José Roberto de Toledo - Estadao.com.br

José Roberto de Toledo

O Brasil aparece mal em um novo “indicador de riqueza inclusiva” que será apresentado oficialmente na Conferência Rio+20, em junho, no Rio de Janeiro. O motivo: o país estaria consumindo sua “riqueza natural” praticamente no mesmo ritmo que aumenta sua riqueza humana e econômica. A conclusão implícita é que o crescimento do PIB brasileiro nas últimas duas décadas se deu à custa da diminuição de seu estoque de florestas, reservas minerais e de combustíveis fósseis.

Entre 1990 e 2008, período a que se refere o novo indicador, o PIB do Brasil cresceu 34%. Ao mesmo tempo, a soma das riquezas naturais brasileiras teria decaído 46%, segundo os autores do estudo, cuja prévia foi apresentada nesta quarta-feira, em Londres, durante a conferência “Planet Under Pressure” (planeta sob pressão). Como resultado, a evolução da “riqueza inclusiva” brasileira foi pífia: apenas 3% em 18 anos.

Uma visão detalhada da evolução dos indicadores que compõem o novo índice pode ser vista no gráfico abaixo. Todos os ganhos de “capital humano” são praticamente anulados pela perda de “capital natural”. O período compreende os governos Collor, Itamar, FHC e Lula.

O novo indicador foi criado pelo “International Human Dimensions Programme on Global Environment Change” (UNU-IHDP), ligado à Universidade das Nações Unidas. Seu diretor-executivo, Anantha Duraiappah, pretende apresentar o primeiro relatório mundial de “riqueza inclusiva” durante a Rio+20, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

Nessa primeira versão, o relatório deverá analisar o crescimento de 20 países sob a ótica do novo indicador: Austrália, Brasil, Canadá, Chile, China, Colômbia, Equador, França, Alemanha, Índia, Japão, Quênia, Nigéria, Noruega, Rússia, Arábia Saudita, EUA, Reino Unido e Venezuela. Juntos, eles produzem 72% do PIB mundial e abrigam 56% da sua população.

Embora ainda não se conheça em detalhes a metodologia do novo indicador nem o seu resultado para todos esses países, não é difícil imaginar que as nações em desenvolvimento apresentem um resultado pior do que as desenvolvidas. Por uma razão simples: elas ainda têm capital natural para gastar, enquanto os países ricos já consumiram suas florestas e boa parte de seus recursos naturais enquanto estavam se desenvolvendo.

A Índia também aparece mal no novo indicador, embora melhor do que o Brasil: seu PIB cresceu 120% no período analisado, enquanto seu capital natural diminuiu 31%. Na média, a “riqueza inclusiva” indiana teria crescido 9% entre 1990 e 2008.

“A pesquisa sobre o Brasil e a Índia ilustra a razão pela qual o Produto Interno Bruto (PIB) é inadequado e enganador enquanto indicador de progresso econômico em uma perspectiva de longo prazo”, diz Anantha Duraiappah, do UNU-IHDP. E acrescenta: “Um país pode exaurir completamente todos os seus recursos naturais ao mesmo tempo que seu PIB cresce.”

A “riqueza inclusiva” não é o primeiro indicador apresentado por um braço da ONU para substituir o PIB como parâmetro de desenvolvimento. Há mais de 20 anos o PNUD lança, anualmente, seu relatório de desenvolvimento humano, no qual as nações são classificadas segundo um índice composto, o IDH, que soma indicadores de educação e longevidade ao PIB.

Resta saber se o “indicador de riqueza inclusiva” vai ganhar destaque e relevância ou se vai ser apenas mais um índice na selva estatística que cresce a cada ano. Também será curioso observar a reação do governo brasileiro ao lançamento oficial do novo índice durante a Rio+20. O anfitrião vai virar vidraça.

