O Ceará é a exceção e o exemplo: o Estado tem 9 vezes mais presos por corrupção do que seria o esperado. Apenas 3,4% dos presos no Brasil estão cumprindo pena em presídios cearenses. Mas a proporção pula para 30% quando só se leva em conta os 2.703 corruptos e corruptores presos no país.
Nenhum outro Estado brasileiro tem tantos presos por corrupção quanto o Ceará. São 820, dos quais 813 são funcionários públicos acusados de cometer peculato (apropriação ou desvio de bens públicos durante o exercício do cargo). O segundo colocado no ranking, São Paulo, tem 42 corruptos presos a menos, embora tenha 11 vezes mais presidiários, de modo geral, do que o Ceará.
A relação fica ainda mais crítica se considerarmos que metade dos presos por crimes contra a administração pública em São Paulo não são funcionários corruptos, mas contrabandistas.
Tende ao ridículo especular que os cearenses sejam 9 vezes mais corruptos, por natureza, do que o resto do Brasil. O mais provável é que falte nos outros Estados brasileiros a mesma disposição e capacidade de combater a corrupção encarcerando os condenados por crimes contra a administração pública. Mesmo o fenômeno cearense é recente. Vem de dois ou três anos, apenas.
Os números do InfoPen (Ministério da Justiça) mostram que o combate à corrupção depende de vontade política dos governantes, da capacidade investigativa do Ministério Público e da polícia, e da disposição do Judiciário de dar celeridade ao julgamento dos casos que envolvem o interesse público.
Se o grau de corrupção no Ceará é representativo do que acontece no Brasil, pode-se estimar o que aconteceria no país se todos os Estados tivessem o mesmo empenho cearense. Para começar, haveria 9 vezes mais presos por corrupção no Brasil, ou 21,5 mil a mais do que existem hoje nas cadeias, presídios e penitenciárias. Mas alguns Estados teriam que apenar mais do que outros.
O Rio de Janeiro teria que encarcerar 11 vezes mais corruptos do que tem hoje nas suas cadeias. O Maranhão teria que multiplicar por 27 os presos por corrupção; a Bahia, por 52; o Rio Grande do Norte, por 105. E Sergipe teria que, para começar, prender algum. O que será mais provável? Os outros 26 Estados prenderem mais corruptos, ou o Ceará voltar ao cenário anterior a 2011?
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A concentração de imigrantes de outros Estados é uma das chaves para entender o padrão geográfico de votação na cidade de São Paulo. Historicamente, os candidatos petistas a cargos majoritários são mais votados nas periferias, enquanto os anti-petistas costumam vencer no centro expandido. Esse comportamento tem menos a ver com a renda e a escolaridade do que com a origem do eleitor.
Uma pesquisa inédita realizada pelo Ibope e pelo Estadão Dados conseguiu demonstrar, estatisticamente, que nenhuma variável sociodemográfica guarda uma correlação mais forte com o voto dos eleitores paulistanos do que o bairro onde ele mora. A descoberta virou um estudo cientifico que será apresentado pela CEO do Ibope, Marcia Cavallari, no congresso mundial de opinião pública (66ª Wapor) este mês, em Boston, nos EUA.
Os resultados de um teste estatístico chamado Chi-quadrado encontraram valores mais altos para a associação da preferência eleitoral dos paulistanos com o distrito de moradia do que com outras variáveis estruturais do voto, como cor, renda e grau de escolaridade do eleitor. Novos testes descobriram, depois, que isso se deve, em grande parte, à origem dos moradores.
“A proporção de migrantes (de outros municípios, inclusive de outras cidades paulistas) na área petista é maior do que nas demais áreas”, constata o estudo: 42% contra 35% no resto da cidade. Mas a maior diferença ocorre entre os eleitores que vieram do Nordeste: 55% dos imigrantes nordestinos moram nas áreas onde os candidatos do PT sempre são os mais votados.
Isso significa que dois eleitores com diploma de nível superior ou com renda semelhante têm mais chance de votar em dois candidatos diferentes a prefeito ou a presidente do que se eles tiverem a mesma origem (no caso, os Estados do Nordeste do Brasil) e/ou morarem no mesmo bairro.
A preferência do eleitorado nordestino radicado em São Paulo por candidatos petistas transcende em muito os programas federais de transferência de renda. Uma parcela estatisticamente desprezível deles recebe benefícios do Bolsa Família ou equivalentes. O “petismo” desses eleitores paulistanos parece estar mais ligado à ascensão social e, principalmente, de consumo experimentada por seus conterrâneos ao longo dos últimos 10 anos.
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A presidente Dilma Rousseff está perdendo o pé de sua popularidade. O poder de compra do consumidor que lhe dá sustentação voltou a cair, deixando a taxa de aprovação de seu governo a flutuar – nas alturas, é fato, mas a flutuar. Inércia sustenta popularidade por algum tempo, mas não indefinidamente. De duas, uma: ou o bolso do consumidor volta a encher, ou as opiniões positivas sobre Dilma podem começar a diminuir.
É cedo para a oposição comemorar com frevo e tutu de feijão orgânico, mas a situação financeira do consumidor é a menos satisfatória desde a posse de Dilma. Os que dizem que a situação é melhor do que era há 3 meses ainda são o dobro dos que acham que piorou. Mas a diferença entre os dois grupos está diminuindo. Rapidamente.
Em novembro, quando a confiança do consumidor estava no auge, 41% dos brasileiros afirmavam ao Ibope em pesquisa para a CNI que sua situação financeira havia melhorado, contra apenas 11% que diziam o contrário. Em abril, a taxa de melhora caiu a 33%, e a de piora subiu para 17%. A diferença estreitou de 30 para 16 pontos percentuais. Se os números são bons, a tendência é ruim.
Tão importante quanto o volume no bolso do consumidor no presente é o otimismo quanto ao que acontecerá com sua renda no futuro. Em novembro, 47% apostavam em melhora nos próximos seis meses. Agora, os otimistas são 36%. Ultrapassam os pessimistas por 25 pontos, mas sua vantagem caiu um terço desde novembro.
A situação financeira atual e a perspectiva do que acontecerá com a renda são os dois indicadores que guardam mais forte correlação estatística com a popularidade presidencial. Suas curvas têm mais semelhança com a sorte do governante do que as da inflação, do crescimento do PIB ou do medo do desemprego.
Não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito, porém. Garantir que é a segurança financeira do consumidor que determina a aprovação do presidente é apenas uma hipótese, mas sabe-se que ambos andam de mãos dadas. Se um oscila numa direção, o outro, mais cedo ou mais tarde, acaba seguindo no mesmo caminho. Qual vai seguir qual é questão de fé.
A oposição torce para que a confiança do consumidor puxe a popularidade de Dilma para baixo, e o governo reza no sentido oposto. Seja para onde for, as duas curvas devem convergir. Vai depender de qual santo é mais forte e tem a máquina de propaganda mais azeitada.
A insatisfação com o poder de compra aumentou mais entre os consumidores do Nordeste do que do Sudeste, e mais entre os pobres do que entre os ricos. Isso sugere uma influência grande do aumento dos preços dos alimentos. Se foi o “tomate”, trata-se de um fenômeno sazonal e não contínuo. Impossível cravar, porém.
O governo conta com o otimismo de sua base eleitoral. A euforia dos consumidores nordestinos diminuiu, mas 51% ainda estão crentes de que sua situação financeira vai continuar melhorando. Os pobres perderam menos a esperança de ver sua renda aumentar no futuro próximo do que os ricos. Manter essa chama acesa é o problema de Dilma.
Enquanto isso, Aécio Neves (PSDB-MG) assopra um balão de ensaio. O presidenciável tucano cogita propor o fim da reeleição. Brinca com fogo.
