutiva. O gráfico abaixo (montado com ajuda do Gapminder World) mostra que os países com menor escolaridade feminina são os mesmos onde as mulheres casam mais jovens, como o Afeganistão (18 anos de idade e menos de 1 ano na escola) e em boa parte da África sub-saariana.
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À medida que cresce a média de anos de estudo, as mulheres tendem a se casar mais velhas. São os casos dos países europeus, na sua maioria. Destacam-se a Suécia (32 anos e 13 anos de escolaridade média) e a Noruega (32 e 14).
Os dados sugerem que casar mais tarde permite à mulher a oportunidade de estudar por mais tempo porque não sofre pressão do contrária do marido nem a necessidade de se dedicar à criação dos filhos. Como sempre, há exceções. No Uzbequistão, um país da ex-URSS, a média de escolaridade feminina é 50% maior do que a brasileira, mas as uzbeques se casam, em média, dois anos antes das brasileiras.
A correlação fica evidente também quando se comparam os dados através do tempo. As mulheres tendem, em praticamente todo o mundo, a se casarem cada vez mais velhas, e estão passando cada vez mais tempo na escola.
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A pirâmide que se transforma em ponta-de-lança: o evelhecimento da população brasileira nos infográficos do IBGE.
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O Congresso criou uma impossibilidade matemática e jogou a solução no colo da Justiça eleitoral: como transformar uma bancada de 17 em 24 sem aumentar o total de 513 deputados federais? Parece piada. Não é.
Um dos argumentos dos defensores da divisão do Pará em três Estados é que não haveria aumento da representação paraense na Câmara. Do mesmo modo, seria mantido o teto global de 513 deputados federais. A conta não fecha.
A Constituição estabelece que “nenhuma das unidades da Federação tenha menos de 8 ou mais de 70 deputados”. Ou seja, os novos Estados de Carajás e Tapajós teriam, juntos, 16 deputados federais, e o que sobrar do Pará teria, no mínimo, outros 8, totalizando 24 representantes na Câmara. A atual bancada paraense é de 17 deputados. Faltam 7, portanto, para a conta fechar.
O limite máximo de 513 deputados federais é estabelecido por lei complementar. O limite mínimo de 8 deputados por Estado é fixado pela Constituição. Se diminuísse, 11 unidades da Federação perderiam cadeiras: Roraima, Amapá, Acre, Tocantins, Rondônia, Amazonas, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Sergipe e Rio Grande do Norte.
Essas 11 UFs têm votos suficientes no Senado para barrar a mudança constitucional. Logo, se o Pará for mesmo dividido, o total de deputados deve subir para 520. As consequências disso são desastrosas, sob todos os sentidos.
Cada deputado custa, por baixo, R$ 27 milhões por legislatura. Os 7 novos sairiam pela bagatela de R$ 190 milhões. Mas a conta vai além: há as emendas parlamentares que implicam despesas no orçamento, a necessidade de construir anexos para abrigar os gabinetes dos novos parlamentares, mudanças para acomodá-los no plenário e por aí vai.
Somam-se as despesas com seis novos senadores, 48 novos deputados estaduais, a necessidade de construir edifícios para abrigar duas novas assembléias legislativas, dois novos governos estaduais, secretarias, tribunais de Justiça. E milhares de funcionários públicos para preencher esses prédios.
Além disso, as regiões a serem desmembradas não têm capacidade econômica para se sustentarem sozinhas. O economista Rogério Boueri, do Ipea, calculou para o site G1 que o governo federal teria que desembolsar R$ 2,2 bilhões por ano para cobrir as despesas de Carajás e Tapajós.
Esse é o custo financeiro direto. Mas há outras distorções embutidas nessa decisão tratada com indiferença pela Câmara. A principal delas é piorar ainda mais a representação da população brasileira no Congresso Nacional.
Com 9 Estados, a região Norte passaria a ser a mais forte politicamente no Senado, com 27 representantes, assim como o Nordeste. Mas cada senador nortista representaria menos de 600 mil pessoas, menos de um terço da representatividade de um senador nordestino, por exemplo.
Na Câmara, a bancada do Norte chegaria a 72 deputados federais. E, apesar de ter uma população só 13% maior do que o Centro-Oeste, teria 76% a mais de cadeiras (31 vagas) do que esta outra região.
Um dos riscos de retalhar o Pará é dar início a uma corrida para reequilibrar a distribuição de poder regional. Há propostas semelhantes para subdividir o Maranhão, o Piauí, a Bahia, o Mato Grosso, o Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, o Amazonas e Goiás.
Como ficou provado no caso paraense, as bancadas dos outros Estados tratam as propostas de subdivisão com um misto de desinteresse e leviandade, como se não houvesse implicações para a União nem para as outras unidades da Federação. Por isso, as proposições de plebiscito passam sem discussão.
