José Roberto de Toledo - Estadao.com.br
ir para o conteúdo
 • 

Patrocinado por

O valor do minuto de propaganda eleitoral disparou na semana passada – e é sua cotação que vai determinar o destino dos candidatos a presidente daqui para frente. A oscilação afetou diretamente as chances de Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). Como? Em tempo. Antes, um passo atrás para olhar o contexto desse sobe-e-desce de preços.

Com o aumento do ruído de fundo e das tentações eletrônicas, a atenção do público perde-se à deriva. O cidadão é mais disperso e menos atento na razão da densidade de suas conexões. Quanto mais envolvido pelos quintiliões de bits e bytes que o novo mundo digital produz diariamente, mais difícil é para cortar pelo cipoal de dados e encontrar significado e rumo através da selva de textos, telas e fragmentos de informação.

Essa tendência está mudando as campanhas eleitorais. O tempo pelo qual o eleitor é capaz de se concentrar no tema da eleição e decidir seu voto é progressivamente mais curto. A cada pleito, o período decisório dos sem-candidato – quando o eleitor menos interessado informa-se para definir em quem votará – é tanto mais breve quanto mais próximo do dia de ele ir à urna.

Pudera ser quase impossível encontrar candidato que sobreviva à reta final da campanha eleitoral sem um estoque mínimo de tempo para propaganda de TV. E a nota de corte sobe a cada eleição: mais e mais minutos são necessários para o candidato superar intenções de voto liliputianas e assomar acima dos nanicos.

Nesse cenário, levam vantagem candidatos que têm um eleitorado cativo e se beneficiam da inércia do voto. Não basta ser muito conhecido, porém. É preciso ter marca forte e rejeição desproporcional ao grau de conhecimento, ou o candidato cai no paradoxo serrano: quanto mais aparece, menos eleitores têm. A rejeição alta – como a falta de tempo de TV – é eliminatória.

Mesmo os candidatos conhecidos batalham por mais tempo de propaganda. Se não para eles próprios aparecerem, para impedir que os adversários apareçam. Essa é a batalha em curso, e que antecipa a sucessão de 2014. Quem já tem muito tempo, como a presidente, tenta amarrar as alianças para não deixar preciosos minutos escaparem para a oposição. Quem não tem corre atrás.

Dilma é assombrada pela inflação também de aliados. Por proteção, a presidente fez um caxangá ministerial na quinta-feira: tirou Brizola Neto (PDT) do Trabalho, pôs um mineiro na Agricultura e deixou o peemedebista Moreira Franco ficar, mas num posto menos decorativo. Tudo para reforçar a aliança com o PMDB e tentar resgatar os fugidios e divididos pedetistas.

O equilibrismo presidencial amarrou os dois minutos e meio do PMDB, deu um laço nos 45 segundos do PDT mas deixou escapar o minuto e quarenta do PSD de Gilberto Kassab. O ex-prefeito percebeu que a cotação do tempo de TV está em alta e comprou uma opção de venda futura quando, aposta, o apoio de seu partido valerá mais do que o microministério oferecido por Dilma.

A manobra especulativa não foi só de Kassab. O PPS tenta reverter sua decadência eleitoral fundindo-se ao nanico PMN. Mesmo juntos, os dois partidos têm poucos segundos a oferecer em tempo de TV a um presidenciável. Mas a criação da nova sigla abre a Caixa de Pandora da fidelidade partidária: deputados de outros partidos podem aderir sem perder o mandato – foi a jurisprudência criada pelo TSE ao julgar o caso do PSD.

O PPS+PMN aposta que atrairá deputados de outras siglas se a nova legenda estiver aliada ao PSB de Eduardo Campos em 2014. Acha que atenderá uma demanda reprimida na Câmara. O movimento ajudaria o governador de Pernambuco a alcançar o mínimo de 12% do tempo de TV (98% dos candidatos a prefeito que não atingiram esse patamar não se elegeram nem chegaram ao 2º turno em 2012).

Quem mais tem a perder com a fusão é Aécio Neves. O tucano não apenas perderia os segundos de TV do PPS, como veria a candidatura oposicionista de um rival ganhar viabilidade eleitoral. Potenciais aliados, como PTB e DEM, poderiam se sentir tentados a embarcar na canoa reforçada de Campos. Pior, tucanos dissidentes poderiam pular fora do barco de Aécio.

“Mineiro” à la Getúlio Vargas, o ex-governador de Minas gostaria de esperar em cima do umbuzeiro até a undécima hora – e só saltar para a campanha presidencial quando as condições lhe fossem ideais. Mas tem tucano serrando o tronco do umbuzeiro.

Tags: , , , , , , , , ,

Comentários (5) | comente

Estatísticos e redatores parecem não ter chegado a um consenso sobre o lugar do Brasil no Relatório de Desenvolvimento Humano 2013 do PNUD/ONU. Enquanto uns usaram dados educacionais de 2005 que ajudaram o país a praticamente estacionar no seu Índice de Desenvolvimento Humano no curto prazo, outros citaram o Brasil como um dos exemplos de estratégia para avançar no longo prazo.

Desta vez, os redatores do relatório chegaram mais perto da realidade do que os compiladores de estatísticas. O texto é mais revelador do que a tabela principal no RDH 2013.

O IDH é inadequado para medir movimentos de curto prazo. Três dos quatro indicadores usados na composição do índice movem-se muito lentamente e só são capazes de capturar tendências que demoram anos, senão décadas para mudar. A saber: média de anos de estudo da população, média de anos que os alunos devem passar na escola e a esperança de vida ao nascer.

O único indicador sujeito a alterações bruscas é a renda nacional per capita. Mas o IDH foi criado justamente para ser um contraponto ao PIB e a visão economicista do mundo que ele encerra. Dinheiro, dentro do IDH, é um meio para atingir o desenvolvimento humano, não um fim em si próprio. Logo, não faz sentido analisar o IDH de perto, com microscópio. Avanços e retrocessos se medem à distância, em perspectiva histórica.

Clique na imagem para interagir com o gráfico

Clique na imagem para interagir com o gráfico

O que os redatores do RDH 2013 captaram muito bem é que um grupo de países – Brasil incluído – teve um desenvolvimento acima do esperado ao longo das últimas décadas. Eles devem estar fazendo algo certo e merecem ser olhados, aí sim, com lupa, para ver se há algo no seu modelo que possa ser copiado por outras nações. Daí que China, Índia e Brasil tenham sido as estrelas do texto.

Em comum, esses países promoveram políticas que os levaram nos últimos 20 ou 30 anos a dar um salto de desenvolvimento. É fato que o salto chinês foi maior, mas partiu de um patamar mais baixo, onde avanços encontram menos resistência. Foi o que aconteceu com o Brasil nos anos 80, quando políticas simples e baratas como a adoção do soro caseiro para combater a mortalidade infantil teve enorme impacto sobre a longevidade.

Os avanços só são significativos se mantidos ao longo do tempo. O IDH, por consequência, não serve para medir o desempenho de um ou outro governo. Por mais urticária que isso possa provocar em petistas e tucanos, não haveria progresso do IDH se a estratégia tivesse sido interrompida com a troca de presidentes.

As táticas usadas por China, Índia e Brasil foram diferentes, mas o trio convergiu na estratégia: os três investiram em saúde e educação (em diferentes graus) e fortaleceram seus mercados internos ao mesmo tempo que ampliavam o número de parceiros comerciais e diminuíam sua dependência dos países ricos. Para fortalecer o mercado interno, multiplicaram os consumidores através da distribuição de renda na base da pirâmide.

Se fosse para resumir numa imagem, o relatório mostra que um país avança mais rapidamente quando é empurrado pela base, onde está o grosso da população, do que quando é puxado pela ponta, onde permanece a sua elite.

Tags: , ,

Sem Comentários | comente

“Queridos e queridas” é o novo “companheiros e companheiras”. Dilma Rousseff voltou a soar seu bordão ao conjurar eleitores na sexta-feira à noite, no seu pronunciamento em rede de rádio e TV. “Meus queridos brasileiros e, muito especialmente, minhas queridas brasileiras” – começou a presidente, antes de anunciar a desoneração da cesta básica, no Dia Internacional da Mulher. Não foi por acaso.

“Queridos e queridas” são a chave para identificar quando Dilma está em campanha. Ao contrário de Lula, que conclamava os “companheiros” em qualquer discurso, ela faz uso seletivo do bordão. Parece até que a evocação depende de quem escreve o texto, se o “ghost-writer” palaciano ou o marqueteiro da reeleição. Mas importa menos o “quem” do que o “quando”.

Em quase 400 manifestações públicas desde que tomou posse da Presidência, Dilma fez uso de “queridos” (no plural) em apenas 58 ocasiões. A referência a “queridas” foi duas vezes mais rara: só em 31 vezes. Juntos, “queridos” e “queridas” só saíram da boca de Dilma em 6% de suas falas. Foram poucas e boas, porém.

Os pronunciamentos presidenciais em rede de TV, quando a audiência é potencialmente de dezenas de milhões de pessoas, começam invariavelmente por “Queridas e queridos”. Foram cinco vezes em 2011, quatro em 2012 e duas até agora em 2013. Dilma tem usado efemérides para monopolizar a TV: Natal, Dia do Trabalho, Sete de Setembro. Vale observar se a regra se repetirá até 2014, ou se o calendário eleitoral se imporá ao cronológico.

Na sexta, as brasileiras foram “queridas” duas vezes, e as mães, uma. Foi uma rara – senão única – demonstração de afetividade. Dilma costuma ser econômica nos adjetivos que dirige ao público. Fala uma vez “queridos e queridas” na abertura – ou quando se dirige diretamente à audiência – e basta. A repetição adjetiva de sexta-feira sugere um esforço extra para criar empatia.

