Qual história cada presidenciável vai contar ao eleitor de 2014? Nenhuma resposta definitiva, mas muito ensaios. Do “é preciso fazer mais” à “nova política”, os motes estão em fase de testes. Nenhum foi aprovado. Por ora, são quatro candidatos em busca de uma narrativa. Mais precisamente, um bando de marqueteiros testando múltiplos roteiros. Tentativas e erros. Muitos erros.
Contar histórias é a mais humana das habilidades. É o que prende a atenção do público, especialmente numa campanha eleitoral. Candidato sem uma boa história para contar está liquidado antes de a campanha começar. Em 2010, Dilma Rousseff foi a “mulher de Lula”, a “mãe do PAC”, a “gerentona da continuidade”. Para 2014 esses personagens não servem mais. O filme é outro.
A propaganda oficial ainda não mudou. Está presa aos acertos do passado. No horário do PT na TV, Dilma dividiu a tela com Lula, lado a lado, do mesmo tamanho. Impossível não comparar os dois. Quem ganhou? Lula. Em 2010, ele avalizava a desconhecida Dilma. Agora Dilma é presidente, deve andar com as próprias pernas.
Na propaganda do PT, o cidadão é tratado explicitamente como consumidor. Ficou implícita a ideia de que a prosperidade se compra individualmente. De que a política não dá mais conta de soluções coletivas. Mas esse não é o discurso da oposição?
A propaganda do PSB foi centrada em seu presidenciável. Close após close nos olhos azuis de Eduardo Campos, o narrador da história. Como escreveu Roberto Jefferson (PTB), o governador ficou parecendo mais holandês do que pernambucano. Clipes de contrastes sociais, de avanços e atrasos, culminam com a conclusão do narrador-candidato: “É preciso fazer mais”.
Alguém já disse isso… Ah, foi José Serra (PSDB), em 2010.
Segue o aliado-opositor: “É preciso contrariar os interesses da velha política. Cargo público tem que ser ocupado por quem tem capacidade, mérito, sobretudo espírito de liderança. E não por um incompetente que é nomeado somente porque tem um padrinho político forte”. Quem quiser que vista a carapuça.
Nas palavras de Campos, as conquistas do passado são coletivas, sem protagonista. Foram tanto de Luís (Inácio), quanto de Fernando (Henrique) e de Miguel (Arraes). Mas não de Dilma, que não é citada pelo nome. Já o futuro tem dono: “O Brasil precisa dar um passo adiante. E nós do PSB vamos dar esse passo, junto com o Brasil”. Faltou dizer como.
O céu político está repleto de balões, subindo e descendo nas correntes da opinião pública, impulsionados por manchetes, “likes” e tuitaços. Um dos que furou antes de alçar voo foi o fim da reeleição, assoprado por Aécio Neves (PSDB-MG). Acabou abatido pelo próprio patrono da candidatura do tucano, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mais que previsível, já que FHC foi o pai da ideia.
Mesmo que tivesse flutuado, o balão estava condenado à brevidade. Bastaria algum gaiato lembrar que, por tabela, Aécio estaria propondo um ano a mais para José Genoino (PT) na Câmara.
Mineiro, o senador pulou de pronto para outro palanque, o da Força Sindical, na comemoração do 1º de Maio. E mudou de discurso. Ou melhor, voltou a explorar o efeito tomate. Culpou Dilma pela inflação – frase sim, outra também. Mas não falou nada sobre a proposta dos anfitriões de reindexar salários. Sobre isso, só se pronunciou quando foi indagado, já fora do palanque: é contra, mas a culpa não é de Paulinho da Força, o autor da ideia, é de Dilma. Ãh? Está no script.
E Marina Silva? Não tem palanque, não tem horário de TV, não tem cargo, não tem partido. Só tem a narrativa – de 2010.
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Contrariamente ao provérbio português, jabuti sobe em árvore – desde que ela esteja plantada em Brasília. Na capital do poder, quelônios praticam arvorismo todo dia. Surgem trepados em galhos com tanta frequência e há tanto tempo que só pode ser por vontade própria. Apareceu outra tartaruga ninja na semana passada.
A Câmara dos Deputados aprovou em regime de urgência projeto de lei que praticamente inviabiliza a candidatura presidencial de Marina Silva (sem partido) em 2014. A pressa não teve nada a ver com a ex-petista aparecer no Ibope como o nome de maior potencial para enfrentar Dilma Rousseff (PT). Foi coincidência.
O projeto peemedebista é pura boa intenção. Cria barreiras à proliferação de nano-partidos que infestam o Congresso. Ao impedir que siglas recém-criadas ganhem tempo de propaganda graças à adesão de deputados eleitos por outra agremiação, quebra um ciclo vicioso. Acaba com barganhas por minutos de TV. De quebra, deixa Marina falando sozinha.
Foi com esse espírito desinteressado que peemedebistas, petistas e pessedistas se juntaram para aprovar o projeto. Não importa que o PSD tenha sido criado exatamente assim e hoje seja um pilar de sustentação do governo no Congresso. O que passou passou.
Nesta semana, tão desinteressadamente quanto seus colegas, tucanos, socialistas e anexos tentarão aprimorar o texto aprovado. Vão a voto suas propostas de jogar para 2015, ou quem sabe para 3015, a entrada em vigor da nova regra saneadora. Se por acaso se beneficiam diretamente do adiamento, o que podem fazer? O que é justo é justo.
O PSB também propõe excluir do projeto a distribuição do dinheiro vindo do Fundo Partidário. Afinal, os novos partidos só não são partido no nome. Nada mais de acordo com os ideais socialistas: se é seu, é meu, é nosso.
E assim, pensando apenas no bem comum, na coisa pública e nos princípios republicanos, nossos representantes rescrevem as leis do mundo. Às vezes, revogam até postulados matemáticos.
No ano passado, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou parecer favorável a projeto que transforma em crime punível com prisão a publicação de pesquisa eleitoral cujo resultado fique fora da margem de erro. E se a pesquisa foi divulgada dias antes da eleição? Cadeia. E se o eleitor mudou de opinião? Xilindró.
Os deputados querem obrigar o eleitor a escolher seu candidato até cinco dias antes da eleição, sem direito a mudar de ideia. Se mudar, é crime. Mas a culpa não é dele, é de quem ousar constatar que o eleitor pensava em votar de um jeito e passou a votar de outro. Esse sim é quem vai passar até um ano em cana e pagar R$ 1 milhão de multa. Resumindo: cala-te ou te prendo.
Os deputados agiram com a melhor das intenções, sem nem sequer cogitar que isso fosse uma forma de censura, muito menos de legislar em causa própria. É mero acaso que políticos processem institutos por atribuir às pesquisas – e não à vontade do eleitor – a falta de votos que os impede de vencer eleições.
Tampouco os deputados têm obrigação de saber que a margem de erro só faz sentido se considerado o intervalo de confiança no qual ela se insere. Nem que todas as pesquisas eleitorais divulgadas no Brasil adotam e divulgam um intervalo de confiança de 95% – o que significa que sabe-se de antemão que o resultado de 5 a cada 100 pesquisas estará fora da margem de erro. Segundo a CCJ, isso não é estatística, é fraude criminosa.
Uma legislação que os deputados ainda estão por aprovar é a que pune – não com cadeia, mas com inelegibilidade – a apologia do cinismo. Promoveria salutar renovação do Congresso.
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Enquanto presidenciáveis da oposição falam para empresários e públicos já catequizados, Dilma Rousseff (PT) acelera a própria sucessão. Transforma inaugurações em comícios, e pronunciamentos formais em discursos de campanha. O descompasso entre a velocidade da presidente e a lentidão dos opositores faz parecer que são eles e não ela a ostentar intenção de voto recorde.
Dilma têm 35% das intenções de voto espontâneas tanto no Ibope quanto no Datafolha. É uma taxa inédita para um presidente disputando reeleição a um ano e meio do pleito. Mas grande parte desses eleitores são cativos, declaram voto no candidato petista seja ele quem for. Partidários, aprovam qualquer gestão do PT.
É o que acontece com o prefeito paulistano Fernando Haddad, cujo saldo de aprovação com cem dias de mandato só não é maior do que o de outra prefeita petista de São Paulo: Marta Suplicy. Mas Marta não conseguiu se reeleger – porque o eleitorado cativo do PT nunca basta para um petista alcançar maioria absoluta.
A questão, portanto, não é quão intenso está ou não o apoio do terço de petistas ao seu candidato, mas qual a força da candidatura do PT nos outros dois terços do eleitorado -seja o brasileiro ou o paulistano.
Segundo o Datafolha, quase metade dos 35% de votos espontâneos de Dilma vem hoje de eleitores que se declaram petistas ou simpatizantes. É um fato contra o qual a oposição pode pouco.
O peso dos petistas no total dos que declaram voto em Dilma diminui quando a intenção de voto é estimulada. Isso ocorre porque mais eleitores não-petistas tomam conhecimento, pelo pesquisador, de quem são os candidatos e, a partir dessa informação, escolhem um nome. Se só conhecem ou ouvem falar do nome de Dilma, tendem a citá-lo com mais frequência.