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26.março.2012 19:33:20

Afogando em dados

A partir de maio, os governos federal, estadual e municipal, além do Legislativo e do Judiciário, estarão sujeitos à nova Lei de Acesso à Informação Pública. Nada que não for classificado oficialmente como segredo de Estado poderá ser ocultado da população. Ao mesmo tempo, pululam sites oficiais com os chamados “dados abertos”, em cópia a iniciativa semelhante do governo Obama. Nunca tanto foi tão público. Chegamos à transparência absoluta? Nem perto.

Vivemos o “Big Bang” da informação. O estoque de dados brutos que se produz no mundo dobra a cada ano. A progressão é geométrica, expandindo em quantidade e velocidades inumanas. Ocultos nesse universo em explosão estão padrões de comportamento, indícios de corrupção e tendências de mercado – entre outras milhares de informações relevantes. O desafio é descobrir o que importa em meio ao caos, ver através da espuma.

Em meio à inundação, é tentador agarrar-se a um dado aleatório e, sem possibilidade de encaixá-lo no contexto, atribuir-lhe importância exagerada. Quando se avalia o todo pela parte, tudo depende da qualidade da amostra. Se ela for defeituosa, parcial, não espelhará o universo, mas um cantinho dele. É o que aconteceu com os despachos diplomáticos do governo norte-americano vazados pelo WikiLeaks em 2010. E, em diferentes graus, com os vazamentos espetaculares que o antecederam e o seguiram.

À época, cada um dos vazamentos foi vendido como o maior evento de quebra do sigilo governamental da história. Comparou-se o último deles a uma biblioteca de 2 mil volumes.

Mesmo assim, o total de documentos sigilosos tornados públicos pelo WikiLeaks cabia num pen drive de 2 gigabytes de memória que se compra em qualquer camelô da esquina. Por comparação, ao final do governo W. Bush, a quantidade de documentos eletrônicos transferida dos computadores do governo federal para o US National Archives foi de 77 terabytes – quase 40 mil pen drives do WikiLeaks.

Não foi apenas um problema de quantidade, mas de qualidade dos dados. Os despachos eram menos de 10% da correspondência dos diplomatas dos EUA no período e não continham nenhum informe classificado como “top secret”, o mais relevante na escala de sigilo. É como ir a uma churrascaria rodízio e, sem experimentar a picanha, julgar a qualidade da carne pelos espetinhos de coração de frango servidos de entrada.

Afora o fetiche tecnológico, nada de novo. Uma das maneiras clássicas de esconder a verdade é divulgar apenas parte dela. É do que os meios de comunicação são acusados desde sempre. O WikiLeaks juntou-se ao clube ao pedir ajuda aos sócios mais antigos. O grupo comandado por Julian Assange não foi capaz de lidar sozinho com todos os documentos e formou um consórcio com alguns dos mais tradicionais jornais do planeta.

Sem a experiência dos jornalistas, a força de trabalho conjunta não teria conseguido desbastar nem parte da já parcial floresta de documentos sigilosos. Mas, como contrapartida, o gargalo de informações divulgadas foi ainda mais estreitado, porque passou pelo crivo também dos departamentos jurídicos dos jornais. Como se vê, nada de transparência radical ou revolucionária.

Em artigo publicado na revista International Review of Administrative Sciences, o pesquisador Alasdair Roberts, da Universidade de Suffolk, questiona o conceito subjacente aos vazamentos bombásticos de que basta tornar pública uma quantidade de dados governamentais que parece gigantesca para provocar clamor na população e mudar o regime de poder. A ideia não é apenas pueril. É errada. Não existe tal relação de causa e efeito – ao menos não do dia para a noite.

A divulgação de milhares de relatórios de campo das ações militares dos EUA no Afeganistão não mudou a percepção da opinião pública norte-americana sobre a guerra -ao menos não como pretendiam os “vazadores”. Aumentou o apoio à intervenção, a despeito da divulgação de barbaridades cometidas pelos soldados. Essa não é uma guerra de uma batalha só.

A regra vale para os dados do governo brasileiro que afluem cada vez em maior volume à luz.