Clique na imagem para interagir com o gráfico

Clique na imagem para interagir com o gráfico

O bordão é pouco espontâneo, mas maleável. Pode ser adaptado ao alvo, como em “queridas prefeitas e queridos prefeitos”, usado por Dilma durante seu encontro com os novos chefes do Executivo municipal – e potenciais cabos-eleitorais – em janeiro passado. Pode virar “queridos formandos” (formatura do Instituto Rio Branco), ou “queridos mineiros” (entrega do Mineirão).

Mas “queridos brasileiros” Dilma usa apenas nos pronunciamentos em rede de TV e rádio – ou em ocasiões solenes, como durante seu discurso de posse no Congresso Nacional.

O “querido” perde a solenidade, porém, se é dirigido a repórteres. Quando a presidente ouve uma pergunta de que não gosta, o interlocutor logo descobre porque a resposta vem precedida de um enfático e irônico “Meu querido,…”. Como, por exemplo, em “Meu querido, não respondo a essa pergunta”, ou em “Meu querido, eu não vou ficar me atendo à pauta do adversário”.

Poucas palavras revelam mais o estado de espírito presidencial do que “querido” – seja pela pronúncia ou pela omissão.

Em 2011, Eduardo Campos ouviu vários “querido”, ditos em público pela presidente durante cerimônias em Brasília e no Nordeste. Em 2012 e 2013, nenhum (mesmo quando sua mulher, Renata, foi saudada com um “querida” por Dilma em dezembro, no Ceará). Ao contrário, desde o ano passado que os repasses federais para Pernambuco, o estado governado por Campos, diminuíram a patamares não de “querido”, mas de oposicionista.

Levantamento feito pelos repórteres Julia Duailibi e Bruno Boghossian, do Estado, mostra que a proporção de repasses voluntários da União a Pernambuco caíram quase pela metade entre o primeiro e o segundo anos do governo Dilma – indo na direção oposta do que ocorreu no governo Lula, quando só cresceram.

Não terá sido coincidência a escassez tanto de investimentos quanto de “queridos” no relacionamento de Dilma com Campos desde que o governador se tornou presidenciável. Daqui até 2014, “queridos” devem sair cada vez com mais frequência da boca de Dilma. Se forem incluídos nas referências ao governador pernambucano, será sinal de que o PSB e seu presidente decidiram adiar para 2018 o projeto de concorrer à Presidência.

“Queridos” e “palhaços”

Antes “querido” do que “palhaço”. Quando mandou um repórter “chafurdar” no lixo e chamou-o de “palhaço”, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, demonstrou o seu equilíbrio. Ao não pedir desculpas de viva voz e usar o texto de um subalterno para tentar se redimir, o ministro provou o seu caráter.

 

Tags: , , , , ,

Sem Comentários | comente

04.março.2013 14:48:48

Lanterna na proa

Duas notícias caíram no colo dos que a candidata Dilma Rousseff tachou de “mercadores do pessimismo”: o PIB nanico de 2012 e a terceira queda consecutiva da confiança do consumidor (INEC), já em 2013. Uma é o passado, a outra insinua o futuro. O mercado, de lanterna na popa, excitou-se com o PIB e esnobou o INEC. O governo, no discurso, sugere que se apaguem as lanternas. Navegar no escuro – ou iluminando a ré – dá na mesma: a praia.

Como sempre ocorreu no último quarto de século, a política segue o rastro da economia. Tem sido assim desde a hiperinflação de José Sarney e a eleição de Fernando Collor, passando pelo lançamento do real e a eleição de Fernando Henrique Cardoso, até chegar à explosão do consumo da era Lula e a eleição de Dilma. O PIB de hoje é o slogan eleitoral de amanhã. E o consumo de amanhã é o resultado da próxima eleição. Assim, lanterna à proa.

Clique na imagem para interagir com o gráfico

Clique na imagem para interagir com o gráfico

Um consumidor de manchetes mais distraído poderia protagonizar o seguinte diálogo com alguém que tenha lido até o fim o noticiário sobre os rumos da economia nos últimos tempos:

-E o PIB, hein? Caiu, né?
-Não.

-Não?

-Não. Freou forte, mas está subindo. Bem lentamente, mas continua indo para cima.

-Ah, mas está quase parando, indo cada vez mais devagar.

-Também não.

-Como não? Vi aí no jornal, por cima do seu ombro: diz que só não está pior do que na época do Collor.

-Você precisa ler a história toda. Depois da crise mundial de 2008, a economia do Brasil andou para trás por nove meses, até quase o final de 2009. Mas aí deu a louca e pisou fundo no acelerador por um semestre. Desde 2010 ela continuou crescendo, mas em ritmo cada vez mais lento. Foram dois anos de desaceleração contínua até junho do ano passado.

-Ah, então estamos a caminho do fundo do poço…

-Pois é. Não.

-Você é do contra, né?

-Deixa eu terminar? Quando parecia que iria parar e engatar a ré, a economia começou a acelerar novamente em 2012. No terceiro trimestre, cresceu mais depressa do que no segundo; e no quarto trimestre, mais rapidamente do que no terceiro.

-Puxa, que alívio! Então está tudo bem…

-Não.

-Você está de sacanagem!

-Não sou eu, são os números. Primeiro, que ela ainda está mais devagar que este ônibus. Depois, não dá para projetar nenhuma tendência de reaceleração da economia antes de maio ou junho.

-Por que?

-É preciso ver se essa retomada tímida do fim do ano passado se sustenta em 2013.

-E por que não se sustentaria?

-O capital continua assustado. Os investimentos pulam para cima e para baixo a cada um ou dois anos. Ao menor sinal de crise, a euforia vira desconfiança, às vezes depressão.

-O capital é bipolar, é?

-Não sei. O Delfim chama de “stop and go”: anda e para, anda e para.

-Entendi, é como o trânsito em São Paulo.

-Sem falar que tem o problema do consumo.

-Que é que tem o consumo? O consumo está ótimo. Olha ali pela janelinha a quantidade de camelô na calçada.

-Não sei, não. Parece que o consumidor está perdendo a confiança.

-Desconfiado é você.

-Olha aqui essa nota no pé da página: diz que o índice de expectativa do consumidor caiu de novo em fevereiro. É o terceiro mês seguido que o consumidor fica mais desconfiado.

-Desconfiado de que?

-Da inflação, que voltou a subir.

-E daí? Olha lá para fora. Nunca teve tanto carro na rua nem avião no ar. A classe C deixou a rodoviária às moscas. Não leu aí no seu jornal, não?

-Eu sei, se não fosse o consumo das famílias o PIB já tinha se estatelado há muito tempo. Mas esse índice em queda…

-E esse tal de INEC por acaso é pitonisa?

-Não chega a tanto, mas sempre que ele caiu várias vezes em seguida, o consumo das famílias acabou desacelerando depois. E se o consumo não crescer mais tanto assim, aí o PIB pode ficar nanico de novo.

-Não esquenta, não. Se perceber que isso vai acontecer, a Dilma lança mais incentivo para o povo comprar geladeira e carro em 120 vezes sem juros.

-Aí é que este trânsito não vai andar mesmo.

-Mas a tentação é grande, né? Quem não quer ser popular como o Lula foi?

-Esse é que é o ponto. Quando a confiança do consumidor subiu, a popularidade do Lula e da Dilma subiram junto. Quando ela cair…

-Mas você não disse que o PIB está subindo, que pisou no acelerador de novo?

-É, bem… Puxa, me distraí. Dá licença, por favor, que eu preciso descer.

-Ih, passou do ponto, foi?

-Temo que sim. Quer ficar com o jornal?

-…

 

 

Tags: , , , , , , ,

Sem Comentários | comente

25.fevereiro.2013 14:57:49

Segundos dentro! Combate!

Lula montou o ringue de 2014, escolheu os adversários e deu ordem de combate. No “corner” vermelho, com a maioria absoluta do tempo de propaganda na TV, Dilma Rousseff (PT); com luvas azuis e amarelas e nove minutos a menos do que a rival, Aécio Neves (PSDB). À diferença do boxe, nesta eleição presidencial todos os segundos ficam dentro do ringue: Lula e o cronômetro, no canto de Dilma; FHC, no de Aécio. Quem ganha mais?

Do jeito que está armada, a briga é desigual. Com as alianças partidárias em vigor, triplicará a vantagem de propaganda da petista em comparação ao candidato do PSDB. Nas contas sempre precisas do jornalista Daniel Bramatti, Dilma teria 12 minutos e 51 segundos por bloco de 25 minutos de propaganda eleitoral, contra apenas 3 minutos e 45 segundos de Aécio. Isto é: 3 minutos e 25 segundos da petista para cada minuto do tucano.

Para se ter uma ideia do que isso significa, em 2010 José Serra (PSDB), com 69% do tempo de TV de Dilma, recebeu o equivalente a 70% dos votos da petista no primeiro turno. No cenário atual, Aécio teria 49% menos tempo do que Serra teve na TV, e Dilma, 21% a mais do tempo que desfrutou quando foi eleita presidente. Faça as contas.

Clique na imagem para interagir com o gráfico

Clique na imagem para interagir com o gráfico

A menos que, como na luta livre, outros entrem no ringue junto ao tucano e contra a petista, é alta a chance de nocaute no primeiro turno. As entradas de Marina Silva (sem partido), pelo canto verde amarelado, e de Eduardo Campos (PSB), pelo vermelho desbotado, não dão nenhum segundo a mais de TV para Aécio, mas obrigariam a defensora do título a batalhar em mais de uma frente. Cresce a chance de levar a decisão para o segundo turno.

Mais do que qual ex-presidente está no “corner” de quem, importam para os presidenciáveis quais partidos vão ajudá-los a somar os minutos de que tanto precisam para aparecer na TV e no rádio, se tornarem conhecidos e terem alguma chance de convencer o eleitor de que são a melhor escolha na hora de votar em 2014.

