Depois de cinco séculos recebendo migrantes de todas as partes do Brasil e do mundo, São Paulo tornou-se uma “exportadora” de gente no século 21. Entre moradores que chegaram e pessoas que abandonaram a cidade, a capital paulista perdeu 293 mil habitantes nesta década.
É o que os demógrafos chamam de saldo migratório negativo. São Paulo só continuou crescendo porque o saldo vegetativo foi alto: 1,770 milhão de nascimentos contra 667 mil mortos entre 2000 e 2010, segundo dados do Datasus (Ministério da Saúde).
Ou seja, enquanto 1,103 milhão de novos habitantes entravam pelas maternidades, outros 293 mil saíam pela via rodoviária (ou pelo aeroporto). No fim das contas, a cidade incorporou 810 mil novos paulistanos em 10 anos e chegou a 11,244 milhões de habitantes.
Ao contrário de décadas anteriores, há indícios de que o destino dos moradores que emigraram de São Paulo não tenha sido a periferia da região metropolitana. Isso porque vários municípios importantes do entorno paulistano também tiveram saldo migratório negativo.
Foram os casos de Osasco (-58 mil pessoas), Carapicuíba (-26 mil), Santo André (-21 mil), Diadema (-20 mil), São Bernardo do Campo (-14 mil) e Barueri (- 6 mil), entre outras. Elas têm mais moradores hoje do que tinham há dez anos, mas foi graças aos nascimentos ocorridos dentro do próprio município.
É uma nova tendência. Na segunda metade do século 20, muitas dessas cidades cresceram absorvendo moradores da cidade de São Paulo, principalmente os de baixa renda.
Ao que tudo indica, a centrifugação populacional paulistana perdeu força no século 21. Poucas cidades vizinhas à capital tiveram saldo migratório positivo. Destacam-se Cotia (+29 mil pessoas) e Santana de Parnaíba (+ 23 mil pessoas).
Ambas têm em comum uma acentuada desigualdade social: abrigam tanto condomínios destinados a moradores de alta renda quanto uma população pobre que vive fora dos muros. O perfil das duas cidades sugere que podem ter recebido paulistanos ricos.
Há muita gente que deixou os Jardins ou o Morumbi, em São Paulo, para morar em casas mais amplas e, teoricamente, mais seguras em condomínios como Alphaville (Santana de Parnaíba) e Granja Viana (Cotia). O resultado disso pode ser visto nos congestionamentos matutinos e vespertinos nas estradas que ligam a capital a essas cidades/condomínios.
O mesmo vale para cidades que não pertencem à região metropolitana de São Paulo, mas que estão próximas o suficiente para abrigar gente que trabalha na capital e viaja diariamente, como Jundiaí (saldo migratório de + 20 mil habitantes) e Valinhos (+ 17 mil).
O pesquisador Alberto Augusto Eichman Jakob lista essa “desconcentração” como uma das possíveis causas do saldo migratório negativo da cidade de São Paulo na década. Mas levanta uma hipótese complementar: migração de retorno.
Pessoas que migraram do Nordeste e/ou de Minas Gerais para São Paulo décadas atrás conseguiram fazer seu pé-de-meia trabalhando na cidade e decidiram voltar às suas regiões de origem. Isso seria potencializado pela melhoria das condições econômicas desses locais, fruto do crescimento econômico dos últimos anos.
O pesquisador do Nepo (Núcleo de Estudos Populacionais da Unicamp) ressalva que será necessário fazer estudos mais aprofundados para confirmar essa hipótese.
O Estado de São Paulo, no seu conjunto, continua sendo um imã populacional: atraiu 557 mil migrantes de outros Estados e países desde 2000. Elas têm perfis distintos: algumas são movidas pelo agronegócio, outras pela indústria e ao menos uma pelo turismo.
Os polos paulistas que mais atraíram migrantes na década foram Ribeirão Preto (saldo migratório positivo de 59 mil habitantes), Sorocaba (+ 47 mil), Praia Grande (+ 45 mil), Indaiatuba (+ 38 mil) e Campinas (+ 32 mil).
Colaborou Alexandre Gonçalves.
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Os números definitivos do Censo 2010 começam a ser divulgados hoje pelo IBGE. Levará meses para que todos os dados sejam processados e tornados públicos. Riqueza e diversidade de informações como as que vêm por aí, para todos os municípios, só de dez em dez anos.
Por enquanto, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística deve divulgar os dados de população total dos 5.565 municípios brasileiros, a divisão por sexo dos moradores e a localização de sua residência, se rural ou urbana.
Parece pouco, mas já basta para escanear o Brasil literalmente de A a Z, de Abadia de Goiás à catarinense Zortéa. Do maior município, São Paulo e seus 10,7 milhões de habitantes, ao menor deles, Borá e seus 805 moradores.
As novas informações devem corrigir eventuais erros detectados nas tabelas publicadas em 4 de novembro no Diário Oficial da União. Algumas merecem investigação de outros órgãos públicos, como a Justiça Eleitoral.
Há casos mais do que curiosos. Em Dom Pedro de Alcântara (RS), na região metropolitana de Porto Alegre, há 31% mais eleitores do que moradores: 3.335 a 2.538. A diferença é recorde nacional, em termos proporcionais.
Confrontando-se os dados do TSE com os do IBGE, percebe-se que esse fenômeno se repete em outros 115 municípios brasileiros. Eles têm “excedentes” de eleitores que variam de 1.410, como em Severiano Melo (no oeste potiguar), a apenas dois (em Professor Jamil, no sul de Goiás).
