“E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. (…) Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos”.
Em 1938, Graciliano Ramos vaticinava o destino de milhões de nordestinos nas décadas seguintes. A cíclica busca da sobrevivência em outra parte. Em 1963, Nelson Pereira dos Santos filmava Vidas secas no auge das migrações do Nordeste para o Sudeste. A essa altura, um menino fugido do agreste pernambucano aprendera coisas necessárias no Senai em São Paulo. A geração de Luiz Inácio Lula da Silva ajudaria a quebrar o ciclo.
O que foi sina para Fabiano/Aristides Inácio da Silva e Sinhá Vitória/Eurídice Ferreira, é história para seus netos. O saldo migratório do Nordeste para o Sudeste na década passada foi quase nulo: cerca de 50 mil pessoas. Se 992 mil nordestinos vieram, 940 mil voltaram para seus estados de origem desde São Paulo e Rio de Janeiro, principalmente. A principal causa dessa reversão é a diminuição das desigualdades regionais.
Enquanto o Sudeste saturou e ficou menos atraente, a economia do Nordeste cresceu acima da média nacional, tornando a região menos inóspita. A valorização do salário mínimo e a distribuição de renda -iniciadas no governo Fernando Henrique Cardoso e ampliadas no de Lula- garantiram a sobrevivência de quem antes só tinha alternativa na arribação. As cidades grandes do sul perderam vigor para prover emprego e realizar sonhos, de tão cheias de pessoas. No fim das contas, o sertão parou de mandar gente.
Se 11 milhões de nordestinos permanecem em terra desconhecida, sua proporção entre moradores de Sudeste é cadente, nem 9%. Emigrar menos é uma tendência nacional. Cada vez mais nativos compõem a população dos estados onde nasceram: de 49% de brasilienses no Distrito Federal a 96% de gaúchos no Rio Grande do Sul. Em quase todos os estados, a fatia de forasteiros é menor do que 10 anos atrás.
Entre as raras exceções, os paulistas em Santa Catarina pularam de 1,2% para 1,9% da população catarinense entre 2001 e 2009. Já somam 116 mil, ou 50 mil a mais do que há 10 anos. Esses novos bandeirantes não buscam índios guaranis como seus antepassados, mas qualidade de vida (por ironia, sua presença interfere negativamente na própria meta, ao inflacionar os preços locais).
Do mesmo modo como as comunidades de migrantes ajudaram a fixar novos baianos, pernambucanos e alagoanos em São Paulo, as redes sociais de conterrâneos atraem paulistas para solo catarinense. Amigos, parentes e conhecidos dão suporte uns aos outros e ajudam na transição.
Os 2,7 milhões de paulistas longe de São Paulo são responsáveis pelas maiores colônias de forasteiros em cinco estados: Ceará, Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná. Nisso, só encontram rivais nos mineiros. Os 4,4 milhões de nativos das Gerais que moram fora de Minas formam as maiores comunidades exóticas de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Distrito Federal e Goiás.
Entre emigrantes e imigrantes, o Sudeste perdeu 228 mil pessoas na década passada. De hospitaleira, a região passou a exportadora de gente. Fora a migração de retorno dos nordestinos, os principais destinos dos “exportados” foram o Sul (dos paulistas para Santa Catarina a paranaenses repatriados) e o Centro-Oeste.
Embora tenham perdido parte de seu magnetismo demográfico, as fronteiras agrícolas de Goiás e Mato Grosso e o entorno de Brasília ainda atraem muitos imigrantes inter-regionais. O Norte reverteu sua tradição de atrator de migrantes e perdeu mais gente do que recebeu na segunda metade da dácada passada. Pode ajudar a conter a devastação da Amazônia.
A redução da migração interna é uma oportunidade. Com mais igualdade de renda, novas gerações têm melhores chances de sucesso naquilo que a de Lula não conseguiu: diminuir também a disparidade educacional entre Nordeste e Sudeste, ter mais meninos em escolas aprendendo coisas difíceis e necessárias.
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O Congresso criou uma impossibilidade matemática e jogou a solução no colo da Justiça eleitoral: como transformar uma bancada de 17 em 24 sem aumentar o total de 513 deputados federais? Parece piada. Não é.
Um dos argumentos dos defensores da divisão do Pará em três Estados é que não haveria aumento da representação paraense na Câmara. Do mesmo modo, seria mantido o teto global de 513 deputados federais. A conta não fecha.
A Constituição estabelece que “nenhuma das unidades da Federação tenha menos de 8 ou mais de 70 deputados”. Ou seja, os novos Estados de Carajás e Tapajós teriam, juntos, 16 deputados federais, e o que sobrar do Pará teria, no mínimo, outros 8, totalizando 24 representantes na Câmara. A atual bancada paraense é de 17 deputados. Faltam 7, portanto, para a conta fechar.
O limite máximo de 513 deputados federais é estabelecido por lei complementar. O limite mínimo de 8 deputados por Estado é fixado pela Constituição. Se diminuísse, 11 unidades da Federação perderiam cadeiras: Roraima, Amapá, Acre, Tocantins, Rondônia, Amazonas, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Sergipe e Rio Grande do Norte.
Essas 11 UFs têm votos suficientes no Senado para barrar a mudança constitucional. Logo, se o Pará for mesmo dividido, o total de deputados deve subir para 520. As consequências disso são desastrosas, sob todos os sentidos.
Cada deputado custa, por baixo, R$ 27 milhões por legislatura. Os 7 novos sairiam pela bagatela de R$ 190 milhões. Mas a conta vai além: há as emendas parlamentares que implicam despesas no orçamento, a necessidade de construir anexos para abrigar os gabinetes dos novos parlamentares, mudanças para acomodá-los no plenário e por aí vai.
Somam-se as despesas com seis novos senadores, 48 novos deputados estaduais, a necessidade de construir edifícios para abrigar duas novas assembléias legislativas, dois novos governos estaduais, secretarias, tribunais de Justiça. E milhares de funcionários públicos para preencher esses prédios.
Além disso, as regiões a serem desmembradas não têm capacidade econômica para se sustentarem sozinhas. O economista Rogério Boueri, do Ipea, calculou para o site G1 que o governo federal teria que desembolsar R$ 2,2 bilhões por ano para cobrir as despesas de Carajás e Tapajós.
Esse é o custo financeiro direto. Mas há outras distorções embutidas nessa decisão tratada com indiferença pela Câmara. A principal delas é piorar ainda mais a representação da população brasileira no Congresso Nacional.
Com 9 Estados, a região Norte passaria a ser a mais forte politicamente no Senado, com 27 representantes, assim como o Nordeste. Mas cada senador nortista representaria menos de 600 mil pessoas, menos de um terço da representatividade de um senador nordestino, por exemplo.
Na Câmara, a bancada do Norte chegaria a 72 deputados federais. E, apesar de ter uma população só 13% maior do que o Centro-Oeste, teria 76% a mais de cadeiras (31 vagas) do que esta outra região.
Um dos riscos de retalhar o Pará é dar início a uma corrida para reequilibrar a distribuição de poder regional. Há propostas semelhantes para subdividir o Maranhão, o Piauí, a Bahia, o Mato Grosso, o Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, o Amazonas e Goiás.
Como ficou provado no caso paraense, as bancadas dos outros Estados tratam as propostas de subdivisão com um misto de desinteresse e leviandade, como se não houvesse implicações para a União nem para as outras unidades da Federação. Por isso, as proposições de plebiscito passam sem discussão.
Dessa maneira, a decisão final depende exclusivamente da “aprovação da população diretamente interessada”. Como sempre, o texto constitucional é dúbio. Qual é a população “diretamente interessada”? A da região de Carajás, a paraense ou a brasileira? Pelo tamanho da conta a ser paga, deveria ser a brasileira, mas o plebiscito deve se limitar ao Pará ou, até mais provável, apenas a Carajás/Tapajós.
A prevalecer essa interpretação e o descaso dos parlamentares com o tema, a multiplicação de novos Estados -como Gurguéia (PI), Pantanal e Mato Grosso do Norte- pode levar o Congresso Nacional a ganhar mais 36 deputados e 30 senadores.
E a conta é sua.
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Na campanha presidencial de 1960, Jânio Quadros repetia sempre o mesmo discurso moralizador em todos os comícios pelas capitais do País. Seu candidato a vice e 17 anos mais velho, o senador Milton Campos lançava um improviso diferente a cada parada da comitiva.
Querendo ser simpático com o companheiro que mais tarde trairia, Jânio puxou conversa com o vice. Demonstrou admiração com a capacidade inventiva do mineiro, sempre inovando o tema dos discursos. E Campos: “Não é imaginação, meu filho; é falta de memória mesmo”.
A presidente Dilma Rousseff está mais para Milton Campos do que para Jânio Quadros: especializa-se em moldar as palavras de acordo com a audiência. Não por falta de memória, mas por pragmatismo.
Foram 33 pronunciamentos oficiais no figurino de presidente, incluídos o discurso de diplomação no Tribunal Superior Eleitoral e o breve juramento de aceitação do cargo.
No conjunto das palavras mais usadas, destacam-se “Brasil” e “país”, o que é quase obrigatório. Em terceiro lugar vem “todos”, depois “governo” e “grande”. Esta última dupla é uma coincidência, não uma associação. Nada a ver com sua intervenção para trocar o comando da Vale.
São todos lugares-comuns nos discursos de qualquer presidente. Excluídos da análise, abrem espaço para os termos que diferenciam um governante do outro.
Dilma usa mais “mulheres” e “brasileiras” do que o antecessor. Pode parecer óbvio, mas não é. Ela intensificou as referências femininas desde a posse. É uma de suas marcas e, ao mesmo tempo, seu calcanhar-de-aquiles.
