José Roberto de Toledo - Estadao.com.br
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Patrocinado por

Daniel Bramatti e
José Roberto de Toledo

Especial para o Estado

O desastre nuclear no Japão consolidou uma maioria entre os brasileiros contrária ao uso da energia atômica para gerar eletricidade no País. São 54%, dos quais 7 em cada 10 são “totalmente contra”, e os demais, “parcialmente contra”. A oposição a esse tipo de produção de energia cresceu 5 pontos após o acidente na usina de Fukushima.

Uma fatia ainda maior dos brasileiros, de 57%, mostrou-se preocupada -metade deles muito preocupados- com a possibilidade de um acidente nuclear acontecer também no Brasil. O grau de preocupação é superior à média mundial, de 49%.

Possível explicação para isso é que 40% não sabe dizer se o governo brasileiro controla adequadamente a segurança das usinas de Angra 1, 2 e 3. Além desses, 19% acham que não há controle adequado. Só 41% confiam nas medidas de segurança oficiais.

O governo federal estuda construir mais quatro centrais nucleares para produzir eletricidade no Brasil. A decisão final dependerá, segundo o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, das consequências do acidente japonês.

A reação negativa à energia atômica não se restringe ao Brasil. Na média mundial, o porcentual daqueles que são contrários às centrais nucleares cresceu 11 pontos após o tsunami provocar o colapso da usina japonesa e a contaminação de trabalhadores, da água e do solo por radiação. Foi de 32% para 43%.

Esse é um dos resultados da sondagem Global WIN (uma rede mundial de empresas de pesquisa) sobre o uso de energia nuclear.

A oposição às centrais atômicas varia muito de país para país. De apenas 24% na Coreia do Sul, a 90% na Áustria. O Japão foi onde mais cresceu o porcentual dos que são contra: de 28% para 47% (40% ainda apoia esse tipo de produção de energia).

Entre os brasileiros, 14% não souberam responder, 12% se disseram totalmente favoráveis ao uso da energia nuclear, 20% parcialmente a favor, 15% parcialmente contra e 39% totalmente contra. O apoio é maior entre os mais ricos e escolarizados. Já o crescimento dos que são contra a energia nuclear veio principalmente de quem não tinha opinião sobre o assunto.

A pesquisa mostra que 98% dos brasileiros tomaram conhecimento do terremoto no Japão, e 93% ficaram sabendo do vazamento de radiação. Ambos os resultados ficaram acima da média mundial. A TV foi a principal fonte de informação sobre o terremoto e o tsunami para 94% dos brasileiros. Em segundo lugar ficou a internet, com 3%.

O Brasil é um dos países mais otimistas no prognóstico sobre o que acontecerá com o Japão após a sequência de desastres. Para 49%, os japoneses vão se recuperar rapidamente e voltar ao nível de desenvolvimento anterior ao terremoto. A eles se somam 13% de brasileiros que acham que o Japão vai sair ainda mais forte da crise. Só 31% apostam no contrário.

Na média mundial, mais gente acredita que o Japão vai andar para trás (38%) do que se fortalecer (18%) no período posterior ao desastre. E 30% acreditam que o país voltará ao mesmo nível de antes do terremoto.

Os próprios japoneses mostram-se pessimistas: 55% dizem que seu país ficará economicamente mais fraco. É mais do que o dobro dos que acreditam na superação do desastre a na volta por cima (24%). Os chineses, seus inimigos históricos, também apostam que os vizinhos se enfraquecerão por causa da sequência de desastres: 67%.

Para entender a pesquisa

A pesquisa foi realizada pela Global WIN (Worldwide Independent Network of Market Research) em 47 países de todos os continentes entre 21 de março e 10 de abril. No Brasil, o levantamento foi feito pelo Ibope, instituto que representa a rede no País.

As técnicas de entrevista variam de local para local. Em alguns países foram feitas pelo telefone, em outros, pessoalmente, e houve locais em que a plataforma foi a internet.

As amostras variam de 500 a 2,7 mil entrevistas por país. No Brasil, o Ibope entrevistou 1 mil pessoas no método face a face. A margem de erro também varia conforme o tamanho da amostra local, de 3 a 5 pontos porcentuais para mais ou para menos. No mundo todo foram entrevistadas 34 mil pessoas.

