A popularidade de Dilma Rousseff está no mesmo nível a que chegou a de Luiz Inacio Lula da Silva aos 15 meses do seu segundo mandato. Foi nesse estágio, em março de 2008, que a aprovação do ex-presidente começou a decolar e a se descolar dos patamares históricos das avaliações presidenciais, elevando-o ao status de mito -merecido ou não.
Não há como afirmar -nem negar- que a história vá se repetir. A aprovação de Lula estava acelerando mais rapidamente em 2008, por exemplo, mas há indícios de que Dilma esteja desenvolvendo poderes “Teflon”, como seu antecessor. Na pesquisa CNI/Ibope divulgada nesta quarta-feira, fica claro que a percepção sobre o noticiário é cada vez mais positiva para a presidente. Não que haja menos notícias de “malfeitos” envolvendo o governo, apenas elas não estão colando na imagem presidencial.
O dobro de brasileiros vê um noticiário mais favorável (28%) do que desfavorável ao governo (14%). A taxa de percepção de notícias negativas já foi de 25% em julho do ano passado, quando começou a crise ministerial. Mas a troca de ministros virou “faxina” e, hoje, a agenda de Dilma, aos olhos da população, tem mais boas notícias do que problemas: “programas sociais para as mulheres”, “viagens da presidente”, “Dilma recebe prêmio”. Mesmo as notícias potencialmente negativas, como prisões e demissões, são lidas como sinais de limpeza e não de sujeira.
Isso ajuda a explicar por que Dilma chegou a este patamar com “um mandato” de antecedência em comparação a Lula, mas não explica as razões desse “efeito Teflon”. As causas fundamentais estão ligadas à situação econômica do país e, mais especificamente, à capacidade de consumo do eleitor.
A taxa líquida de popularidade da presidente (“ótimo”+”bom” subtraído o porcentual de “ruim”+”péssimo”) medida pela pesquisa CNI/Ibope está colada à situação financeira do brasileiro, aferida pela mesma sondagem. A superporsição das duas curvas ocorre praticamente desde o começo do governo Dilma. Para onde uma vai, a outra vai atrás. Estatisticamente, seu coeficiente de correlação é muito alto: 0,88 num máximo de 1,00.
Basicamente, quando cresce o número de brasileiros que avaliam que seu bolso está mais cheio agora do que estava três meses antes e, ao mesmo tempo, preveem que ele vai continuar estufando nos próximos meses, cresce também a quantidade de brasileiros que dizem que o governo Dilma é “bom” ou “ótimo”. Por essa correlação, a popularidade presidencial é uma função direta do poder de compra e da capacidade de consumo do eleitor.
Essa percepção não depende apenas da renda, mas de outros fatores indiretos, como facilidade de o brasileiro obter crédito, de sua estabilidade no emprego ou facilidade de conseguir uma ocupação remunerada e, em menor grau, do medo de descontrole inflacionário.
Em outras palavras, enquanto a economia continuar se expandindo, o emprego seguir em alta e os consumidores continuarem comprando e se endividando, Dilma deverá permanecer com uma avaliação positiva de seu governo. E se essas tendências se intensificarem, a boa vontade da população com sua gestão pode crescer ainda mais.
Essa correlação entre consumo e popularidade não é um fenômeno jabuticaba, que ocorre apenas no Brasil. Ela acontece nos EUA também. Barack Obama tem se beneficiado dela. O presidente norte-americano só voltou a melhorar sua posição nas pesquisas de intenção de voto depois que o índice de confiança do consumidor cresceu, refletindo a aquecimento do mercado de trabalho e a retomada do consumo.
Não é por acaso que, tanto nos EUA quanto no Brasil, os presidentes dedicam muito mais atenção à economia do que às rusgas com o Congresso. Quanto melhor o emprego e o consumo, mais popular eles ficam e mais poder eles têm para negociar o que lhes convém, tanto com sua base de apoio quanto com a oposição. Lá como cá, a avaliação do trabalho dos parlamentares é muito pior do que a do Executivo federal. E quando o presidente se populariza, a balança de força entre os Poderes se desequilibra, sempre em detrimento do Legislativo.
Se aparece um escândalo envolvendo um dos principais porta-vozes da oposição, menor ainda o poder de barganha dos parlamentares. Aos olhos da população, quando um crítico do governo é pego praticando o que condenava, reforça-se a ideia de que “político é tudo igual”. E se a percepção de que a conduta ética é a mesma para todos, melhor salvar pelo menos o bolso.
Presidentes que perderam sua base de apoio e a chamada “governabilidade” perderam antes o controle da economia. Foram os casos de José Sarney e Fernando Collor. O primeiro acabou tutelado pelo PMDB de Ulysses Guimarães, e o segundo foi forçado para fora do governo. Desde Fernando Henrique Cardoso, o bom desempenho econômico tem precedido a estabilidade política. Foi assim com Lula, é assim com Dilma.
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Na falta de uma pesquisa mensal e pública sobre a quantas anda a popularidade presidencial, o melhor proxy -indicador por aproximação- disponível é o Índice de Confiança do Consumidor (Inec) da CNI/Ibope. Ele guarda uma forte correlação estatística com a aprovação do presidente de plantão. Assim, a leve queda do Inec de fevereiro é má notícia para Dilma Rousseff -ao menos em tese.
A queda foi de apenas 0,7%, mas interrompeu uma tendência de alta que já se estendia por cinco meses. Isso significa que a popularidade de Dilma, que cresceu no final de 2012 (Datafolha), também parou de melhorar? A resposta curta é um frustrante “talvez”. Vale tentar entender o porquê.
No histórico dos últimos 11 anos, o coeficiente de correlação entre o Inec e o saldo de aprovação presidencial (“ótimo/bom” menos “ruim/péssimo”) é de 0,83 num máximo de 1. É uma correlação muito forte. Grosso modo, há 8 chances em 10 de os dois indicadores oscilarem na mesma direção: se um sobe, o outro sobe junto, e vice-versa. Mas há uma correlação ainda mais forte.
O Inec é composto por seis índices, que medem diferentes perspectivas econômicas do entrevistado: suas expectativa quanto à inflação, e ao desemprego, seu grau de endividamento, sua intenção de comprar bens caros, sua situação financeira pessoal e a expectativa quanto ao que vai acontecer com sua renda. Desses seis, os dois últimos são os mais intimamente ligados à popularidade dos governantes.
A média desses dois índices, que medem o volume do bolso do brasileiro, tem uma correlação de 0,88 com o saldo de aprovação do presidente de plantão: ou seja, em 9 de cada 10 vezes eles variam juntos, para baixo ou para cima. Essa média caiu 0,6% em fevereiro, mas ainda é superior à de fevereiro de 2011.
