José Roberto de Toledo - Estadao.com.br
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Não foi um debate. Foi uma sabatina. Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) só se dirigiram um ou outro nos cumprimentos iniciais e finais. Durante duas horas, responderam perguntas sorteadas de 12 eleitores, entre 80 indecisos presentes ao estúdio da Globo no Rio. Para uma campanha que foi a mais acalorada desde a de 1989, o desfecho não poderia ser mais frio.

O formato tem méritos: mostra os candidatos de corpo inteiro, obriga-os a se movimentarem, revela ângulos pouco favoráveis. Mas o conteúdo é tão pasteurizado quanto o dos debates tradicionais. Os eleitores faziam perguntas claras, objetivas, específicas, sobre suas dificuldades cotidianas. E os presidenciáveis respondiam de forma genérica, professoral e paternalista: “Ótima pergunta!”, “questão muito oportuna”, a não poder mais.

O debate talvez funcionasse melhor se fosse o eleitor a replicar, em vez do outro candidato. Assistiríamos provavelmente a momentos constrangedores, com o autor da pergunta retrucando algo como “eu queria saber o que vai acontecer com o valão de esgoto a céu aberto na minha rua, não o que o(a) senhor(a) respondeu”. Mas a Globo, como qualquer emissora, não abre chance para improvisos dos convidados.

Os eleitores indecisos são recrutados em uma operação de guerra por todo o país. Passam por pesquisas, filtros, testes. Seus patrões e familiares são convencidos a deixar que viagem. São embarcados para o Rio e lá recebem instruções detalhadas sobre como se comportar na hora H. Ensaiam.

Eles redigem as perguntas que farão, da própria cabeça e punho, mas as fichas são depois plastificadas, para evitar adendos de última hora. Se sorteado, o indeciso tem que ler o que escreveu sem mudar uma vírgula. Nada fora do roteiro.

No Twitter, a antropóloga Adriana Seixas sugeriu que, ao final, os 80 declarassem o voto, para saber qual candidato converteu mais eleitores para sua causa. Os debates da RedeTV! foram acompanhados por um grupo de pesquisa qualitativa, no primeiro e no segundo turno. O resultado não reflete o que pensa todo o eleitorado, mas é indicativo de como avaliam os candidatos.

O risco de fazer isso, que se comprovou, é um dos candidatos, oportunisticamente, se aproveitar de uma avaliação que lhe seja favorável para transformá-la em peça de campanha. No caso da Globo o risco seria menor, já que a propaganda eleitoral acabou à meia-noite. Mas, assim como os candidatos, a emissora optou por uma estratégia defensiva, sem se expor a contragolpes.

O último evento da campanha presidencial foi apenas isso, um marco do calendário eleitoral. Frio, sem confronto direto entre Dilma e Serra, não deve influir no resultado da eleição -como não influíram nenhum dos outros nove debates realizados entre o presidenciáveis em 2010. Sem conflito, prevalece a inércia.

Os quatro institutos que acompanharam a eleição desde o começo concordam que a inércia fovorece Dilma. Serra parece preferir acreditar em suas pesquisas internas de campanha que, alegadamente, mostram seu empate com a candidata do PT. O tucano conformou-se com as regras e nem sequer tentou confrontar a adversária durante o debate. Foi uma tática aparentemente de segurança, mas, no fundo, muito arriscada.

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Como sempre, José Serra (PSDB) foi mais desenvolto e loquaz do que Dilma Rousseff (PT) no debate, desta vez na TV Record. Mas o foco da disputa não lhe favoreceu. Afora as menções críticas que um fez ao outro, o tema mais citado no confronto não é bom para o tucano. “Petrobras”, “pré-sal”, “privatizar”, “petróleo” e “privatização” estiveram entre as palavras mais repetidas por ambos.

