José Roberto de Toledo - Estadao.com.br
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A velocidade média de download da internet no Brasil é metade da norte-americana. A distância é ainda maior em relação a outros países, como Rússia (147% mais rápida), Japão (263%) e Coreia do Sul (671%).

Entre os latino-americanos, o Brasil se sai melhor do que quase todos, com exceção do Chile, mas porque as médias dos vizinhos são muito baixas.

A velocidade de download é uma medida de performance do acesso à internet por banda larga. Mais velocidade significa perder menos tempo para se encontrar o que se procura, entre outras vantagens, como comunicação de voz e imagem sobre IP.

Ter uma conexão de internet veloz é uma vantagem competitiva para um país. O problema é que o Brasil não está conseguindo diminuir a diferença em relação a outras economias de países desenvolvidos ou em desenvolvimento.

Clique na imagem abaixo para montar seu próprio gráfico e saber mais sobre a fonte das informações.

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O número de assassinatos na cidade de São Paulo caiu 80% ao longo dos últimos nove anos. Segundo dados preliminares do Pro-Aim, um serviço da Secretaria Municipal da Saúde, os homicídios caíram de 6.683 em 2001 para 1.262 no ano passado.

A redução significa que pelo menos 30 mil vidas foram poupadas nesse período. Esse é o número de pessoas que teriam sido assassinadas a mais na década passada se a epidemia de violência não tivesse diminuído tão rapidamente.

Não há uma causa única que possa explicar um fenômeno dessa magnitude. Há três causas de fundo que, ao que tudo indica, estão entre as principais responsáveis pela redução.

A primeiro delas é demográfica: a população paulistana está envelhecendo, há cada vez menos jovens. E são os homens de 20 a 29 anos as principais vítimas e os principais autores dos assassinatos. Diminui a população de risco, cai a taxa de homicídio.

Como consequência, o peso das assassinatos de paulistanos com 50 anos ou mais mais do que dobrou ao longo dos últimos 15 anos. Não que mais veteranos estejam sendo mortos -o número absoluto diminuiu-, mas a queda foi muito mais acentuada entre os jovens.

O outro motivo é a implementação da política nacional de desarmamento. A queda das mortes violentas coincide com o começo da apreensão das armas. Um estudo acadêmico estima que um assassinato é evitado a cada 18 armas apreendidas.

Pode-se incluir entre as causas gerais o bom desempenho da economia ao longo da década passada, o que fez aumentar as oportunidades de emprego para os jovens -além do acesso ao crédito, que melhorou o padrão de consumo das fatias mais pobres da população.

Se essas causas se aplicam a toda a cidade (e ao país), questões específicas ajudam a compreender porque em alguns locais a taxa de assassinato caiu mais do que em outros. Entram nessa conta desde novos padrões de policiamento até a construção de mais e melhores equipamentos sociais, como escolas de período integral.

Isso vale, por exemplo, para o Jardim Ângela, que chegou a ser símbolo da violência na cidade, e hoje ostenta uma taxa de homicídio quase civilizada: 15 mortos para cada 100 mil habitantes. Ela chegou a ser de 111/100 mil em 2001.

Mas as diferenças entre bairros ricos e pobres persistem. O morador do Brás, um reduto popular próximo ao centro paulistano, corre um risco cinco vezes maior de ser assassinado que um morador de Moema, um bairro rico da zona sul.

É um problema que se estende a outras áreas centrais da cidade, como Sé e República. A explicação passa pela concentração de cortiços e pelo consumo e venda de drogas como o crack. E requerem ações policias específicas para resolver o problema. Desse a demografia não dará conta.

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As viagens aéreas alcançaram altitude inédita no Brasil em 2010. Em apenas um ano, os pousos e decolagens aumentaram 16%. Mais impressionante ainda, o volume de passageiros cresceu 20%.

Não foi um salto repentino. O crescimento tem sido permanente pelo menos desde 2003, embora o ritmo varie. Em 2008, por exemplo, a crise fez o aumento ser menor. Em nenhum ano da última década o volume de passageiros cresceu tanto quanto em 2010.

Foram 342 mil pousos/decolagens a mais do que em 2009. E 26,2 milhões de novos passageiros no ar. Isso equivale ao movimento do maior aeroporto brasileiro, o de Guarulhos, ao longo de um ano inteiro.

O mercado de aviação é um dos mais eloquentes exemplos do que acontece quando uma massa de novos consumidores entra de repente, no caso, a bordo.

O movimento de aeronaves em voos domésticos nos aeroportos administrados pela Infraero cresceu 50% em apenas sete anos. E como os aviões estão cada vez mais lotados, o volume de passageiros em voos dentro do país mais do que dobrou nesse período: 126% de aumento.

Sem que a infra-estrutura aeroportuária consiga dar conta de atender essa explosão de demanda, os atrasos se tornaram frequentes. Mas o crescimento não foi homogêneo. Alguns aeroportos viram seu movimento aumentar muito mais do que outros.

Nos últimos cinco anos, Guarulhos ultrapassou Congonhas (SP) e se tornou o mais movimentado aeródromo brasileiro. Isso se deveu, em parte, à redução do número de voos em Congonhas após acidente com avião da TAM.

Como consequência, o número de passageiros embarcados e desembarcados em Guarulhos cresceu 70% desde 2006, isto é, 20 pontos porcentuais acima da média nacional. Foram 11 milhões a mais de pessoas circulando pelos seus saguões e salas de embarque.

A confusão teria sido ainda maior se outros 4,2 milhões de passageiros não tivessem sido deslocados para Viracopos (Campinas – SP). O aeroporto do interior paulista viu multiplicar por cinco o número de passageiros desde 2006. Foi anunciada a sua ampliação na semana passada.

Depois de Viracopos, os aeroportos que mais cresceram em movimento nos últimos cinco anos foram os de Cuiabá (129%), João Pessoa (124%) e o reformado Santos-Dumont, no Rio (120%).

