Que o Distrito Federal é uma ilha da fantasia, sempre se desconfiou. Mas os “Resultados gerais da amostra do Censo 2010″, divulgados nesta sexta-feira pelo IBGE, transformam a suspeita em constatação oficial. O rendimento médio nominal dos domicílios brasilienses é mais do que o dobro do Brasil. A renda média de Brasília é R$ 5.663. A do Brasil, R$ 2.653.
A desproporção da riqueza da capital brasileira é um caso único, não importa a referência. Em comparação a São Paulo, cujos moradores estão em segundo lugar no ranking de renda do país, o Distrito Federal tem um rendimento médio 63% maior -com a diferença de que Brasília só produz leis, decretos e sentenças. Pior, a renda dos brasilienses é, em média, quase três vezes maior do que a dos maranhenses, donos do rendimento mais baixo do Brasil.
Essa disparidade da riqueza dos moradores da capital federal em relação ao resto do país é incomparável em termos internacionais. Distrito federal norte-americano, Washington DC também foi fundado para ser capital da República e ocupa uma área restrita. Sua renda domiciliar é 13% maior do que a dos Estados Unidos. No Brasil, a desproporção é de 113%. Por comparação, Brasília tem 100 pontos porcentuais de renda a mais do que o país que a circunda. Quais as razões de tanto exotismo?
O principal motivo é que em Brasília os funcionários mais bem remunerados definem seus próprios salários. E estes servem de referência para quem está abaixo na hierarquia funcional. Essa regra provoca uma -digamos- cachoeira para o resto do funcionalismo. Como os servidores do topo da carreira de cada Poder são generosos com sua própria remuneração, o efeito riqueza se espalha para boa parte dos domicílios brasilienses.
Tanto é assim que o valor dos imóveis na capital varia em função da política salarial do governo de plantão. Quando o funcionalismo tem seus rendimentos reajustados, os preços das casas e apartamentos sobem junto.
Alguém pode argumentar que é injusto comparar uma cidade-estado, como Brasília, com as demais unidades da Federação, que têm áreas muito maiores e disparidades regionais muito mais acentuadas. Pois consideradas apenas as cidades brasileiras e os salários de quem tem emprego formal, Brasília fica em 5º lugar entre 5.565 municípios. Só perde para quatro cidades onde unidades da Petrobras, a maior empresa estatal, são responsáveis por grande parte dos empregos.
A segunda razão para Brasília ter uma renda média tão mais alta do que o resto do país é que a capital federal exportou seus pobres. Eles vivem no chamado entorno brasiliense, em cidades como Águas Lindas de Goiás. O salário médio dos brasilenses é 3 vezes e meia maior do que o dos vizinhos goianos menos afortunados. Isso faz a média brasiliense se elevar, pois não computa a base de sua própria pirâmide econômica.
É uma síntese do comportamento do centro do poder no Brasil: pega e paga o que quer, e descarta o resto no quintal do vizinho.
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Na falta de uma pesquisa mensal e pública sobre a quantas anda a popularidade presidencial, o melhor proxy -indicador por aproximação- disponível é o Índice de Confiança do Consumidor (Inec) da CNI/Ibope. Ele guarda uma forte correlação estatística com a aprovação do presidente de plantão. Assim, a leve queda do Inec de fevereiro é má notícia para Dilma Rousseff -ao menos em tese.
A queda foi de apenas 0,7%, mas interrompeu uma tendência de alta que já se estendia por cinco meses. Isso significa que a popularidade de Dilma, que cresceu no final de 2012 (Datafolha), também parou de melhorar? A resposta curta é um frustrante “talvez”. Vale tentar entender o porquê.
No histórico dos últimos 11 anos, o coeficiente de correlação entre o Inec e o saldo de aprovação presidencial (“ótimo/bom” menos “ruim/péssimo”) é de 0,83 num máximo de 1. É uma correlação muito forte. Grosso modo, há 8 chances em 10 de os dois indicadores oscilarem na mesma direção: se um sobe, o outro sobe junto, e vice-versa. Mas há uma correlação ainda mais forte.