Esse é o campo de manobra dos oposicionistas. Mas, para manobrar, os candidatos a presidente da oposição precisam se tornar conhecidos e ter um discurso com apelo às aspirações desses eleitores não-petistas. Por enquanto, nenhum presidenciável oposicionista encontrou seu público nem seu mote.
“Faremos uma campanha permanente de oposição clara ao governo do PT porque, para o Brasil, esse ciclo de governo do PT precisa e deve ser interrompido”, disse Aécio Neves (PSDB-MG), em seminário promovido pelo PPS na Câmara dos Deputados.
A frase joga a oposição ao futuro, como algo a ser feito. Antes tarde do que nunca. Mas ao chamar sua campanha de “permanente”, as palavras do candidato contradizem os votos do senador.
Nos dois primeiros anos de mandato, Aécio foi mais governista do que opositor nas votações nominais no Senado: votou com o governo 55% das vezes. Foi superado em “oposicionismo” por seis colegas da bancada tucana, mas em “governismo”, por apenas três. Não é das mais claras e permanentes demonstrações de oposição.
Aécio Neves mirava o governador Eduardo Campos (PSB-PE), um aliado que sobe em palanques com Dilma enquanto aguarda e torce por uma oportunidade para lançar-se em voo solo à Presidência. O governador de Pernambuco faz um discurso oposicionista que mais assopra do que morde, à espreita de uma crise econômica que ainda não chegou – e talvez não chegue em tempo para a sucessão.
As chances de Campos residem num fracasso claro de Dilma na área econômica. Não um fracasso de índices e indicadores, mas de percepção popular. Algo que seja sentido no bolso antes de ser propagandeado em campanhas de comunicação. Mas a eventual derrocada da presidente não poderia ser rápida e forte a ponto de ressuscitar um fantasma hoje esquecido: a volta de Lula.
O problema do governador de Pernambuco, portanto, não é apenas o timing da pressuposta crise econômica, mas também a sua intensidade. Ele não controla nenhum desses fatores e, portanto, sua candidatura será, se for, fruto apenas de oportunidade – salvo, é claro, a hipótese de Campos assumir um discurso frontalmente oposicionista e abrir mão das benesses federais.
Outra banda da oposição tenta fazer do tomate uma limonada. No desejo de provar a si mesma que o precipício econômico está logo ali em 2014, confunde preço alto com inflação. Na busca de um ícone popular para a crise ansiada, trocou o PIB pelo fruto.
O que corrói a renda são aumentos sucessivos de preços, não oscilações sazonais exorbitantes. Só será possível extrair sumo eleitoral do tomate se seu preço continuar a subir sem parar. E não basta ser só o tomate e a cebola. Tem que subir todo o resto do churrasco: a carne, o arroz, o pão. Tem que subir e não cair. Fora esse cenário, a piada com tomate já vem pronta e repisada.
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Um é o mais despreocupado do mundo com a economia, nunca teve tão pouco medo de perder o emprego e está confiante de que vai poder gastar mais. O outro desconfia do futuro econômico do país, teme por seu negócio e segura investimentos. Seria irrelevante se um não consumisse o que o outro produz. Raras vezes consumidores e empresários brasileiros divergiram tanto.
Esse desencontro de pontos de vista fica claro em uma série de indicadores e pesquisas divulgados ao longo dos últimos dez dias – todos eles positivos quando o pesquisado eram os consumidores, e todos negativos quando as respostas vinham dos industriais.
O descompasso entre oferta e demanda não costuma sair de graça. Quando há mais gente disposta a comprar e não há contrapartida na oferta de produtos, o mercado tende a subir preços. Se quem demanda tem renda maior do que costumava ter, a margem de manobra fica ainda mais favorável a quem controla a oferta, e os preços tornam-se especialmente altos, como no Brasil hoje.
Mas isso não tem afetado a disposição do consumidor de fazer o que aprendeu a fazer melhor: comprar. Em parte, porque o governo tem buscado compensar os aumentos de preços com redução de impostos e taxas. E também porque os salários continuam com poder de compra alto, apesar da inflação.
O índice de confiança do consumidor voltou a subir em março. Mais do que a retomada, o indicador calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra a sustentação do otimismo em patamares historicamente altos.
Pré-governo Dilma, só em dois momentos o INEC chegou aos níveis atuais: nos finais do primeiro e do segundo mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não é coincidência. A confiança do consumidor tem alta correlação com a popularidade do governante – sobem e caem juntas. Logo, não é de surpreender que o presidente busque manter o consumidor confiante quando se aproxima a eleição que decidirá quem vai sucedê-lo.
O INEC é um índice composto a partir de seis perguntas que medem a expectativa de inflação e do emprego, a satisfação com a renda atual e a perspectiva da renda futura, o grau de endividamento e os planos do consumidor de comprar bens de valores altos. Três desses fatores se correlacionam especialmente com a popularidade presidencial: os dois relativos à renda e o medo do desemprego.
Na semana passada, a CNI divulgou pesquisa mostrando que o medo do desemprego está no menor patamar da série histórica – em linha com o que mostram as taxas de desemprego. E os dois indicadores de renda que compõem o INEC só não têm performance melhor do que o do emprego. Essas são as chaves para entender a popularidade recorde da presidente Dilma Rousseff.
O brasileiro não considera mais o emprego e o salário suas principais preocupações na vida. Com a sobrevivência garantida, ele pode se ocupar de outras questões e eleger outras prioridades. Uma pesquisa feita em 56 países e divulgada na semana passada mostrou que, entre todos, o brasileiro é o mais despreocupado com a economia – a perfeita antítese do espanhol.
Indagado sobre quais os principais problemas do mundo (leia-se o mundo ao seu redor), só 14% dos brasileiros citaram problemas econômicos. A taxa não é apenas baixa, é ridiculamente baixa. O dobro de chineses, indianos e russos disseram que as questões econômicas são as que mais os preocupam.
Essa diferença entre o Brasil e os outros BRICS é a prova de que o crescimento do Produto Interno Bruto tem muito pouco ou quase nada a ver com o grau de satisfação da população. Por isso é do interesse da oposição trocar o disco – mesmo que o crescimento econômico do Brasil medido pelo PIB seja medíocre. Importante para o país, o índice é insignificante na eleição.
A mesma pesquisa global dá uma pista para os adversários de Dilma. O levantamento mostra o que mais causa preocupação no Brasil hoje: as drogas e a criminalidade – associadas ou não. Nada preocupa mais o brasileiro, e ninguém se preocupa tanto com esses problemas. Os brasileiros têm as maiores taxas de preocupação com drogas e crime entre os 56 países.
Na economia, o presidente tem todo o bônus quando acerta e todo o ônus quando erra. No combate ao tráfico de drogas, à epidemia do crack e na repressão à violência, a responsabilidade – aos olhos do público – é compartilhada entre todos os governantes: da prefeitura ao Planalto, passando pelos palácios estaduais.
O candidato de oposição que conseguir mostrar serviço nessas áreas terá agenda própria e um discurso pós-econômico. Se a economia piorar, como prevêem os empresários, ele se beneficiará junto com todos os adversários do governo, mas com a vantagem de não parecer ter torcido para que isso acontecesse.
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Quando um candidato dispara tão na frente dos outros quanto Dilma Rousseff (PT), o risco é dar-se a corrida eleitoral por terminada antes de ela começar. Hoje a presidente é imbatível. Nunca antes na história eleitoral brasileira um incumbente abriu tanta distância dos outros presidenciáveis a tanto tempo da eleição. Há dois problemas embutidos nessa frase, porém.
A história eleitoral brasileira é curta. Só dois presidentes disputaram a reeleição. Saíram vitoriosos – é fato -, e um deles foi o presidente mais popular desde a redemocratização, mas não dá para criar uma teoria a partir de dois ou três casos apenas. A dimensão do feito de Dilma é notável, especialmente para um “poste”. Mas ter perspectiva é bom e conserva os saltos baixos.
A inédita vantagem de Dilma ocorre a um ano e meio da eleição. É mais provável que a vantagem aumente ou diminua até 2014? A presidente está em ascensão, mas ficou tão perto do teto que corre risco de bater a cabeça. Se ela oscilar do “excelente” para o “ótimo”, a manchete será “Dilma caiu”. O desempenho de Dilma na opinião pública é excepcional – o “timing”, nem tanto.
Se algo pode dar errado para Dilma, o que será? A popularidade da presidente está nas nuvens. O julgamento do mensalão ficou para trás. A economia começa a dar sinais de recuperação. Justamente.
Marqueteiro eleitoral da presidente, João Santana deve coçar a cabeça quando vê o ministro da Fazenda, Guido Mantega, projetar um crescimento de 4% do PIB brasileiro para 2013. Não por medo de que ele erre novamente, mas de que acerte.
Com os reservatórios das hidrelétricas do Sudeste 40% mais vazios do que a média histórica recente, o crescimento acelerado da indústria produziria uma demanda extra por eletricidade que pode não casar bem com o período de secas que se avizinha. Esgotar as represas em 2013 implica comprometê-las para 2014.