A gaúcha Dom Pedro e a catarinense Ermo se destacam por outra proeza: houve mais gente comparecendo para votar no primeiro turno das eleições deste ano do que os recenseadores do IBGE encontraram morando nas duas cidades.
Não se deve tirar conclusões precipitadas. Ambos os municípios perderam população na última década. Pode ser que esses cívicos dom-pedro-alcantarenses e ermenses tenham se mudado para outra cidade mas não transferiram seus títulos de eleitor. Surpreendente é terem voltado para votar.
Tão ou mais importante do que comparar os resultados do Censo a outras bases de dados municipais, é extrair senso das informações.
O Estado começou ontem a transformar números em histórias, numa série de reportagens de Lourival Sant’Anna. Ele narra os casos de municípios muito distintos e distantes, mas que sintetizam os vetores do crescimento do Brasil neste século.
Rio das Ostras (RJ) foi o que mais ganhou população, proporcionalmente, entre 2000 e 2010 -e sem artifícios demográficos. Isto é: exclui-se da conta o drama da paulista Balbinos, que viu sua população triplicar de uma hora para outra após a instalação de um presídio.
O balneário fluminense é a Xangrilá de milhares de funcionários e prestadores de serviço da Petrobras que se mudaram para a região de Macaé por causa da indústria do petróleo. Só para Rio das Ostras foram 65 mil novos moradores em dez anos.
A exploração mineral é uma das locomotivas das migrações internas. Por emprego em um canteiro da Vale ou por um barranco de garimpo, dezenas de milhares de pessoas desembarcaram nas paraenses São Félix do Xingu, Canaã dos Carajás, Parauapebas e Tailândia na última década.
Outro vetor capaz de transformar uma pacata cidadezinha em uma cidade média em menos de dez anos é o agronegócio. Motor demográfico do Centro-Oeste, alavancou municípios como Rio Verde, Rondonópolis e Sorriso.
Foi a soja que colocou Sapezal no mapa de Mato Grosso. Um pequeno pedaço da fazenda dos Maggi (família do ex-governador Blairo) virou uma cidade que cresce 8,28% ao ano. Quem pode reclamar da transformação do cerrado em plantação são os índios Parecis, que dão nome à chapada onde fica o município.
A outra ponta dessa corrente migratória está no oeste do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, e no centro ocidental paranaense. É de lá que ainda partem muitos dos novos moradores do Centro-Oeste. São regiões que estão perdendo gente há décadas, mas não são as únicas.
Nada menos do que 30% das cidades brasileiras têm menos moradores hoje do que tinham em 2000. Algumas cederam população para a criação de novos municípios, mas a maioria das 1.648 que decresceram viu seus habitantes partirem em busca de novas plagas.
Mas isso é assunto para outra coluna.
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O projeto de lei 93/2010 que está em processo de aprovação no Senado é um atentado à liberdade de informação, à Constituição e à lógica. O texto prevê não uma, mas três maneiras de censurar e inviabilizar as pesquisas eleitorais feitas até um mês antes da votação:
1) que o plano amostral das pesquisas seja aprovado por pelo menos 2/3 dos candidatos;
2) que a amostra seja de pelo menos 0,01% do eleitorado;
3) que os resultados sejam ponderados exclusivamente por dados populacionais do IBGE.
A primeira exigência já basta para, na prática, dar poder aos candidato de vetar a divulgação de qualquer pesquisa. Se aprovada a lei, uma única pessoa terá o poder de impedir que 186 milhões de brasileiros saibam qual a preferência do eleitorado.
Imagine um segundo turno (ou um primeiro turno com apenas dois candidatos): se não menos do que 2/3 deles precisam aprovar o plano amostral, na prática, significa ambos. Em outras palavras, se o candidato A aprovar, mas o B não, a pesquisa não poderá ser divulgada.
Na verdade, bastará ao candidato que tiver menos intenções de voto não se pronunciar sobre o plano amostral que isso já implicará a rejeição da pesquisa, porque o brilhante texto dos senadores não especifica como nem quando os candidatos devem aprovar a amostragem.
Na eleição presidencial de 2010 havia nove candidatos. Se quatro dos cinco nanicos que tiveram menos de 90 mil votos (e que corretamente nunca pontuaram nas pesquisas) não aprovassem o plano amostral, não saberíamos nada sobre a sucessão no último mês do primeiro turno.
Viradas no segundo turno seriam automaticamente censuradas, pois o candidato que começasse a perder eleitores impediria que as pesquisas viessem a público (a lei não proíbe os candidatos de fazerem pesquisas para consumo próprio).
Não contentes em dar poder de censura a si próprios e a seus colegas, os senadores se meteram a estatísticos. Estipularam que a amostra terá que ter no mínimo 0,01% do eleitorado. O texto é omisso, mas supõe-se que seja o eleitorado apto a votar em cada eleição.
No pleito presidencial de 2010, as pesquisas feitas até 30 dias antes do primeiro turno e todas as do segundo turno teriam que ter pelo menos 13.580 entrevistas. Isso inviabiliza financeiramente a execução das pesquisas, pois seu custo aumentaria em até sete vezes.
O pior é que os senadores tomaram essa decisão sem nenhuma base científica: até as carteiras dos cursos de estatística sabem que o tamanho da amostra independe do tamanho do universo pesquisado.
Pesquisas para presidente e pesquisas para prefeito são feitas com o mesmo tamanho de amostra. Ele varia de acordo com o grau de precisão: 800 entrevistas dão margem de erro de 3 pontos porcentuais, 2 mil entrevistas dão 2 pontos, 10 mil dão 1 ponto, 13.580 dariam 0,9.