O Inec é composto por seis índices, que medem diferentes perspectivas econômicas do entrevistado: suas expectativa quanto à inflação, e ao desemprego, seu grau de endividamento, sua intenção de comprar bens caros, sua situação financeira pessoal e a expectativa quanto ao que vai acontecer com sua renda. Desses seis, os dois últimos são os mais intimamente ligados à popularidade dos governantes.
A média desses dois índices, que medem o volume do bolso do brasileiro, tem uma correlação de 0,88 com o saldo de aprovação do presidente de plantão: ou seja, em 9 de cada 10 vezes eles variam juntos, para baixo ou para cima. Essa média caiu 0,6% em fevereiro, mas ainda é superior à de fevereiro de 2011.
O problema de se usar uma proxy para analisar a popularidade presidencial é que ela é um indicador seguro apenas para as tendências de médio e longo prazos. Variações pontuais podem não ter significado algum.
É o caso da queda de 0,7% do Inec de fevereiro. Pode ser uma reversão de tendência ou apenas um soluço estatístico. Isso é mais provável quando não há consistência com outros indicadores. Enquanto o Inec caiu, dois “primos” seus subiram em fevereiro: o Índice de Confiança do Consumidor da FECESP e o homônimo da FGV.
Por enquanto, só dá para dizer que, a julgar pela confiança do consumidor, Dilma continua num patamar alto de popularidade, mas é preciso acompanhar o Inec e seus pares nos próximos dois meses para ver se se confirma ou não uma mudança de tendência.
Curiosamente, também o Palácio do Planalto vai ter que usar uma proxy ou contar com a boa vontade de terceiros para saber como anda a popularidade da presidente. A Secretaria de Comunicação da Presidência está sem fornecedor de pesquisas oficiais no momento.
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“É a opinião pública, estúpido!” Ao contrário da frase imortal de James Carville, a economia parece ter trocado de lugar com a política na ordem natural das coisas. Será?
O Banco Central surpreendeu essa entidade mítica, “o mercado”, ao cortar a taxa de juros antes da hora. Antes da hora na opinião dos analistas que erraram suas previsões, é claro. Foi pressão política de Dilma Rousseff? Ou choque de realidade no Copom, que descobriu que o Brasil não é um planeta isolado da economia global? Ambos.
Como aponta o repórter Fernando Nakagawa, no Estado, o corte ocorreu um dia depois de Dilma ter dito vislumbrar a possibilidade de um ciclo de redução dos juros. Postos nessa ordem, parecem causa e efeito. Mas o contrário é mais provável: Alexandre Tombini, o presidente do Banco Central, deve ter feito chegar aos ouvidos da presidente a tal possibilidade, e ela apenas se antecipou.
A novidade é que Ministério da Fazenda e Banco Central parecem trabalhar alinhados em uma mesma política. O primeiro anuncia cortes de gastos públicos e cria oportunidade para o outro cortar os juros, tudo no espaço de três dias, com a declaração presidencial no meio. Sugere coordenação. Se dará certo é outra questão, mas parece superada a fase dos conflitos na área econômica.
O Banco Central demonstrou preocupação de que isso seja interpretado como ameaça à sua independência -do contrário, não teria divulgado um comunicado tão longo quanto inédito para explicar imediatamente o corte dos juros. Outra interpretação é que mais forças, além de “o mercado”, passaram a influir nas decisões do Copom. Basicamente, a opinião pública.
“Sacrilégio!”, clamarão “os analistas”. “As decisões de política monetária e fiscal devem ser tomadas com base em critérios estritamente técnicos, segundo os cânones consagrados”. Consagrados por quem? Por “o mercado”. Mas mesmo a oposição ao governo no Congresso apoiou o corte de juros, porque sabe que a opinião pública é a favor. E porque, se der errado, a culpa não será dela, mas do governo.
Por mais técnica que seja, em qualquer questão cabem interpretações diferentes. Não fosse assim, por que 11 ministros no Supremo Tribunal Federal e seus julgamentos rachados? O próprio Comitê de Política Monetária, o Copom, dividiu-se quanto ao corte imediato de 0,5 ponto porcentual dos juros: cinco votaram a favor e dois contra.
