Rodrigo Burgarelli
José Roberto de Toledo
Um século depois de receber uma leva de imigrantes maior do que era a sua população nativa de então, a capital paulista abriga apenas 28% de moradores que não nasceram no Estado de São Paulo. Mas a distribuição dessas pessoas que escolheram viver na cidade está longe de ser homogênea. Varia de 49% de imigrantes na periférica Anhanguera a 14% na tradicional Vila Carrão.
Os imigrantes – originários majoritariamente de outros Estados e, em menor parte, do exterior – se concentram em duas grandes áreas espacialmente distantes, mas economicamente semelhantes: a extrema periferia e o centro histórico de São Paulo. Entre elas, a formar um anel de distritos com maior presença de paulistas, encontram-se as regiões mais ricas da cidade e os bairros de moradia da tradicional classe média paulistana.
Esse anel está pintado com as cores mais claras no mapa que ilustra esta página. Ele compreende 56 distritos cuja renda domiciliar média é de R$ 5 mil. Só 1 em 5 de seus moradores veio de outros Estados ou países. Os outros 78% são, em grande parte, a segunda ou terceira geração de ondas migratórias mais antigas. Numa cidade que teve o maior crescimento entre as metrópoles mundiais no século 20, poucos não são imigrantes ou seus descendentes.
Os outros 40 distritos – identificados pelas cores mais vivas no mapa – têm uma presença de migrantes bem acima da média da cidade: 35%. Não por coincidência, o rendimento médio em suas habitações é metade do resto da cidade: R$ 2,5 mil. Nos mais pobres é a metade da metade. A desigualdade de renda é reflexo de como se deu a ocupação dessas regiões nos últimos 50 anos.
A maioria dos imigrantes recentes foi morar em áreas nos extremos da cidade que foram sendo incorporadas à mancha urbana sem planejamento e com carências de todo tipo de serviço público: do transporte à assistência médica, de escolas ao saneamento básico. Nos anos 70 e 80, esse movimento criou gigantescos distritos dormitórios, como o Grajaú, onde vivem mais de 100 mil moradores nascidos fora de São Paulo.
Esse movimento expansionista transbordou para os municípios vizinhos a São Paulo nos anos 80 e 90. Na cidade em si, até por falta de espaço, ele ficou restrito a poucas regiões. A mais dinâmica delas é Anhanguera. No extremo noroeste da cidade, é o distrito que forma a ponta de uma das orelhas do cachorro imaginário que muitos vêem quando olham o mapa paulistano. Sua renda domiciliar é de apenas R$ 1.788.
O restante dos imigrantes reocupou áreas do centro histórico – muitas vezes em habitações coletivas – em distritos como o Pari, onde nada menos do que 46% dos moradores são imigrantes. Nessas regiões mais centrais a renda média é maior do que na periferia. Chega a R$ 2.784 no Brás e a R$ 2.984 no Pari. Um dos motivos é que nessas áreas vive um outro tipo de imigrante, o estrangeiro.
As ondas mais recentes de migração do exterior para a cidade de São Paulo miraram principalmente o centro. Os distritos paulistanos com maior concentração de estrangeiros são o Bom Retiro (16% de seus moradores nasceram em outros países) e Pari (14%), seguidos por Brás, Belém e República.
Repetem-se os destinos dos imigrantes italianos e espanhóis que desembarcaram em São Paulo na virada do século 19 para o 20. Mas, em vez de europeus, as novas onda migratórias vêm da Bolívia, da China e da Coreia do Sul. Os bolivianos como mão-de-obra, os coreanos como empregadores dos bolivianos, e os chineses em ambas as posições.
METODOLOGIA
As informações analisadas no projeto “96 vezes São Paulo” são fruto de uma parceria do Estadão Dados com o Ibope. Usando métodos estatísticos e de georreferenciamento, o instituto conseguiu associar aos 96 distritos paulistanos as respostas do questionário estendido do Censo 2010.
Aplicado a apenas uma parcela das habitações recenseadas, a chamada “amostra” do Censo inclui informações sobre migração, religião, rendimento, trabalho, condições e bens presentes nos domicílios. Elas serão objeto de reportagens ao longo das próximas semanas e de mapas interativos no blog do Estadão Dados.
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Como faz há séculos e séculos, um colégio humano escolherá o representante divino. À parte o paradoxo, o grupo de 117 cardeais tem mais problemas de representatividade do que o Senado brasileiro. O catolicismo não é nem pretende ser uma democracia, mas se o futuro ex-papa quisesse de fato reformar a Igreja deveria ouvir os números. Eles têm muito a confessar.
A Itália, sozinha, tem 28 votos no conclave que elegerá o novo papa, cinco a mais do que toda a América Latina e Caribe juntos. São menos de 58 milhões de italianos católicos contra quase 500 milhões de fiéis latino-americanos e caribenhos. Para quem tem problemas para segurar seu rebanho, a estratégia de alocação de pastores da Igreja parece mais brasiliense do que celeste.
A abdicação e os sermões subsequentes fazem parecer que o papa está descontente com o rumo da Igreja. Mas, a despeito de sua infalibilidade, ele orientou-a nesse caminho. A desigualdade na distribuição de poder eclesiástico aumentou sob Bento 16.
Nada como estar perto do trono. Enquanto os italianos envolvem o Vaticano por todos os lados, os países que estão a um oceano de distância da Santa Sé têm que purgar os pecados para um seu nativo poder vestir o vermelho. No conclave que elegerá o sucessor de Ratzinger a Itália terá oito eleitores a mais do que teve na escolha de Bento 16 – e a América Latina, um a menos.
Dos 67 cardeais nomeados pelo papa que abdica, 37 eram europeus (dos quais, 20 italianos) e 9, norte-americanos e canadenses. Só um terço das nomeações foi para o resto do mundo, onde vivem dois de cada três católicos. Pode-se argumentar que Bento 16 só preencheu as vagas que já existiam, mas isso significa que ele perdeu a chance de realocá-las para regiões emergentes, onde uma ação mais agressiva poderia repovoar os bancos das igrejas.
A política papal foi eurocêntrica e de manutenção do status quo. Nada fez para mudar o desequilíbrio entre número de fiéis e sua representação na mais alta instância de poder da Igreja.