Ou seja, o custo é multiplicado por cinco, mas só diminui em 1 ponto porcentual a margem de erro. Não compensa. Por isso nenhum instituto faz e ninguém contrata pesquisas com amostras desse tamanho.
Finalmente, os senadores se arvoraram a declarar que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é a única fonte possível de dados para servirem de base à ponderação das cotas de sexo, idade e renda das pesquisas.
Os dados municipais do IBGE são captados de 10 em 10 anos, nos Censos. Ou seja, estarão desatualizados em 2012 e ainda mais em 2016. Pior, levada ao pé da letra, a lei proíbe os institutos de ponderar os resultados pela abstenção, já que a fonte é a Justiça eleitoral e não o IBGE.
Ironicamente, o órgão que aprovou esse texto obscurantista e desinformado chama-se Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática do Senado. Ela pegou carona no projeto 93/2010 do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG).
Mas a inspiração do parágrafo 6º do artigo 33 do projeto foi um texto do senador Jarbas Vasconcellos (PMDB-PE). É o parágrafo que obriga a aprovação do plano amostral por 2/3 dos candidatos e estipula o tamanho mínimo da amostra.
Jarbas foi candidato a governador de Pernambuco em outubro passado. Sofreu uma das derrotas mais acachapantes desta eleição: recebeu apenas o equivalente a 17% dos votos do vencedor. Certamente não foi por culpa das pesquisas.
O repórter Daniel Bramatti, do Estado de S.Paulo, publicou uma reportagem muito interessante nesta segunda-feira sobre como a eleição de Tiririca vai render R$ 2,7 milhões por ano ao seu partido, o PR. A grana é mais de cinco vezes o que a legenda investiu, oficialmente, na campanha do palhaço. É que o rateio do Fundo Partidário é proporcional à votação de cada agremiação.
Isso mostra como a candidatura de Tiririca não tem nada de circense. É um projeto político, engendrado pelos dirigentes do PR para reforçar a votação do partido, eleger mais deputados federais de sua coligação (mais três, no caso) e rechear os cofres da agremiação. Um artifício perfeito, executado às custas do eleitor supostamente “desiludido” com a política.
Mas um fenômeno paralelo merece registro. Até as 19h30 do dia em que foi publicada, a reportagem de Bramatti havia sido reproduzida com o mesmo lide (abertura) em diferentes sites da internet 827 vezes. Ao menos esses foram os indexados pelo Google nesse período. Em parte, isso se deve à distribuição do texto pela Agência Estado.
Como se vê no gráfico acima, apenas metade das reproduções literais se preocuparam em dar algum tipo de crédito ao autor e/ou ao veículo que publicou a reportagem originalmente e detém seus direitos autorais. Entram nessa conta os 32% que deram o crédito à agência (em suas várias denominações), os 16% que mencionaram o jornal ou seu site, e os 2% que citaram apenas o repórter.
Em 417 das 827 reproduções do texto, a fonte da informação simplesmente desapareceu. E em apenas 5% dos casos o nome de Bramatti foi mencionado.
Não se trata aqui de direitos autorais (ou a falta deles) e remuneração do trabalho/serviço. Mas de como esse pequeno caso ilustra o poder da internet de transformar o autor em um ser anônimo e o crédito em uma exceção, e não a regra.
Não por acaso, uma das frases mais comuns quando alguém relata uma notícia é “li/vi na internet que…” Como se o meio fosse a fonte, e a produção noticiosa fosse um fenômeno espontâneo e sem custos.
Isso tem inúmeras implicações sobre credibilidade da informação, viabilidade econômica do jornalismo e outros temas mais profundos do que esta nota pretende abordar. Aqui fica registrada apenas a estupefação com a rapidez da reprodução, na maior parte das vezes truncada, da informação -como ilustra o gráfico abaixo.
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A população brasileira amadureceu, em mais de um sentido. E, com ela, a democracia no
País. A frase soa pomposa, até meio melodramática, mas é apenas uma questão de tempo e oportunidade.
A maior geração brasileira de todos os tempos tem hoje entre 20 e 30 anos de idade. Numa feliz coincidência, os “babyboomers” de Pindorama chegaram à idade de trabalhar num momento de franca expansão das vagas de emprego no País.
A oferta de uma coorte numerosa e mais escolarizada que as anteriores casou com a demanda crescente por mão-de-obra. Isso cria condições muito favoráveis para o Brasil explorar sua “janela demográfica”.
Como uma pessoa, uma nação envelhece. O peso das camadas idosas aumenta e o dos jovens diminui à medida que cai a taxa de filhos por mulher. É o problema enfrentado há tempos pela maioria dos países europeus.
Antes disso, porém, há um período áureo, em que a população em idade ativa cresce em proporção aos escolares e aposentados. Há mais gente produzindo e gerando riqueza. Com menos dependentes jovens e ainda relativamente poucos idosos, o PIB per capita cresce.
Durante esse intervalo, há uma oportunidade de desenvolvimento acelerado, como ocorreu com os EUA na segunda metade do século passado. A janela demográfica gringa teve seu auge nos anos 60 e 70, um período de grande ebulição cultural e econômica.
O fenômeno se repetiu com os “tigres asiáticos” nos anos 80 e 90. A América Latina e o Brasil sentem os ventos do desenvolvimento passando por sua janela demográfica. A capacidade de aproveitá-los depende de um sistema político estável e sensível às mudanças.
Um estudo do Ibope apresentado nos EUA durante reunião mundial de pesquisadores aponta a coincidência entre a janela demográfica e o amadurecimento da democracia brasileira.