Se a economia logo começar a crescer mais depressa, antecipa-se o risco de descompasso entre oferta e demanda. Mais filas nos portos e aeroportos, atrasos nos suprimentos. Resultado plausível: preços sobem, pressionando ainda mais a inflação.
Excitação demais antes da hora costuma resultar em comemoração precoce. Por isso, por mais paradoxal que pareça, um pibinho pode ser melhor que um pibão em 2013 – se não para a presidente e o país, ao menos para a candidata. Há precedente. Mesmo com o PIB crescendo 0,9% em 2012, Dilma chegou onde está.
E como a candidata petista chegou tão longe? Por mérito próprio e ajuda dos adversários.
Dilma conseguiu uma coesão partidária em torno do seu nome de dar inveja a Aécio Neves (PSDB). Mantendo a popularidade alta e o consumidor confiante, ela liquidou as especulações sobre uma volta de Lula. O Ibope mostrou que o eleitor lulista também compreendeu isso e, nos últimos quatro meses, intensificou a migração para Dilma. Daí os 35% dela na pesquisa espontânea.
Uma série de anúncios televisivos com apelo popular, como corte de impostos da cesta básica e das tarifas de energia (a nuvem de palavras com a cara de Dilma que ilustra este texto reproduz o discurso presidencial), criou um clima de opinião favorável à presidente. Tanto faz a oposição chamar de populismo. As medidas miraram e acertaram no lugar certo: o bolso da maioria. Consumidor feliz, eleitor contente.
Como resultado, Dilma não só desceu ao patamar de desprezíveis 20% de rejeição, como transfere rejeição para os outros. É difícil crer que 1 a cada 3 brasileiros diga que não votaria de jeito nenhum em Eduardo Campos (PSB) para presidente quando o governador é desconhecido por 1 a cada 2 eleitores. Metade da rejeição a Campos são dilmistas rejeitando quem quer que seja.
Se Eduardo Campos aparecer sozinho na Praça da Sé, na Cinelândia ou até no Pelourinho, corre mais risco de ser assaltado do que assediado. O único lugar onde é reconhecido em São Paulo, Rio e Salvador é nos escritórios de grandes empresários. Pode vir a ser bom para o caixa da campanha, mas não dá voto.
Aécio está um degrau adiante. Compartilha a mesma taxa de rejeição, mas tem um potencial de voto duas vezes e meia maior que Campos. Ao contrário do presidente do PSB, porém, o mineiro não comanda seu partido. Para sua sorte, o Ibope confirmou que José Serra, com 50% de rejeição, é virtualmente inelegível.
Aécio e Campos se complementam eleitoralmente. Concorrendo um contra o outro, mas juntos contra Dilma, diminuem a vantagem da presidente. Mas eles precisam de mais nomes na cédula eletrônica para haver chance de segundo turno. Daí a importância de Marina Silva. A ex-petista divide a preferência de 4 a cada 10 eleitores potenciais de Dilma. É, hoje, quem mais pode tirar votos da presidente. Só lhe falta um partido.
Até 2014, a oposição tem que correr, se multiplicar e torcer para que, desta vez, Mantega acerte sua previsão sobre o PIB.
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Se todos os presidenciáveis tivessem o mesmo grau de conhecimento pelo eleitor, Dilma Rousseff (PT) continuaria franca favorita, mas, no PSDB, Aécio Neves alcançaria um potencial de voto equivalente ao de José Serra. O mineiro chegaria a 41% de eleitores que poderiam votar nele, contra 42% do paulista. É o que mostra pesquisa nacional sobre a sucessão de 2014 feita pelo Ibope a pedido do Estado.
“Apesar de os dois estarem tecnicamente empatados quando excluímos quem diz desconhecer os candidatos, Aécio teria mais espaço para conquistar novos eleitores”, diz Marcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência. O teto de Serra é mais baixo porque ele é conhecido por 86% do eleitorado e tem 50% de rejeição. Para Aécio, essas taxas são de 61% e 36%, respectivamente.
A rejeição a Serra aumentou muito desde abril de 2010, quando ele disputava a eleição presidencial pela segunda vez. Foi a última vez que o Ibope mediu o potencial de voto do tucano usando a mesma técnica empregada desta vez. À época, apenas 32% dos eleitores diziam que não votariam nele de jeito nenhum.
Quando se recalcula o potencial de voto excluindo-se aqueles que não conhecem os candidatos, todos os presidenciáveis ficam em uma mesma base comparável, como se fossem igualmente reconhecidos pelo eleitor – explica Marcia. Nesse cenário, Dilma chega a um potencial de 79%. Marina Silva (sem partido) fica em segundo lugar, com 50%. As taxas somadas superam 100% porque há eleitores que admitem poder votar em mais de um candidato.
Não por acaso, as duas candidatas têm a maior sobreposição de eleitores entre todos os nomes testados pelo Ibope. Nada menos do que 41% dos eleitores que dizem que votariam em Dilma falam o mesmo sobre Marina. Isso indica que a ex-senadora tem o maior potencial de crescimento caso a presidente perca popularidade.
Isso implicaria, entretanto, uma reversão da tendência do eleitorado. Dilma tem uma rejeição menor hoje do que tinha em abril de 2010, quando disputou a Presidência pela primeira vez. À época, 34% diziam que não votariam nela de jeito nenhum. Na atual pesquisa essa taxa está em apenas 20%.
Para a CEO do Ibope, só há duas hipóteses para a rejeição a Dilma aumentar: um descontrole da economia que possa ser sentido no bolso pelo eleitor, ou a eventual necessidade de racionamento de energia elétrica – como aconteceu em 2001 e afetou a avaliação do então presidente Fernando Henrique Cardoso.
“Não bastam indicadores econômicos ruins”, diz Marcia. Na sua opinião, seria necessário o eleitorado sentir uma perda de poder de compra provocada pelo descontrole da taxa de inflação, por exemplo, ou um inesperado aumento do desemprego. “As pessoas estão percebendo que têm oportunidades, pela facilidade de emprego e de crédito. Se isso não mudar, há pouco risco para a popularidade da presidente”, completa a pesquisadora.
A margem aberta por Dilma sobre seus adversários é inédita em uma corrida presidencial no Brasil quando o incumbente tenta se manter no cargo. Houve candidatos que começaram muito na frente e terminaram atrás, mas nunca um presidente. “Há um conjunto de notícias positivas, a percepção favorável do eleitor e uma consolidação alta”, enumera a diretora do Ibope.
Por isso – completa – os candidatos de oposição têm que crescer ainda em 2013 para manterem suas chances. Não é só a popularidade de Dilma que está no caminho deles. Também a Copa do Mundo de futebol tende a atrapalhar.
“No ano que vem tem férias, Carnaval e, logo em seguida, já vai começar o clima de Copa, dividindo a atenção do eleitor. Serão poucos meses úteis para que os candidatos apareçam na mídia e se tornem mais conhecidos”, adverte a CEO do Ibope.
O calendário é especialmente cruel com aqueles presidenciáveis que são menos conhecidos, como Eduardo Campos, do PSB. “Se deixar para mostrar a que veio apenas em agosto ou setembro de 2014, durante o horário eleitoral, não vai dar tempo de crescer. Ou começa a aparecer agora, ou vai ficar tarde”, diz Marcia.
Nunca é demais lembrar, entretanto, que esse é o cenário atual. “Os tetos e potenciais são dinâmicos: vão mudando à medida que os candidatos se tornam mais conhecidos e novos fatos vão se desenrolam”, ressalva a pesquisadora.
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José Roberto de Toledo
Daniel Bramatti
A presidente Dilma Rousseff larga na corrida para sua sucessão com um eleitorado espontâneo três vezes maior do que a soma de todos os seus adversários. Segundo pesquisa nacional do Ibope feita em parceria com o Estado, ela alcança maioria absoluta em todas as simulações de primeiro turno testadas e é a única entre os presidenciáveis com potencial de voto positivo: tem mais eleitores que admitem votar nela do que rejeitam essa hipótese.
Nunca houve uma candidata como Dilma – nem um candidato – na redemocratização. Desde 1989, nenhum presidenciável alcançou, a um ano e meio da eleição, 35% de intenção de voto espontânea – pesquisa na qual o eleitor diz em quem pretende votar sem que o entrevistador mostre ou diga quem são os candidatos.
Quando foram reeleitos, os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) só chegaram a essa taxa após a propaganda eleitoral na TV. Em março de 2006, a seis meses de reeleger-se, Lula tinha 27% na pesquisa espontânea. Em julho de 1998, três meses antes de sua reeleição, Fernando Henrique marcava 25% nesse tipo de pergunta.
Dilma é a candidata à reeleição mais precocemente bem sucedida entre todos os presidentes brasileiros: suas aparições na TV anunciando cortes de impostos e tarifas lhe renderam nove pontos a mais na pesquisa espontânea desde novembro do ano passado. Ela pulou de 26% para 35% em quatro meses. O fato é tão inédito que não há parâmetro histórico para saber se o fenômeno é duradouro.
