Na média, o eleitor tem um seio e um testículo. A velha piada dos estatísticos revela as limitações do uso da média para retratar um conjunto complexo de informações. O resumo minimalista está sempre arriscado a virar uma caricatura.
Por isso é desafiador traçar um perfil do eleitor de cada candidato. Os presidenciáveis favoritos atraem votos de vários tipos, por vezes contraditórios entre si. Marina Silva (PV) mistura em seus índices evangélicos e agnósticos. José Serra (PSDB) atrai patrões e empregados.
Além disso, alguns estratos são tão maiores que todos os candidatos acabam extraindo a maior parte de seus votos dali. É o caso do Sudeste, onde vive quase metade do eleitorado. Mesmo Dilma Rousseff (PT), que tem 2 de cada 3 votos nordestinos, tem maior número de eleitores no Sudeste do que do Nordeste.
Descrever o perfil do eleitorado da petista destacando apenas as partes mais volumosas implica dizer que seu eleitor está majoritariamente no Sudeste, não participa de nenhum programa social do governo Lula, e mora nos maiores municípios do país.
Mas esse não é o eleitor médio de Serra? Também é. Ou seja, esse tipo de análise espelha onde há mais eleitores, e apenas isso. É o mesmo que sublinhar no perfil de um candidato que seu corpo tem 75% de água. O dele e o de todos os adversários.
Se quisermos saber o que o eleitorado de um candidato tem de particular, de diferente, de característico, devemos comparar a intenção de voto em cada segmento, confrontando os percentuais de um presidenciável com o dos rivais.
O resultado está no quadro que ilustra esta coluna. As características destacadas para cada candidato refletem não onde ele tem mais votos, mas onde seus eleitores mais se distinguem da média.
A despeito de ter 51% das intenções de voto e de, portanto, estar bem em todos os segmentos, Dilma vai ainda melhor entre quem vive com até 2 salários mínimos, entre os que cursaram até o ensino médio, e entre os moradores do Nordeste e das pequenas cidades.
Ela também se destaca entre os homens, entre eleitores com mais de 30 anos, entre os trabalhadores por conta própria, entre os católicos, entre os participantes dos programas sociais do governo federal e, acima de tudo, entre os simpatizantes do PT.
Embora 85% dos seus eleitores digam que navegam na internet pelo menos uma vez por semana, esse percentual é ligeiramente abaixo da média. O mesmo ocorre entre os assinantes de jornais.
A petista vai pior onde Serra vai melhor. Com 27% de intenção de voto, o tucano está acima da média entre os eleitores com nível superior, entre quem vive com mais de 5 salários mínimos, entre os simpatizantes do PSDB e do PMDB, entre os jovens de 18 a 24 anos e no Sul.
O eleitor de Serra assina jornais acima da média, mas não tanto quanto o de Marina. Os 7% que compõem o eleitorado da candidata do PV têm uma maior concentração nas grandes cidades e nas capitais, entre patrões e empregados, entre quem ganha melhor e quem estudou mais.
Apesar de esse perfil se aproximar muito dos eleitores de Serra, há duas diferenças fundamentais: ela vai proporcionalmente melhor do que o tucano entre os eleitores evangélicos e entre os moradores da região Norte/Centro-Oeste. Ela é evangélica e nasceu no Acre.
E quem não vota em ninguém ? Os 5% de eleitores que preferem anular ou votar em branco aparecem com mais frequência entre os com mais de 40 anos. Eles vivem nas grandes cidades do entorno das capitais do Sudeste, ganham entre 1 e 2 salários mínimos e cursaram até o nível médio.
O perfil dos 9% de indecisos tem mais pontos em comum com o dos eleitores de Dilma do que com os de seus principais adversários. Quem não sabe ainda em quem vai votar é notoriamente do sexo feminino, tem mais de 40 anos, não passou da 4ª série do Fundamental, mora em pequenas cidades e vive com menos de 2 salários mínimos.
A principal diferença entre esses indecisos e os eleitores de Dilma é geográfica. Eles estão mais concentrados no Sul e no Sudeste. Há outros pontos que não seguem o perfil típico de quem vota na petista: essas mulheres tendem a ser evangélicas, trabalhar apenas em casa e não participarem dos programas sociais do governo Lula.
Esse perfil é característico de quem deixa para decidir o voto em cima da hora, nas vésperas da eleição. Embora se aproxime mais do eleitor de Dilma do que dos de Serra, o histórico mostra que os indecisos tendem a se dividir proporcionalmente entre os candidatos.