A série de sinais captados em pesquisas qualitativas e quantitativas mostra que o comportamento do eleitor está cada vez mais pragmático e maduro. O voto é menos impulsivo e mais refletido. O eleitor pondera o que tem a ganhar ou a perder com os candidatos.
Cresceu também a convicção de que votar faz diferença e vale a pena. No mês passado, recordes 72% dos brasileiros disseram que iriam às urnas mesmo se não fosse obrigatório. Na eleição de Barack Obama, votaram 62% dos eleitores aptos, maior taxa desde os anos 60 nos EUA.
No Brasil de 2010, houve um crescimento de surpreendentes 10 pontos porcentuais desde março. Isso é sinal de que a campanha eleitoral motivou positivamente os brasileiros, e fez crescer seu desejo de participação política. Essa tendência, porém, vem de antes. Desde 2005, pelo menos.
No começo da década, 51% dos brasileiros diziam que não votariam se não fossem obrigados. A taxa de eleitores voluntários cresceu lentamente nos anos seguintes. Só houve um salto significativo em 2006, ano de campanha para presidente e governador.
Esse sinal de fé na democracia representativa é consequência de seis eleições ininterruptas para os principais cargos do País. Que produziram quatro mandatos presidenciais seguidos com inflação controlada, aumento do consumo e estabilidade institucional.
Fica evidente nas pesquisas do Ibope que o brasileiro valoriza a continuidade das políticas públicas de sucesso, seja o Plano Real ou o Bolsa Família, e entende que o voto é seu instrumento para avalizá-las.
Esse quadro positivo não significa que o Brasil esteja condenado a dar certo. A janela demográfica é uma oportunidade a ser explorada. Excesso de mão-de-obra combinado com falta de emprego, por exemplo, é receita para instabilidade política.
O momentum populacional também pressiona a demanda por melhores serviços de saúde e pela preparação da Previdência Social para a etapa seguinte, de envelhecimento da população e aumento da taxa de dependência.
Daí a enorme responsabilidade da atual geração de governantes, de aproveitar a janela demográfica e democrática, investir em oportunidades e capacitação dos babyboomers e começar uma poupança para quando essa onda chegar à idade de se aposentar.
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Há uma relação direta entre a popularidade de um governante e a chance de ele ser reeleito, ou de ao menos influir na sua sucessão. A questão é onde passa a linha que separa vencedores e vencidos. O ranking de governadores do Ibope dá pistas.
Esta é a primeira classificação, com todas as 27 unidades da Federação, divulgada após a eleição.
Comparando as pesquisas com o resultado das urnas, surgem duas perguntas. Qual patamar de aprovação garante sucesso eleitoral? Ou, ao contrário, qual nível de desaprovação leva o governante inevitavelmente ao fracasso?
O ranking dos governadores tem base nas pesquisas de avaliação realizadas pelo Ibope entre setembro e outubro. Embora as datas não sejam idênticas, são próximas o suficiente para permitir a comparação.
A régua é o “saldo” da avaliação: taxas de “ótimo” e “bom” subtraídas das de “ruim” e “péssimo”. O “regular” não entra na conta. Maior o saldo, melhor a posição do governador no ranking. O desempate é pelo porcentual de “ótimo” + “bom”, isto é, de aprovação.
Governador do Ceará, Cid Gomes (PSB) tem 60% de ótimo/bom e 10% de ruim/péssimo. Seu saldo é de 50 pontos, o mesmo do governador do Acre, Binho Marques (PT). Mas Cid ficou na frente, em 6º lugar, porque mais eleitores aprovam seu governo (60% a 57% do petista).
A correlação entre boa avaliação e desempenho eleitoral fica evidente no quadro. Dos 16 governadores que obtiveram saldo superior a 30 pontos, nada menos do que 14 foram reeleitos ou elegeram seus sucessores.
Dos dois restantes, o tucano João Cahula perdeu no segundo turno em Rondônia, e Orlando Pessuti (PMDB) desistiu de concorrer e praticamente não influiu na eleição paranaense. Ele era vice de Roberto Requião, que elegeu-se senador.
Os três primeiros colocados no ranking de governadores foram também os que alcançaram as maiores vitórias proporcionais nas eleições estaduais -diretamente ou por um herdeiro político.
O mais bem avaliado, Paulo Hartung (PMDB), do Espírito Santo, é quem mais se aproxima, em popularidade, de Luiz Inácio Lula da Silva. Tem 76% de aprovação (25% de “ótimo” + 51% de “bom”) e saldo de 73 pontos.
O presidente tem 80% de aprovação (34% “ótimo” + 46% “bom”) e saldo de 76 pontos. Ambos não puderam disputar a segunda reeleição seguida e preferiram ficar em seus cargos até o final do mandato.
Lula elegeu Dilma Rousseff (PT), no segundo turno, com 56% dos votos válidos. Hartung elegeu Renato Casagrande (PSB), no primeiro turno, com 82% dos válidos. Ao contrário de Dilma, Casagrande tem histórico eleitoral, e vitorioso.
Segundo colocado no ranking, Eduardo Campos (PSB) teve 72% de aprovação, 69 pontos de saldo e acabou reeleito com 83% dos votos válidos em Pernambuco.
Em terceiro ficou Omar Aziz (PMN). Ele era vice de Eduardo Braga (PSB), assumiu o governo quando este renunciou para disputar o Senado, e acabou sendo eleito com 68% dos votos válidos, mesmo porcentual de aprovação do seu governo.