Apesar de entrar na história como primeira “presidenta” do País, durante toda a campanha eleitoral ela teve mais dificuldades para conquistar o voto feminino do que o masculino. A ênfase agora nas mulheres reforça sua identidade e é estratégica para sua popularidade.
De Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma aprendeu que, ao menos no discurso, “gente” e “povo” são mais importantes do que “milhões” e “bilhões”. Vis-a-vis seus pronunciamentos quando era uma presidenciável neófita, sua fala depois de eleita é mais “humana” e menos cifrada.
O melhor indicador do pragmatismo discursivo de Dilma é o emprego que faz da palavra-chave de sua eleição: “Lula”. Na campanha, ela usou o nome do patrono tanto quanto pode, para alavancar votos. Depois de eleita, a referência ao antecessor é recorrente, mas seletiva.
Nos seus 33 pronunciamentos presidenciais, Dilma falou o nome de Lula 58 vezes. Descontadas ocasiões em que citá-lo estaria fora do contexto, como no juramento presidencial, ou durante visita oficial à Argentina, a média de quase duas menções por discurso afasta insinuações de ingratidão ou de distanciamento entre criador e criatura.
Mas toda média omite detalhes reveladores. Nas duas vezes que foi ao Nordeste e discursou, Dilma esbanjou citações ao padrinho. Seu recorde foram nove “Lulas” ao falar durante o fórum de governadores nordestinos em Aracajú, em 21 de fevereiro.
Pouco mais de uma semana depois, de volta à região, Dilma tascou seis “Lulas” em um discurso em Irecê, na Bahia, e, horas mais tarde, em Salvador, repetiu o nome do antecessor mais três vezes. Em nenhum outro lugar do Brasil Lula é mais admirado do que no Nordeste.
Mas em um terço dos seus discursos, Dilma preferiu não mencionar Lula. Quando falou sobre a tragédia na região serrana do Rio de Janeiro, no fim de janeiro, ela talvez tenha feito um favor ao presidente que deixara o cargo havia menos de um mês ao não associá-lo ao desastre.
Dilma silenciou sobre Lula em outras situações onde era estratégico demonstrar independência: no seu primeiro pronunciamento em cadeia de rádio e TV, ao discursar no aniversário de 90 anos do jornal “Folha de S.Paulo” e ao receber a ordem do mérito das Forças Armadas, por exemplo.
O “Lulômetro” de Dilma é a contrapartida do “Dilmômetro” de Lula durante a campanha presidencial. Entre 2009 e 2010, a intenção de voto em Dilma cresceu na proporção que o então presidente repetia mais vezes o nome de sua candidata. Agora, pode ser um termômetro da relação dos dois. Por ora, indica estabilidade e pragmatismo.
Barack Obama foi aplaudido 23 vezes durante seu discurso no Teatro Municipal, no Rio de Janeiro. Citando Jorge Benjor, Paulo Coelho e fazendo referência ao filme Orfeu Negro, ganhou a simpatia entusiasmada da elite carioca.
Não havia sido diferente em Brasília. A políticos no Palácio do Planalto e a empresários no Itamaraty, o presidente norte-americano esbanjou charme e eloquência. Encaixou o discurso certo para cada público. Arrancou risadas um par de vezes, e uma dezena de aplausos.
Só não disse nada de concreto. Apoio para o Brasil obter a cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU? Fim do visto para entrada de brasileiros nos EUA? Suspensão das barreiras comerciais a produtos brasileiros no mercado norte-americano? Não foi desta vez.
O objetivo de Obama no Brasil ele deixou claro no discurso que fez para o seu eleitorado, pouco antes de embarcar para Brasília. A palavra que mais repetiu foi “jobs”. Tradução: as importações brasileiras, explicou, geram 250 mil empregos nos EUA.
Candidato à reeleição, o presidente norte-americano precisa reativar a economia dos EUA e, para isso, quer dobrar suas exportações. É essencial cativar mercados emergentes como o brasileiro, cuja economia cresce acima da média mundial. Palavras de Obama.
Em tempos de diplomacia comercial, quando presidentes de todos os continentes são mascates das empresas de seu país, Obama foi sincero quando disse aos cariocas que queria oferecer serviços e produtos norte-americanos para as Olimpíadas e Copa do Mundo.
Comercialmente, a turnê brasileira de Obama foi um sucesso. Veio, viu e vendeu.
Luz no vapor nuclear
Temendo que a radiação contamine seu território, o opaco regime chinês cobrou mais e melhores informações do Japão sobre o acidente na usina nuclear de Fukushima. Quando o risco é atômico, até quem faz da censura uma política de governo demanda transparência.
Os chineses estavam certos na cobrança, que foi endossada pelos EUA. A empresa responsável pela usina demorou a admitir o tamanho do estrago nos reatores e assim aumentou o risco corrido pelos japoneses.
Por isso, antes de o governo brasileiro pensar em construir mais quatro usinas nucleares, deveria pressionar o Senado para desengavetar e aprovar o projeto que garante livre acesso às informações públicas em poder do estado.
Só assim os vizinhos das usinas, novas e antigas, teriam alguma garantia de que os operadores dos reatores estão contando toda a verdade sobre eles.
Kadafi, o ecumênico
A cada hora após o início dos bombardeios contra a Líbia, Muamar Kadafi atribuía a um ator diferente a responsabilidade pelos ataques. Primeiro, culpou os “sionistas”. Depois, disse que a luta era contra os terroristas da Al-Qaeda. Finalmente, chamou os mísseis de “cruzados”.
Em sua eloquência metafórica, o ditador conseguiu pôr judeus, islâmicos e cristãos do mesmo lado: contra ele. Nem a ONU conseguiu uma aliança tão ecumênica para apoiar o ataque à Líbia.
Guerra de palavras à parte, os aviões e mísseis dos EUA, França e Itália, entre outros, são eficientes apenas para destruir a infra-estrutura, desbaratar a defesa anti-aérea, desconectar redes de comunicação e explodir tanques usados por Kadafi.
A eventual derrubada do ditador se dará no solo, para onde nenhum dos países aliados quer mandar tropas. É provável que enviem armas, contando que as forças rebeldes tenham capacidade de usá-las para tirar Kadafi do poder. É um tiro no escuro.
O ditador aposta em uma guerra longa. Sabe, por experiência, que o “cachorro louco” de hoje
pode voltar a ser o governante abraçado por Berlusconi anteontem, ou o comprador dos equipamentos nucleares franceses que Sarkozy tanto tentou vender à Líbia em 2007.
Cada dia a mais que Kadafi passe no poder aumentará a oposição à guerra dentro dos países da coalizão. Dá tempo para se questionar os dois pesos e duas medidas: os governos do Iêmen e do Bahrein também atiraram na própria população, sem sofrer sanções militares.
Enquanto isso, os civis líbios estarão no meio do fogo cruzado, ou pior: armados pelos dois lados, trocando tiros entre si.
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Imagine se o cozinheiro do restaurante onde você almoça não comesse ali por preferir ingredientes de primeira. Se o mecânico que conserta seu carro levasse o dele a outra oficina, mais confiável. Ou se o gerente da sua conta aplicasse o próprio dinheiro em outro banco, onde é mais bem atendido. O que você faria?
Pois quem administra o sistema público de saúde prefere ter um plano complementar para receber atendimento, provavelmente melhor, em hospitais e clínicas particulares. É um direito deles, inalienável.
O único senão é que você também paga para que funcionários do Ministério da Saúde tenham um sistema de assistência médica particular, que lhes permite serem tratados em instalações mais bem equipadas, com menos filas do que as públicas.
Apenas em 2010, o Ministério da Saúde desembolsou R$ 99,3 milhões em pagamentos à GEAP Fundação de Seguridade Social, a título de “assistência médica aos servidores, empregados e seus dependentes”.
Supondo-se que os serviços médicos, hospitalares, odontológicos e laboratoriais tenham sido prestados a todos os servidores do ministério, a fatura ficou em R$ 1.885 por cabeça.
O Piso de Atenção Básica à saúde, um dos pilares financeiros do Sistema Único de Saúde (SUS), usa como referência o mesmo valor de despesas por habitante desde 1996: R$ 10. Proporcionalmente, os gastos com a GEAP são 188 vezes maiores.
Fundada em 1945, a GEAP é uma operadora de saúde sem fins de lucro. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a entidade funciona na base da “autogestão multipatrocinada”.
Multipatrocinada de fato. Os funcionários da saúde não são os únicos beneficiados pela benemerência governamental com o seu, o meu, o nosso.
Nada menos do que 49 órgãos federais -de universidades ao Ministério do Esporte, passando pela Presidência da República e até um hospital universitário- fizeram pagamentos à GEAP pela prestação de serviços a seus servidores em 2010.
Somando tudo, o governo federal desembolsou R$ 223 milhões para pagar por serviços privados de saúde a funcionários públicos federais via GEAP. Isso apenas no ano passado.
Entre 2004 e 2010, a GEAP recebeu a bagatela de R$ 1,8 bilhão dos cofres federais. Foi a segunda entidade sem fins lucrativos que mais recebeu dinheiro público nesse período.
Enquanto o governo tenta cortar gastos e equilibrar as contas, é de se imaginar o que os dirigentes das instituições federais que gastam com a GEAP fariam com centenas de milhões de reais a mais em seus orçamentos. Talvez nem precisassem penalizar a imensa maioria da população cortando outros programas.
É um privilégio ter um plano médico particular em um país onde a saúde é historicamente o setor mais mal avaliado do serviço público. Mas o governo pagar para que quem toca o SUS não use o SUS melhora ou piora o serviço?