Como não havia pesquisa anterior para comparar, o questionário incluiu uma pergunta sobre qual a opinião do entrevistado sobre a energia nuclear antes do terremoto no Japão.

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O começo de Dilma Rousseff na Presidência é mais bem avaliado do que foram todos seus antecessores pós-ditadura. Considerados apenas os três primeiros meses de governo, ela supera até o seu mentor, Luiz Inácio Lula da Silva. 

Nem por isso alguém comparou-a a Hugo Chávez. A questão não é ser popular, mas como fazer uso dessa popularidade.

Para alguns, Dilma agrada mais do que Lula porque não fala diretamente ao eleitor. Sem um líder carismático, desaparece o fantasma do populismo. Sem ligação direta, os canais de intermediação entre o poder e a população readquirem influência. 

Sob esse aspecto, Dilma está saindo melhor do que a encomenda para muitos dos que fizeram campanha contra ela na eleição de 2010.

Mas, do ponto de vista da maioria, essas diferenças de estilo passam batidas. Todos os indicadores da pesquisa CNI/Ibope sugerem que o governo Dilma é visto como uma extensão do governo Lula. Dele ainda emana o grosso de sua popularidade. 

Além de Lula ter acabado o governo com 27 pontos de saldo a mais do que Dilma tem hoje, há uma grande diferença de intensidade. Em dezembro de 2010, para cada pessoa que dizia que o governo Lula era “ótimo”, duas diziam que era “bom”. No começo do governo Dilma, essa relação é de 1 para 5. 

Se o empréstimo do antecessor explica a popularidade de Dilma no presente, seu futuro está condicionado ao desempenho da economia. Para sustentar sua aprovação no longo prazo, a presidente precisará diminuir a inflação e, por consequência, frear o consumo.

É um paradoxo: seu sucesso no futuro deve implicar uma perda de popularidade no curto prazo. Se isso ocorrer, não será na oposição que Dilma buscará apoio. Mas em Lula.

Combater as ideias

Estão tentando transformar Jair Bolsonaro (PP-RJ) em vítima -sob o argumento, falacioso e cínico, de que as críticas a ele pretendem cercear a liberdade de expressão do deputado. 

É cínico porque Bolsonaro vive em um eterno 1º de abril, defende até hoje a ditadura militar e, por tabela, a censura que o regime instalou no País.

É uma falácia porque nunca Bolsonaro foi tão instigado a falar quanto agora e, infelizmente, nunca foi tão ouvido. O que se discute é se o deputado deve arcar com as consequências do que diz, mesmo escondido atrás da imunidade parlamentar.

Levado ao absurdo, o argumento de que os parlamentares são inimputáveis pelo que falam no exercício do mandato permite que amanhã um deputado ou senador pregue o terrorismo ou o assassinato de adversários sem sofrer nenhum tipo de consequência. Será o preço da democracia?

Cassar Bolsonaro é legalmente complicado e politicamente duvidoso. Não apenas ele poderia posar de mártir da liberdade de expressão, como facilmente seria substituído por outros do mesmo calibre. Basta lembrar que há um Bolsonaro deputado estadual e outro vereador.

Mais importante é combater as ideias. Rechaçar o racismo, a homofobia e a ditadura. Bancar o avestruz e fazer de conta que nada aconteceu também pode ser trágico.

Após transformar em celebridade o pastor da Flórida que ameaçava queimar exemplares do Alcorão, a imprensa norte-americana baniu-o do noticiário. Para não dar visibilidade ao seu radicalismo. Como se o fato só existisse ao ser noticiado pelos meios de comunicação tradicionais. Nada mais superado.

Mesmo sem cobertura maciça da mídia, Terry Jones queimou o livro sagrado dos muçulmanos. Não foi preciso mais do que um par de fotos no Facebook e um vídeo no Youtube para que a fogueira religiosa de Jones alcançasse o outro lado do mundo. Fanáticos religiosos vigiam-se uns aos outros.

Clamando vingança pela queima do Alcorão, fundamentalistas mataram e degolaram funcionários das Nações Unidas que trabalhavam no Afeganistão. As vítimas não tinham nada a ver com as taras do pastor Jones nem com as de seus assassinos.