Na parte de baixo da tabela, onde estão os governadores mais mal avaliados, ninguém se reelegeu ou conseguiu fazer seu sucessor. Dos cinco que tiveram saldo inferior a 10 pontos, três perderam a eleição e dois ficaram à margem do processo.
Restam, portanto, 6 governadores que alcançaram saldo entre 13 e 26 pontos. Quatro deles tentaram a reeleição, mas apenas um teve sucesso: José de Anchieta (PSDB), em Roraima. Os outros três acabaram em segundo lugar nas urnas.
Antes de tirar conclusões, convém lembrar que a política é dinâmica: o cenário muda, e sempre é determinante no desempenho dos protagonistas nas eleições.
Com a economia e o consumo crescendo, o grau de satisfação do eleitorado estava mais alto este ano do que em pleitos anteriores. É como se o patamar mínimo de aprovação tivesse sido elevado para todos os candidatos ao Executivo.
Assim, a linha de 2010 pode não valer para 2014. Ressalva feita, percebe-se que:
1) Se o governante tiver saldo negativo, melhor não disputar a reeleição. Se apoiar um candidato, corre o risco de atrapalhar mais do que ajudar.
2) Se o saldo for positivo, mas inferior a 20 pontos, ele tem mais chances de perder do que de ganhar a eleição.
3) Não existe garantia de vitória, mas um saldo igual ou superior a 45 pontos está bem perto disso. Se perder, terá o consolo de ser um pioneiro.
4) Saldo entre 25 e 45 pontos torna o governante favorito ou o principal eleitor de sua própria sucessão -embora uma zebra ocorra a cada seis pleitos.
5) A taxa de “ótimo” é melhor indicador do que a de “bom”, mas o saldo é ainda mais importante do que a simples soma de ambas.
6) Vice-governadores que herdam governos populares só mantêm o sucesso dos titulares quando são expostos a intensiva propaganda eletrônica ao lado de seus padrinhos.
7) Existe transfusão eleitoral de um governante para seu candidato à própria sucessão. Não existe transferência de votos entre cargos diferentes. Lula elegeu Dilma. Governadores seus aliados se reelegeram, ou a seus sucessores, por mérito próprio.
Pesquisa não elege ninguém. No máximo, ajuda ou atrapalha candidatos a levantar dinheiro, anima ou deprime seus cabos-eleitorais. Porém, gasta-se mais tempo discutindo o sexo das pesquisas do que analisando-se os erros induzidos pelo sistema de votação no Brasil.
A adoção do voto eletrônico aumentou drasticamente o acerto formal do eleitor nos últimos 12 anos. A urna informatizada ajudou milhões de brasileiros a concretizarem a intenção de sufragar seus candidatos, de todos os partidos.
O gráfico ilustra o momento em que os votos válidos para todos os cargos eletivos convergiram para valores muito próximos. Foi na eleição de 1998, quando a Justiça eleitoral implantou a urna eletrônica na grande maioria dos municípios brasileiros.
Até então, a dificuldade de escrever impedia grande parte do eleitorado de transformar seu desejo em marca legível na cédula. Isso ficava evidente nas eleições de deputado estadual e federal. À época, confundia-se problemas no manejo do lápis com voto de protesto.
Trocada a grafia pela digitação, instantaneamente despencaram as taxas de brancos e nulos, multiplicando os porcentuais de votos válidos para Câmara e Assembléia.
Em 2002, universalizou-se o voto eletrônico. Aumentaram os votos válidos para presidente, mas, surpreendentemente, eles ficaram aquém dos dados a deputados estaduais e federais. Não era mais motivo de comemoração, mas sinal de que havia algo errado.
É um sintoma de outro tipo de engano do eleitor, até hoje tratado com indiferença pela Justiça eleitoral e propositalmente ignorado pelo Congresso: o erro na sequência de votação.
Bombardeado por centenas de horas de propaganda na TV e no rádio, dezenas de manchetes de jornal, milhares de mensagens via internet, todas sobre eleição presidencial, o eleitor chega à urna e a primeira coisa que lhe pedem é votar para… deputado estadual.
A cena repetiu-se milhões de vezes. O eleitor sai da cabine e o mesário avisa que ele ainda não terminou. Ele diz que sim. O mesário explica: são seis votos, precisa digitar todos. Envergonhado diante da fila, o eleitor se livra dos votos restantes cada vez mais apressado. O último é para presidente.
Sabe-se que o erro na ordem de votação chegou aos sete dígitos no primeiro turno de 2010 por vários indícios. Todos apontam na mesma direção:
• Em comparação ao primeiro turno, houve menos 2,5 milhões de votos brancos e nulos no segundo turno presidencial. A queda entre turnos se repete desde 2002.
• Segundo o Ibope, 15% do eleitorado de Marina Silva e 33% do de Plínio Sampaio anularam ou votaram em branco no segundo turno.
• O número de votos brancos e nulos deveria ter crescido 45% com o acréscimo dos ex-eleitores do PV e do PSOL, que ficaram sem candidato. Mas caiu para 7 milhões.
• A votação de José Serra cresceu 10,6 milhões de um turno para outro. Disso, segundo o Ibope, 9,8 milhões vieram de Marina e 200 mil de Plínio. Faltam 600 mil votos.
• A votação de Dilma Rousseff cresceu 8,1 milhões. Desses, 6,5 milhões vieram de Marina e 200 mil de Plínio. Faltam 1,4 milhão de votos.
• Ao menos 2 milhões de eleitores que anularam ou votaram em branco no primeiro turno votaram em Dilma ou em Serra no segundo. Por que? Muito provavelmente porque se confundiram com a ordem esdrúxula de votação em 3 de outubro, mas não no turno final, quando votaram apenas uma ou duas vezes.