Para descobrir o que é de interesse público serão essenciais a experiência e dedicação constantes da imprensa, de pesquisadores e de organizações não governamentais como Transparência Brasil e Contas Abertas – além de interfaces tecnológicas que ajudem a dar sentido à multidão de informações. Ou morreremos afogados em dados.

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19.março.2012 20:45:31

Harém partidário

Por que o governo Dilma carrega uma base parlamentar tão extensa, conflituosa e perdulária quanto uma amante argentina? Só PSOL, PSDB, DEM e PPS praticam oposição de fato e votam contra as proposições governistas com assiduidade. O PV fica a meio termo. Juntos, os oposicionistas mal chegam a uma centena de deputados, menos de 20% da Câmara.

Os demais 80% votam tão frequentemente sob a orientação dos prepostos de Dilma que quando não o fazem, mesmo que em algo de menor importância, é notícia. Não faz diferença ganhar por 50 ou 250 votos de margem. Mas custa mais caro. Carregar uma maioria tão inchada requer um guindaste que só se mantém em pé graças a um contrapeso de verbas e cargos.

Em tese, uma maioria de 257 votos seria suficiente para o governo aprovar praticamente tudo o que quer na Câmara, já que não há nenhuma reforma constitucional fundamental à vista. As bancadas do PT (85 deputados), PMDB (76) e do bloco PSB-PTB-PCdoB (63) somam 224 votos. Os 33 restantes para a maioria absoluta viriam de partidos quânticos como PSD (47) ou PP (39).

Outras siglas que condicionaram o apoio a Dilma no Congresso a ministérios, como PR (36 deputados) e PDT (26), poderiam ser usadas conforme a necessidade -e sem cadeira cativa na esplanada. Mas todo esse raciocínio cai por terra quando confrontado com um dado da realidade: PT e PMDB estão em rota de colisão eleitoral.

O crescimento petista nas eleições deste ano, se ocorrer, tende a desfalcar a bancada peemedebista. Não só porque o PMDB é o partido com maior número de prefeituras (1.181) e, assim, com mais a perder. A história tem sido assim. Embora parceiros na chapa presidencial, as duas siglas têm um passado muito mais de conflito do que de aliança, principalmente nos municípios.

Os partidos esparramam sua base municipal enquanto estão no poder. O auge do PMDB foi no governo Sarney, quando o partido mandava e desmandava. Em 1988, os peemedebistas elegeram 1.606 prefeitos, ou 38% das vagas em disputa. Na época, PT e PSDB tinham menos de 1% das prefeituras. Mas a história estava prestes a mudar, à medida que as duas siglas passassem a polarizar a disputa pelo governo federal.

Em cada uma das quatro eleições municipais seguintes o poder relativo do PMDB diminuiu, enquanto o do PSDB e, depois, o do PT cresceu. Em 2004, dois anos após perderem a eleição presidencial coligados aos tucanos, os peemedebistas bateram no ponto mais baixo de sua base municipal: 19% das prefeituras. Era preciso mudar a estratégia.

Começou a guinada rumo ao PT. O PMDB não se coligou a Lula em 2006, mas tampouco se aliou aos seus rivais do PSDB. Em 2008, petistas e peemedebistas já eram aliados no Congresso e no governo. Resultado: o PMDB voltou a aumentar sua base municipal, que chegou a 22% das prefeituras.

Em meio a rusgas e aproximações, as duas siglas formalizaram sua união em 2010, com Michel Temer (PMDB) se tornando vice de Dilma Rousseff. Mas o casamento não ajudou os peemedebistas a expandirem sua base municipal. Ao contrário, nos últimos quatro anos, entre cassações e traições, a tropa peemedebista minguou para 21% dos prefeitos.