As decisões são baseadas em fatos como a queda da confiança do consumidor, mas o peso que se atribui a eles é uma interpretação de cada integrante do Copom. E ela está ligada ao que se quer: uma inflação maior ou menor versus um ritmo de crescimento da economia idem idem. Do jogo de forças entre essas metas surgem as decisões de política econômica. Por isso o substantivo na expressão é “política”.
Como é política a busca de Dilma por um equilíbrio arriscado entre popularidade (leia-se economia aquecida e juros menores) e ajustes necessários ao controle da inflação (leia-se corte de gastos e juros altos). Se pender muito para a primeira, “o mercado” pode apostar contra ela e acelerar a alta de preços. Mas se perder popularidade, Dilma se enfraquecerá para negociar com aliados e opositores no Congresso. Sua margem de erro é cada vez menor.
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Juros altos ou baixos, alguma coisa está errada quando o preço da banana é duas vezes mais alto no Brasil do que nos EUA. Por mais “bananeiras” que pareçam as rusgas entre Barack Obama e os republicanos no Congresso, nada justifica ser teoricamente possível o Brasil comprar bananas “norte-americanas” com vantagem. Já basta ter que importar etanol.
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Imagine viver em um país onde a polícia recebe vários telefonemas de um matador querendo se entregar e mesmo assim demora uma hora para chegar ao local da chacina porque o piloto do helicóptero está em férias. Ou em um reino onde o principal líder assiste, pela TV, sua capital pegar fogo durante três dias antes de interromper as férias e voltar a trabalhar. Melhor ainda, num lugar onde oposição e governo cogitam transformar o país em caloteiro apenas para extrair ganhos políticos de uma votação no Congresso.
Quem acompanhou as manchetes das últimas semanas sabe que esses exemplos vêm da Noruega, Inglaterra e Estados Unidos -respectivamente o líder mundial em desenvolvimento humano, o que sobrou do maior império da terra, e o país mais poderoso do planeta. Casos se multiplicam. Não dá para esquecer a imprevidência e inépcia das autoridades japonesas na crise nuclear de Fukushima.
Na relação dívida pública/PIB, países do Primeiro Mundo têm as maiores proporções de endividamento em relação ao que produzem suas economias -o dobro do que o Brasil. Gastam muito mais do que poderiam, não fosse a boa vontade do resto do mundo em emprestar-lhe dinheiro. Um comportamento tão esbanjador e repetitivo que ameaça jogar a economia global na sua segunda recessão em menos de quatro anos.
Seriam sinais de decadência? Ou apenas um incentivo a tomar empréstimos sem meios para pagá-los? Afinal, rico não parece ser quem ganha, mas quem deve.
Sejam quais forem as respostas, não escapam à constatação de que Noruega, Inglaterra e EUA conquistaram melhores condições de vida para a maioria de sua população apesar de também terem governantes e autoridades capazes de incompetência tão grande que nos evocam repúblicas bananeiras. E com tal frequência que a expressão “primeiro-mundice” pode se tornar um primo rico de “terceiro-mundismo”.
Isso só reforça o óbvio: o Terceiro Mundo não tem o monopólio da incúria. Não há nada intrinsecamente errado com os povos ao sul do equador. É fato que por aqui se fuzilam juízes na rua e a chantagem é um instrumento político cotidiano. Mas nada impede sul-americanos, africanos e asiáticos de acelerarem seus avanços em matéria de renda, escolaridade e esperança de vida, a despeito de quem os governa.
Basta ver um dos infográficos animados de Hans Rosling na internet para perceber o quanto diminuiu nos últimos 50 anos a distância que separava os “desenvolvidos” dos “em desenvolvimento”, seja em fertilidade e mortalidade infantil, seja em renda per capita. Na sua grande maioria, os países na rabeira avançaram mais rapidamente do que os da ponta.
O mundo, como o Brasil, está transformando miseráveis em pobres, e pobres em classe média mais ou menos remediada. Sob novo status, essas pessoas têm novas demandas, mais auto-confiança e, finalmente, voz. São neoconsumidoras, e portanto, alvo de interesse do mercado. Onde impera a lógica do “consumo, logo existo”, ser um consumidor é passaporte para a respeitabilidade.