O problema de se usar uma proxy para analisar a popularidade presidencial é que ela é um indicador seguro apenas para as tendências de médio e longo prazos. Variações pontuais podem não ter significado algum.
É o caso da queda de 0,7% do Inec de fevereiro. Pode ser uma reversão de tendência ou apenas um soluço estatístico. Isso é mais provável quando não há consistência com outros indicadores. Enquanto o Inec caiu, dois “primos” seus subiram em fevereiro: o Índice de Confiança do Consumidor da FECESP e o homônimo da FGV.
Por enquanto, só dá para dizer que, a julgar pela confiança do consumidor, Dilma continua num patamar alto de popularidade, mas é preciso acompanhar o Inec e seus pares nos próximos dois meses para ver se se confirma ou não uma mudança de tendência.
Curiosamente, também o Palácio do Planalto vai ter que usar uma proxy ou contar com a boa vontade de terceiros para saber como anda a popularidade da presidente. A Secretaria de Comunicação da Presidência está sem fornecedor de pesquisas oficiais no momento.
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Enquanto a confiança do consumidor estiver em alta, é improvável que a popularidade do governo mova-se no sentido contrário. Antes de a aprovação de Dilma Rousseff subir, cresceu o Índice de Expectativa do Consumidor (Inec) medido pela mesma dupla CNI/Ibope que aferiu a popularidade presidencial. Quando o bolso está cheio, outros problemas, como notícias de corrupção, incomodam menos o cidadão.
Apesar de a crise econômica internacional ter atrofiado o crescimento do PIB brasileiro, ela não diminuiu o otimismo do consumidor. Pelo menos até agora. Os indicadores da situação financeira individual que compõem o Inec melhoraram em novembro e em dezembro. Nada guarda correlação mais estreita com a popularidade presidencial do que a combinação desses dois indicadores.
A presidente terminou 2011 tão bem quanto começou, com os mesmos 56% de “ótimo” e “bom”. É um índice historicamente alto. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisou de quatro anos de governo para chegar a esse patamar. E seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, só atingiu-o uma vez, em março de 1997.
Dilma herdou grande parte da popularidade de Lula, mas conseguiu mantê-la alta graças ao bom desempenho do consumo. Para isso contaram não apenas a renda individual mas também o acesso do consumidor ao crédito pessoal. Não por coincidência, facilitar o crédito é uma das primeiras medidas que o governo toma quando a economia esfria.
Juros mais baixos e crédito fácil têm impacto principalmente no bolso dos mais pobres. São as pessoas que ganham até 1 salário mínimo que mais bem avaliam o governo Dilma. São também as mais otimistas com o futuro de sua gestão e as que mais confiam na presidente.
Como no governo Lula, o grau de aprovação é inversamente proporcional à renda e à escolaridade. Os mais críticos à presidente são os que ganham mais e quem têm diploma de nível superior. Mas as diferenças são menos dramáticas do que foram no governo do antecessor. Dilma vai proporcionalmente melhor entre as mulheres e no Sul, por exemplo.
Nesse cenário, até as notícias de queda de ministros têm viés positivo para Dilma. As demissões dos auxiliares são interpretadas pela maioria como ações da presidente contra a corrupção. Cada ministro que cai, maior a faxina. É um mau sinal para os aliados da presidente, cada vez mais vulneráveis a trocas. Só lhes resta retaliar nos bastidores do Congresso Nacional e -novidade da semana- do Supremo Tribunal Federal.
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A quantidade de prefeitos eleitos por um partido está correlacionada ao que acontece com sua bancada de deputados federais dois anos depois. Em 2008, os principais partidos de oposição ao governo federal elegeram menos prefeitos. Não por coincidência, viram suas cadeiras federais minguarem quase na mesma proporção em 2010.
No sentido inverso, o ciclo eleitoral passado favoreceu petistas e aliados: ganharam prefeitos e, na eleição seguinte, deputados. Mas também aumentou a dispersão partidária. Mais legendas conquistaram espaço nas prefeituras e isso levou à pulverização ainda maior do poder na Câmara dos Deputados. A base de sustentação do governo federal ficou mais fluida, movediça.
Só por isso, o governo Dilma Rousseff já teria muito interesse no que vai acontecer nas eleições de 2012. Mas não fica aí. O pleito será o primeiro teste real de popularidade da presidente. Mesmo que os problemas locais sejam mais relevantes na decisão do voto de prefeito do que as ações federais, o resultado das urnas será creditado ou debitado parcialmente na conta de Dilma. Sua imagem sairá fortalecida ou enfraquecida. É uma prévia de 2014.
O governo federal influencia a eleição de prefeitos com transferências preferenciais de verbas, priorizando obras, alimentando ONGs -como fazem também os governos estaduais. Mas Brasília tem um poder a mais, o de influir no clima geral da opinião pública, pelo que faz com a economia. Otimismo ou pessimismo nascem no bolso e dali se espalham até chegar ao dedo que tecla “confirma” na urna eletrônica.
Um eleitor otimista é mais propenso a reeleger seus governantes. O pessimista é mais aberto a mudanças. Portanto, é do interesse geral dos prefeitos candidatos à reeleição que a economia esteja aquecida no próximo ano. Assim como é do interesse de Dilma.
É difícil encontrar algo que se correlacione mais com a popularidade do presidente no Brasil do que a confiança do consumidor. Se esse índice sobe, a avaliação do governo federal tende a melhorar, e vice-versa. Dentre os itens que compõem a versão do índice divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), dois têm correlação ainda maior: a situação financeira do entrevistado hoje (comparada ao período imediatamente anterior), e a expectativa do que deve acontecer com essa mesma situação financeira no futuro próximo.
A combinação desses dois indicadores, pesquisados mensalmente em sondagem CNI/Ibope, tem um coeficiente de correlação de 0,9 com o saldo de aprovação do governo federal. Grosso modo, é possível antecipar com 90% de acerto a tendência da popularidade de um presidente a partir desse índice composto -que poderia ser batizado de “bolso eleitoral”.
O mais surpreendente é o quão mais forte é essa correlação entre o bolso e a popularidade presidencial do que entre a imagem do governo e os outros indicadores que compõem o índice de confiança do consumidor. O medo do desemprego tem correlação, mas significativamente mais fraca do que o “bolso eleitoral”. E a expectativa de inflação simplesmente não se correlaciona com a popularidade presidencial. Oscilam frequentemente em direções opostas.
É mais um sinal de que o discurso da estabilidade econômica perdeu para o do crescimento. Talvez porque os últimos oito anos mostraram ser possível crescer sem perder o controle da inflação. Mais do que isso, esses anos de bonança criaram na opinião pública uma expectativa de que a capacidade de consumo não só pode como deve aumentar continuamente.