Toda vez que isso acontece, os cardeais do partido ficam nervosos. É a colcha de retalhos municipalista que cobre as oligarquias estaduais do PMDB e lhes serve de manto protetor em Brasília. Sem a base, a cúpula desaba. Enquanto isso, a base municipal petista segue crescendo. Dobrou em 2004, cresceu 50% em 2008 e passou de 10% das prefeituras.

No longo prazo, a aliança PT-PMDB é insustentável. Os conflitos ficarão cada vez mais óbvios com a aproximação das eleições. Resta a Dilma mimar o resto do harém partidário para quando o divórcio chegar.

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Nos EUA, um pai ficou indignado ao encontrar, na sua caixa de correio, cupons de desconto para roupas de bebê enviados por uma cadeia de varejo em nome de sua filha menor de idade. Acusou a loja de tentar induzir a garota a ser mãe precocemente. Mas, após confrontar a adolescente, descobriu que a filha já estava grávida. Só ele não sabia.

Os estatísticos da loja de departamentos Target não tiveram acesso a nenhum teste de gravidez. Apenas inferiram que aquela consumidora iria dar à luz cruzando informações de compras: a mudança no seu padrão de consumo era consistente com o de outras grávidas. Foram tão precisos quanto um exame de ultrassom.

A história -quase boa demais para ser verdade- ilustra reportagem do “New York Times” intitulada “Como companhias aprendem os seus segredos”. A rigor, não são dos segredos de uma pessoa, mas dos hábitos da multidão que as empresas estão atrás. Juntando os seus aos meus, descobrem os nossos. Tudo para determinar padrões e prever comportamentos. No conjunto, somos muito mais parecidos uns com os outros do que gostamos de admitir.

Na reportagem, analistas da Target revelaram, orgulhosos, como são capazes de prever, com pequena margem de erro, a data do parto ou o sexo da criança. Tudo com base no consumo de loção de pele, na quantidade de tufos de algodão comprados e na cor do tapete encomendado para o quarto do bebê. Esses itens fazem parte de uma cesta de 25 produtos que compõem o “índice de predição de gravidez” criado pela loja. Não é piada, é dinheiro.

Você pode achar que ninguém está prestando muita atenção em como usa seu cartão de crédito, no que faz com seu mouse e com seu celular ou por onde você anda com seu carro, mas isso não muda o fato de que há gente cuja missão profissional é colecionar, organizar e analisar dados sobre você. É íntimo, mas não é pessoal: é universal.

No mundo do chamado “Big Data”, o nome importa menos que o CPF, que o endereço eletrônico ou que o número do cartão de crédito. Importante é juntar dados sobre a maior massa possível de consumidores, contribuintes, motoristas e internautas. Não para espioná-los -em princípio-, mas para transformar cada um deles num código numérico unificado. Afinal, há menos algarismos do que letras, o que agiliza a computação.

Há cada vez melhores aplicativos para reconciliar bilhões de dados de diferentes origens com o objetivo de determinar que o dono do CPF “tal” é também a pessoa por trás daquele email, deste cartão de crédito, de certo endereço I.P. e -por que não?- de um determinado título de eleitor.

Na caça ao seu voto, políticos fazem “microtargeting”. O site Pro Publica relatou como um casal norte-americano recebeu ao mesmo tempo, enquanto ambos assistiam TV no sofá, duas mensagens diferentes do comitê de campanha de Barack Obama em seus celulares. Com palavras e argumentos diversos, elas pediam a mesma coisa: dinheiro. O site descobriu pelo menos seis versões diferentes da mesma mensagem disparadas para os celulares de possíveis apoiadores do presidente dos EUA.

A diferenciação da forma se deve a diferentes estratégias elaboradas pelos marqueteiros de Obama para diferentes perfis de eleitor. A meta é evocar o tema que mais interessa a cada um, no momento certo e do jeito que, imaginam, tornará o apelo mais sedutor -do mesmo jeito que a Target manda cupons de desconto de roupas de bebê para adolescentes grávidas pouco antes de elas darem à luz, em vez de enviar para seus pais indignados.