A economia parece ser vanguarda nos processos de mudança. Os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) viraram sigla e tiveram reconhecimento internacional primeiro do mercado financeiro. Depois vieram as lojas de marca e as turnês de artistas globais. Mas os ditos “emergentes” ainda brigam por espaço em fóruns e instituições políticas multilaterais.
Alguma coisa está mudando, não necessariamente para melhor ou pior. Apenas mudando. O Rio de Janeiro ganha a primeira página do “The New York Times” não como a capital do samba, futebol e violência, mas como a cidade das Américas com mais alto preço para escritórios, onde um Martini custa US$ 35.
Uma das causas dessa inflação em dólar (fora a valorização do real), explica a reportagem do mais influente jornal do mundo, é a imigração de profissionais estrangeiros, principalmente norte-americanos, em busca de empregos mais bem pagos em bancos de investimento. Faz sentido: salários mais altos onde a economia está quente e onde há investimentos.
O eixo do poder econômico global está pendendo para o sul e para o oriente. Pode ser um fenômeno demográfico (populações mais jovens e força de trabalho mais ativa), mercadológico (novas hordas de consumidores), ou a combinação de ambos. As diferenças regionais ainda são grandes, mas menores do que as oportunidades para os emergentes.
O Brasil pode não ter chegado ao Primeiro Mundo, mas o Primeiro Mundo chegou ao Brasil.
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A popularidade de Barack Obama chegou ao fundo do poço. O tracking diário feito pelo instituto Gallup registrou apenas 40% de aprovação do seu governo pela primeira vez desde a posse, contra 50% que desaprovam sua gestão. É uma queda de 12 pontos desde o começo de maio, quando um comando militar norte-americano matou Osama bin Laden. A recente onda de popularidade do presidente dos EUA não passou de marola.
É monótono, mas não dá para parar de repetir: “É a economia, estúpido”. O relatório sobre o estado da economia norte-americana divulgado nexta sexta-feira explica o porquê da impopularidade. O PIB cresceu só 0,4% no primeiro trimestre e 1,3% no segundo trimestre, muito abaixo das previsões. A notícia soma-se a uma sucessão de outras ainda piores: inflação em alta, consumo em baixa, confiança do consumidor 19 pontos menor do que no começo do mês e geração de emprego estagnada.
E isso tudo antes de o governo norte-americano ficar sem dinheiro em caixa para pagar suas dívidas e compromissos, o que deve acontecer na próxima semana se o Congresso dos EUA não chegar a um acordo para autorizar o aumento do limite de endividamento oficial. Ou seja, tudo pode piorar, é só uma questão de tempo.
O impasse entre democratas e republicanos quanto ao limite de endividamento ainda não atingiu a economia em cheio, mas já piorou a situação política de Obama. Menos norte-americanos confiam que seu presidente vá encontrar uma saída para a crise. A única chance de Obama recuperar parte de sua popularidade perdida é o Congresso conseguir superar suas picuinhas e autorizar os EUA a tomarem mais alguns trilhões emprestados.
A situação política de Obama só não é pior porque a oposição republicana consegue ser mais ineficiente do que a brasileira. Além de estar passando imagem de irresponsável ao deixar o país à beira da falência, o Partido Republicano não conseguiu produzir até agora uma real alternativa de poder entre seus pré-candidatos a presidente em 2012. O mais perto disso, Mitt Romney, não entusiasma nem seus correligionários: tem apenas 27% de apoio entre os republicanos, e é o mais bem colocado.
Obama está tuitando como doido pedindo apoio dos eleitores para pressionarem o Congresso a fechar um acordo e evitar a moratória. Em parte é para valer, em parte é teatro, para deixar claro que ele fez “tudo o que pode” para evitar dar calote nos credores e, assim, jogar a culpa no colo dos republicanos. A jogada pode até funcionar, mas se a economia não melhorar, vai ser outro truque de curta duração.
Obama não pode contar apenas com a incompetência da oposição para se reeleger. Ganha força um movimento que pretende registrar um candidato independente à sua sucessão, reunindo o apoio de descontentes tanto de republicanos quanto de democratas. Embora seja uma hipótese improvável, o cenário raramente foi tão favorável a um tertius, especialmente se a economia continuar patinando.