Com exceção de Congonhas, todos os demais principais aeroportos brasileiros cresceram exponencialmente em movimento nos últimos cinco anos. O que cresceu menos, o Galeão, viu mais 38% de passageiros.

Em alguns, a situação está perto do limite. O aeroporto de Porto Seguro é um dos poucos grandes a não ser administrado pela Infraero. É estadual e sua gestão é feita por uma empresa privada. Em apenas dois anos o movimento cresceu em um terço e já equivale ao de Foz do Iguaçu.

O terminal está sendo dobrado de tamanho, segundo a Sinart. As obras são mais do que necessárias. Atualmente, circulam 3 mil passageiros por dia pelos 3.270 metros quadrados do aeroporto: dá pouco mais de 1 metro quadrado por pessoa.

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31.janeiro.2011 02:49:32

A classe C vai ao resort

Sonolento balneário do sul da Bahia, Santo André vive do turismo. São duas ruas apenas: a da praia é dominada por pousadas e restaurantes cujos donos falam português com sotaque. Os cardápios dão a volta ao mundo, mas é preciso rodar para encontrar uma moqueca.

O vilarejo tinha tudo para ser um destino privilegiado e exclusivo de VIPs internacionais. Privilegiado ainda é. Exclusivo, nem tanto. Quem tem movimentado a economia local são os turistas de outra sigla, a CVC.

Os “barões”, como os nativos chamam os viajantes endinheirados, só passeiam por lá durante os meses de verão. No resto do ano, grande parte dos estabelecimentos fecha as portas, seus donos voltam para a Europa, seus chefs vão destrinchar peitos de pato em outras cozinhas.

Um dos poucos abertos 365 dias é o maior empreendimento turístico da praia, o Costa Brasilis. Resort com arquitetura e decoração para agradar ao baronato, passou a oferecer pacotes de uma semana por 10 parcelas de R$ 130 (“aéreo” incluído). O preço mal paga duas faxinas em São Paulo.

Os comerciantes locais descobriram que, ao contrário do turista nobre, vale a pena investir no ex-pobre. Enquanto os primeiros ficavam entocados e intocados no resort, os novos viajantes se dispõem a explorar pratos além do buffet -desde que se ofereça táxi grátis na ida e volta do restaurante.

O neoturista desce no aeroporto de Porto Seguro, sobe em um ônibus amarelo ovo de janelas panorâmicas e 38 quilômetros, 29 quebra-molas, duas aldeias indígenas e uma balsa depois desembarca no seu hotel de luxo. Piscinas, jacuzzis e praias semi-virgens (sic) o aguardam, promete a propaganda.

O trecho menos glamuroso é entre o avião e o ônibus. O aeródromo de Porto Seguro é o único no Brasil que recebe voos internacionais a ser administrado por uma empresa privada. O feito é anunciado com orgulho no site da Sinart. A propósito, a sigla vem de Sociedade Nacional de Apoio Rodoviário Turístico. Seu forte são rodoviárias.

A convivência no veraneio é pacífica entre descolados e deslocados. A praia é grande e demarcada. Na ponta de areia formada pelo encontro das águas doce e salgada há uma pororoca diária. Nada a ver com as marés. A onda é humana e corre do rio para o mar.

Uma vez por dia, outra parte da “família CVC” desce desde Cabrália a bordo de duas chalanas. Centenas de alegres turistas vão passar algumas horas nos guarda-sóis e barracas que os esperam na barra. Muitas caipirinhas e águas de coco depois, voltam ao seu porto seguro.

À distância, a cena da prancha caindo sobre a praia, seguida do aglomerado deixando a chalana em ordem unida, poderia lembrar o movimento das balsas que povoaram as fazendas de pecuária da região do Araguaia, no sul do Pará, nos anos 70. Mas boi não dança axé.

A rotina silenciosa de Santo André é quebrada momentaneamente por uma terceira vaga diária. São as escunas que descem o rio e passam ao largo da costa até Coroa Alta(*). A cada rajada de vento ouvem-se, na praia, trechos entrecortados da música de bordo: “muito assanhada (…) lapada (…) rachada”.

Na maré baixa, o horizonte divisa um ilhote de areia avermelhada e o que parecem centenas de gravetos espetados n’água. São, na verdade, os passageiros das escunas, passeando pelas faces descobertas de uma extensa barreira de coral, a quilômetros da costa. Na volta, eles param para almoçar em um restaurante a beira-rio.

Nenhum morador dá pistas de estar ficando milionário, mas o dinheiro circula. E assim, graças cada vez mais ao turismo de massa e cada vez menos ao exclusivismo da classe A gargalhada (A-A-A…), Santo André vai passando seus verões, sem perder a tranquilidade.

Não foi preciso reivindicar um policial permanente para a vila. Se alguém rouba algo, dizem os andreenses, avisa-se os operadores da balsa, e a cana aguarda o imprevidente larápio do outro lado da travessia.

PS: Após a publicação desta coluna, a CVC mudou o preço do pacote para o Costa Brasilis. Agora é 10 de R$ 99,80.

(*) O texto original, equivocadamente, se referia a Coroa Grande.

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Luiz Inácio Lula da Silva atingiu o mais alto índice de popularidade presidencial pós-redemocratização. O recorde, em si, não quer dizer muito. Basta lembrar que ele pertencia a José Sarney. Mais do que o tamanho, é a durabilidade do saldo positivo que faz história.

Pelo Ibope, foram 92 meses com mais gente elogiando do que tachando o governo de ruim ou péssimo. Durante quatro meses de 2005, na crise do mensalão, Lula teve saldo negativo. No resto, ele gozou por mais tempo de avaliação positiva do que os quatro antecessores juntos.

Não há série de pesquisas para períodos anteriores à ditadura, mas pode-se dizer que nunca um presidente eleito diretamente foi popular por tanto tempo quanto Lula -até porque quase ninguém mais passou oito anos democraticamente na Presidência da República.