Enquanto isso, a Casa Branca tenta regular a fome de dados das empresas. Propôs a lei de direitos de privacidade do consumidor. O texto prevê transparência por parte das empresas, controle individual dos consumidores sobre suas informações e limites ao uso dos dados. Mas, como os emails de campanha demonstram, o próprio Obama pratica microtargeting.

No Brasil, essa técnica foi usada em campanhas de presidente e governador, em 2010. Apesar da carência de dados -quando comparadas às bases de dados dos EUA, onde o marqueteiro conhece centenas de características de cada eleitor-, estrategistas de Marina Silva e Sergio Cabral, por exemplo, conseguiram “fatiar” o eleitorado e desenvolver um tipo de campanha para cada segmento, de acordo com seus interesses e prioridades.

É algo que está fazendo falta ao governo federal. Não só para avaliar políticas públicas com eficiência, mas para mirar com precisão os interesses de cada parlamentar da chamada base aliada. Sem esse controle fino, o Planalto corre o risco de, como o pai daquela adolescente grávida, ser o último a saber das estripulias de seus afilhados no Congresso.

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  • Postado via
  • 7 de março de 2012
  • 14h45

RT @acessopublico: Governo federal se inspira nas 3 leis dos dados abertos http://t.co/PxtxIr0I | Excelente post de @bramatti

  • Postado via
  • 7 de março de 2012
  • 14h44

RT @jpkupfer123: “A hora do controle”. Situações anormais devem ser tratadas com fórmulas dos tempos de normalidade? http://t.co/opVts48e

As notícias divulgadas até agora sobre a pesquisa Datafolha dão conta de que 41% “conhecem” Fernando Haddad (PT), pois foi como o instituto qualificou essa taxa. Não é bem assim. Nesses 41% foi computada uma metade que apenas “ouviu falar” do pré-candidato petista a prefeito de São Paulo. Ou melhor, diz que ouviu.

Sabe-se que às vezes o pesquisado se sente intimidado pelo pesquisador, especialmente quando a pergunta é se ele sabe alguma coisa ou conhece alguém. Não saber é admitir ignorância, algo não muito lisonjeiro se o entrevistado partir do pressuposto que deveria saber o que lhe é perguntado.

A opção “só de ouvir falar o nome” é a escapatória para o eleitor intimidado não admitir ignorância, mas também não mentir e dizer que conhece (as opções anteriores são “conhece muito bem” e “conhece um pouco”) o candidato que, na verdade, ele desconhece. É ficar em cima do muro. Não vale como conhecimento, assim como “regular” não conta como avaliação positiva nem negativa de um governo.

O leitor pode ou não concordar com a argumentação apresentada até agora, mas será mais difícil resistir aos números da própria pesquisa Datafolha. Apenas 6% dizem conhecer Haddad “muito bem”. Por comparação, o dobro de paulistanos conhece Levy Fidelix (PRTB) “muito bem” -é o do “aerotrem”.

Entre o terço do eleitorado paulistano que se diz simpatizante do PT, apenas 5% afirma conhecer “muito bem” o candidato do partido. Entre os simpatizantes do PSDB, o grau de alto conhecimento de Haddad é o dobro: 11%. Ou seja, Lula escolheu um candidato que tem duas vezes mais penetração entre os rivais do que entre os petistas. E não foi por acaso.

A estratégia paulistana traçada pelo ex-presidente dá de barato que Marta Suplicy não se reelegeu prefeita em 2004 porque à alta rejeição ao PT somou-se a rejeição pessoal da agora senadora. Para 2012, Lula escolheu, propositalmente, um desconhecido -e, portanto, não rejeitado- com potencial de agradar à classe média que não vota no PT desde 2000: “novo”, bem apessoado e especialista em educação.

O plano foi concebido para vencer o segundo turno. Mas, antes, é preciso chegar lá. E o peso de carregar um ilustre desconhecido até 3 de outubro ficou inteiramente sobre o ex-presidente. Haddad sofre de “lulodependência” aguda. O PT, à margem, assiste o rival PSDB cooptar aliados e somar tempo de TV. Enquanto isso, a grande maioria do eleitorado nem se deu conta da novela.