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As tendências costumam partir dos centros em direção à periferia. É assim no vestuário, na tecnologia, no design. O que é moda em Milão hoje, será moda em São Paulo amanhã, e em Xiririca da Serra no dia seguinte. E na hora de votar? Onde fica o centro e quem está na periferia?
Na eleição 2010, quem dita a tendência é o Nordeste. Quando José Serra (PSDB) ainda liderava sozinho as pesquisas sobre a sucessão presidencial, os eleitores nordestinos já preferiam Dilma Rousseff (PT). À época, era comum atribuir esse comportamento ao assistencialismo do governo Lula na região.
O tempo mostrou que essa explicação é reducionista e insuficiente. Reducionista porque desde sempre a preferência por Dilma incluiu os nordestino ricos e pobres, escolarizados ou não, com e sem bolsa federal. E insuficiente porque ela não explica o fato de essa tendência ter extrapolado as fronteiras do Nordeste.
A mais recente pesquisa Ibope/Estado/TV Globo dá pistas importantes para se entender melhor o porquê de a “onda vermelha” ter se espalhado de lá para o Norte/Centro-Oeste, para o Rio de Janeiro, depois para Minas Gerais, para São Paulo e finalmente chegar ao Sul do Brasil.
Tudo aponta para a ideia da continuidade. Mas por que o eleitor quer mais do mesmo, em vez de variar um pouco? A fila andou e incluiu dezenas de milhões no mundo do consumo. Mas, tão importante quanto, os eleitores avaliam que ela continua andando. Principalmente no Nordeste.
Na era Fernando Henrique, o controle da inflação trouxe estabilidade e evitou a corrosão da renda de praticamente todos os brasileiros. O efeito lhe rendeu duas eleições presidenciais, mas acabou se esgotando. A economia voltou à letargia. Após oito anos, o eleitor preferiu a ruptura à continuidade.
As políticas sociais e de crédito massificados no governo Lula dão a impressão de que o movimento de inclusão é persistente. Coincidência ou não, o ritmo da economia como um todo se acelerou. Ao gosto nordestino, saiu de um arrastado bolero para um rápido xote.
Na semana passada, o CEO de um dos maiores bancos brasileiros exortava, em um seminário para os principais executivos da instituição: “Precisamos olhar para o Nordeste. O crescimento lá é mais rápido. É onde estão as oportunidades”.
Como exemplo, ele contou a história de um dono de supermercado no Piauí que montou 60 lojas, comprou 300 caminhões e fundou sua própria construtora para garantir a expansão da rede. Tudo nos últimos anos. É um novo mercado se formando. Novos atores emergindo.
Esse movimento foi traduzido pelo marqueteiro João Santana no “seguir mudando”, o mote e o xote da campanha de Dilma. É o gerúndio no poder, mas parece ser também o ritmo da eleição. Como diriam em Milão, o Nordeste é “trendsetter”.
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(texto publicado na edição impressa do Estado)
Por que 51% dos eleitores declara voto em Dilma Rousseff (PT)? Principalmente porque, entre todos os candidatos a presidente, ela é vista como “a que tem mais condições de dar continuidade ao governo Lula”. Mas não só por isso.
Segundo a maioria absoluta do eleitorado, Dilma é a melhor presidenciável para manter o poder de compra da população, assegurar o prestígio do Brasil no exterior e cuidar dos mais pobres.
O Ibope testou oito temas junto aos eleitores. Em apenas um deles, “melhorar a qualidade da saúde e dos hospitais do país”, José Serra (PSDB) se equiparou à petista como o mais apto a realizar a tarefa. Nos outros sete, a petista foi apontada por mais eleitores como a mais indicada.
A pesquisa também deixa claro que não é pelos atributos pessoais de Dilma seduz tantos eleitores. Dois em cada três votos vêm explicitamente da transferência de prestígio do presidente.
Nada menos do que 54% dos eleitores de Dilma citam como principal razão desse seu voto a continuidade do governo Lula, e outros 12% falam que votam nela porque é a candidata de Lula.
Apenas 8% creditam seu voto ao fato de ela ter “mais capacidade para governar o país”. Outros 5%, por sua história de vida, e 4% por ela ser mulher.
Entre os eleitores de Serra, o motivo mais citado para votar nele (34%) é porque ele tem mais condições de avançar na saúde, segurança e educação. Outros 27% citam sua capacidade para governar o país.
Assim como mais eleitores votam na petista, é esperado que, aos olhos do eleitorado, Dilma supere os adversários também na capacidade de realizar as tarefas listadas. Mas em três dos temas, ela se destaca mais do que em outros, pois atinge maioria absoluta.
