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Propaganda do PT revela preocupações com discurso e imagem de Dilma

Jose Roberto de Toledo

sexta-feira 14/05/10

Pelos destaques do programa do PT, percebem-se as principais preocupações de Lula com a estratégia de campanha de Dilma: 1) ao compará-la a Nelson Mandela, tenta afastar a pecha de “terrorista” que a oposição tenta impingir à presidenciável através da internet, por ela ter participado da luta armada ao regime militar. O programa pintou-a como [...]

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Pelos destaques do programa do PT, percebem-se as principais preocupações de Lula com a estratégia de campanha de Dilma:
1) ao compará-la a Nelson Mandela, tenta afastar a pecha de “terrorista” que a oposição tenta impingir à presidenciável através da internet, por ela ter participado da luta armada ao regime militar. O programa pintou-a como lutadora pela liberdade.
2) associá-la mais a programas sociais do governo: Luz para Todos e Minha Casa Minha Vida. O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) ficou em segundo plano.
3) reforçar seus laços com Minas Gerais e Rio Grande do Sul, colégios eleitorais importantes e onde ela perde para José Serra.
4) comparar realizações sociais da dupla Lula-Dilma com a dupla FHC-Serra.

Chamou a atenção o ângulo escolhido para enquadrar a candidata na maior parte do programa: meio de lado, como se ela estivesse dando uma entrevista. O objetivo dessa narrativa é apresentar a candidata ao eleitor, o que foi reforçado pela fala de Lula, captada no ângulo oposto. De quebra, só os mais observadores puderam perceber que ela estava lendo o texto, e não falando de improviso.

A contrapartida desse enquadramento é que Dilma não se dirige frontalmente ao eleitor, não cria cumplicidade. Isso só foi acontecer no final do programa, quando, segundo a lógica do roteiro, ela já havia sido apresentada ao telespectador. Foi uma seleção de imagens à la Dunga, cuidadosa, quase defensiva.

No esforço de criar empatia, o sorriso no rosto da candidata foi permanente, trocado por uma ruga na testa apenas quando Dilma falou sobre o período da ditadura militar. Algumas passagens soaram menos espontâneas do que outras, especialmente no trecho em que ela fala sobre seu “sonho de fazer avançar esse país”, em comparação a quando ela disse que sua vida “sempre foi enfrentar e vencer desafios”.

Embora tenha se esforçado para parecer afetuosa com as pessoas que “entrevistou” durante o programa, como ao pousar diversas vezes a mão sobre “dona Ieda” quando falavam do Luz para Todos, foram essas as passagens em que Dilma se mostrou menos à vontade, ora cruzando os braços às costas, ora acariciando o próprio braço repetidamente.

Em um ambiente controlado, dirigida e ensaiada, Dilma conseguiu projetar uma imagem com potencial para ganhar votos. Resta saber como ela se portará em situações em que precisará reagir de improviso, sob tensão e sem uma segunda chance, como em uma entrevista ao vivo ou em um debate com Serra.