Essa tragédia mostra o quanto é perigoso ignorar pregações de ódio. Um discurso racista aqui, uma agressão a homossexuais acolá sinalizam que há tensões sociais se acumulando. Se não forem dissipadas, um dia elas podem explodir e espalhar estilhaços para todos os lados, até onde estão os avestruzes.

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Nada menos do que 90% dos brasileiros acham a Justiça lenta demais; 80% reclamam que é caro acessá-la. Quem já usou tem uma opinião pior do que quem nunca usou o sistema judiciário.

No ranking comparativo de confiança nas instituições, a Justiça ficou atrás da polícia e ligeiramente abaixo dos partidos políticos e do Congresso.

No link abaixo é possível ver todos os detalhes da edição de janeiro do Índice de Confiança no Judiciário, da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas.

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Compare as velocidades médias de download nos vários países árabes. Os que têm mais problemas políticos internos, coincidentemente, têm as internets mais lentas. São os casos do Líbano, Iraque, Egito, Líbia, Síria, Jordânia, Marrocos e Bahrein.

Há uma correlação (quanto pior a navegação, mais instável a situação interna), mas obviamente não há relação de causa e efeito. Não é a falta de internet que faz as pessoas protestarem nas ruas. É a falta de pão e liberdade para reclamar.

Mas a alta velocidade da internet na por ora estável monarquia da Arábia Saudita (melhor do que a do Brasil e igual à de Israel) indica que aumentar a velocidade da transmissão de dados não é ruim para o regime.

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Guia ortodoxo dos mercados, o “Financial Times” descreve o início de Dilma Rousseff na Presidência como “seguro” e “encorajador”. Repórteres que cobrem o dia-a-dia palaciano acham-na “silenciosa”. Auxiliares a definem como “detalhista” e “exigente”.

São todas, obviamente, comparações com seu antecessor e patrono. Nessas descrições, Dilma faz um contraponto à imagem percebida de Luiz Inácio Lula da Silva pelo establishment financeiro, burocrático e midiático.

No estilo, é “sóbria” e “pontual”. Não improvisa. No discurso, é econômica, objetiva e fala de temas que Lula ignorava, como cortar gastos e sobre direitos humanos no Irã. Essa é a percepção sobre Dilma projetada em balanços de um mês de governo.

Tem tudo para virar o novo clichê presidencial.

Se Lula chegou a ser pintado como gastador, boquirroto e ignorante, a imagem em construção de Dilma parece mais a de uma CEO do que a de uma presidente (“presidenta” só se o governo flexionar também o gênero de gerentes e serventes).

A definição é de um operador anônimo dos mercados, citado pelo FT. Não deixa de ser curiosa a identificação do executivo financeiro com a nova presidente. É como se ela estivesse de um lado do balcão diferente do que onde Lula parecia estar.

Antes de assumir o figurino, Dilma deve lembrar que: 1) o mercado oscila e muda de ponta com mais rapidez do que o Corinthians sai da Libertadores; 2) Lula cultiva a imagem esnobada pela elite porque ela o aproxima da maioria do eleitorado.

A cada “gafe” presidencial apontada pela imprensa, o ex-presidente somava um pontinho na sua curva de popularidade. A manobra é ancestral, anterior à caspa falsa de Jânio Quadros. Mas o politicamente correto insiste em ignorar seus efeitos.

Dilma não é Jânio nem Lula. Não vai sacar um sanduíche de mortadela da bolsa nem disparar metáforas futebolísticas. Defronta-se com o desafio de projetar uma imagem popular sem ser populista. Ainda não conseguiu.

Na disputa do reajuste do salário mínimo, tem dado a impressão de preferir uma regra estável ao que poderia eventualmente render mais votos. Diferentemente do antecessor, corre o risco de deixar a bandeira popular (e populista) com a oposição.

Durante a tragédia na região serrana do Rio de Janeiro, Dilma foi precisa no timing e correta no discurso. Resta saber se causou empatia às vítimas e a quem estava assistindo.

Se tudo correr bem com a economia até 2014, ela poderá optar por apenas devolver o bastão ao antecessor na corrida pela Presidência, ou forjar uma liderança que a capacite a concorrer à reeleição com as próprias pernas.