Para 54% do total do eleitorado e 89% dos seus eleitores, Dilma é a melhor para “manter a nossa economia forte e o crescimento do poder de compra da população”. Só 26% apontam Serra, e 4%, Marina Silva (PV).
Surpreendentemente, 53% dos eleitores (e 89% dos dela) dizem que Dilma é a melhor para “manter o prestígio do Brasil no exterior”. Finalmente, 52% do eleitorado (e 87% dos que votam nela) aponta Dilma como a mais indicada para “dar atenção à população mais pobre”.
Como era de se esperar, o tema no qual Marina se sai melhor é “melhorar a preservação do meio ambiente”, com 19% das citações dos eleitores, contra 22% de Serra e 40% de Dilma.
Nos outros itens, os percentuais dos que apontam Dilma como a melhor presidenciável para realizar a tarefa variam de 44% (“melhorar o combate à corrupção”) a 49% ( “melhorar a qualidade da educação e das escolas públicas”), passando por 47% no caso de “melhorar a situação da segurança pública e do combate à violência”.
(texto publicado na edição impressa do Estado)
Cruzamentos da pesquisa Ibope mostram que a “onda vermelha” que empurra Dilma Rousseff começa a molhar os pés dos outros candidatos apoiados pelo presidente Lula. Em São Paulo, Aloizio Mercadante (PT) cresceu nove pontos e chegou a 23% das intenções de voto para governador.
Mercadante ainda está longe de Geraldo Alckmin (PSDB), que tem 47%. Mas a comparação com a eleição de 2006 indica uma evolução mais rápida do petista. Há quatro anos, nessa mesma fase da campanha, ele tinha 18%, contra 46% de José Serra (PSDB).
O crescimento de Mercadante se deu principalmente entre os eleitores de Dilma (ele foi de 31% para 46% nesse grupo) e entre os que acham o governo Lula ótimo ou bom (foi de 17% para 29%).
Ainda em São Paulo, os candidatos da coligação apoiada por Lula lideram a corrida pelas duas vagas no Senado: Marta Suplicy (PT) e Netinho (PC do B). Embora este último esteja tecnicamente empatado com Orestes Quércia (PMDB), ele cresceu e o adversário não.
No Distrito Federal, o candidato de Lula, Agnelo Queiroz (PT), empatou com Joaquim Roriz (PSC). Em Pernambuco, o governador Eduardo Campos (PSB) ampliou em mais 13 pontos a sua vantagem sobre o principal adversário.
No Rio de Janeiro, o aliado de Lula, o governador Sergio Cabral (PMDB), mantém 42 pontos de dianteira sobre o rival mais próximo. A novidade é que o candidato lulista ao Senado, Lindberg Farias (PT) chegou a 24% e encostou em Marcelo Crivella (PRB), que caiu de 37% para 30%.
A exceção é Minas Gerais, onde o ex-ministro Hélio Costa (PMDB) agora divide a liderança com o herdeiro político de Aécio Neves, Antonio Anastasia (PSDB). Entre os mineiros, parece prevalecer a aliança informal “Dilmasia”.
Na média das últimas três pesquisas divulgadas, Dilma Rousseff (PT) abriu 9 pontos porcentuais de vantagem sobre a soma de todos os adversários. Na média, ela tem 48%, contra 29% de José Serra (PSDB), 9% de Marina Silva (PV) e 1% dos nanicos somados. Se a eleição fosse hoje, ela seria eleita no primeiro turno com folga, mesmo descontada a margem de erro.
O primeiro gráfico mostra a evolução da petista considerando-se apenas os votos válidos. Para garantir a eleição em apenas um turno, o candidato precisa assegurar a maioria absoluta dos votos em candidatos, ou seja, 50% dos votos válidos mais um voto. No gráfico percebe-se que antes mesmo do início do horário eleitoral (17 de agosto), Dilma já havia chegado próxima disso.
Mas a margem de erro, representada pela espessura da curva em vermelho, ainda produzia incerteza de vitória no primeiro turno. A superação dos 50% para além da margem de erro aconteceu a partir de 22 de agosto, após alguns programas de propaganda eleitoral serem exibidos no rádio e na TV. Foi o empurrão final para ela ultrapassar o sarrafo dos 50% com folga.
O segundo gráfico mostra a evolução da média dos percentuais de intenção de voto de todos candidatos. Nota-se que ainda em julho, Dilma retomou o crescimento que havia apresentado de janeiro a maio. E, como de hábito, “roubando” eleitores de Serra.