• Como a abstenção aumentou no segundo turno, eleitores que deixaram de votar podem também ter errado em 3 de outubro. Logo, mais de 2 milhões podem ter se enganado no primeiro turno na ordem de votos.
• Na única eleição “solteira” para presidente (1989), 94% dos votos foram válidos, recorde até hoje.
Há duas saídas: 1) inverter a ordem de votação e priorizar a de presidente; 2) “descasar” as eleições de presidente, senador e deputado federal das de governador e deputado estadual. Ambas as soluções dependem dos inventores da atual ordem de votação e do casamento das eleições.
Lembrete: não fosse a pesquisa do Ibope, seria quase impossível estimar os erros provocados pela ordem de votação.
Os repórteres Rodrigo Burgarelli e Tiago Dantas contam nas edições desta quinta do Estado e do JT que o governador eleito Geraldo Alckmin (PSDB) vai negociar com Dilma Rousseff (PT) para que o trem-bala Rio-São Paulo-Campinas não pare nos aeroportos de Viracopos e Cumbica. Sim, não pare.
Motivo: outra linha férrea, a ser licitada pelo governo estadual, faria esses trajetos. Vantagens, segundo o líder da equipe de transição de Alckmin, Jurandir Fernandes: as saídas seriam mais frequentes (o que é bom) e o preço da passagem seria mais barato (o que é ótimo). Único contratempo na sua opinião, o trajeto seria 12 minutos mais demorado.
Por que não ter duas linhas de trens de alta velocidade ligando São Paulo a seus aeroportos, a estadual e a federal? Por que não promover a concorrência entre os operadores privados de ambas? Haveria mais saídas, com dois trens, e os usuários não estariam sujeitos ao monopólio de uma operadora ao pagar pelo bilhete.
Não vale o argumento de que não haverá interessados em operar a linha estadual se houver a concorrência da federal. Se empreiteiras e empresas de transporte não querem competição, é do jogo que façam lobby contra ela. Outra coisa é encampá-lo.
Fernandes disse que “o custo é três vezes menor (sic)” para a linha estadual. Na verdade, o custo da linha federal, nas suas contas, é três vezes maior: R$ 3,5 bilhões a R$ 10 bilhões. Acrescentou que “o trem regional pode sair em intervalos até duas vezes menores (sic)”. Ou seja, metade do tempo de espera.
O trem-bala federal tem leilão marcado para 16 de dezembro. Ele parte de Campinas, passa por Viracopos, São Paulo, Cumbica e, diferentemente do estadual, segue pelo vale do Paraíba e chega ao Rio de Janeiro. O federal, tudo indica, vai sair. O estadual, diz Fernandes, sairá também, com ou sem mudança de trajeto do federal.
Em resumo: R$ 13,5 bilhões do meu, do seu, do nosso serão gastos, de qualquer jeito, para fazer os dois trajetos, paralelos, entre Campinas e Cumbica, passando por Viracopos e São Paulo. Já que se vai gastar mais, por que raios ter menos paradas? Menos por mais? Parece caso de jabuti em árvore, só que desta vez alguém colocou o bicho a bordo do trem-bala. Só falta descobrir quem.
Segundo o Ibope, metade dos eleitores que votaram em Marina Silva (PV) mudou seu voto para José Serra (PSDB) no segundo turno, um terço migrou para Dilma Rousseff (PT) e os demais 15% anularam ou votaram em branco (quase o triplo da média do total do eleitorado).
Serra se beneficiou do voto da terceira colocada do primeiro turno na proporção de 1,5 para 1 em relação a Dilma. Cooptou 50% de eleitores a mais do que a rival direta. Dilma foi eleita porque partiu de um patamar de votos, obtidos em 3 de outubro, 44% maior que o tucano.
Aplicando-se os porcentuais do Ibope sobre a votação da candidata verde no primeiro turno, estima-se que Serra incorporou 9,8 milhões de votos do eleitorado de Marina, contra 6,5 milhões que foram para Dilma, e pouco menos de 3 milhões que anularam ou votaram em branco.
Há uma diferença notável no perfil dos eleitores de Marina que migraram para um lado e para outro. As marinistas mulheres, os brancos, quem estudou até o Fundamental ou Médio, os cristãos (católicos ou evangélicos) e os mais ricos optaram majoritariamente por Serra.
Os homens, os que fizeram faculdade, os que se auto-declaram pardos (critério IBGE) e os de renda intermediária racharam meio a meio. Já os ateus, agnósticos e seguidores de outras religiões, os pobres e os que se auto-declaram pretos votaram mais em Dilma.
Os marinistas tiveram um impacto maior no crescimento de Serra no segundo turno. Seu peso foi de quase 95% dos novos votos do tucano. O restante é um misto de ex-eleitores de Dilma, de Plínio Sampaio (PSOL) e dos que haviam anulado ou votado em branco no primeiro turno.
Para Dilma, os marinistas tiveram peso um pouco menor, mas ainda grande: 85% do seu crescimento. Os outros 1,2 milhões de votos incorporados pela petista no segundo turno vieram, principalmente, da redução dos votos nulos e brancos de um turno para outro.
Contando-se a votação total dos dois candidatos finalistas, os eleitores de Marina foram responsáveis por 20% dos 44 milhões de votos de Serra no segundo turno, e apenas 10% dos 56 milhões votos de Dilma.