Cada cardeal brasileiro, por exemplo, representa 14 vezes mais católicos do que um italiano, na média. É a tradição, dirão os tradicionalistas. É questão de fé acreditar que, como reza o Direito Canônico, os cardeais sejam nomeados apenas por serem “notáveis pela doutrina, piedade e prudência”. A inquisição das estatísticas sugere que geografia e dinheiro falam mais alto.
Países cujas paróquias arrecadam dólares e euros têm proporcionalmente mais cardeais. Talvez porque sejam capazes de sustentá-los. Cada um dos 11 cardeais dos EUA representa menos de 6 milhões de católicos, enquanto cada um dos três cardeais mexicanos está à frente de mais de 40 milhões de almas.
As iniquidades encheriam uma catedral. O único cardeal filipino pastoreia quase 70 milhões de fiéis. Angola tem mais católicos que Portugal, mas nenhum cardeal, contra dois portugueses.
Os dois últimos papas eleitos foram os primeiros não-italianos em 500 anos, mas tanto o polonês quanto o alemão vieram de países com super-representação de cardeais. Os seis da Alemanha representam pouco mais de 4 milhões de católicos cada um, e os quatro da Polônia, menos de 9 milhões por barrete. Na média mundial, há um cardeal para cada 10 milhões de católicos.
As confissões estatísticas sugerem que a reforma do poder católico – pregada por Bento 16 após ter pedido para sair – passa por uma política de cotas cardinalícias. Sem mudar sua geopolítica, a Igreja dificilmente sairá de onde está. A maioria das pessoas vai a Roma e não vê o papa, nem o segue no Twitter.
Saias e batinas
“Mulheres nas eleições de 2010″ é uma pesquisa de mais de 500 páginas sobre a participação feminina nos pleitos para presidente, governador, senador e deputado. Apesar de terem crescido as candidaturas de mulheres para cargos proporcionais, elas continuam com dificuldade para se lançar ao Senado e ao governo. Uma das razões é o Clube do Bolinha nas direções partidárias. Mas empecilho maior é o dinheiro: candidatas mulheres arrecadaram até 45% menos do que os rivais homens.
Arrecadação não é um problema apenas dos cardeais do Terceiro Mundo.
Cotas universitárias
Segundo o Ibope, 62% dos brasileiros são a favor de cotas para facilitar a entrada de negros, pobres e alunos de escolas públicas nas universidades. Especialistas contrários às cotas argumentam que o apoio grande é reflexo do desejo genérico de diminuir a desigualdade social, não uma defesa ponderada das cotas. Pode ser. Ou talvez seja porque a maioria ainda é de excluídos. O apoio cresce na razão inversa da renda.
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Tags: desigualdade, papa, poder
Uma cidade que coloque as pessoas em primeiro lugar. Essa é a ideia por trás do conjunto de propostas do “Que São Paulo você quer?”, um projeto do Estado em parceria com o Ibope. Nada de construções malufianas e planos mirabolantes. O que os participantes desejam é humanizar São Paulo. Em vez dos carros, priorizar os moradores. Em vez da infra-estrutura, os usuários.
A humanização de São Paulo permeia as propostas em todas as áreas. Em “educação”, a ideia mais popular, tanto entre o público quanto entre os jurados, é valorizar os professores. Em “urbanismo”, é aproximar o morador do seu local de trabalho, criando núcleos de serviços e oferta de emprego nos bairros. Em “cultura” e “sustentabilidade”, levar centros de lazer e recreação e mais “verde” à população na periferia.
Esse tipo de concepção da cidade contrasta muito com o que parecia ser a ambição do eleitor para São Paulo no auge do malufismo, por exemplo. Na primeira metade dos anos 90, o que capturou o imaginário paulistano foram obras de engenharia, reais ou fictícias: grandes túneis e avenidas, o Fura-Fila.
Um mapeamento dos maiores investimentos da Prefeitura de São Paulo naquele período mostrava que a maior parte deles se concentrava num raio de dez quilômetros em torno da casa do prefeito. Foi o auge e o começo do fim da centralização.
A decadência da política faraônica ocorre porque ela não se mostrou uma solução para a cidade – ao contrário, acentuou suas deficiências ao priorizar o transporte pessoal sobre o coletivo, por exemplo. No trânsito, como na vida em sociedade, não há saída individual e individualista viável no longo prazo.
O sentido geral que emana do “Que São Paulo você quer?” é uma cidade mais intimista e menos megalômana. A descentralização pedida implica o encurtamento das distâncias entre o morador e seu trabalho, sua escola, seu médico e sua diversão. Até a demanda por segurança é menos tecnológica e mais comunitária, com policiais que façam parte da convivência dos moradores.
Embora o grande atrativo de uma metrópole seja reunir em um só lugar múltiplas culturas e influências, os moradores tendem a conviver em pedaços restritos do território. Suas ligações mais fortes são com os familiares.
A proximidade geográfica produz também comportamentos similares. É o que acontece, por exemplo, nas eleições. Estudo recente do Estadão Dados e do Ibope demonstrou estatisticamente que vizinhos têm votos mais parecidos entre si do que paulistanos de mesma renda e escolaridade mas que moram em regiões distintas.
Isso produz uma cultura local cada vez mais independente do “centro” – seja ele onde for. Na prática, a cidade desenvolve vários centros, que se articulam entre si. A proposta vencedora em “transporte público” mostra que são mais e mais frequentes as demandas por ligações entre bairros, sem a passagem obrigatória pela região central. As “novas” São Paulo que surgiram desde os anos 70 se conectam entre si e se emancipam da cidade histórica.
Nesse clima de fragmentação, é simbólico que uma das ideias mais bem aceitas seja a despoluição do rio que orientou a fundação e o desenvolvimento da cidade. Não pela despoluição em si, mas pela sua consequência: a reintegração do Tietê ao cotidiano nos moradores, seja como via de transporte coletivo, seja como ponto de encontro e convivência. Um rio que une e não que separa.
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Tags: políticas públicas, São Paulo
Viver no Piauí é, essencialmente, morar numa casa. Lá, nada é mais “diferenciado” do que manter residência em edifício: menos de 1% dos piauienses mora em apartamento. Os outros 99% habitam domicílios que, na definição do IBGE, ocupam com exclusividade o terreno onde estão situados, ou têm acesso independente para a rua. Nada de portarias ou escadas comuns.