Tudo passa pela imagem presidencial a ser construída por Dilma nesses quatro anos. O eleitor não elegeu o melhor CEO em 2010. Nem deve votar nele em 2014.

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Luiz Inácio Lula da Silva atingiu o mais alto índice de popularidade presidencial pós-redemocratização. O recorde, em si, não quer dizer muito. Basta lembrar que ele pertencia a José Sarney. Mais do que o tamanho, é a durabilidade do saldo positivo que faz história.

Pelo Ibope, foram 92 meses com mais gente elogiando do que tachando o governo de ruim ou péssimo. Durante quatro meses de 2005, na crise do mensalão, Lula teve saldo negativo. No resto, ele gozou por mais tempo de avaliação positiva do que os quatro antecessores juntos.

Não há série de pesquisas para períodos anteriores à ditadura, mas pode-se dizer que nunca um presidente eleito diretamente foi popular por tanto tempo quanto Lula -até porque quase ninguém mais passou oito anos democraticamente na Presidência da República.

Os primeiros 15 anos de governo de Getúlio Vargas podem ter sido até mais populares do que os de Lula, mas não foram democráticos. Sobra a era Fernando Henrique Cardoso.

Em dois governos, FHC desfrutou de 52 meses de avaliação positiva. No auge, aprovou a reeleição (que beneficiaria Lula). Mas, após desvalorizar o real, amargou três anos seguidos de impopularidade. Recuperou-se parcialmente no fim, mas começou melhor do que acabou.

É outro feito de Lula: superou a expectativa da população antes da posse, quebrando tradição brasileira de decepcionar-se com seus eleitos. Antes, só Itamar Franco concluíra o mandato mais popular do que começou -mas poucos esperavam muito do vice de Fernando Collor.
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(clique na imagem para ampliar)

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Muitos denunciam o populismo como raiz de tanta popularidade. Daí Lula viver às turras com meios de comunicação e pretender regulá-los. Na linha de frente da crítica está a elite intelectual do País. Mas os formadores de opinião perderam a batalha pelo público. Por que?

A disputa não se dá entre corações e mentes, mas no bolso. Aí notas contam mais que palavras.

Lula não personifica a opinião pública, como afirmou em um dos arroubos discursivos, mas, em matéria de emergentes sociais, ele é uma pesquisa qualitativa ambulante. Parece perscrutar na própria experiência a vontade dessa camada crescente da população.

Quem circula pela periferia das grandes cidades brasileiras não deixa de notar o volume dos congestionamentos, a onipresença de carros novos e a proliferação do pequeno comércio. São faces visíveis da explosão de consumo que impulsionou a popularidade presidencial.

Se na sociedade de massa consumir é sinônimo de inclusão, os últimos cinco anos franquearam acesso às gôndolas do mercado a dezenas de milhões de neolulistas. Para eles, poder comprar é uma conquista. Uma conquista que não arriscam, como aprendeu José Serra.

Lula compreende melhor que seus rivais a força do crediário. A combinação de aumentos do salário mínimo e micro-crédito alimentou a espiral do consumo, multiplicou o mercado interno e beirou o pleno emprego. Se não justifica, ela explica a popularidade do presidente.

Consumindo, com crédito na praça e sem medo de ficar sem trabalho, o eleitor releva filas e maus tratos em hospitais públicos, relativiza a baixa qualidade do ensino oferecido a seus filhos, faz vista grossa à corrupção e minimiza a violência.

É como se Lula se beneficiasse de uma das máximas de Homer Simpson: “Quando eu cheguei já estava assim”. E acrescentasse: “Pelo menos agora vocês estão consumindo”.

Não se pode acusar o público de ser irracional, ignorante e desinformado como o personagem do desenho animado. As pessoas avaliam pragmaticamente sua condição de vida, usando os pesos e medidas que anos de propaganda lhe ensinaram a privilegiar: consumo, logo existo.

Lá e cá insinuam-se reações à popularização: “O aeroporto parece rodoviária”. A comparação denota perplexidade e saudades de um tempo em que voar era para poucos. Melhor se acostumar. A classe C ganhou asas e cartões de crédito. Só Ícaro a faria pousar. Seria um desastre em mais de um sentido.