Os primeiros 15 anos de governo de Getúlio Vargas podem ter sido até mais populares do que os de Lula, mas não foram democráticos. Sobra a era Fernando Henrique Cardoso.

Em dois governos, FHC desfrutou de 52 meses de avaliação positiva. No auge, aprovou a reeleição (que beneficiaria Lula). Mas, após desvalorizar o real, amargou três anos seguidos de impopularidade. Recuperou-se parcialmente no fim, mas começou melhor do que acabou.

É outro feito de Lula: superou a expectativa da população antes da posse, quebrando tradição brasileira de decepcionar-se com seus eleitos. Antes, só Itamar Franco concluíra o mandato mais popular do que começou -mas poucos esperavam muito do vice de Fernando Collor.
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(clique na imagem para ampliar)

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Muitos denunciam o populismo como raiz de tanta popularidade. Daí Lula viver às turras com meios de comunicação e pretender regulá-los. Na linha de frente da crítica está a elite intelectual do País. Mas os formadores de opinião perderam a batalha pelo público. Por que?

A disputa não se dá entre corações e mentes, mas no bolso. Aí notas contam mais que palavras.

Lula não personifica a opinião pública, como afirmou em um dos arroubos discursivos, mas, em matéria de emergentes sociais, ele é uma pesquisa qualitativa ambulante. Parece perscrutar na própria experiência a vontade dessa camada crescente da população.

Quem circula pela periferia das grandes cidades brasileiras não deixa de notar o volume dos congestionamentos, a onipresença de carros novos e a proliferação do pequeno comércio. São faces visíveis da explosão de consumo que impulsionou a popularidade presidencial.

Se na sociedade de massa consumir é sinônimo de inclusão, os últimos cinco anos franquearam acesso às gôndolas do mercado a dezenas de milhões de neolulistas. Para eles, poder comprar é uma conquista. Uma conquista que não arriscam, como aprendeu José Serra.

Lula compreende melhor que seus rivais a força do crediário. A combinação de aumentos do salário mínimo e micro-crédito alimentou a espiral do consumo, multiplicou o mercado interno e beirou o pleno emprego. Se não justifica, ela explica a popularidade do presidente.

Consumindo, com crédito na praça e sem medo de ficar sem trabalho, o eleitor releva filas e maus tratos em hospitais públicos, relativiza a baixa qualidade do ensino oferecido a seus filhos, faz vista grossa à corrupção e minimiza a violência.

É como se Lula se beneficiasse de uma das máximas de Homer Simpson: “Quando eu cheguei já estava assim”. E acrescentasse: “Pelo menos agora vocês estão consumindo”.

Não se pode acusar o público de ser irracional, ignorante e desinformado como o personagem do desenho animado. As pessoas avaliam pragmaticamente sua condição de vida, usando os pesos e medidas que anos de propaganda lhe ensinaram a privilegiar: consumo, logo existo.

Lá e cá insinuam-se reações à popularização: “O aeroporto parece rodoviária”. A comparação denota perplexidade e saudades de um tempo em que voar era para poucos. Melhor se acostumar. A classe C ganhou asas e cartões de crédito. Só Ícaro a faria pousar. Seria um desastre em mais de um sentido.

O mercado de consumo de massa é o legado de Lula a Dilma Rousseff. E sua maldição. Se ela fracassar, não será por inexperiência ou falta de carisma. Será por parar o carrossel das compras. E isso depende tanto da nova presidente quanto das condições macroeconômicas.

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Em pesquisas de avaliação do governo, vale o saldo. Do total de ótimo/bom, subtrai-se a soma de ruim/péssimo: resultado positivo é aprovação; negativo, desaprovação. O “regular” não conta. Nesse critério, Luiz Inácio Lula da Silva bateu o recorde presidencial de José Sarney.

A série histórica do Ibope mostra que muita coisa mudou entre um e outro. Mas o motivo subjacente que orientou as curvas de popularidade do governante de plantão segue sendo o mesmo: o desempenho da economia.

Nos primeiros governos pós-ditadura, o padrão brasileiro era um presidente assumir com enorme esperança da população, e em seguida gerar grande frustração, sempre em meio a uma crise econômica. Foi assim com Sarney e Fernando Collor. Itamar Franco escapou por pouco.

Vice de Tancredo Neves empossado pela doença e morte do eleito no Colégio Eleitoral, Sarney teve seu momento de glória após um ano de governo, quando o Plano Cruzado pareceu controlar a inflação. Mas a aprovação durou poucos meses, como o sucesso do plano.

Em março de 1986, após o congelamento de preços decretado poucos dias antes, o maranhense chegou a 71% de ótimo/bom e 2% de ruim/péssimo: saldo de 69 pontos. Havia quem usasse espontaneamente botons dizendo-se “fiscal do Sarney”. Seria um “céu” efêmero.

No gráfico que ilustra esta página, esse é o ponto mais alto do começo da série. Para facilitar o entendimento, somou-se 100 a todos os valores. Quando a curva cai abaixo de 100, é sinal de desaprovação do governante. Quanto mais alta a curva, maior a popularidade presidencial.

O Cruzado não demorou a fazer água: no fim de 1986, após a eleição maciça de governadores do PMDB, a inflação saiu de controle e a popularidade de Sarney foi afundando à medida que ele trocava de ministro da Fazenda e o País chegava cada vez mais perto da hiperinflação.

Se perdeu o recorde positivo, Sarney mantém o de presidente que caiu mais fundo no abismo da impopularidade: em novembro de 1989, três meses antes de entregar o cargo, chegou a 60% de ruim/péssimo e inflação de 2.000% ao ano. O ministro era Mailson da Nóbrega.

Primeiro presidente eleito diretamente em décadas, o sucessor descreveu uma trajetória muito parecida, embora mais curta. Nada menos do que 59% dos brasileiros esperavam que Collor fizesse um governo ótimo ou bom. Dois anos depois, 41% o tachavam de ruim ou péssimo.