Por ora, eis o que Dilma tem no seu cronômetro, além dos 2 minutos e 49 segundos do PT: 2’26″ do PMDB, 1’19″ do PP, 1’10″ do PR, 44″ do PDT, 38″ do PTB, 27″ do PC do B e do PSC, 15″ do PRB, o tempo de nanicos e, novidade da próxima eleição, o 1’39″ do PSD. Tudo isso somado aos cerca de 50 segundos a que todo presidenciável deverá ter direito e ela chega a 12’51″ de 25′. É um arco de tempos e forças bem mais poderoso do que o de 2010.

Enquanto isso, Aécio conta com os 1’43″ do PSDB, os 46″ do DEM, os 15″ do PPS e se tiver, digamos, sorte, com os segundos de alguns nanicos. Não chega a quatro minutos. É insuficiente, mas é melhor do que a situação das “costelas do projeto petista”, como o tucano chamou as candidaturas de Marina e Eduardo Campos.

Se tiver só o PSB a apoiá-lo, o governador de Pernambuco apareceria por apenas 1 minuto e 54 segundos a cada bloco de propaganda na TV. E Marina Silva, mesmo que atraia toda a bancada do PV para a sua rede, não passaria de 1’11″ – ou 11 segundos a menos do que apareceu na campanha de 2010. Campos e Marina estariam à mercê das circunstâncias.

Por causa dessa divisão de tempo inviável para a oposição, os primeiros rounds da luta presidencial serão necessariamente pela busca de alianças partidárias que desarrumem o “corner” de incumbente. Não foi à toa que Lula correu para assegurar ao PMDB seu lugar na chapa como vice de Dilma e garantir seus quase dois minutos e meio para a pupila.

Pela quantidade de segundos que têm a barganhar, PSD, PP e PR devem ser os próximos a serem cortejados, tanto por petistas quanto por tucanos. Por essa lógica, aumenta a probabilidade de cargos no governo e verbas choverem nas hortas das três siglas. Mas não só para eles: PDT, PTB e PC do B devem criar dificuldades para vender facilidades ao governo – qualquer governo. Nesse jogo, Marina tem menos a oferecer.

As siglas que não quiserem ou não puderem se coligar a um nome da oposição, sempre podem ameaçar lançar candidatura própria. Quanto mais candidatos a presidente, menor o tempo de TV de Dilma e melhor para quem quer derrotá-la.

Na hipótese analisada neste texto, PSOL, PSTU, PCO, PCB, PSDC e PRTB também lançariam candidatos – além da atual presidente, de Aécio, Campos e Marina. Para cada novo partido que tiver candidatura própria, saem cerca de 50 segundos do bolo que é dividido entre os partidos com representação na Câmara e cujos apoios viram tempo de TV. Não é muito, mas cada segundo conta.

O tempo de TV não é tudo numa eleição. Se a confiança do eleitor-consumidor desabar, não há propaganda que seja capaz de convencê-lo a votar no candidato da situação. Ele vai querer mudar e escolherá alguém da oposição. Mas, mantidas as atuais condições de temperatura e pressão, Dilma sai favorita e com um tempo de TV capaz de ajudá-la a se reeleger no primeiro turno. Cabe à oposição mudar isso e dar alguma emoção à disputa.

Tags: , , , , , ,

Sem Comentários | comente

18.fevereiro.2013 15:09:41

Santa desigualdade

Como faz há séculos e séculos, um colégio humano escolherá o representante divino. À parte o paradoxo, o grupo de 117 cardeais tem mais problemas de representatividade do que o Senado brasileiro. O catolicismo não é nem pretende ser uma democracia, mas se o futuro ex-papa quisesse de fato reformar a Igreja deveria ouvir os números. Eles têm muito a confessar.

A Itália, sozinha, tem 28 votos no conclave que elegerá o novo papa, cinco a mais do que toda a América Latina e Caribe juntos. São menos de 58 milhões de italianos católicos contra quase 500 milhões de fiéis latino-americanos e caribenhos. Para quem tem problemas para segurar seu rebanho, a estratégia de alocação de pastores da Igreja parece mais brasiliense do que celeste.

A abdicação e os sermões subsequentes fazem parecer que o papa está descontente com o rumo da Igreja. Mas, a despeito de sua infalibilidade, ele orientou-a nesse caminho. A desigualdade na distribuição de poder eclesiástico aumentou sob Bento 16.

Nada como estar perto do trono. Enquanto os italianos envolvem o Vaticano por todos os lados, os países que estão a um oceano de distância da Santa Sé têm que purgar os pecados para um seu nativo poder vestir o vermelho. No conclave que elegerá o sucessor de Ratzinger a Itália terá oito eleitores a mais do que teve na escolha de Bento 16 – e a América Latina, um a menos.

Dos 67 cardeais nomeados pelo papa que abdica, 37 eram europeus (dos quais, 20 italianos) e 9, norte-americanos e canadenses. Só um terço das nomeações foi para o resto do mundo, onde vivem dois de cada três católicos. Pode-se argumentar que Bento 16 só preencheu as vagas que já existiam, mas isso significa que ele perdeu a chance de realocá-las para regiões emergentes, onde uma ação mais agressiva poderia repovoar os bancos das igrejas.

A política papal foi eurocêntrica e de manutenção do status quo. Nada fez para mudar o desequilíbrio entre número de fiéis e sua representação na mais alta instância de poder da Igreja.

Cada cardeal brasileiro, por exemplo, representa 14 vezes mais católicos do que um italiano, na média. É a tradição, dirão os tradicionalistas. É questão de fé acreditar que, como reza o Direito Canônico, os cardeais sejam nomeados apenas por serem “notáveis pela doutrina, piedade e prudência”. A inquisição das estatísticas sugere que geografia e dinheiro falam mais alto.

Países cujas paróquias arrecadam dólares e euros têm proporcionalmente mais cardeais. Talvez porque sejam capazes de sustentá-los. Cada um dos 11 cardeais dos EUA representa menos de 6 milhões de católicos, enquanto cada um dos três cardeais mexicanos está à frente de mais de 40 milhões de almas.

As iniquidades encheriam uma catedral. O único cardeal filipino pastoreia quase 70 milhões de fiéis. Angola tem mais católicos que Portugal, mas nenhum cardeal, contra dois portugueses.

Os dois últimos papas eleitos foram os primeiros não-italianos em 500 anos, mas tanto o polonês quanto o alemão vieram de países com super-representação de cardeais. Os seis da Alemanha representam pouco mais de 4 milhões de católicos cada um, e os quatro da Polônia, menos de 9 milhões por barrete. Na média mundial, há um cardeal para cada 10 milhões de católicos.

As confissões estatísticas sugerem que a reforma do poder católico – pregada por Bento 16 após ter pedido para sair – passa por uma política de cotas cardinalícias. Sem mudar sua geopolítica, a Igreja dificilmente sairá de onde está. A maioria das pessoas vai a Roma e não vê o papa, nem o segue no Twitter.

Saias e batinas

“Mulheres nas eleições de 2010″ é uma pesquisa de mais de 500 páginas sobre a participação feminina nos pleitos para presidente, governador, senador e deputado. Apesar de terem crescido as candidaturas de mulheres para cargos proporcionais, elas continuam com dificuldade para se lançar ao Senado e ao governo. Uma das razões é o Clube do Bolinha nas direções partidárias. Mas empecilho maior é o dinheiro: candidatas mulheres arrecadaram até 45% menos do que os rivais homens.

Arrecadação não é um problema apenas dos cardeais do Terceiro Mundo.

Cotas universitárias

Segundo o Ibope, 62% dos brasileiros são a favor de cotas para facilitar a entrada de negros, pobres e alunos de escolas públicas nas universidades. Especialistas contrários às cotas argumentam que o apoio grande é reflexo do desejo genérico de diminuir a desigualdade social, não uma defesa ponderada das cotas. Pode ser. Ou talvez seja porque a maioria ainda é de excluídos. O apoio cresce na razão inversa da renda.

 

Tags: , ,

Sem Comentários | comente

11.fevereiro.2013 15:16:39

Político indeterminado

Após as eleições dos novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado e o noticiário associado a elas, o desinteresse recorde pela política partidária detectado pelo Ibope no fim do ano passado deve ter repicado. Quando política e polícia se confundem, só ganha a desilusão. Bom para os políticos.

Quanto menos interessado o público, maior a liberdade de ação dos profissionais da política. Reações esparsas como as manifestações durante a posse do senador Renan Calheiros ou manifestos virtuais não mudam a opinião pública. Isso acontece apenas quando a ação política alcança seu objetivo. Os cara-pintadas só viraram história porque Fernando Collor caiu.

Por mais méritos que eventualmente tivesse a causa, quem vai lembrar do “Cansei” daqui a 20 anos? Um nome de movimento raramente foi tão apropriado, por metafórico e auto-realizável.

Se os cidadãos estão mais “cansados” do que “indignados”, ganham os operadores da política, os partidos e seus consorciados. O político indeterminado, aquela figura genérica e caricatural que simboliza o que está de errado com o sistema, se beneficia da desilusão da maioria. Medra na sensação de impotência, na impressão de que não há jeito.

Por isso é compreensível que nenhum presidente do Congresso tenha feito algo para tentar mudar a imagem cada vez pior do Legislativo. Ou que os partidos políticos nem se preocupem em salvar a cara da política partidária. O desgaste das instituições que comandam não os afeta. Talvez os ajude.

Continuam valendo, porém, todos os lugares-comuns sobre o tema. A política ainda é importante demais para ser deixada apenas nas mãos dos políticos – e quem diz não gostar dela permanecerá para sempre condenado a ser governado pelos que gostam. Que fazer?

Como a democracia no Brasil ainda está associada principalmente às eleições, qualquer tentativa de reverter a tendência de alienação e reaproximar o público da política tem que passar pelas urnas. Embora as campanhas eleitorais sejam cada vez mais curtas e despolitizadas, elas ainda são o único momento de mobilização de massa com data fixa no calendário.

O primeiro movimento para salvar a política das mãos de seus operadores, portanto, tem que estar colado ao ato de votar. Por mais contraditório que pareça, transformando-o em uma ação voluntária. Afinal, antes de ser dever, o voto é um direito.