Em boa parte, a vantagem comparativa de Dilma se deve à falta de outros candidatos com presença marcante na cabeça do eleitor. Adversária com maior potencial segundo o Ibope, Marina Silva (sem partido) tem apenas 2% de intenção de voto espontânea. Os tucanos José Serra e Aécio Neves têm 4% e 3%, respectivamente. Eduardo Campos (PSB) e Joaquim Barbosa têm 1%. Lula tem 12%.
O Ibope mediu o potencial de voto dos candidatos, que, a esta altura da campanha, é o melhor termômetro para avaliar a viabilidade de cada um. Dilma tem potencial de 76%. É a soma dos 52% que dizem que votariam nela com certeza com os 24% que poderiam votar. Como outros 20% não votariam nela de jeito nenhum, a presidente tem um saldo positivo de 56%. Ninguém afirmou desconhecer a presidente.
Marina fica zerada no potencial de voto: enquanto 40% dizem que votariam nela com certeza (10%) ou poderiam votar (30%), outros 40% afirmam que não votariam na ex-senadora de jeito nenhum. Ela é desconhecida por 19% do eleitorado. Todos os outros cinco presidenciáveis testados estão, por ora, com saldo negativo.
Aécio tem 25% de eleitores que votariam ou poderiam votar nele hoje, contra 36% que rejeitam seu nome: saldo negativo de 11 pontos. Já Eduardo Campos tem saldo negativo de 25 pontos: 10% admitem votar nele contra 35% que não votariam de jeito nenhum. Em favor de ambos, uma grande parte dos eleitores não os conhece o suficiente para opinar: 39% desconhecem Aécio; 54%, Campos.
José Serra (PSDB) é o caso oposto. Duas vezes derrotado na eleição presidencial, o tucano só é desconhecido por 14% dos eleitores brasileiros. Apesar de reconhecido, seu saldo é negativo em 15 pontos: 35% admitem poder votar nele, contra 50% que afirmam que não votariam de jeito nenhum. Ao contrário dos outros nomes da oposição, Serra tem pouco espaço para crescer.
A alta rejeição de Serra e o baixo conhecimento dos nomes dos demais oposicionistas tornam as simulações do que seria a eleição de 2014 mais favoráveis para Dilma, por enquanto.
As taxas de intenção de voto estimulas da presidente variam de 53% a 60%, de acordo com o número de presidenciáveis na disputa. A comparação dos três cenários testados pelo Ibope revela que quanto mais candidatos estiverem no páreo, maior a probabilidade de segundo turno. Mesmo assim, se a eleição fosse hoje, a maior chance seria de que Dilma se reelegesse no primeiro turno.
Num cenário “todos contra todos” que inclui sete candidatos, inclusive dois que, hoje, estão no mesmo partido, Dilma chega a 53% do total de intenções de voto contra 33% da soma de seus adversários: 12% de Serra, 8% de Marina, 7% de Aécio, 3% de Joaquim Barbosa (presidente do STF), 2% de Campos e 1% de Fernando Gabeira (PV). Outros 6% dos eleitores anulariam ou votariam em branco, e 8% não souberam responder.
Num segundo cenário, com apenas quatro presidenciáveis, Dilma vai a 58% das intenções de voto, contra 12% de Marina, 9% de Aécio e 3% de Campos. A presidente ganharia cinco pontos em comparação ao cenário “todos contra todos”, enquanto a soma dos rivais perderia nove pontos.
Se Eduardo Campos não fosse candidato, Dilma iria a 60% do total de votos, enquanto Marina ganharia um ponto e passaria a 13%, e Aécio permaneceria com 9%.
Segundo Marcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência, “esta pesquisa tem o menor índice de eleitores que não sabem dizer espontaneamente em quem votar a esta altura da sucessão presidencial. Isso se deve à alta aprovação de Dilma, e à exposição que ela ganhou pela força do cargo. Mas há espaço e tempo até a eleição para outros candidatos se tornarem mais conhecidos e melhorarem ou não sua posição na pesquisa.”
O Ibope entrevistou face a face 2.002 eleitores em 142 municípios de todas as regiões do Brasil entre os dias 14 e 18 de março. A margem de erro é de dois pontos porcentuais, para mais ou para menos.
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Guia ortodoxo dos mercados, o “Financial Times” descreve o início de Dilma Rousseff na Presidência como “seguro” e “encorajador”. Repórteres que cobrem o dia-a-dia palaciano acham-na “silenciosa”. Auxiliares a definem como “detalhista” e “exigente”.
São todas, obviamente, comparações com seu antecessor e patrono. Nessas descrições, Dilma faz um contraponto à imagem percebida de Luiz Inácio Lula da Silva pelo establishment financeiro, burocrático e midiático.
No estilo, é “sóbria” e “pontual”. Não improvisa. No discurso, é econômica, objetiva e fala de temas que Lula ignorava, como cortar gastos e sobre direitos humanos no Irã. Essa é a percepção sobre Dilma projetada em balanços de um mês de governo.
Tem tudo para virar o novo clichê presidencial.
Se Lula chegou a ser pintado como gastador, boquirroto e ignorante, a imagem em construção de Dilma parece mais a de uma CEO do que a de uma presidente (“presidenta” só se o governo flexionar também o gênero de gerentes e serventes).
A definição é de um operador anônimo dos mercados, citado pelo FT. Não deixa de ser curiosa a identificação do executivo financeiro com a nova presidente. É como se ela estivesse de um lado do balcão diferente do que onde Lula parecia estar.
Antes de assumir o figurino, Dilma deve lembrar que: 1) o mercado oscila e muda de ponta com mais rapidez do que o Corinthians sai da Libertadores; 2) Lula cultiva a imagem esnobada pela elite porque ela o aproxima da maioria do eleitorado.
A cada “gafe” presidencial apontada pela imprensa, o ex-presidente somava um pontinho na sua curva de popularidade. A manobra é ancestral, anterior à caspa falsa de Jânio Quadros. Mas o politicamente correto insiste em ignorar seus efeitos.
Dilma não é Jânio nem Lula. Não vai sacar um sanduíche de mortadela da bolsa nem disparar metáforas futebolísticas. Defronta-se com o desafio de projetar uma imagem popular sem ser populista. Ainda não conseguiu.
Na disputa do reajuste do salário mínimo, tem dado a impressão de preferir uma regra estável ao que poderia eventualmente render mais votos. Diferentemente do antecessor, corre o risco de deixar a bandeira popular (e populista) com a oposição.
Durante a tragédia na região serrana do Rio de Janeiro, Dilma foi precisa no timing e correta no discurso. Resta saber se causou empatia às vítimas e a quem estava assistindo.
Se tudo correr bem com a economia até 2014, ela poderá optar por apenas devolver o bastão ao antecessor na corrida pela Presidência, ou forjar uma liderança que a capacite a concorrer à reeleição com as próprias pernas.
Tudo passa pela imagem presidencial a ser construída por Dilma nesses quatro anos. O eleitor não elegeu o melhor CEO em 2010. Nem deve votar nele em 2014.
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Luiz Inácio Lula da Silva atingiu o mais alto índice de popularidade presidencial pós-redemocratização. O recorde, em si, não quer dizer muito. Basta lembrar que ele pertencia a José Sarney. Mais do que o tamanho, é a durabilidade do saldo positivo que faz história.
Pelo Ibope, foram 92 meses com mais gente elogiando do que tachando o governo de ruim ou péssimo. Durante quatro meses de 2005, na crise do mensalão, Lula teve saldo negativo. No resto, ele gozou por mais tempo de avaliação positiva do que os quatro antecessores juntos.
Não há série de pesquisas para períodos anteriores à ditadura, mas pode-se dizer que nunca um presidente eleito diretamente foi popular por tanto tempo quanto Lula -até porque quase ninguém mais passou oito anos democraticamente na Presidência da República.
Os primeiros 15 anos de governo de Getúlio Vargas podem ter sido até mais populares do que os de Lula, mas não foram democráticos. Sobra a era Fernando Henrique Cardoso.
Em dois governos, FHC desfrutou de 52 meses de avaliação positiva. No auge, aprovou a reeleição (que beneficiaria Lula). Mas, após desvalorizar o real, amargou três anos seguidos de impopularidade. Recuperou-se parcialmente no fim, mas começou melhor do que acabou.
É outro feito de Lula: superou a expectativa da população antes da posse, quebrando tradição brasileira de decepcionar-se com seus eleitos. Antes, só Itamar Franco concluíra o mandato mais popular do que começou -mas poucos esperavam muito do vice de Fernando Collor.
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Muitos denunciam o populismo como raiz de tanta popularidade. Daí Lula viver às turras com meios de comunicação e pretender regulá-los. Na linha de frente da crítica está a elite intelectual do País. Mas os formadores de opinião perderam a batalha pelo público. Por que?
A disputa não se dá entre corações e mentes, mas no bolso. Aí notas contam mais que palavras.
Lula não personifica a opinião pública, como afirmou em um dos arroubos discursivos, mas, em matéria de emergentes sociais, ele é uma pesquisa qualitativa ambulante. Parece perscrutar na própria experiência a vontade dessa camada crescente da população.