Quando o governo reativa o crédito, corta impostos sobre operações de financiamento e diminui a taxa de juros básica ele está tomando medidas para tentar reaquecer a economia e gerar mais consumo. O eventual aumento da atividade tem vários efeitos positivos para o próprio governo: aumenta a arrecadação de impostos e a disponibilidade de recursos para gastar.
Mas não dá para ignorar que a retomada do ritmo da atividade econômica também paga bônus eleitoral para aos governantes ao elevar o nível de confiança do consumidor. Toda ação governamental gera uma reação na opinião pública. Não existe o ato de governar exclusivamente técnico. Quem governa são os políticos, não os tecnocratas.
Nem toda medida com impacto eleitoral é ruim em si. A adaptação da política econômica às circunstâncias é do jogo. Entre as circunstâncias estão o ambiente político e a opinião pública. Um governo com popularidade em baixa perde sustentação política e, por tabela, graus de liberdade para determinar sua própria política econômica.
O problema acontece quando os interesses eleitoreiros de curto prazo de chocam com o que é melhor para o País no longo prazo. Por ora, o governo Dilma tem espaço para administrar as contradições entre a pressão inflacionária e o ritmo do consumo. Mas nem sempre é assim.
Logo após o massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, Fernando Henrique Cardoso experimentou seu único momento de impopularidade durante o primeiro mandato presidencial. Logo que as mortes saíram das manchetes, FHC recuperou a boa imagem conquistada pela estabilidade econômica. Reelegeu-se meses depois. Porém, ele nunca recuperou a popularidade perdida pela desvalorização abrupta do real, logo no início do segundo mandato.
Os governantes se tornam escravos do próprio sucesso. Quando não o seguem, pagam por isso.
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O câncer tem 10% de chances contra Luiz Inácio da Silva, mas 0% contra Lula. Do ponto de vista da opinião pública, a doença tende a reforçar o mito, como o tiro no peito transformou Getúlio Vargas de suspeito em herói -com todas as simplificações que isso implica. Nunca é bom subestimar a empatia do brasileiro por quem está perdendo mas demonstra garra para virar o jogo.
Lula intui isso ao dar transparência total à doença desde o diagnóstico. O “The New York Times” comparou-o ao mistério com que Hugo Chávez tratou o próprio câncer no início. Mas o presidente da Venezuela ganhou popularidade desde que o tratamento o fez raspar os cabelos e tornou a doença de conhecimento público. Certamente não foi a nova aparência que fez Chávez somar pontos no eleitorado.
Nesse cenário de mitificação renovada, quais as consequências da doença de Luiz Inácio para Dilma Rousseff e para o jogo político-eleitoral? Para ensaiar uma resposta, só fazendo suposições. Mas convém calçá-las em fatos.
Como o gráfico que ilustra este texto mostra, o crescimento do consumo de massa esteve intimamente ligado à disparada de popularidade de Lula. As curvas que representam a confiança do consumidor (em cinza, medida pelo INEC da CNI) e o saldo de aprovação presidencial (em preto, medido pelo Ibope) correram paralelas, num trajeto cheio de altos e baixos, mas com coeficiente de correlação de 0,83 -num máximo de 1,0.
É uma correlação muito forte. Significa que se um dos indicadores sobe ou cai, o outro tem enormes chances de acompanhá-lo. Foi assim ao longo de todo o governo Fernando Henrique Cardoso e no primeiro mandato de Lula. Mas a partir da segunda metade do segundo mandato, a popularidade de Lula e a confiança do consumidor, embora mantivessem o mesmo rumo ladeira acima, se descolaram. A aprovação ganhou uma camada extra de cobertura.
Há vários nomes para esse exagero de doçura com que o eleitor avaliou o ex-presidente no último período de seu governo, um deles é mitificação: apesar dos ditos e feitos, nada de ruim cola na imagem presidencial. Foi nesse clima que Lula elegeu Dilma.

O gráfico mostra, porém, que terminado o mandato de Lula, a fase mitológica acabou. As curvas de aprovação presidencial e a confiança do consumidor voltaram a convergir durante o governo Dilma -para um patamar muito parecido com o que Lula iniciou seu segundo mandato, antes de começar a virar mito.
Nada indica, por ora, que Dilma repetirá a façanha do antecessor. Além das doses incomparáveis de carisma pessoal, Lula vinha em ascensão, de melhoria da sua avaliação em relação ao mandato anterior. Com Dilma ocorre o oposto: apesar da alta aprovação, ela perde na maioria da população quando comparada a Lula.
A popularidade de Dilma depende, antes de mais nada, de ela conseguir equilibrar as variáveis econômicas para manter a expectativa de consumo em alta. Mas uma coisa ela não pode fazer, sob risco de ficar em impedimento na opinião pública: dar a impressão de trair seu criador. Especialmente agora.Vai se desdobrar para demonstrar o oposto.
Talvez Lula fale menos por causa da doença, mas também por causa da doença o que ele falar contará mais. As atenções vão voltar, pelo menos enquanto ele estiver em tratamento. Nesse período, em vez de perder, o ex-presidente ganha espaço. E Lula sabe transformar espaço em poder. No máximo vai ficar de mau humor por não poder beber nem fumar.
Se prevalecerem os 10%, e o câncer ganhar, todas as apostas estão zeradas. Como Getúlio, Lula tem sucessor administrativo mas não político. Sua saída prematura de cena abriria um novo capítulo na história.
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A aprovação do governo de Dilma Rousseff oscilou dentro da margem de erro da pesquisa CNI/Ibope, mas a repercussão majoritária na imprensa foi que ela cresceu de 48% para 51% -e é essa versão que acaba valendo. É mais uma notícia positiva para um noticiário que passou a ser visto como mais favorável (27%) do que desfavorável (21%) à presidente nos últimos meses.
A variação não caracteriza crescimento porque a margem de erro da pesquisa é de 2 pontos porcentuais, para mais ou para menos. Em julho, os 48% de ótimo+bom poderiam ser tanto 46% quanto 50%. E os 51% de agora podem ser 49% ou 53%. Só dá para falar em crescimento quando o limite máximo da margem de erro da pesquisa anterior supera o mínimo da atual.
Dilma está surfando uma onda positiva que começou com o que a oposição imaginou que seria o começo do fim da popularidade da presidente: a sequência de demissões de ministros por suspeita de corrupção. O que a pesquisa Ibope/CNI mostra é que a versão da “faxina” superou a do “mar de corrupção”. Dilma percebeu isso logo e só parou de demitir quando as reações da dita base aliada ficaram fortes demais.