Praticamente todo o crescimento da petista se deu à base da “conversão” de eleitores que antes citavam o tucano como seu candidato. Isso ocorreu por dois motivos: 1) boa parte da intenção de voto de Serra era na verdade um “efeito memória”, o chamado “recall”, não um voto convicto; 2) esses eleitores queriam votar no candidato de Lula, mas não sabiam que seu nome era Dilma.
A inclinação da curva de evolução da petista sugere que, embora ela já tenha atingido o patamar máximo que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alcançou em 2006, esse talvez ainda não seja seu teto de crescimento. Segundo o Datafolha, ainda há eleitores que não sabem que Dilma é a candidata apoiada pelo presidente.
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Na média das três últimas pesquisas divulgadas, Dilma Rousseff (PT) tem 6 pontos a mais do que a soma dos outros oito candidatos a presidente. Se a eleição fosse hoje, mesmo levando-se em conta a margem de erro, a petista seria eleita no primeiro turno.
Como o gráfico deixa claro, a linha média da petista (em vermelho) vem se distanciando das dos adversários desde o fim de julho, antes ainda do início do horário eleitoral.
Dilma cresce desde janeiro, com uma breve estabilização entre maio e junho. Nos primeiros cinco meses, sua candidatura ganhou força entre eleitores simpatizantes do PT e eleitores que dão notas 9 ou 10 para o governo Lula. Nesse período, o maior motor do crescimento da petista foram as centenas de repetições de seu nome pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em eventos oficiais.
Numa segunda fase, Lula parou de falar o nome de Dilma, após receber seis multas da Justiça eleitoral. Nesse período, Dilma apareceu com frequência na propaganda partidária do PT e dos aliados.
Mas também o nome de José Serra (PSDB) ficou em evidência, por causa dos programas partidários tucano, do PPS e do DEM. Foi quando Dilma empatou com Serra, mas o rival conseguiu sustentar um empate técnico, por dois meses.
Já nesse período, havia outros sinais de que a candidatura de Dilma ganhava mais força do que a do rival. Ela o superava com folga na intenção de voto espontânea -sinal de que seu eleitorado estava mais consolidado-, e seu favoritismo crescia, tornando-a a candidata apontada como a mais provável vencedora da eleição por mais eleitores.
A terceira fase da campanha marca a entrada da TV. Três semanas antes do início do horário eleitoral em 17 de agosto, os candidatos passaram a aparecer diariamente nos telejornais. Depois começaram os debates e entrevistas exclusivas na TV e no rádio.
Tudo isso, somado, deixou claro para mais eleitores que Dilma é a candidata de Lula, e que Serra é o candidato de oposição. A popularidade do presidente fez o resto.
Como os demais candidatos, como Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) não decolaram, a vantagem de de Dilma sobre os rivais vem se ampliando desde então, graças aos eleitores que trocaram Serra por ela, e pela conversão dos indecisos.
Dilma já chegou ao teto no qual Lula esbarrou em 2006. Ambos têm, por volta da mesma época, o mesmo percentual de votos válidos: 54%, na média. Ela vem em ascensão, enquanto Lula parou por aí.
Há quatro anos, o presidente se desgastou durante o horário eleitoral, por causa das críticas pelo mensalão e, em seguida, pelo escândalo dos aloprados. Acabou tendo que disputar o segundo turno. Dilma não enfrenta, por ora, esses problemas.
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(coluna publicada na edição impressa do Estado)
“A propaganda eleitoral começou na TV e fez Dilma Rousseff (PT) disparar nas pesquisas”. Nada mais factual, simples e equivocado. Em eleições, como em todo o resto, não há causa única para consequências avassaladoras.
A entrada da TV no processo eleitoral é a gota d’água que transborda o copo, o grão de areia que provoca uma avalanche, o último tapinha no fundo da garrafa que faz esparramar o catchup. Não houvesse as condições necessárias, um estado crítico, não haveria a onda Dilma.
É um equívoco comum: as tensões acumuladas ao longo de meses, anos, se liberam de uma só vez e debita-se ao último fato de uma cadeia de eventos a responsabilidade pelo ocorrido.
Equivale a culpar o motorista do arquiduque Franz Ferdinand pela morte de 10 milhões de pessoas na Primeira Guerra Mundial, só porque ele errou o caminho e colocou inadvertidamente o nobre austro-húngaro frente a frente com seu assassino.
O crescimento de qualquer candidato é uma onda que se move por muito tempo antes de quebrar, de repente, na urna. Alguns não passam de marola, outros viram tsunami.
Dilma não estaria em condições de vencer no primeiro turno, não houvesse o presidente propagandeado seu nome por meses a fio, ao arrepio da lei eleitoral.