O mercado de consumo de massa é o legado de Lula a Dilma Rousseff. E sua maldição. Se ela fracassar, não será por inexperiência ou falta de carisma. Será por parar o carrossel das compras. E isso depende tanto da nova presidente quanto das condições macroeconômicas.

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Em pesquisas de avaliação do governo, vale o saldo. Do total de ótimo/bom, subtrai-se a soma de ruim/péssimo: resultado positivo é aprovação; negativo, desaprovação. O “regular” não conta. Nesse critério, Luiz Inácio Lula da Silva bateu o recorde presidencial de José Sarney.

A série histórica do Ibope mostra que muita coisa mudou entre um e outro. Mas o motivo subjacente que orientou as curvas de popularidade do governante de plantão segue sendo o mesmo: o desempenho da economia.

Nos primeiros governos pós-ditadura, o padrão brasileiro era um presidente assumir com enorme esperança da população, e em seguida gerar grande frustração, sempre em meio a uma crise econômica. Foi assim com Sarney e Fernando Collor. Itamar Franco escapou por pouco.

Vice de Tancredo Neves empossado pela doença e morte do eleito no Colégio Eleitoral, Sarney teve seu momento de glória após um ano de governo, quando o Plano Cruzado pareceu controlar a inflação. Mas a aprovação durou poucos meses, como o sucesso do plano.

Em março de 1986, após o congelamento de preços decretado poucos dias antes, o maranhense chegou a 71% de ótimo/bom e 2% de ruim/péssimo: saldo de 69 pontos. Havia quem usasse espontaneamente botons dizendo-se “fiscal do Sarney”. Seria um “céu” efêmero.

No gráfico que ilustra esta página, esse é o ponto mais alto do começo da série. Para facilitar o entendimento, somou-se 100 a todos os valores. Quando a curva cai abaixo de 100, é sinal de desaprovação do governante. Quanto mais alta a curva, maior a popularidade presidencial.

O Cruzado não demorou a fazer água: no fim de 1986, após a eleição maciça de governadores do PMDB, a inflação saiu de controle e a popularidade de Sarney foi afundando à medida que ele trocava de ministro da Fazenda e o País chegava cada vez mais perto da hiperinflação.

Se perdeu o recorde positivo, Sarney mantém o de presidente que caiu mais fundo no abismo da impopularidade: em novembro de 1989, três meses antes de entregar o cargo, chegou a 60% de ruim/péssimo e inflação de 2.000% ao ano. O ministro era Mailson da Nóbrega.

Primeiro presidente eleito diretamente em décadas, o sucessor descreveu uma trajetória muito parecida, embora mais curta. Nada menos do que 59% dos brasileiros esperavam que Collor fizesse um governo ótimo ou bom. Dois anos depois, 41% o tachavam de ruim ou péssimo.

Entre o pico e o vale de sua popularidade, ele confiscou a poupança -por obra da ministra Zélia Cardoso de Mello-, viu a inflação voltar à casa do milhar, afundou-se em denúncias de corrupção e acabou por renunciar para evitar o impeachment.

Itamar assumiu com uma expectativa mais baixa. Não só pela má impressão deixada pelos antecessores, mas porque a crise econômica era séria. Em 1993, o Índice Geral de Preços (IGP) chegou a inacreditáveis 2.851%. Itamar mexeu na Fazenda tanto quanto no topete.

Depois de tentar alguns ministros mineiros como ele, acabou surpreendendo ao nomear um chanceler intelectual para comandar a economia. Os maldosos diziam que era falta de opção. Mal sabiam que graças a isso Fernando Henrique ganharia status de sigla, como JK e ACM.

Em janeiro de 1994, 40% da população desaprovava o governo Itamar. Aí veio o Plano Real, o controle duradouro da inflação e duas consequências políticas: o presidente deixou o Planalto mais popular do que entrou, e o ministro da Fazenda sociólogo virou seu sucessor.

No primeiro mandato, FHC governou com taxas de inflação cadentes e popularidade quase sempre positiva (embora oscilante). Sobreviveu a seguidas crises internacionais, recuperou-se do efeito do massacre de trabalhadores rurais em Eldorado dos Carajás (PA) e reelegeu-se.