Há mais de uma década o Tribunal de Contas da União questiona a legalidade dos contratos entre a GEAP e o governo, sem muito sucesso. Em 2010, o Ministério Público solicitou que os órgãos públicos federais sustassem os pagamentos à fundação.
O imbróglio jurídico se deve à concorrência, supostamente desleal, com outros planos de saúde. Lei de licitações à parte, a novela GEAP x TCU lembra mais uma disputa comercial do que de princípios.
Há uma questão anterior, mais importante: a cultura dos privilégios a poucos com dinheiro de todos. Se há um sistema teoricamente único e público de saúde, por que a União dispersa seus recursos pagando por serviços privados concorrentes? É único só para os outros?
Quando a elite funcional, econômica ou política deixa de usar um serviço público ele só tende a piorar. É assim com a educação, com o transporte e com a saúde.
Se o governo investisse esse dinheiro na rede pública, talvez mais hospitais fossem tão bons quanto o Sarah Kubitschek de Brasília. A Associação das Pioneiras Sociais, gestora da rede Sarah, é a entidade sem fins lucrativos que mais recebe verba federal: R$ 3,4 bilhões desde 2004. Seu serviço é público, gratuito e auditado pelo TCU.
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O brasileiro é antes de tudo um consumidor. Na economia, o consumo das famílias impulsionou o maior salto econômico do País em um quarto de século. Na Justiça, a maior parte da pilha acumulada é de ações movidas por consumidores insatisfeitos. Na política, o bolso do eleitor decidiu todas as campanhas presidenciais recentes.
As razões que comandaram esse processo são conhecidas: décadas de estagflação, séculos de exclusão. A histórica falta de renda e de crédito para a maioria da população criou uma demanda reprimida de dezenas de milhões de não-consumidores. Gente que só podia olhar a vitrine.
Quando o dique rompeu, a onda de consumo encheu as lojas, inundou os tribunais e levou de enxurrada tudo o que dificultava o acesso às gôndolas dos mercados. Não se pode dizer que ela lavou a política, mas fez naufragar alguns partidos. Outros emergiram.
As consequências de o Brasil estar se tornando uma nação de consumidores ávidos vão muito além do provinciano confronto PT-PSDB. É uma questão de prioridades, do que é mais importante para os habitantes de Pindorama.
Isso tem impacto direto sobre o exercício da cidadania. Tome-se a pesquisa que a Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas faz a cada três meses em todo o Brasil sobre a confiança no Judiciário e o que motiva alguém a pisar num tribunal.
Pouco menos de metade dos brasileiros adultos declarou já ter movido algum tipo de ação na Justiça. Desses, 1 em cada 3 foi movido por cobranças indevidas, serviços pagos e não realizados, ou seja, por julgarem que seus direitos de consumidor não foram respeitados.
Nenhum outro tipo de demanda judicial provocou a abertura de tantos processos. Nem mesmo as ações trabalhistas (25%), como pedidos de indenização. Tampouco as queixas relativas ao direito da família, como divórcios, pensões, guarda dos filhos.
Do ponto de vista do movimento da Justiça brasileira, o consumidor vem antes do trabalhador, do cônjuge, dos pais. Não se faz aqui juízo moral, não se pretende tachar esse movimento de bom ou ruim. Antes, é preciso constatar sua amplitude.
Fernando Henrique se elegeu presidente após controlar a inflação. Reelegeu-se quando os neoconsumidores temeram que ela voltasse. Quatro anos de estagnação econômica depois, os mesmos eleitores arriscaram uma mudança. Sob Lula, o consumo explodiu. Ele se reelegeu, fez a sucessora.
A cronologia que antepõe o acesso ao consumo à vitória eleitoral soa simplista, mas é factual. Difícil encontrar correlação mais forte nas eleições presidenciais. Em todas, ganhou o candidato que conseguiu vender a si mesmo como o caminho mais seguro do consumidor até o mercado.
Estão erradas todas as pesquisas que sempre apontam educação, saúde e segurança como os temas que mais preocupam os brasileiros? As pessoas mentem aos pesquisadores? Não e não (ao menos a maioria). Mas nem sempre o que se diz a si próprio ser o mais importante é o que se faz primeiro. O mesmo vale para o eleitor.
É politicamente correto declarar que o interesse individual deve se submeter ao coletivo. Mas não é apenas em Brasília que a ordem dessas prioridades é invertida. Na solidão da cabine de votação também.
O resultado da urna não é uma declaração de boas intenções, mas a soma dos interesses individuais da maioria. Se o principal símbolo de status social são os bens que cada um possui, não deveria espantar que o candidato que parecesse mais apto a distribuí-los a mais gente vença.
Pode-se imaginar que isso é uma etapa. Que quando a maioria puder comprar os mesmos carros, roupas e grifes, os sinais de diferenciação social tenderão a mudar.
Pesquisas mostram que uma das ambições do neoconsumidor é ser socialmente aceito nos ambientes que passou a frequentar. Saber “se comportar” é uma preocupação. É sinal de que priorizar de fato a instrução será o passo seguinte ao acesso ao consumo?
Pode ser otimismo, mas é também uma necessidade coletiva. Nenhum país conseguiu sustentar seu crescimento econômico sem investir na qualificação de sua mão-de-obra, ou seja, na educação da população.
Cenário: maior inflação em 68 meses; produção industrial desacelerando, principalmente no Nordeste; problemas nas contas externas; blecautes em vários estados.
Ações: anúncio do mais profundo corte de gastos federais em oito anos; congelamento de concursos públicos; reajuste de salário mínimo menor do que a inflação (dos mais pobres); alta dos juros.
Dilma Rousseff está começando seu governo como Lula iniciou seu primeiro mandato: com um freio de arrumação. Que a freada é necessária, poucos discutem. A herança foi politicamente generosa, mas tem conflitos e pendências econômicas inadiáveis.
A presidente parece querer fazer o mal de uma vez só e logo. A fórmula deu certo com o antecessor, e é recomendada há mais de 500 anos por especialistas em marketing político. Inventor da profissão, Nicolau Maquiavel virou adjetivo colocando o conselho no papel.
A aplicação da dica, todavia, requer algum talento. Fernando Collor seguiu o manual ao pé da letra. Arrepiou o esqueleto do florentino ao confiscar, de cara, a conta corrente da população. Mas esqueceu da segunda parte, distribuir bondades a prestação. O resultado é conhecido.
Como há 20 anos, a reação atual dos analistas econômicos oscilou entre a perplexidade e a aprovação escancarada. Não que isso queira dizer muita coisa, mas o boletim do primeiro mês de Dilma na Presidência veio repleto de elogios dos mestres na matéria.
Os cortes também excitaram o faro da oposição. Por um instante, os candidatos a candidato tucano deixaram de trocar bicadas entre si e viraram seus discursos, piadas e entrevistas contra a rival estacionada no Palácio do Planalto.
Aécio Neves saiu do muro ao dizer, resumidamente, que cortes são necessários porque o Brasil não é cor-de-rosa como o PT pintou-o na campanha eleitoral. Mas gaguejou na mineirice e a frase saiu longa demais para virar uma manchete.
José Serra precisou de três twitts para criticar o pronunciamento de Dilma na TV. A presidente tentou criar uma “agenda positiva” em meio aos cortes e anunciou um programa de bolsas para o ensino técnico. Serra ironizou, sem sucesso, e depois explicou a piada:
“O governo do PT copiou uma ideia nossa. Não esperava que eles dessem o crédito da autoria. Mas é bom saber como funcionam: na campanha, execram, no governo copiam, em geral mal.”
Geraldo Alckmin foi mais curto: anunciou salário mínimo de R$ 600 em São Paulo e prometeu contratar 25 mil professores para a rede pública de ensino. Que falta fazem uma caneta e um Diário Oficial, devem ter pensado os ex-governadores Aécio e Serra.
E assim, o menos cotado dos três tucanos, faturou melhor a freada de Dilma, por enquanto.
A corrida, todavia, é uma maratona. Começar na frente ou atrás não faz tanta diferença assim. Fernando Henrique e Lula tropeçaram em muitos obstáculos nos seus longos caminhos até a cadeira presidencial. Conseguiram atropelar na reta final. Tiveram sorte também.
Se o retrospecto valer algo, a curva de popularidade de Dilma deverá baixar em comparação à expectativa antes da posse. Nenhum antecessor conseguiu sustentá-la depois de empossado. Nem Lula, que só foi equipará-la (e ultrapassá-la) depois de muitos anos de governo.
A questão é o quanto vai baixar. O pacote de maldades foi apenas anunciado. Seu efeito ainda não aconteceu. Vai demorar uns meses até os eleitores sentirem no bolso.
Além disso, há o tradicional período de carência que a população concede a todo governante, um voto de boa vontade, que, no Brasil, coincide com as férias de verão e o pré-Carnaval. Assim, será nas Cinzas o primeiro teste de popularidade de Dilma.
Mas será necessário esperar passar a Quaresma e o acúmulo de algumas sondagens para poder avaliar se o mal no começo foi ou não um mau começo.
A repetição da estratégia de Lula por Dilma vai botar à prova duas vertentes que tentam explicar a popularidade recorde do ex-presidente: o sucesso econômico versus o carisma pessoal. Os conselheiros maquiavélicos devem acreditar na primeira hipótese.
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Sonolento balneário do sul da Bahia, Santo André vive do turismo. São duas ruas apenas: a da praia é dominada por pousadas e restaurantes cujos donos falam português com sotaque. Os cardápios dão a volta ao mundo, mas é preciso rodar para encontrar uma moqueca.