Nem Lula poderia se arvorar a “entregar meu povo em tuas mãos” não houvesse incluído dezenas de milhões no maravilhoso mundo do consumo. Tampouco isso teria ocorrido sem o Plano Real. A história faz diferença.
Assim, não se pode creditar o crescimento de Dilma apenas ao horário eleitoral. Segundo o Datafolha, só 1 em cada 3 eleitores viu os primeiros programas dos presidenciáveis. A onda vem de longe.
Antes de ultrapassar José Serra (PSDB) nas intenções de voto, a petista superou-o no favoritismo popular, ainda nos primeiros dias de junho. Desde então, a cada nova pesquisa, mais eleitores apostam que ela será eleita. Com “delay”, o favoritismo foi virando intenção de voto. Era a onda ganhando corpo.
Ela se propagou do Norte para o Sul, desde as regiões onde os aumentos de renda e do consumo foram mais fortes. Esse movimento contradiz o mito de que “formadores de opinião verticais”, os mais ricos e escolarizados, impõem as tendências de voto de cima para baixo.
Foi a soma de eventos recentes e, principalmente, a sua repercussão que propiciou o último salto de Dilma nas pesquisas. A eleição virou assunto e se propagou de boca em boca. Mais eleitores, principalmente os mais pobres, descobriram que a petista é a candidata de Lula.
Não foram poucos nem desprezíveis os eventos que antecederam o início do horário eleitoral. As entrevistas dos candidatos a presidente no “Jornal Nacional” da TV Globo foram vistas por até 36 milhões de eleitores, segundo pesquisa Ibope.
O debate entre os presidenciáveis na Band alcançou pelo menos 18 milhões de eleitores. O debate no UOL, via internet, recebeu 1,8 milhão de acessos e esse número continua crescendo, porque os eleitores seguem querendo ver os trechos mais ácidos da disputa.
“É menos a audiência (do debate ou da entrevista) e mais a repercussão, o boca-a-boca”, afirma Marcia Cavallari, diretora-executiva do Ibope Inteligência.
Com 28 anos de experiência em pesquisas eleitorais, ela explica que o efeito das entrevistas e debates é potencializado pelos “formadores de opinião horizontal”, as pessoas mais influentes da família e da vizinhança, que iniciam conversas com base nesses eventos.
Embora as relações interpessoais ainda sejam uma das principais fontes de influência do voto, as novas tecnologias desempenham um papel cada vez mais importante nas eleições. Especialmente quando interagem com os meios de comunicação tradicionais.
A entrevista de Marina Silva (PV) ao “JN” quase triplicou o número de pesquisas por seu nome no Google. O número de citações aos candidatos nas redes sociais como Twitter e Facebook é multiplicado quando há debates na TV. Trecho da propaganda de Serra vira hit no YouTube. Um meio potencializa o outro.
Quando a eleição vira assunto do dia-a-dia, o acesso às informações sobre a campanha é praticamente simultâneo a todo o eleitorado, seja nas capitais, seja no Brasil profundo. Isso pode tanto reforçar tendências quanto provocar alterações bruscas, a partir de um fato inesperado, um “aloprado”. Também por isso não se pode dar a eleição por decidida.
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Se era para tentar se camuflar como o candidato de Lula, o PSDB deveria ter escolhido Aécio Neves e não José Serra como seu presidenciável. O ex-governador mineiro sempre foi mais próximo do atual presidente do que seu colega paulista. Seria mais fácil para ele jogar na confusão do eleitorado.
Há muito mais imagens de Aécio sorrindo ao lado de Lula e eventualmente dos dois se abraçando do que as resgatadas pela propaganda tucana e apressadamente enxertadas no horário eleitoral de Serra na quinta-feira à noite. Serra sempre fez mais oposição ao presidente do que o mineiro.
A opção do PSDB no fim do ano passado foi pelo candidato que tinha mais “recall”, ou seja, cujo nome estava mais impregnado na memória do eleitor. O partido está descobrindo, a um custo de potenciais mais quatro anos de sombra, que “recall” não é a mesma coisa que intenção de voto.
A rigor, não se pode dizer que Serra esteja “perdendo” votos. Ele nunca os conquistou. A comparação das intenções de voto espontânea e estimulada do tucano ao longo da campanha mostra que ele só era citado por 2 em cada 3 dos seus eleitores depois que eles olhavam a cartela com os nomes dos candidatos.
O que se comprova agora é que essa maioria escolhia o nome de Serra porque era o único que lhes acendia alguma rede neural, despertava alguma reminiscência. Era uma associação da memória, não uma escolha do raciocínio ou da emoção.