Por ironia, o pico dos oito anos de governo Fernando Henrique ocorreu em março de 1997, pouco antes de ele aprovar a emenda constitucional que lhe daria -e aos sucessores- o direito de candidatar-se à reeleição: 56% achavam seu governo ótimo/bom. Nunca mais chegou perto disso.

No início do segundo mandato, em janeiro de 1999, a “equipe econômica” desvalorizou o real, a inflação subiu e oscilou em um patamar de dois dígitos. Ao mesmo tempo, a popularidade de FHC caiu.

A avaliação do presidente só recuperaria o saldo positivo no último ano de governo, mas bem menor do que a expectativa antes da sua primeira posse. A política econômica feijão-com-arroz foi insuficiente para eleger seu sucessor. Domar a inflação não era mais o bastante.

Lula elegeu-se presidente após três derrotas. A expectativa era grande: 51% apostavam num governo ótimo ou bom. No primeiro ano, a redução da inflação de 27% para 7% lhe garantiu popularidade alta. Mas a crise de 2004 fez ela cair a quase zero.

No começo de 2005, a recuperação econômica fez Lula voltar ao patamar de aprovação similar ao do primeiro ano de FHC. Aí veio o escândalo de mensalão. Denúncias de corrupção, queda de Antonio Palloci da Fazenda e o saldo de avaliação de Lula ficou negativo, por quatro meses.

A inflação em 2005 tinha sido a mais baixa desde 1945, os programas de transferência de renda começavam a dar dividendos políticos, o medo do desemprego começava a cair consistentemente, assim como crescia a confiança do consumidor (ambos medidos pela CNI).

Em menos de 12 meses, Lula saiu do risco de sofrer um impeachment para voltar ao pico de popularidade do começo do mandato. Para azar da oposição, isso aconteceu em um ano eleitoral. Reelegeu-se.

Comparado aos seis mandatos presidenciais anteriores, o segundo de Lula foi um passeio. Graças ao incentivo ao consumo, gastos públicos crescentes e políticas de crédito ampliadas, nem a alta da inflação em 2007 e 2008 nem a crise global derrubaram sua popularidade.

Ao contrário, ela só cresceu. Lula chega ao final de oito anos de governo com 80% da população dizendo que seu governo foi ótimo ou bom, e apenas 4% achando-o ruim ou péssimo. Seu saldo de 76 pontos é recorde desde que se avalia presidentes no Brasil.

Lula elegeu sua sucessora, e ela não veio da área econômica. Guido Mantega foi um ministro da Fazenda que viu o PIB crescer 8%, mas jamais foi cogitado como presidenciável. Dilma Rousseff foi eleita falando em obras sociais e de infra-estrutura. A inflação não foi nem sequer tema da campanha eleitoral.

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A pesquisa Ibope sobre a relação dos moradores de São Paulo com sua cidade mostra algumas curiosidades e diferenças que dependem do bairro onde cada um vive e do seu nível de escolaridade.

• Quem mora em São Paulo e fez faculdade tem pelo menos 60% de chance de estar muito mais satisfeito com sua vida do que outros paulistanos com menor escolaridade.

• O morador de São Paulo que não estudou além da quarta série do ensino fundamental tem três vezes mais probabilidade de estar mais insatisfeito com sua vida do que os que passaram mais tempo na escola.

• Tem mais chances de estar insatisfeito quem mora na zona leste.

• Quanto mais na periferia da cidade alguém mora, menos essa pessoa acha que São Paulo está no caminho certo.

• Dois em cada três paulistanos aptos a votar acham que a saúde é uma área problemática da cidade. São 50% mais citações do que o segundo problema: violência associada ao consumo e tráfico de drogas.

• Não por coincidência, os programas municipais mais bem avaliados pela população são na área de saúde: mãe paulistana, distribuição gratuita de medicamentos e entrega de remédios na casa. Mais do que uma contradição, mostra uma demanda por serviços de saúde.

• Se drogas é problema de saúde pública, então a saúde é o grande problema da cidade. Se drogas são um problema de segurança pública, então deu empate na escolha do principal problema, entre saúde e segurança.

• A violência associada às drogas é um problema 50% maior para quem mora na zona sul do que para quem mora nas áreas mais ricas da cidade -a não ser que o morador viva no extremo da zona sul. Nesse caso, porém, seus problemas com transporte coletivo serão duas vezes e meia mais preocupantes do que os de seus vizinhos que moram mais perto do centro.