O vilarejo tinha tudo para ser um destino privilegiado e exclusivo de VIPs internacionais. Privilegiado ainda é. Exclusivo, nem tanto. Quem tem movimentado a economia local são os turistas de outra sigla, a CVC.
Os “barões”, como os nativos chamam os viajantes endinheirados, só passeiam por lá durante os meses de verão. No resto do ano, grande parte dos estabelecimentos fecha as portas, seus donos voltam para a Europa, seus chefs vão destrinchar peitos de pato em outras cozinhas.
Um dos poucos abertos 365 dias é o maior empreendimento turístico da praia, o Costa Brasilis. Resort com arquitetura e decoração para agradar ao baronato, passou a oferecer pacotes de uma semana por 10 parcelas de R$ 130 (“aéreo” incluído). O preço mal paga duas faxinas em São Paulo.
Os comerciantes locais descobriram que, ao contrário do turista nobre, vale a pena investir no ex-pobre. Enquanto os primeiros ficavam entocados e intocados no resort, os novos viajantes se dispõem a explorar pratos além do buffet -desde que se ofereça táxi grátis na ida e volta do restaurante.
O neoturista desce no aeroporto de Porto Seguro, sobe em um ônibus amarelo ovo de janelas panorâmicas e 38 quilômetros, 29 quebra-molas, duas aldeias indígenas e uma balsa depois desembarca no seu hotel de luxo. Piscinas, jacuzzis e praias semi-virgens (sic) o aguardam, promete a propaganda.
O trecho menos glamuroso é entre o avião e o ônibus. O aeródromo de Porto Seguro é o único no Brasil que recebe voos internacionais a ser administrado por uma empresa privada. O feito é anunciado com orgulho no site da Sinart. A propósito, a sigla vem de Sociedade Nacional de Apoio Rodoviário Turístico. Seu forte são rodoviárias.
A convivência no veraneio é pacífica entre descolados e deslocados. A praia é grande e demarcada. Na ponta de areia formada pelo encontro das águas doce e salgada há uma pororoca diária. Nada a ver com as marés. A onda é humana e corre do rio para o mar.
Uma vez por dia, outra parte da “família CVC” desce desde Cabrália a bordo de duas chalanas. Centenas de alegres turistas vão passar algumas horas nos guarda-sóis e barracas que os esperam na barra. Muitas caipirinhas e águas de coco depois, voltam ao seu porto seguro.
À distância, a cena da prancha caindo sobre a praia, seguida do aglomerado deixando a chalana em ordem unida, poderia lembrar o movimento das balsas que povoaram as fazendas de pecuária da região do Araguaia, no sul do Pará, nos anos 70. Mas boi não dança axé.
A rotina silenciosa de Santo André é quebrada momentaneamente por uma terceira vaga diária. São as escunas que descem o rio e passam ao largo da costa até Coroa Alta(*). A cada rajada de vento ouvem-se, na praia, trechos entrecortados da música de bordo: “muito assanhada (…) lapada (…) rachada”.
Na maré baixa, o horizonte divisa um ilhote de areia avermelhada e o que parecem centenas de gravetos espetados n’água. São, na verdade, os passageiros das escunas, passeando pelas faces descobertas de uma extensa barreira de coral, a quilômetros da costa. Na volta, eles param para almoçar em um restaurante a beira-rio.
Nenhum morador dá pistas de estar ficando milionário, mas o dinheiro circula. E assim, graças cada vez mais ao turismo de massa e cada vez menos ao exclusivismo da classe A gargalhada (A-A-A…), Santo André vai passando seus verões, sem perder a tranquilidade.
Não foi preciso reivindicar um policial permanente para a vila. Se alguém rouba algo, dizem os andreenses, avisa-se os operadores da balsa, e a cana aguarda o imprevidente larápio do outro lado da travessia.
PS: Após a publicação desta coluna, a CVC mudou o preço do pacote para o Costa Brasilis. Agora é 10 de R$ 99,80.
(*) O texto original, equivocadamente, se referia a Coroa Grande.
Há uma traça roendo o cabeçalho virtual dos processos no Supremo Tribunal Federal. Ela é seletiva: apaga na internet apenas o nome dos réus, e troca pelas iniciais. Graças ao repórter Felipe Recondo, do Estado, sabemos que políticos sub judicie foram ajudados pelo “bug”.
O “J B J R” denunciado em inquérito por estelionato e formação de quadrilha é o senador João Ribeiro (PR-TO). E o “A R R G DA S” que pediu habeas corpus para sair da prisão preventiva é o prefeito de Macapá, Roberto Góes (PDT).
Mas quais os nomes de “U A P”, funcionário público processado por crime contra a administração, ou do senador “J B P P”, acusado de usar documento falso? Quem é o prefeito cearense “E R”, réu por crime de responsabilidade? Só privilegiados podem saber.
Não são exceções nem casos secretos. Trata-se de uma nova regra do STF, defendida por seu presidente, Cezar Peluso, e que deve ser aplicada inclusive aos processos não protegidos por segredo de Justiça. O motivo? Preservar a honra dos réus.
Seria bonito, se não fosse obscurantista e discriminatório. Pela lógica de Peluso, uns poucos iluminados têm o discernimento necessário e, portanto, o direito de ter acesso a informações públicas. Os ignaros que formamos o resto majoritário da sociedade não.
Nada a ver com o WikiLeaks e o vazamento de informações secretas ou confidenciais. Trata-se, no caso do STF, da simples divulgação daquilo que é de interesse coletivo, e que, em última análise, pertence à sociedade: dados públicos em poder do estado.
Um dos maiores ganhos da incensada democracia digital é dar acesso instantâneo, para qualquer um, ao que se encontra sob tutela dos poderosos. Afinal, ter informação é o primeiro passo para o cidadão fiscalizar os feitos, bons e maus, de governantes, juízes e congressistas.
Como escreveu Louis Brandeis (1856-1941), um dos mais influentes ministros da Suprema Corte dos EUA: “A luz do sol é o melhor desinfetante”. Ele criou a metáfora para defender a transparência em casos de interesse público, sempre.
A luz ou a escuridão devem valer para todos. Assim, se os poderosos podem se beneficiar do anonimato proporcionado pela caixa preta do STF, por que não generalizar para os cidadãos comuns acusados pela polícia, denunciados e julgados em primeira instância?
O ministro Peluso deveria estender a regra contra o que chama de “divulgação desnecessária” a todo o sistema judicial, inclusive, quem sabe, às transmissões ao vivo das sessões plenárias de sua corte pela TV Justiça. Mas parece nem sequer tê-la discutido com os colegas de tribunal.
Segundo reportagem do Estado, o ministro Marco Aurélio Mello se opõe ao uso das iniciais e disse que os nomes serão escritos na íntegra nos processos sob sua responsabilidade.
Ou seja, a regra de Peluso não é regra. Prevalece o lugar-comum “cada cabeça uma sentença”. Um ministro decidirá que o nome do réu deve se tornar público, o outro não? Como se escreveria no site do STF, o tribunal não pode correr o risco de virar a “C da M J”.
Um cidadão polido poderia perguntar: “Não há lei para regular essa zona?” A resposta é “ainda não”.
Aprovado há meses na Câmara, o projeto de lei que garante acesso às informações públicas vai entrar em 2011 dormitando nos escaninhos do Senado (nem sempre os parlamentares têm a mesma agilidade demostrada ao aprovar o aumento dos próprios salários).
Assim, o Brasil completará mais um ano como uma das raras democracias que não regulamentou o seu, o meu, o nosso direito de saber o que há nas gavetas e arquivos públicos. A lei dos EUA tem mais de 40 anos. A do México é uma das mais avançadas do mundo.
O projeto de lei brasileiro foi apresentado pelo governo federal, mas só depois de haver muita pressão por parte da chamada sociedade civil, principalmente através do Fórum de Acesso a Informações Públicas, que reúne organizações não-governamentais como Transparência Brasil, Abraji e OAB.
Pelo que o STF já demonstrou, se a sociedade não voltar à carga, não apenas o projeto da lei de acesso vai criar teias de aranha no Senado, como há o perigo iminente de retrocesso. Iniciativas para dar à luz informações de interesse público são sempre um parto a forceps.
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Pesquisa não elege ninguém. No máximo, ajuda ou atrapalha candidatos a levantar dinheiro, anima ou deprime seus cabos-eleitorais. Porém, gasta-se mais tempo discutindo o sexo das pesquisas do que analisando-se os erros induzidos pelo sistema de votação no Brasil.
A adoção do voto eletrônico aumentou drasticamente o acerto formal do eleitor nos últimos 12 anos. A urna informatizada ajudou milhões de brasileiros a concretizarem a intenção de sufragar seus candidatos, de todos os partidos.
O gráfico ilustra o momento em que os votos válidos para todos os cargos eletivos convergiram para valores muito próximos. Foi na eleição de 1998, quando a Justiça eleitoral implantou a urna eletrônica na grande maioria dos municípios brasileiros.
Até então, a dificuldade de escrever impedia grande parte do eleitorado de transformar seu desejo em marca legível na cédula. Isso ficava evidente nas eleições de deputado estadual e federal. À época, confundia-se problemas no manejo do lápis com voto de protesto.
Trocada a grafia pela digitação, instantaneamente despencaram as taxas de brancos e nulos, multiplicando os porcentuais de votos válidos para Câmara e Assembléia.
Em 2002, universalizou-se o voto eletrônico. Aumentaram os votos válidos para presidente, mas, surpreendentemente, eles ficaram aquém dos dados a deputados estaduais e federais. Não era mais motivo de comemoração, mas sinal de que havia algo errado.