O efeito positivo do uso da vassoura no ministério pode explicar o aumento da popularidade da presidente nas regiões Sul e Sudeste, mais sensíveis ao discurso anti-corrupção e onde a oposição costuma ter mais força.
O governo ganhou a batalha de comunicação das demissões em série de ministros (os números da CNI/Ibope desaconselham falar em “crise”), mas o principal indicador de que a guerra de popularidade ainda está sendo travada permanece inalterado. Seu desempenho no combate à inflação segue tão desaprovado quanto três meses atrás (55% a 56%). Isso se explica pelo fato de que 68% dos brasileiros acreditam que a inflação vai aumentar.
As pessoas sabem e comentam que os preços estão muito altos (quinta notícia mais citada espontaneamente), isso se reflete em um nível de confiança do consumidor mais baixo do que o de um ano atrás. Mas esse indicador ainda é apenas um sinal amarelo, de alerta. A preocupação com a inflação não se transformou em perda notável de poder de compra da população (só 13% acham que vão poder comprar menos bens de alto valor), e por isso a popularidade de Dilma segue alta.
O corte da taxa básica de juros pode ajudar Dilma a mantê-la assim. Apesar de 59% ainda desaprovarem a política de juros estratosféricos do governo, a desaprovação oscilou menos 4 pontos desde julho. Se o Banco Central, como prevê o mercado e quer o governo, continuar reduzindo a taxa, Dilma poderá faturar com o efeito da medida -pelo menos no curto prazo.
Embora 55% achem os governos Dilma e Lula iguais, essa impressão diminui com o tempo: era de 64% em março, caiu para 57% em julho e chegou a 55% agora. Dilma herdou grande parte da popularidade do ex-presidente, mas a comparação direta lhe é desfavorável: 26% acham o governo Lula melhor contra 15% que preferem o seu.
Há uma grande diferença de intensidade na aprovação de ambos. O governo Dilma é considerado “ótimo” por apenas 7% dos brasileiros. A maior parte (44%) o caracteriza como “bom”. Lula terminou a sua gestão com 26% de “ótimo” e 54% de “bom”. É um dos raros casos em que um presidente saiu do governo para entrar na mitologia.
Há indícios na pesquisa Ibope/CNI, ainda a serem confirmados, de que Dilma começou a se diferenciar muito lentamente do seu patrono aos olhos da opinião pública. E que, por enquanto, isso não a atrapalhou. Sua aprovação pessoal (71%) e confiança da população (68%) seguem altos.
Veja o relatório da pesquisa Ibope/CNI.
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Passada a superexposição da posse, os dois picos de citações do nome de Dilma Rousseff no Twitter, em 16 e 19 de março, correspondem à entrevista que a presidente deu a Hebe Camargo e, logo em seguida, ao encontro com o presidente norte-americano, Barack Obama, durante sua visita ao Brasil.
Não por coincidência, foi nessa época que Dilma alcançou seu mais alto porcentual de aprovação popular. Chegou a 56% de “ótimo” + “bom” na pesquisa Ibope/CNI concluída em 23 de março. Nem antes nem depois a presidente teve taxas de popularidade superiores a 50%. Lula não chegou a esse patamar de aprovação com três meses de governo (ele superaria essa marca bem mais à frente no mandato).
Foi o melhor momento de Dilma no Twitter e nas pesquisas de avaliação. Daí em diante a lua-de-mel com o poder acabou e os problemas começaram a a se misturar à agenda positiva.
Em abril, a presidente teve três pequenos picos de citações no Twitter em sequência. Os motivos foram diferentes: o encontro com o pop star Bono, do U2; a visita à China; e um movimento na internet contra a construção da usina de Belo Monte que tentava influenciar a decisão presidencial.
O terceiro maior pico de citações ao nome de Dilma ocorreu em 26 de maio. Ele foi provocado por duas polêmicas, nenhuma delas boa para a presidente: sua defesa do ainda ministro Antonio Palocci (Casa Civil), cujo patrimônio foi multiplicado dando consultorias a empresas quando era deputado; e a reação da bancada evangélica ao chamado kit anti-homofobia que o Ministério da Educação pretendia distribuir a escolas. Dilma recuou em ambos os casos.
Em 8 de maio, quando Palocci caiu e foi substituído por Gleisi Hoffmann na Casa Civil, Dilma voltou a ser muito citada no Twitter, nem sempre de maneira positiva, mas tampouco apenas de modo negativo. A situação se repetiu, mas com menor intensidade, em 5 de agosto, nas esteira da queda de outro ministro, agora o dos Transportes, Alfredo Nascimento, por denúncias de corrupção generalizada na pasta.
As mais recentes crises envolvendo denúncias de corrupção no governo, agora nos ministério da Agricultura e do Turismo, têm causado pouca repercussão envolvendo o nome de Dilma no Twitter. O gráfico mostra um pico de citações muito modesto em 5 de agosto.
A séria ininterrupta de escândalos e demissões parece ter a propriedade de diluir a atenção do público e, por consequência, perder impacto na opinião pública. Tanto é que a aprovação de Dilma, após o pico de março, permaneceu estável entre junho e o começo de agosto, quando se compara as três últimas pesquisas do Datafolha (10/06 e 04/08) e do Ibope (31/07). Mesmo após escândalos diferentes em quatro ministérios.
Numa comparação histórica, Dilma não destoa da média de aprovação que seus antecessores alcançaram por volta de seis meses de mandato. Ela tem 48% de “ótimo” + “bom” na mais recente pesquisa CNI/Ibope. Fernando Henrique Cardoso chegou a 42% de aprovação pelo mesmo instituto em junho de 1995 (primeiro mandato) e a 18% em maio de 1999 (logo após a desvalorização do real com que começou seu segundo governo).
Luiz Inácio Lula da Silva obteve marca equivalente ao rival no primeiro mandato (43% de “ótimo” + “bom” em junho de 2003) e melhor no segundo mandato (50% em junho de 2007). Dilma está se segurando no mesmo patamar de aprovação do segundo mandato de Lula, considerada a mesma época do governo.
Na pergunta “aprova ou desaprova o presidente?”, Dilma tem 67% de “aprova” contra 65% de FHC e 70% de Lula nos seus primeiros mandatos. Mas nem tudo são flores.
Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a mais forte correlação da popularidade de um presidente é com o estado da economia. Muito mais do que escândalos, pesam na opinião das pessoas seu poder de compra e as oportunidades de emprego. Consumo em alta e desemprego em baixa foram os estilingues da popularidade de Lula e Dilma. Mas os sinais no horizonte não são bons para a atual presidente.