No encontro com colunistas de jornais na sexta-feira, a presidente Dilma Rousseff deixou subentendido que pretende controlar a inflação “pero no mucho”. A alta de preços não pode ultrapassar 6% ao ano, mas, para não comprometer o crescimento da economia, o governo não fará força para trazê-la para o centro da meta, de 4,5%. É um jogo arriscado.
Em primeiro lugar, porque o governo não controla todas as variáveis. Entre as causas que, a seu ver, pressionam a inflação, a presidente citou o preço do etanol, para dizer que o problema está “minimizado”. Se está, é por pouco tempo. Vai haver quebra da safra de cana este ano e, provavelmente, no próximo. O preço do etanol vai voltar a subir.
Além disso, a inflação é um jogo de expectativas. Como todo jogo, em boa parte seu desfecho está nas mãos do acaso. Operar no limite é dar margem para o azar.
A Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) divulgou relatório nesta quarta-feira admitindo, pela primeira vez, uma quebra da atual safra (2001/2012) de cana-de-açúcar. A nova projeção é 6,16% menor do que a feita no começo do ano. E é 4,21% menor do que a safra passada. Menos cana significa menos açúcar e/ou menos etanol. A quebra já se refletiu nos preços de ambos os produtos.
Usineiros ouvidos por este blog prevêem que a quebra será ainda maior do que a admitida agora pela Unica: entre 10% e 12%. As causas são principalmente climáticas: não choveu quando a cana estava brotando no ano passado, choveu demais no começo deste ano (estressando as plantas) e geou há duas semanas. Como consequência, a produtividade por hectare caiu muito, assim como a quantidade de açúcares recuperados por tonelada de cana.
Se o preço do álcool combustível já disparou na entressafra passada (dezembro a março), a quebra da produção na safra em andamento deve produzir um cenário ainda pior, com mais pressão sobre o preço dos combustíveis e risco de inflação. E num ano eleitoral. Redução de consumo e aumento de preços são inimigos de qualquer governo em época de eleição.
Por isso, o governo Dilma está preocupado e tem tentado negociar saídas com os produtores. Mas há pouco a fazer agora. Uma das medidas tem sido aumentar a produção de álcool anidro (em detrimento do açúcar e do etanol hidratado). Misturado à gasolina, o anidro rende potencialmente quatro vezes mais combustível. Mas isso só faz aumentar o preço do hidratado (usado em carros flex) e do açúcar.
A quebra já era prevista entre usineiros (embora não fosse admitida publicamente, nem pelo governo), e foi antecipada no blog em duas ocasiões: aqui e aqui.
Veja a íntegra do relatório da Unica.
20110713 – Relatório final
Relatório quinzenal da UNICA divulgado nesta terça-feira aponta quebra de 23% da safra de cana-de-açúcar em comparação ao mesmo período da safra anterior. A associação, que reúne os produtores do centro-sul do País, atribui a diferença ao atraso da colheita por causa das chuvas. Mas pelo menos três fatores indicam que não se trata só de atraso e que parte dessa quebra é definitiva.
O próprio relatório da UNICA aponta uma perda de 3% do total de açúcares recuperado (ATR) da cana na safra atual (2011/2012) em comparação à anterior. Mantida a média no que falta colher (60% a 70%), apenas essa perda de produtividade já diminuiria na mesma proporção a produção de etanol e/ou de açúcar. Mas não é só isso.
Usineiros ouvidos pelo blog dizem que o excesso de chuvas do começo do ano atrapalhou o desenvolvimento da cana (faltou luz e sobrou água). O canavial está mais ralo e baixo, o que pode ser constatado visualmente. Isto é: há menos cana por hectare plantado. Há estimativas de que essa perda seja de 7%. O relatório da UNICA não indica a área colhida, logo não permite calcular a média de toneladas de cana por hectare.