Quem circula pela periferia das grandes cidades brasileiras não deixa de notar o volume dos congestionamentos, a onipresença de carros novos e a proliferação do pequeno comércio. São faces visíveis da explosão de consumo que impulsionou a popularidade presidencial.
Se na sociedade de massa consumir é sinônimo de inclusão, os últimos cinco anos franquearam acesso às gôndolas do mercado a dezenas de milhões de neolulistas. Para eles, poder comprar é uma conquista. Uma conquista que não arriscam, como aprendeu José Serra.
Lula compreende melhor que seus rivais a força do crediário. A combinação de aumentos do salário mínimo e micro-crédito alimentou a espiral do consumo, multiplicou o mercado interno e beirou o pleno emprego. Se não justifica, ela explica a popularidade do presidente.
Consumindo, com crédito na praça e sem medo de ficar sem trabalho, o eleitor releva filas e maus tratos em hospitais públicos, relativiza a baixa qualidade do ensino oferecido a seus filhos, faz vista grossa à corrupção e minimiza a violência.
É como se Lula se beneficiasse de uma das máximas de Homer Simpson: “Quando eu cheguei já estava assim”. E acrescentasse: “Pelo menos agora vocês estão consumindo”.
Não se pode acusar o público de ser irracional, ignorante e desinformado como o personagem do desenho animado. As pessoas avaliam pragmaticamente sua condição de vida, usando os pesos e medidas que anos de propaganda lhe ensinaram a privilegiar: consumo, logo existo.
Lá e cá insinuam-se reações à popularização: “O aeroporto parece rodoviária”. A comparação denota perplexidade e saudades de um tempo em que voar era para poucos. Melhor se acostumar. A classe C ganhou asas e cartões de crédito. Só Ícaro a faria pousar. Seria um desastre em mais de um sentido.
O mercado de consumo de massa é o legado de Lula a Dilma Rousseff. E sua maldição. Se ela fracassar, não será por inexperiência ou falta de carisma. Será por parar o carrossel das compras. E isso depende tanto da nova presidente quanto das condições macroeconômicas.
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Em pesquisas de avaliação do governo, vale o saldo. Do total de ótimo/bom, subtrai-se a soma de ruim/péssimo: resultado positivo é aprovação; negativo, desaprovação. O “regular” não conta. Nesse critério, Luiz Inácio Lula da Silva bateu o recorde presidencial de José Sarney.
A série histórica do Ibope mostra que muita coisa mudou entre um e outro. Mas o motivo subjacente que orientou as curvas de popularidade do governante de plantão segue sendo o mesmo: o desempenho da economia.
Nos primeiros governos pós-ditadura, o padrão brasileiro era um presidente assumir com enorme esperança da população, e em seguida gerar grande frustração, sempre em meio a uma crise econômica. Foi assim com Sarney e Fernando Collor. Itamar Franco escapou por pouco.
Vice de Tancredo Neves empossado pela doença e morte do eleito no Colégio Eleitoral, Sarney teve seu momento de glória após um ano de governo, quando o Plano Cruzado pareceu controlar a inflação. Mas a aprovação durou poucos meses, como o sucesso do plano.

Em março de 1986, após o congelamento de preços decretado poucos dias antes, o maranhense chegou a 71% de ótimo/bom e 2% de ruim/péssimo: saldo de 69 pontos. Havia quem usasse espontaneamente botons dizendo-se “fiscal do Sarney”. Seria um “céu” efêmero.
No gráfico que ilustra esta página, esse é o ponto mais alto do começo da série. Para facilitar o entendimento, somou-se 100 a todos os valores. Quando a curva cai abaixo de 100, é sinal de desaprovação do governante. Quanto mais alta a curva, maior a popularidade presidencial.
O Cruzado não demorou a fazer água: no fim de 1986, após a eleição maciça de governadores do PMDB, a inflação saiu de controle e a popularidade de Sarney foi afundando à medida que ele trocava de ministro da Fazenda e o País chegava cada vez mais perto da hiperinflação.
Se perdeu o recorde positivo, Sarney mantém o de presidente que caiu mais fundo no abismo da impopularidade: em novembro de 1989, três meses antes de entregar o cargo, chegou a 60% de ruim/péssimo e inflação de 2.000% ao ano. O ministro era Mailson da Nóbrega.
Primeiro presidente eleito diretamente em décadas, o sucessor descreveu uma trajetória muito parecida, embora mais curta. Nada menos do que 59% dos brasileiros esperavam que Collor fizesse um governo ótimo ou bom. Dois anos depois, 41% o tachavam de ruim ou péssimo.
Entre o pico e o vale de sua popularidade, ele confiscou a poupança -por obra da ministra Zélia Cardoso de Mello-, viu a inflação voltar à casa do milhar, afundou-se em denúncias de corrupção e acabou por renunciar para evitar o impeachment.
Itamar assumiu com uma expectativa mais baixa. Não só pela má impressão deixada pelos antecessores, mas porque a crise econômica era séria. Em 1993, o Índice Geral de Preços (IGP) chegou a inacreditáveis 2.851%. Itamar mexeu na Fazenda tanto quanto no topete.
Depois de tentar alguns ministros mineiros como ele, acabou surpreendendo ao nomear um chanceler intelectual para comandar a economia. Os maldosos diziam que era falta de opção. Mal sabiam que graças a isso Fernando Henrique ganharia status de sigla, como JK e ACM.
Em janeiro de 1994, 40% da população desaprovava o governo Itamar. Aí veio o Plano Real, o controle duradouro da inflação e duas consequências políticas: o presidente deixou o Planalto mais popular do que entrou, e o ministro da Fazenda sociólogo virou seu sucessor.
No primeiro mandato, FHC governou com taxas de inflação cadentes e popularidade quase sempre positiva (embora oscilante). Sobreviveu a seguidas crises internacionais, recuperou-se do efeito do massacre de trabalhadores rurais em Eldorado dos Carajás (PA) e reelegeu-se.
Por ironia, o pico dos oito anos de governo Fernando Henrique ocorreu em março de 1997, pouco antes de ele aprovar a emenda constitucional que lhe daria -e aos sucessores- o direito de candidatar-se à reeleição: 56% achavam seu governo ótimo/bom. Nunca mais chegou perto disso.
No início do segundo mandato, em janeiro de 1999, a “equipe econômica” desvalorizou o real, a inflação subiu e oscilou em um patamar de dois dígitos. Ao mesmo tempo, a popularidade de FHC caiu.
A avaliação do presidente só recuperaria o saldo positivo no último ano de governo, mas bem menor do que a expectativa antes da sua primeira posse. A política econômica feijão-com-arroz foi insuficiente para eleger seu sucessor. Domar a inflação não era mais o bastante.
Lula elegeu-se presidente após três derrotas. A expectativa era grande: 51% apostavam num governo ótimo ou bom. No primeiro ano, a redução da inflação de 27% para 7% lhe garantiu popularidade alta. Mas a crise de 2004 fez ela cair a quase zero.
No começo de 2005, a recuperação econômica fez Lula voltar ao patamar de aprovação similar ao do primeiro ano de FHC. Aí veio o escândalo de mensalão. Denúncias de corrupção, queda de Antonio Palloci da Fazenda e o saldo de avaliação de Lula ficou negativo, por quatro meses.
A inflação em 2005 tinha sido a mais baixa desde 1945, os programas de transferência de renda começavam a dar dividendos políticos, o medo do desemprego começava a cair consistentemente, assim como crescia a confiança do consumidor (ambos medidos pela CNI).
Em menos de 12 meses, Lula saiu do risco de sofrer um impeachment para voltar ao pico de popularidade do começo do mandato. Para azar da oposição, isso aconteceu em um ano eleitoral. Reelegeu-se.
Comparado aos seis mandatos presidenciais anteriores, o segundo de Lula foi um passeio. Graças ao incentivo ao consumo, gastos públicos crescentes e políticas de crédito ampliadas, nem a alta da inflação em 2007 e 2008 nem a crise global derrubaram sua popularidade.
Ao contrário, ela só cresceu. Lula chega ao final de oito anos de governo com 80% da população dizendo que seu governo foi ótimo ou bom, e apenas 4% achando-o ruim ou péssimo. Seu saldo de 76 pontos é recorde desde que se avalia presidentes no Brasil.
Lula elegeu sua sucessora, e ela não veio da área econômica. Guido Mantega foi um ministro da Fazenda que viu o PIB crescer 8%, mas jamais foi cogitado como presidenciável. Dilma Rousseff foi eleita falando em obras sociais e de infra-estrutura. A inflação não foi nem sequer tema da campanha eleitoral.
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Mesmo que a participação das forças federais tenha sido acessória na ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula Silva lucrou com a ação. O recorde de sua popularidade alcançado na pesquisa CNI/Ibope está conectado à imagem de sucesso projetada pela operação.
Os que acham o governo ótimo ou bom chegaram a 80% da população em dezembro. É o porcentual mais alto da série. A variação positiva em comparação à pesquisa anterior foi dentro da margem de erro, três pontos porcentuais, mas a marca tem valor histórico, pois será a nota final de Lula.
Embora a diminuição da pobreza e do desemprego sejam as duas maiores virtudes da atual administração federal na opinião dos brasileiros, foi na segurança pública que a avaliação do governo mais evoluiu desde setembro.