Mais do que a crise financeira mundial, são os indicadores internos que piscam amarelo. A dificuldade de controlar a inflação preocupa a população, e o pessimismo aumenta. Nada menos do que 58% dos brasileiros esperam que a inflação cresça no futuro próximo. É um porcentual maior do que as expectativas inflacionárias nos primeiros seis meses de mandato de FHC (34% em 1995 e 50% em 1999) e de Lula (36% em 2003 e 41% em 2007).
Se as pessoas acham que os preços vão subir, há uma boa chance de a previsão se autorrealizar, pelo comportamento de manada dos mercados. Somem-se as pressões de oferta, como a prevista falta de etanol, e começam os problemas reais de Dilma. Uma escalada inflacionária corroeria a capacidade de as pessoas consumirem. E um furo no bolso do eleitor drena muito mais popularidade de um governante do que uma dezena de escândalos ministeriais.
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O começo de Dilma Rousseff na Presidência é mais bem avaliado do que foram todos seus antecessores pós-ditadura. Considerados apenas os três primeiros meses de governo, ela supera até o seu mentor, Luiz Inácio Lula da Silva.
Nem por isso alguém comparou-a a Hugo Chávez. A questão não é ser popular, mas como fazer uso dessa popularidade.
Para alguns, Dilma agrada mais do que Lula porque não fala diretamente ao eleitor. Sem um líder carismático, desaparece o fantasma do populismo. Sem ligação direta, os canais de intermediação entre o poder e a população readquirem influência.
Sob esse aspecto, Dilma está saindo melhor do que a encomenda para muitos dos que fizeram campanha contra ela na eleição de 2010.
Mas, do ponto de vista da maioria, essas diferenças de estilo passam batidas. Todos os indicadores da pesquisa CNI/Ibope sugerem que o governo Dilma é visto como uma extensão do governo Lula. Dele ainda emana o grosso de sua popularidade.
Além de Lula ter acabado o governo com 27 pontos de saldo a mais do que Dilma tem hoje, há uma grande diferença de intensidade. Em dezembro de 2010, para cada pessoa que dizia que o governo Lula era “ótimo”, duas diziam que era “bom”. No começo do governo Dilma, essa relação é de 1 para 5.
Se o empréstimo do antecessor explica a popularidade de Dilma no presente, seu futuro está condicionado ao desempenho da economia. Para sustentar sua aprovação no longo prazo, a presidente precisará diminuir a inflação e, por consequência, frear o consumo.
É um paradoxo: seu sucesso no futuro deve implicar uma perda de popularidade no curto prazo. Se isso ocorrer, não será na oposição que Dilma buscará apoio. Mas em Lula.
Combater as ideias
Estão tentando transformar Jair Bolsonaro (PP-RJ) em vítima -sob o argumento, falacioso e cínico, de que as críticas a ele pretendem cercear a liberdade de expressão do deputado.
É cínico porque Bolsonaro vive em um eterno 1º de abril, defende até hoje a ditadura militar e, por tabela, a censura que o regime instalou no País.
É uma falácia porque nunca Bolsonaro foi tão instigado a falar quanto agora e, infelizmente, nunca foi tão ouvido. O que se discute é se o deputado deve arcar com as consequências do que diz, mesmo escondido atrás da imunidade parlamentar.
Levado ao absurdo, o argumento de que os parlamentares são inimputáveis pelo que falam no exercício do mandato permite que amanhã um deputado ou senador pregue o terrorismo ou o assassinato de adversários sem sofrer nenhum tipo de consequência. Será o preço da democracia?
Cassar Bolsonaro é legalmente complicado e politicamente duvidoso. Não apenas ele poderia posar de mártir da liberdade de expressão, como facilmente seria substituído por outros do mesmo calibre. Basta lembrar que há um Bolsonaro deputado estadual e outro vereador.
Mais importante é combater as ideias. Rechaçar o racismo, a homofobia e a ditadura. Bancar o avestruz e fazer de conta que nada aconteceu também pode ser trágico.
Após transformar em celebridade o pastor da Flórida que ameaçava queimar exemplares do Alcorão, a imprensa norte-americana baniu-o do noticiário. Para não dar visibilidade ao seu radicalismo. Como se o fato só existisse ao ser noticiado pelos meios de comunicação tradicionais. Nada mais superado.
Mesmo sem cobertura maciça da mídia, Terry Jones queimou o livro sagrado dos muçulmanos. Não foi preciso mais do que um par de fotos no Facebook e um vídeo no Youtube para que a fogueira religiosa de Jones alcançasse o outro lado do mundo. Fanáticos religiosos vigiam-se uns aos outros.
Clamando vingança pela queima do Alcorão, fundamentalistas mataram e degolaram funcionários das Nações Unidas que trabalhavam no Afeganistão. As vítimas não tinham nada a ver com as taras do pastor Jones nem com as de seus assassinos.
Essa tragédia mostra o quanto é perigoso ignorar pregações de ódio. Um discurso racista aqui, uma agressão a homossexuais acolá sinalizam que há tensões sociais se acumulando. Se não forem dissipadas, um dia elas podem explodir e espalhar estilhaços para todos os lados, até onde estão os avestruzes.
A visita de Barack Obama ao Brasil impulsionou a popularidade de Dilma Rousseff e ajudou a presidente a ter um começo de governo mais bem avaliado do que seus antecessores -inclusive melhor do que o de seu mentor, Luiz Inácio Lula da Silva.
As entrevistas feitas pelo Ibope coincidiram com a passagem do presidente norte-americano, com seus discursos elogiosos ao País e a sua anfitriã. Isso fez com que a avaliação do governo Dilma melhorasse 9 pontos porcentuais em comparação à pesquisa Datafolha feita pouco antes da chegada de Obama.
Impulsionados pelo carisma do visitante e suas repetidas referências positivas ao Brasil, uma parte dos brasileiros que qualificavam a atual gestão como “regular” deu um upgrade na sua nota. O “ótimo/bom” pulou de 47% para 56% em cinco dias.
A influência positiva da visita fica clara em outra pergunta da pesquisa CNI/Ibope. A visita de Obama foi o segundo assunto mais lembrado pelos brasileiros entre as notícias sobre o governo Dilma. Só perdeu para o reajuste do salário mínimo, cujo noticiário não foi bom para o governo.
Na comparação com os primeiros meses de governo de Lula e Fernando Henrique Cardoso (nos dois mandatos de cada um), Dilma se sai melhor. Tem saldo positivo de 51 pontos. É mais do que os melhores resultados dos antecessores: 44 pontos de Lula em março de 2003, e 29 pontos de FHC em março de 1995.
Isso significa que Dilma é mais popular do que Lula? Longe disso. O ex-presidente terminou o mandato com 80% de “ótimo/bom” e saldo de 78 pontos. A presidente está a 27 pontos de quebrar esse recorde. Não é nada fácil.
