Pesquisa não elege ninguém. No máximo, ajuda ou atrapalha candidatos a levantar dinheiro, anima ou deprime seus cabos-eleitorais. Porém, gasta-se mais tempo discutindo o sexo das pesquisas do que analisando-se os erros induzidos pelo sistema de votação no Brasil.
A adoção do voto eletrônico aumentou drasticamente o acerto formal do eleitor nos últimos 12 anos. A urna informatizada ajudou milhões de brasileiros a concretizarem a intenção de sufragar seus candidatos, de todos os partidos.
O gráfico ilustra o momento em que os votos válidos para todos os cargos eletivos convergiram para valores muito próximos. Foi na eleição de 1998, quando a Justiça eleitoral implantou a urna eletrônica na grande maioria dos municípios brasileiros.
Até então, a dificuldade de escrever impedia grande parte do eleitorado de transformar seu desejo em marca legível na cédula. Isso ficava evidente nas eleições de deputado estadual e federal. À época, confundia-se problemas no manejo do lápis com voto de protesto.
Trocada a grafia pela digitação, instantaneamente despencaram as taxas de brancos e nulos, multiplicando os porcentuais de votos válidos para Câmara e Assembléia.
Em 2002, universalizou-se o voto eletrônico. Aumentaram os votos válidos para presidente, mas, surpreendentemente, eles ficaram aquém dos dados a deputados estaduais e federais. Não era mais motivo de comemoração, mas sinal de que havia algo errado.
É um sintoma de outro tipo de engano do eleitor, até hoje tratado com indiferença pela Justiça eleitoral e propositalmente ignorado pelo Congresso: o erro na sequência de votação.
Bombardeado por centenas de horas de propaganda na TV e no rádio, dezenas de manchetes de jornal, milhares de mensagens via internet, todas sobre eleição presidencial, o eleitor chega à urna e a primeira coisa que lhe pedem é votar para… deputado estadual.
A cena repetiu-se milhões de vezes. O eleitor sai da cabine e o mesário avisa que ele ainda não terminou. Ele diz que sim. O mesário explica: são seis votos, precisa digitar todos. Envergonhado diante da fila, o eleitor se livra dos votos restantes cada vez mais apressado. O último é para presidente.
Sabe-se que o erro na ordem de votação chegou aos sete dígitos no primeiro turno de 2010 por vários indícios. Todos apontam na mesma direção:
• Em comparação ao primeiro turno, houve menos 2,5 milhões de votos brancos e nulos no segundo turno presidencial. A queda entre turnos se repete desde 2002.
• Segundo o Ibope, 15% do eleitorado de Marina Silva e 33% do de Plínio Sampaio anularam ou votaram em branco no segundo turno.
• O número de votos brancos e nulos deveria ter crescido 45% com o acréscimo dos ex-eleitores do PV e do PSOL, que ficaram sem candidato. Mas caiu para 7 milhões.
• A votação de José Serra cresceu 10,6 milhões de um turno para outro. Disso, segundo o Ibope, 9,8 milhões vieram de Marina e 200 mil de Plínio. Faltam 600 mil votos.
• A votação de Dilma Rousseff cresceu 8,1 milhões. Desses, 6,5 milhões vieram de Marina e 200 mil de Plínio. Faltam 1,4 milhão de votos.
• Ao menos 2 milhões de eleitores que anularam ou votaram em branco no primeiro turno votaram em Dilma ou em Serra no segundo. Por que? Muito provavelmente porque se confundiram com a ordem esdrúxula de votação em 3 de outubro, mas não no turno final, quando votaram apenas uma ou duas vezes.
• Como a abstenção aumentou no segundo turno, eleitores que deixaram de votar podem também ter errado em 3 de outubro. Logo, mais de 2 milhões podem ter se enganado no primeiro turno na ordem de votos.
• Na única eleição “solteira” para presidente (1989), 94% dos votos foram válidos, recorde até hoje.