Foi o PSDB que inventou a reeleição, quando o partido ainda sonhava permanecer 20 anos no poder. Acabar com ela agora que o sonho virou pesadelo, e já a partir 2014 (o que daria anos extra de mandato para os políticos sem consentimento do eleitor), é tão casuístico quanto mudar as regras eleitorais para deixar Marina Silva sem tempo de propaganda na TV. Incoerência queima.
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Tratada como remendo eleitoral, a reforma da política está se encaminhando para, na melhor das hipóteses, acabar num fetiche gregoriano: uma mexida de calendário para valer daqui a 10 anos. No pior cenário, a maior interessada, a sociedade, perderia o direito de saber quem financia quem no jogo político-eleitoral.
Depois de muitas reuniões inconsequentes, os líderes partidários concordaram que são incapazes de chegar a acordo sobre a pretensa reforma política. O impasse vai ser decidido no voto na próxima semana – se os nanicos deixarem. Caso os PRs e PSCs da Câmara permitam, os deputados devem votar um par de emendas à Constituição e um ou dois projetos de lei sobre o tema.
Presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) escreveu em seu Twitter que “coincidência de eleições municipais e federais no mesmo ano foi o ponto de maior consenso entre os líderes”. Por “maior consenso”, entenda-se menor dissenso.
Nem todos acham boa ideia dar seis anos – e não quatro – de mandato aos prefeitos que vierem a ser eleitos em 2016. Mas é o jeito para que todas as eleições passem a coincidir a partir do longínquo ano de 2022 sem que haja prefeitos-tampão ou, ainda pior, prorrogações de mandato sem consulta ao eleitor.
Sempre à frente de seu tempo, nossos representantes também divergem sobre a conveniência de incluir na mesma urna até oito votações diferentes: vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, dois senadores, governador e presidente. Tantas digitações requereriam aulas de piano para o eleitor.
Há quem proponha que a coincidência de eleições se limite ao ano. As votações ocorreriam em datas distintas: para presidente, senadores e deputados federais em – digamos – setembro, e para vereadores, prefeitos, deputados estaduais e governadores um mês depois. Brilhante e econômica solução.
Não importa que os custos sejam dobrados, ou que o segundo turno de uma eleição coincida com o primeiro turno da seguinte. Com quatro meses perdidos entre propaganda eleitoral, duas eleições e dois segundos turnos, daria para emendar todo o processo eleitoral com Natal, Copa do Mundo, Semana Santa, Carnaval e decretar um ano facultativo. Faria pouca diferença no Congresso.
Outra das emendas é daquelas inutilidades pomposas que os parlamentares se esmeram em aperfeiçoar: para não mais atrapalhar suas viagens de Réveillon, querem adiar a posse de prefeitos para 5 de janeiro, de governadores para 5 dias depois, e de presidente para o dia 15. A não coincidência de datas é para poderem ir às cerimônias e festas uns dos outros, é claro.
Depois que essas mudanças constitucionais de primordial importância forem votadas, os deputados finalmente poderão se dedicar ao que mais lhes preocupa: o dinheiro – ou como farão para financiar suas campanhas. O debate é se usarão mais do seu, do meu, do nosso, e se doações de empresas e pessoas continuarão sendo de conhecimento público ou se serão camufladas.
Ironicamente chamada de “financiamento público exclusivo”, a proposta petista que deve ir à votação prevê que todas as campanhas eleitorais sejam bancadas por um fundo único. Esse fundo receberia dinheiro do Tesouro Nacional e – a despeito do nome – de empresas e pessoas. O dinheiro seria dividido entre os partidos na proporção dos votos recebidos na eleição anterior. É o chamado fundo perdido.
O brilhantismo da proposta é acertar duas conveniências com uma penada só. Ao privilegiar três de cada quatro reais às campanhas de quem já manda, assegura-se grande vantagem aos incumbentes. Ao misturar tudo em um fundo só, ocultam-se as doações de empreiteiras, bancos e quem quer que seja aos candidatos.
Os partidos que têm as maiores bancadas parlamentares teriam também os maiores repartes financeiros, perpetuando-se no poder. Por mero acaso, o PT tem o maior número de deputados federais. Com as novas prefeituras ganhas em 2012, mais petistas devem eleger-se para a Câmara e Assembleias em 2014, o pleito que serviria de referência para o novo sistema. Muito conveniente.
Se sobrar tempo, os deputados devem votar uma proposta que – essa sim – poderia eliminar boa parte dos vícios que consomem o sistema partidário brasileiro: o fim das coligações nas eleições de deputados e vereadores. Sem esse artifício, partidos nanicos e partidos fisiológicos perderiam sua carona para o poder.
É coligando-se a outras siglas que os nano partidos garantem suas vagas na Câmara. Sem os votos dos coligados, o PSC elegeria 7 em vez de 16 deputados federais – e não teria peso para fazer o pastor Marco Feliciano tornar-se presidente da Comissão de Direitos Humanos. Mas, na lógica dos deputados, isso é menos importante do que dar um tapa no calendário eleitoral.
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O valor do minuto de propaganda eleitoral disparou na semana passada – e é sua cotação que vai determinar o destino dos candidatos a presidente daqui para frente. A oscilação afetou diretamente as chances de Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). Como? Em tempo. Antes, um passo atrás para olhar o contexto desse sobe-e-desce de preços.
Com o aumento do ruído de fundo e das tentações eletrônicas, a atenção do público perde-se à deriva. O cidadão é mais disperso e menos atento na razão da densidade de suas conexões. Quanto mais envolvido pelos quintiliões de bits e bytes que o novo mundo digital produz diariamente, mais difícil é para cortar pelo cipoal de dados e encontrar significado e rumo através da selva de textos, telas e fragmentos de informação.
Essa tendência está mudando as campanhas eleitorais. O tempo pelo qual o eleitor é capaz de se concentrar no tema da eleição e decidir seu voto é progressivamente mais curto. A cada pleito, o período decisório dos sem-candidato – quando o eleitor menos interessado informa-se para definir em quem votará – é tanto mais breve quanto mais próximo do dia de ele ir à urna.
Pudera ser quase impossível encontrar candidato que sobreviva à reta final da campanha eleitoral sem um estoque mínimo de tempo para propaganda de TV. E a nota de corte sobe a cada eleição: mais e mais minutos são necessários para o candidato superar intenções de voto liliputianas e assomar acima dos nanicos.
Nesse cenário, levam vantagem candidatos que têm um eleitorado cativo e se beneficiam da inércia do voto. Não basta ser muito conhecido, porém. É preciso ter marca forte e rejeição desproporcional ao grau de conhecimento, ou o candidato cai no paradoxo serrano: quanto mais aparece, menos eleitores têm. A rejeição alta – como a falta de tempo de TV – é eliminatória.
Mesmo os candidatos conhecidos batalham por mais tempo de propaganda. Se não para eles próprios aparecerem, para impedir que os adversários apareçam. Essa é a batalha em curso, e que antecipa a sucessão de 2014. Quem já tem muito tempo, como a presidente, tenta amarrar as alianças para não deixar preciosos minutos escaparem para a oposição. Quem não tem corre atrás.
Dilma é assombrada pela inflação também de aliados. Por proteção, a presidente fez um caxangá ministerial na quinta-feira: tirou Brizola Neto (PDT) do Trabalho, pôs um mineiro na Agricultura e deixou o peemedebista Moreira Franco ficar, mas num posto menos decorativo. Tudo para reforçar a aliança com o PMDB e tentar resgatar os fugidios e divididos pedetistas.
O equilibrismo presidencial amarrou os dois minutos e meio do PMDB, deu um laço nos 45 segundos do PDT mas deixou escapar o minuto e quarenta do PSD de Gilberto Kassab. O ex-prefeito percebeu que a cotação do tempo de TV está em alta e comprou uma opção de venda futura quando, aposta, o apoio de seu partido valerá mais do que o microministério oferecido por Dilma.