É um sintoma de outro tipo de engano do eleitor, até hoje tratado com indiferença pela Justiça eleitoral e propositalmente ignorado pelo Congresso: o erro na sequência de votação.
Bombardeado por centenas de horas de propaganda na TV e no rádio, dezenas de manchetes de jornal, milhares de mensagens via internet, todas sobre eleição presidencial, o eleitor chega à urna e a primeira coisa que lhe pedem é votar para… deputado estadual.
A cena repetiu-se milhões de vezes. O eleitor sai da cabine e o mesário avisa que ele ainda não terminou. Ele diz que sim. O mesário explica: são seis votos, precisa digitar todos. Envergonhado diante da fila, o eleitor se livra dos votos restantes cada vez mais apressado. O último é para presidente.
Sabe-se que o erro na ordem de votação chegou aos sete dígitos no primeiro turno de 2010 por vários indícios. Todos apontam na mesma direção:
• Em comparação ao primeiro turno, houve menos 2,5 milhões de votos brancos e nulos no segundo turno presidencial. A queda entre turnos se repete desde 2002.
• Segundo o Ibope, 15% do eleitorado de Marina Silva e 33% do de Plínio Sampaio anularam ou votaram em branco no segundo turno.
• O número de votos brancos e nulos deveria ter crescido 45% com o acréscimo dos ex-eleitores do PV e do PSOL, que ficaram sem candidato. Mas caiu para 7 milhões.
• A votação de José Serra cresceu 10,6 milhões de um turno para outro. Disso, segundo o Ibope, 9,8 milhões vieram de Marina e 200 mil de Plínio. Faltam 600 mil votos.
• A votação de Dilma Rousseff cresceu 8,1 milhões. Desses, 6,5 milhões vieram de Marina e 200 mil de Plínio. Faltam 1,4 milhão de votos.
• Ao menos 2 milhões de eleitores que anularam ou votaram em branco no primeiro turno votaram em Dilma ou em Serra no segundo. Por que? Muito provavelmente porque se confundiram com a ordem esdrúxula de votação em 3 de outubro, mas não no turno final, quando votaram apenas uma ou duas vezes.
• Como a abstenção aumentou no segundo turno, eleitores que deixaram de votar podem também ter errado em 3 de outubro. Logo, mais de 2 milhões podem ter se enganado no primeiro turno na ordem de votos.
• Na única eleição “solteira” para presidente (1989), 94% dos votos foram válidos, recorde até hoje.
Há duas saídas: 1) inverter a ordem de votação e priorizar a de presidente; 2) “descasar” as eleições de presidente, senador e deputado federal das de governador e deputado estadual. Ambas as soluções dependem dos inventores da atual ordem de votação e do casamento das eleições.
Lembrete: não fosse a pesquisa do Ibope, seria quase impossível estimar os erros provocados pela ordem de votação.
Há três tipos de voto para o Senado: o válido, o branco/nulo e o soma-zero. Das cinco eleições do próximo domingo, a escolha das duas vagas de senador é a única em que o eleitor pode cair na armadilha de um voto, na prática, neutralizar o outro.
É uma probabilidade real para no mínimo 15% dos eleitores paulistas. São aqueles que declaram sua preferência por um candidato a senador e dão seu segundo voto a um adversário que está na frente dele, ocupando o primeiro ou o segundo lugar nas pesquisas.
Pode ser uma expressão das contradições ideológicas do eleitorado, um protesto silencioso contra o rol de candidatos disponíveis, ou apenas um desafio à matemática.
Os dois votos para o Senado não são iguais. Em geral, o eleitor tem um candidato de preferência, seu primeiro voto, e uma segunda opção menos convicta. Tanto é assim que muitos ainda não sabem qual será seu segundo voto.
Segundo o Ibope, 13% dos eleitores cujo primeiro voto é para Aloysio Nunes (PSDB) pretendem votar também em Netinho de Paula (PC do B) e outros 9%, em Marta Suplicy (PT). Total: 22%. Como o tucano é o terceiro colocado, 1 em cada 5 dos seus votos contará para ele e para um dos rivais à sua frente. Não tira diferença. Soma zero.
Se serve de consolo ao candidato do PSDB, 11% dos eleitores que optam primeiro por Netinho e 7% dos que têm em Marta sua opção principal dizem que darão seu segundo voto a Aloysio. Fica, então, elas por elas?
Não exatamente. Aloysio perde 10% mais votos do que ganha nesse toma-lá-dá-cá. Ou seja, se nenhum de seus eleitores digitasse o segundo voto para Marta ou Netinho e vice-versa, ainda assim o tucano estaria mais perto de eleger-se do que com o voto soma-zero.
Aloysio não é o único que perde nesse jogo. Além dos problemas de saúde, Romeu Tuma (PTB) tem dificuldade para reeleger-se senador por São Paulo porque mais da metade dos que dão seu primeiro voto ao petebista votam também nos adversários que estão à sua frente.
Falta a Aloysio uma dobradinha formal. Com a saída de Orestes Quércia (PMDB) da disputa, muitos que votavam no tucano e no peemedebista migraram esse segundo voto para Marta e Netinho.
Nessa dobradinha de PT e PC do B, a petista é a campeã do primeiro voto, mas é seu companheiro de chapa quem tem mais a ganhar. Marta é a principal opção ao Senado de 27% dos paulistas. E o segundo voto de outros 11%, num total de 38%.
Netinho está tecnicamente empatado com ela no total (tem 37%), mas deve isso principalmente ao segundo voto de 20% dos eleitores, principalmente dos que votam primeiro em Marta.
Em uma eleição dupla para o Senado, é necessário eleger um adversário principal para evitar o voto soma-zero. E deixar claro para o eleitor que não adianta ele votar nos dois. Aloysio ensaiou fazer isso com Netinho, mas parou no meio do caminho.
Em Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT) sofre com o mesmo problema de Aloysio.
No Rio de Janeiro, a vítima é Cesar Maia (DEM). O ex-prefeito depende muito do primeiro voto dos eleitores (14 pontos dos seus 23%) e não tem uma dobradinha forte. Como resultado, 26% desses seus eleitores votam em Lindberg Farias (PT) e outros 25% em Marcelo Crivella (PRB), dois candidatos que estão à sua frente. No jogo de soma-zero, metade dos primeiros votos de Maia acabam neutralizados.
Francisco Everardo Oliveira Silva corre o risco de ser o deputado federal mais votado do Brasil em 3 de outubro. Não se espante se você não reconhece o nome, nem seus próprios eleitores reconheceriam. Oliveira Silva é conhecido apenas por seu apelido, Tiririca.
Ele aparece em primeiro lugar no conjunto de pesquisas do Ibope sobre a eleição para a Câmara dos Deputados em São Paulo. Como é o Estado com o maior eleitorado, não será surpresa se Oliveira Silva acabar sendo o campeão nacional de votos de 2010.
Se você não tem visto muita TV nas últimas décadas e passou incólume pela propaganda eleitoral até agora, Tiririca é ator e palhaço profissional. Tem 45 anos, lê e escreve, se auto-define como “abestado” e seu slogan é “pior que tá num fica, vote Tiririca”.
Não é uma piada. É um projeto político. Oliveira Silva é candidato pelo PR, em coligação que inclui o PT e o PC do B. Prova da seriedade do projeto é que, até o último dia 3, o partido havia investido R$ 594 mil, oficialmente, na campanha do palhaço. E não deve parar por aí.
Tiririca é o principal puxador de votos do PR, do PT e do PC do B em São Paulo. Se chegar a um milhão de sufrágios, seu excedente de votos elegerá mais quatro ou cinco deputados da coligação. O eleitor vota em Tiririca e pode eleger Valdemar Costa Neto (PR), Ricardo Berzoini (PT) ou o delegado Protógenes (PC do B).
O “projeto Tiririca” é um bom retrato do sistema de coligações que impera nas eleições parlamentares brasileiras -uma salada farta de siglas, conexões improváveis, legendas de aluguel, e uma pitada muito pequena de ideologia.
Das 27 legendas que disputam as eleições para a Câmara dos Deputados, apenas os quatro partidos de esquerda (PSTU, PCO, PSOL e PCB) são seletivos nas coligações: não se misturam na grande maioria das vezes. Melhor deixá-los em um prato à parte.
Entre as outras 23 legendas da salada, vale quase tudo. O PP, por exemplo, coligou-se 169 vezes a todos os outros 22 partidos, em 26 das 27 unidades da Federação. O PRB fez igual. Isso significa aliar-se ora ao PT, ora ao seu arquiinimigo PSDB, conforme a conveniência.
PP e PRB são os campeões das alianças, mas não são exceção. Das 23 legendas da salada coligada, só o PV fez menos de 100 conexões com outros partidos. Mas bateu na trave: 97. A salada é sortida. Tem de PT com DEM (uma vez) a comunista com democrata-cristão (seis vezes). Só não tem petista com tucano.
Se dividirmos a travessa em duas partes, numa ponta está o PT, na outra, o PSDB. O PMDB fica no meio. Perseguidos pelo poder, os peemedebistas aparecem como fortes aliados tanto de tucanos (6 vezes) quanto de petistas (11 vezes).
As conexões mais intensas do PT são com PC do B, PR, PRB, PSB, PDT e PMDB. E as do PSDB são com DEM, PPS, PSC, PMN, PR, PRB e PMDB. Mas as relações são abertas, não pressupõem exclusividade. Vez ou outra uma legenda dá uma escapadinha para o outro lado, sem culpa ou ressentimentos.
Os mais cínicos dirão que a política partidária brasileira continua a mesma. Mudam os nomes, mas não os sobrenomes. No seu “Deputados 2010”, o Ibope identificou uma penca de herdeiros do poder (apud Francisco Antonio Doria) entre os favoritos a se elegerem para a Câmara.