O filósofo Renato Janine Ribeiro observou, no livro “Política: para não ser idiota”, que o voto obrigatório cria um mercado cativo para os políticos. Não importa o que eles aprontem, terão sempre a garantia de que a quase totalidade do eleitorado estará lá, digitando sues números e referendando seus nomes. Não precisam defender a política nem convencer ninguém para se legitimarem.

Se o voto fosse voluntário, a decisão do eleitor seria precedida por uma nova reflexão: vale a pena votar? Há algum candidato que mereça o meu esforço de sair de casa e ir à seção de votação?

Nas palavras de Janine Ribeiro: “Se eles tiverem que convencer o povo de que votar é importante, terão de militar em favor da política, e não só da política deles. Terão de mostrar que a política significa alguma coisa. Hoje, quem faz essa campanha é a Justiça Eleitoral. Deveriam ser os partidos, os candidatos.”

“Eles”, no caso, são o político indeterminado.

É difícil prever quais partidos se beneficiariam ou se prejudicariam com o fim da obrigatoriedade do voto. Tanto é assim que são raros os políticos brasileiros que concordam com a ideia. Na dúvida, calculam, melhor defender o status quo – afinal, em time que está ganhando não se mexe. Mas o voto obrigatório é uma jabuticaba que azeda nosso sistema eleitoral.

As duas últimas vitórias do Partido Democrata nas eleições presidenciais nos EUA se deveram, principalmente, ao sucesso do seu esforço de mobilização para levar os eleitores às urnas. Isso implicou muito mais do que fazer propaganda na TV. Foi preciso mobilizar milhares de militantes e desenvolver argumentos convincentes. Tudo isso favorece a politização da campanha – exatamente o contrário do que tem ocorrido no Brasil.

Como o fim da obrigatoriedade do voto escapa ao cálculo político e avança no campo da incerteza, é improvável que tal ideia entre espontaneamente em debate no Congresso. O voto não-obrigatório só tem chance de prosperar se vier de fora para dentro do mundo partidário. Seria um avanço e uma provocação. Afinal, nada incomoda mais o político indeterminado do que perder o controle.

 

Tags: , ,

Sem Comentários | comente

25.janeiro.2013 15:27:58

Humana e descentralizada

Uma cidade que coloque as pessoas em primeiro lugar. Essa é a ideia por trás do conjunto de propostas do “Que São Paulo você quer?”, um projeto do Estado em parceria com o Ibope. Nada de construções malufianas e planos mirabolantes. O que os participantes desejam é humanizar São Paulo. Em vez dos carros, priorizar os moradores. Em vez da infra-estrutura, os usuários.

A humanização de São Paulo permeia as propostas em todas as áreas. Em “educação”, a ideia mais popular, tanto entre o público quanto entre os jurados, é valorizar os professores. Em “urbanismo”, é aproximar o morador do seu local de trabalho, criando núcleos de serviços e oferta de emprego nos bairros. Em “cultura” e “sustentabilidade”, levar centros de lazer e recreação e mais “verde” à população na periferia.

Esse tipo de concepção da cidade contrasta muito com o que parecia ser a ambição do eleitor para São Paulo no auge do malufismo, por exemplo. Na primeira metade dos anos 90, o que capturou o imaginário paulistano foram obras de engenharia, reais ou fictícias: grandes túneis e avenidas, o Fura-Fila.

Um mapeamento dos maiores investimentos da Prefeitura de São Paulo naquele período mostrava que a maior parte deles se concentrava num raio de dez quilômetros em torno da casa do prefeito. Foi o auge e o começo do fim da centralização.

A decadência da política faraônica ocorre porque ela não se mostrou uma solução para a cidade – ao contrário, acentuou suas deficiências ao priorizar o transporte pessoal sobre o coletivo, por exemplo. No trânsito, como na vida em sociedade, não há saída individual e individualista viável no longo prazo.

O sentido geral que emana do “Que São Paulo você quer?” é uma cidade mais intimista e menos megalômana. A descentralização pedida implica o encurtamento das distâncias entre o morador e seu trabalho, sua escola, seu médico e sua diversão. Até a demanda por segurança é menos tecnológica e mais comunitária, com policiais que façam parte da convivência dos moradores.

Embora o grande atrativo de uma metrópole seja reunir em um só lugar múltiplas culturas e influências, os moradores tendem a conviver em pedaços restritos do território. Suas ligações mais fortes são com os familiares.

A proximidade geográfica produz também comportamentos similares. É o que acontece, por exemplo, nas eleições. Estudo recente do Estadão Dados e do Ibope demonstrou estatisticamente que vizinhos têm votos mais parecidos entre si do que paulistanos de mesma renda e escolaridade mas que moram em regiões distintas.

Isso produz uma cultura local cada vez mais independente do “centro” – seja ele onde for. Na prática, a cidade desenvolve vários centros, que se articulam entre si. A proposta vencedora em “transporte público” mostra que são mais e mais frequentes as demandas por ligações entre bairros, sem a passagem obrigatória pela região central. As “novas” São Paulo que surgiram desde os anos 70 se conectam entre si e se emancipam da cidade histórica.

Nesse clima de fragmentação, é simbólico que uma das ideias mais bem aceitas seja a despoluição do rio que orientou a fundação e o desenvolvimento da cidade. Não pela despoluição em si, mas pela sua consequência: a reintegração do Tietê ao cotidiano nos moradores, seja como via de transporte coletivo, seja como ponto de encontro e convivência. Um rio que une e não que separa.

Tags: ,

Sem Comentários | comente

21.janeiro.2013 15:28:59

Petistas e tucanos de ponta

Na batalha por corações e mentes, o PT perdeu a ponta da pirâmide econômica e o PSDB está cada vez mais dependente dela. Essa reviravolta numa parte pequena mas influente da sociedade brasileira ajuda a espalhar fagulhas entre os dois partidos.

Pela primeira vez, há mais brasileiros com renda superior a 10 salários mínimos que se dizem tucanos do que petistas: 23% a 13%, segundo o Ibope. Não é nada trivial. Parece ter chegado ao fim uma supremacia de 15 anos do PT no segmento onde se concentram, por exemplo, leitores de jornais e revistas.

A virada começou no auge da simpatia pelo PT, quando o então presidente Lula batia recordes de aprovação e a economia crescia num ritmo mais chinês que europeu.

Em março de 2010, o PT atingiu seu pico de popularidade. Um em cada três brasileiros declarava simpatia pelo partido. Mas entre os eleitores mais ricos o petismo estava decadente havia anos. Desde junho de 2001, quando 35% do topo da pirâmide se dissera simpatizante, o PT vinha com viés de baixa nesse estrato.

O movimento custou a ser percebido porque o sobe-desce dos índices mascarava as tendências de longo prazo. Ao mesmo tempo, a perda dos eleitores com renda mais alta era compensada pelo crescimento do PT na base da pirâmide.

Quando Dilma Rousseff assumiu sua candidatura à Presidência, no começo de 2010, a penetração petista na elite econômica já estava reduzida a 22%. Ao fim da campanha eleitoral, sete meses depois, a taxa havia caído para 16%. Hoje é de 13%. Apesar disso, a perda de simpatia do PT nada tem a ver com Dilma.

O declínio nessa ponta vem dos câmbios da direção partidária que desembocaram, em 2005, no escândalo do mensalão. O desgaste é cumulativo. A cada disputa eleitoral os adversários tiram a casca da ferida e o PT sangra novamente. Foi assim em 2010 e em 2012 – com a ajuda do julgamento do mensalão pelo STF.

Os ex-petistas do topo da pirâmide se espalharam. Muitos se desencantaram com a política e viraram sem-partido, outros migraram para pequenas legendas e alguns até tucanaram.

Só desde 2010 o PSDB cresce entre quem tem renda superior a 10 salários mínimos – e apenas entre eles. Em menos de 3 anos, a preferência tucana pulou de 7% para 23% nessa elite, que passou a ter um peso muito maior entre os simpatizantes do partido. Ou seja, o PSDB percorreu o caminho do PT no sentido oposto.

Em 2004, o professor da Universidade de Minnesota David Samuels escrevia que os petistas eram diferentes dos outros brasileiros: “São mais instruídos e politicamente conscientes do que a média. (…) acreditam que a participação do indivíduo na política pode fazer diferença”. Se houve tal diferenciação, ela se diluiu.

O petismo perdeu influência justamente nas camadas citadas por Samuels. Ao mesmo tempo, absorveu lulistas – eleitores pragmáticos, cativados pela inclusão social via consumo. O resultado é que o petismo mudou. Com uma base menos rica, mais nordestina e, principalmente, mais numerosa, colecionou vitórias nas urnas. Mas depende cada vez mais do vaivém da economia.

 

Tags: , , , , ,

Sem Comentários | comente

O que separa um aviso bem intencionado do escárnio, às vezes, é uma só palavra, um adjunto em excesso. Tome-se o caso da Linha 4 do Metrô paulistano. Segundo reportagem do Estadão.com.br, dizem os auto-falantes dos trens nos horários de pico: “Se não conseguir desembarcar na estação de destino, siga até a próxima estação e retorne gratuitamente”. Pois é, “gratuitamente”.

A palavra que encerra o aviso (que, diga-se, pretende evitar o atraso das composições por causa do não-fechamento das portas) caçoa duas vezes do passageiro. Primeiro, desdenha da inteligência: ninguém desembarcaria na estação seguinte e, por querer, ultrapassaria as catracas e voltaria à área de embarque pagando novamente. Sugerir que ele pudesse fazer isso se não fosse devidamente alertado é considerar o usuário um estúpido.

O pior menosprezo do “gratuitamente”, entretanto, é ao tempo dos passageiros. Então os minutos a mais que as pessoas gastam para ir até a estação seguinte, dar a volta na plataforma, subir e descer escadas, e embarcar no sentido oposto não têm valor? O Metrô pode até tentar racionalizar dizendo que mais pessoas perderiam tempo se o trem ficasse parado na estação, mas não dá para dizer que a tal “viagem negativa” não custa nada. Escárnio.