A manobra especulativa não foi só de Kassab. O PPS tenta reverter sua decadência eleitoral fundindo-se ao nanico PMN. Mesmo juntos, os dois partidos têm poucos segundos a oferecer em tempo de TV a um presidenciável. Mas a criação da nova sigla abre a Caixa de Pandora da fidelidade partidária: deputados de outros partidos podem aderir sem perder o mandato – foi a jurisprudência criada pelo TSE ao julgar o caso do PSD.
O PPS+PMN aposta que atrairá deputados de outras siglas se a nova legenda estiver aliada ao PSB de Eduardo Campos em 2014. Acha que atenderá uma demanda reprimida na Câmara. O movimento ajudaria o governador de Pernambuco a alcançar o mínimo de 12% do tempo de TV (98% dos candidatos a prefeito que não atingiram esse patamar não se elegeram nem chegaram ao 2º turno em 2012).
Quem mais tem a perder com a fusão é Aécio Neves. O tucano não apenas perderia os segundos de TV do PPS, como veria a candidatura oposicionista de um rival ganhar viabilidade eleitoral. Potenciais aliados, como PTB e DEM, poderiam se sentir tentados a embarcar na canoa reforçada de Campos. Pior, tucanos dissidentes poderiam pular fora do barco de Aécio.
“Mineiro” à la Getúlio Vargas, o ex-governador de Minas gostaria de esperar em cima do umbuzeiro até a undécima hora – e só saltar para a campanha presidencial quando as condições lhe fossem ideais. Mas tem tucano serrando o tronco do umbuzeiro.
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“Queridos e queridas” é o novo “companheiros e companheiras”. Dilma Rousseff voltou a soar seu bordão ao conjurar eleitores na sexta-feira à noite, no seu pronunciamento em rede de rádio e TV. “Meus queridos brasileiros e, muito especialmente, minhas queridas brasileiras” – começou a presidente, antes de anunciar a desoneração da cesta básica, no Dia Internacional da Mulher. Não foi por acaso.
“Queridos e queridas” são a chave para identificar quando Dilma está em campanha. Ao contrário de Lula, que conclamava os “companheiros” em qualquer discurso, ela faz uso seletivo do bordão. Parece até que a evocação depende de quem escreve o texto, se o “ghost-writer” palaciano ou o marqueteiro da reeleição. Mas importa menos o “quem” do que o “quando”.
Em quase 400 manifestações públicas desde que tomou posse da Presidência, Dilma fez uso de “queridos” (no plural) em apenas 58 ocasiões. A referência a “queridas” foi duas vezes mais rara: só em 31 vezes. Juntos, “queridos” e “queridas” só saíram da boca de Dilma em 6% de suas falas. Foram poucas e boas, porém.
Os pronunciamentos presidenciais em rede de TV, quando a audiência é potencialmente de dezenas de milhões de pessoas, começam invariavelmente por “Queridas e queridos”. Foram cinco vezes em 2011, quatro em 2012 e duas até agora em 2013. Dilma tem usado efemérides para monopolizar a TV: Natal, Dia do Trabalho, Sete de Setembro. Vale observar se a regra se repetirá até 2014, ou se o calendário eleitoral se imporá ao cronológico.
Na sexta, as brasileiras foram “queridas” duas vezes, e as mães, uma. Foi uma rara – senão única – demonstração de afetividade. Dilma costuma ser econômica nos adjetivos que dirige ao público. Fala uma vez “queridos e queridas” na abertura – ou quando se dirige diretamente à audiência – e basta. A repetição adjetiva de sexta-feira sugere um esforço extra para criar empatia.
O bordão é pouco espontâneo, mas maleável. Pode ser adaptado ao alvo, como em “queridas prefeitas e queridos prefeitos”, usado por Dilma durante seu encontro com os novos chefes do Executivo municipal – e potenciais cabos-eleitorais – em janeiro passado. Pode virar “queridos formandos” (formatura do Instituto Rio Branco), ou “queridos mineiros” (entrega do Mineirão).
Mas “queridos brasileiros” Dilma usa apenas nos pronunciamentos em rede de TV e rádio – ou em ocasiões solenes, como durante seu discurso de posse no Congresso Nacional.
O “querido” perde a solenidade, porém, se é dirigido a repórteres. Quando a presidente ouve uma pergunta de que não gosta, o interlocutor logo descobre porque a resposta vem precedida de um enfático e irônico “Meu querido,…”. Como, por exemplo, em “Meu querido, não respondo a essa pergunta”, ou em “Meu querido, eu não vou ficar me atendo à pauta do adversário”.
Poucas palavras revelam mais o estado de espírito presidencial do que “querido” – seja pela pronúncia ou pela omissão.
Em 2011, Eduardo Campos ouviu vários “querido”, ditos em público pela presidente durante cerimônias em Brasília e no Nordeste. Em 2012 e 2013, nenhum (mesmo quando sua mulher, Renata, foi saudada com um “querida” por Dilma em dezembro, no Ceará). Ao contrário, desde o ano passado que os repasses federais para Pernambuco, o estado governado por Campos, diminuíram a patamares não de “querido”, mas de oposicionista.
Levantamento feito pelos repórteres Julia Duailibi e Bruno Boghossian, do Estado, mostra que a proporção de repasses voluntários da União a Pernambuco caíram quase pela metade entre o primeiro e o segundo anos do governo Dilma – indo na direção oposta do que ocorreu no governo Lula, quando só cresceram.
Não terá sido coincidência a escassez tanto de investimentos quanto de “queridos” no relacionamento de Dilma com Campos desde que o governador se tornou presidenciável. Daqui até 2014, “queridos” devem sair cada vez com mais frequência da boca de Dilma. Se forem incluídos nas referências ao governador pernambucano, será sinal de que o PSB e seu presidente decidiram adiar para 2018 o projeto de concorrer à Presidência.
“Queridos” e “palhaços”
Antes “querido” do que “palhaço”. Quando mandou um repórter “chafurdar” no lixo e chamou-o de “palhaço”, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, demonstrou o seu equilíbrio. Ao não pedir desculpas de viva voz e usar o texto de um subalterno para tentar se redimir, o ministro provou o seu caráter.
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Lula montou o ringue de 2014, escolheu os adversários e deu ordem de combate. No “corner” vermelho, com a maioria absoluta do tempo de propaganda na TV, Dilma Rousseff (PT); com luvas azuis e amarelas e nove minutos a menos do que a rival, Aécio Neves (PSDB). À diferença do boxe, nesta eleição presidencial todos os segundos ficam dentro do ringue: Lula e o cronômetro, no canto de Dilma; FHC, no de Aécio. Quem ganha mais?
Do jeito que está armada, a briga é desigual. Com as alianças partidárias em vigor, triplicará a vantagem de propaganda da petista em comparação ao candidato do PSDB. Nas contas sempre precisas do jornalista Daniel Bramatti, Dilma teria 12 minutos e 51 segundos por bloco de 25 minutos de propaganda eleitoral, contra apenas 3 minutos e 45 segundos de Aécio. Isto é: 3 minutos e 25 segundos da petista para cada minuto do tucano.
Para se ter uma ideia do que isso significa, em 2010 José Serra (PSDB), com 69% do tempo de TV de Dilma, recebeu o equivalente a 70% dos votos da petista no primeiro turno. No cenário atual, Aécio teria 49% menos tempo do que Serra teve na TV, e Dilma, 21% a mais do tempo que desfrutou quando foi eleita presidente. Faça as contas.
A menos que, como na luta livre, outros entrem no ringue junto ao tucano e contra a petista, é alta a chance de nocaute no primeiro turno. As entradas de Marina Silva (sem partido), pelo canto verde amarelado, e de Eduardo Campos (PSB), pelo vermelho desbotado, não dão nenhum segundo a mais de TV para Aécio, mas obrigariam a defensora do título a batalhar em mais de uma frente. Cresce a chance de levar a decisão para o segundo turno.