E pode se tornar mais difícil no futuro, caso as políticas de controle da inflação continuem dando pouco resultado. Dilma herdou o governo surfando a onda de 8% crescimento da economia no ano passado. O otimismo ofuscou a alta dos preços.
Mas a combinação está se invertendo. A economia tende a desacelar nos próximos meses. Ao mesmo tempo, as projeções inflacionárias continuam apontando para cima.
O assunto é percebido por uma minoria da população (8%), por ora. Mas uma fatia bem maior (40%) acredita que o combate à inflação deve ser prioritário em comparação a todas as outras políticas públicas.
Logo, a popularidade de Dilma no longo e médio prazos vai depender de ela conseguir ter sucesso no combate à inflação no curto prazo. Por ora, a alta de sua aprovação indica que o consumo continua aquecido. Se a inflação for de demanda, a boa notícia de hoje pode ser a má notícia de amanhã.
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Em pesquisas de avaliação do governo, vale o saldo. Do total de ótimo/bom, subtrai-se a soma de ruim/péssimo: resultado positivo é aprovação; negativo, desaprovação. O “regular” não conta. Nesse critério, Luiz Inácio Lula da Silva bateu o recorde presidencial de José Sarney.
A série histórica do Ibope mostra que muita coisa mudou entre um e outro. Mas o motivo subjacente que orientou as curvas de popularidade do governante de plantão segue sendo o mesmo: o desempenho da economia.
Nos primeiros governos pós-ditadura, o padrão brasileiro era um presidente assumir com enorme esperança da população, e em seguida gerar grande frustração, sempre em meio a uma crise econômica. Foi assim com Sarney e Fernando Collor. Itamar Franco escapou por pouco.
Vice de Tancredo Neves empossado pela doença e morte do eleito no Colégio Eleitoral, Sarney teve seu momento de glória após um ano de governo, quando o Plano Cruzado pareceu controlar a inflação. Mas a aprovação durou poucos meses, como o sucesso do plano.

Em março de 1986, após o congelamento de preços decretado poucos dias antes, o maranhense chegou a 71% de ótimo/bom e 2% de ruim/péssimo: saldo de 69 pontos. Havia quem usasse espontaneamente botons dizendo-se “fiscal do Sarney”. Seria um “céu” efêmero.
No gráfico que ilustra esta página, esse é o ponto mais alto do começo da série. Para facilitar o entendimento, somou-se 100 a todos os valores. Quando a curva cai abaixo de 100, é sinal de desaprovação do governante. Quanto mais alta a curva, maior a popularidade presidencial.
O Cruzado não demorou a fazer água: no fim de 1986, após a eleição maciça de governadores do PMDB, a inflação saiu de controle e a popularidade de Sarney foi afundando à medida que ele trocava de ministro da Fazenda e o País chegava cada vez mais perto da hiperinflação.
Se perdeu o recorde positivo, Sarney mantém o de presidente que caiu mais fundo no abismo da impopularidade: em novembro de 1989, três meses antes de entregar o cargo, chegou a 60% de ruim/péssimo e inflação de 2.000% ao ano. O ministro era Mailson da Nóbrega.
Primeiro presidente eleito diretamente em décadas, o sucessor descreveu uma trajetória muito parecida, embora mais curta. Nada menos do que 59% dos brasileiros esperavam que Collor fizesse um governo ótimo ou bom. Dois anos depois, 41% o tachavam de ruim ou péssimo.
Entre o pico e o vale de sua popularidade, ele confiscou a poupança -por obra da ministra Zélia Cardoso de Mello-, viu a inflação voltar à casa do milhar, afundou-se em denúncias de corrupção e acabou por renunciar para evitar o impeachment.
Itamar assumiu com uma expectativa mais baixa. Não só pela má impressão deixada pelos antecessores, mas porque a crise econômica era séria. Em 1993, o Índice Geral de Preços (IGP) chegou a inacreditáveis 2.851%. Itamar mexeu na Fazenda tanto quanto no topete.
Depois de tentar alguns ministros mineiros como ele, acabou surpreendendo ao nomear um chanceler intelectual para comandar a economia. Os maldosos diziam que era falta de opção. Mal sabiam que graças a isso Fernando Henrique ganharia status de sigla, como JK e ACM.
Em janeiro de 1994, 40% da população desaprovava o governo Itamar. Aí veio o Plano Real, o controle duradouro da inflação e duas consequências políticas: o presidente deixou o Planalto mais popular do que entrou, e o ministro da Fazenda sociólogo virou seu sucessor.
No primeiro mandato, FHC governou com taxas de inflação cadentes e popularidade quase sempre positiva (embora oscilante). Sobreviveu a seguidas crises internacionais, recuperou-se do efeito do massacre de trabalhadores rurais em Eldorado dos Carajás (PA) e reelegeu-se.
Por ironia, o pico dos oito anos de governo Fernando Henrique ocorreu em março de 1997, pouco antes de ele aprovar a emenda constitucional que lhe daria -e aos sucessores- o direito de candidatar-se à reeleição: 56% achavam seu governo ótimo/bom. Nunca mais chegou perto disso.
No início do segundo mandato, em janeiro de 1999, a “equipe econômica” desvalorizou o real, a inflação subiu e oscilou em um patamar de dois dígitos. Ao mesmo tempo, a popularidade de FHC caiu.
A avaliação do presidente só recuperaria o saldo positivo no último ano de governo, mas bem menor do que a expectativa antes da sua primeira posse. A política econômica feijão-com-arroz foi insuficiente para eleger seu sucessor. Domar a inflação não era mais o bastante.
Lula elegeu-se presidente após três derrotas. A expectativa era grande: 51% apostavam num governo ótimo ou bom. No primeiro ano, a redução da inflação de 27% para 7% lhe garantiu popularidade alta. Mas a crise de 2004 fez ela cair a quase zero.
No começo de 2005, a recuperação econômica fez Lula voltar ao patamar de aprovação similar ao do primeiro ano de FHC. Aí veio o escândalo de mensalão. Denúncias de corrupção, queda de Antonio Palloci da Fazenda e o saldo de avaliação de Lula ficou negativo, por quatro meses.
A inflação em 2005 tinha sido a mais baixa desde 1945, os programas de transferência de renda começavam a dar dividendos políticos, o medo do desemprego começava a cair consistentemente, assim como crescia a confiança do consumidor (ambos medidos pela CNI).
Em menos de 12 meses, Lula saiu do risco de sofrer um impeachment para voltar ao pico de popularidade do começo do mandato. Para azar da oposição, isso aconteceu em um ano eleitoral. Reelegeu-se.