Como seria escarnecer da população projetar tão bem uma linha de Metrô que muito antes de estar concluída já operasse além de sua capacidade. Ou construir uma linha nova que não separasse embarque de desembarque, que desligasse suas esteiras rolantes no horário de pico para não esmagar quem está do outro lado, porque não há espaço suficiente para os usuários na estação.

O que acontecerá com a lotação da Linha 4 quando as estações que faltam forem inauguradas? Corre-se o risco de um aviso do Metrô dizer que vai melhorar. Afinal, o passageiro que não desembarcou onde queria poderá fazer uma “viagem negativa” mais curta.

No noticiário do dia, maior escárnio que o do Metrô só o da Assembleia Legislativa de São Paulo. Outro adjunto é o culpado. Dessa vez, o termo foi suprimido – e, com ele, a obrigação dos servidores do Legislativo de assinarem ponto “diariamente”. É mais grave porque não foi descuido, foi intencional. A supressão visa permitir aos funcionários dos deputados “trabalhar fora da capital”. “Fora da capital”, OK. O problema é “trabalhar”.

PS: Após a repercussão do caso, o Metrô anunciou que vai tirar o aviso do ar. Já a Assembleia manteve a decisão de abolir o ponto diário dos servidores. Essa é a diferença entre escárnio involuntário e de caso pensado.

Tags: , ,

Sem Comentários | comente

Depois de quase dois anos sem um termômetro próprio para avaliar os humores da opinião pública, a Presidência da República acaba de relançar três editais para contratar serviços de pesquisa. O orçamento total é de R$ 6,6 milhões por ano, entre quantitativas (R$ 3 milhões), qualitativas (R$ 1,9 milhão) e telefônicas (R$ 1,7 milhão). É uma conta de grande porte, se uma mesma empresa vencer as três licitações.

Segundo o assessor especial da Presidência e coordenador da área, Wladimir Gramacho, os resultados das pesquisas serão todos tornados públicos, por causa da Lei de Acesso às Informações (Leinfo). As pesquisas deverão sondar as demandas por políticas e serviços públicos, adequar a comunicação oficial e monitorar a opinião do público sobre o governo e suas ações.

A Presidência pretende fazer pesquisas mensais de avaliação do governo e divulgá-las. Se a promessa se cumprir, os resultados poderão ser confrontadas com pesquisas semelhantes encomendadas por outras instituições, como veículos de comunicação e as confederações nacionais da indústria e dos transportes. Isso será especialmente útil no período eleitoral.

A abertura das propostas à licitação foi remarcada pela Presidência para os dias 4, 5 e 6 de março. Elas incluem a habilitação técnica e documental, um estudo de caso, uma apresentação em vídeo e as planilhas de preço – entre outros itens. As empresas habilitadas na fase inicial deverão obter no mínimo 70% dos pontos possíveis na segunda fase, que avalia capacitação técnica, para chegar à fase final.

Nessa terceira fase, comparam-se os preços propostos por todas as empresas que ultrapassaram a nota de corte. Oferece-se à mais bem colocada tecnicamente a possibilidade de aceitar o contrato pelo preço mais baixo entre os propostos pelas concorrentes que chegaram à fase final. Se ela não aceitar, repete-se a oferta à segunda colocada, até que uma delas aceite.

Tags: , , ,

Sem Comentários | comente

13.janeiro.2013 21:01:35

De santos, chuvas e votos

Quando o governante começa a olhar para o céu e torcer não costuma ser bom sinal. São Pedro não é filiado ao PMDB. Argumentos franciscanos têm pouco apelo em sua paróquia. Não há notícia de presidente que, dando uma verbinha aqui, recebeu uma chuvinha ali – mesmo quando se tem a convicção religiosa de Dilma Rousseff. Fernando Henrique Cardoso que o diga.

Para ter um pibão, a presidente precisa acordar o espírito animal dos empresários brasileiros. Ela cortou os juros e ganhou um bocejo. Teimou. Prometeu diminuir a tarifa da energia elétrica – afinal, reduzir custos é a ladainha predileta dos industriais. De quebra, Dilma faria um agrado para os eleitores-consumidores. Mas o que parecia uma boa ideia pode virar um catch-22, uma pegadinha inescapável.

Se o preço da energia cair, o consumo tende a subir – ao menos nas casas. Mais demanda por eletricidade requer garantia de produção das hidrelétricas, mas São Pedro economizou chuvas em 2012 e os reservatórios que giram as turbinas estão lá embaixo. Restam as usinas termelétricas, mas a maioria delas usa combustíveis fósseis, daqueles que Dilma prometeu aumentar o preço.

Quando a conta não fecha, sabe-se quem costuma pagar a diferença: o seu, o meu, o nosso, depositado no Tesouro Nacional. O dinheiro que vier a entrar pelo bolso que paga a conta de luz já saiu pelo que paga os impostos. Se a esmola é demais até São Francisco desconfia. Mas o ardil não termina aí.

As indústrias que acreditarem na promessa de crescimento e investirem terão que pedir cota extra de consumo de eletricidade. Até conseguirem, terão que recorrer ao mercado livre, onde o preço do gigawatt é mais caro. Ou seja, o que economizarem com a redução das tarifas regulares estarão arriscadas a gastar com a energia adicional para crescerem.

Para complicar, há que chover muito neste verão de 2013 para os reservatórios que movem as hidrelétricas chegarem a 2014 com seus níveis recompostos. Caso chova pouco, a presidente entrará no ano de sua reeleição com a água abaixo das canelas.

Mesmo sem ter que racionar energia como FHC fez em 2001, o baixo nível será suficiente para Dilma enfrentar uma inundação de especulações sobre racionamento – um risco que não é desejável para nenhum candidato à reeleição. Mais: é a desculpa que parte do empresariado precisa para manter o espírito animal no banco.

É este, no fundo, o desafio presidencial: ganhar o jogo das expectativas. Não basta o governo projetar um pibão, nem é suficiente pedir aos empresários que invistam. Tem que convencê-los de que correm mais risco de perder dinheiro deixando-o parado do que colocando o capital para girar a economia. A questão que permanece sem resposta é como alcançar tal façanha.

O barateamento do custo da eletricidade parecia ser um passo nessa direção. Dilma ganhou a queda-de-braço com as concessionárias de energia elétrica tucanas e, pela sua determinação, deve conseguir derrubar as tarifas de energia ao longo das próximas semanas. Mas a batalha está longe do fim, e o timing não é dos mais favoráveis à presidente.

Caso os reservatórios não se recomponham ao longo de 2013, as consequências vão aparecer bem no começo da campanha presidencial à reeleição em 2014. O período de seca no Sudeste e Sul começa em abril/maio e se estende até setembro/outubro. É praticamente simultâneo à época em que Dilma estará pedindo votos. E é de se perguntar se até lá os consumidores ainda se lembrarão da redução das tarifas ocorrida mais de um ano antes.

Em 2012, o consumo de energia no Brasil cresceu 3,3% na média anualizada. Mas o crescimento foi muito desigual. Enquanto a indústria, responsável por 4 em cada 10 megawatts consumidos, cresceu quase nada (0,1%), o uso de eletricidade no comércio cresceu 6,2%, e nas residências, 3,8%. É mais um descompasso entre consumo e produção da economia brasileira.

Isso significa também que se o plano de Dilma der certo, ao aumento de demanda comercial e residencial já existente se somaria o crescimento do segmento que é o maior consumidor de energia, a indústria. Se isso ocorrer num cenário de escassez de oferta, por causa do baixo nível dos reservatórios, aumentam as chances de a oposição ter munição para usar na campanha. Se o plano der errado, bem, o plano terá dado errado.

Assim, melhor Dilma olhar para o céu e torcer. Tampouco custa mandar uma ficha de filiação ao PMDB para São Pedro.

Tags: , ,

Sem Comentários | comente

Eles foram populistas populares na mesma época e, de tanto poder, intitularam livros que juntaram um “ismo” ao final de seus nomes. O sufixo implica um líder acima dos partidos conduzindo multidões anos a fio. Ambos lideraram movimentos populares, mas quão duradouros? Por vias diversas, os legados de Hugo Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva estão à prova.

Nem todo governante que desfruta de popularidade em algum momento do mandato acaba substantivo. A “Era FHC” virou título de livro sem que houvesse um “fernandohenriquismo”. A herança do tucano foi estruturante para o Brasil, mas impessoal. Crismando Aécio Neves, o ex-presidente tenta rescrever seu testamento.

O personalismo é um divisor entre presidentes. Chávez levou a mitificação ao limite. O congênere brasileiro ficou a meio termo. Lula adotou a continuidade sem continuísmo. Já o venezuelano apostou que nunca viria a faltar.

Afora o simbolismo, o tratamento em Cuba oferece mais do que qualidade médica. Garante sigilo e provoca boatos contraditórios sobre a saúde de Chávez. A opacidade serve ao modelo cubano-chavista. Se houvesse transparência, seria mais difícil sustentar a versão de que o presidente reeleito pode ter sua posse adiada por não se configurar a “ausência permanente” que – manda a Constituição da Venezuela – provocaria nova eleição.

No Twitter, venezuelanos comparam a situação do “chavismo” à dos castelhanos que criaram o mito de El Cid. Pela lenda, o corpo sem vida do cavaleiro símbolo da reconquista ibérica foi assentado em sua montaria para parecer imortal e afugentar os inimigos. A metáfora é tentadora, embora precipitada. No Brasil, a prática de congelar presidentes está, felizmente, superada.

Antes de Lula, só o “getulismo” durou além de Vargas, após se espalhar de sul a norte. Seus fiéis trataram de cumprir a profecia do líder de que, ao deixar a vida, ele entraria na história. Os demais caciques ficaram limitados no espaço – como as tribos de carlistas, malufistas e brizolistas – ou no tempo: o “janismo” não sobreviveu a seu inspirador.