Mais do que qual ex-presidente está no “corner” de quem, importam para os presidenciáveis quais partidos vão ajudá-los a somar os minutos de que tanto precisam para aparecer na TV e no rádio, se tornarem conhecidos e terem alguma chance de convencer o eleitor de que são a melhor escolha na hora de votar em 2014.
Por ora, eis o que Dilma tem no seu cronômetro, além dos 2 minutos e 49 segundos do PT: 2’26″ do PMDB, 1’19″ do PP, 1’10″ do PR, 44″ do PDT, 38″ do PTB, 27″ do PC do B e do PSC, 15″ do PRB, o tempo de nanicos e, novidade da próxima eleição, o 1’39″ do PSD. Tudo isso somado aos cerca de 50 segundos a que todo presidenciável deverá ter direito e ela chega a 12’51″ de 25′. É um arco de tempos e forças bem mais poderoso do que o de 2010.
Enquanto isso, Aécio conta com os 1’43″ do PSDB, os 46″ do DEM, os 15″ do PPS e se tiver, digamos, sorte, com os segundos de alguns nanicos. Não chega a quatro minutos. É insuficiente, mas é melhor do que a situação das “costelas do projeto petista”, como o tucano chamou as candidaturas de Marina e Eduardo Campos.
Se tiver só o PSB a apoiá-lo, o governador de Pernambuco apareceria por apenas 1 minuto e 54 segundos a cada bloco de propaganda na TV. E Marina Silva, mesmo que atraia toda a bancada do PV para a sua rede, não passaria de 1’11″ – ou 11 segundos a menos do que apareceu na campanha de 2010. Campos e Marina estariam à mercê das circunstâncias.
Por causa dessa divisão de tempo inviável para a oposição, os primeiros rounds da luta presidencial serão necessariamente pela busca de alianças partidárias que desarrumem o “corner” de incumbente. Não foi à toa que Lula correu para assegurar ao PMDB seu lugar na chapa como vice de Dilma e garantir seus quase dois minutos e meio para a pupila.
Pela quantidade de segundos que têm a barganhar, PSD, PP e PR devem ser os próximos a serem cortejados, tanto por petistas quanto por tucanos. Por essa lógica, aumenta a probabilidade de cargos no governo e verbas choverem nas hortas das três siglas. Mas não só para eles: PDT, PTB e PC do B devem criar dificuldades para vender facilidades ao governo – qualquer governo. Nesse jogo, Marina tem menos a oferecer.
As siglas que não quiserem ou não puderem se coligar a um nome da oposição, sempre podem ameaçar lançar candidatura própria. Quanto mais candidatos a presidente, menor o tempo de TV de Dilma e melhor para quem quer derrotá-la.
Na hipótese analisada neste texto, PSOL, PSTU, PCO, PCB, PSDC e PRTB também lançariam candidatos – além da atual presidente, de Aécio, Campos e Marina. Para cada novo partido que tiver candidatura própria, saem cerca de 50 segundos do bolo que é dividido entre os partidos com representação na Câmara e cujos apoios viram tempo de TV. Não é muito, mas cada segundo conta.
O tempo de TV não é tudo numa eleição. Se a confiança do eleitor-consumidor desabar, não há propaganda que seja capaz de convencê-lo a votar no candidato da situação. Ele vai querer mudar e escolherá alguém da oposição. Mas, mantidas as atuais condições de temperatura e pressão, Dilma sai favorita e com um tempo de TV capaz de ajudá-la a se reeleger no primeiro turno. Cabe à oposição mudar isso e dar alguma emoção à disputa.
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Após as eleições dos novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado e o noticiário associado a elas, o desinteresse recorde pela política partidária detectado pelo Ibope no fim do ano passado deve ter repicado. Quando política e polícia se confundem, só ganha a desilusão. Bom para os políticos.
Quanto menos interessado o público, maior a liberdade de ação dos profissionais da política. Reações esparsas como as manifestações durante a posse do senador Renan Calheiros ou manifestos virtuais não mudam a opinião pública. Isso acontece apenas quando a ação política alcança seu objetivo. Os cara-pintadas só viraram história porque Fernando Collor caiu.
Por mais méritos que eventualmente tivesse a causa, quem vai lembrar do “Cansei” daqui a 20 anos? Um nome de movimento raramente foi tão apropriado, por metafórico e auto-realizável.
Se os cidadãos estão mais “cansados” do que “indignados”, ganham os operadores da política, os partidos e seus consorciados. O político indeterminado, aquela figura genérica e caricatural que simboliza o que está de errado com o sistema, se beneficia da desilusão da maioria. Medra na sensação de impotência, na impressão de que não há jeito.
Por isso é compreensível que nenhum presidente do Congresso tenha feito algo para tentar mudar a imagem cada vez pior do Legislativo. Ou que os partidos políticos nem se preocupem em salvar a cara da política partidária. O desgaste das instituições que comandam não os afeta. Talvez os ajude.
Continuam valendo, porém, todos os lugares-comuns sobre o tema. A política ainda é importante demais para ser deixada apenas nas mãos dos políticos – e quem diz não gostar dela permanecerá para sempre condenado a ser governado pelos que gostam. Que fazer?
Como a democracia no Brasil ainda está associada principalmente às eleições, qualquer tentativa de reverter a tendência de alienação e reaproximar o público da política tem que passar pelas urnas. Embora as campanhas eleitorais sejam cada vez mais curtas e despolitizadas, elas ainda são o único momento de mobilização de massa com data fixa no calendário.
O primeiro movimento para salvar a política das mãos de seus operadores, portanto, tem que estar colado ao ato de votar. Por mais contraditório que pareça, transformando-o em uma ação voluntária. Afinal, antes de ser dever, o voto é um direito.
O filósofo Renato Janine Ribeiro observou, no livro “Política: para não ser idiota”, que o voto obrigatório cria um mercado cativo para os políticos. Não importa o que eles aprontem, terão sempre a garantia de que a quase totalidade do eleitorado estará lá, digitando sues números e referendando seus nomes. Não precisam defender a política nem convencer ninguém para se legitimarem.
Se o voto fosse voluntário, a decisão do eleitor seria precedida por uma nova reflexão: vale a pena votar? Há algum candidato que mereça o meu esforço de sair de casa e ir à seção de votação?
Nas palavras de Janine Ribeiro: “Se eles tiverem que convencer o povo de que votar é importante, terão de militar em favor da política, e não só da política deles. Terão de mostrar que a política significa alguma coisa. Hoje, quem faz essa campanha é a Justiça Eleitoral. Deveriam ser os partidos, os candidatos.”
“Eles”, no caso, são o político indeterminado.
É difícil prever quais partidos se beneficiariam ou se prejudicariam com o fim da obrigatoriedade do voto. Tanto é assim que são raros os políticos brasileiros que concordam com a ideia. Na dúvida, calculam, melhor defender o status quo – afinal, em time que está ganhando não se mexe. Mas o voto obrigatório é uma jabuticaba que azeda nosso sistema eleitoral.
As duas últimas vitórias do Partido Democrata nas eleições presidenciais nos EUA se deveram, principalmente, ao sucesso do seu esforço de mobilização para levar os eleitores às urnas. Isso implicou muito mais do que fazer propaganda na TV. Foi preciso mobilizar milhares de militantes e desenvolver argumentos convincentes. Tudo isso favorece a politização da campanha – exatamente o contrário do que tem ocorrido no Brasil.
Como o fim da obrigatoriedade do voto escapa ao cálculo político e avança no campo da incerteza, é improvável que tal ideia entre espontaneamente em debate no Congresso. O voto não-obrigatório só tem chance de prosperar se vier de fora para dentro do mundo partidário. Seria um avanço e uma provocação. Afinal, nada incomoda mais o político indeterminado do que perder o controle.
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Na batalha por corações e mentes, o PT perdeu a ponta da pirâmide econômica e o PSDB está cada vez mais dependente dela. Essa reviravolta numa parte pequena mas influente da sociedade brasileira ajuda a espalhar fagulhas entre os dois partidos.