As 50 palavras mais repetidas por Dilma:

As 50 palavras mais repetidas por Serra:

“Dilma” foi a palavra mais citada por Serra. E a dupla de sinônimos “senhor” e “candidato” foi a que mais saiu da boca de Dilma. Nunca antes na história deste segundo turno essa coincidência tinha ocorrido (compare aqui). É o melhor indicativo de como o debate foi marcado pela tentativa recíproca de desqualificar o rival.

Em comparação ao debate da Band, quando surpreendeu pela agressividade, Dilma mudou de tática (algo que já havia ensaiado na RedeTV!). Em vez de tratar o adversário por “Serra”, procurou compensar a rispidez do conteúdo com a formalidade de tratamento, chamando-o de “candidato” e “senhor”.

Serra manteve a tática de chamar “Dilma” de “Dilma”, mas mudou a estratégia. Trocou o discurso de vítima, sua principal marca no debate da RedeTV!, pelos ataques e críticas à adversária. Mantendo o tratamento informal e soando mais ácido, às vezes irônico, o tucano correu o risco de parecer arrogante.

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Debate da RedeTV!, há oito dias. José Serra (PSDB) afirma com todas as letras, em referência ao caso Paulo Preto: “Eu sou a vítima”. A frase sintetizava uma nova estratégia, que era corroborada pelas suas queixas contra intimidações por militantes do PT. Dias depois ocorreu o “bolinhagate”, no Rio. Serra, atingido na cabeça, foi parar no hospital. Acusou Lula de incitar a violência.

Corta. Nova cena.

Debate da Record. Serra parte para o ataque a Dilma Rousseff (PT). Foi “combativo” em alguns títulos sobre o debate, “agressivo” em outros, ou “arrogante”, na provocação feita pela adversária. Mudou não só as palavras, como nas menções ao escândalo “Erenicegate”, mas também no gestual, nas expressões faciais, na voz e até na cor da gravata. Foi uma nova estratégia, a 180 graus da anterior.

Parênteses: Dilma foi confusa, desenvolta como um carro usando gasolina batizada, trocou palavras, não teve carisma. Mas ela tem sido assim em todos os debates. Não perdeu votos até agora por isso. Possivelmente porque seus eleitores não votam nela por suas qualidades pessoais, mas pelo que pensam que ela representa: continuidade. Fecha parênteses.

Ao mesmo tempo que Serra trocava de estratégia pela segunda vez em 15 dias, seu vice, Índio da Costa (DEM), dizia que todos os institutos estão errados, e apenas as pesquisas da campanha estão certas. Segundo o político, elas apontariam empate técnico entre Serra e Dilma.

Se é assim, por que mudar de estratégia novamente?

Ou a vitimização teve o efeito oposto ao esperado pelos estrategistas tucanos, ou as sondagens da campanha citadas por índio estão certas e, mesmo assim, Serra resolveu mudar uma estratégia vencedora. O que não parece plausível é conciliar as duas. “Vítima” “agressiva” não funciona.

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Compare os gráficos com as palavras mais repetidas por Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) durante o debate da RedeTV!, no domingo. São tão parecidos que o único jeito de diferenciá-los é pela quantidade de vezes que um citou o nome do outro.

Fora as menções ao adversário, petista e tucano falaram das mesmas coisas, apenas em ordem diferente: “Brasil”, “governo” e “São Paulo”. Foram as três palavras mais repetidas por ambos.

Mudam os adjetivos, mas a substância é igual: “o Brasil melhorou” versus “o Brasil pode melhorar mais”; “este governo fez isso” versus “o governo anterior fez aquilo”; “São Paulo tem problemas” versus “São Paulo é um exemplo”.

Wordle: Dilma debate RedeTV! 2T

Wordle: Serra RedeTV 2T

“Escola”, “educação”, “ensino” são também pontos em comum das 50 palavras mais repetidas por Dilma e Serra. E sempre associadas a “qualidade” e “profissionalizante” ou “técnico”. A mesma receita, o mesmo bolo.

