(coluna publicada na edição impressa do Estado; aqui você lê dois mitos a mais)
Mito 1: A eleição de 2010 é governista.
Fato: A eleição de 2010 é mais fácil para candidatos governistas.
Consumo em alta. Emprego em alta. Popularidade em alta. É difícil para um candidato de oposição bater de frente com um governo quando a economia vai bem. O oposicionista se limita a criticar pontos específicos e a prometer continuidade no resto. Acaba com um discurso moderado ou esquizofrênico.
Em ambos os casos, o discurso do candidato oposicionista é difícil de emplacar. Sem uma identidade clara, ou uma proposta que seduza o eleitor, perde terreno para os situacionistas. Com economia em alta, candidatos à reeleição muito populares ou apoiados por governantes com alta aprovação são favoritos, seja para presidente, seja para governador.
Além de Dilma Rousseff (PT) na corrida presidencial, entram na reta final liderando as pesquisas os governadores ou seus candidatos em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia. Cada um de um partido diferente. Mas favoritismo não é sinônimo de eleição ganha. Os 45 dias de bombardeio dos candidatos no rádio e na TV devem mudar alguns cenários e reforçar outros.
Mito 2: recall é igual a intenção de voto.
Fato: recall alto ajuda, mas não é garantia de voto na urna.
Na pré-campanha, até 75% dos eleitores não têm um presidenciável na ponta da língua. Confrontados com a necessidade de apontar um candidato, escolhem, na cartela dos institutos de pesquisa, um nome que parece familiar. É uma associação da memória, não necessariamente uma escolha.
À medida que a campanha avança, o grau de conhecimento sobre os candidatos aumenta, e outras associações mentais entram em jogo, como a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Dilma.
Lula em 1994 e José Serra em 2010 saíram na frente nas pesquisas, mas foram ultrapassados. Ambos haviam sido presidenciáveis e tinham chegado ao 2º turno. Eram mais conhecidos que os adversários no começo da disputa. O petista perdeu a eleição. O tucano tenta repetir Fernando Henrique Cardoso, que saiu na frente em 1998, quase foi ultrapassado, mas reagiu e venceu.
Mito 3: transferência de voto não existe.
Fato: transferência não existe, mas transfusão ao sucessor sim.
O eleitor paulista não liga muito se Lula apóia Aloizio Mercadante (PT) para governador. Mas Dilma só tem os percentuais que alcançou na corrida presidencial por causa de Lula. “Guerreira” é o atributo que os marqueteiros tentam lhe atribuir, não é o motivo de sua ascensão nas pesquisas.
Se Dilma, sem experiência nem marca própria, for eleita, entrará para uma galeria que já tem Celso Pitta, Luiz Paulo Conde, Fleury Filho, Lucas Nogueira Garcez e Rosinha Garotinho. Com exceção da última – casada com o criador-, as demais criaturas romperam com os que lhes deram a transfusão eleitoral necessária para nascerem politicamente.
Mito 4: Minas Gerais vai decidir a eleição.
Fato: nenhum colégio eleitoral sozinho define eleição presidencial.
Não adianta um candidato a presidente ir muito bem em um ou outro Estado, e perder feio nos demais. Por maior que seja o seu reduto eleitoral, o presidenciável, para ter chance, precisa ter pelo menos 30% dos votos na maioria das unidades da Federação. E isso se houver mais de dois candidatos no páreo. No 2º turno, é preciso um percentual ainda maior na maioria das UFs.
Mito 5: Pobre vota em Dilma, rico vota em Serra.
Fato: o condicionante do voto nesta eleição é regional, não socioeconômico.
Os ricos do Nordeste preferem Dilma a Serra, assim como boa parte dos pobres paulistas e paranaenses, por exemplo, preferem Serra a Dilma. A divisão regional do voto para presidente ainda não foi totalmente explicada, mas vai além de uma causa única, como programas assistencialistas. Passa pela inclusão dos eleitores no maravilhoso mundo do consumo.
Mito 6: todo eleitor que aprova o governo votará no seu candidato.
Fato: apenas os eleitores que dão notas mais altas a um governo votam em peso no seu candidato.
“Ótimo” não é a mesma coisa que “bom”. O eleitor usa graduações diferentes para expressar sua opinião sobre uma administração. Até a semana passada, Dilma só ganhava de Serra entre os eleitores que dão nota 8 ou superior ao governo Lula. Muitos eleitores dão nota 7 ao presidente, mas votam na oposição. Conscientemente.
Mito 7: quanto mais aparece, mais o candidato cresce.
Fato: a superexposição não ajuda todos os candidatos.
Serra priorizou sua campanha no Nordeste. Dilma ampliou sua vantagem na região. O tucano passou a visitar semanalmente Minas Gerais. A petista virou entre os mineiros. Uma hipótese é que ao intensificar sua campanha em redutos lulistas, Serra passou a ser visto como oposicionista por mais eleitores e perdeu votos.
“Ciro” é o nome de urna de um dos candidatos ao Senado em São Paulo. Ele é assim apresentado nas pesquisas, e chega a quase 20% das intenções de voto. O que ocorrerá quando os eleitores descobrirem que seu sobrenome é Moura?
Mito 8: pesquisa define eleição.