A aprovação à atuação federal nessa área subiu nove pontos. Chegou a 49% e, mesmo que tecnicamente empatada com a desaprovação (46%), é simbólico que pela primeira vez o número da taxa positiva esteja à frente do da negativa.
Alguma dúvida de que isso tem a ver com a imagem de traficantes fugindo de morros cariocas e de blindados da Marinha passando por cima de carros? Nada menos do que 1 em cada 3 brasileiros citou espontaneamente a ação das Forças Armadas no Rio como o fato recente ligado ao governo de que mais lembravam.
Os 32% de citações da ocupação do complexo do Alemão se tornam ainda maiores se levarmos em conta que 31% dos brasileiros não souberam responder. Ou seja, praticamente metade dos que disseram alguma coisa se referiram à ação policial/militar.
Essas respostas superaram na proporção de 3 para 1 as citações ao noticiário sobre a formação do novo governo, o segundo fato mais lembrado (11%), junto com os problemas relacionados às provas do ENEM (10%).
Esse é o tamanho do desafio de Dilma Rousseff (PT). A eleita sucede o presidente mais bem avaliado da história do Brasil no ápice de sua popularidade. E nada menos do que três quartos dos brasileiros esperam que ela faça pelo menos igual (58%) ou melhor (18%).
Raros são os presidentes que conseguem chegar ao final do seu governo, especialmente de um segundo mandato, no seu patamar mais alto de aprovação. Em geral, isso ocorre no princípio da administração, antes do acúmulo de desgastes ao longo do exercício do poder.
Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, alcançou seu pico de popularidade em meados de 1997, quando conseguiu aprovar a emenda da reeleição no Congresso. Daí para frente sua avaliação tendeu a piorar.
Lula se beneficiou da aceleração da economia, que aumenta o otimismo da população. É esperado que as pessoas creditem ao menos parte da melhoria de sua condição de vida ao governante de plantão. Não é à toa que o petista chega a seu ápice junto com taxas recordes de crescimento do PIB, como os 8,1% projetados para 2010 pelo IBGE.
A relação de Dilma com a opinião pública nos próximos quatro anos estará diretamente vinculada ao desempenho da economia, ao nível de renda, de emprego e, principalmente, ao consumo da população. Foi o que a elegeu. Pode ser sua consagração ou seu fracasso.
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Até o começo desta semana, a presidente eleita Dilma Rousseff (PT) não conseguia obter uma certidão negativa de débitos referentes a tributos federais no site da Receita. A certidão serve para mostrar que o contribuinte não tem pendências com o Leão. Não obtê-la pode significar desde uma dívida até problemas menores, cadastrais, por exemplo.
Procuradas pela Sucursal da Brasília do Estado, as assessorias da presidente e da Receita informaram que:
1 – Inicialmente, Dilma optou por parcelar em quatro vezes o pagamento do Imposto de Renda devido e declarado;
2 – Depois, a presidente eleita fez uma declaração retificadora, mudando o parcelamento de quatro para seis prestações;
3 – Enquanto a alteração não foi oficializada pela tramitação interna da Receita, a declaração de Dilma ficou no limbo que impedia o sistema automatizado de fornecer-lhe uma declaração negativa via internet.
O pedido de informações feito às assessorias pode ter ou não agilizado o processo. O fato é que, nesta quinta-feira, o site da Receita voltou a dar a certidão negativa à presidente eleita. Dilma está novamente quite com o Leão. Resta saber se a recíproca é verdadeira.
Ainda na Casa Civil, a então ministra foi contrariada pela ex-secretária da Receita, Lina Vieira, sobre encontros e desencontros envolvendo a família Sarney. Na campanha eleitoral, teve que explicar o vazamento de informações fiscais sigilosas de tucanos por funcionários do órgão.
Comparado a esses problemas, o inconveniente de Dilma com a declaração negativa é apenas isso, um inconveniente.
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As imagens abaixo mostram a resposta do sistema on-line da Receita à solicitação de certidão negativa feita na segunda-feira, e, mais abaixo, nesta quinta. Os dados são públicos: basta digitar o número do CPF do contribuinte para qualquer um solicitar a certidão. O CPF pode ser encontrado em bases de dados públicas do próprio governo e da Justiça eleitoral.
Os governadores eleitos do PSDB afirmaram nesta quarta-feira, em reunião em Maceió (AL), que não farão oposição ao governo de Dilma Rousseff (PT). “Não existe governo contra governo”, resumiu o reeleito Marconi Perillo, de Goiás. Os cofres dão razão aos tucanos.
É difícil para um governador declarar oposição a um presidente, não importa o partido, quando depende financeiramente da União. Juntos, os governos dos Estados representados na reunião do PSDB receberam, só em 2010, R$ 26 bilhões em transferências federais. E isso porque o ano ainda não terminou.
Em 2009, os governos estaduais dos oito Estados levaram R$ 31 bilhões federais. Nesse ritmo, é provável que os governadores tucanos recebam durante os seus quatro anos de mandato pelo menos R$ 123 bilhões da União. São muitas razões para não declarar oposição.
Segundo dados do Portal da Transparência, o Tesouro Nacional repassou, até outubro de 2010, apenas aos governos estaduais de:
São Paulo – R$ 7,668 bilhões;
Minas Gerais – R$ 4,923 bilhões;
Paraná – R$ 2,948 bilhões;
Goiás – R$ 1,669 bilhão;
Alagoas – R$ 2,594 bilhões;
Tocantins – R$ 1,921 bilhão;
Pará – R$ 3,414 bilhões;
Roraima – R$ 1,127 bilhão.
Note-se que não é nenhum favor de Brasília repassar o dinheiro. A maior parte desses recursos é fruto de direitos constitucionais e legais dos Estados. Mas, além dos repasses, há verbas que são discricionárias, que o presidente pode ou não enviar aos governos estaduais.
Em tese, todos os entes da Federação são iguais entre si. Na prática, uns são mais iguais do que outros. E, portanto, mais dependentes do governo central.
Anchieta Júnior, de Roraima, vai administrar um governo que, por ser de um ex-território federal, recebe 14 vezes mais recursos da União por habitante do que o governo de São Paulo: R$ 2.649 por raraimense contra R$ 192 por paulista, R$ 257 por mineiro, R$ 285 por goiano e R$ 287 por paranaense.
Por tais números, Geraldo Alckmin (SP), Antonio Anastasia (MG), Perillo (GO) e Beto Richa (PR) poderiam ser mais independentes em relação a Dilma. O primeiro é potencial presidenciável, o segundo é herdeiro do virtual candidato do PSDB à sucessão da petista, em 2014: Aécio Neves.
Mas não é do interesse de ambos comprar briga com quem tem a chave de um cofre tão fornido quanto o federal. Limitaram-se a subscrever a chamada Carta de Maceió, em que os oito governadores pedem a revisão dos mecanismos de transferências voluntárias. Ou seja, meios de diminuir sua dependência em relação ao dono da caneta presidencial.
Segundo seu presidente, Sergio Guerra, o PSDB deixará a tarefa de fazer oposição às bancadas na Câmara e no Senado: “Vamos fazer oposição de qualidade”. Espera-se que o partido se concentre mais no substantivo do que no adjetivo da frase. Ou chegará em 2014 enfrentando a mesma crise de identidade que minou suas chances presidenciais em 2010.
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Ao menos 12 empreiteiras e construtoras que doaram para a campanha da presidente eleita Dilma Rousseff (PT) são fornecedoras do governo federal. Só em 2010, receberam, por ora, R$ 1,247 bilhão. Juntas, doaram R$ 28,4 milhões ao comitê da petista ou ao seu partido.
Nenhum outro setor econômico recebe tanto dinheiro do governo federal. Isso dá pistas da razão pela qual o segmento de construção foi o que mais contribuiu para a campanha de Dilma. Foi responsável por um em cada quatro reais que entraram nas contas do comitê.
A Construtora Andrade Gutierrez S/A, por exemplo, doou R$ 5,1 milhões ao Comitê Financeiro Nacional para Presidente da República administrado pelo PT. Recebeu, apenas em 2010, R$ 391 milhões do governo federal, principalmente pelas obras da Ferrovia Norte-Sul.
A Construções e Comércio Camargo Correa doou R$ 8 milhões à campanha de Dilma. Recebeu até hoje R$ 99 milhões do governo federal, pela construção da Norte-Sul e por obras de irrigação. Tem mais a receber, como pelas eclusas da usina hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, inauguradas esta semana por Lula e Dilma.
Outro grupo que fez doações expressivas à campanha vencedora foi o Queiroz Galvão. Doou R$ 2 milhões. Recebeu, em 2010, R$ 206 milhões do governo federal, por obras rodoviárias, de irrigação e pela Ferrovia Norte-Sul.
Já a Galvão Engenharia, que pertence a um grupo de sócios que dividem o mesmo sobrenome que a Queiroz Galvão, também aportou R$ 2 milhões na campanha da petista. As verbas federais recebidas até novembro pela empresa somam R$ 162 milhões, por obras rodoviárias.