Um viajante que rodasse todo o Piauí contaria 86 casas para cada apartamento. Se entrevistasse uma amostra representativa do universo piauiense, precisaria conversar com 117 moradores até encontrar um que declarasse viver num apê. No jargão urbanístico, o Piauí é o Estado menos “verticalizado” do Brasil.
Estatisticamente, nada distingue mais o estilo de vida piauiense do que habitar em casas. A renda é 36% menor do que a média do Brasil, os anos de estudo de seus moradores são 24% menos frequentes. Porém, tais diferenças nem se comparam ao descostume local de empilhar gente em edifícios. A taxa de moradores em apartamentos no Piauí é 90% menor do que a brasileira.
Para quem tem a ambição profissional de ser zelador de edifício residencial o Piauí é o último lugar para procurar emprego. Melhor mudar para Brasília. Lá, 23% dos moradores vivem em apartamentos. É uma tradição que vem da fundação da cidade e que se mantém: em nenhum estado tantos vivem tão sobrepostos em tantas camadas de concreto quanto no Distrito Federal.
No começo eram os apartamentos “funcionais” – imóveis do governo cedidos temporariamente a um funcionário, parlamentar ou governante. Mas a moda pegou e Brasília tem até uma painel de elevador “diferenciado”. Para se descer ao térreo não adianta procurar pelo botão “T”. Tem que apertar o “P”, de pilotis.
O Distrito Federal é a unidade mais diferenciada da Federação. O brasiliense tem dois anos a mais de estudo do que o brasileiro médio, ganha o dobro e tem 65% mais chances de ter um computador com acesso à internet em casa. Mas nenhuma dessas estatísticas o diferencia mais do resto país do que morar tão frequentemente em apartamentos: 157% acima da média brasileira.
Mais fácil do que achar um morador de apartamento no Distrito Federal é encontrar um brasiliense que tenha nascido em outro Estado. São 6 chances em 10. Só em Roraima as probabilidades são comparáveis – mas não devem continuar assim por muito tempo. A taxa de imigrantes do ex-território está diminuindo duas vezes mais rápido do que a de Brasília. Em ambos os lugares, chegam menos forasteiros do que nascem nativos.
Difícil mesmo é encontrar um imigrante no Rio Grande do Sul. Eram 4 chances em 100 no começo do século, são 4 em 100 hoje. E se encontrar, a maior probabilidade é de que tenha vindo dali do lado, de Santa Catarina. O Estado que cresceu graças a sucessivas ondas de migrantes italianos e alemães não atrai gente de outros Estados já se vão décadas.
E o que diferencia o paulista? Não é a renda nem a escolaridade. É tampouco a mistura de imigrantes. O que os moradores de São Paulo têm mais que todos os outros brasileiros é celular e telefone fixo em casa: 61% têm os dois aparelhos ao mesmo tempo -herança de quando telefone fixo valia tanto que aparecia até em declaração para o Fisco.
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Durante a Rio+50, os participantes desfrutam uma temperatura entre 21ºC e 27ºC, em pleno inverno de 2042. Isolados em ambientes refrigerados, os poucos que assistiram à Rio+20, três décadas antes, não se dão conta dos dois graus a mais de temperatura. A grande maioria não tem nem como comparar. Acompanha a conferência através de seus avatares virtuais, a milhares de quilômetros de distância.
Para os que estão lá pessoalmente, pegar uma praia não é opção. A chuva é tão insistente que beira os 100 milímetros por mês -uma média que, relatam os mais velhos, era comum apenas nos meses de verão. Os paulistas, quando pegam a ponte-aérea (o trem-bala é ainda um projeto), dizem estar indo para a terra da garoa.
Trinta anos atrás, o noticiário a respeito da cúpula internacional sobre desenvolvimento sustentável pouco espaço ganhara na mídia estrangeira. Agora, chega às manchetes (um anacronismo ainda em uso) dos jornais que restaram. O aquecimento global não é mais uma hipótese em busca de confirmação, nem preocupação exclusiva dos que eram chamados de abraçadores de árvores. A pecha caiu em desuso, pela falta do que abraçar.
A rápida mudança do clima transforma o mapa econômico e epidemiológico. Áreas antes próprias à agricultura viraram pista de “sandboard”. Doenças ditas tropicais infestam as zonas temperadas da Europa e Estados Unidos. Os mosquitos transmisssores se adaptam às temperaturas cada vez mais altas. Com demanda dos ricos, a indústria farmacêutica, enfim, decide investir numa vacina contra a malária.
No Brasil, a Rio+50 disputa espaço com o noticiário catástrofe. As manchetes são para a seca inclemente no Nordeste. As chuvas estão 35% mais raras do que eram na época da Rio+20. A estiagem emenda o verão ao inverno, ano após ano. Na média, a temperatura no interior da Bahia, Pernambuco e Ceará subiu quase três graus em 30 anos. A vegetação da caatinga cede espaço a um grande areal -”uma oportunidade para o turismo de aventura”, diz a propaganda oficial.
A quatro meses da vazante máxima, o Amazonas está no nível mínimo da história; as cidades, isoladas por fios d’água que não suportam a navegação. Os veículos anfíbios vendidos ao governo como solução do problema atolam no lodaçal em que se transformaram rios e igarapés. Desde que a chuva diminuiu em um terço no espaço de uma geração, chovem ideias progressistas para a região. Um candidato promete o PALF: Programa de Asfaltamento dos Leitos Fluviais.
É 2092. A Rio+100 é cancelada. Chuvas torrenciais fazem desabar encostas e morros sobre o asfalto. As praias foram engolidas pelo oceano. Na maré alta, a avenida Atlântica é reivindicada pelo próprio. A Riotur tentar compensar o prejuízo vendendo a cidade como a Veneza do século 22, que a original submergiu há décadas.
Em São Paulo, o calor abafado e úmido é definido, saudosamente, como “amazônico”. O Tietê há muito saiu de sua calha e recuperou as várzeas do entorno. Em comum com a época da Rio+20, só a poluição do rio, que mais um governador promete limpar até o fim do mandato. De passagem pela São Paulo alagada, um carioca das antigas respira fundo e comenta: “Pelo cheiro, esta sim é a Veneza do século 22″.