O Datafolha perguntou aos paulistanos quem Lula está apoiando em São Paulo. Mesmo com o entrevistador estimulando a resposta com os nomes dos pré-candidatos, só 10% responderam que o ex-presidente apoia Haddad. Essa taxa cai para 5% entre as mulheres, para 6% entre quem não passou do ensino fundamental e 7% entre quem ganha até 5 salários mínimos. Mesmo entre os petistas, só 8% sabem.

Nenhum segmento social sabe melhor que Haddad é o candidato de Lula do que os simpatizantes do PSDB: 1 em cada 4 respondeu corretamente à pergunta do Datafolha. E isso explica porque Haddad tem cinco vezes mais rejeição (15%) do que intenção de voto (3%). Quem sabe que ele foi ministro da Educação lembra-se também dos vazamentos das provas do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) em sua gestão.

Quando decidiu monocraticamente enterrar as prévias do PT em São Paulo e apontar sozinho o candidato a prefeito do partido, Lula assumiu um compromisso. Implicitamente, disse “deixa comigo” e se comprometeu a levar Haddad nas costas. A potência eleitoral do ex-presidente é comprovada, mas acidentes acontecem. E quando o cavalo tropeça, quem cai é o cavaleiro.

Lula ficou doente. É um acidente. Sua recuperação, embora notável, não é milagrosa. Como é comum em casos de câncer, leva tempo, consome energia, desgasta. Curar-se deve ser e tem sido a sua prioridade. Com exceção dos hidrófobos e ressentidos, a grande maioria torce por sua recuperação. Enquanto isso, Haddad espera sua montaria.

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* Lula ainda é o maior eleitor em São Paulo (44% poderiam ser levados a votar no seu candidato a prefeito), mas esse número era ligeiramente maior em janeiro: 49%. Outros 21% não votariam no candidato dele. O saldo da influência de Lula, portanto, é positivo em 23 pontos percentuais, mas caiu um terço quando comparado ao saldo de janeiro (era 33 pontos).

* Dilma Rousseff e Geraldo Alckmin têm o mesmo percentual de influência positiva sobre o eleitorado paulistano: 31% cada um. Mas a influência negativa (24% não votariam no seu candidato) do tucano é ligeiramente maior, levando a um saldo mais baixo. Dilma: 31% – 19% = 12 pontos. Alckmin: 31% – 24% = 7 pontos. O saldo de Dilma caiu em relação a janeiro (era de 17 pontos) e o do tucano se manteve estável.

* A pequena melhora na avaliação de seu governo não reverteu em cacife eleitoral para o prefeito de São Paulo. Gilberto Kassab (PSDB) continua sendo mais um peso do que um alavancador de votos: apenas 14% dizem que poderiam votar no candidato apoiado por ele, enquanto 47% não votariam pelo mesmo motivo. Seu apoio equivale a um saldo negativo de 33 pontos. Era de -32 em janeiro. Não mudou.

* Essa influência, positiva ou negativa, não é absoluta nem definitiva. Convém contextualizar a pesquisa, especialmente enquanto a grande maioria não tiver candidato na ponta da língua nem estiver pensando na eleição antes de ser abordada pelo pesquisador. Basta ver que 1 em cada 3 eleitores de José Serra dizem que poderiam votar no candidato apoiado por Lula. Isso indica menos a possibilidade de “traição” do eleitor do tucano e mais a falta de firmeza das intenções de voto, de um modo geral, neste momento da campanha.