A pesquisa Ibope foi feita no dia do segundo turno, na casa dos entrevistados, tanto com eleitores que já haviam votado quanto com quem ainda iria votar. Foi uma pesquisa diferente da boca-de-urna, que é realizada apenas nos locais de votação.
O Ibope perguntou em quem os eleitores haviam votado no primeiro turno e em quem votaram ou pretendiam votar no turno final (nem todos já haviam ido votar quando foram abordados). Nesta análise, os poucos indecisos foram redistribuídos na mesma proporção das intenções de voto dos já decididos.
Serra cresceu mais do que Dilma no segundo turno em quase todas as regiões: de Norte (70% a mais do que ela) a Sul (198%), passando por Sudeste (28%) e Centro-Oeste (55%). A exceção foi o Nordeste, onde a petista aumentou 15% mais sua votação do que o tucano.
Na média do Brasil, os ganhos de eleitorado de Serra foram 30% maiores do que os de Dilma. Como separar o peso dos eleitores de Marina nesse total?
Os ganhos de Serra foram maiores onde Marina foi proporcionalmente pior. E mais significativos onde sua votação, no primeiro turno, ficou abaixo da média. Ou seja, inversamente proporcionais.
Uma hipótese para explicar isso é que Dilma já havia chegado muito perto de seu teto de votação no eleitorado das cidades menores, onde o eleitorado de Marina foi pequeno. Portanto, Serra poderia crescer mais nelas. E o oposto é verdadeiro: Dilma tinha mais chance de crescer nas cidades grandes, onde Marina lhe “roubara” votos.
Considerando-se apenas as cidades onde Marina teve pelo menos 15% dos votos válidos do primeiro turno, os ganhos de Serra caem para 23% além dos de Dilma. Já entre os municípios onde a verde teve mais de 25%, esse porcentual cai para 3%. E vira negativo (-6%) nas cidades onde ela obteve mais de 30%.
Mas isso varia de região para região. No Sudeste, é o contrário. Há uma forte correlação positiva entre o crescimento da votação de Serra e o tamanho do eleitorado marinista.
Ao fazer 20 anos, o Índice de Desenvolvimento Humano amadureceu, se sofisticou, mas perdeu em simplicidade e universalidade -duas marcas do seu sucesso. Nas últimas décadas o IDH mudou o paradigma do que seja desenvolvimento e deu início a uma onda de índices que medem de tudo um pouco.
Antes do IDH era o PIB per capita, e só. Até 1990, toda medição de desenvolvimento dos países era feita apenas pelo crescimento do seu Produto Interno, dividido pela população. Era uma medida exclusivamente econômica, que tinha no aumento da renda um fim em si mesmo.
O que o paquistanês Mahbub ulHaq e o indiano Amartya Sen conseguiram à época foi um feito, que hoje parece trivial: sintetizar em um só número uma medida de desenvolvimento que tinha o ser humano no centro, e abrangia as dimensões econômica, de longevidade e educação.
A “mágica” foi juntar indicadores com escalas tão diferentes quanto anos de vida, dólares e porcentagens em uma régua comum, que varia de 0 a 1. As três dimensões representadas são as mais básicas: viver o bastante, ter acesso ao conhecimento e um padrão de vida digno.
O IDH fez tanto sucesso que rendeu um Prêmio Nobel de Economia a Sen. Sua engenhosidade foi copiada, adaptada, recriada. O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), lançado pelo governo brasileiro em 2007, é um dos muitos filhos do IDH.
Em seu 20º aniversário, os criadores do IDH substituíram três dos seus quatro indicadores, mudaram sua fórmula de cálculo e, de quebra, lançaram três novos índices, complementares. Em contrapartida, em vez de 184, seu ranking agora só compreende 169 nações.
Na dimensão educação, saem o analfabetismo e a taxa de matrícula. Em seu lugar, entram a média de anos de estudo da população adulta e os anos esperados que um aluno deve passar na escola. Foi uma boa troca, embora este último indicador seja de difícil compreensão.
A média de anos de estudo é uma medida de estoque mais completa do que o analfabetismo. Na verdade, o inclui. É o indicador em que o Brasil vai pior: 102º lugar no ranking, com 7,2 anos, em média. Aí estão incluídos desde jovens de 25 anos com nível superior até idosos analfabetos. É um indicador que custa a mudar.
Os anos esperados que o aluno deve passar na escola é uma medida de fluxo, que pretende aferir como a população jovem de um país está evoluindo no acesso ao conhecimento. Nesse indicador, o Brasil vai melhor, fica na 54ª posição, com 13,8 anos (quanto mais, melhor).
Se fôssemos traduzir esses números em pessoas, seria como uma família cujos pais passaram muito pouco tempo na escola mas conseguiram colocar todos os filhos na faculdade.
Em longevidade, permanece a esperança de vida ao nascer, medida na qual o Brasil evolui a passos de cágado: 72,9 anos e 76ª colocação.
Em renda, saiu o PIB per capita, e entrou a Renda Nacional Bruta per capita, que inclui transferências de não-residentes. O Brasil tem US$ (PPC) 10,607 mil e aparece em 70º lugar.
No novo IDH-D, que inclui as desigualdades internas dos países, o Brasil perde 15 posições no ranking e 27,2% do valor do seu IDH. O que mais contribui para isso é a desigualdade de renda.
No IDG (Índice de Desigualdade de Gênero), o Brasil fica em 80º lugar entre 138 países. Perde 63% do seu potencial de desenvolvimento humano principalmente por causa da baixa representatividade política das mulheres e da alta incidência de gravidez entre adolescentes.