Pela primeira vez, há mais brasileiros com renda superior a 10 salários mínimos que se dizem tucanos do que petistas: 23% a 13%, segundo o Ibope. Não é nada trivial. Parece ter chegado ao fim uma supremacia de 15 anos do PT no segmento onde se concentram, por exemplo, leitores de jornais e revistas.
A virada começou no auge da simpatia pelo PT, quando o então presidente Lula batia recordes de aprovação e a economia crescia num ritmo mais chinês que europeu.
Em março de 2010, o PT atingiu seu pico de popularidade. Um em cada três brasileiros declarava simpatia pelo partido. Mas entre os eleitores mais ricos o petismo estava decadente havia anos. Desde junho de 2001, quando 35% do topo da pirâmide se dissera simpatizante, o PT vinha com viés de baixa nesse estrato.
O movimento custou a ser percebido porque o sobe-desce dos índices mascarava as tendências de longo prazo. Ao mesmo tempo, a perda dos eleitores com renda mais alta era compensada pelo crescimento do PT na base da pirâmide.
Quando Dilma Rousseff assumiu sua candidatura à Presidência, no começo de 2010, a penetração petista na elite econômica já estava reduzida a 22%. Ao fim da campanha eleitoral, sete meses depois, a taxa havia caído para 16%. Hoje é de 13%. Apesar disso, a perda de simpatia do PT nada tem a ver com Dilma.
O declínio nessa ponta vem dos câmbios da direção partidária que desembocaram, em 2005, no escândalo do mensalão. O desgaste é cumulativo. A cada disputa eleitoral os adversários tiram a casca da ferida e o PT sangra novamente. Foi assim em 2010 e em 2012 – com a ajuda do julgamento do mensalão pelo STF.
Os ex-petistas do topo da pirâmide se espalharam. Muitos se desencantaram com a política e viraram sem-partido, outros migraram para pequenas legendas e alguns até tucanaram.
Só desde 2010 o PSDB cresce entre quem tem renda superior a 10 salários mínimos – e apenas entre eles. Em menos de 3 anos, a preferência tucana pulou de 7% para 23% nessa elite, que passou a ter um peso muito maior entre os simpatizantes do partido. Ou seja, o PSDB percorreu o caminho do PT no sentido oposto.
Em 2004, o professor da Universidade de Minnesota David Samuels escrevia que os petistas eram diferentes dos outros brasileiros: “São mais instruídos e politicamente conscientes do que a média. (…) acreditam que a participação do indivíduo na política pode fazer diferença”. Se houve tal diferenciação, ela se diluiu.
O petismo perdeu influência justamente nas camadas citadas por Samuels. Ao mesmo tempo, absorveu lulistas – eleitores pragmáticos, cativados pela inclusão social via consumo. O resultado é que o petismo mudou. Com uma base menos rica, mais nordestina e, principalmente, mais numerosa, colecionou vitórias nas urnas. Mas depende cada vez mais do vaivém da economia.
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O anunciado conflito de titãs entre os poderes Legislativo e Judiciário acabou em “tender”. O recesso natalino prevaleceu sobre a beligerância de gabinete. A crise produzida pelo excesso de holofotes se apagou junto com eles.
A troca de presentes verbais entre os presidentes do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional pode ressurgir em 2013, mas, como previu Joaquim Barbosa, será fugaz. Marco Maia já terá voltado ao baixo clero da Câmara quando o STF se reunir para decretar ou não a prisão de deputados mensaleiros.
Antes de estimular qualquer coisa que se assemelhe a uma crise institucional, magistrados e parlamentares deveriam atentar ao grau de confiança da população nas instituições do país, medido por pesquisa do Ibope.
Mesmo após meses de superexposição elogiosa, o Supremo alcançou 54 pontos num máximo de 100. É melhor do que os 35 pontos que o Congresso marca sempre que a pesquisa é feita, mas não dá para comemorar. Toda vez que Judiciário e Legislativo brigam, ganha o Executivo.
Pesquisa sobre os termos mais pesquisados no Google mostra que o interesse pelo STF já foi maior – o auge foi quando o tribunal julgou o uso de células-tronco. Mesmo Joaquim Barbosa desperta menos curiosidade.
Políticos, juízes e aprendizes de feiticeiro têm a aprender com os bombeiros, a instituição mais confiável aos olhos da população. Sua especialidade é apagar e não fomentar fogueiras vaidosas.
Soltando a corda
Curiosa a entrevista de Eduardo Campos a Luiz Maklouf, em Época. O governador de Pernambuco parece ter tomado a iniciativa de afrouxar a corda. Reiterou apoio a Dilma em 2014 e disse que só será candidato a presidente quando disser que é. Ao pregar distensão, o herdeiro de Miguel Arraes enfatiza uma suposta crise que rondaria 2013 como as neovivandeiras rondam o STF.
Por superstição, rivalidade ou prudência, 13 não é o número de Eduardo Campos. 14 talvez seja. Mas 18 inspira melhor sorte.
Puxando a corda
Mais curiosa a não-entrevista de José Dirceu a Mônica Bergamo, na Folha. Enquanto faz planos de trabalhar na cadeia para abater a pena, o chefe petista conta que sugeriu a Lula e ao PT organizarem manifestação em fevereiro, “colocando 200 mil pessoas na rua”. Quer dar “demonstração de força”. É Dirceu esticando a corda que Eduardo Campos ensaiou relaxar. Seus conselhos são de quem tem pouco a perder porque já perdeu o que tinha.
A corda política no Brasil tem pouca elasticidade. Sempre que puxada com força, rompeu – obviamente, do lado mais fraco.
Blitz tucana
O desafio de Aécio Neves em 2013 não será zelar pela implementação da nova e mais rigorosa Lei Seca. De volta ao Brasil, proxies de José Serra querem o nome dele em pesquisas estimuladas de intenção de voto para presidente. De certo gostariam de comparar os desempenhos de Serra e de Aécio. É o PSDB a caminho de confundir “recall” e popularidade. De novo.
A lição de Kassab
O anunciado aumento da gasolina é o melhor presente de Natal que Dilma Rousseff poderá dar a Fernando Haddad. O que ela perder em popularidade o prefeito eleito tem chances de achar. Combustível mais caro, menos carros circulando. Nas metrópoles, a redução de veículos nas ruas tem impacto logarítmico nos engarrafamentos. É o tipo de desafogo que se vê quando o ano escolar acaba e pais deixam de conduzir filhos pra lá e pra cá.
Gilberto Kassab foi uma vítima silenciosa da isenção de IPI e da facilidade de financiamento de automóveis, acelerados nos governos Lula e Dilma. A quantidade de carros novos em circulação bastou para São Paulo quase parar sob sua vigília.
Contra o prefeito pesa, afora a mudez, a falta de fiscalização dos veículos sem licenciamento, cuja retirada de circulação poderia compensar o emplacamento da nova frota financiada.
O “Controlar” é, segundo o Ibope, o programa mais impopular da Prefeitura – não apenas por obrigar o paulistano a colocar a mão no bolso. A desaprovação vem da inocuidade. Vem de sair da inspeção veicular e ficar parado atrás de um carro sem selo, sem pára-choque e, acima de tudo, sem medo de ser guinchado.
Kassab não comprou briga com os carros indocumentados, como não compraram todos os governantes que temem perder popularidade entre seus motoristas. Fecha o mandato no vermelho da opinião pública, mais malvisto do que Paulo Maluf e Marta Suplicy. Não quis acelerar por medo da curva, parou no congestionamento.
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O dinheiro está trocando de mãos como raramente ocorreu. No Brasil e no exterior, o rentismo deixou de ser uma opção para multiplicar o patrimônio. Ao contrário, nos países desenvolvidos a remuneração do capital financeiro é negativa. Quem vive de renda fica mais pobre. O jeito de fazer o dinheiro dar cria é investir em novos e velhos negócios, ou seja, arriscar.