Na caatinga brasiliense, dois deputados paraguaios -um colorado e um liberal, os dois partidos que se alternam no poder desde o impeachment relâmpago de um presidente-bispo que era considerado um pai por muitos conterrâneos- prosseguem na sua missão de reconhecimento, cortando o território de sul a norte. Após atravessar o que antigamente era chamado de Chaco/Pantanal, chegam a Brasília. Visitam as ruínas do Estádio Nacional -um exemplar da arquitetura copalina, que dominou as obras públicas pré-2014. Reza a lenda que só uma partida foi jogada no seu gramado.
Antes de seguirem para a savana amazônica -uma enorme reserva de caça que vai de Sarneyrama ao novo Estado de Tapajós- os paraguaios consultam arquivos digitais para entender a radical mudança da paisagem brasileira. O colorado lê o documento oficial da Rio+20, “O futuro que nós queremos”, e conclui: “Eles não eram muito ambiciosos”.
O liberal descobre outro texto divulgado à época da conferência. O relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas previa chuvas decrescentes no Norte-Nordeste, e muito mais precipitação no Sul-Sudeste. “Tá tudo aqui”. Ao que o colorado replica: “Ninguém leu. Se leu, não acreditou”.
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O arquivo de um jornal é o registro de várias dimensões da história. Marca não apenas a cronologia dos acontecimentos, mas grava as mudanças da língua, e, por tabela, plasma as transformações dos hábitos e interesses de quem a emprega. O arquivo registra quando uma expressão passa a fazer parte do cotidiano, e, atrás dessa palavra, mostra a evolução das ideias e dos conceitos que ela encerra.
Pesquisando-se o acervo digitalizado do Estado, percebe-se que poucas invenções tiveram impacto tão profundo quanto o advento da internet. Ela entrou para o léxico do jornal em março de 1990, através de reportagem traduzida do “The New York Times”. O jornalista John Markoff relatava um ataque hacker (também a primeira menção ao termo) que roubara senhas de usuários “das centenas de milhares de computadores” ligados à rede em todo o mundo.
Quatro meses depois, outra reportagem anunciava a futura ligação da Universidade Federal do Rio de Janeiro “à rede de pesquisas internet”. Nenhuma palavra sobre o assunto em 1991 e apenas uma citação no ano seguinte. Mas em 1993 começaria a espetacular escalada do uso da palavra “internet” nas páginas do jornal.
Em 14 de fevereiro de 1993, outra reportagem de Markoff falava de uma internet visionária, que transportaria o conteúdo de enciclopédias “em segundos” através de “vidro e luz” (ou seja, de fibra ótica). Em agosto, diante da enxurrada de citações presentes no jornal, uma “Nota da Redação” explicava: “A Internet não tem representante no Brasil, mas pode ser acessada por meio do BBS Canal Vip”.
Isso estava para mudar. Em 19 de dezembro de 1994, o caderno de informática anunciava alto na página: “A Internet comercial chega ao País”. Pela primeira vez, o termo foi usado em todos os meses do ano: 156 citações. Em pouco tempo a frequência de menções à internet seria diária. O volume multiplicou-se a cada ano. Foram 778 vezes em 1995, 1.593 no ano seguinte, depois 2.154, 3.910, 4.999 até bater o recorde em 2000: 7.715 menções.
Outra revolução das comunicações, a televisão, nunca passou de 2.511 citações ao longo de um ano (no caso, em 2004) nas páginas do Estado. Em 22 anos, o termo “internet” foi usado 84.495 vezes no jornal, mais do que as 80.783 citações a “televisão”, que aparece no acervo desde 1922. Se você acha que o Estado deu atenção demais ao assunto, saiba que a palavra “internet” foi empregada 485 mil vezes no “The New York Times” desde 1982.
Com o estouro da bolha especulativa das empresas ponto.com, as reportagens sobre a rede mundial de computadores se tornaram menos frequentes. No Estado, a internet perdeu a inicial maiúscula em 2003, virou mais um assunto e nunca mais mais teve tantas menções quanto em 2000 -embora ainda seja mais usada do que “democracia”, “eleição” e “computador”.
Não bastasse o alvoroço que causou e o espaço que ocupou, a internet deu crias lexicográficas. Até o final do século passado, “rede social” era uma forma de proteção comunitária: a rede social que protege os imigrantes de uma determinada região, por exemplo. Nos anos 2000, porém, virou aposto e, depois, sinônimo de Twitter, Facebook e Orkut. Somadas, essas quatro expressões já têm quase 3 mil citações por ano nas páginas do Estado.
E como a frequência do uso das palavras no jornal reflete a política? De maneira surpreendente. De todos os políticos, os mais citados nas páginas do Estado são presidentes, ex-presidentes e alguns candidatos derrotados à Presidência. O ranking presidencial é encabeçado por “Luiz Inacio Lula da Silva”. São mais de 24 mil menções ao seu nome completo. Se forem somadas as menções a “Luiz Inacio da Silva”, a conta passa de 26 mil.
Dois josés disputam o segundo lugar de citações: Sarney e Serra. Com quase 18,5 mil aparições, o tucano está formalmente na segunda colocação -mas ele tem muitos homônimos, o que dificulta a contabilidade. Fernando Henrique Cardoso é o quarto colocado, com 16,4 mil citações. A seguir vêm, pela ordem, Paulo Maluf, Jânio Quadros, Dilma Rousseff, Getúlio Vargas, Itamar Franco, Fernando Collor e, bem atrás, os presidentes militares.
Lula aparece pela primeira vez em reportagem sobre o novo sindicalismo do ABC paulista, no final dos ano 70. Fernando Henrique é citado desde 1957, ainda como intelectual. A primeira menção a José Serra foi em 10 de março de 1960, numa propaganda do curso preparatório Anglo Latino. Ele é um dos aprovados no vestibular para a Escola Politécnica (USP): foi o 184º colocado em 266 vagas.
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Muito antes que alguém formulasse o chavão -informação é poder-, o poder já controlava a informação. Desde sempre e o quanto fosse possível. Para perpetuar-se, esse controle foi se adequando às mudanças sociais e às novas tecnologias. Enquanto ninguém sabia ler e não havia meios de comunicação de massa, perdurou o monopólio da informação, por milênios. Após Gutemberg, o poder institucionalizou a censura. E quando a censura se incompatibilizou com a democracia, o poder carimbou o que interessava esconder como segredo de estado -ou, mais eficiente ainda, enterrou a informação nos escaninhos da burocracia.