Os “ismos” colam bem em espanhol. A Argentina saiu do “peronismo” para cair no “kirchnerismo”. Em ambos os casos, a popularidade do marido foi herdada pela viúva. No Brasil, a transição pela via feminina se deu em vida. Mas o sucesso inicial não responde à questão de sempre: por quanto tempo?

Chávez não deixa uma, mas dezenas de herdeiros, de concepções diferentes. Eles propagandeiam união, só por conveniência da possível eleição que se avizinha. Mesmo que ganhem, o que será um governo “chavista” sem Chávez? Prevalecerá o militarismo nacionalista dos ex-oficiais do Exército tornados políticos? Ou o socialismo pró-Cuba do vice-presidente e suposto sucessor?

As contradições são mais do que aparentes. Enquanto o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, passa o rolo compressor na oposição parlamentar e imita os arroubos de Chávez (“Estamos prontos para o debate, mas não para a negociação”), seu rival, o vice Nicolás Maduro, conversa discretamente com os EUA para restabelecer relações diplomáticas plenas.

O “chavismo” ainda precisa passar pelo teste das urnas sem o nome de Chávez entre os candidatos. O “lulismo” passou. Mais do que isso, incorporou milhões de eleitores pobres ao petismo ao longo da última década. Numericamente, o legado de Lula superou o que o PT perdeu por causa do mensalão.

Segundo o Ibope, o PT saiu de 8% da preferência nacional em julho de 1989 para 33% em março de 2010. A trajetória de crescimento teve altos, associados às vitórias eleitorais de Lula (33% em março de 2003 e 2010), e baixos, durante a denúncia e julgamento do mensalão (24% em junho de 2005 e outubro de 2012). No caminho, mudou o perfil socioeconômico dos petistas. A nova classe média tomou espaço da elite sindical-universitária.

A mágica que popularizou o PT foi o aumento de renda e crédito que incluiu dezenas de milhões de neoconsumidores ao mercado nacional. O PSDB finalmente se deu conta de que não há como fazer oposição sem confrontar o petismo na economia. Daí conduzir o debate para os baixos índices de crescimento do PIB em detrimento, por exemplo, da queda das taxas de desemprego.

No Brasil e na Venezuela, a batalha é pela opinião pública. A diferença é que Dilma Rousseff cavalga ao lado do padrinho vivo, enquanto os herdeiros de Chávez manobram à sombra de El Cid.

Tags: , , ,

Sem Comentários | comente

30.dezembro.2012 21:48:27

Fala, Dilma

Imagine se você tivesse que falar em público quatro dias sem parar. Está no preço de ser presidente. Mesmo pouco expansiva, Dilma Rousseff encarou essa maratona verbal ao longo dos dois anos no cargo. Foram 96 horas de verborragia, diluídas em 730 dias. Um pronunciamento público dia sim, dia não, em média. Acha muito? Ela não fala nem a metade do que Lula falava.

Comunicar-se é parte vital do exercício da Presidência. Foram 350 falas de Dilma desde a posse, entre discursos, mensagens, homenagens e pronunciamentos. Por comparação, Lula discursou 2.407 vezes em oito anos como presidente – praticamente todo dia útil e mais um pouco. Ele não só fazia uso mais frequente da palavra, como gastava muito mais o verbo. Seus discursos eram duas vezes e meia mais palavrosos do que os da sucessora.

Há dois motivos para tanta diferença. Lula preferia o improviso, e falando de cabeça gastava mais tempo, repetia mais palavras, redundava. Mas soava espontâneo, arrancava reações da plateia e se alimentava delas. Dilma segue o script, até agora.

Lula foi um presidente falante e conversador. Viajou mais, esteve em mais lugares, interagiu mais com o público. Recebeu melhor feedback e fez disso o seu termômetro da opinião pública – por mais enviesado que fosse o tipo de amostra selecionado, já que na maioria das vezes o governante discursa para sua claque ou para um público cativo, que depende de sua boa vontade.

Dilma não é tão palaciana quanto os presidentes militares, mas é mais dependente de intermediários para sentir o pulso da rua. Isso não é necessariamente ruim, mas faz diferença no governar.

Boa parte das decisões de Lula era gestada nesse contato com o seu eleitor, numa dinâmica de retroalimentação intuitiva. Essa sensibilidade para captar o que pensa e quer a maioria está na gênese tanto da sua popularidade quanto do seu populismo. Quanto mais crescia sua aprovação, mais Lula discursava. O fim do governo foi uma avalanche de sintagmas, boa parte deles propagandeando o nome de sua candidata à sucessão.

Dilma segue um processo mais cartesiano. Deu certo até agora, mas têm crescido as pressões para a presidente conversar mais, principalmente com os empresários. E conversar implica ouvir.

A presidente não parece apaixonada pelo som da própria voz, como grande parte dos políticos é. Mas isso não a faz automaticamente mais disposta a escutar a voz dos outros. Durante a campanha eleitoral, Dilma conseguiu encher uma sala virtual maior do que qualquer outro político brasileiro no Twitter. Eleita, não deu mais nenhum pio na rede social. Fechou o canal que tinha aberto.

Quando tem a palavra, Dilma costuma disparar cerca de 100 delas por minuto. Mas a ocasião faz a média. Em situações formais, como quando se dirige aos militares, a presidente faz uso do papel ou do teleprompter para ler seus discursos. Acaba falando mais rapidamente. No pronunciamento de final de ano veiculado em cadeia de rádio e TV na antevéspera do Natal, Dilma conseguiu emendar 1.304 palavras em 11 minutos: 118 por minuto.

Quando está mais descontraída e arrisca algum improviso, a presidente fala mais devagar. Há dez dias, no discurso de reinauguração do Mineirão, Dilma até puxou corinho (“Ô, ô, o Mineirão voltou”), e a velocidade de sua língua caiu para 92 palavras por minuto. Em contrapartida, interagiu com a audiência. No dia seguinte, numa inauguração em Caxias do Sul, ela voltou a quebrar o protocolo. Pode virar uma tendência.

Aos monólogos oficiais, contrapõe-se quase uma centena de diálogos com jornalistas. Foram 98 entrevistas em dois anos – boa parte em viagens internacionais ou em visitas de governantes estrangeiros. Nessas ocasiões as entrevistas coletivas fazem parte do protocolo. Assim, em temporada de viagens ao exterior aumentam as vezes em que Dilma responde perguntas de repórteres.

Foi o que aconteceu em dezembro, o mês mais prolífico em discursos e entrevistas de Dilma em 2012: 8 bate-papos com a imprensa e 30 discursos, um recorde para a presidente. Tantas palavras têm dois motivos: as viagens à Rússia e à França, e um aparente esforço de convencimento, mirando os empresários, de que a economia vai bem.

Há sinais de que Dilma começou a se comunicar mais. Talvez seja a urgência de vencer a batalha das expectativas econômicas. Talvez seja mais prática em eventos públicos. Mais provável que seja uma combinação de necessidade e experiência. Está na hora.

Nos próximos dois anos, a presidente precisará exercitar a conversação com mais frequência, engenho e arte, se não quiser correr risco de cumprir a maldição de Chacrinha.

Tags: , , ,

Sem Comentários | comente

23.dezembro.2012 21:53:08

Apocalipse adiado

O anunciado conflito de titãs entre os poderes Legislativo e Judiciário acabou em “tender”. O recesso natalino prevaleceu sobre a beligerância de gabinete. A crise produzida pelo excesso de holofotes se apagou junto com eles.

A troca de presentes verbais entre os presidentes do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional pode ressurgir em 2013, mas, como previu Joaquim Barbosa, será fugaz. Marco Maia já terá voltado ao baixo clero da Câmara quando o STF se reunir para decretar ou não a prisão de deputados mensaleiros.

Antes de estimular qualquer coisa que se assemelhe a uma crise institucional, magistrados e parlamentares deveriam atentar ao grau de confiança da população nas instituições do país, medido por pesquisa do Ibope.

Mesmo após meses de superexposição elogiosa, o Supremo alcançou 54 pontos num máximo de 100. É melhor do que os 35 pontos que o Congresso marca sempre que a pesquisa é feita, mas não dá para comemorar. Toda vez que Judiciário e Legislativo brigam, ganha o Executivo.

Pesquisa sobre os termos mais pesquisados no Google mostra que o interesse pelo STF já foi maior – o auge foi quando o tribunal julgou o uso de células-tronco. Mesmo Joaquim Barbosa desperta menos curiosidade.

Políticos, juízes e aprendizes de feiticeiro têm a aprender com os bombeiros, a instituição mais confiável aos olhos da população. Sua especialidade é apagar e não fomentar fogueiras vaidosas.

Soltando a corda

Curiosa a entrevista de Eduardo Campos a Luiz Maklouf, em Época. O governador de Pernambuco parece ter tomado a iniciativa de afrouxar a corda. Reiterou apoio a Dilma em 2014 e disse que só será candidato a presidente quando disser que é. Ao pregar distensão, o herdeiro de Miguel Arraes enfatiza uma suposta crise que rondaria 2013 como as neovivandeiras rondam o STF.

Por superstição, rivalidade ou prudência, 13 não é o número de Eduardo Campos. 14 talvez seja. Mas 18 inspira melhor sorte.

Puxando a corda

Mais curiosa a não-entrevista de José Dirceu a Mônica Bergamo, na Folha. Enquanto faz planos de trabalhar na cadeia para abater a pena, o chefe petista conta que sugeriu a Lula e ao PT organizarem manifestação em fevereiro, “colocando 200 mil pessoas na rua”. Quer dar “demonstração de força”. É Dirceu esticando a corda que Eduardo Campos ensaiou relaxar. Seus conselhos são de quem tem pouco a perder porque já perdeu o que tinha.

A corda política no Brasil tem pouca elasticidade. Sempre que puxada com força, rompeu – obviamente, do lado mais fraco.