O risco é a justificativa moral do capitalismo quando acelera a redistribuição do patrimônio. Alguns novos negócios vão dar certo, mas muitos vão dar errado. E o dinheiro vai trocar de mãos ainda mais rapidamente. Tudo isso provoca desconforto. Rompe estruturas seculares, desconstrói estilos de vida, revoluciona a sedimentação social.
Com juro baixo ou negativo, é mais fácil ter dívida do que patrimônio. No Brasil, esse rearranjo provoca dores de parto e reações proporcionais às perdas. O impacto varia de setor a setor. Empresas voltadas para o mercado de consumo interno estão geralmente melhor do que as dependentes da economia chinesa, que por sua vez estão melhor do que concessionárias de serviços públicos ou aquelas reguladas diretamente pelo governo.
O intervencionismo pontual do estado faz aumentar desigualdades. Beneficiários e prejudicados não são produzidos apenas pela aleatoriedade do mercado, mas pela caneta da burocracia. A grita aumenta não só por reação às injustiças, mas por ficar claro aos atores econômicos que quem não chora não mama.
No meio desse vendaval, alguns setores têm dose extra de drama. Estão sendo batidos pela revolução digital e experimentam a rápida agonia de suas fontes tradicionais de faturamento. Para esses setores, à perda das receitas financeiras soma-se o risco de perda do próprio negócio.
Por isso as percepções são muito díspares e dois observadores podem ter compreensões muito distintas do mesmo fenômeno. Depende de onde estão situados, do seu ângulo de visão do problema. Todo observador tem seu viés. O desafio é estar ciente dele e tentar compensá-lo reconhecendo outros pontos de vista.
Em novembro, o índice de confiança do consumidor alcançou seu patamar mais alto nos dois anos de governo Dilma Rousseff. Os confiantes acham que sua renda aumentou e vai continuar aumentando, não temem perder o emprego e planejam consumir mais. Estreitamente correlacionada ao INEC da CNI/Ibope, a popularidade da presidente também bateu recorde em dezembro.
Os 78% de aprovação presidencial são difíceis de compreender pelos 17% que desaprovam seu governo. Eles estão concentrados no Sul/Sudeste, nas periferias das metrópoles e entre quem tem diploma de faculdade mas renda proporcionalmente mais baixa. As diferenças são pequenas porém, tornando difícil isolar um fator que explique a desaprovação.
Os consumidores confiantes não estão sozinhos no seu otimismo. Os empresários do setor de serviços também estão mais confiantes do que nos meses anteriores, segundo a FGV. Entre eles, não por coincidência, destacam-se os prestadores de serviços para as famílias. Servidores e servidos têm a mesma percepção.
Entre os empresários da indústria, a confiança cresceu pouco no mês passado, segundo a CNI. O índice continua abaixo da sua média histórica. Entre os industriais, as diferenças de percepção são grandes. A confiança é 13 pontos maior no setor farmacêutico do que no de manutenção e reparação. É 10 pontos mais alta na indústria de limpeza do que na de extração mineral.
Quando há reacomodação traumática do dinheiro, a política é um canal de desafogo. Perdedores vão tentar cavar compensações com o governo ou se entrincheirar junto à oposição. As tensões aumentam, a corda estica. Posições se radicalizam e adversários se distanciam. Nesse cenário, as visões se estreitam e é mais difícil encontrar um campo comum. Diminuem os consensos e aumentam os conflitos. É o cenário para 2014.
“Unbrazilian”
“They are quite ‘unbrazilian’, very difficult to break!” A repórter da TV inglesa buscava uma explicação para a derrota do milionário Chelsea para um “pouco brasileiro” e “difícil de quebrar” Corinthians, na final do mundial de clubes. O time corredor, disciplinado e sem malabarismos não encaixa no estereótipo do futebol brasileiro de exportação.
O Corinthians chegou ao Japão graças à melhor campanha defensiva da história da Libertadores. Sem um Neymar, seu astro foi o goleiro. Nem por isso o time é menos brasileiro. No meio dos 20 mil torcedores corintianos em Yokohama, a faixa “the favela is here” (a favela está aqui) mostrava que o Brasil não cabe em um lugar-comum apenas.
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Tags: CNI, consumo, ibope, opinião pública, pesquisa
A popularidade de Dilma Rousseff continua em alta em todos os segmentos socioeconômicos e regiões do país. A avaliação positiva da presidente e a boa expectativa quanto aos seus próximos dois anos de mandato superam em 55 pontos as opiniões e prognósticos negativos. Em nenhum extrato da sociedade – seja de renda, idade, escolaridade ou regional – a reprovação supera 10 pontos.
O pior desempenho da presidente continua sendo na saúde, cobrança de impostos e segurança. Na ponta oposta, combate à pobreza, ao desemprego e preservação do meio ambiente são os pontos mais positivos na percepção popular. Embora saúde e educação sempre apareçam como as prioridades politicamente corretas nas sondagens à população, é o bolso que decide.
A repetição dos resultados favoráveis a Dilma na pesquisa Ibope/CNI confirma, de novo, a forte correlação entre confiança do consumidor e popularidade presidencial. As duas andam de mãos dadas: sobem e descem juntas pelas vias da opinião pública.
O consumidor, também consultado em pesquisa Ibope/CNI, segue confiante que não vai perder o emprego, que sua renda melhorou nos últimos meses e tende a melhorar ainda mais. Essa combinação está no centro da popularidade de Dilma e supera até o noticiário negativo sobre o baixo crescimento da economia.
Em paralelo, mas com menos peso, as demissões sumárias de servidores públicos pegos com a boca na botija ajudam a fixar em Dilma a imagem de quem não compactua com malfeitos. Importa menos a verdade do que a verossimilhança. Assim, quando a presidente demite Rosemary Noronha – apesar de todas as insinuações de que a funcionária é próxima de Lula -, Dilma aparece bem na foto a despeito do cenário de horrores ao fundo.
A pesquisa só não pegou eventuais efeitos do noticiário sobre as denúncias de Marcos Valério contra Lula, pois as pessoas foram entrevistadas antes de o caso vir a público. Essa situação é nova. Dilma não pode se distanciar do denunciado porque pareceria traição. Fez o contrário do que costuma fazer e demonstrou solidariedade irrestrita ao padrinho.
A tática funciona enquanto as denúncias se limitarem às palavras de um condenado pela Justiça. O problema será se investigações posteriores corroborarem o que diz Marcos Valério. Mas essa é uma questão para Dilma lidar se e quando ela aparecer.
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Tags: CNI, consumo, corrupção, ibope, pesquisa, popularidade
Nem Obama nem Romney, o maior acerto da eleição norte-americana foi de Nate Silver. O blogueiro do New York Times acertou todas. Especialista em modelos estatísticos eleitorais, Silver previu corretamente todos os Estados com vitória democrata ou republicana. Acertou que Obama venceria por dois pontos de diferença no voto popular e, mais impressionante ainda, acertou na casa decimal por quanto ele ganharia na Flórida.
Nada mais justo do que citar a síntese de Silver para a vitória de Obama: “Foi ampla mas rasa”. O atual presidente ganhou em oito dos nove “campos de batalha” – os Estados que oscilam entre os partidos Republicano e Democrata a cada eleição. Foi nesses lugares que as duas campanhas mais despenderam esforço, tempo e dinheiro. Obama ganhou, mas por margens muito apertadas: meio ponto na Flórida, 2 pontos em Ohio, 3 em Virgínia.
O placar de 332 a 206 votos no colégio eleitoral é enganoso. Reflete muito mais o arcaísmo do sistema norte-americano de escolha do presidente – no qual o vencedor leva todos os delegados de cada Estado – do que uma vitória avassaladora de Obama. Os EUA estavam e continuam divididos: a costa reelegeu o presidente contra a vontade do interior. As metrópoles derrotaram as pequenas cidades e os subúrbios ricos.