Finalmente, o relatório da UNICA foi feito antes de a geada atingir canaviais de São Paulo esta madrugada. A geada inibe a germinação da cana e obriga o corte antecipado dos talhões mais afetados. Ainda não se sabe a extensão da área atingida pela geada. Mas ela deve aumentar a quebra da safra atual e pode comprometer a de 2012/2013.
Somados esses três fatores, a quebra definitiva da safra passa de 10%. É um fato conhecido que se reflete nas cotações. O preço do açúcar no mercado internacional subia 4% no momento em que este texto foi escrito. O preço do etanol na usina já batia em R$ 1,40 por litro.
Mix e atraso
As usinas podem -dentro de uma margem de 10 a 15 pontos porcentuais- mudar o mix de produção entre açúcar e álcool. Puxada pelo preço alto, a safra passada foi “açucareira” (56% de açúcar e 44% de etanol). Este ano, por pressão do governo e do preço do álcool, a proporção é inversa até agora: 44% a 56%.
A diferença está sendo direcionada para o mercado de álcool anidro (o que não tem água e é misturado à gasolina), cuja produção aumentou 9% em comparação ao mesmo período do ano passado. Em compensação, a fabricação de álcool hidratado (que move os carros flex) tem perda acumulada de 37%, e a de açúcar, de 25%.
É fato que essas perdas eram maiores no começo da safra, mas o ritmo de recuperação está caindo. A colheita da cana começou atrasada este ano por causa das chuvas acima da média entre janeiro e abril (quando chove forte ou por muito tempo a colheita é suspensa).
Em 1º de maio, a diferença em toneladas de cana colhidas era de menos 59% em relação a 2010. Mas 15 dias depois, já caíra 20 pontos, para 39%. Na quinzena seguinte, a recuperação foi menor: 14 pontos, para 25%. E, nos últimos 15 dias, ela tirou apenas 2 pontos da diferença, que ficou em 23%.
A geada em São Paulo deve acelerar o corte da cana, para evitar que as plantas mais queimadas não apodreçam no campo. Isso pode implicar colher cana não-amadurecida, diminuindo ainda mais a produtividade por hectare e a média de ATRs por tonelada. Os próximos três relatórios quinzenais da UNICA deverão medir o tamanho do estrago.
Inflação e eleição
Por que um blog que trata principalmente de política e eleições dedica atenção ao canavial? Porque o preço dos combustíveis e dos alimentos tem sido o principal vilão da inflação. A inflação é a pior vilã da popularidade dos governantes, porque influencia negativamente o consumo. E o bolso é a parte mais sensível do eleitor.
Além de já ter afetado o otimismo e a confiança do consumidor/eleitor, a inflação ameaça a popularidade da presidente Dilma Rousseff. Ela se manteve estável na mais recente pesquisa Datafolha, mas os sinais de preocupação foram acesos em Brasília. Se 2012 repetir 2011, a eleição pode favorecer a oposição pela primeira vez desde 2002.
Veja aqui a íntegra do relatório da UNICA.
Má notícia para Dilma Rousseff: o canavial está feio no interior de São Paulo. Choveu muito no começo do ano e faltou luz para as plantas se desenvolverem. A cana cresceu pouco, vai perder produtividade. Entre eles, usineiros falam em quebra de 10% da safra. Menos cana significa menos etanol e/ou menos açúcar. Ao mesmo tempo, cresce a frota de carros flex e a demanda por álcool combustível no Brasil. A combinação é inflamável.
O cenário para 2012 está sendo pintado com renovada pressão inflacionária, fermentada pelo preço dos combustíveis. No próximo ano há eleições municipais, essenciais para os partidos formarem seu cacife para o pleito presidencial (e de governadores + Congresso) em 2014. Ano de eleição com inflação complica qualquer governante. Conter gastos e agradar o eleitor é como assobiar e chupar cana ao mesmo tempo.
O plano do governo para o setor, segundo reportagem de O Globo, é usar a divisão de biocombustíveis da Petrobras para aumentar a oferta de etanol, especialmente durante a entressafra (dezembro a março). Quer que a estatal petrolífera pule de 5% para 12% da produção de álcool combustível no País. Montar apresentação em PowerPoint é fácil, plantar dezenas de milhares de hectares de cana do jeito certo nem tanto.