• O trânsito é duas vezes mais lembrado como problema de São Paulo pelos moradores do centro em comparação a quem mora na zona norte da cidade.

• O transporte coletivo é citado como problema da cidade três vezes mais por quem tem nível superior do que por quem só estou até a 4ª série do fundamental.

• O saldo de popularidade do prefeito Gilberto Kassab (DEM) é quase quatro vezes maior entre os eleitores que cursaram faculdade do que entre os que estudaram até o ensino médio.

• Kassab tem um ano e meio para fazer algo para melhorar a vida dos moradores da zona norte, e dos extremos das zonas sul e leste. Lá, seu saldo de aprovação é nulo ou insuficiente para influenciar positivamente a eleição de seu sucessor.

A pesquisa foi feita entre os dias 21 e 23 de dezembro, com 812 moradores da cidade de São Paulo com 16 anos ou mais de idade. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%.

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Mesmo que a participação das forças federais tenha sido acessória na ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula Silva lucrou com a ação. O recorde de sua popularidade alcançado na pesquisa CNI/Ibope está conectado à imagem de sucesso projetada pela operação.

Os que acham o governo ótimo ou bom chegaram a 80% da população em dezembro. É o porcentual mais alto da série. A variação positiva em comparação à pesquisa anterior foi dentro da margem de erro, três pontos porcentuais, mas a marca tem valor histórico, pois será a nota final de Lula.

Embora a diminuição da pobreza e do desemprego sejam as duas maiores virtudes da atual administração federal na opinião dos brasileiros, foi na segurança pública que a avaliação do governo mais evoluiu desde setembro.

A aprovação à atuação federal nessa área subiu nove pontos. Chegou a 49% e, mesmo que tecnicamente empatada com a desaprovação (46%), é simbólico que pela primeira vez o número da taxa positiva esteja à frente do da negativa.

Alguma dúvida de que isso tem a ver com a imagem de traficantes fugindo de morros cariocas e de blindados da Marinha passando por cima de carros? Nada menos do que 1 em cada 3 brasileiros citou espontaneamente a ação das Forças Armadas no Rio como o fato recente ligado ao governo de que mais lembravam.

Os 32% de citações da ocupação do complexo do Alemão se tornam ainda maiores se levarmos em conta que 31% dos brasileiros não souberam responder. Ou seja, praticamente metade dos que disseram alguma coisa se referiram à ação policial/militar.

Essas respostas superaram na proporção de 3 para 1 as citações ao noticiário sobre a formação do novo governo, o segundo fato mais lembrado (11%), junto com os problemas relacionados às provas do ENEM (10%).

Esse é o tamanho do desafio de Dilma Rousseff (PT). A eleita sucede o presidente mais bem avaliado da história do Brasil no ápice de sua popularidade. E nada menos do que três quartos dos brasileiros esperam que ela faça pelo menos igual (58%) ou melhor (18%).

Raros são os presidentes que conseguem chegar ao final do seu governo, especialmente de um segundo mandato, no seu patamar mais alto de aprovação. Em geral, isso ocorre no princípio da administração, antes do acúmulo de desgastes ao longo do exercício do poder.

Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, alcançou seu pico de popularidade em meados de 1997, quando conseguiu aprovar a emenda da reeleição no Congresso. Daí para frente sua avaliação tendeu a piorar.

Lula se beneficiou da aceleração da economia, que aumenta o otimismo da população. É esperado que as pessoas creditem ao menos parte da melhoria de sua condição de vida ao governante de plantão. Não é à toa que o petista chega a seu ápice junto com taxas recordes de crescimento do PIB, como os 8,1% projetados para 2010 pelo IBGE.

A relação de Dilma com a opinião pública nos próximos quatro anos estará diretamente vinculada ao desempenho da economia, ao nível de renda, de emprego e, principalmente, ao consumo da população. Foi o que a elegeu. Pode ser sua consagração ou seu fracasso.

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O brasileiro é conservador ou liberal? Parâmetros importados dos EUA servem de régua para medir o comportamento do povo de Pindorama? Não há resposta unânime. Nesse caso, consulte-se a maioria. Com a palavra, ou melhor, com os números, o Ibope.