Fato: pesquisa influencia eleição, mas não a define.
As pesquisas de intenção de voto influenciam o espaço de cada candidato na cobertura de imprensa, se eles participam ou não de debates, o quanto arrecadam de financiadores de campanha, o moral dos comitês e dos militantes. Mas não determinam quem ganha ou perde. Fosse assim, não haveria viradas. Quem saísse na frente ganharia sempre.
Mito 9: o horário eleitoral é gratuito e democrático.
Fato: o horário eleitoral não é gratuito nem democratiza a eleição.
O pagamento pelo horário eleitoral na TV e no rádio sai do seu, do meu, do nosso bolso, via créditos fiscais que as emissoras recebem pela cessão do tempo em sua programação. A Receita Federal estima que deixa de arrecadar R$ 128 mil por minuto de propaganda eleitoral. Isso significa que apenas a campanha presidencial no 1º turno custará R$ 163 milhões aos cofres públicos. Fora as campanhas de governador, senador e deputados.
Além disso, os candidatos investem um bom dinheiro na produção dos programas de TV e rádio. Até 8 de agosto, antes portanto de o horário eleitoral começar, apenas o comitê de Dilma Rousseff (PT) já havia gastado R$ 4,5 milhões com os programas. Gratuito para quem?
A divisão do horário eleitoral é tão favorável aos grandes partidos que seu efeito sobre as candidaturas nanicas é quase nulo, senão negativo. Tome-se o exemplo de Heloisa Helena, em 2006. A candidata a presidente do PSOL tinha o equivalente a 12% dos votos válidos em 8 de agosto (Datafolha), antes de a propaganda eleitoral começar. Ao final da apuração, tinha 6,9% dos votos válidos.
Tags: 2010, coluna, consumo, Dilma, discurso, eleição, FHC, pesquisa, Serra
[...] This post was mentioned on Twitter by Jose Roberto Toledo and James Russo, Mauricio Alves. Mauricio Alves said: Mitos e fatos sobre a eleição http://is.gd/ejwoW (via @zerotoledo) [...]
O que está acontecendo com o Brasil? O que foi feito pela economia nestes últimos anos? Será que estamos vivendo no
mundo da Lua? Este governo até agora não fez nada para a economia. Até a redução do IPI teve outro lado, em cima dos
juros cobrados em financiamentos uma base de uns 50% são impostos. Agora pergunto quem comprou carro à vista? Com a
queda da CPMF houve o aumento da IOF, alguém esta sabendo disto? E ainda vejo comentários de gente falando que FHC
quebrou o país e a Petrobrás, será que estamos tão cegos assim? O plano Real está até hoje em funcionamento, a Petrobrás
foi capitalizada com a abertura do capital na era de FHC. As privatizações permitiram nossa economia e setores estratégicos
se desenvolvessem quem não tem um celular hoje? Peço a Deus que ilumine a mente do eleitor, tem muita coisa em jogo no
Brasil e se escolhermos errado o prejuízo a nossa democracia será enorme. O boom da economia brasileira se deve a base
sólida criada pelos antecessores de Lula, se não quem defende este governo explique, o que ele fez? Chega de viver no
Brasil de mentiras, vamos acordar enquanto há tempo para isto, depois não adiantará chorarmos
As pesquisas de intenção de voto influenciam a escolha dos eleitores para um dos candidatos favoritos apenas, induzindo a tatica do voto util no primeiro turno !!!!! O papel da midia é informar não orientar.
Mito 10: A eleição de 2010 mudará o Brasil
Fato: O PMDB ainda domina o cenário político nacional e vai continuar assim.
No momento em que já tem gente comemorando a vitória do seu candidato, enquanto outros lamentam a derrota do escolhido por eles, este texto serve de alerta. Nada está definido. Há muito campo para manobras e mudanças. O que mais me chamou a atenção foi a questão do recall. Em Minas, por exemplo, Hélio Costa, por sua atuação como homem de TV e por duas candidaturas derrotadas ao governo de Minas, saiu na frente das pesquisas, por seu recall. Mas agora, à medida que a campanha se desenrola, Anastasia vai recuperando o tempo perdido e encurtando espaços. Ele se torna mais conhecido e o eleitor o associa diretamente com Aécio Neves, que tem alto índice de aceitação. Esta é a tendência que tende a se consolidar por aqui.
Muito boa análise, que ajuda a desfazer mitos criados e repetidos ad-nauseum durante várias eleições. Em Minas Gerais, por exemplo, o candidato Hélio Costa sempre larga na frente e perde o fôlego no final. Porquê? Ora, por sua exposição como eterno candidato nas eleições do Estado, ele tem um alto recall na memória do eleitor. Ao longo da campanha, no entanto, seu discurso vazio não se sustenta e o eleitor acaba desembarcando da sua candidatura. “Recall” não é mesmo sinônimo de intencão de voto, e Paulo Maluf, em São Paulo, sabe disso muito bem. Em Minas, Anastasia cresce nas pesquisas na medida em que se torna mais conhecido e que é relacionado a Aécio Neves, de quem foi vice-governador. Penso que o “recall” é importante na medida em que é associado ao seu significado real: “porque mesmo me lembro dele”? Aí sim, faz algum sentido.
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