Entre o pico e o vale de sua popularidade, ele confiscou a poupança -por obra da ministra Zélia Cardoso de Mello-, viu a inflação voltar à casa do milhar, afundou-se em denúncias de corrupção e acabou por renunciar para evitar o impeachment.

Itamar assumiu com uma expectativa mais baixa. Não só pela má impressão deixada pelos antecessores, mas porque a crise econômica era séria. Em 1993, o Índice Geral de Preços (IGP) chegou a inacreditáveis 2.851%. Itamar mexeu na Fazenda tanto quanto no topete.

Depois de tentar alguns ministros mineiros como ele, acabou surpreendendo ao nomear um chanceler intelectual para comandar a economia. Os maldosos diziam que era falta de opção. Mal sabiam que graças a isso Fernando Henrique ganharia status de sigla, como JK e ACM.

Em janeiro de 1994, 40% da população desaprovava o governo Itamar. Aí veio o Plano Real, o controle duradouro da inflação e duas consequências políticas: o presidente deixou o Planalto mais popular do que entrou, e o ministro da Fazenda sociólogo virou seu sucessor.

No primeiro mandato, FHC governou com taxas de inflação cadentes e popularidade quase sempre positiva (embora oscilante). Sobreviveu a seguidas crises internacionais, recuperou-se do efeito do massacre de trabalhadores rurais em Eldorado dos Carajás (PA) e reelegeu-se.

Por ironia, o pico dos oito anos de governo Fernando Henrique ocorreu em março de 1997, pouco antes de ele aprovar a emenda constitucional que lhe daria -e aos sucessores- o direito de candidatar-se à reeleição: 56% achavam seu governo ótimo/bom. Nunca mais chegou perto disso.

No início do segundo mandato, em janeiro de 1999, a “equipe econômica” desvalorizou o real, a inflação subiu e oscilou em um patamar de dois dígitos. Ao mesmo tempo, a popularidade de FHC caiu.

A avaliação do presidente só recuperaria o saldo positivo no último ano de governo, mas bem menor do que a expectativa antes da sua primeira posse. A política econômica feijão-com-arroz foi insuficiente para eleger seu sucessor. Domar a inflação não era mais o bastante.

Lula elegeu-se presidente após três derrotas. A expectativa era grande: 51% apostavam num governo ótimo ou bom. No primeiro ano, a redução da inflação de 27% para 7% lhe garantiu popularidade alta. Mas a crise de 2004 fez ela cair a quase zero.

No começo de 2005, a recuperação econômica fez Lula voltar ao patamar de aprovação similar ao do primeiro ano de FHC. Aí veio o escândalo de mensalão. Denúncias de corrupção, queda de Antonio Palloci da Fazenda e o saldo de avaliação de Lula ficou negativo, por quatro meses.

A inflação em 2005 tinha sido a mais baixa desde 1945, os programas de transferência de renda começavam a dar dividendos políticos, o medo do desemprego começava a cair consistentemente, assim como crescia a confiança do consumidor (ambos medidos pela CNI).

Em menos de 12 meses, Lula saiu do risco de sofrer um impeachment para voltar ao pico de popularidade do começo do mandato. Para azar da oposição, isso aconteceu em um ano eleitoral. Reelegeu-se.

Comparado aos seis mandatos presidenciais anteriores, o segundo de Lula foi um passeio. Graças ao incentivo ao consumo, gastos públicos crescentes e políticas de crédito ampliadas, nem a alta da inflação em 2007 e 2008 nem a crise global derrubaram sua popularidade.

Ao contrário, ela só cresceu. Lula chega ao final de oito anos de governo com 80% da população dizendo que seu governo foi ótimo ou bom, e apenas 4% achando-o ruim ou péssimo. Seu saldo de 76 pontos é recorde desde que se avalia presidentes no Brasil.

Lula elegeu sua sucessora, e ela não veio da área econômica. Guido Mantega foi um ministro da Fazenda que viu o PIB crescer 8%, mas jamais foi cogitado como presidenciável. Dilma Rousseff foi eleita falando em obras sociais e de infra-estrutura. A inflação não foi nem sequer tema da campanha eleitoral.

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A dúvida pode assaltar algum eleitor após os congressistas em fim de mandato legislarem em causa própria, mais uma vez. Em poucas horas da quarta-feira, o que na velocidade legislativa equivale a nanossegundos, aprovaram na Câmara e no Senado aumento de 62% para si mesmos.

Todo valor é relativo. Em dinheiro no fim do mês, ninguém no Brasil vale mais do que um deputado federal. Com o novo salário de R$ 26.723,13, formam a família ocupacional mais bem paga do País, junto com ministros do Supremo, de Estado e o presidente da República.

Nada a ver com famiglia. Família ocupacional é jargão técnico: um dos níveis de agregação da Classificação Brasileira de Ocupações. Oficialmente, os mais altos cargos da República não têm um código único na CBO. Mas os parlamentares provaram que estão aí para mudar as regras.

O propósito declarado da ação relâmpago dos congressistas foi equiparar os salários das cúpulas dos três Poderes. Logo, seria natural agregá-los em uma família ocupacional única. Poderia ser chamada de família nababa. É apenas uma sugestão.

A vantagem seria facilitar as comparações. Tomemos as famílias existentes na CBO. Segundo os dados oficiais mais recentes, da RAIS de 2009, a mais bem remunerada de todas é a família dos 7.394 membros do Ministério Público: salário médio de R$ 24.371.

Não se pode deixar de corrigir esse valor pela inflação do período, seria uma injustiça com os parlamentares, que só passarão a receber seus R$ 26,7 mil em fevereiro de 2011.

Mesmo conferindo um aumento de 6,2% (IPC da Fipe em 2010) a todas as família ocupacionais, os nababos permanecem no topo da cadeia salarial, quase mil reais à frente dos procuradores. Essa supremacia salarial tem seu lado positivo.