São rostos novos para nomes conhecidos. Como os de Ana Arraes (Pernambuco), Ratinho Jr. e Zeca Dirceu (ambos no Paraná), ACM Neto (Bahia), Rodrigo Maia e Leonardo Piciani (ambos no Rio de Janeiro).
Nomes fortes foi justamente o que faltou para o PT paulista. O partido precisou improvisar nova estratégia. Além de se coligar ao PR de Tiririca, ressuscitou a tática de pedir votos para a legenda do partido. Está dando certo: a sigla do PT está em segundo lugar em citações no ranking do Ibope.
A falta de nomes conhecidos está confundindo os paulistas. Instado pelo Ibope a dizer em quem votará para deputado federal, há quem responda “Serra”, “Fernando Henrique Cardoso”, “Marina Silva”, “Alckmin”, “Mercadante” ou até quem evoque “Mario Covas”.
De todos os Estados onde o Ibope faz seu ranking para a Câmara, São Paulo é onde menos eleitores são capazes de citar um candidato a deputado federal: apenas 12%. Em Pernambuco essa taxa já chegou a 19%, e no Distrito Federal, a 21%.
Não é de espantar, portanto, que Tiririca seja o mais lembrado entre os paulistas. Nem de que alguém tenha pensado em usar um palhaço como puxador de votos. Pensando bem, até faz sentido.
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Aos olhos do público, Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) têm mais em comum do que gostariam de imaginar. A palavra que seus respectivos eleitores mais citam para defini-los é a mesma: “competente”.
Os conceitos repetidos para ambos não ficam por aí. “Inteligente”, “trabalhador(a)”, “honesto/honestidade” são termos que eles compartilham e que enfeitam sua persona pública.
A coincidência não é coincidência. Essas palavras traduzem o mínimo que o eleitor espera de um candidato. É natural que, se ele se identifica com um deles a ponto de votá-lo para presidente, o eleitor projete essas qualidades em Dilma, Serra, ou em ambos.
A projeção não é gratuita. Políticos burilam suas imagens a custa de muito discurso, entrevista, debate, Twitter, alianças, atos e omissões. E há, obviamente, a publicidade oficial e oficiosa, o marketing. Principalmente em época de eleição.
Além de carrear votos, a propaganda eleitoral tenta moldar a percepção sobre o candidato, reforçar traços positivos, atenuar defeitos. A imagem, se bem cultivada, sobrevive à eleição e transforma uma campanha em uma carreira.
Pode ser também seu pior pesadelo. Uma pecha da qual o candidato nunca mais conseguirá se livrar: “rouba mas faz” -tão marcante que dispensa até a menção do nome do político a ela associado.
Das melhores maneiras de medir a força de uma marca são questões “top of mind”. Nelas, o pesquisador pede ao entrevistado para dizer a primeira ideia que lhe vem à cabeça quando ouve um nome. Vale para candidato, geladeira ou ração canina.
Espontânea, a resposta não contrabandeia conceitos nem preconceitos do pesquisador. É capaz de vasculhar o imaginário popular com mais profundidade e sutileza do que as opções limitadas e possivelmente indutoras de perguntas de múltipla escolha.
As desvantagens do “top of mind” são duas: a dispersão das respostas, e o risco de o entrevistado não saber dizer nada sobre aquela pessoa ou produto. Em eleições, trata-se de um “branco” revelador. Político sem marca é coadjuvante ou “articulador”.
Como dizem os mais desinibidos, “falem mal, mas falem de mim”. E o que falam os brasileiros sobre os presidenciáveis?
A pedido do Estado, o Ibope incluiu duas perguntas “top of mind” na pesquisa nacional concluída em 26 de agosto (registro no TSE: 26139/2010). Pediu-se ao eleitor que dissesse o que lhe passa pela cabeça quando pensa em Dilma e Serra.
O resultado é o infográfico que ilustra esta coluna. As palavras foram separadas em quatro grupos. Cada quadrante mostra o que os eleitores de um dos candidatos acham de seu preferido ou do adversário.
Se os termos em comum são também lugares-comuns, o que os define é o que os diferencia. Nos quadrantes dos seus próprios eleitores: “continuidade” e “guerreira”, para Dilma; “saúde” e “preparado”, para Serra.
No caso da petista, “continuidade” é o que pode elegê-la. E “guerreira” é o atributo que seus marqueteiros tentarão cultivar se ela for eleita -uma reciclagem irônica e adocicada do “guerrilheira” que rivais tentaram lhe colar, sem sucesso.
“Despreparada” e “oportunista” são as pechas a que Dilma está arriscada se as coisas não saírem como Lula planejou.
Ela está no topo da cabeça de mais eleitores, tem mais menções positivas e menos negativas do que Serra. Sua marca está mais forte do que a dele.
“Saúde” é positivo, para quem pretende ser ministro. E “preparado” é a tecla na qual a campanha tucana bateu desde sempre como antítese ao “despreparada” de Dilma. Os resultados são conhecidos e, por ora, insuficientes. Falta a Serra “continuidade”, o drive desta eleição.
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Na média, o eleitor tem um seio e um testículo. A velha piada dos estatísticos revela as limitações do uso da média para retratar um conjunto complexo de informações. O resumo minimalista está sempre arriscado a virar uma caricatura.
Por isso é desafiador traçar um perfil do eleitor de cada candidato. Os presidenciáveis favoritos atraem votos de vários tipos, por vezes contraditórios entre si. Marina Silva (PV) mistura em seus índices evangélicos e agnósticos. José Serra (PSDB) atrai patrões e empregados.
Além disso, alguns estratos são tão maiores que todos os candidatos acabam extraindo a maior parte de seus votos dali. É o caso do Sudeste, onde vive quase metade do eleitorado. Mesmo Dilma Rousseff (PT), que tem 2 de cada 3 votos nordestinos, tem maior número de eleitores no Sudeste do que do Nordeste.
Descrever o perfil do eleitorado da petista destacando apenas as partes mais volumosas implica dizer que seu eleitor está majoritariamente no Sudeste, não participa de nenhum programa social do governo Lula, e mora nos maiores municípios do país.
Mas esse não é o eleitor médio de Serra? Também é. Ou seja, esse tipo de análise espelha onde há mais eleitores, e apenas isso. É o mesmo que sublinhar no perfil de um candidato que seu corpo tem 75% de água. O dele e o de todos os adversários.
Se quisermos saber o que o eleitorado de um candidato tem de particular, de diferente, de característico, devemos comparar a intenção de voto em cada segmento, confrontando os percentuais de um presidenciável com o dos rivais.
O resultado está no quadro que ilustra esta coluna. As características destacadas para cada candidato refletem não onde ele tem mais votos, mas onde seus eleitores mais se distinguem da média.
A despeito de ter 51% das intenções de voto e de, portanto, estar bem em todos os segmentos, Dilma vai ainda melhor entre quem vive com até 2 salários mínimos, entre os que cursaram até o ensino médio, e entre os moradores do Nordeste e das pequenas cidades.
Ela também se destaca entre os homens, entre eleitores com mais de 30 anos, entre os trabalhadores por conta própria, entre os católicos, entre os participantes dos programas sociais do governo federal e, acima de tudo, entre os simpatizantes do PT.
Embora 85% dos seus eleitores digam que navegam na internet pelo menos uma vez por semana, esse percentual é ligeiramente abaixo da média. O mesmo ocorre entre os assinantes de jornais.
A petista vai pior onde Serra vai melhor. Com 27% de intenção de voto, o tucano está acima da média entre os eleitores com nível superior, entre quem vive com mais de 5 salários mínimos, entre os simpatizantes do PSDB e do PMDB, entre os jovens de 18 a 24 anos e no Sul.
O eleitor de Serra assina jornais acima da média, mas não tanto quanto o de Marina. Os 7% que compõem o eleitorado da candidata do PV têm uma maior concentração nas grandes cidades e nas capitais, entre patrões e empregados, entre quem ganha melhor e quem estudou mais.
Apesar de esse perfil se aproximar muito dos eleitores de Serra, há duas diferenças fundamentais: ela vai proporcionalmente melhor do que o tucano entre os eleitores evangélicos e entre os moradores da região Norte/Centro-Oeste. Ela é evangélica e nasceu no Acre.
E quem não vota em ninguém ? Os 5% de eleitores que preferem anular ou votar em branco aparecem com mais frequência entre os com mais de 40 anos. Eles vivem nas grandes cidades do entorno das capitais do Sudeste, ganham entre 1 e 2 salários mínimos e cursaram até o nível médio.
O perfil dos 9% de indecisos tem mais pontos em comum com o dos eleitores de Dilma do que com os de seus principais adversários. Quem não sabe ainda em quem vai votar é notoriamente do sexo feminino, tem mais de 40 anos, não passou da 4ª série do Fundamental, mora em pequenas cidades e vive com menos de 2 salários mínimos.
A principal diferença entre esses indecisos e os eleitores de Dilma é geográfica. Eles estão mais concentrados no Sul e no Sudeste. Há outros pontos que não seguem o perfil típico de quem vota na petista: essas mulheres tendem a ser evangélicas, trabalhar apenas em casa e não participarem dos programas sociais do governo Lula.
Esse perfil é característico de quem deixa para decidir o voto em cima da hora, nas vésperas da eleição. Embora se aproxime mais do eleitor de Dilma do que dos de Serra, o histórico mostra que os indecisos tendem a se dividir proporcionalmente entre os candidatos.