O que a mais recente pesquisa Datafolha mostra é a continuidade de um movimento que começou em janeiro e, em diferentes ritmos, prossegue até agora: à medida que mais eleitores vão identificando Dilma Rousseff com Lula, eles migram para a candidata do PT e ela cresce. Boa parte deles integrava o time do “recall” de Serra.
Segundo o Datafolha, Dilma está chegando ao teto que Lula encontrou há quatro anos, nessa fase da campanha: no nível dos 54% dos votos válidos (o então candidato à reeleição bateu em 55%) -apenas aqueles dados a candidatos e que definem se há ou não necessidade de dois turnos de votação.
Em 2006, Lula terminou o horário eleitoral menor do que começou. Acabou precisando disputar o segundo turno contra Geraldo Alckmin (PSDB). Mas, diferentemente de Dilma, ele entrou na fase da propaganda eletrônica estabilizado, não em ascensão. E ainda se desgastou com os “aloprados” na véspera da eleição.
Em 2010, ao menos até agora, quem tem cometido mais erros na fase decisiva da campanha é o PSDB, com as favelas de mentira, a crise de identidade (oposição ou situação?) e a divisão dos aliados. Nada garante que isso não possa se inverter até 3 de outubro. Mas a inércia é favorável a Dilma.
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Foram programas de apresentação dos candidatos ao eleitor. Nada mais natural que seus nomes fossem as palavras mais citadas. “Serra” teve 19 menções. “Dilma” foi pronunciada 18 vezes. Descontados os monossílabos, foram os dois vocábulos -e os assuntos- que monopolizaram as estreias do horário eleitoral dos programas dos candidatos do PSDB e do PT, respectivamente.
Não foi apenas o foco nos presidenciáveis que se repetiu nas propagandas dos dois rivais. O objetivo dos marqueteiros de ambos foi o mesmo: lambuzar a TV com programas impregnados de emoção. Os artifícios são os de sempre: muita música, gente alegre, gente chorando, gestos carinhosos, animais de estimação.
A mesma disposição de emocionar o eleitor se reflete nas “nuvens” das palavras mais citadas durante os programas. “Gente”, “família” e “coração” na propaganda de José Serra. “Vida”, “afetivamente”, “mãe/filha” no programa de Dilma Rousseff.
Na propaganda do tucano, o narrador e os jingles trataram Serra por “Zé” nada menos que 7 vezes. A tentativa de “popularizar” o candidato não foi muito bem sucedida. Afinal, toda vez que os “populares”, no próprio programa, se referiam ao presidenciável o chamaram de “Serra”, nunca de “Zé”.
No bloco da petista, a caracterização de Dilma foi um pouco diferente, mas teve o mesmo objetivo de criar uma identificação da eleitora com a candidata. “Mãe”, “companheira”, “mulher” foram algumas das palavras associadas à presidenciável.
Lula também foi um ponto em comum das duas propagandas. Na de Dilma, como principal avalista da candidata. O presidente apareceu segurando a mão de sua protegida no lançamento da candidatura. E depois derramou-se em elogios exagerados: “(…) acho que não tem hoje no Brasil ninguém mais preparado que a Dilma.”
Na se Serra, Lula virou “Silva”. O jingle final da propaganda tucana aposta no que os marqueteiros do PSDB chamam de pós-Lula. Por isso, torce: “Quando o Lula da Silva sair, é o Zé que eu quero lá. Com Zé Serra, eu sei que anda, é o Zé que eu quero lá.”
Do ponto de vista formal, uma houve uma diferença grande entre os dois programas: enquanto Serra falou frontalmente para a câmera, se dirigindo assim ao telespectador, Dilma apareceu falando com um interlocutor que não aparecia na tela. Como se ainda não conhecesse o eleitor, ela não se dirigiu diretamente a ele.
A linguagem de ambos os programas foi simples, com uma baixa taxa de palavras com mais de três sílabas (potencialmente mais difíceis de serem compreendidas): 17%, para os dois. Com mais tempo, a propaganda de Dilma teve mais palavras: 1.227, contra 1.010 no do tucano.
(texto publicado na edição impressa do Estado)
Dilma Rousseff (PT) virou no Sudeste. A petista lidera na região que é o maior colégio eleitoral do país por 41% a 32%. Na pesquisa anterior do Ibope, há menos de 10 dias, ela estava empatada em 35% com José Serra (PSDB) na região. E, no final de junho, estava cinco pontos atrás do tucano.
A despeito das margens de erro maiores (porque a amostra regional é menor que a nacional), a tendência de evolução das intenções de voto no Sudeste é consistente. E surpreendente. No primeiro turno de 2006, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) perdeu para Geraldo Alckmin (PSDB) por 820 mil votos de diferença na região.