Comparado aos seis mandatos presidenciais anteriores, o segundo de Lula foi um passeio. Graças ao incentivo ao consumo, gastos públicos crescentes e políticas de crédito ampliadas, nem a alta da inflação em 2007 e 2008 nem a crise global derrubaram sua popularidade.
Ao contrário, ela só cresceu. Lula chega ao final de oito anos de governo com 80% da população dizendo que seu governo foi ótimo ou bom, e apenas 4% achando-o ruim ou péssimo. Seu saldo de 76 pontos é recorde desde que se avalia presidentes no Brasil.
Lula elegeu sua sucessora, e ela não veio da área econômica. Guido Mantega foi um ministro da Fazenda que viu o PIB crescer 8%, mas jamais foi cogitado como presidenciável. Dilma Rousseff foi eleita falando em obras sociais e de infra-estrutura. A inflação não foi nem sequer tema da campanha eleitoral.
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Mesmo que a participação das forças federais tenha sido acessória na ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula Silva lucrou com a ação. O recorde de sua popularidade alcançado na pesquisa CNI/Ibope está conectado à imagem de sucesso projetada pela operação.
Os que acham o governo ótimo ou bom chegaram a 80% da população em dezembro. É o porcentual mais alto da série. A variação positiva em comparação à pesquisa anterior foi dentro da margem de erro, três pontos porcentuais, mas a marca tem valor histórico, pois será a nota final de Lula.
Embora a diminuição da pobreza e do desemprego sejam as duas maiores virtudes da atual administração federal na opinião dos brasileiros, foi na segurança pública que a avaliação do governo mais evoluiu desde setembro.
A aprovação à atuação federal nessa área subiu nove pontos. Chegou a 49% e, mesmo que tecnicamente empatada com a desaprovação (46%), é simbólico que pela primeira vez o número da taxa positiva esteja à frente do da negativa.
Alguma dúvida de que isso tem a ver com a imagem de traficantes fugindo de morros cariocas e de blindados da Marinha passando por cima de carros? Nada menos do que 1 em cada 3 brasileiros citou espontaneamente a ação das Forças Armadas no Rio como o fato recente ligado ao governo de que mais lembravam.
Os 32% de citações da ocupação do complexo do Alemão se tornam ainda maiores se levarmos em conta que 31% dos brasileiros não souberam responder. Ou seja, praticamente metade dos que disseram alguma coisa se referiram à ação policial/militar.
Essas respostas superaram na proporção de 3 para 1 as citações ao noticiário sobre a formação do novo governo, o segundo fato mais lembrado (11%), junto com os problemas relacionados às provas do ENEM (10%).
Esse é o tamanho do desafio de Dilma Rousseff (PT). A eleita sucede o presidente mais bem avaliado da história do Brasil no ápice de sua popularidade. E nada menos do que três quartos dos brasileiros esperam que ela faça pelo menos igual (58%) ou melhor (18%).
Raros são os presidentes que conseguem chegar ao final do seu governo, especialmente de um segundo mandato, no seu patamar mais alto de aprovação. Em geral, isso ocorre no princípio da administração, antes do acúmulo de desgastes ao longo do exercício do poder.
Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, alcançou seu pico de popularidade em meados de 1997, quando conseguiu aprovar a emenda da reeleição no Congresso. Daí para frente sua avaliação tendeu a piorar.
Lula se beneficiou da aceleração da economia, que aumenta o otimismo da população. É esperado que as pessoas creditem ao menos parte da melhoria de sua condição de vida ao governante de plantão. Não é à toa que o petista chega a seu ápice junto com taxas recordes de crescimento do PIB, como os 8,1% projetados para 2010 pelo IBGE.
A relação de Dilma com a opinião pública nos próximos quatro anos estará diretamente vinculada ao desempenho da economia, ao nível de renda, de emprego e, principalmente, ao consumo da população. Foi o que a elegeu. Pode ser sua consagração ou seu fracasso.
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(texto publicado na edição impressa do Estado)
Na batalha da propaganda, Dilma Rousseff (PT) ganhou o primeiro round de José Serra (PSDB). A candidata petista passou à liderança isolada da corrida presidencial justamente no período em que o tucano concentrou sua propaganda na TV e no rádio. Aumenta assim a pressão para Serra mudar de estratégia e de discurso.
Enquanto PSDB e aliados colocaram Serra em evidência nos programas partidários obrigatórios, o governo federal e a Petrobras marcaram presença nos horários de jogos e programas da Copa do Mundo, com spots otimistas sobre o Brasil. Mesmo sem mostrar Dilma, a propaganda oficial parece ter funcionado como antídoto à dos tucanos.
O resultado desse embate de comunicação antecipa o que poderá acontecer a partir de agosto, quando começa o horário eleitoral gratuito, se Serra mantiver a estratégia atual. Além de Lula dizendo que seu nome é Dilma, a petista contará com cerca de 40% a mais de tempo de propaganda do que seu adversário.
Serra precisará decidir como vai ocupar seu tempo de TV. O discurso adotado até agora (o Brasil melhorou mas pode melhorar mais) não está lhe dando um voto além dos que ele já tinha. Mais: não está conseguindo segurar os eleitores que aprovam o governo Lula mas votavam no tucano.
Em março, segundo o Ibope, só 58% dos eleitores sabiam dizer que Dilma era a candidata de Lula. Esse percentual cresceu mês a mês, até chegar, agora, a 73%. Ao mesmo tempo, a petista foi ultrapassando Serra entre os que dão nota 10 ao governo, depois entre quem dá nota 9 e assim por diante.
Ainda há cerca de um quarto de eleitores que desconhecem a ligação de Dilma ao presidente. E a intenção de voto da petista parece crescer na proporção da redução desse grupo. Ou seja, ela ainda pode ganhar alguns pontos com a propaganda eleitoral na TV e no rádio apenas conectando seu nome ao de Lula.
Nesse cenário, resta a Serra mudar de estratégia, partindo para o ataque, ou esperar por um erro da adversária. Ambas as opções são arriscadas.
Como Marina Silva (PV) permanece estacionada no patamar de 10% das intenções de voto, é necessário que Dilma ou Serra abram 10 pontos de vantagem um sobre o outro para vencer já no 1º turno. A petista percorreu metade desse caminho até agora.
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Do jeito que está, a campanha de José Serra (PSDB) a presidente não parece ter um futuro promissor. O tucano foi ultrapassado por Dilma Rousseff (PT) justamente no período em que mais concentrou sua propaganda nos horários patidários do PSDB e dos aliados. Ou seja: sua comunicação não funcionou contra o “meu nome é Dilma” de Lula.