* Outras inconsistências típicas da pré-campanha: 12% dos eleitores de Serra não votariam no candidato de Alckmin, 11% dos eleitores de Fernando Haddad não votariam no candidato de Dilma Rousseff, e 34% dos eleitores de Serra não votariam no candidato de Kassab. Ainda mais curioso: 21% dos que acham a gestão Kassab ótima ou boa dizem que o apoio do prefeito faria eles não votarem no seu candidato…

* É preciso cruzar as respostas para encontrar os segmentos do eleitorado que são consistentes em suas opiniões. Por exemplo: dos 30% que rejeitam Serra, 60% (quase 2 em cada 3) dizem que não votariam no candidato apoiado por Kassab. Ou ainda: dos 15% que não votariam de jeito nenhum em Fernando Haddad, 27% não votariam no candidato de Lula.

* Por fim, muito poucos eleitores votam em um candidato apenas porque um líder político mandou votar. O voto é pragmático e racional, uma conta de ganha e perde. O apoio de Lula, Alckmin, Dilma e Kassab é apenas um elemento a somar ou subtrair simpatias. Não é o único fator que o eleitor avalia.

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07.março.2012 12:29:59

No embalo da pesquisa

O termômetro esquenta ou esfria o objeto cuja temperatura ele pretende medir. Assim também, a pesquisa eleitoral influi na disputa que ela acompanha. A sondagem do Datafolha sobre a eleição paulistana criou um fato positivo para José Serra e praticamente liquidou as já remotas chances dos outros pré-candidatos do PSDB a prefeito de São Paulo. Mais do que isso, aumentou o magnetismo do tucano no jogo das alianças partidárias.

Na atual fase da corrida eleitoral, o mais importante para cada um dos principais candidatos é unir seus partidos em torno de seu nome e conseguir o máximo de coligações com outras siglas, de preferência com aquelas que têm direito a pelo menos uma inserção diária durante o horário eleitoral obrigatório. Serra largou na frente.

Ao bater em 30% das intenções de voto no Datafolha, ele tornou-se líder e -mais relevante- passou a ser percebido como o favorito. Nada mais atraente para os políticos do que a perspectiva de poder. Não importa que Serra cresceu por em evento efêmero -o tumulto causado pela sua entrada tardia na disputa e a grande exposição na mídia que se seguiu-, nem que parte de sua intenção de voto seja, de fato, efeito memória. A pesquisa criou um fato político e deu impulso a Serra.

Antes que obscurantistas venham clamar contra a liberdade de informação, é bom lembrar que isso é do jogo. Assim como ajudou, a pesquisa poderia ter atrapalhado se o resultado fosse diferente. Em 2010, quando Dilma Rousseff, em ascensão, começou a encostar no tucano, em queda, cada pesquisa era uma dose de vitamina para a campanha da petista e um tormento para Serra. Neste momento, os papéis se inverteram.

Para o PT e para Fernando Haddad, a pesquisa Datafolha foi uma notícia duplamente ruim. A estagnação do petista em 3% mostrou que a estratégia de Lula não deu certo. Ao atropelar as prévias do partido e impor um nome que ele escolheu sozinho, o ex-presidente pretendia ganhar tempo para tornar seu candidato conhecido e evitar rachas internos. Aconteceu o oposto.

O ressentimento de petistas alijados da disputa, como Marta Suplicy, é cada vez mais notório, e Haddad continua patinando no desconhecimento, apesar de estar em campanha há meses. Sem adversário interno, o pré-candidato petista mal aparece no noticiário. Ao mesmo tempo, a doença de Lula não permitiu que ele propagandeasse o nome de seu pupilo à exaustão, como fez com Dilma em 2009 e 2010.

Desconhecimento e inexperiência são defeitos que não pioram com o tempo. Ainda há muito chão pela frente, Lula está praticamente recuperado e o PT tem um eleitorado cativo que levou seu candidato ao segundo turno nas últimas cinco eleições de prefeito em São Paulo. O problema petista imediato são as coligações perdidas.