Basta recordar o caso da Brenco. Formada com capital de US$ 1 bilhão e comandada por um ex-presidente da Petrobras, a empresa fez planos para construir uma dezena de usinas novas em regiões de terra mais barata, onde não havia experiência prévia com plantação de cana. Os dólares foram enterrados, mas nenhum saco de açúcar ou litro de álcool surgiu deles. Foi um dos maiores fiascos da história do agronegócio.
“Tomamos uma posição porque este ano houve elevação grande do preço do etanol. Não houve escassez do produto. Mas se não agirmos agora, pode haver crise semelhante com o preço do álcool no próximo ano”, disse o ministro Edison Lobão a O Globo. A frase revela que seu autor entende tanto de agricultura quanto de física quântica.
A safra de 2011 está parcialmente colhida. A de 2012 já está em grande parte plantada. Nada que o governo decidir agora terá efeito relevante sobre elas. Se Lobão e companhia quiserem evitar que a falta de etanol provoque alta dos preços dos combustíveis em 2012, precisarão importar gasolina ou álcool dos EUA. E torcer para que a crise econômica norte-americana continue, ou os EUA podem não ter excedente para exportar. Ou seja, o que é bom para Barack Obama pode não ser bom para Dilma, e vice-versa.
O presidente norte-americano disputa sua reeleição no próximo ano e depende de a economia do seu país se recuperar para ele ganhar de volta a popularidade perdida. Até agora Obama não tem tido sucesso em seus estímulos econômicos. O carro continua parado, mas isso não quer dizer que o motor não acabe pegando no tranco após um dos muitos empurrões do governo.
A mais recente pesquisa Datafolha sobre o governo Dilma e a visão dos brasileiros sobre a economia acendeu uma luz amarela. A popularidade da presidente não caiu, mas as pessoas estão ficando pessimistas, acham que os preços vão continuar a subir e têm mais medo de perderem o emprego. Expectativas desse tipo são auto-realizáveis (consumidores desconfiados consomem menos). Some-se escassez de algo com tem impacto profundo na economia, como combustíveis, e o que era ruim pode ficar pior.
Como a história recente de EUA e Brasil confirmam, o bolso é a parte mais sensível do eleitor. A oposição tem mais chances de ganhar quando a economia não vai bem.
No caso de Dilma, inflação com baixo crescimento pode implicar não apenas dificuldades para os candidatos petistas a prefeito. Significa mais problemas com o PMDB. Os aliados estão atentos a qualquer sinal de fraqueza da presidente para aumentar o preço da sua fatura. Se comportam como vírus oportunista a espreita do enfraquecimento do sistema imunológico do hospedeiro.
Mas pode ser que os investimentos de empresas como ETH e Petrobras em regiões menos castigadas por São Pedro frutifiquem dentro do cronograma previsto e acima do volume esperado, pode ser que o ministro Lobão se mostre um novo Einstein e pode ser que o mercado seja inundado de etanol barato. Afinal, quase toda semana um sortudo ganha na Mega Sena.
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Mateiros, no sudeste do Tocantins, era um vilarejo sem luz elétrica em 2000. Uma ponta de mapa na fronteira com Maranhão, Piauí e Bahia, lugar esquecido e seco, sem plantação ou criação de valor. Dez anos depois, Mateiros é conhecida como a capital do Jalapão, o deserto mais cenográfico do Brasil. E um polo agrícola emergente.
Graças ao ecoturismo, e a dezenas de milhares de hectares plantados de soja, milho e arroz, a renda média de seus habitantes foi de R$ 117 para R$ 1.110 por mês entre 2000 e 2010, um pulo de 1.667%, já descontada a inflação. De 5.417º cidade mais pobre, passou à 53º mais rica do Brasil. Seu PIB per capita bateu em R$ 45 mil por ano.
Transformações tão revolucionárias são raras, mas em 95% dos municípios do País houve ganhos de renda reais na década passada. E eles foram proporcionalmente maiores entre as localidades mais pobres. Como consequência, a desigualdade de renda entre os municípios brasileiros caiu 32%, ao longo dos últimos dez anos.