Blitz tucana

O desafio de Aécio Neves em 2013 não será zelar pela implementação da nova e mais rigorosa Lei Seca. De volta ao Brasil, proxies de José Serra querem o nome dele em pesquisas estimuladas de intenção de voto para presidente. De certo gostariam de comparar os desempenhos de Serra e de Aécio. É o PSDB a caminho de confundir “recall” e popularidade. De novo.

A lição de Kassab

O anunciado aumento da gasolina é o melhor presente de Natal que Dilma Rousseff poderá dar a Fernando Haddad. O que ela perder em popularidade o prefeito eleito tem chances de achar. Combustível mais caro, menos carros circulando. Nas metrópoles, a redução de veículos nas ruas tem impacto logarítmico nos engarrafamentos. É o tipo de desafogo que se vê quando o ano escolar acaba e pais deixam de conduzir filhos pra lá e pra cá.

Gilberto Kassab foi uma vítima silenciosa da isenção de IPI e da facilidade de financiamento de automóveis, acelerados nos governos Lula e Dilma. A quantidade de carros novos em circulação bastou para São Paulo quase parar sob sua vigília.

Contra o prefeito pesa, afora a mudez, a falta de fiscalização dos veículos sem licenciamento, cuja retirada de circulação poderia compensar o emplacamento da nova frota financiada.

O “Controlar” é, segundo o Ibope, o programa mais impopular da Prefeitura – não apenas por obrigar o paulistano a colocar a mão no bolso. A desaprovação vem da inocuidade. Vem de sair da inspeção veicular e ficar parado atrás de um carro sem selo, sem pára-choque e, acima de tudo, sem medo de ser guinchado.

Kassab não comprou briga com os carros indocumentados, como não compraram todos os governantes que temem perder popularidade entre seus motoristas. Fecha o mandato no vermelho da opinião pública, mais malvisto do que Paulo Maluf e Marta Suplicy. Não quis acelerar por medo da curva, parou no congestionamento.

Tags: , , , , ,

Sem Comentários | comente

17.dezembro.2012 11:37:11

Viés, cada um tem o seu

O dinheiro está trocando de mãos como raramente ocorreu. No Brasil e no exterior, o rentismo deixou de ser uma opção para multiplicar o patrimônio. Ao contrário, nos países desenvolvidos a remuneração do capital financeiro é negativa. Quem vive de renda fica mais pobre. O jeito de fazer o dinheiro dar cria é investir em novos e velhos negócios, ou seja, arriscar.

O risco é a justificativa moral do capitalismo quando acelera a redistribuição do patrimônio. Alguns novos negócios vão dar certo, mas muitos vão dar errado. E o dinheiro vai trocar de mãos ainda mais rapidamente. Tudo isso provoca desconforto. Rompe estruturas seculares, desconstrói estilos de vida, revoluciona a sedimentação social.

Com juro baixo ou negativo, é mais fácil ter dívida do que patrimônio. No Brasil, esse rearranjo provoca dores de parto e reações proporcionais às perdas. O impacto varia de setor a setor. Empresas voltadas para o mercado de consumo interno estão geralmente melhor do que as dependentes da economia chinesa, que por sua vez estão melhor do que concessionárias de serviços públicos ou aquelas reguladas diretamente pelo governo.

O intervencionismo pontual do estado faz aumentar desigualdades. Beneficiários e prejudicados não são produzidos apenas pela aleatoriedade do mercado, mas pela caneta da burocracia. A grita aumenta não só por reação às injustiças, mas por ficar claro aos atores econômicos que quem não chora não mama.

No meio desse vendaval, alguns setores têm dose extra de drama. Estão sendo batidos pela revolução digital e experimentam a rápida agonia de suas fontes tradicionais de faturamento. Para esses setores, à perda das receitas financeiras soma-se o risco de perda do próprio negócio.

Por isso as percepções são muito díspares e dois observadores podem ter compreensões muito distintas do mesmo fenômeno. Depende de onde estão situados, do seu ângulo de visão do problema. Todo observador tem seu viés. O desafio é estar ciente dele e tentar compensá-lo reconhecendo outros pontos de vista.

Em novembro, o índice de confiança do consumidor alcançou seu patamar mais alto nos dois anos de governo Dilma Rousseff. Os confiantes acham que sua renda aumentou e vai continuar aumentando, não temem perder o emprego e planejam consumir mais. Estreitamente correlacionada ao INEC da CNI/Ibope, a popularidade da presidente também bateu recorde em dezembro.

Os 78% de aprovação presidencial são difíceis de compreender pelos 17% que desaprovam seu governo. Eles estão concentrados no Sul/Sudeste, nas periferias das metrópoles e entre quem tem diploma de faculdade mas renda proporcionalmente mais baixa. As diferenças são pequenas porém, tornando difícil isolar um fator que explique a desaprovação.

Os consumidores confiantes não estão sozinhos no seu otimismo. Os empresários do setor de serviços também estão mais confiantes do que nos meses anteriores, segundo a FGV. Entre eles, não por coincidência, destacam-se os prestadores de serviços para as famílias. Servidores e servidos têm a mesma percepção.

Entre os empresários da indústria, a confiança cresceu pouco no mês passado, segundo a CNI. O índice continua abaixo da sua média histórica. Entre os industriais, as diferenças de percepção são grandes. A confiança é 13 pontos maior no setor farmacêutico do que no de manutenção e reparação. É 10 pontos mais alta na indústria de limpeza do que na de extração mineral.

Quando há reacomodação traumática do dinheiro, a política é um canal de desafogo. Perdedores vão tentar cavar compensações com o governo ou se entrincheirar junto à oposição. As tensões aumentam, a corda estica. Posições se radicalizam e adversários se distanciam. Nesse cenário, as visões se estreitam e é mais difícil encontrar um campo comum. Diminuem os consensos e aumentam os conflitos. É o cenário para 2014.

“Unbrazilian”

“They are quite ‘unbrazilian’, very difficult to break!” A repórter da TV inglesa buscava uma explicação para a derrota do milionário Chelsea para um “pouco brasileiro” e “difícil de quebrar” Corinthians, na final do mundial de clubes. O time corredor, disciplinado e sem malabarismos não encaixa no estereótipo do futebol brasileiro de exportação.

O Corinthians chegou ao Japão graças à melhor campanha defensiva da história da Libertadores. Sem um Neymar, seu astro foi o goleiro. Nem por isso o time é menos brasileiro. No meio dos 20 mil torcedores corintianos em Yokohama, a faixa “the favela is here” (a favela está aqui) mostrava que o Brasil não cabe em um lugar-comum apenas.

 

Tags: , , , ,

Sem Comentários | comente

A popularidade de Dilma Rousseff continua em alta em todos os segmentos socioeconômicos e regiões do país. A avaliação positiva da presidente e a boa expectativa quanto aos seus próximos dois anos de mandato superam em 55 pontos as opiniões e prognósticos negativos. Em nenhum extrato da sociedade – seja de renda, idade, escolaridade ou regional – a reprovação supera 10 pontos.

O pior desempenho da presidente continua sendo na saúde, cobrança de impostos e segurança. Na ponta oposta, combate à pobreza, ao desemprego e preservação do meio ambiente são os pontos mais positivos na percepção popular. Embora saúde e educação sempre apareçam como as prioridades politicamente corretas nas sondagens à população, é o bolso que decide.

A repetição dos resultados favoráveis a Dilma na pesquisa Ibope/CNI confirma, de novo, a forte correlação entre confiança do consumidor e popularidade presidencial. As duas andam de mãos dadas: sobem e descem juntas pelas vias da opinião pública.

O consumidor, também consultado em pesquisa Ibope/CNI, segue confiante que não vai perder o emprego, que sua renda melhorou nos últimos meses e tende a melhorar ainda mais. Essa combinação está no centro da popularidade de Dilma e supera até o noticiário negativo sobre o baixo crescimento da economia.

Em paralelo, mas com menos peso, as demissões sumárias de servidores públicos pegos com a boca na botija ajudam a fixar em Dilma a imagem de quem não compactua com malfeitos. Importa menos a verdade do que a verossimilhança. Assim, quando a presidente demite Rosemary Noronha – apesar de todas as insinuações de que a funcionária é próxima de Lula -, Dilma aparece bem na foto a despeito do cenário de horrores ao fundo.

A pesquisa só não pegou eventuais efeitos do noticiário sobre as denúncias de Marcos Valério contra Lula, pois as pessoas foram entrevistadas antes de o caso vir a público. Essa situação é nova. Dilma não pode se distanciar do denunciado porque pareceria traição. Fez o contrário do que costuma fazer e demonstrou solidariedade irrestrita ao padrinho.

A tática funciona enquanto as denúncias se limitarem às palavras de um condenado pela Justiça. O problema será se investigações posteriores corroborarem o que diz Marcos Valério. Mas essa é uma questão para Dilma lidar se e quando ela aparecer.

Tags: , , , , ,

1 Comentário | comente

As empreiteiras concentraram suas doações eleitorais nas direções partidárias em 2012. Em vez de pulverizar recursos entre candidatos e comitês de campanha, as empresas de construção optaram por centrar fogo nas cúpulas dos partidos. Acabaram responsáveis por 49% de tudo o que as agremiações partidárias receberam de pessoas jurídicas na eleição.

Essa dependência dos partidos de dinheiro de empresas que vivem de obras públicas pode provocar conflitos de interesse na hora de os prefeitos eleitos abrirem licitações e concessões. Para complicar, a estratégia das empreiteiras de doar para os partidos cria uma “caixa preta”: é impossível saber qual candidato em quais cidades recebeu recursos de quais empresas.

Em dinheiro, as empreiteiras doaram R$ 270 milhões às direções estaduais e nacionais dos partidos. Apesar de cerca de 250 empreiteiras terem aberto seus cofres para os políticos, a concentração é brutal: as cinco maiores doadoras foram responsáveis por quase metade do dinheiro doado pelo setor.