Também doaram e receberam: ARG Ltda (R$ 2 milhões doados; R$ 21 milhões recebidos), Serveng Civilsan (R$ 2 milhões / R$ 24 milhões), Mendes Júnior (R$ 1 milhão / R$ 19 milhões), Norberto Odebrecht (R$ 1 milhão / R$ 24 milhões), CR Almeida (R$ 1 milhão / R$ 28 milhões), Construcap (R$ 700 mil / R$ 64 milhões) e Carioca Engenharia (R$ 600 mil / R$ 177 milhões).
Esta última mostra que não há uma correlação entre o valor doado e o recebido.
Todas as doações são legais e registradas no TSE. Não há, necessariamente, relação de causa e efeito entre doações e recebimento de verbas públicas. O levantamento prova apenas que as doadoras têm interesse financeiro em manter boa relação com o futuro presidente, seja ele quem for.
A maioria dessas empreiteiras doou oficialmente quantias semelhantes às campanhas de Dilma e de seu adversário José Serra (PSDB). São investimentos eleitorais. Alguns dão mais retorno do que outros.
O levantamento está subestimado. Foram comparados apenas os mesmos números de CNPJ (cadastro nacional de pessoa jurídica) dos doadores e dos fornecedores. Não entraram na conta recursos recebidos por outros braços do mesmo grupo empresarial.
A Construtora OAS Ltda doou R$ 3 milhões para a campanha de Dilma. Recebeu R$ 31 milhões do governo por obras de manutenção de estradas e transposição do rio São Francisco. Mas outras empresas do grupo OAS, com a Engenharia e Participações, receberam mais alguns milhões de verbas federais, que não foram computados por terem outro CNPJ.
Pelo mesmo motivo, tampouco entraram no levantamento os recursos federais distribuídos a consórcios de empreiteiras. Doadora de Dilma, a Carioca Engenharia S/A, por exemplo, participa de um consórcio que recebeu R$ 46 milhões do governo por obras no porto gaúcho de Rio Grande. Esse dinheiro não está incluído no bilhão que dá título a esta reportagem.
Isso talvez ajude a explicar porque algumas das empreiteiras que doaram para a campanha petista não aparecem entre os que receberam recursos federais neste levantamento.
As informações sobre recursos pagos às empreiteiras foram extraídas do Portal da Transparência, do governo federal (www.transparencia.gov.br).
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Cotado para assumir o Ministério da Agricultura, o senador eleito Blairo Maggi (PR) ajudou em mais de uma maneira a campanha de Dilma Rousseff (PT) à Presidência. Através de suas empresas, o ex-governador de Mato Grosso doou R$ 1 milhão para o Comitê Financeiro Nacional para Presidente da República, administrado pelo PT.
Foram duas doações, registradas na contabilidade oficial da campanha petista. O mais curioso é que elas ocorreram na semana passada, muito depois do término da eleição. Em entrevista ao Estado, o empresário, um dos maiores produtores de soja do mundo, disse ter recebido pedido para ajudar a fechar a conta da campanha de Dilma.
Ele disse também que não recebeu convite de Dilma para assumir o ministério da Agricultura.
A maior doação foi feita pela Amaggi Exportação e Importação Ltda: R$ 700 mil, na quinta-feira passada. No dia seguinte, a Agropecuária Maggi Ltda doou mais R$ 300 mil ao mesmo Comitê Financeiro Nacional.
Na terça-feira, Blairo foi convidado a acompanhar a presidente eleita em viagem a Tucuruí, no Pará, para inauguração de duas eclusas construídas por outro doador da campanha de Dilma, a Camargo Corrêa. Se emplacar mesmo no ministério, ele deverá entrar na cota do PR.
O Comitê Financeiro Nacional para Presidente, do PT, recebeu 46 doações de empresas com valores superiores a R$ 10 mil após o término da campanha. Elas somam R$ 12,741 milhões. A maior doação individual foi feita pela Construtora Queiroz Galvão S/A, no valor de R$ 2 milhões.
Mas o setor que mais contribuiu após o fechamento das urnas foi o sucroalcooleiro. Foram pelo menos R$ 3,5 milhões nas últimas semanas. Segundo usineiros ouvidos por este blog, o segmento foi convidado a ajudar a fechar a contabilidade da campanha de Dilma após o término da eleição.
A Cosan, maior empresa do setor, fez duas doações em novembro, somando R$ 1,5 milhão. A Copersucar também doou R$ 500 mil no dia 23 passado. E a Usina São Martinho fez dois aportes no dia seguinte que totalizaram também R$ 500 mil.
Um caso especialmente interessante é o da Açúcar Guarani S/A. A empresa, controlada pelo grupo francês Tereos, fez duas doações à campanha de Dilma, que totalizaram R$ 1 milhão, nos dias 19 e 22 de novembro. A Petrobras é sócia da empresa.
Em abril, a Guarani recebeu um aporte da Petrobras no valor de R$ 682 milhões, o que garantiu 26,3% das ações da companhia à Petrobras Biocombustível. A PBio, como é chamado o braço da estatal voltado ao etanol, deverá investir mais R$ 929 milhões na Açúcar Guarani ao longo dos próximos cinco anos, o que lhe valerá 45,7% do capital da empresa.
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As cores representam os setores de cada empresa. Veja a tabela do post anterior.
Uma pequena parte das doações das empresas foi feita diretamente à campanha de Dilma (em geral, são aquelas que apresentam valores redondos). A maioria, entretanto, doou ao Comitê Financeiro para Presidente, administrado pelo PT. Dos recursos arrecadados pelo comitê, 89,4% foram redirecionados à campanha de Dilma.
Por essa razão, a apropriação das doações das empresas não foi total pelo comitê da presidente eleita. Por isso que, na tabela, o frigorífico JBS aparece doando R$8,049 milhões à campanha de Dilma, embora o total de sua doação ao Comitê Financeiro tenha sido de R$ 9 milhões. O mesmo se repete com a grande maioria dos doadores.
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Daniel Bramatti e José Roberto de Toledo
Poucas empresas de poucos setores foram responsáveis pela maior parte do financiamento da campanha de Dilma Rousseff (PT) à Presidência. Metade de todo o dinheiro declarado pela campanha da presidente eleita saiu de dos 27 maiores doadores. Veja aqui a relação completa.
Destacam-se as empreiteiras e construtoras. Apenas esse setor doou pelo menos R$ 37 milhões para os cofres petistas, o que representa mais de 27% de toda a arrecadação. Dos cinco maiores doadores, três são do ramo de construção – Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e UTC Engenharia.
O setor financeiro, bancos e seguradoras, teve um peso menor do que outros segmentos da economia na contabilidade oficial. Os bancos doaram, em conjunto, cerca de R$ 9 milhões, ou 7% do total arrecadado pela campanha presidencial petista.
O setor sucroalcooleiro surpreendeu como um dos principais doadores de Dilma. Foram mais de R$ 10 milhões, o que representa cerca de 8% das doações totais. Os maiores doadores individuais do segmento foram Cosan, Copersucar e Açúcar Guarani.
Outros setores que se destacam entre os doadores pessoa jurídica para a campanha de Dilma são os de alimentos e bebidas (Cutrale e Ambev), empreendimentos imobiliários, farmacêutico, industrial e mineração.
Não por coincidência, os maiores doadores foram de segmentos econômicos que se beneficiaram durante o governo Lula. O PAC beneficiou as empreiteiras, o Bolsa Família aumentou o consumo de alimentos e açúcar, o Minha Casa Minha Vida ajudou empreendedores imobiliários.
Dilma e Serra receberam, juntos, quase R$ 52 milhões em doações ocultas – aquelas em que é impossível rastrear a identidade dos financiadores de campanhas. No caso da presidente eleita, as doações desse tipo chegaram a R$ 19,7 milhões, 14,5% do total arrecadado por sua campanha. Serra recebeu ainda mais pela via oculta: foram R$ 32,1 milhões, ou 30% do que arrecadou.
As doações ocultas resultam de uma triangulação: em vez de depositar o dinheiro na conta do candidato ou de seu comitê, a empresa ou pessoa física faz uma contribuição para o partido, indicando quem deve ser o destinatário final dos recursos. Como os partidos recebem de diversos doadores e encaminham o dinheiro para diferentes candidatos, fica impossível estabelecer uma ponte entre financiador e financiado.
Dos R$ 114 milhões doados a Dilma por financiadores devidadamente identificados, quase a totalidade (98%) se refere a contribuições de empresas, e 2% de pessoas físicas. Foram apenas 1.820 contribuições de eleitores, com valor total de R$ 2,8 milhões.
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O projeto de lei 93/2010 que está em processo de aprovação no Senado é um atentado à liberdade de informação, à Constituição e à lógica. O texto prevê não uma, mas três maneiras de censurar e inviabilizar as pesquisas eleitorais feitas até um mês antes da votação:
1) que o plano amostral das pesquisas seja aprovado por pelo menos 2/3 dos candidatos;
2) que a amostra seja de pelo menos 0,01% do eleitorado;
3) que os resultados sejam ponderados exclusivamente por dados populacionais do IBGE.