Nababos poderiam virar unidade de referência da economia do trabalho. Por que pensar pequeno? Em vez de medir remunerações em salários mínimos, usemos os salários máximos. Quanto você ganha? Um professor responderia: centésimos de nababo.

Responsável por um dos raros 35 votos contra o auto-aumento, a deputada Luiza Erundina (PSB-SP) sugeriu aos colegas que deixassem de usar o broche de parlamentar, temendo que eles pudessem sofrer agressões na rua por causa de comparações como essa. Exagero.

Nababos não gostam de pensar em fracionar seus salários. Melhor inverter a conta. Pós-aumento, um deputado federal vale 1 magistrado. Mas isso não quer dizer muita coisa, já que era esse o objetivo dos parlamentares. Comparemos com cargos de fora do poder público.

Sempre usando como referência a RAIS 2009 do Ministério do Trabalho, devidamente corrigida pela inflação, a remuneração mensal de um deputado federal equivale, por exemplo, ao salário médio de 2 diretores de empresa.

“Não o dos diretores das minhas empresas”, poderia reclamar um parlamentar mais exaltado. Mas convém lembrar que nem toda família ocupacional é tão unida e igualitária quanto a dos nababos, em que todos ganharão o mesmo valor a partir de fevereiro. Toda média esconde distorções.

Os responsáveis pelas estatísticas da RAIS dividem a massa salarial da família ocupacional pelo número de seus integrantes. No caso, R$ 117 milhões por 8.183 diretores de marketing e comercialização. Uns ganham mais do que outros, mas, na média, eles recebiam R$ 14,4 mil em dezembro de 2009.

Por essa conta, 1 deputado federal vale 3 engenheiros, 5 advogados, 6 médicos, 7 gerentes, 8 bancários, 9 dentistas, 10 professores de escola técnica, 11 operários de montadoras de carros, 14 mecânicos, 15 professores do ensino médio, 17 professores do ensino fundamental, 20 auxiliares de enfermagem.

Com a diferença suplementar de que esses profissionais costumam ganhar no máximo 13 salários por ano. Um parlamentar recebe 15.

Quando estendemos a comparação a outras ocupações que não exigem diploma, a distância entre os nababos e os trabalhadores brasileiros aumenta exponencialmente.

Com o salário de um deputado federal dá para pagar 29 porteiros, 32 padeiros, 33 carregadores, 34 recepcionistas, 36 cozinheiros, 37 lixeiros, 38 garçons, 40 faxineiros, 44 empregados domésticos ou 47 profissionais do sexo.

Pensando bem, melhor esquecer esta última comparação. Um dos lados pode se ofender.

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Quando pensa em população rural, qual imagem lhe vem à cabeça? A de alguém carpindo o chão em plagas distantes? A de um caboclo cutucando o bicho-de-pé na porta da tapera? Como diria aquele velho mote publicitário, você precisa rever os seus conceitos.

Duas das três maiores populações rurais do Brasil estão circunscritas nas áreas de São Paulo e de Brasília. Segundo o Censo 2010 do IBGE, 119 mil paulistanos e 87 mil brasilienses não são urbanos. A lista de exotismos estatísticos não fica por aí.

A campeã rural, com 125 mil pessoas, é São José do Ribamar, no Maranhão. Não é nenhuma comunidade agrícola isolada e distante. A 16 km da capital maranhense, faz parte da Grande São Luís.

Na conta da população rural das metrópoles entram desde os guaranis da aldeia Curucutu, no extremo sul de São Paulo, até mini-latifundiários da capital federal que habitam condomínios de luxo para além do Plano Piloto. Estes, se exploram a terra, não o fazem com enxada.

A diferença entre rural e urbano no Brasil tem mais a ver com regras municipais de ocupação do solo e cobrança de impostos do que com estilos de vida ligados à lavoura.

O Censo não tem critérios próprios para diferenciar uma coisa da outra. Usa o perímetro urbano, uma linha imaginária traçada por governos municipais segundo idiossincrasias locais. Pela falta de padronização, é de pouca serventia para extrair conclusões de âmbito nacional.

Na Chapada dos Parecis, em Mato Grosso, Sapezal é um dos maiores centros produtores de soja do mundo. Do alto da torre de telefonia, no centro da cidade, avista-se 360 graus de campos arados que ultrapassam o horizonte. E quase nenhuma casa fora do quadrado urbano.

Sapezal empata com a média brasileira em população rural: 16%. Dos seus 18 mil habitantes, quase a metade chegou nesta década, atraída pelo boom econômico. Os recém-chegados se instalaram na área urbana e se ocuparam no ramo de serviços. Uma minoria dirige tratores.

Capital do país dos treminhões, Ribeirão Preto foi a cidade paulista que mais atraiu migrantes nos últimos 10 anos. Sua economia depende da cana-de-açúcar, mas o município é mais urbano que São Paulo: só 0,3% da população mora na área rural, contra 1,1% dos paulistanos.

Do ponto de vista da ocupação da mão-de-obra, o agronegócio é cada vez menos rural. Mesmo quem trabalha no campo, sempre que pode, vai morar na cidade. As pessoas querem estar perto da escola, do comércio, querem se conectar à internet, falar pelo celular.

O caipira trocou o cavalo e a charrete por veículos motorizados. A maior frota per capita de motocicletas do país não está em nenhuma capital, mas em Tocantinópolis (TO), na região do Bico do Papagaio: uma para cada três habitantes.

A distância salarial do interior para as capitais ainda é grande, mas já foi maior. Em 2009, o salário médio de um empregado registrado em Ribeirão Preto era R$ 1.519, contra R$ 2.109 em São Paulo. A diferença tende a continuar caindo à medida que aparecem empregos mais qualificados no campo.