É muito mais difícil -e caro- convencer um partido a apoiar o 7º colocado do que o líder da pesquisa. Especialmente quando Dilma enfrenta uma rebelião na base de apoio ao seu governo. O PTB só é aliado do PT em Brasília. O PDT, cada vez menos. O PP malufista tucanou. O PSD kassabista também. PRB, PC do B e PMDB têm candidatos próprios mais bem colocados que o petista. O PR ameaça com Tiririca. Sobra o PSB, talvez.

Serão necessários muitos ministérios e muita verba federal para o PT seduzir outras siglas e levá-las para sua coligação. Sem isso, Haddad, que precisa de tempo na TV para o eleitor descobrir que ele existe, corre alto risco de ficar com menos tempo de propaganda do que o principal rival, o universalmente conhecido Serra.

Se não fizer amigos e influenciar outros partidos, Haddad pode ficar empatado em inserções publicitárias com Gabriel Chalita (PMDB), que corre por fora e não perdeu pontos com a entrada de Serra: tem 7% das intenções de voto (tinha 6%).

A dificuldade petista de arrumar coligações para seu candidato em São Paulo se deve aos aliados de Dilma terem caído na real. Perceberam que jogam, em 2012, a sua sobrevivência daqui a dois anos, quando serão renovadas as bancadas na Câmara dos Deputados e um terço do Senado. Os principais cabos eleitorais em 2014 serão -como sempre foram- os prefeitos que ganharem a eleição no próximo mês de outubro. E está difícil elegê-los.

Os aliados acham que o PT é o bicho-papão. Mas foi o recém-criado PSD que bagunçou a base aliada de Dilma. Das suas 272 prefeituras, o partido de Gilberto Kassab “roubou” a maioria (153) de partidos que apóiam a presidente no Congresso: 31 do PMDB, 30 do PP, 23 do PR, 15 do PTB e 10 do PSB, por exemplo.

Como resultado, PMDB, PP, PDT, PR e PTB têm menos prefeitos hoje do que elegeram em 2008. Ao mesmo tempo, PT e PSB conseguiram cooptar novas prefeituras e estão jogando pesado para engordar ainda mais esse número nesta eleição. São Paulo é apenas o caso mais visível de um problema nacional: a disputa pelo poder municipal entre partidos que só são aliados no plano federal por força do presidencialismo de coalizão brasileiro.

O mau desempenho no Datafolha e a busca pelas coligações perdidas mostram que não será apenas na base da ligação direta com o eleitor e seu bolso que Lula vai conseguir eleger Haddad, nem que Dilma vai conseguir governar. A política é necessária, como sempre foi.

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Há no Brasil uma instituição ainda mais -digamos- diversificada do que os partidos políticos: as igrejas evangélicas. Elas se multiplicam à razão dos seus seguidores, o que já é uma vantagem comparativa em relação às agremiações partidárias, onde abundam cardeais e faltam fiéis.

Num bairro de uma grande cidade brasileiras cabem centenas de igrejas. No Brasil, são dezenas de milhares. Cada templo evangélico opera com independência, quase como franquia de uma igreja. Essa autonomia talvez explique o seu sucesso empreendedor. Juntos, formam mais uma rede do que uma organização hierárquica, com comando unificado.

Por essa característica, é duvidoso que um ministério, especialmente o da Pesca, sirva ao propósito de Dilma Rousseff de unir os evangélicos em apoio ao governo. Muito menos aos candidatos do governo federal nas eleições municipais. Nem como gesto simbólico de apaziguamento funcionou a nomeação do ministro.

As reações negativas de deputados evangélicos do PMDB e do próprio PRB do senador-ministro Crivella mostram que essa arrastão pegou muito menos peixes do que o governo gostaria. E é natural que seja assim: é uma cadeira ministerial só para igrejas evangélicas demais.

Repete-se a constatação de que, em Brasília, a soma das partes é sempre maior do que o todo. A colcha de retalhos da base de apoio do governo (Dilma, Lula ou FHC) não cabe dentro do ministério, por mais inchado que ele seja. Cada nomeação cria a expectativa de outras, compensatórias.

A vara desse tipo de estratégia política é curta demais.

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