A primeira exigência já basta para, na prática, dar poder aos candidato de vetar a divulgação de qualquer pesquisa. Se aprovada a lei, uma única pessoa terá o poder de impedir que 186 milhões de brasileiros saibam qual a preferência do eleitorado.
Imagine um segundo turno (ou um primeiro turno com apenas dois candidatos): se não menos do que 2/3 deles precisam aprovar o plano amostral, na prática, significa ambos. Em outras palavras, se o candidato A aprovar, mas o B não, a pesquisa não poderá ser divulgada.
Na verdade, bastará ao candidato que tiver menos intenções de voto não se pronunciar sobre o plano amostral que isso já implicará a rejeição da pesquisa, porque o brilhante texto dos senadores não especifica como nem quando os candidatos devem aprovar a amostragem.
Na eleição presidencial de 2010 havia nove candidatos. Se quatro dos cinco nanicos que tiveram menos de 90 mil votos (e que corretamente nunca pontuaram nas pesquisas) não aprovassem o plano amostral, não saberíamos nada sobre a sucessão no último mês do primeiro turno.
Viradas no segundo turno seriam automaticamente censuradas, pois o candidato que começasse a perder eleitores impediria que as pesquisas viessem a público (a lei não proíbe os candidatos de fazerem pesquisas para consumo próprio).
Não contentes em dar poder de censura a si próprios e a seus colegas, os senadores se meteram a estatísticos. Estipularam que a amostra terá que ter no mínimo 0,01% do eleitorado. O texto é omisso, mas supõe-se que seja o eleitorado apto a votar em cada eleição.
No pleito presidencial de 2010, as pesquisas feitas até 30 dias antes do primeiro turno e todas as do segundo turno teriam que ter pelo menos 13.580 entrevistas. Isso inviabiliza financeiramente a execução das pesquisas, pois seu custo aumentaria em até sete vezes.
O pior é que os senadores tomaram essa decisão sem nenhuma base científica: até as carteiras dos cursos de estatística sabem que o tamanho da amostra independe do tamanho do universo pesquisado.
Pesquisas para presidente e pesquisas para prefeito são feitas com o mesmo tamanho de amostra. Ele varia de acordo com o grau de precisão: 800 entrevistas dão margem de erro de 3 pontos porcentuais, 2 mil entrevistas dão 2 pontos, 10 mil dão 1 ponto, 13.580 dariam 0,9.
Ou seja, o custo é multiplicado por cinco, mas só diminui em 1 ponto porcentual a margem de erro. Não compensa. Por isso nenhum instituto faz e ninguém contrata pesquisas com amostras desse tamanho.
Finalmente, os senadores se arvoraram a declarar que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é a única fonte possível de dados para servirem de base à ponderação das cotas de sexo, idade e renda das pesquisas.
Os dados municipais do IBGE são captados de 10 em 10 anos, nos Censos. Ou seja, estarão desatualizados em 2012 e ainda mais em 2016. Pior, levada ao pé da letra, a lei proíbe os institutos de ponderar os resultados pela abstenção, já que a fonte é a Justiça eleitoral e não o IBGE.
Ironicamente, o órgão que aprovou esse texto obscurantista e desinformado chama-se Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática do Senado. Ela pegou carona no projeto 93/2010 do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG).
Mas a inspiração do parágrafo 6º do artigo 33 do projeto foi um texto do senador Jarbas Vasconcellos (PMDB-PE). É o parágrafo que obriga a aprovação do plano amostral por 2/3 dos candidatos e estipula o tamanho mínimo da amostra.
Jarbas foi candidato a governador de Pernambuco em outubro passado. Sofreu uma das derrotas mais acachapantes desta eleição: recebeu apenas o equivalente a 17% dos votos do vencedor. Certamente não foi por culpa das pesquisas.
Há uma relação direta entre a popularidade de um governante e a chance de ele ser reeleito, ou de ao menos influir na sua sucessão. A questão é onde passa a linha que separa vencedores e vencidos. O ranking de governadores do Ibope dá pistas.
Esta é a primeira classificação, com todas as 27 unidades da Federação, divulgada após a eleição.
Comparando as pesquisas com o resultado das urnas, surgem duas perguntas. Qual patamar de aprovação garante sucesso eleitoral? Ou, ao contrário, qual nível de desaprovação leva o governante inevitavelmente ao fracasso?
O ranking dos governadores tem base nas pesquisas de avaliação realizadas pelo Ibope entre setembro e outubro. Embora as datas não sejam idênticas, são próximas o suficiente para permitir a comparação.
A régua é o “saldo” da avaliação: taxas de “ótimo” e “bom” subtraídas das de “ruim” e “péssimo”. O “regular” não entra na conta. Maior o saldo, melhor a posição do governador no ranking. O desempate é pelo porcentual de “ótimo” + “bom”, isto é, de aprovação.
Governador do Ceará, Cid Gomes (PSB) tem 60% de ótimo/bom e 10% de ruim/péssimo. Seu saldo é de 50 pontos, o mesmo do governador do Acre, Binho Marques (PT). Mas Cid ficou na frente, em 6º lugar, porque mais eleitores aprovam seu governo (60% a 57% do petista).
A correlação entre boa avaliação e desempenho eleitoral fica evidente no quadro. Dos 16 governadores que obtiveram saldo superior a 30 pontos, nada menos do que 14 foram reeleitos ou elegeram seus sucessores.
Dos dois restantes, o tucano João Cahula perdeu no segundo turno em Rondônia, e Orlando Pessuti (PMDB) desistiu de concorrer e praticamente não influiu na eleição paranaense. Ele era vice de Roberto Requião, que elegeu-se senador.
Os três primeiros colocados no ranking de governadores foram também os que alcançaram as maiores vitórias proporcionais nas eleições estaduais -diretamente ou por um herdeiro político.
O mais bem avaliado, Paulo Hartung (PMDB), do Espírito Santo, é quem mais se aproxima, em popularidade, de Luiz Inácio Lula da Silva. Tem 76% de aprovação (25% de “ótimo” + 51% de “bom”) e saldo de 73 pontos.
O presidente tem 80% de aprovação (34% “ótimo” + 46% “bom”) e saldo de 76 pontos. Ambos não puderam disputar a segunda reeleição seguida e preferiram ficar em seus cargos até o final do mandato.
Lula elegeu Dilma Rousseff (PT), no segundo turno, com 56% dos votos válidos. Hartung elegeu Renato Casagrande (PSB), no primeiro turno, com 82% dos válidos. Ao contrário de Dilma, Casagrande tem histórico eleitoral, e vitorioso.
Segundo colocado no ranking, Eduardo Campos (PSB) teve 72% de aprovação, 69 pontos de saldo e acabou reeleito com 83% dos votos válidos em Pernambuco.
Em terceiro ficou Omar Aziz (PMN). Ele era vice de Eduardo Braga (PSB), assumiu o governo quando este renunciou para disputar o Senado, e acabou sendo eleito com 68% dos votos válidos, mesmo porcentual de aprovação do seu governo.
Na parte de baixo da tabela, onde estão os governadores mais mal avaliados, ninguém se reelegeu ou conseguiu fazer seu sucessor. Dos cinco que tiveram saldo inferior a 10 pontos, três perderam a eleição e dois ficaram à margem do processo.
Restam, portanto, 6 governadores que alcançaram saldo entre 13 e 26 pontos. Quatro deles tentaram a reeleição, mas apenas um teve sucesso: José de Anchieta (PSDB), em Roraima. Os outros três acabaram em segundo lugar nas urnas.
Antes de tirar conclusões, convém lembrar que a política é dinâmica: o cenário muda, e sempre é determinante no desempenho dos protagonistas nas eleições.
Com a economia e o consumo crescendo, o grau de satisfação do eleitorado estava mais alto este ano do que em pleitos anteriores. É como se o patamar mínimo de aprovação tivesse sido elevado para todos os candidatos ao Executivo.
Assim, a linha de 2010 pode não valer para 2014. Ressalva feita, percebe-se que:
1) Se o governante tiver saldo negativo, melhor não disputar a reeleição. Se apoiar um candidato, corre o risco de atrapalhar mais do que ajudar.
2) Se o saldo for positivo, mas inferior a 20 pontos, ele tem mais chances de perder do que de ganhar a eleição.
3) Não existe garantia de vitória, mas um saldo igual ou superior a 45 pontos está bem perto disso. Se perder, terá o consolo de ser um pioneiro.
4) Saldo entre 25 e 45 pontos torna o governante favorito ou o principal eleitor de sua própria sucessão -embora uma zebra ocorra a cada seis pleitos.
5) A taxa de “ótimo” é melhor indicador do que a de “bom”, mas o saldo é ainda mais importante do que a simples soma de ambas.
6) Vice-governadores que herdam governos populares só mantêm o sucesso dos titulares quando são expostos a intensiva propaganda eletrônica ao lado de seus padrinhos.
7) Existe transfusão eleitoral de um governante para seu candidato à própria sucessão. Não existe transferência de votos entre cargos diferentes. Lula elegeu Dilma. Governadores seus aliados se reelegeram, ou a seus sucessores, por mérito próprio.
2013
2012
2011
2010
2009