O brasileiro, todo candidato sabe, é contra a legalização do aborto. E quando o debate sobre o assunto esquenta, o que uns chamariam de conservadorismo aumenta.

A eleição presidencial fez crescer o auto-intitulado grupo pró-vida. Em março deste ano, antes de virar tema de campanha, havia 15% de eleitores pró-legalização e 13% sobre o muro. Em outubro, após a polêmica eleitoral, a maioria anti-aborto subira para 78%.

Lição para o postulante a cargos públicos: se você tem opiniões diferentes da maioria ou um esqueleto no armário, cuidado ao mexer no vespeiro, ou vai acabar ferroado.

Os nativos daqui não são emulações dos conservadores de lá. Cresceu em 2010 o grupo de brasileiros contrários à pena de morte. Em outubro, chegou a 55%, ante 46% em março. Aqui, o discurso em favor da vida tem alcance mais amplo do que nos EUA. Moral católica?

Viva sim, mas sem incomodar os outros. Praticamente 2 em cada 3 brasileiros são favoráveis à redução da maioridade penal: 63% defendem cadeia para adolescentes infratores. Maioria equivalente à que quer prisão perpétua para quem comete crimes hediondos.

Numa sociedade com alta taxa de homicídio e crianças recrutadas pelo narcotráfico, pode-se chamar de conservadora a maioria cujo discurso endossa a punição severa e desde mais cedo? Ou essas não são bandeiras de fato, mas válvulas de uma revolta difusa contra a impunidade?

Fosse um ponto de honra, políticos que defendem tais ideias já teriam conseguido capitalizar essa maioria para aprovar uma legislação draconiana. No Brasil, qualquer juiz sabe, políticos e penas duras raramente aparecem na mesma sentença.

Após décadas de inflação fora de controle e concentração progressiva da renda, o conservadorismo do brasileiro é fundamentalmente econômico. Não, o brasileiro não é monetarista. Ele só não gosta de mudar políticas que vê como vencedoras.

Em outubro, antes da eleição, o Ibope pesquisou se os eleitores preferiam um candidato que mudasse as coisas ou mantivesse o status quo. Só 9% disseram “que mudasse totalmente”. Uma maioria ampla se dividiu entre a “continuidade total” (32%) e “poucas mudanças e continuidade para muita coisa” (31%).

Esse raciocínio “não mexa em time que está ganhando” do eleitor ganhou corpo durante a campanha. Porque 57% temiam que o presidente eleito desencaminhasse o País. Votaram no menor risco. Conservadorismo econômico, ou o que?

Ao avalizar a política econômica, o eleitor está fazendo exatamente isso. Não é cheque em branco. Não vale para qualquer tema ou iniciativa governamental.

Um exemplo: símbolo do liberalismo de costumes, a união entre pessoas do mesmo sexo é vista com contrariedade pela maioria (54%). Em outubro, apenas 25% dos brasileiros se declaravam a favor -menos do que os 30% de março. Outros 20% não sabem de que lado ficar.

Como todo direito de uma minoria, quem defendê-lo enfrentará desgaste e desagradará parte de sua base eleitoral. Mas não é por isso que o governante deve esquecer no que acredita.

Líder é quem vai na frente, escolhe um caminho e tenta convencer outros a segui-lo. Grande parte dos políticos brasileiros prefere ficar na retaguarda, olhando para que lado a opinião pública se mexe, para ir atrás dela. É a vanguarda do conservadorismo.

O problema dessa atitude “Maria vai com as outras” é que dificilmente ela produz alguma inovação. As pessoas tendem a gostar do que elas conhecem. Mudança, só quando a água bate no nariz, e olhe lá.

Se Fernando Henrique Cardoso fizesse um plebiscito para decidir se o Brasil deveria adotar um negócio chamado URV que depois viraria o real, provavelmente ainda estaríamos usando cruzeiros.

Se Luiz Inácio Lula da Silva, logo ao tomar posse, submetesse ao eleitorado a ideia de dar uma mesada para todos os pobres, provavelmente os beneficiários do Bolsa Família ainda estariam passando fome.

Ambos arriscaram, inovaram e se deram bem. Fora isso, é o partido liberal-conservador.

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