Dilma falou mais “Petrobras” do que Serra. Como atalho para tentar ligar o adversário a privatização. Serra falou mais do PT do que a adversária, para tentar pregar a rejeição ao partido na rival.

Dilma se referiu a Serra principalmente por “candidato”. Serra tratou Dilma pelo primeiro nome, mais informal e menos respeitoso.

Os dois tiveram ainda outro ponto em comum: citaram pouco Lula, nominalmente. No caso de Serra, para não correr o risco de descontentar quem aprova o presidente. No caso de Dilma, como a prática se repete, deve ser uma estratégia. Criar uma identidade própria? Ou avalia que o apoio de Lula já rendeu os votos que podia render?

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Pesquisa qualitativa feita durante o debate da RedeTV! mostrou que, para eleitores indecisos paulistanos, José Serra (PSDB) foi um pouco melhor do que Dilma Rousseff (PT): ele manteve uma média mais alta, embora não muito, durante o confronto, foi melhor em mais blocos e, ao final, virou mais votos a seu favor.

Os resultados não podem ser extrapolados para todo o eleitorado brasileiro. Serve como indicativo dos pontos altos e baixos das falas dos presidenciávels. E dá pistas de quem foi melhor ou pior.

Numa escala que vai de 0 a 100 e 50 é o ponto de partida dos eleitores, Dilma e Serra nunca ficaram abaixo de 40, na média, nem ultrapassaram 75. O tucano passou mais tempo entre 60 e 70, enquanto a petista ficou mais vezes entre 50 e 60.

Ambos bateram em 75, mas Serra o fez mais vezes. Dilma chegou a 40, logo no primeiro bloco, ao enrolar-se em uma resposta sobre educação. Serra nunca teve menos do que 45.

O melhor momento do tucano foi quando falou de como o crack virou uma epidemia. Dilma foi melhor quando disse que o rival queria acabar com o Pro-Uni. Serra teve seu pior momento ao responder à pergunta sobre denúncias contra um membro de sua campanha, Paulo Preto, mas saiu melhor do que entrou na resposta, principalmente quando disse que o apelido dado a Paulo era racista.

Fazer pesquisa qualitativa em uma eleição é sempre difícil, especialmente em um pleito tão polarizado. Dos 27 participantes, 22 se declararam indecisos antes de o debate começar, 2 votaram em Serra e outros 2 em Dilma.

Esse teste é feito sempre, para confirmar que há equilíbrio na amostra e que a maioria está, de fato, indecisa. Como o teste mostrou, 4 eleitores mudaram de opinião entre a seleção e o início da pesquisa.

Uma das razões disso é que o indeciso é mais um eleitor iô-iô (apud Memélia Moreira), que vaivém de um candidato para outro, do que alguém que não faz a mínima ideia de em quem vai votar. Ele pode ter mais simpatia por um dos candidatos, mas não está decidido a votar nele. Tem dúvidas.

Isso fica claro no voto de seis dos participantes da pesquisa. Ao final de cada um dos cinco blocos, eles votaram sempre da mesma maneira: favoravelmente a Serra e contrariamente a Dilma. Haviam se declarado indecisos antes da pesquisa. Ao final, votaram em Serra.

Considerando-se a proporção em que os eleitores de Marina Silva (PV) se dividiram até agora entre Serra e Dilma, não seria surpresa se os indecisos remanescentes trilhassem os mesmos caminhos: metade para o tucano, um quarto para a petista e um quarto anulando ou votando em branco. Coincidência ou não, foi como se dividiram, ao final, os indecisos da qualitativa feita durante o debate.

O resultado favorece Serra, mas não é suficiente para elegê-lo. O tucano precisa cooptar eleitores que declaram voto em Dilma para obter a maioria absoluta.

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O que define os candidatos é o que os diferencia, não os lugares-comuns. Assim, vale a pena procurar nas nuvens abaixo (clique na imagem para ampliá-la) as palavras que um falou mais do que outro ou, de preferência, o que só um falou a ponto de aparecer entre as 50 mais ditas.