Para continuar a ter chances, Serra precisará encontrar um novo discurso e uma nova estratégia de campanha. Fora disso, só lhe restará esperar por um erro da adversária. Mal-comparando, seria jogar como a Grécia jogou frente à Argentina na Copa: mesmo precisando da vitória, armou uma retranca e deixou só um jogador na frente.
Não funcionou para a Grécia, que acabou desclassificada. Se quiser ganhar, Serra vai ter que partir para o ataque.
(clique na imagem para ampliar)
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Presidente do PRTB, Levy Fidelix (o do aerotrem) entrou com ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para impedir a divulgação da pesquisa Ibope/CNI sobre a eleição presidencial. Ele estava na bronca porque seu nome não foi incluído entre os presidenciáveis. O ministro Aldir Passarinho indeferiu o pedido.
Em sua decisão, o ministro explicou que, pela legislação e jurisprudência em vigor, os institutos só serão obrigados a incluir todos os nomes de candidatos nos questionários da pesquisa a partir de 5 de julho. É essa a data limite para o registro de candidaturas junto à Justiça eleitoral. Até lá, é pré-campanha, sem candidaturas oficializadas, sem candidatos registrados. Mais no site do TSE.
Mas, como o status da pesquisa Ibope/CNI no site do TSE aparece como “pedida impugnação”, bastou para uma onda de boatos e disse-que-disse varrer a internet com as teorias conspiratórias de sempre.
Segue o jogo.
…
PS: o plenário do TSE negou, por unanimidade, o recurso do PRTB à decisão do ministro Aldir Passarinho.
(texto publicado na edição impressa de 18/03/2010 do Estadão)
Cruzamentos da pesquisa Ibope/CNI obtidos pelo repórter Daniel Bramatti, do Estadão, mostram que Dilma Rousseff (PT) ainda tem potencial para crescer, teoricamente, até 19 pontos percentuais às custas da popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva. Isso na hipótese de ela conseguir conquistar todos os eleitores que, mesmo sem saber quem é o candidato do presidente, preferem votar nele.
Hoje, segundo o Ibope, só metade do eleitorado predisposto a votar no candidato apoiado por Lula declara voto em Dilma. A razão desse descompasso é o desconhecimento, por parte de um em cada quatro desses eleitores pró-Lula, de que a ministra é a candidata do presidente.
Do total do eleitorado, 53% afirmaram ao Ibope que preferem votar em um candidato a presidente que tenha o aval de Lula. Nesse segmento, metade declarou voto em Dilma, o que explica 27 dos 30 pontos percentuais de intenção de voto obtidos pela petista.
O potencial de crescimento de Dilma está na outra metade, principalmente nos 39% que preferem um candidato apoiado por Lula mas não sabem quem ele é. Descontando-se a pequena parcela que já declara voto na ministra mesmo ignorando ser ela a candidata do presidente (8%), chega-se a um potencial de crescimento de 19 pontos percentuais para Dilma.
Claro que isso é um exercício teórico e que nem todos os eleitores vão simpatizar automaticamente com Dilma quando descobrirem que ela é a candidata de Lula. Na verdade, a ministra terá mais dificuldades para conquistar esses eleitores, porque a maioria deles já declara preferência por outros candidatos.
Dos 39% que não sabem ser Dilma a presidenciável de Lula e que votariam preferencialmente no candidato do presidente, a maior parte (43%) declara voto em José Serra (PSDB). Outros 19% preferem Ciro Gomes (PSDB), 6% optam por Marina Silva (PV) e 24% são eleitores sem candidato (não sabem, não responderam ou pretendem anular/votar em branco).
Outros cruzamentos da pesquisa Ibope/CNI indicam que o crescimento obtido até agora por Dilma ocorreu principalmente no eleitorado simpatizante do PT e mais permeável à propaganda do partido. Daqui para frente a candidata enfrentará um terreno mais duro, tendo que “roubar” eleitores de outros candidatos.
Essa hipótese de crescimento de Dilma também depende de Lula conseguir manter a economia e o consumo acelerados, e, por consequência, sua popularidade em alta. Qualquer oscilação negativa na aprovação do governo reduziria o potencial de crescimento da candidata do PT.
Diferentemente das pesquisas dos institutos Datafolha e Vox Populi em 2010, o Ibope não identificou queda na intenção de voto de José Serra (PSDB) na pesquisa contratada pela Confederacão Nacional da Indústria (CNI) e divulgada nesta quarta-feira. Os pesquisadores foram a campo entre os dias 5 e 10 de março.
No cenário mais provável, Serra mantém a liderança, com 35% das intenções de voto, contra 30% de Dilma Rousseff (PT). São seguidos por Ciro Gomes (PSB), com 11%, e por Marina Silva (PV), com 6%. Os eleitores sem candidato somam 18% -são os que pretendem anular, votar em branco ou que não souberam responder. A margem de erro máxima é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.
No gráfico abaixo, com os resultados de todos os institutos, nota-se que desde dezembro a intenção de voto do candidato tucano apresenta uma tendência de queda. Segundo o Datafolha, Serra caiu de 37% para 32%. E, pelo Vox Populi, a queda foi de 39% para 34%. O Sensus não mostra queda do tucano porque já indicava o candidato do PSDB com 32% desde novembro.
Já na comparação das últimas pesquisas do Ibope, Serra mantém-se no mesmo patamar de intenção de voto, oscilando dentro da margem de erro: de 38% em novembro, para 36% em fevereiro e 35% em março.
Ao mesmo tempo, a tendência de crescimento de Dilma é unânime entre os quatro institutos. Os 30% alcançados pela petista na pesquisa mais recente, do Ibope, indicam que ela continua crescendo e atingiu o patamar histórico dos candidatos a presidente do PT (leia-se Lula) em março.
A diferença de tendência de Serra no Ibope em comparação aos outros institutos é pequena mas consistente. Cabe dentro da margem de erro e pode, portanto, ser casual. Ou pode ser provocada por diferenças metodológicas, seja na maneira de abordar o eleitor, seja no desenho da amostra selecionada para representar o eleitorado brasileiro.
Se a diferença fosse apenas em comparação ao Datafolha, ela poderia ser explicada por um instituto fazer pesquisas domiciliares e outro abordar o eleitor na rua (saiba mais sobre isso lendo outra nota deste blog). Mas o Vox Populi também faz suas pesquisas com entrevistas na casa do eleitor. Logo, a diferença pode ser tributada ao acaso ou ao desenho da amostra e execução da pesquisa.
Outras “explicações” vão se basear nas declarações reiteradas do presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, segundo as quais Serra será eleito presidente, porque “o brasileiro não é pau mandado” e não votará em Dilma apenas por causa da popularidade de Lula. A aposta do dirigente do Ibope é isso, apenas uma aposta. É difícil acreditar que possa ter contaminado as pesquisas do instituto.
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