José Roberto de Toledo - Estadao.com.br
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Traduzindo a nuvem: “Gente” “precisa” “mudar” “região” “direito” “democracia”. Parece até que Barack Obama se inspirou nos discursos de Lula ao usar mais a palavra “gente” (“people” pode ser traduzido também como “pessoas”) do que qualquer outra: 46 vezes. É uma mudança de doutrina reconhecer que é melhor a mudança vir pela população local, e não por influência externa.

Tirando a questão Israel/Palestina, o que fica evidenciado é o apoio dos Estados Unidos às mudanças em favor da democracia na região em geral. Mas as menções a países privilegiam mais uns do que outros. Tunísia e Egito, como pioneiros e objeto do apoio financeiro mais imediato dos EUA, têm mais destaque. Enquanto a Líbia ficou relegada a segundo plano.

Obama também mencionou rapidamente a repressão política no Yemen e no Barhein, mas reiterou apoio aos seus governantes, que estão do lado dos EUA. Não, não adianta procurar por “Arábia Saudita” ou qualquer referência aos mais poderosos aliados norte-americanos na região. Obama falou da falta de democracia mas não citou o grande parceiro comercial dos EUA quando o assunto é petróleo.

O discurso foi aplaudido cinco vezes, sem entusiasmo. Só para comparar, Obama recebeu 23 ovações durante seu discurso no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Leia a íntegra do discurso de Barack Obama sobre o Oriente Médio (em inglês).

Veja aqui o trecho do vídeo do mesmo discurso quando Obama fala em Israel e Palestina buscarem um acordo para a existência dos dois estados com base nas fronteiras pré-1967.

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07.março.2011 14:07:35

Pós-consumismo

O brasileiro é antes de tudo um consumidor. Na economia, o consumo das famílias impulsionou o maior salto econômico do País em um quarto de século. Na Justiça, a maior parte da pilha acumulada é de ações movidas por consumidores insatisfeitos. Na política, o bolso do eleitor decidiu todas as campanhas presidenciais recentes.

As razões que comandaram esse processo são conhecidas: décadas de estagflação, séculos de exclusão. A histórica falta de renda e de crédito para a maioria da população criou uma demanda reprimida de dezenas de milhões de não-consumidores. Gente que só podia olhar a vitrine.

Quando o dique rompeu, a onda de consumo encheu as lojas, inundou os tribunais e levou de enxurrada tudo o que dificultava o acesso às gôndolas dos mercados. Não se pode dizer que ela lavou a política, mas fez naufragar alguns partidos. Outros emergiram.

As consequências de o Brasil estar se tornando uma nação de consumidores ávidos vão muito além do provinciano confronto PT-PSDB. É uma questão de prioridades, do que é mais importante para os habitantes de Pindorama.

Isso tem impacto direto sobre o exercício da cidadania. Tome-se a pesquisa que a Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas faz a cada três meses em todo o Brasil sobre a confiança no Judiciário e o que motiva alguém a pisar num tribunal.

Pouco menos de metade dos brasileiros adultos declarou já ter movido algum tipo de ação na Justiça. Desses, 1 em cada 3 foi movido por cobranças indevidas, serviços pagos e não realizados, ou seja, por julgarem que seus direitos de consumidor não foram respeitados.

Nenhum outro tipo de demanda judicial provocou a abertura de tantos processos. Nem mesmo as ações trabalhistas (25%), como pedidos de indenização. Tampouco as queixas relativas ao direito da família, como divórcios, pensões, guarda dos filhos.

Do ponto de vista do movimento da Justiça brasileira, o consumidor vem antes do trabalhador, do cônjuge, dos pais. Não se faz aqui juízo moral, não se pretende tachar esse movimento de bom ou ruim. Antes, é preciso constatar sua amplitude.

Fernando Henrique se elegeu presidente após controlar a inflação. Reelegeu-se quando os neoconsumidores temeram que ela voltasse. Quatro anos de estagnação econômica depois, os mesmos eleitores arriscaram uma mudança. Sob Lula, o consumo explodiu. Ele se reelegeu, fez a sucessora.

A cronologia que antepõe o acesso ao consumo à vitória eleitoral soa simplista, mas é factual. Difícil encontrar correlação mais forte nas eleições presidenciais. Em todas, ganhou o candidato que conseguiu vender a si mesmo como o caminho mais seguro do consumidor até o mercado.

Estão erradas todas as pesquisas que sempre apontam educação, saúde e segurança como os temas que mais preocupam os brasileiros? As pessoas mentem aos pesquisadores? Não e não (ao menos a maioria). Mas nem sempre o que se diz a si próprio ser o mais importante é o que se faz primeiro. O mesmo vale para o eleitor.

É politicamente correto declarar que o interesse individual deve se submeter ao coletivo. Mas não é apenas em Brasília que a ordem dessas prioridades é invertida. Na solidão da cabine de votação também.

O resultado da urna não é uma declaração de boas intenções, mas a soma dos interesses individuais da maioria. Se o principal símbolo de status social são os bens que cada um possui, não deveria espantar que o candidato que parecesse mais apto a distribuí-los a mais gente vença.

Pode-se imaginar que isso é uma etapa. Que quando a maioria puder comprar os mesmos carros, roupas e grifes, os sinais de diferenciação social tenderão a mudar.

Pesquisas mostram que uma das ambições do neoconsumidor é ser socialmente aceito nos ambientes que passou a frequentar. Saber “se comportar” é uma preocupação. É sinal de que priorizar de fato a instrução será o passo seguinte ao acesso ao consumo?

Pode ser otimismo, mas é também uma necessidade coletiva. Nenhum país conseguiu sustentar seu crescimento econômico sem investir na qualificação de sua mão-de-obra, ou seja, na educação da população.

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