Há duas saídas: 1) inverter a ordem de votação e priorizar a de presidente; 2) “descasar” as eleições de presidente, senador e deputado federal das de governador e deputado estadual. Ambas as soluções dependem dos inventores da atual ordem de votação e do casamento das eleições.
Lembrete: não fosse a pesquisa do Ibope, seria quase impossível estimar os erros provocados pela ordem de votação.
Sr. Toledo, não conferi os números e percentuais apresentados, mas no “olhometro”, me parecem honestos. Quanto as duas saídas apresentadas, sei que não é seu mister fazê-lo, mas gostaria que o Sr. se estendesse, diante desse números, com um parecer a título de orientação, para uma futura discussão sobre esse tema que provoca distorções na vontade do eleitor. De todo modo meus parabéns.
[...] This post was mentioned on Twitter by Eduardo Marinho, Alexandre Campbell. Alexandre Campbell said: Interessante o artigo do @zerotoledo sobre anulação involuntária: 'Crônica de um erro ignorado' http://bit.ly/9A7m5w [...]
[...] Crônica de um erro ignorado [...]
Resumo da ópera : analfabeto não deveria votar !
E o Sr. deveria ser preso por crime de preconceito.
Porque se considera que o acesso à leitura e à escrita — até hoje um privilégio em determinados degraus da sociedade — é razão suficiente para diminuir os direitos políticos de uma pessoa.
O Sr. conserva um tratamanto discriminatório contra pessoas que já são prejudicadas em sua existência cotidiana por não saber ler nem escrever. Não só não tiveram uma escola — ou nem tiveram uma família para garantir que estudassem.
E ainda assim são tão – ou mais – brasileiros que o Sr.
Vou fazer um paralelo: analfabeto funcional não deveria votar. Muita gente que sabe ler e escrever tem sérias dificuldades…
responder este comentário denunciar abusoParabéns pela colocação. É realmente ridículo a votação começar por estadual e terminar por presidente. o melhor é descasar governador e deputado estadual, que poderiam ser feitas junto com a de prefeito e vereadores. Teríamos, assim, duas eleições em quatro anos, com 4 candidatos para escolher em cada uma delas. Não deixe o assunto morrer, é importante.
O que eu acho, isto reconhecido pelo própio FHC, é que as eleições foram limpas. Qualquer que fosse a ordem dos candidatos a ser digitados pelo eleitor, sempre será inevitável deixar alguém insatisfeito. Os que fazem este tipo de contestação já deveriam estar olhando para frente. Talvez para dentro de uma Reforma Política. De resto, é democraticamente aceitar a vóz das urnas. Estaremos sempre aperfeiçoando para que a informática seja cada vêz mais usada de forma eficaz. Nada é 100% perfeito. Os Institutos de Pesquisas acertaram 99.99% no segundo turno. Acho que isto tudo já passou. Talvez VSa sugerisse colocar todos os candidatos em uma única tela da urna? O eleitor clicaria em cada um nas opcões “sim” ou “não”? Mesmo assim, continuaria a questão da ordem de apresentação dos candidatos e das opções. Primeiro “sim” ou “não.