Símbolos das piores condições de trabalho, cortadores de cana estão em extinção no centro-sul do País. É mais negócio para as usinas de açúcar e álcool substituí-los por operadores de colhedeiras pilotadas por joystick em cabine com ar-condicionado.

São exemplos e não exceções no interior do Brasil. Algo que um grupo de pesquisadores da Unicamp batizou de complexo rururbano, pela inutilidade de se continuar riscando uma separação entre o perímetro urbano e o mundo rural.

Os limites se confundiram e suas economias se fundiram. Associar o rural exclusivamente ao atraso é que é atrasado. O Brasil precisa se livrar do complexo de Jeca Tatu, de ter vergonha de ser o mais eficiente produtor agrícola do mundo.

Se chegou a essa condição, não foi só pelo solo, clima e extensão. Mas pelas pessoas que desenvolveram conhecimento científico em núcleos de excelência como a Embrapa e o Centro de Tecnologia Canavieira.

É uma combinação que não existe em nenhuma outra parte do planeta, não na escala brasileira. É certo que o País não deve só plantar, criar e extrair, mas ignorar essas vantagens competitivas, não investir nelas, é tão avançado quanto carpir e cutucar o bicho-de-pé.

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Depois de cinco séculos recebendo migrantes de todas as partes do Brasil e do mundo, São Paulo tornou-se uma “exportadora” de gente no século 21. Entre moradores que chegaram e pessoas que abandonaram a cidade, a capital paulista perdeu 293 mil habitantes nesta década.

É o que os demógrafos chamam de saldo migratório negativo. São Paulo só continuou crescendo porque o saldo vegetativo foi alto: 1,770 milhão de nascimentos contra 667 mil mortos entre 2000 e 2010, segundo dados do Datasus (Ministério da Saúde).

Ou seja, enquanto 1,103 milhão de novos habitantes entravam pelas maternidades, outros 293 mil saíam pela via rodoviária (ou pelo aeroporto). No fim das contas, a cidade incorporou 810 mil novos paulistanos em 10 anos e chegou a 11,244 milhões de habitantes.

Ao contrário de décadas anteriores, há indícios de que o destino dos moradores que emigraram de São Paulo não tenha sido a periferia da região metropolitana. Isso porque vários municípios importantes do entorno paulistano também tiveram saldo migratório negativo.

Foram os casos de Osasco (-58 mil pessoas), Carapicuíba (-26 mil), Santo André (-21 mil), Diadema (-20 mil), São Bernardo do Campo (-14 mil) e Barueri (- 6 mil), entre outras. Elas têm mais moradores hoje do que tinham há dez anos, mas foi graças aos nascimentos ocorridos dentro do próprio município.

É uma nova tendência. Na segunda metade do século 20, muitas dessas cidades cresceram absorvendo moradores da cidade de São Paulo, principalmente os de baixa renda.

Ao que tudo indica, a centrifugação populacional paulistana perdeu força no século 21. Poucas cidades vizinhas à capital tiveram saldo migratório positivo. Destacam-se Cotia (+29 mil pessoas) e Santana de Parnaíba (+ 23 mil pessoas).

Ambas têm em comum uma acentuada desigualdade social: abrigam tanto condomínios destinados a moradores de alta renda quanto uma população pobre que vive fora dos muros. O perfil das duas cidades sugere que podem ter recebido paulistanos ricos.

Há muita gente que deixou os Jardins ou o Morumbi, em São Paulo, para morar em casas mais amplas e, teoricamente, mais seguras em condomínios como Alphaville (Santana de Parnaíba) e Granja Viana (Cotia). O resultado disso pode ser visto nos congestionamentos matutinos e vespertinos nas estradas que ligam a capital a essas cidades/condomínios.

O mesmo vale para cidades que não pertencem à região metropolitana de São Paulo, mas que estão próximas o suficiente para abrigar gente que trabalha na capital e viaja diariamente, como Jundiaí (saldo migratório de + 20 mil habitantes) e Valinhos (+ 17 mil).

O pesquisador Alberto Augusto Eichman Jakob lista essa “desconcentração” como uma das possíveis causas do saldo migratório negativo da cidade de São Paulo na década. Mas levanta uma hipótese complementar: migração de retorno.

Pessoas que migraram do Nordeste e/ou de Minas Gerais para São Paulo décadas atrás conseguiram fazer seu pé-de-meia trabalhando na cidade e decidiram voltar às suas regiões de origem. Isso seria potencializado pela melhoria das condições econômicas desses locais, fruto do crescimento econômico dos últimos anos.

O pesquisador do Nepo (Núcleo de Estudos Populacionais da Unicamp) ressalva que será necessário fazer estudos mais aprofundados para confirmar essa hipótese.

O Estado de São Paulo, no seu conjunto, continua sendo um imã populacional: atraiu 557 mil migrantes de outros Estados e países desde 2000. Elas têm perfis distintos: algumas são movidas pelo agronegócio, outras pela indústria e ao menos uma pelo turismo.

Os polos paulistas que mais atraíram migrantes na década foram Ribeirão Preto (saldo migratório positivo de 59 mil habitantes), Sorocaba (+ 47 mil), Praia Grande (+ 45 mil), Indaiatuba (+ 38 mil) e Campinas (+ 32 mil).

Colaborou Alexandre Gonçalves.

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29.novembro.2010 00:34:55

Senso ao Censo

Os números definitivos do Censo 2010 começam a ser divulgados hoje pelo IBGE. Levará meses para que todos os dados sejam processados e tornados públicos. Riqueza e diversidade de informações como as que vêm por aí, para todos os municípios, só de dez em dez anos.

Por enquanto, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística deve divulgar os dados de população total dos 5.565 municípios brasileiros, a divisão por sexo dos moradores e a localização de sua residência, se rural ou urbana.

Parece pouco, mas já basta para escanear o Brasil literalmente de A a Z, de Abadia de Goiás à catarinense Zortéa. Do maior município, São Paulo e seus 10,7 milhões de habitantes, ao menor deles, Borá e seus 805 moradores.