Apenas uma delas, a Construtora Andrade Gutierrez Ltda, deu R$ 1,00 de cada R$ 5,00 que as direções partidárias receberam das empreiteiras nestas eleições. Foram R$ 53,2 milhões para os caciques redistribuírem entre candidatos do partido. A cúpula mais aquinhoada foi a do PMDB (R$ 15,9 milhões), seguida da do PSDB (R$ 13,5 milhões), do PSB (R$ 6,7 milhões) e do PSD (R$ 4,6 milhões). O PT não recebeu nada da Andrade Gutierrez.

Em compensação, a cúpula petista recebeu R$ 5,2 milhões da Construtora OAS Ltda e da OAS S/A, R$ 1,4 milhão da Carioca-Christiani Nielsen, R$ 1,2 milhão da Galvão Engenharia S/A e R$ 970 mil da UTC Engenharia, entre outras empreiteiras.

A Construtora Queiroz Galvão S/A, com R$ 30,8 milhões doados, e a Construtora OAS Ltda, com outros R$ 22,5 milhões, ficaram com a segunda e a terceira colocações no ranking das empresas que mais contribuíram para os cofres das direções partidárias nestas eleições. Das “top 10″ empresas mais generosas com os partidos, seis foram empreiteiras. As outras três foram Camargo Corrêa, Norberto Odebrecht e Carioca-Christiani Nielsen.

A outra metade das doações de empresas para as direções partidárias veio principalmente de quatro setores: alimentos e bebidas (R$ 53 milhões, ou 10%), financeiro (9%), empreendimentos imobiliários (4%) e saúde/farmacêutica (3%).

Os dados sobre as prestações de contas dos partidos, comitês e candidatos foram divulgados nesta terça-feira pelo TSE. Eles não incluem as prestações de contas dos candidatos que disputaram o segundo turno.

(José Roberto de Toledo, Amanda Rossi, Daniel Bramatti e Diego Rabatone)

Tags: , , ,

Comentários (9) | comente

Nas eleições municipais deste ano, pelo menos R$ 5,1 bilhões circularam pelos cofres das campanhas em doações eleitorais. Deste valor, 30% são financiamentos ocultos. Eles caíram diretamente nas contas de comitês eleitorais e partidos, o que impede o eleitor de saber quem foi o candidato beneficiado pelo recurso fornecido por um doador específico. Os 70% restantes foram repassados para os candidatos, sendo R$ 1,8 bilhão para os postulantes a prefeito e R$ 1,7 bilhão para os que disputaram uma vaga de vereador.

Os caixas eleitorais foram engordados por mais de 900 mil doadores. Apenas uma ínfima parcela de 350, contudo, foi responsável pelas doações milionárias. Considerando-se apenas empresas e pessoas físicas e deixando de lado os repasses de partidos e comitês, o clube do milhão dos doadores encolhe para 150 membros, especialmente construtoras.

Os números foram obtidos a partir dos dados brutos da prestação de contas das eleições de 2012, publicados nesta terça-feira (27) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Não estão incluídas as despesas totais dos 100 candidatos que foram para o segundo turno. Eles entregaram ontem suas contas de campanha, vinte dias depois dos demais candidatos, e os dados ainda não estão disponíveis.

Assim, campanhas caras e que arrecadaram altas somas, como as do prefeito eleito em São Paulo, Fernando Haddad (PT), e do seu concorrente José Serra (PSDB), estão parcialmente fora da conta do TSE, desinflando a conta do total de receitas. Quando forem incluídas as doações para os candidatos que foram para o segundo turno, a conta do total movimentado na campanha vai aumentar ainda mais.

Considerando-se apenas os candidatos eleitos em primeiro turno, quem mais arrecadou foi Márcio Lacerda (PSB), prefeito reeleito em Belo Horizonte. Ele obteve R$ 215 milhões. Eduardo Paes (PMDB), reeleito no Rio de Janeiro, aparece logo em seguida, com arrecadação de R$ 212. Fatiando o total de doações por partido, o PMDB é o que conseguiu a maior cifra, com R$ 870 milhões recebidos em todos os níveis – candidatos, comitês e diretórios. PT atingiu R$ 704, PSDB R$ 601 e PSB R$ 407.

As empresas foram as maiores financiadoras das eleições. Do total de dinheiro que entrou nas campanhas, 27% veio de pessoas jurídicas. Outros 23% tiveram origem em pessoas físicas. Os candidatos também declararam ao TSE uma elevada quantia de recursos próprios, que chega a 18% do total. Outros 30% são recursos de partidos políticos ou de outros candidatos e comitês.

A arrecadação pela Internet, uma modalidade de financiamento adotada há menos tempo, só fez cócegas nas contas de campanha. No total, chegaram pela rede R$ 544 mil, vindos de somente 779 doadores. O maior beneficiado por esse tipo de doação foi Marcelo Freixo, candidato derrotado do PSOL à prefeitura do Rio de Janeiro. O baixo fluxo pela Internet destoa do valor arrecadado pelos EUA pela Internet. Obama e os democratas obtiveram US$ 295 milhões online, com cerca de 4 milhões de doadores, entre agosto e setembro deste ano.

Já as despesas de campanha ficaram bem próximas do total de doações: R$ 5,2 bilhões. Pagamentos feitos por candidatos a fornecedores representam cerca de 70% do total dos gastos. Comitês e diretórios partidários gastaram o restante, mas não é possível saber quais candidatos foram beneficiados pelo uso do dinheiro.

* Amanda Rossi, José Roberto de Toledo, Daniel Bramatti e Diego Rabatone

Leia também:
Empreiteiras lideram ranking de doação privada
Doações ocultas impedem rastreamento do dinheiro, diz juiz eleitoral

Posts Relacionados

  • No Related Post

Tags:

Sem Comentários | comente

07.novembro.2012 20:33:57

Ampla, rasa e dividida

Nem Obama nem Romney, o maior acerto da eleição norte-americana foi de Nate Silver. O blogueiro do New York Times acertou todas. Especialista em modelos estatísticos eleitorais, Silver previu corretamente todos os Estados com vitória democrata ou republicana. Acertou que Obama venceria por dois pontos de diferença no voto popular e, mais impressionante ainda, acertou na casa decimal por quanto ele ganharia na Flórida.

Nada mais justo do que citar a síntese de Silver para a vitória de Obama: “Foi ampla mas rasa”. O atual presidente ganhou em oito dos nove “campos de batalha” – os Estados que oscilam entre os partidos Republicano e Democrata a cada eleição. Foi nesses lugares que as duas campanhas mais despenderam esforço, tempo e dinheiro. Obama ganhou, mas por margens muito apertadas: meio ponto na Flórida, 2 pontos em Ohio, 3 em Virgínia.

O placar de 332 a 206 votos no colégio eleitoral é enganoso. Reflete muito mais o arcaísmo do sistema norte-americano de escolha do presidente – no qual o vencedor leva todos os delegados de cada Estado – do que uma vitória avassaladora de Obama. Os EUA estavam e continuam divididos: a costa reelegeu o presidente contra a vontade do interior. As metrópoles derrotaram as pequenas cidades e os subúrbios ricos.

Obama ganhou em todas as maiores cidades dos EUA, e por margens muito amplas: 70 pontos em Manhattan (Nova York), 58 pontos em Boston, 50 pontos em Chicago, 41 pontos em Los Angeles e surpreendentes 24 pontos em Miami. Mesmo nos Estados onde perdeu, o atual presidente foi o mais votado nas cidades principais, como Atlanta na Geórgia e Dallas no Texas. As maiores cidades onde Romney venceu foram Houston e Phoenix.

Na média, o democrata teve 40 pontos de margem nas grandes cidades e a metade disso nas cidades médias. Nas cidadezinhas que ocupam todo o miolo dos EUA, o republicano abriu vantagem de 14 pontos, quase o dobro da obtida pelo correligionário John McCain em 2008. Nos subúrbios ricos, Romney bateu Obama por dois pontos – a mesma margem pela qual o democrata havia vencido nessas áreas vizinhas às metrópoles quatro anos antes.

Esse aparente determinismo geográfico do voto reflete as diferenças sociodemográficas ao longo do território dos EUA. As metrópoles têm mais diversidade étnica e cultural do que as pequenas comunidades interioranas. Entre as minorias étnicas Obama destruiu Romney: ganhou por 87 pontos entre negros, por 47 entre asiáticos e 44 entre hispânicos.

Entre os brancos, porém, Romney conseguiu vantagem maior do que a obtida por McCain quatro anos atrás: 20 pontos mais que Obama. Ou seja: dois anos e US$ 6 bilhões depois, os EUA saem da campanha eleitoral mais divididos do que entraram.

Tags: , , ,

Sem Comentários | comente

Arquivo

Blogs do Estadão
Fechar

Para continuar lendo o Estadão, faça já o seu cadastro. É rápido e fácil.

Seus dados serão guardados de forma segura e não serão compartilhados.

Quero me cadastrar Sou assinante Já sou cadastrado
SOU ASSINANTE - ACESSO
Esqueci minha senha
JÁ SOU CADASTRADO

Utilize os mesmos login e senha já cadastrados anteriormente no Estadão.

Esqueci minha senha
QUERO CRIAR MEU LOGIN

Se você é assinante do Jornal impresso, preencha os dados abaixo e cadastre-se para criar seu login e senha.

ESQUECI MINHA SENHA

QUERO ME CADASTRAR

Cadastre-se já e tenha acesso total ao conteúdo do site do Estadão. Seus dados serão guardados com total segurança e sigilo.

CADASTRO REALIZADO

Em instantes, você receberá uma mensagem no e-mail .
Clique no link fornecido e crie sua senha.


Importante!
Caso você não receba o e-mail, verifique se o filtro anti-spam do seu e-mail está ativado.

QUERO ME CADASTRAR

Estamos atualizando nosso cadastro, por favor confirme os dados abaixo.