“Governo”, por exemplo, é uma palavra muito repetida por ambos porque cabe em várias acepções. José Serra (PSDB) costuma usá-la como sinônimo de administração, como em “governo Lula” ou “governo anterior”. Além disso, a palavra aparece nas menções aos governos estaduais.

Dilma Rousseff (PT) também emprega a palavra com frequência, muitas vezes para enfatizar a ligação com seu principal cabo-eleitoral, o presidente Lula, em expressões como “nosso governo”. Mas, para nenhum dos presidenciáveis, a repetição de “governo” é reveladora -salvo o desejo manifesto de chefiá-lo.

“Brasil”, no contexto das falas dos candidatos, também é um lugar-comum.

DILMA

Wordle: Dilma Band 2T

“Candidato” e “Serra” foram duas necessidades do discurso de Dilma. Sem elas, seria impossível para a petista empregar o tom incisivo que empregou contra o adversário. A petista tentou acuar o rival, por exemplo, tentando associá-lo a “privatização” da “Petrobras” e do “pré-sal”.

Dilma também tem suas manias. Adora explicar, com a ajuda de um “porque” aqui e ali. Tanto quanto gosta de cifras: “mil” e “milhões” nunca faltam em seu discurso. Outra constante, mas que apareceu menos em sua boca neste debate foi “Lula”.

A petista evitou falar diretamente de “aborto”, mas tangenciou o tema ao mencionar várias vezes “mulheres” e de “campanha” de “ódio”. Faltou bastante de “segurança”, um tanto de “saúde” e menos de “educação” -uma palavra que usou quatro vezes, sempre associada a “qualidade”.

O verbo chave da noite acabou fora da nuvem, porque Dilma só usou-o quatro vezes: “tergiversar” e suas conjugações. Sempre comentando as respostas do rival.

SERRA

Wordle: Serra Band 2T

Depois de “governo”, a palavra mais repetida por Serra é “relação”. Não, não se trata de discutir o relacionamento com ninguém. É um vício de linguagem. Durante o debate da Band, o tucano falou 15 vezes “em relação a…” Podia ser de “PT” a “cocaína”, passando pelos “genéricos”, Serra relacionou de tudo.

No grupo de palavras com número intermediário de citações destacam-se “Dilma”, “Lula” e “PT”. As diferentes menções aos adversários refletem as críticas e acusações feitas e rebatida pelo tucano.

Em palavras relacionadas ao seu tema predileto, “saúde”, Serra falou muito de “santas casas” e de “aborto”, um assunto quente neste segundo turno. Como mandam as pesquisas, falou também de “educação” e de “segurança”.

E, provocado pela adversária, falou bastante da “Petrobrás” e de “banco(s)”, embora tenha evitado associar essas duas palavras com privatização.

OBS: Nesses gráficos não aparecem as palavras mais comuns da língua portuguesa com até três letras, como “eu”. Os algarismos também ficam de fora.

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Dilma Rousseff (PT) partiu para o ataque a José Serra (PSDB) no debate da Band principalmente para recuperar o ânimo da militância do PT, abatido pela não-vitória no primeiro turno. O objetivo ficou evidente pela utilização de muitos trechos do debate durante o programa eleitoral da petista nesta segunda-feira.

Mas a nova atitude de Dilma marca uma outra diferença, mais sutil. Ela deixou de se comportar como quem, na definição de Lula, estava ganhando de 2 a 0 e só precisava esperar o jogo acabar. O partir para o ataque é sinal de que os petistas mudaram seu cenário eleitoral. Trabalham agora como se a eleição estivesse aberta, sem favoritos, e que, portanto, precisa ser ganha.

Eles estão certos nisso: a eleição está indefinida. A vantagem aparente de Dilma no Datafolha é uma garantia menor de vitória do que era sua margem no primeiro turno. Ou seja, não é garantia nenhuma.