Essa virada de Dilma deve-se ao aumento da vantagem da petista no Rio de Janeiro, à manutenção de uma pequena margem em Minas Gerais e a um surpreendente empate em São Paulo, onde Serra era governador até abril.
Como as margens de erro são grandes, esses resultados devem ser vistos com cautela, mas a sua repetição e intensificação a cada pesquisa são um sinal de que o tucano tem um problema grande a resolver.
O Sudeste e o Nordeste (onde Dilma ampliou a vantagem de 19 para 29 pontos em pouco mais de uma semana) são os locais onde Serra mais fez campanha nos últimos meses e semanas.
Soma-se a isso o fato de que os dois candidatos foram vistos por cerca de um quarto dos eleitores em suas entrevistas ao Jornal Nacional da TV Globo. E que, na avaliação dos eleitores, o desempenho de Dilma não foi superior (23% de ótimo/bom, contra 20% do tucano) a ponto de justificar o crescimento tão agudo da sua vantagem.
Uma hipótese que parece cada vez mais consistente é que o aumento da exposição de Serra, via eventos de campanha e em debates e entrevistas na TV, faz aumentar o contingente de eleitores que o vê como candidato de oposição. E ele perde votos com isso, porque 78% acham o governo ótimo ou bom.
Essa hipótese ganha força ao se notar o perfil dos eleitores que trocaram o tucano pela petista: são principalmente mulheres e eleitores de baixa renda e pouca escolaridade, que provavelmente aumentaram seu grau de informação sobre a disputa após os debates e entrevistas na TV.
Outro indicador: Dilma só ganha de Serra entre os que dão nota 8, 9 ou 10 ao governo. Só que estes são 68% do eleitorado, e a vantagem da petista entre eles é cada vez maior.
Resta ao tucano olhar para a história recente da sucessão presidencial. Em 2006, Lula tinha 55% dos votos válidos antes de começar o horário eleitoral na TV e rádio. Acabou com menos de 49% e precisou disputar o segundo turno. Mas Lula tinha menos tempo de propaganda que Alckmin, e a avaliação de seu governo não era tão positiva quanto hoje.
(coluna publicada na edição impressa do Estado; aqui você lê dois mitos a mais)
Mito 1: A eleição de 2010 é governista.
Fato: A eleição de 2010 é mais fácil para candidatos governistas.
Consumo em alta. Emprego em alta. Popularidade em alta. É difícil para um candidato de oposição bater de frente com um governo quando a economia vai bem. O oposicionista se limita a criticar pontos específicos e a prometer continuidade no resto. Acaba com um discurso moderado ou esquizofrênico.
Em ambos os casos, o discurso do candidato oposicionista é difícil de emplacar. Sem uma identidade clara, ou uma proposta que seduza o eleitor, perde terreno para os situacionistas. Com economia em alta, candidatos à reeleição muito populares ou apoiados por governantes com alta aprovação são favoritos, seja para presidente, seja para governador.
Além de Dilma Rousseff (PT) na corrida presidencial, entram na reta final liderando as pesquisas os governadores ou seus candidatos em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia. Cada um de um partido diferente. Mas favoritismo não é sinônimo de eleição ganha. Os 45 dias de bombardeio dos candidatos no rádio e na TV devem mudar alguns cenários e reforçar outros.
Mito 2: recall é igual a intenção de voto.
Fato: recall alto ajuda, mas não é garantia de voto na urna.
Na pré-campanha, até 75% dos eleitores não têm um presidenciável na ponta da língua. Confrontados com a necessidade de apontar um candidato, escolhem, na cartela dos institutos de pesquisa, um nome que parece familiar. É uma associação da memória, não necessariamente uma escolha.
À medida que a campanha avança, o grau de conhecimento sobre os candidatos aumenta, e outras associações mentais entram em jogo, como a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Dilma.
Lula em 1994 e José Serra em 2010 saíram na frente nas pesquisas, mas foram ultrapassados. Ambos haviam sido presidenciáveis e tinham chegado ao 2º turno. Eram mais conhecidos que os adversários no começo da disputa. O petista perdeu a eleição. O tucano tenta repetir Fernando Henrique Cardoso, que saiu na frente em 1998, quase foi ultrapassado, mas reagiu e venceu.
Mito 3: transferência de voto não existe.
Fato: transferência não existe, mas transfusão ao sucessor sim.