As novas informações devem corrigir eventuais erros detectados nas tabelas publicadas em 4 de novembro no Diário Oficial da União. Algumas merecem investigação de outros órgãos públicos, como a Justiça Eleitoral.

Há casos mais do que curiosos. Em Dom Pedro de Alcântara (RS), na região metropolitana de Porto Alegre, há 31% mais eleitores do que moradores: 3.335 a 2.538. A diferença é recorde nacional, em termos proporcionais.

Confrontando-se os dados do TSE com os do IBGE, percebe-se que esse fenômeno se repete em outros 115 municípios brasileiros. Eles têm “excedentes” de eleitores que variam de 1.410, como em Severiano Melo (no oeste potiguar), a apenas dois (em Professor Jamil, no sul de Goiás).

A gaúcha Dom Pedro e a catarinense Ermo se destacam por outra proeza: houve mais gente comparecendo para votar no primeiro turno das eleições deste ano do que os recenseadores do IBGE encontraram morando nas duas cidades.

Não se deve tirar conclusões precipitadas. Ambos os municípios perderam população na última década. Pode ser que esses cívicos dom-pedro-alcantarenses e ermenses tenham se mudado para outra cidade mas não transferiram seus títulos de eleitor. Surpreendente é terem voltado para votar.

Tão ou mais importante do que comparar os resultados do Censo a outras bases de dados municipais, é extrair senso das informações.

O Estado começou ontem a transformar números em histórias, numa série de reportagens de Lourival Sant’Anna. Ele narra os casos de municípios muito distintos e distantes, mas que sintetizam os vetores do crescimento do Brasil neste século.

Rio das Ostras (RJ) foi o que mais ganhou população, proporcionalmente, entre 2000 e 2010 -e sem artifícios demográficos. Isto é: exclui-se da conta o drama da paulista Balbinos, que viu sua população triplicar de uma hora para outra após a instalação de um presídio.

O balneário fluminense é a Xangrilá de milhares de funcionários e prestadores de serviço da Petrobras que se mudaram para a região de Macaé por causa da indústria do petróleo. Só para Rio das Ostras foram 65 mil novos moradores em dez anos.

A exploração mineral é uma das locomotivas das migrações internas. Por emprego em um canteiro da Vale ou por um barranco de garimpo, dezenas de milhares de pessoas desembarcaram nas paraenses São Félix do Xingu, Canaã dos Carajás, Parauapebas e Tailândia na última década.

Outro vetor capaz de transformar uma pacata cidadezinha em uma cidade média em menos de dez anos é o agronegócio. Motor demográfico do Centro-Oeste, alavancou municípios como Rio Verde, Rondonópolis e Sorriso.

Foi a soja que colocou Sapezal no mapa de Mato Grosso. Um pequeno pedaço da  fazenda dos Maggi (família do ex-governador Blairo) virou uma cidade que cresce 8,28% ao ano. Quem pode reclamar da transformação do cerrado em plantação são os índios Parecis, que dão nome à chapada onde fica o município.

A outra ponta dessa corrente migratória está no oeste do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, e no centro ocidental paranaense. É de lá que ainda partem muitos dos novos moradores do Centro-Oeste. São regiões que estão perdendo gente há décadas, mas não são as únicas.

Nada menos do que 30% das cidades brasileiras têm menos moradores hoje do que tinham em 2000. Algumas cederam população para a criação de novos municípios, mas a maioria das 1.648 que decresceram viu seus habitantes partirem em busca de novas plagas.

Mas isso é assunto para outra coluna.

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A população brasileira amadureceu, em mais de um sentido. E, com ela, a democracia no
País. A frase soa pomposa, até meio melodramática, mas é apenas uma questão de tempo e oportunidade.

A maior geração brasileira de todos os tempos tem hoje entre 20 e 30 anos de idade. Numa feliz coincidência, os “babyboomers” de Pindorama chegaram à idade de trabalhar num momento de franca expansão das vagas de emprego no País.

A oferta de uma coorte numerosa e mais escolarizada que as anteriores casou com a demanda crescente por mão-de-obra. Isso cria condições muito favoráveis para o Brasil explorar sua “janela demográfica”.

Como uma pessoa, uma nação envelhece. O peso das camadas idosas aumenta e o dos jovens diminui à medida que cai a taxa de filhos por mulher. É o problema enfrentado há tempos pela maioria dos países europeus.

Antes disso, porém, há um período áureo, em que a população em idade ativa cresce em proporção aos escolares e aposentados. Há mais gente produzindo e gerando riqueza. Com menos dependentes jovens e ainda relativamente poucos idosos, o PIB per capita cresce.

Durante esse intervalo, há uma oportunidade de desenvolvimento acelerado, como ocorreu com os EUA na segunda metade do século passado. A janela demográfica gringa teve seu auge nos anos 60 e 70, um período de grande ebulição cultural e econômica.

O fenômeno se repetiu com os “tigres asiáticos” nos anos 80 e 90. A América Latina e o Brasil sentem os ventos do desenvolvimento passando por sua janela demográfica. A capacidade de aproveitá-los depende de um sistema político estável e sensível às mudanças.

Um estudo do Ibope apresentado nos EUA durante reunião mundial de pesquisadores aponta a coincidência entre a janela demográfica e o amadurecimento da democracia brasileira.

(clique na imagem para ampliar)

A série de sinais captados em pesquisas qualitativas e quantitativas mostra que o comportamento do eleitor está cada vez mais pragmático e maduro. O voto é menos impulsivo e mais refletido. O eleitor pondera o que tem a ganhar ou a perder com os candidatos.

Cresceu também a convicção de que votar faz diferença e vale a pena. No mês passado, recordes 72% dos brasileiros disseram que iriam às urnas mesmo se não fosse obrigatório. Na eleição de Barack Obama, votaram 62% dos eleitores aptos, maior taxa desde os anos 60 nos EUA.