Obama ganhou em todas as maiores cidades dos EUA, e por margens muito amplas: 70 pontos em Manhattan (Nova York), 58 pontos em Boston, 50 pontos em Chicago, 41 pontos em Los Angeles e surpreendentes 24 pontos em Miami. Mesmo nos Estados onde perdeu, o atual presidente foi o mais votado nas cidades principais, como Atlanta na Geórgia e Dallas no Texas. As maiores cidades onde Romney venceu foram Houston e Phoenix.
Na média, o democrata teve 40 pontos de margem nas grandes cidades e a metade disso nas cidades médias. Nas cidadezinhas que ocupam todo o miolo dos EUA, o republicano abriu vantagem de 14 pontos, quase o dobro da obtida pelo correligionário John McCain em 2008. Nos subúrbios ricos, Romney bateu Obama por dois pontos – a mesma margem pela qual o democrata havia vencido nessas áreas vizinhas às metrópoles quatro anos antes.
Esse aparente determinismo geográfico do voto reflete as diferenças sociodemográficas ao longo do território dos EUA. As metrópoles têm mais diversidade étnica e cultural do que as pequenas comunidades interioranas. Entre as minorias étnicas Obama destruiu Romney: ganhou por 87 pontos entre negros, por 47 entre asiáticos e 44 entre hispânicos.
Entre os brancos, porém, Romney conseguiu vantagem maior do que a obtida por McCain quatro anos atrás: 20 pontos mais que Obama. Ou seja: dois anos e US$ 6 bilhões depois, os EUA saem da campanha eleitoral mais divididos do que entraram.
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José Roberto de Toledo
e
Daniel Bramatti
A pesquisa espontânea do instituto Datafolha reforça a possibilidade de polarização da disputa paulistana entre o tucano José Serra e o petista Fernando Haddad.
José Serra (PSDB) lidera com 30% de intenção de voto estimulada – quando o entrevistado vê o nome dos candidatos na cartela –, mas menos de um terço desses eleitores (9%) sabe dizer espontaneamente o nome do tucano. Serra lidera nos dois critérios, mas é também um dos líderes em rejeição: 32% não votariam nele de jeito nenhum.
Fernando Haddad, do PT, multiplicou por quatro sua intenção de voto espontânea e chegou aos mesmos 4% de Celso Russomanno (PRB). Isso é metade da intenção de voto estimulada do petista. O potencial de voto de Haddad aparece nas outras respostas espontâneas dos paulistanos sobre em quem votariam se a eleição de prefeito fosse hoje: 6% em Marta Suplicy (PT), 3% “no candidato do PT” e 1% em Lula.
Para esses 10%, teoricamente, bastaria que soubessem que Haddad é o candidato do PT e de Lula para passar a declarar voto nele. Com isso, o petista chegaria a 14% na estimulada. Já Serra teria, além dos seus 9% declarados, outro 1% dos que dizem que votariam em Geraldo Alckmin (PSDB).
Celso Russomanno (PRB) aparece em segundo lugar na estimulada, com 21%. O apresentador da Record vem se tornando mais conhecido a cada rodada de pesquisa, mas só 1 em cada 5 eleitores potenciais seus sabe dizer seu nome espontaneamente.
Gabriel Chalita (PMDB), que teve alta exposição em programas de televisão recentemente, apenas oscilou na pesquisa estimulada, de 7% para 6%.
A quatro meses da eleição, só 1 em cada 5 eleitores sabe dizer espontaneamente em quem votaria, se a eleição fosse hoje, segundo o Datafolha.
Isso significa que a eleição não está na cabeça das pessoas. Nessas circunstâncias, a intenção de voto estimulada é mais um indicador de conhecimento do que um sinal de voto determinado.
Se o eleitor não parou para pensar no assunto, é mais provável que ele mude de opinião. E isso tende a acontecer a partir do início do horário eleitoral no rádio e na TV, em agosto. Haddad e Serra terão o maior tempo de propaganda na TV.
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Em tempos de Rio+20, até as emas dos jardins do Alvorada sabiam que a CPI do Cachoeira seria um palco. Que seria apenas isso, até as carpas do espelho d’água do Congresso desconfiavam. A única dúvida era sobre quem brilharia sob os holofotes. Por ora, o maior êxito não se deu na frente, mas atrás das câmeras. E não foi por falta de esforço dos atores.
Deputados e senadores gritaram, tchutchucaram, xingaram-se uns aos outros. Mas o único brilho que conseguiram foi o do suor na testa dos mais exaltados. A CPI não produziu nenhuma informação relevante, nenhum fato novo, nenhuma prova concreta. Pudera, nenhum desses critérios entra no julgamento de desempenho dos parlamentares há muitas CPIs. Só vale o jogo de cena. Aí apareceu um azarão.
De todas as apresentações na comissão até agora, a que merece o oscar de melhor ator coadjuvante é a do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz. Tido e havido por insípido e inodoro, o petista demonstrou veia artística inaudita. Falou com convicção, demonstrou estudada indignação e arrebatou o prêmio quando ofereceu a inevitável quebra de seus sigilos -coisa que seu concorrente, o governador tucano-goiano Marconi Perillo, ingenuamente recusara na véspera.
O mérito da atuação, todavia, cabe a quem dirigiu a cena. Reportagens abundantes atribuíram a performance de Agnelo à consultora Olga Curado, autora de um agora mítico método de “media training”. Sessões e sessões de preparação sobre como se comportar no palco da CPI explicariam o show do governador do DF. Se non è vero, è ben trovato – a clientela da Curado & associados vai aumentar. E seu “Porta-vozes não nascem prontos”, um manual prático de como lidar com jornalistas, é candidato a best-seller em Brasília.
Enquanto isso, não muito longe dali, no Tribunal Regional Federal da primeira região, o desembargador Tourinho Neto ensaiava mandar as únicas provas contundentes contra o esquema Cachoeira para a vala coletiva onde jazem outras operações da Polícia Federal como Castelo de Areia e Satiagraha. Em comum, além da suposta falta de embasamento jurídico, essas operações miraram grupos empresariais poderosos.
Os integrantes da CPI não gostaram de dividir a cena com os magistrados e trataram logo de “adiar” a convocação do empreiteiro Fernando Cavendish, dono da Delta, uma bem-relacionada construtora que, depois de conseguir centenas de milhões de reais em contratos de obras públicas nos últimos anos, foi inabilitada pelo governo federal, por inidônea.
Certamente a precaução demonstrada pela maioria dos parlamentares da CPI nada tem a ver com a tal “bacada do cheque” a que se referiu o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ). Tampouco invoca a prática de outra CPI, esta da Câmara Municipal de São Paulo, cujo presidente é investigado pelo Ministério Público por supostamente achacar empresas e empresários que não quisessem aparecer no relatório final da comissão. A CPI não se presta a nada disso. Resta saber se presta para algo.
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O PMDB é, ao mesmo tempo, o segundo maior partido governista e a terceira maior força da oposição na Câmara dos Deputados. Morde uma vez para cada nove assopradas, mas nunca deixa de fazê-lo. É um lembrete à presidente Dilma Rousseff de que seu apoio depende de compensações. Uma mordida do PMDB dói mais do que as muitas dentadas da oposição. Sua mandíbula tem força para virar o jogo no Congresso.
Levantamento feito pelo Estadão Dados a partir do Basômetro mostra que o partido do vice-presidente da República foi responsável por 17% dos votos a favor do governo em 102 votações nominais na Câmara. Só ficou atrás dos petistas, que deram 22% dos votos governistas.
Nessas mesmas votações, todavia, 8% dos votos contra o governo vieram de peemedebistas. E não partiram de uns poucos rebeldes: na maioria das vezes que o fizeram, os deputaddos do PMDB votaram contra o governo orientados por seu líder. Só PSDB (30%) e DEM (20%) tiveram uma fatia maior no total de votos oposicionistas. Mas os 8% peemedibistas foram oportunamente desfechados, e resultaram em mais estrago aparente.