Além disso, os petistas parecem estar convencidos de que sua candidata foi bem no debate. Ao ponto de confirmar a presença da Dilma no próximo confronto com Serra, marcado para este domingo, na RedeTV!. Resta saber se os eleitores concordam com essa avaliação.

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Os debates presidenciais sempre produzem pelo menos uma frase inesquecível. A desta noite foi dita por Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), aos 44 minutos do segundo tempo. Dirigindo-se ao eleitor, do alto dos seus 80 anos, tascou: “Não vote em mim por causa do meu passado; vote pelo meu futuro”.

A despeito das blagues e escorregões do candidato do PSOL, quem pode ter o que comemorar do debate da Record ocorrido nesta noite de domingo é Marina Silva. A candidata do PV teve sua melhor atuação em toda a campanha e foi firme ao cutucar tanto Dilma Rousseff (PT) quanto José Serra (PSDB). Sua participação pode ser resumida na frase que deixou o tucano sem reação: “Serra e Dilma são muito parecidos”.

Para quem vem subindo (lentamente) nas pesquisas, o bom desempenho no debate serve de combustível para sustentar a tendência. Talvez lhe renda mais alguns pontos nesta reta final. Uma parte desses eleitores deve vir de Dilma, e outra, eventualmente, de Serra. E esse é também o seu problema: quando tira votos do tucano, o jogo é de soma zero no que se refere às chances de levar a eleição para o segundo turno.

Nem Serra nem Dilma conseguiram melhorar seus desempenhos em debates. Ela, por falar como o motor de um carro a gasolina que foi abastecido com etanol. Ele, por não despertar a empatia do público. Não que ambos não tenham se esforçado. Serra não confrontou Dilma sobre os escândalos recentes, porque, como disse ao final do encontro, “quando tem muita pauleira, o espectador presta menos atenção no debate”.

É fato, mas mesmo sem pauleira, a audiência do programa, que começou com 13 pontos no Ibope, acabou com menos da metade, em quarto lugar no horário.

Mesmo sem ir bem, Dilma não perdeu. Ela jogou na retranca, tentando evitar tomar gols, sem procurar o ataque. E, principalmente, não perder a cabeça e tomar cartão vermelho -na metáfora de Lula. Conseguiu. Só no finalzinho, ante uma pergunta mais inconveniente, perdeu a paciência.

Mas a pista está ficando curta para novas decolagens de candidaturas adversárias. Nas contas de Dilma, só faltam um debate, o da TV Globo (o mais importante, pela audiência maior), e dois programas de TV dos rivais. Logo, as chances de aparecer uma nova bala de prata capaz de abatê-la está diminuindo.

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Veja quem disse o quê no debate entre os presidenciáveis, transmitido pela RedeTV!, no domingo. A seguir, as 50 palavras mais repetidas por candidato.

Plínio de Arruda Sampaio (PSOL):

Plinio VALEESTE RedeTV!

Marina Silva (PV):

Marina RedeTV!

José Serra (PSDB):

Serra RedeTV!

Dilma Rousseff (PT):

Dilma RedeTV!

Dilma falou mais porque recebeu seis perguntas dos adversários. Enquanto Serra, Marina e Plínio só foram alvo de duas questões cada um feitas por candidatos. Além disso, cada um deles respondeu três perguntas de jornalistas. Serra e Dilma tiveram um direito de resposta cada um.

Debate RedeTV!

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É o que se poderia chamar de “apanhar calada”. Dilma Rousseff (PT), ou sua ausência, foi o principal assunto do debate promovido pelo Estado e pela TV Gazeta na noite de quarta-feira. Seu nome foi citado 12 vezes pelos adversários, sem contar as menções indiretas, como “moça” (usada 7 vezes por Plínio de Arruda Sampaio) e “candidata” (empregada 6 vezes por José Serra e uma vez cada por Plínio e Marina Silva).