O eleitor paulista não liga muito se Lula apóia Aloizio Mercadante (PT) para governador. Mas Dilma só tem os percentuais que alcançou na corrida presidencial por causa de Lula. “Guerreira” é o atributo que os marqueteiros tentam lhe atribuir, não é o motivo de sua ascensão nas pesquisas.
Se Dilma, sem experiência nem marca própria, for eleita, entrará para uma galeria que já tem Celso Pitta, Luiz Paulo Conde, Fleury Filho, Lucas Nogueira Garcez e Rosinha Garotinho. Com exceção da última – casada com o criador-, as demais criaturas romperam com os que lhes deram a transfusão eleitoral necessária para nascerem politicamente.
Mito 4: Minas Gerais vai decidir a eleição.
Fato: nenhum colégio eleitoral sozinho define eleição presidencial.
Não adianta um candidato a presidente ir muito bem em um ou outro Estado, e perder feio nos demais. Por maior que seja o seu reduto eleitoral, o presidenciável, para ter chance, precisa ter pelo menos 30% dos votos na maioria das unidades da Federação. E isso se houver mais de dois candidatos no páreo. No 2º turno, é preciso um percentual ainda maior na maioria das UFs.
Mito 5: Pobre vota em Dilma, rico vota em Serra.
Fato: o condicionante do voto nesta eleição é regional, não socioeconômico.
Os ricos do Nordeste preferem Dilma a Serra, assim como boa parte dos pobres paulistas e paranaenses, por exemplo, preferem Serra a Dilma. A divisão regional do voto para presidente ainda não foi totalmente explicada, mas vai além de uma causa única, como programas assistencialistas. Passa pela inclusão dos eleitores no maravilhoso mundo do consumo.
Mito 6: todo eleitor que aprova o governo votará no seu candidato.
Fato: apenas os eleitores que dão notas mais altas a um governo votam em peso no seu candidato.
“Ótimo” não é a mesma coisa que “bom”. O eleitor usa graduações diferentes para expressar sua opinião sobre uma administração. Até a semana passada, Dilma só ganhava de Serra entre os eleitores que dão nota 8 ou superior ao governo Lula. Muitos eleitores dão nota 7 ao presidente, mas votam na oposição. Conscientemente.
Mito 7: quanto mais aparece, mais o candidato cresce.
Fato: a superexposição não ajuda todos os candidatos.
Serra priorizou sua campanha no Nordeste. Dilma ampliou sua vantagem na região. O tucano passou a visitar semanalmente Minas Gerais. A petista virou entre os mineiros. Uma hipótese é que ao intensificar sua campanha em redutos lulistas, Serra passou a ser visto como oposicionista por mais eleitores e perdeu votos.
“Ciro” é o nome de urna de um dos candidatos ao Senado em São Paulo. Ele é assim apresentado nas pesquisas, e chega a quase 20% das intenções de voto. O que ocorrerá quando os eleitores descobrirem que seu sobrenome é Moura?
Mito 8: pesquisa define eleição.
Fato: pesquisa influencia eleição, mas não a define.
As pesquisas de intenção de voto influenciam o espaço de cada candidato na cobertura de imprensa, se eles participam ou não de debates, o quanto arrecadam de financiadores de campanha, o moral dos comitês e dos militantes. Mas não determinam quem ganha ou perde. Fosse assim, não haveria viradas. Quem saísse na frente ganharia sempre.
Mito 9: o horário eleitoral é gratuito e democrático.
Fato: o horário eleitoral não é gratuito nem democratiza a eleição.
O pagamento pelo horário eleitoral na TV e no rádio sai do seu, do meu, do nosso bolso, via créditos fiscais que as emissoras recebem pela cessão do tempo em sua programação. A Receita Federal estima que deixa de arrecadar R$ 128 mil por minuto de propaganda eleitoral. Isso significa que apenas a campanha presidencial no 1º turno custará R$ 163 milhões aos cofres públicos. Fora as campanhas de governador, senador e deputados.
Além disso, os candidatos investem um bom dinheiro na produção dos programas de TV e rádio. Até 8 de agosto, antes portanto de o horário eleitoral começar, apenas o comitê de Dilma Rousseff (PT) já havia gastado R$ 4,5 milhões com os programas. Gratuito para quem?
A divisão do horário eleitoral é tão favorável aos grandes partidos que seu efeito sobre as candidaturas nanicas é quase nulo, senão negativo. Tome-se o exemplo de Heloisa Helena, em 2006. A candidata a presidente do PSOL tinha o equivalente a 12% dos votos válidos em 8 de agosto (Datafolha), antes de a propaganda eleitoral começar. Ao final da apuração, tinha 6,9% dos votos válidos.
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