A beleza da Lei de Acesso às Informações Públicas (Leinfo) que -com 40 anos de atraso- entra em vigor nesta quarta-feira no Brasil é que ela inverte as regras do jogo. Até agora, cabia ao cidadão descobrir ou imaginar quais informações de interesse público estavam em poder do estado e pedir aos seus agentes que as publicassem. Se esses agentes se recusassem a fazê-lo ou simplesmente ignorassem o pedido, nada lhes acontecia. Bastava, portanto, esconder o documento que interessava no meio de um milhão de pilhas de documentos desinteressantes. Não mais.
A Leinfo obriga a publicidade de tudo. A iniciativa de divulgar -ou ao menos a sua obrigação- passou a ser do estado. Para assegurar o cumprimento desse dever, a Leinfo deu à sociedade civil o poder de cobrar. O burocrata que contrariar a lei está sujeito a punição. Ele tem prazo de até 30 dias para atender os pedidos de informação.
A muleta do segredo de estado também foi encurtada. Os limites do que pode ser sigiloso estão previstos na Leinfo. Mais importante: cada órgão que carimbar “sigiloso” em um documento terá que divulgar sua lista de documentos secretos, as justificativas e o prazo de duração do sigilo.
É fato que boa parte da lei ainda está sujeita a regulamentação e que muitas dúvidas sobre seu alcance precisarão ser arbitradas pela Justiça. Mas a sociedade brasileira pode e deve comemorar uma conquista que os norte-americanos desfrutam há mais de quatro décadas. Só pode comemorar porque mobilizou-se para isso.
A Leinfo é de iniciativa do governo federal porque assim manda a legislação brasileira. Por criar novas despesas, não poderia ter sido proposta pelo Legislativo. Foram necessários anos de lobby junto ao Congresso e ao Planalto para que a Leinfo saísse. Esse lobby do bem foi coordenado pelo Fórum de Acesso às Informações Públicas, uma paupérrima entidade sem fins lucrativos que une 25 organizações da sociedade civil, como OAB, Associação dos Juízes Federais, Movimento do Ministério Público Democrático, Federação Nacional dos Jornalistas e Associação Nacional dos Jornais.
Duas entidades capitanearam a formação do Fórum e o lobby pela Leinfo: Transparência Brasil e Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). Dentro delas, duas pessoas lideraram o processo: Claudio Weber Abramo e Fernando Rodrigues. Sozinhos, eles não teriam conseguido nada, mas sem eles a lei muito provavelmente não entraria em vigor hoje.
O acesso às informações públicas é uma batalha permanente e coletiva. Vencê-la depende de pressão da sociedade por transparência sobre todos os níveis de governo -do federal às menores prefeituras- e esferas de poder: Congresso, assembleias, câmaras municipais e tribunais. Informação ainda é poder, e controlá-la continua sendo uma ambição dos poderosos.
Como tem feito há milênios, o poder vai se adequar às novas regras. Aliás, já vem fazendo. Criaram-se dezenas de páginas de “transparência” com final “.gov” na internet. A Controladoria Geral da União arejou o acesso a uma parte importante das informações de interesse público. Mas não é hora de a sociedade relaxar.
O poder não vai abrir de mão do controle da informação. Contraria sua natureza. Em vez de omitir, esconder e censurar, o mais provável é que os descontentes com a transparência embolem bilhões de dados em formas e formatos incompreensíveis. Daí a necessidade crescente de ferramentas de análise e visualização de informações brutas, como o Basômetro, desenvolvido pelo Estadão Dados.
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O mundo nunca foi tão adolescente. A cada quatro terráqueos, um tem entre 10 e 24 anos. São 1,8 bilhão de pessoas nessa idade especial. Mas desde quando um marmanjo de 24 anos é adolescente? Num passado recente não era, mas passou a ser -ou melhor, não deixou de ser. E isso pode virar um problema. Segundo a revista científica “The Lancet”, a adolescência vem espichando a cada geração, nas duas pontas: a puberdade chega mais cedo, e a maturação do papel social dos jovens ocorre cada vez mais tarde.
Basta observar como tem avançado a idade média dos jovens ao terminar os estudos, com que conseguem seu primeiro emprego fixo, quando se casam, e com que as mulheres se tornam mães. Todos esses marcos do fim da adolescência foram adiados nas últimas gerações. As repercussões sociais dessa mudança são maiores do que nos damos conta. Daí o dossiê da “The Lancet”.
A palavra “adolescente” deriva do latim “adolescere”, que significa “crescer”, “desenvolver-se”. Adolescente é quem está crescendo, e adulto, quem já cresceu, já se desenvolveu. Mas o crescimento não se mede pelo número do sapato nem pelo comprimento da barra da calça ou da saia. É uma questão de amadurecimento, de andar com as próprias pernas sem a muleta dos pais.
A adolescência começa quando os hormônios da puberdade mudam a fisiologia e a fisionomia das crianças. É uma revolução que transforma todo o corpo, com repercussões do comportamento à capacidade cognitiva do cérebro. Jovens púberes, por exemplo, tendem a questionar regras, buscar novas experiências e tomar atitudes de risco com mais frequência que os impúberes.
O coquetel hormonal em ebulição tem impactos diretos sobre a mortalidade. O gosto por arriscar-se faz com que os adolescentes estejam entre as principais vítimas das mortes violentas. Se a adolescência se prolonga, a chance de sucumbir aos seus efeitos também. Nas últimas décadas, o mundo conseguiu reduzir drasticamente a morte na infância. Mas os avanços na redução da mortalidade de adolescentes foram bem menos impressionantes. O Brasil não é exceção.
De 1996 a 2010, as mortes de crianças brasileiras com menos de cinco anos caíram praticamente à metade, de 88 mil para 47 mil por ano. A taxa de mortalidade por 100 mil habitantes dessa faixa etária regrediu quase na mesma proporção. Já as mortes e a mortalidade de adolescentes de 10 a 24 anos permaneceram estáveis. Em 2008, pela primeira vez na história do Brasil, morreram mais adolescentes do que crianças. E a tendência só se acentuou desde então.
Nesses 15 anos, as mortes por causas naturais diminuíram, e as violentas aumentaram. Morreram mais adolescentes brasileiros por tiro e acidentes de carro e moto, e menos por doenças infecciosas como Aids, ou por problemas cardíacos. Foram e continuam sendo vítimas de causas de morte evitáveis, que podem ser amainadas por políticas públicas. Esse não é o único impacto sobre a longevidade. É na adolescência que se formam os hábitos alimentares que vão influenciar a saúde pelo resto da vida.