Três mordidas do PMDB levaram Dilma a três revezes no Código Florestal. A fatura foi emitida em nome da multipartidária frente agropecuária, mas seus integrantes não são nem mais nem menos oposicionistas do que a média da Câmara. Fora essas três ocasiões, nunca mostraram os dentes em plenário. Se atacaram durante a votação do Código Florestal é porque tiveram a ajuda indispensável da cúpula do PMDB, que orientou seus deputados a votarem contra o governo.
Nem sempre, porém, as dentadas peemedebistas conseguem virar uma votação contra a maioria governista. Quando a regulamentação das tarifas aeroportuárias foi a voto, o PMDB tentou isentar empresas concessionárias de aeroportos. Perdeu, graças a uma associação inédita de petistas e tucanos, que se uniram contra a mudança.
Se a mordida do PMDB não é suficiente para impor uma derrota a Dilma, ela é uma condição absolutamente necessária. Nenhuma das votações perdidas pela presidente, na Câmara ou no Senado, ocorreu sem que a maioria dos parlamentares peemedebistas votasse contra o governo. O PMDB é o único partido capaz de mover o equilíbrio do Congresso em favor da oposição. Mas há outros ensaiando para esse papel.
Desde a “faxina” ministerial, o PR está em crise de identidade. É da base governista, mas ensaia bandear-se para a oposição. Às vezes ameaça, em outras vai às vias de fato. Dos que participam do governo, é o partido mais infiel: 1 voto contra para cada 4 votos a favor de Dilma. Mas está longe de ter o poder de coerção do PMDB. Além de porte, falta ao PR senso de oportunidade. Seus deputados tentaram impor derrotas ao governo nas votações da Lei Geral da Copa e de subsídios para estocagem de etanol. Acabaram sempre do lado perdedor.
O PSD do prefeito paulistano Gilberto Kassab também almeja virar fiel da balança. Ora vota com Dilma, ora contra ela. Mas esse vaivém não desempatou nenhuma votação. Por enquanto, só o PMDB ladra, morde e tira pedaço.
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O senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) apresentou uma defesa aritmética à Comissão de Ética que julgará a sua suposta falta de decoro. Para convencer os colegas de sua relação com o preso Carlinhos Cachoeira não era especial, Demóstenes disse que seu gabinete originou 26 mil chamadas telefônicas e ele teria recebido 100, 200, 500 mil ligações. Logo, as centenas de conversas entre o doutor e o professor -como se tratavam- eram proporcionalmente poucas. Para completar, o senador disse que queria ser julgado pelo que fez, não pelo que disse. Faz sentido.

Se, como ele diz, foram 500 mil chamadas atendidas, e cada uma demorou, em média, um minuto, Demóstenes teria passado 8.333 horas colado ao bocal do telefone. Como o senador não especificou o período em que isso ocorreu, vamos estimar que tenha sido nos últimos dois anos, o que coincide e supera o período das investigações a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, quando foram “grampeadas” as conversas dele com Cachoeira.
Por essa conta, Demóstenes teria que ter passado quase 12 horas por dia -sábados, domingos e feriados, inclusive- apenas recebendo as tais 500 mil ligações. Se assim fosse, o senador não teria tido tempo de fazer mais nada além de falar ao telefone. Logo, se seu pedido de ser julgado pelo que fez e não pelo disse for atendido, Demóstenes seria automaticamente absolvido. Não sobraria mais nada para incluir no processo.
O único problema da matemática Demosteneana é o seu confronto com a realidade. Nesse período, o senador deu centenas de entrevistas, compareceu ao plenário do Senado com assiduidade, viajou com regularidade de Brasília a Goiânia, de Brasília a Santa Catarina e a São Paulo. Deu palestras, fez lobby. Foi a Praga, a Buenos Aires, a Berlim. Almoçou, jantou, dormiu. Seria, portanto, impossível para o senador fazer tudo isso e atender 500 mil chamadas, ou mesmo 100 mil. Tampouco fazer, ele próprio, outras 26 mil ligações. É blablablá demais para uma pessoa só, mesmo um político.
As conversas de Demóstenes com Cachoeira não eram apenas muito frequentes. Sua linguagem cifrada implicava um conhecimento intimamente compartilhado dos assuntos tratados. Nunca precisavam explicar um ao outro do que estavam falando. Um papo engatava no outro com a cumplicidade típica de quem comunga interesses, conhecidos, problemas, favores, pedidos, demandas e ações. Uma associação proveitosa, enquanto durou.
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Ao mudar as regras da caderneta de poupança, a presidente Dilma Rousseff começou a gastar o que poupou em popularidade. A medida foi precedida por uma redução agressiva dos juros, o que melhorou ainda mais sua imagem junto à opinião pública. Mas como os que a antecederam descobriram, mexer na poupança é mexer em vespeiro. Além de ser uma piada pronta.
Méritos econômicos e trocadilhos à parte, a mudança evoca o trauma do confisco collorido. Tem acesso direto a uma parte do imaginário popular onde nenhum presidente se atreve a entrar já se vão 22 anos. Se a oposição sentir cheiro de sangue, pode aproveitar a ocasião para sair do armário. Mas Dilma resolveu correr o risco. Já que é para arriscar, melhor agora, quando tem popularidade para gastar.
Se for bem sucedida, será um investimento: usará as reservas de boa vontade da população para destravar a queda dos juros e empurrar a economia para um novo ciclo de crescimento -baseado no consumo popular e em investimentos do setor privado. Pode recuperar o que aplicou de sua popularidade mais à frente. Talvez com juros. Se falhar, seu cacife ficará menor. Quão menor, ninguém sabe.
A atitude de Dilma foge à regra. Presidentes relutam em usar seus cacifes para fazer mudanças cujo resultado é incerto aos olhos da opinião pública. Mas a presidente parece ter birra com o status quo. Quer mudar mesmo quando, eleitoralmente, não precisaria. É diferente dos antecessores que promoveram mudanças -ou ao menos tentaram- por necessidade.
Fernando Collor de Mello foi eleito no auge da hiperinflação da era Maílson-Sarney. Fez uma jogada que os praticantes do poker chamam de “all in”. Apostou todas as fichas no plano que, para coroar, levava seu nome. Usou a única bala que tinha na agulha. Como se sabe, o tiro saiu pela culatra.
Itamar Franco herdou o desastre e saiu por cima ao bancar o Plano Real e domar a inflação. Quem faturou o sucesso foi seu ministro da Fazenda e sucessor, Fernando Henrique Cardoso. Eleito no primeiro turno, virou sigla. FHC acumulou um cacife inédito, e gastou boa parte dele aprovando a emenda constitucional que lhe deu o direito à reeleição. Reeleito, nunca recuperou o investimento.
Lula foi eleito para mudar. Mudou, mas não como se previa. O petista aproveitou o legado da inflação controlada na era FHC e surfou a onda da expansão econômica mundial. Não mexeu na política econômica nem no jeito de fazer política. Multiplicou o Bolsa Família, alavancou o crédito popular e criou um mercado de massa. A massa de eleitores neoconsumidores o reelegeu, com Mensalão e tudo.
Dilma é o fruto politico dessa mudança econômico-social. Foi eleita para continuar, não para mudar. Mas a mexida nas regras da popuança sugere que ela não está satisfeita com mais do mesmo. É o gesto de ruptura mais drástico que tomou até agora. Faz algo que Lula não quis fazer.
Na faxina ministerial, a presidente trocou ministros mas manteve as estruturas que sustentam sua coalizão. Centralizou o controle de verbas, mas as transações permaneceram franciscanas. No corte de juros feito até agora, operou dentro de uma margem de manobra pré-estabelecida. Com as novas regras da poupança, furou essa margem. É pouco, dirá quem clama por reformas mais profundas. É um começo? A ver. Mas certamente é uma novidade.
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