Em 2000, a renda média dos 1.110 municípios mais ricos era 4,7 vezes maior do que a dos 1.110 municípios mais pobres. Em 2010, segundo novos dados do Censo, essa proporção caiu para 3,2 vezes.
Em moeda atualizada, a renda média dos 20% de municípios que compõem a base da pirâmide brasileira era de R$ 155 por habitante por mês em 2000. Por causa do crescimento da economia, das transferências governamentais à população pobre e dos aumentos sucessivos do salário mínimo além da inflação essa renda média dos municípios em situação mais precária pulou para R$ 263. Foi um ganho médio de R$ 108 por habitante.
Ao mesmo tempo, a renda dos 20% de municípios que estão no topo da pirâmide nacional variou de R$ 725 para R$ 839. Foram R$ 114 a mais no bolso dos seus moradores, mas, proporcionalmente, o salto da renda dos mais pobres foi quatro vezes maior. Encurtaram, portanto, as distâncias econômicas e sociais entre o topo e a base.
Como regra geral, quanto mais pobre o município, maior foi seu ganho de renda. E não é difícil entender o porquê. A base de comparação é tão pequena que injetar R$ 100 por mês por habitante equivale a um aumento de 78% na renda média dos 550 municípios que compõem os 10% mais pobres do País.
Nos municípios do interior do Centro-Oeste, esses R$ 100 foram aportados, por exemplo, pela expansão da fronteira agrícola. Já no Norte e, principalmente, no Nordeste, foram os programas de transferência de renda como o Bolsa Família que incrementaram os ganhos da população mais pobre. Somem-se os aumentos reais do salário mínimo e seu efeito sobre aposentadorias e pensões e está explicado grande parte do aumento da renda na base da pirâmide.
Olhando-se o mapa da evolução da renda municipal entre 2000 e 2010 fica evidente onde os ganhos foram mais mais dramáticos.
As áreas vermelhas representam os municípios cuja renda diminuiu ao longo da última década, se descontarmos a inflação acumulada de 96% no período. Eles estão distribuídos por todo o mapa, mas têm menor incidência no Norte e Nordeste. Nessas duas regiões mais localidades viram sua renda per capita subir acima da média dos municípios brasileiros. São as áreas verdes do mapa.
O crescimento médio dos municípios da região Norte foi de 107% reais, contra 87% da média nacional. De 449 municípios dessa parte do País, 210 (o equivalente a 47%) cresceram acima da média dos 5.565 municípios brasileiros, e 37 tiveram redução da renda média entre 2000 e 2010. O destaque foi Mateiros (TO), dono do maior crescimento não apenas no Norte, mas em todo o Brasil.
O Nordeste foi a região cuja renda média municipal mais avançou na década: 118% acima da inflação. Nada menos do que 70% dos municípios nordestinos (1.256) cresceram acima da média nacional. Só 24 perderam renda. Proporcionalmente, o maior salto de renda se deu em Centro do Guilherme, no oeste maranhense: de R$ 152 para R$ 543, ou 562% de aumento real.
O crescimento médio dos municípios da região Sudeste foi de 58%, o mais baixo do País. De 1.666 municípios da região, apenas 391 (23%) cresceram acima da média dos municípios brasileiros. Nada menos do que 152 tiveram redução da renda média entre 2000 e 2010. Álvaro de Carvalho, em São Paulo, registrou a maior alta. Sua renda média pulou 437%, de R$ 179 para R$ 576.
O crescimento também foi proporcionalmente no interior do que nas capitais. A média de aumento real da renda dessas cidades foi bem baixa: 36% em 10 anos. Mesmo aquela onde o rendimento cresceu mais, Rio Branco (AC), teve um incremento de 62%, inferior à média nacional. O pior resultado foi o de São Paulo: apenas 4% de aumento acima da inflação.
Tags: Censo 2010, demografia, renda
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As informações foram extraídas da RAIS 2010, a relação anual de informações sociais entregues pelos empregadores ao Ministério do Trabalho. Elas cobrem todos os empregados registrados, sejam com carteira assinada, sejam estatutários. As informações são referentes ao Brasil.
Tags: desigualdade, emprego, jornalismo, renda
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