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Na Copa, ter mais posse de bola é irrelevante

Jose Roberto de Toledo

sexta-feira 27/06/14

Uma construção adversativa comum no futebolês – “o time A mandou no jogo, mas perdeu” – não faz sentido. Não tem “mas”. Mais correto seria “mandou e perdeu”. Porque não há absolutamente nenhuma correlação entre “mandar no jogo” e ganhar a partida. Pelo menos na Copa do Mundo do Brasil. Nos 48 jogos da primeira [...]

Uma construção adversativa comum no futebolês – “o time A mandou no jogo, mas perdeu” – não faz sentido. Não tem “mas”. Mais correto seria “mandou e perdeu”. Porque não há absolutamente nenhuma correlação entre “mandar no jogo” e ganhar a partida. Pelo menos na Copa do Mundo do Brasil.

Nos 48 jogos da primeira fase, o número de vitórias dos times que tiveram 54% ou mais da posse de bola, ou seja, “mandaram no jogo”, foi rigorosamente igual ao número de vitórias das seleções que “jogaram na retranca” (tiveram 46% ou menos de posse de bola): 16 cada uma. Outros 9 jogos terminaram empatados e em 7 partidas nenhum time mandou no jogo.

Implica dizer que não há vantagem estratégica em dominar a posse de bola como fazem as vitoriosas Argentina (61% do tempo de cada partida com a posse da bola, em média) e Alemanha (59%). Tanto é assim que essa foi a tática usada pelas eliminadas Espanha e Costa do Marfim: ambas dominaram seus jogos por 56% do tempo, em média. E foram mais cedo para casa.

Jogar a maior parte do tempo no seu próprio campo, “explorando os contra-ataques”, tampouco é uma desvantagem. Seleção mais bem colocada na fase de grupos, a Holanda (9 pontos, 7 gols de saldo e 10 gols marcados) foi a 28ª em posse de bola: comandou o jogo por apenas 44% do tempo a cada partida, em média. O mesmo fizeram as classificadas seleções dos EUA (42%), Grécia (44%), Costa Rica (45%), Colômbia (45%) e Uruguai (46%).

A desvinculação com o resultado não significa que os jogos de quem controla a bola sejam iguais aos de quem joga esperando o adversário no seu campo. Na verdade, são bem diferentes.

Os dominadores correm muito mais com a bola nos pés do que atrás dela. Tome-se a Alemanha, por exemplo. Ninguém corre mais com a bola do que os alemães: 48 km por partida, 10 km a mais do que costumam correr sem a bola. Já os uruguaios correm apenas 30 km dominando a bola, e 38 km tentando recuperá-la.

A maior posse de bola implica maior quantidade de passes curtos e médios. Já quem joga no contra-ataque costuma ter uma maior taxa de passes longos, como é o caso da Holanda e seus 87 lançamentos por partida. E isso não significa atacar pouco. Os “retranqueiros” holandeses foram a terceira seleção em chutes certos: 11 por partida. E os maiores artilheiros.