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(coluna publicada na edição impressa do Estado)
“A propaganda eleitoral começou na TV e fez Dilma Rousseff (PT) disparar nas pesquisas”. Nada mais factual, simples e equivocado. Em eleições, como em todo o resto, não há causa única para consequências avassaladoras.
A entrada da TV no processo eleitoral é a gota d’água que transborda o copo, o grão de areia que provoca uma avalanche, o último tapinha no fundo da garrafa que faz esparramar o catchup. Não houvesse as condições necessárias, um estado crítico, não haveria a onda Dilma.
É um equívoco comum: as tensões acumuladas ao longo de meses, anos, se liberam de uma só vez e debita-se ao último fato de uma cadeia de eventos a responsabilidade pelo ocorrido.
Equivale a culpar o motorista do arquiduque Franz Ferdinand pela morte de 10 milhões de pessoas na Primeira Guerra Mundial, só porque ele errou o caminho e colocou inadvertidamente o nobre austro-húngaro frente a frente com seu assassino.
O crescimento de qualquer candidato é uma onda que se move por muito tempo antes de quebrar, de repente, na urna. Alguns não passam de marola, outros viram tsunami.
Dilma não estaria em condições de vencer no primeiro turno, não houvesse o presidente propagandeado seu nome por meses a fio, ao arrepio da lei eleitoral.
Nem Lula poderia se arvorar a “entregar meu povo em tuas mãos” não houvesse incluído dezenas de milhões no maravilhoso mundo do consumo. Tampouco isso teria ocorrido sem o Plano Real. A história faz diferença.
Assim, não se pode creditar o crescimento de Dilma apenas ao horário eleitoral. Segundo o Datafolha, só 1 em cada 3 eleitores viu os primeiros programas dos presidenciáveis. A onda vem de longe.
Antes de ultrapassar José Serra (PSDB) nas intenções de voto, a petista superou-o no favoritismo popular, ainda nos primeiros dias de junho. Desde então, a cada nova pesquisa, mais eleitores apostam que ela será eleita. Com “delay”, o favoritismo foi virando intenção de voto. Era a onda ganhando corpo.
Ela se propagou do Norte para o Sul, desde as regiões onde os aumentos de renda e do consumo foram mais fortes. Esse movimento contradiz o mito de que “formadores de opinião verticais”, os mais ricos e escolarizados, impõem as tendências de voto de cima para baixo.
Foi a soma de eventos recentes e, principalmente, a sua repercussão que propiciou o último salto de Dilma nas pesquisas. A eleição virou assunto e se propagou de boca em boca. Mais eleitores, principalmente os mais pobres, descobriram que a petista é a candidata de Lula.
Não foram poucos nem desprezíveis os eventos que antecederam o início do horário eleitoral. As entrevistas dos candidatos a presidente no “Jornal Nacional” da TV Globo foram vistas por até 36 milhões de eleitores, segundo pesquisa Ibope.
O debate entre os presidenciáveis na Band alcançou pelo menos 18 milhões de eleitores. O debate no UOL, via internet, recebeu 1,8 milhão de acessos e esse número continua crescendo, porque os eleitores seguem querendo ver os trechos mais ácidos da disputa.
“É menos a audiência (do debate ou da entrevista) e mais a repercussão, o boca-a-boca”, afirma Marcia Cavallari, diretora-executiva do Ibope Inteligência.
Com 28 anos de experiência em pesquisas eleitorais, ela explica que o efeito das entrevistas e debates é potencializado pelos “formadores de opinião horizontal”, as pessoas mais influentes da família e da vizinhança, que iniciam conversas com base nesses eventos.
Embora as relações interpessoais ainda sejam uma das principais fontes de influência do voto, as novas tecnologias desempenham um papel cada vez mais importante nas eleições. Especialmente quando interagem com os meios de comunicação tradicionais.
A entrevista de Marina Silva (PV) ao “JN” quase triplicou o número de pesquisas por seu nome no Google. O número de citações aos candidatos nas redes sociais como Twitter e Facebook é multiplicado quando há debates na TV. Trecho da propaganda de Serra vira hit no YouTube. Um meio potencializa o outro.
Quando a eleição vira assunto do dia-a-dia, o acesso às informações sobre a campanha é praticamente simultâneo a todo o eleitorado, seja nas capitais, seja no Brasil profundo. Isso pode tanto reforçar tendências quanto provocar alterações bruscas, a partir de um fato inesperado, um “aloprado”. Também por isso não se pode dar a eleição por decidida.
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(coluna publicada na edição impressa do Estado; aqui você lê dois mitos a mais)
Mito 1: A eleição de 2010 é governista.
Fato: A eleição de 2010 é mais fácil para candidatos governistas.
Consumo em alta. Emprego em alta. Popularidade em alta. É difícil para um candidato de oposição bater de frente com um governo quando a economia vai bem. O oposicionista se limita a criticar pontos específicos e a prometer continuidade no resto. Acaba com um discurso moderado ou esquizofrênico.
Em ambos os casos, o discurso do candidato oposicionista é difícil de emplacar. Sem uma identidade clara, ou uma proposta que seduza o eleitor, perde terreno para os situacionistas. Com economia em alta, candidatos à reeleição muito populares ou apoiados por governantes com alta aprovação são favoritos, seja para presidente, seja para governador.
Além de Dilma Rousseff (PT) na corrida presidencial, entram na reta final liderando as pesquisas os governadores ou seus candidatos em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia. Cada um de um partido diferente. Mas favoritismo não é sinônimo de eleição ganha. Os 45 dias de bombardeio dos candidatos no rádio e na TV devem mudar alguns cenários e reforçar outros.
Mito 2: recall é igual a intenção de voto.
Fato: recall alto ajuda, mas não é garantia de voto na urna.
Na pré-campanha, até 75% dos eleitores não têm um presidenciável na ponta da língua. Confrontados com a necessidade de apontar um candidato, escolhem, na cartela dos institutos de pesquisa, um nome que parece familiar. É uma associação da memória, não necessariamente uma escolha.
À medida que a campanha avança, o grau de conhecimento sobre os candidatos aumenta, e outras associações mentais entram em jogo, como a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Dilma.
Lula em 1994 e José Serra em 2010 saíram na frente nas pesquisas, mas foram ultrapassados. Ambos haviam sido presidenciáveis e tinham chegado ao 2º turno. Eram mais conhecidos que os adversários no começo da disputa. O petista perdeu a eleição. O tucano tenta repetir Fernando Henrique Cardoso, que saiu na frente em 1998, quase foi ultrapassado, mas reagiu e venceu.
Mito 3: transferência de voto não existe.
Fato: transferência não existe, mas transfusão ao sucessor sim.
O eleitor paulista não liga muito se Lula apóia Aloizio Mercadante (PT) para governador. Mas Dilma só tem os percentuais que alcançou na corrida presidencial por causa de Lula. “Guerreira” é o atributo que os marqueteiros tentam lhe atribuir, não é o motivo de sua ascensão nas pesquisas.
Se Dilma, sem experiência nem marca própria, for eleita, entrará para uma galeria que já tem Celso Pitta, Luiz Paulo Conde, Fleury Filho, Lucas Nogueira Garcez e Rosinha Garotinho. Com exceção da última – casada com o criador-, as demais criaturas romperam com os que lhes deram a transfusão eleitoral necessária para nascerem politicamente.
Mito 4: Minas Gerais vai decidir a eleição.
Fato: nenhum colégio eleitoral sozinho define eleição presidencial.
Não adianta um candidato a presidente ir muito bem em um ou outro Estado, e perder feio nos demais. Por maior que seja o seu reduto eleitoral, o presidenciável, para ter chance, precisa ter pelo menos 30% dos votos na maioria das unidades da Federação. E isso se houver mais de dois candidatos no páreo. No 2º turno, é preciso um percentual ainda maior na maioria das UFs.
Mito 5: Pobre vota em Dilma, rico vota em Serra.
Fato: o condicionante do voto nesta eleição é regional, não socioeconômico.
Os ricos do Nordeste preferem Dilma a Serra, assim como boa parte dos pobres paulistas e paranaenses, por exemplo, preferem Serra a Dilma. A divisão regional do voto para presidente ainda não foi totalmente explicada, mas vai além de uma causa única, como programas assistencialistas. Passa pela inclusão dos eleitores no maravilhoso mundo do consumo.
Mito 6: todo eleitor que aprova o governo votará no seu candidato.
Fato: apenas os eleitores que dão notas mais altas a um governo votam em peso no seu candidato.
“Ótimo” não é a mesma coisa que “bom”. O eleitor usa graduações diferentes para expressar sua opinião sobre uma administração. Até a semana passada, Dilma só ganhava de Serra entre os eleitores que dão nota 8 ou superior ao governo Lula. Muitos eleitores dão nota 7 ao presidente, mas votam na oposição. Conscientemente.
Mito 7: quanto mais aparece, mais o candidato cresce.
Fato: a superexposição não ajuda todos os candidatos.
Serra priorizou sua campanha no Nordeste. Dilma ampliou sua vantagem na região. O tucano passou a visitar semanalmente Minas Gerais. A petista virou entre os mineiros. Uma hipótese é que ao intensificar sua campanha em redutos lulistas, Serra passou a ser visto como oposicionista por mais eleitores e perdeu votos.
“Ciro” é o nome de urna de um dos candidatos ao Senado em São Paulo. Ele é assim apresentado nas pesquisas, e chega a quase 20% das intenções de voto. O que ocorrerá quando os eleitores descobrirem que seu sobrenome é Moura?
Mito 8: pesquisa define eleição.
Fato: pesquisa influencia eleição, mas não a define.