A adolescência tardia também tem consequências positivas, principalmente econômicas. A extensão do período sob o mesmo teto dos pais permite aos adolescentes permanecerem mais tempo na escola. Por isso as novas gerações têm potencial para formarem a força de trabalho mais qualificada que o Brasil já teve, com impactos positivos sobre a produtividade e a renda. Mas para esse potencial se concretizar é preciso que haja oportunidades de emprego compatíveis com essa escolaridade mais alta.
O ano de 2011 foi rico em exemplos de como a adolescência estendida tem impactos profundos sobre áreas improváveis, como a política. Os levantes árabes foram impulsionados por essa população adolescente, gente tão jovem quanto os indignados espanhóis, os saqueadores de Londres e os ocupadores de Wall Street. Todos eles buscando seu lugar na sociedade e topando com obstáculos maiores do que seus pais para encontrá-lo. E enquanto não encontram, sua adolescência é interminável.
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O brasileiro é antes de tudo um otimista. Ele acredita que as coisas vão melhorar, sempre. Se estão ruins, ele aposta na virada. Se já estão boas, ele crê que vão melhorar ainda mais. Essa característica se acentuou nos últimos tempos, fruto da percepção da maioria da população de que andou para frente. O otimismo é, portanto, uma projeção do passado recente. Mas não precisávamos exagerar.
Segundo pesquisa do Gallup, o Brasil é onde há proporcionalmente menos pessoas “sofrendo” no mundo. A sondagem foi feita em 146 países, ao longo de 2011. Juntos, eles representam mais de 95% da população mundial. Computadas as dezenas de milhares de entrevistas, o instituto concluiu que só no Brasil menos de 1% da população se enquadra na categoria “sofrimento”.
Para comparar, na média mundial, 13% estão “sofrendo”. Em 18 países, pelo menos 1 em 4 habitantes está nessa situação. São aqueles pintados de verde claro no mapa que ilustra este texto. O pior é a Bulgária: 45% da população está “sofrendo”.
Se não “sofrem”, como estão os brasileiros?
Segundo o Gallup, 59% estão “prosperando”, e os demais 41%, “batalhando”. O Brasil é o 9º colocado na proporção de “prósperos”, empatado com a Áustria. Só perde para Dinamarca (74% “prosperando”), Holanda e Canadá (66% ambos), Israel e Suécia (65%), Austrália e Finlândia (64%) e, por pouco, para a Nova Zelândia (60%).
Segundo o instituto, há proporcionalmente mais brasileiros “prosperando” do que há norte-americanos (56%), sul-coreanos (50%), britânicos (50%), franceses (46%), alemães (42%) e japoneses (26%). Todas essas nações aparecem muito à frente do Brasil tanto no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) quanto no da renda per capita.
Mesmo em comparação a outros países ditos emergentes o Brasil aparece muito mais bem colocado na pesquisa. Tem 37 pontos porcentuais de “prosperidade” a mais do que a Rússia (22% “prosperando”, 58% “batalhando” e 19% “sofrendo), 41 pontos mais do que a China (18%, 70% e 12%, respectivamente) e inacreditáveis 48 pontos a mais do que a Índia (11%, 66% e 24%).
O Brasil é, portanto, um ponto muito fora da curva. O que explica esse resultado literalmente excepcional? O otimismo.
Para compreender o porquê, só entendendo com funciona a metodologia do índice de bem-estar. Um dos maiores institutos do mundo, o Gallup desenvolveu seu indicador a partir da tradicional escala Cantril de auto-avaliação, e vem usando-o há décadas.
Pioneiro no estudo da opinião pública, Hadley Cantril desenvolveu um método que se tornou referência. Ele permite a cada indivíduo estabelecer sua própria escala de valores sem, todavia, abrir mão da capacidade de compará-las. A “escada de Cantril” também elimina o viés provocado pelas diferenças de significado que o mesmo conceito tem para diferentes pessoas, ou que uma expressão tem em diferentes idiomas.
O grau de “sofrimento” no indicador de bem-estar do Gallup não é fruto de uma pergunta direta do entrevistador, mas de uma combinação de resultados. O entrevistado é convidado a imaginar uma escada que vai de 0 a 10, onde o topo representa a melhor condição de vida possível, e o zero, a pior. Em seguida, o pesquisador pergunta em qual degrau o entrevistado se encontra e em qual degrau ele estará daqui a cinco anos.
A divisão em três grupos (“prosperando”, “batalhando” e “sofrendo”) é obtida pela combinação das respostas. Para entrar no grupo da “prosperidade”, o entrevistado tem que estar hoje no degrau 7 ou acima dele, mas não só. Ele tem também que enxergar um futuro melhor, ou seja, deve projetar estar no mínimo no degrau 8 daqui a cinco anos. Já para cair no grupo “sofrendo”, o entrevistado tem que se ver em má situação hoje (degrau 4 ou inferior) e achar que o futuro permanecerá ruim (abaixo do 5º degrau). Quem não se encaixa em nenhuma dessas categorias está “batalhando”.
Os 59% de brasileiros classificados pelo Gallup como “prosperando” não estão hoje no topo da escada, nem a um passo de chegar lá. Estão concentrados entre o 7º e o 8º degraus. Porém, quando indagados onde estarão daqui a cinco anos, a grande maioria afirma que chegará ao último degrau, ou seja, à melhor condição de vida que pode imaginar.
Mesmo aqueles brasileiros que estão abaixo do 7º degrau acham que chegarão, no futuro próximo, ao topo da escada, ou muito perto disso. Quase ninguém acha que está mal (abaixo do 5º degrau) e vai continuar assim ou piorar. Por isso menos de 1% está “sofrendo”. Se essa auto-avaliação otimista dos brasileiros é exagerada, só saberemos daqui a cinco anos. Mas certamente é uma jabuticaba. Só tem aqui.
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Tags: Brasil, EUA, gallup, opinião pública, pesquisa
O Brasil aparece mal em um novo “indicador de riqueza inclusiva” que será apresentado oficialmente na Conferência Rio+20, em junho, no Rio de Janeiro. O motivo: o país estaria consumindo sua “riqueza natural” praticamente no mesmo ritmo que aumenta sua riqueza humana e econômica. A conclusão implícita é que o crescimento do PIB brasileiro nas últimas duas décadas se deu à custa da diminuição de seu estoque de florestas, reservas minerais e de combustíveis fósseis.