No índice de pobreza multidimensional, o Brasil fica em 39º lugar, entre 104 países. Para ser um “multipobre”, alguém tem que ter privações em 30% da soma dos valores dos 10 indicadores que compõem o índice. Nada menos do que 8,5% dos brasileiros se enquadraram nessa categoria.
É um porcentual maior do que o medido, por exemplo, pela linha de pobreza do Banco Mundial (US$ (PPC) 1,25 por dia), segundo a qual 5,2% dos brasileiros seriam pobres.
O mérito do IDH é mostrar a evolução de um povo em várias dimensões, não só na econômica. Embora os brasileiros estejam contentes com seus atuais níveis de consumo, o índice e seus complementos mostram que ainda falta muito para o pleno desenvolvimento do país.
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Dilma Rousseff (PT) venceu em 3.878 municípios brasileiros no segundo turno. José Serra (PSDB) venceu em 1.686. Em porcentagem: 70% a 30% para a petista. Como ela teve 56% dos votos válidos, a desproporção se explica pela maciça vitória de Dilma nas pequenas cidades (de todo o país, menos de São Paulo), e pelo equilíbrio dos dois nas cidades grandes e médias.
Por que Serra não cobra Índio da Costa e o DEM como, implicitamente, fez com Aécio Neves (PSDB)? Diferença por diferença, foi praticamente igual no Rio de Janeiro e em Minas Gerais sua distância em relação a Dilma: 1,797 milhão de votos entre os mineiros contra 1,710 milhão entre os fluminenses. Proporcionalmente, a derrota no Rio foi maior.
A resposta tem a ver com o futuro e não com o passado.
Será curioso ver quem o PSDB preferirá seguir: um senador eleito de 50 anos que fez o governador do segundo maior colégio eleitoral do país, ou um candidato derrotado duas vezes a presidente, de 68 anos, que ficou sem cargo e terá que negociar espaço com uma liderança emergente (Geraldo Alckmin) em seu Estado natal.
Se é para cobrar resultados de seus aliados mineiros, José Serra (PSDB) deveria dar um puxão de orelha também no senador eleito Itamar Franco (PPS). O tucano perdeu feio em Juiz de Fora, terra do ex-presidente: teve só 31% dos votos válidos, contra 69% de Dilma Rousseff (PT).
Aécio Neves (PSDB) pode ao menos argumentar que Serra venceu na terra de sua família, São João del Rei. Embora tenha sido por pouco: 52% a 48%.
Comparados aos do primeiro turno, os percentuais de votos em branco no segundo turno foram menores em todas as regiões. Seria natural que o percentual aumentasse, já que havia menos opções de candidatos para os eleitores.
É mais um indicativo de que as seis votações seguidas na urna eletrônica atrapalham o eleitor e levam não poucos a anular ou votar em branco em vez de no candidato a presidente de sua preferência.
No Nordeste, o percentual de votos nulos no segundo turno foi quase metade do que no primeiro turno (4,67% a 8,02%). A diminuição da taxa indica que pelo menos 1 milhão de eleitores nordestinos erraram o voto para presidente no primeiro turno, provavelmente por terem que votar seis vezes e numa ordem que deixa o voto presidencial por último. Congresso e Justiça eleitoral deveriam mudar a ordem esdrúxula de votação.
Dilma perdeu nas duas cidades onde iniciou sua trajetória política: em Belo Horizonte (49,6% a 50,4% de Serra) e Porto Alegre (44,2% a 55,8%). Pode ser apenas coincidência. Mas ela ganhou nas três cidades por onde Lula passou antes de chegar a Brasília: Garanhuns (85%), Guarujá (57%) e São Bernardo do Campo (56%).
Aliados de primeira hora de Dilma, os governadores reeleitos Eduardo Campos (PSB-PE), Roseana Sarney (PMDB-MA), Omar Aziz (PMN-AM) e Cid Gomes (PSB-CE) poderão relembrar em suas próximas conversas com a presidente eleita que ela obteve de 76% a 81% dos votos válidos no segundo turno em seus Estados.
É mais do que qualquer governador petista pode dizer.
Diferentemente do publicado anteriormente aqui, o percentual de acerto do Ibope no 2º turno foi de 90% e não de 100%. A margem de erro da pesquisa no Distrito Federal foi de 2 pontos percentuais, e não de 3 pontos, como na tabela abaixo. Assim, o resultado no DF ficou um ponto fora da margem de erro prevista. O vencedor teve 66% dos votos válidos, contra os 63% apontados pela pesquisa de véspera.
Foi um ponto só de diferença, mas, tecnicamente, está errado. Isso é suficiente para desacreditar a metodologia das pesquisas que acertaram todas as outras eleições dentro da margem?
O principal mérito das pesquisas é contar a história da eleição, os altos e baixos, as quedas e ascensões, a segmentação do eleitorado, suas preferências, suas mudanças de opinião. Nisso, tanto no primeiro turno quanto no segundo, a maioria das pesquisas contribuiu muito mais do que atrapalhou.
Sem as pesquisas do Ibope não teríamos ficado sabendo, por exemplo, que parte do eleitorado evangélico e depois católico saiu da canoa de Dilma Rousseff no fim do primeiro turno. Nem que retornaram na reta final do segundo turno. Teríamos assistido o PT correr atrás de bispos de todas as igrejas sem entender o motivo. A carta de Dilma descartando mudar a legislação que proíbe o aborto seria inexplicável.
As pesquisas de intenção de voto foram fundamentais para ajudar a contar a história desta eleição. Como uma margem de erro muito menor do que se dependêssemos exclusivamente das declarações dos políticos e candidatos.
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