As pesquisas de intenção de voto influenciam o espaço de cada candidato na cobertura de imprensa, se eles participam ou não de debates, o quanto arrecadam de financiadores de campanha, o moral dos comitês e dos militantes. Mas não determinam quem ganha ou perde. Fosse assim, não haveria viradas. Quem saísse na frente ganharia sempre.
Mito 9: o horário eleitoral é gratuito e democrático.
Fato: o horário eleitoral não é gratuito nem democratiza a eleição.
O pagamento pelo horário eleitoral na TV e no rádio sai do seu, do meu, do nosso bolso, via créditos fiscais que as emissoras recebem pela cessão do tempo em sua programação. A Receita Federal estima que deixa de arrecadar R$ 128 mil por minuto de propaganda eleitoral. Isso significa que apenas a campanha presidencial no 1º turno custará R$ 163 milhões aos cofres públicos. Fora as campanhas de governador, senador e deputados.
Além disso, os candidatos investem um bom dinheiro na produção dos programas de TV e rádio. Até 8 de agosto, antes portanto de o horário eleitoral começar, apenas o comitê de Dilma Rousseff (PT) já havia gastado R$ 4,5 milhões com os programas. Gratuito para quem?
A divisão do horário eleitoral é tão favorável aos grandes partidos que seu efeito sobre as candidaturas nanicas é quase nulo, senão negativo. Tome-se o exemplo de Heloisa Helena, em 2006. A candidata a presidente do PSOL tinha o equivalente a 12% dos votos válidos em 8 de agosto (Datafolha), antes de a propaganda eleitoral começar. Ao final da apuração, tinha 6,9% dos votos válidos.
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(coluna publicada na edição impressa do Estado)
Os cerca de 20 mil candidatos às eleições de outubro não são um espelho preciso da sociedade que pretendem representar. Suas diferenças em comparação à média do eleitorado brasileiro chamam mais a atenção do que eventuais semelhanças.
O candidato típico é homem, tem 48 anos de idade, tem nível superior e é político profissional (ou empresário, ou funcionário público).
O eleitor típico é mulher, tem pouco mais de 40 anos, não foi além do ensino fundamental e é assalariada do setor privado (ou tem uma ocupação informal).
As chapas são dominadas por uma elite partidária tão afeita ao poder que, ao preencher sua ocupação no registro de candidatura, seus membros escrevem “deputado” ou “vereador”. Ao menos 1.885 candidatos fizeram isso, tornando a “profissão” de político a mais comum entre os postulantes.
Das discrepâncias entre o perfil dos eleitores e o dos potenciais eleitos, a que mais chama a atenção é a de gênero. Apesar de as mulheres serem maioria do eleitorado, elas não passam, em 2010, de 21% do total de candidatos às assembleias legislativas e à Câmara dos Deputados.
A legislação prevê pelo menos 30% de candidatas mulheres para cargos proporcionais, mas não é cumprida desde sempre. Em 2006, menos de 9% das cadeiras da Câmara dos Deputados foram preenchidas por mulheres. “O partido é o grande funil, não o eleitorado”, afirma a socióloga Fátima Pacheco Jordão, uma estudiosa do tema.
A soma da intenção de voto de Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) nas pesquisas presidenciais mostra que a maioria dos eleitores não tem nada contra candidatas. Ao contrário: mulheres já foram eleitas prefeitas e governadoras do Rio Grande do Sul ao Pará, por diferentes legendas. Mas dentro das agremiações políticas, o volume de filiadas não se reflete na cúpula.
Na composição dos principais órgãos de comando dos partidos, a proporção de mulheres é decorativa. No DEM, de 57 membros da comissão executiva nacional, só 4 são do sexo feminino. No PSDB, são 4 mulheres para 42 vagas. No PMDB, entre os 25 dirigentes, só há duas mulheres. No PT a participação é um pouco maior, mas ainda minoritária: 6 mulheres entre 21 caciques.
Fecha-se um circuito viciado: homens preterem mulheres no preenchimento das chapas partidárias, menos mulheres são eleitas, homens mantêm a maioria dos cargos de mando dentro dos partidos. Perpetua-se o machismo.
Praticamente nenhuma sigla escapa. Na eleição para a Câmara dos Deputados, apenas um partido respeita a cota mínima de candidatas do sexo feminino na disputa de 2010: o PCO (Partido da Causa Operária), com 50% de mulheres -embora elas sejam só 4.
Entre os grandes partidos, o PSDB está na média da desigualdade de gênero no pleito para deputado federal: 79% de candidatos homens e apenas 21% de mulheres. PMDB e PT têm uma proporção equivalente: 22% de postulantes do sexo feminino. Já o DEM tem apenas 14% de candidatas mulheres para a Câmara.
Na disputa dos cargos majoritários, a desproporção é ainda maior. A eleição para o Senado este ano tem 34 mulheres entre os 265 candidatos, ou seja, elas conseguiram 13% das vagas. E no pleito para os governos estaduais, há 18 candidatas num total de 167, o que significa só 11% de mulheres.
É um problema global, inscrito nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Mas o Brasil está ficando para trás. O Congresso argentino, por exemplo, tem uma proporção de mulheres três vezes maior do que o brasileiro.
A questão vai além do sexo do chefe de governo. Trata-se de assegurar a participação das mulheres em todas as arenas políticas. Relatório das Nações Unidas mostra que congressistas mulheres têm prioridades diferentes das dos homens, beneficiam mais as crianças e a família. E há ao menos três estudos que correlacionam o aumento da participação feminina no poder com menores níveis de corrupção.
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(coluna publicada na edição impressa do Estado)
A política é a arte da repetição. A máxima de Fernando Henrique Cardoso está sendo demonstrada por seu sucessor e desafeto. Foi falando que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viabilizou a candidatura de Dilma Rousseff à sua sucessão. E é repetindo que ele tenta elegê-la.
Lula disse e repetiu o nome de Dilma até convencer a cúpula do PT, cooptar os simpatizantes petistas, os aliados do PMDB e, por ora, 38% do eleitorado. Há uma correlação direta entre as menções de Lula e o crescimento de Dilma nas pesquisas.
A pregação do presidente não respeitou prazo legal. As citações continuadas a Dilma lhe renderam seis multas por propaganda antecipada. Dado o benefício eleitoral, a infração parece compensar. Lula deve R$ 42,5 mil à Justiça eleitoral, ou 0,02% do custo oficial da campanha presidencial do PT, estimada em R$ 187 milhões.
O primeiro sinal de sua opção por Dilma apareceu no discurso de Lula em meados de 2007, muito antes de que a maioria dos caciques do partido se desse conta de que uma neopetista, filiada há menos de 10 anos, cortaria a fila e viraria a candidata governista.
Em uma série de lançamentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), em todas as regiões do país, o presidente soltou seu balão de ensaio eleitoral. Em apenas 54 dias, entre julho e agosto de 2007, ele repetiu o nome de Dilma em 18 discursos diferentes.
Até então, as menções do presidente à ministra-chefe da Casa Civil eram proporcionais ao destaque de seu cargo: cerca de 3 por mês -embora isso já fosse duas vezes mais frequente do que as citações a seus colegas Ciro Gomes e Marina Silva.
O balão subiu devagar. Lula voltou à carga em março de 2008, quando batizou Dilma de “mãe do PAC”, um epíteto que abandonaria mais tarde. Desde então, as citações a Dilma nos discursos e entrevistas do presidente só aumentaram, como se pode notar nos gráficos.
Em 2003, quando era uma desconhecida ministra das Minas e Energia, Dilma aparecia em apenas 4% dos discursos de Lula, metade do que Ciro (Integração Regional) e um terço a menos do que Marina (Meio Ambiente). Em 2005 ela substitui José Dirceu na Casa Civil e é lembrada por Lula em 12% dos discursos e 17% das entrevistas. O “dilmômetro” de Lula não parou mais de subir.
Foram 39 discursos (15% do total) de Lula citando a ministra em 2006, 63 em 2007 (19%), 80 em 2008 (24%), até chegar ao recorde de 98 citações em diferentes ocasiões ao longo do ano passado, o que significa que ele mencionou a ainda ministra em 1 a cada 3 discursos que fez em 2009. Repetiu a dose com as entrevistas: citou-a em 87 oportunidades, ou 32% das vezes que falou aos jornalistas.
Em 2010, o “dilmômetro” entrou em curto-circuito. Só nos três primeiros meses do ano, o presidente mencionou Dilma em 39 dos 78 discursos que fez. Ou seja: um sim, um não. Em março apenas, Lula citou Dilma em 20 discursos, repetindo seu nome 94 vezes, mais até do que falou “Deus” (47 vezes), uma referência permanente nas falas presidenciais.
Aí foi demais para o TSE. O Tribunal Superior Eleitoral multou Lula duas vezes em março, por propaganda antecipada. Coincidência ou não, Lula não citou Dilma em nenhum discurso em abril -fato inédito desde que ela assumiu a Casa Civil. Em maio o presidente não se conteve e falou 6 vezes o nome da já ex-ministra, inclusive na festa do 1º de Maio, além de uma vez em junho. Resultado: 4 novas multas do TSE.
Mas o “dilmômetro” descontrolado de Lula já tinha dado o efeito esperado pelo presidente. Entre dezembro e junho, Dilma praticamente dobrou sua intenção de voto, ganhou cerca de 27 milhões e eleitores e empatou com José Serra (PSDB). Ela chegou ao patamar histórico de Lula nessa fase da corrida eleitoral.
A burla à lei e as multas do TSE implicaram um custo de R$ 1,00 para cada grupo de 635 novos eleitores que o presidente conseguiu para sua candidata. Lula pode dizer que fez sua parte. Agora é com Dilma.
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