Entre 1990 e 2008, período a que se refere o novo indicador, o PIB do Brasil cresceu 34%. Ao mesmo tempo, a soma das riquezas naturais brasileiras teria decaído 46%, segundo os autores do estudo, cuja prévia foi apresentada nesta quarta-feira, em Londres, durante a conferência “Planet Under Pressure” (planeta sob pressão). Como resultado, a evolução da “riqueza inclusiva” brasileira foi pífia: apenas 3% em 18 anos.
Uma visão detalhada da evolução dos indicadores que compõem o novo índice pode ser vista no gráfico abaixo. Todos os ganhos de “capital humano” são praticamente anulados pela perda de “capital natural”. O período compreende os governos Collor, Itamar, FHC e Lula.
O novo indicador foi criado pelo “International Human Dimensions Programme on Global Environment Change” (UNU-IHDP), ligado à Universidade das Nações Unidas. Seu diretor-executivo, Anantha Duraiappah, pretende apresentar o primeiro relatório mundial de “riqueza inclusiva” durante a Rio+20, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
Nessa primeira versão, o relatório deverá analisar o crescimento de 20 países sob a ótica do novo indicador: Austrália, Brasil, Canadá, Chile, China, Colômbia, Equador, França, Alemanha, Índia, Japão, Quênia, Nigéria, Noruega, Rússia, Arábia Saudita, EUA, Reino Unido e Venezuela. Juntos, eles produzem 72% do PIB mundial e abrigam 56% da sua população.
Embora ainda não se conheça em detalhes a metodologia do novo indicador nem o seu resultado para todos esses países, não é difícil imaginar que as nações em desenvolvimento apresentem um resultado pior do que as desenvolvidas. Por uma razão simples: elas ainda têm capital natural para gastar, enquanto os países ricos já consumiram suas florestas e boa parte de seus recursos naturais enquanto estavam se desenvolvendo.
A Índia também aparece mal no novo indicador, embora melhor do que o Brasil: seu PIB cresceu 120% no período analisado, enquanto seu capital natural diminuiu 31%. Na média, a “riqueza inclusiva” indiana teria crescido 9% entre 1990 e 2008.
“A pesquisa sobre o Brasil e a Índia ilustra a razão pela qual o Produto Interno Bruto (PIB) é inadequado e enganador enquanto indicador de progresso econômico em uma perspectiva de longo prazo”, diz Anantha Duraiappah, do UNU-IHDP. E acrescenta: “Um país pode exaurir completamente todos os seus recursos naturais ao mesmo tempo que seu PIB cresce.”
A “riqueza inclusiva” não é o primeiro indicador apresentado por um braço da ONU para substituir o PIB como parâmetro de desenvolvimento. Há mais de 20 anos o PNUD lança, anualmente, seu relatório de desenvolvimento humano, no qual as nações são classificadas segundo um índice composto, o IDH, que soma indicadores de educação e longevidade ao PIB.
Resta saber se o “indicador de riqueza inclusiva” vai ganhar destaque e relevância ou se vai ser apenas mais um índice na selva estatística que cresce a cada ano. Também será curioso observar a reação do governo brasileiro ao lançamento oficial do novo índice durante a Rio+20. O anfitrião vai virar vidraça.
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Tags: Brasil, indicadores, meio ambiente
O maior avanço da ciência em 2011 foi a descoberta de que o tratamento contra o HIV (que provoca a Aids) também diminui a transmissão do vírus. O prêmio foi concedido pela tradicional revista Science na sua edição de final de ano. O estudo premiado demonstrou que quem é tratado contra o HIV com drogas anti-retrovirais tem 96% menos chance de transmitir o vírus a seus parceiros sexuais. Parte das experiências de campo foi conduzida com pacientes brasileiros.
Até a publicação do artigo, havia uma grande polêmica se as drogas anti-retrovirais tinham ou não o efeito duplo de tratar os portadores e restringir o contágio. O prêmio vai para Myron Cohen, da Escola de Medicina da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, e para um time de pesquisadores internacionais.
A pesquisa, conhecida por HPTN 052, começou a ser feita em 2007 e envolveu 1.763 casais heterossexuais em nove países: Brasil, Índia, Tailândia, EUA, Botswana, Quênia, Malauí, África do Sul e Zimbábue. Cada casal incluía um parceiro contaminado pelo HIV e outro livre do vírus. Os pesquisadores administraram drogas anti-retrovirais em metade dos casais e compararam o porcentual de infecção dos parceiros nos quatro anos seguintes.
No Brasil, participaram da pesquisa 467 casais do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Os estudos foram conduzidos por Beatriz Grinsztejn, do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (Manguinhos), e por Breno Riegel Santos, do Hospital Nossa Senhora da Conceição (Porto Alegre).
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Pesquisa Gallup nos 27 países membros da União Europeia mede o grau de descrédito a que chegaram os governantes e banqueiros do continente. Na média, só 1 em cada 3 europeus confia no governo do seu país (36%). A confiança nos bancos e instituições financeiras não é muito melhor: 43%. Para um sistema que é baseado só em confiança, esses 43% são alarmantes. Alarmante também é o fato de a instituição na qual o europeu médio mais confia são os militares.

De 27 governos avaliados por seus governados, apenas cinco passaram no teste de confiança e tiveram mais de 50% de respostas positivas. Ao mesmo tempo, em 13 países menos de um terço da população diz confiar no seu governo. São os casos da Espanha (31%), Itália (26%) e Portugal (21%). Nesses casos, é preciso levar em conta que as pesquisas foram feitas antes da troca de governo.

O resultado não é muito melhor quando se comparam os graus de confiança nos bancos de cada país. Embora as pesquisas tenham alguns meses de idade, elas indicam a profundidade da crise europeia e apontam para uma enorme dificuldade de recuperação diante de um grau de desconfiança tão alto.

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Tags: Europa, gallup, opinião pública, pesquisa, popularidade
* O IBGE identificou 6.329 aglomerados subnormais, onde estão 5,6% dos domicílios e onde vive 6% da população brasileira.