No Brasil de 2010, houve um crescimento de surpreendentes 10 pontos porcentuais desde março. Isso é sinal de que a campanha eleitoral motivou positivamente os brasileiros, e fez crescer seu desejo de participação política. Essa tendência, porém, vem de antes. Desde 2005, pelo menos.

No começo da década, 51% dos brasileiros diziam que não votariam se não fossem obrigados. A taxa de eleitores voluntários cresceu lentamente nos anos seguintes. Só houve um salto significativo em 2006, ano de campanha para presidente e governador.

Esse sinal de fé na democracia representativa é consequência de seis eleições ininterruptas para os principais cargos do País. Que produziram quatro mandatos presidenciais seguidos com inflação controlada, aumento do consumo e estabilidade institucional.

Fica evidente nas pesquisas do Ibope que o brasileiro valoriza a continuidade das políticas públicas de sucesso, seja o Plano Real ou o Bolsa Família, e entende que o voto é seu instrumento para avalizá-las.

Esse quadro positivo não significa que o Brasil esteja condenado a dar certo. A janela demográfica é uma oportunidade a ser explorada. Excesso de mão-de-obra combinado com falta de emprego, por exemplo, é receita para instabilidade política.

O momentum populacional também pressiona a demanda por melhores serviços de saúde e pela preparação da Previdência Social para a etapa seguinte, de envelhecimento da população e aumento da taxa de dependência.

Daí a enorme responsabilidade da atual geração de governantes, de aproveitar a janela demográfica e democrática, investir em oportunidades e capacitação dos babyboomers e começar uma poupança para quando essa onda chegar à idade de se aposentar.

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Ao fazer 20 anos, o Índice de Desenvolvimento Humano amadureceu, se sofisticou, mas perdeu em simplicidade e universalidade -duas marcas do seu sucesso. Nas últimas décadas o IDH mudou o paradigma do que seja desenvolvimento e deu início a uma onda de índices que medem de tudo um pouco.

Antes do IDH era o PIB per capita, e só. Até 1990, toda medição de desenvolvimento dos países era feita apenas pelo crescimento do seu Produto Interno, dividido pela população. Era uma medida exclusivamente econômica, que tinha no aumento da renda um fim em si mesmo.

O que o paquistanês Mahbub ulHaq e o indiano Amartya Sen conseguiram à época foi um feito, que hoje parece trivial: sintetizar em um só número uma medida de desenvolvimento que tinha o ser humano no centro, e abrangia as dimensões econômica, de longevidade e educação.

A “mágica” foi juntar indicadores com escalas tão diferentes quanto anos de vida, dólares e porcentagens em uma régua comum, que varia de 0 a 1. As três dimensões representadas são as mais básicas: viver o bastante, ter acesso ao conhecimento e um padrão de vida digno.

O IDH fez tanto sucesso que rendeu um Prêmio Nobel de Economia a Sen. Sua engenhosidade foi copiada, adaptada, recriada. O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), lançado pelo governo brasileiro em 2007, é um dos muitos filhos do IDH.

Em seu 20º aniversário, os criadores do IDH substituíram três dos seus quatro indicadores, mudaram sua fórmula de cálculo e, de quebra, lançaram três novos índices, complementares. Em contrapartida, em vez de 184, seu ranking agora só compreende 169 nações.

Na dimensão educação, saem o analfabetismo e a taxa de matrícula. Em seu lugar, entram a média de anos de estudo da população adulta e os anos esperados que um aluno deve passar na escola. Foi uma boa troca, embora este último indicador seja de difícil compreensão.

A média de anos de estudo é uma medida de estoque mais completa do que o analfabetismo. Na verdade, o inclui. É o indicador em que o Brasil vai pior: 102º lugar no ranking, com 7,2 anos, em média. Aí estão incluídos desde jovens de 25 anos com nível superior até idosos analfabetos. É um indicador que custa a mudar.

Os anos esperados que o aluno deve passar na escola é uma medida de fluxo, que pretende aferir como a população jovem de um país está evoluindo no acesso ao conhecimento. Nesse indicador, o Brasil vai melhor, fica na 54ª posição, com 13,8 anos (quanto mais, melhor).

Se fôssemos traduzir esses números em pessoas, seria como uma família cujos pais passaram muito pouco tempo na escola mas conseguiram colocar todos os filhos na faculdade.

Em longevidade, permanece a esperança de vida ao nascer, medida na qual o Brasil evolui a passos de cágado: 72,9 anos e 76ª colocação.

Em renda, saiu o PIB per capita, e entrou a Renda Nacional Bruta per capita, que inclui transferências de não-residentes. O Brasil tem US$ (PPC) 10,607 mil e aparece em 70º lugar.

No novo IDH-D, que inclui as desigualdades internas dos países, o Brasil perde 15 posições no ranking e 27,2% do valor do seu IDH. O que mais contribui para isso é a desigualdade de renda.

No IDG (Índice de Desigualdade de Gênero), o Brasil fica em 80º lugar entre 138 países. Perde 63% do seu potencial de desenvolvimento humano principalmente por causa da baixa representatividade política das mulheres e da alta incidência de gravidez entre adolescentes.

No índice de pobreza multidimensional, o Brasil fica em 39º lugar, entre 104 países. Para ser um “multipobre”, alguém tem que ter privações em 30% da soma dos valores dos 10 indicadores que compõem o índice. Nada menos do que 8,5% dos brasileiros se enquadraram nessa categoria.

É um porcentual maior do que o medido, por exemplo, pela linha de pobreza do Banco Mundial (US$ (PPC) 1,25 por dia), segundo a qual 5,2% dos brasileiros seriam pobres.

O mérito do IDH é mostrar a evolução de um povo em várias dimensões, não só na econômica. Embora os brasileiros estejam contentes com seus atuais níveis de consumo, o índice e seus complementos mostram que ainda falta muito para o pleno desenvolvimento do país.

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