Muito interessante o conteúdo deste seu artigo. Ao mesmo tempo em que “A adoção do voto eletrônico aumentou drasticamente o acerto formal do eleitor nos últimos 12 anos. A urna informatizada ajudou a milhões de brasileiros a concretizarem a intenção de sufragar seus candidatos, de todos os partidos”, palavras de V Senhoria, eu digo, esse sistema é tão ruim, que país nenhum – principalmente entre os que o estudaram – o adotou. O simples fato de que há um cabo que liga a urna que coleta o voto ao aparelho identificador do eleitor, aquele no qual o mesário ingressa com o número do título do eleitor, torna todo o sistema desacreditado. Não há necessidade de ser um técnico em eletrônica, ou em informática, para perceber que tal situação permite a emissão de um relatório onde se correlaciona o nº do título do eleitor com os da ordem dos botões acionados por ele, logo em seguida … Não tenho a menor dúvida de que tal relatório pode ser gerado sim, a partir de um simples comando nos computadores do TRE! Desse modo, ficou rápido votar, a colte da intenção do voto foi facilitada mas … infelizmente … com essa conexão, com esse cabo que mencionei, ligando as duas máquinas, o voto, no Brasil, deixou de ser secreto. Há solução para isso! Máquinas independentes. Uma, identificadora (dispiciendo, por que já há os mesários para isso!). Outra, a urna eletrônica, desatada de qualquer outra! Estou disposto a ingressar com representação no TRE, com vistas a invalidar eleições nas quais se use essa urna eletrônica, feita por brasileiros, e adotada só por eles ….
Caro JRToledo, saindo um pouco do enfoque, como a mídia, após a globalização, têm focado o consumidor individualmente, com o marketing de pós venda, os lideres formadores de opinião ganharão um espaço enorne, a nenor celula acredito ser as ONGs (tente observar quando das eleições das mesmas), seguidos por pastorais,e diversas outras associações.Finalizando, O falecido Sen. Romeu Tuma, tinha projeto para que todos os municípios, fize-se o cadastro familiar de todos os seus municipes, cadastro este que poderia mensurar muitas das necessidades, bem como dimensioná-las (“just in time), no atendimento do médico de família, na aquisição e distribuição de medicamentos e outras necessidades da comunidade municipal.Sóu democrata, porém outro partido como por exemplo o PMDB também poderia contribuir gesto sistemático e socialmente correto.Abraços Toledo 25503
Alguma explicação para a queda de votos válidos para presidente entre 89 e 94 (ou porque 94 teve a menor taxa de votos válidos no período?)
Se a pessoa não tem capacidade de entender a ordem de votação, o que lhe habilita politicamente? Qual a diferença entre uma pessoa analfabeta e uma semianalfabeta considerando sua capacidade crítica e visão política? Ambos deveriam ter o mesmo tratamento pela lei eleitoral: voto facultativo. Se não é capaz de votar, não vota.
Por isso que o Estadao (mesmo sendo Serra) eh o melhor jornal do Brasil…ninguem fez essa analise de dados como o Toledo. Mais importante: essas correlacoes e analises estatisticas servem para melhorar cada vez mais o sistema eleitoral do Brasil, que eh otimo, so os politicos que sao ruins (em sua maioria).
Temos um sistema confiavel, cidadaos integros, mas politicos ruins – esperemos que a ficha limpa varra e elimine tudo de mal que existe por ai.
Fácil de explicar: o alto número de analfabetos e semi-alfabetizados no processo eleitoral. As pessoas tem dificuldade de ler e interpretar o que está na tela. Também com essa nossa classificação no IDH, o que podemos pretender. Não se trata de descasar as eleições ou mudar a ordem dos cargos em votação. O que precisamos é melhorar substancialmente a educação neste país.
A atitude de priorizar a eleição de Presidente implica desprezar o Legislativo – sobretudo o estadual. O melhor é “descasar” as eleições, de modo a se efetivamente valorizar as eleições legislativas.
Ou, então, que se institua o PARLAMENTARISMO, sistema no qual o Primeiro-Ministro emerge da maior votação no Congresso Nacional, descasando-se, também, a eleição Legislativa da eleição para Presidente da República – Monarquia não dá, apesar de Lula com certeza apreciar a idéia.
Mais uma análise ótima Roberto !!!
Como em outras manifestações ao longo do processo, não se pode chegar a uma conclusão sadia e esclarecedora em função das opiniões fulanizadas daquela banda que já conhecemos. Todavia, parabens ao Toledo por nos trazer à compreensão assunto de tamanha relevância e que venham mais, através de canais que realmente se constituem em busca ma verdade, para a sua devida correção.
2012
2011
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