* Aglomerado subnormal: + de 50 habitações, carentes de serviços essenciais, ocupando desordenada e densamente terreno de propriedade alheia.
* 323 municípios brasileiros têm favelas, grotas, palafitas, invasões, mocambos, ou o nome local que se use para aglomerados subnormais.
* O Brasil tem um Portugal de favelados: 11,4 milhões de pessoas.
* Há duas vezes mais chances de um brasileiro negro ser favelado do que um branco.
* Dois em cada três favelados são negros.
* A taxa de analfabetismo da população favelada é 55% maior do que a da população urbana não-favelada.
* A taxa de analfabetismo da população favelada é 31% menor do que a da população rural.
* O rendimento mediano da população favelada é 27,5% menor, em média, do que o da população urbana não favelada.
* O rendimento mediano da população favelada é 3 vezes maior, em média, do que o da população rural.
* Nas favelas brasileiras, 79% dos moradores vivem com uma renda mensal per capita de até 1 salário mínimo.
* A proporção de favelados vivendo com até 1 salário mínimo é 55% mais alta do que na população urbana não-favelada.
* A população brasileira favelada é, proporcionalmente, mais jovem do que a não-favelada.
* Há mais favelados no Sudeste do que no Norte e no Nordeste somados.
* A favelização é mais grave no Norte (12% da população), no Sudeste (7%) e no Nordeste (6%) do que no Sul (2%) e Centro-Oeste (1,5%).
* Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo reúnem metade dos brasileiros vivendo em favelas.
* 1 em cada 4 favelados brasileiros mora no estado de São Paulo.
* O Pará é o estado com maior taxa de população favelada: 17,4%, ou 1,267 milhão de pessoas.
* Goiás tem a menor proporção de favelados pelos critérios do IBGE: só 0,1% da população, ou 8.823 pessoas -metade, por causa de Brasília.
* Destino de sucessivas ondas migratórias, as regiões metropolitanas concentram a maioria da população favelada brasileira.
* Apenas três regiões metropolitanas concentram quase metade (44%) dos domicílios favelados do Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro e Belém.
* Na maior parte das vezes, o município que é o núcleo da região metropolitana concentra a maioria da população favelada.
* Na Região Metropolitana de Salvador, 95% dos domicílios favelados estão na própria capital. Na Grande Natal (RN), 100%.
* As únicas regiões metropolitanas onde a maioria da população favelada mora nas cidades do entorno são Baixada Santista, Vitória e Recife.
* A metrópole com maior proporção de moradores vivendo em favelas é a Grande Belém: 54% da população.
* A metrópole com mais gente morando em favelas é a Grande São Paulo: 2,162 milhões de pessoas, ou 11% da população.
* Quanto maior e mais densa, pior tende a ser a qualidade de vida na favela, principalmente pela dificuldade de circulação do ar.
* 88% dos domicílios localizados em favelas estão em regiões metropolitanas com mais de 1 milhão de habitantes.
* Se as favelas estivessem reunidas em um só lugar, formariam a maior cidade brasileira -maior até do que São Paulo.
* O Rio de Janeiro é a cidade com maior população favelada do Brasil: 1,393 milhão de pessoas, vivendo em 763 aglomerados subnormais.
* A taxa de favelização carioca, de 22%, é o dobro da de São Paulo, que tem 1,280 milhão de favelados, ou 11% de sua população.
* A cidade com maior proporção de favelados no Brasil é Marituba, na Grande Belém (PA): 77 em cada 100 moradores.
* A maior proporção de população favelada entre as cidades paulistas está em Cubatão, na Baixada Santista: 42%, ou 49 mil pessoas.
* A população favelada da cidade do Rio de Janeiro forma, sozinha, a 11ª cidade brasileira, à frente de Belém.
* Em Belém (PA), 9 em cada 10 favelas têm mais de mil domicílios.
* Nenhuma outra cidade paulista é mais populosa do que a soma dos moradores das 1.020 favelas paulistanas.
* Em regra, as favelas paulistanas diferem muito das do Rio de Janeiro por serem menores, dispersas e periféricas.
* A maior predominância de favelas é em cidades costeiras ou ribeirinhas.
* Os barracos mais apinhados estão no Norte. Em três cidades, a média supera 6 pessoas por domicílio: Amapá, Guajará e Santo Antonio do Içá.
* A Rocinha, no Rio de Janeiro, é a maior favela do Brasil, com 69.161 moradores. Seria a 35ª mais populosa cidade fluminense. Tem UPP.
* A 2ª maior favela do Brasil fica em Brasília. Com 56.483 moradores, é a Sol Nascente, junto à cidade-satélite de Ceilândia.
* Como em Brasília tudo vira sigla, a favela é oficialmente chamada de ARIS (área de regularização de interesse social) Sol Nascente.
* A 3ª maior favela do Brasil fica também no Rio: é a Rio das Pedras, entre a Barra da Tijuca e Jacarepaguá. Tem 54.793 moradores e milícia.
* Com 42.826 moradores, Paraisópolis é a maior favela paulistana, pelos critérios do IBGE. Estaria em 146º entre 645 cidades paulistas.
* Se fosse somada às favelas adjacentes (Panorama 1 e 2), Paraisópolis ultrapassaria 55 mil moradores e seria a 114ª cidade paulista.
* Viver em favela significa ter energia elétrica (99,7% dos domicílios), água encanada (88%), esgoto adequado (67%) e coleta de lixo (95%).
* Apenas 1% dos domicílios em favelas no Brasil não tem banheiro ou sanitário.
* Apesar dos problemas urbanísticos, pobreza e violência, moradores de favelas têm mais saneamento e eletricidade do que muitas áreas rurais.
* Em 599 favelas (9,5%), todas as habitações têm todos os serviços essenciais: água encanada, esgoto ou fossa séptica, lixo recolhido e luz.
* Em Campo Belo (MG), Nova Friburgo (RJ), Martinópolis (SP), Tabatinga (SP) e Jataizinho (PR) todos os favelados têm 100% de serviços.
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Leia reportagem do Estado sobre as favelas brasileiras.
Interaja com o infográfico.
Assista ao vídeo.
Todas as informações acima foram extraídas do relatório do IBGE sobre o Censo 2010 chamado “Aglomerados subnormais – primeiro resultados”, divulgado nesta quarta-feira.
Tags: Censo 2010, educação, estatísticas, habitação, indicadores, renda
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