Ao todo, foram mais de 30 referências à candidata de Lula -nenhuma delas elogiosa. “Blefe”, por exemplo, foi uma das definições de Dilma cunhada por Plínio. O candidato do PSOL foi quem bateu mais duro na petista. Para ele, Dilma “não é do ramo”, “foi inventada”, “é uma invenção marqueteira”, “vai sempre com os capangas atrás”.

Serra também tirou sua casquinha: “Dilma foge ao debate”, ela “tem dificuldade para explicar com franqueza o que pensa”, tem Fernando Collor como cabo eleitoral, aumentou imposto sobre energia elétrica, “o PT, da candidata Dilma, tem estado por trás desses vazamentos (de impostos e contas bancárias)”, ela “terceiriza até o debate (é o presidente do partido e o presidente da República que falam por ela)”.

Marina pegou mais leve nas palavras (“a Dilma não respeitou nossas presenças” no debate), mas foi incisiva na crítica ao pronunciamento de Lula na propaganda de Dilma para defendê-la das acusações de violação de sigilo fiscal de aliados e familiares de Serra: “O presidente da República vem a público para dizer que as vítimas não têm nenhuma importância e sai apenas na defesa da sua candidata.”

A audiência do debate foi pequena, porque a transmissão da Gazeta tem uma abrangência muito limitada. Mas os efeitos da pancadaria verbal contra Dilma se multiplicaram pela internet, nas redes sociais e blogs. Pode-se argumentar que são apenas os adversários falando para adversários, uma pregação para eleitores já convertidos. Pode ser, mas a fuga do debate será explorada pelos rivas nos próximos encontros entre eles. E Dilma se verá novamente na defensiva, tendo que justificar seus atos e omissões.

………………………………………………..

José Serra, além de criticar a principal adversária repetidamente, falou de “saúde”, “segurança”, “trabalho” e, com menor ênfase, de “educação” e “impostos”. Ou seja, ficou dentro do discurso típico de sua campanha. Levou ao pé da letra o ditado de que “política é a arte da repetição”. Ao mencionar o vazamento de dados pessoais de seus familiares, Serra não mostrou a mesma indignação exibida ao abordar o tema em sua propaganda. Quando terá sido mais sincero? Eis o que ele disse:

(clique na imagem para ampliar)

(clique na imagem para ampliar)

Marina Silva incorreu na prática de sempre, e pareceu falar de um tema só, com diferentes palavras: “meio ambiente”, “ambiental”, “saneamento”, “licenciamento”, “florestas”, “naturais”, “esgoto tratado”. Mesmo quando falou de “desenvolvimento”, foi para tentar conciliá-lo com sustentabilidade. Seu momento alto foi quando criticou o governo Lula demonstrando indignação. Ainda esboçou um embate com Serra, mas não passou do esboço. Eis o que ela falou:

(clique na imagem para ampliar)

(clique na imagem para ampliar)

Plínio Sampaio manteve o papel de franco atirador. Como de hábito, foi o mais engraçado. Arrancou risos e até aplausos da plateia em mais de uma ocasião. Criticou Dilma, Lula e, com menos frequência, Serra e Marina (“tudo farinha do mesmo saco”). Falou de “educação pública”, de “igualdade” e, para rebater as “cifras” de Dilma (“são enganação”), enumerou as suas próprias, todas negativas para o governo federal. Nesse ponto, limitou seu eleitorado a quem acha “que está tudo errado”. Eis suas palavras:

(clique na imagem para ampliar)

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(coluna publicada na edição impressa do Estado)

É possível medir com precisão o desempenho dos candidatos em um debate eleitoral? Enquetes, a régua tradicional, são contaminadas pela preferência dos eleitores por um presidenciável ou outro. Uma alternativa é contar quanto cada debatedor falou, o que disse, como disse e a quem se dirigiu.

Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) falaram quase o dobro do que Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) durante o debate da Band. Porque fizeram um embate particular: o tucano interpelou a petista três vezes, e foi indagado em duas oportunidades por ela. Marina e Plínio só responderam, cada um, a uma pergunta de seus rivais.