Dessa maneira, a decisão final depende exclusivamente da “aprovação da população diretamente interessada”. Como sempre, o texto constitucional é dúbio. Qual é a população “diretamente interessada”? A da região de Carajás, a paraense ou a brasileira? Pelo tamanho da conta a ser paga, deveria ser a brasileira, mas o plebiscito deve se limitar ao Pará ou, até mais provável, apenas a Carajás/Tapajós.
A prevalecer essa interpretação e o descaso dos parlamentares com o tema, a multiplicação de novos Estados -como Gurguéia (PI), Pantanal e Mato Grosso do Norte- pode levar o Congresso Nacional a ganhar mais 36 deputados e 30 senadores.
E a conta é sua.
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Cinco fatos que convém você saber sobre como o Brasil está amadurecendo:
1..: A idade média da população brasileira aumentou três anos na última década: pulou de 29 anos em 2000 para 32 anos em 2010. O envelhecimento está acelerando: a idade média era de 27 anos em 1991.
2..: Em duas décadas, o peso das crianças no total da população diminuiu de 35% para 24%. Há 5,1 milhões a menos de brasileiros entre 0 e 14 anos hoje do que havia em 1991. Esse grupo abriga os jovens em idade escolar obrigatória.
3..: O segmento que mais ganhou importância na distribuição etária nos últimos 20 anos foi o dos brasileiros em idade de trabalhar. O grupo daqueles de 25 a 60 anos cresceu de 38% para 47% do total da população. Há 33,5 milhões a mais de brasileiros nessa faixa etária.
4..: O segundo estrato populacional que mais engordou desde 1991 foi o daqueles em tempo de se aposentar. Há cerca de 10 milhões a mais de pessoas com 60 anos de idade ou mais velhas, em comparação ao que havia duas décadas atrás. Já são 11% dos brasileiros e continuam subindo.
5..: O estrato jovem da população, entre 15 e 25 anos, cresceu 5 milhões desde 1991, mas estabilizou seu peso no total da população. Era de 19% há 20 anos, passou a 20% em 2000, e agora está em 18%. Sua tendência é lentamente diminuir de importância.
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Qual o significado das mudanças no perfil etário do brasileiro e quais as implicações dessa nova dinâmica populacional para o País?
Menos crianças significa menos demanda por escolas até o ensino fundamental. É uma chance para os governos de todas as esferas melhorarem a qualidade da educação pública, já que o problema da quantidade e do acesso à escola está encaminhado para uma solução natural.
Entretanto, os passos de tartaruga que carregam a evolução do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) refletem o quão pouco foi feito pela melhoria do ensino.
Daqui para frente, será necessário um esforço cada vez maior para aumentar a escolaridade média do brasileiro. As novas gerações de estudantes, por mais tempo que passem na escola, são menos numerosas do que as anteriores. Terão, portanto, um impacto proporcionalmente menor no grau de instrução da força de trabalho quando se formarem.
Quanto mais tempo for perdido sem investimentos sérios em educação, mais difícil será para o Brasil alcançar os países que deram um salto educacional nos últimos anos, como a Coreia do Sul. A oportunidade está passando sem ser aproveitada. A perda de tempo é irrecuperável.
Os governos Fernando Henrique e Lula se beneficiaram da janela demográfica que fez aumentar em quase 20 milhões a força de trabalho brasileira apenas nos últimos dez anos. Mais gente produzindo significa mais riqueza e melhor distribuição do peso exercido pelos dependentes (crianças e idosos) sobre quem está em idade ativa.
O governo Dilma deve continuar usufruindo dessa tendência, bem como o(a) próximo(a) presidente. Mas, ao mesmo tempo, surgem demandas inerentes ao envelhecimento da população: mais despesas com saúde, com procedimentos médicos caros, e crescimento exponencial do número de aposentadorias e pensões, para citar alguns exemplos.
É preciso previdência para sustentar o conjunto crescente de pacientes e aposentados. Trata-se de uma preocupação que os governantes devem ter, senão pelo bem comum, ao menos para garantir seu próprio futuro. Afinal, os políticos recebem mais aposentadorias do que quaisquer outros brasileiros.
A estabilização da proporção de jovens que deveriam estar no ensino médio ou na faculdade recomenda comedimento na abertura de novas vagas no ensino superior. Em vez de uma expansão ilimitada, melhor seria fechar vagas de administração e jornalismo e aumentar as de medicina e engenharia.
Num futuro não muito distante, o Brasil corre o risco de enfrentar uma bolha universitária semelhante à que os EUA temem que estoure em breve: os custos para pagar a faculdade são tão altos que o recém-formado não consegue um emprego que compense o que ele gastou para obter seu diploma.
Outro risco associado a uma menor proporção de jovens é o País perder capacidade de inovar. Por isso, melhor aproveitar a juventude atual para estimular o desenvolvimento tecnológico e a pesquisa científica.
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