Dilma e Serra criaram mais chances para aparecer. Mas não de convencer. Como o sucesso do Twitter e seu limite de 140 caracteres demonstra, moderar o discurso é melhor do que falar pelos cotovelos. Plínio foi o que menos falou, mas acabou como o mais falado. Exposição demais para quem se expressa mal é castigo.

Screen shot 2010-08-10 at 16.15.23

Mais do que qualquer outro presidenciável, Dilma respondeu a seis perguntas de adversários e a duas de jornalistas durante o debate, fora suas réplicas, tréplicas e considerações finais. Inexperiente, ela gaguejou, perdeu o fôlego, olhou para a câmera errada, estourou o tempo das respostas.

Dos quatro, foi quem mais empregou palavras longas (“oligopolizados”, “acessibilidade”, “prioritariamente”), usou termos técnicos (“bioma”, “política estruturante”) e abusou das siglas: UPPs, UPAs, SUS, SAMU. Teve uma recaída da mania por cifras: falou “milhões” 12 vezes, e 4 vezes “mil”, mais do que os seus três adversários somados.

Até as considerações finais, Dilma pronunciou 2.100 palavras, mas conseguiu a proeza de citar Lula apenas três vezes. E só a partir do terceiro bloco. Esquecimento ou tentativa de parecer independente? A primeira hipótese é mais lisonjeira para a petista.

Aplicada, Dilma abordou temas que as pesquisas mostram que os eleitores querem ouvir. Foi quem mais mencionou educação/ensino/escola. Também tentou falar de trabalho e emprego, um dos pontos altos do governo Lula, mas acabou arrastada por Serra para uma discussão interminável sobre mutirões, cirurgias e Apaes.

Saúde foi o assunto do tucano. Falou tanto que acabou tachado de hipocondríaco por Plínio.

Serra começou nervoso, a língua ressecada estalando no céu da boca. Acalmou-se vendo Dilma tropeçar. Confrontou a adversária (“você falou”, “você disse”, “você teve responsabilidade”) e ajudou-a a perder a concentração. Ele andava pra lá pra cá no estúdio da Band enquanto as câmeras miravam a petista.

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Serra teria sido o menos pior da noite, não houvesse um Plínio no meio do caminho. Ele fez o tucano se embananar, levando o debate para uma área desconfortável para Serra: a rural. O candidato do PSDB acabou qualificando propriedades de 80 hectares (o mesmo que 80 quarteirões) de “chácara de fim-de-semana”.

Aos 80 anos, o presidenciável do PSOL debateu como quem não tem nada a perder, e ganhou. Atazanou os três rivais e conversou com o telespectador, a quem se dirigiu com frequência e tratou por “você”.

Plínio usou frases e palavras mais curtas que os adversários, e concentrou todo o seu discurso em uma ideia: combate à desigualdade. É certo que pela expropriação, socialização e tudo o que mandam os manuais marxistas.

Foi o oposto de Marina. A verde fez uma pergunta para cada adversário. Sorriu. Não levantou a voz. Declamou poema. Foi quem mais falou de meio ambiente. Fez as frases mais longas e desfiou o vocabulário mais amplo. Se a eleição fosse de candidato mais bem comportado, seria favorita disparada. Mas é para presidente.

O desempenho dos presidenciáveis na Band deu uma medida do que serão os próximos debates: UOL, RedeTV!, Record, Estado/Gazeta e Globo. Desgastes e eventuais fugas devem influir nas intenções de voto, num processo de acumulação.

Debate não é luta de boxe. A ideia de que um candidato só ganha quando leva o oponente à lona projeta o desejo mórbido de ver um deles deitado em uma poça de sangue. Ninguém vira eleição com um golpe só, nem aprende a debater do dia para a noite. A vitória de um candidato é sempre por votos, nunca por nocaute.

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