Qual história cada presidenciável vai contar ao eleitor de 2014? Nenhuma resposta definitiva, mas muito ensaios. Do “é preciso fazer mais” à “nova política”, os motes estão em fase de testes. Nenhum foi aprovado. Por ora, são quatro candidatos em busca de uma narrativa. Mais precisamente, um bando de marqueteiros testando múltiplos roteiros. Tentativas e erros. Muitos erros.
Contar histórias é a mais humana das habilidades. É o que prende a atenção do público, especialmente numa campanha eleitoral. Candidato sem uma boa história para contar está liquidado antes de a campanha começar. Em 2010, Dilma Rousseff foi a “mulher de Lula”, a “mãe do PAC”, a “gerentona da continuidade”. Para 2014 esses personagens não servem mais. O filme é outro.
A propaganda oficial ainda não mudou. Está presa aos acertos do passado. No horário do PT na TV, Dilma dividiu a tela com Lula, lado a lado, do mesmo tamanho. Impossível não comparar os dois. Quem ganhou? Lula. Em 2010, ele avalizava a desconhecida Dilma. Agora Dilma é presidente, deve andar com as próprias pernas.
Na propaganda do PT, o cidadão é tratado explicitamente como consumidor. Ficou implícita a ideia de que a prosperidade se compra individualmente. De que a política não dá mais conta de soluções coletivas. Mas esse não é o discurso da oposição?
A propaganda do PSB foi centrada em seu presidenciável. Close após close nos olhos azuis de Eduardo Campos, o narrador da história. Como escreveu Roberto Jefferson (PTB), o governador ficou parecendo mais holandês do que pernambucano. Clipes de contrastes sociais, de avanços e atrasos, culminam com a conclusão do narrador-candidato: “É preciso fazer mais”.
Alguém já disse isso… Ah, foi José Serra (PSDB), em 2010.
Segue o aliado-opositor: “É preciso contrariar os interesses da velha política. Cargo público tem que ser ocupado por quem tem capacidade, mérito, sobretudo espírito de liderança. E não por um incompetente que é nomeado somente porque tem um padrinho político forte”. Quem quiser que vista a carapuça.
Nas palavras de Campos, as conquistas do passado são coletivas, sem protagonista. Foram tanto de Luís (Inácio), quanto de Fernando (Henrique) e de Miguel (Arraes). Mas não de Dilma, que não é citada pelo nome. Já o futuro tem dono: “O Brasil precisa dar um passo adiante. E nós do PSB vamos dar esse passo, junto com o Brasil”. Faltou dizer como.
O céu político está repleto de balões, subindo e descendo nas correntes da opinião pública, impulsionados por manchetes, “likes” e tuitaços. Um dos que furou antes de alçar voo foi o fim da reeleição, assoprado por Aécio Neves (PSDB-MG). Acabou abatido pelo próprio patrono da candidatura do tucano, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mais que previsível, já que FHC foi o pai da ideia.
Mesmo que tivesse flutuado, o balão estava condenado à brevidade. Bastaria algum gaiato lembrar que, por tabela, Aécio estaria propondo um ano a mais para José Genoino (PT) na Câmara.
Mineiro, o senador pulou de pronto para outro palanque, o da Força Sindical, na comemoração do 1º de Maio. E mudou de discurso. Ou melhor, voltou a explorar o efeito tomate. Culpou Dilma pela inflação – frase sim, outra também. Mas não falou nada sobre a proposta dos anfitriões de reindexar salários. Sobre isso, só se pronunciou quando foi indagado, já fora do palanque: é contra, mas a culpa não é de Paulinho da Força, o autor da ideia, é de Dilma. Ãh? Está no script.
E Marina Silva? Não tem palanque, não tem horário de TV, não tem cargo, não tem partido. Só tem a narrativa – de 2010.
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O Ceará é a exceção e o exemplo: o Estado tem 9 vezes mais presos por corrupção do que seria o esperado. Apenas 3,4% dos presos no Brasil estão cumprindo pena em presídios cearenses. Mas a proporção pula para 30% quando só se leva em conta os 2.703 corruptos e corruptores presos no país.
Nenhum outro Estado brasileiro tem tantos presos por corrupção quanto o Ceará. São 820, dos quais 813 são funcionários públicos acusados de cometer peculato (apropriação ou desvio de bens públicos durante o exercício do cargo). O segundo colocado no ranking, São Paulo, tem 42 corruptos presos a menos, embora tenha 11 vezes mais presidiários, de modo geral, do que o Ceará.
A relação fica ainda mais crítica se considerarmos que metade dos presos por crimes contra a administração pública em São Paulo não são funcionários corruptos, mas contrabandistas.
Tende ao ridículo especular que os cearenses sejam 9 vezes mais corruptos, por natureza, do que o resto do Brasil. O mais provável é que falte nos outros Estados brasileiros a mesma disposição e capacidade de combater a corrupção encarcerando os condenados por crimes contra a administração pública. Mesmo o fenômeno cearense é recente. Vem de dois ou três anos, apenas.
Os números do InfoPen (Ministério da Justiça) mostram que o combate à corrupção depende de vontade política dos governantes, da capacidade investigativa do Ministério Público e da polícia, e da disposição do Judiciário de dar celeridade ao julgamento dos casos que envolvem o interesse público.
Se o grau de corrupção no Ceará é representativo do que acontece no Brasil, pode-se estimar o que aconteceria no país se todos os Estados tivessem o mesmo empenho cearense. Para começar, haveria 9 vezes mais presos por corrupção no Brasil, ou 21,5 mil a mais do que existem hoje nas cadeias, presídios e penitenciárias. Mas alguns Estados teriam que apenar mais do que outros.
O Rio de Janeiro teria que encarcerar 11 vezes mais corruptos do que tem hoje nas suas cadeias. O Maranhão teria que multiplicar por 27 os presos por corrupção; a Bahia, por 52; o Rio Grande do Norte, por 105. E Sergipe teria que, para começar, prender algum. O que será mais provável? Os outros 26 Estados prenderem mais corruptos, ou o Ceará voltar ao cenário anterior a 2011?
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Rodrigo Burgarelli
José Roberto de Toledo
Um século depois de receber uma leva de imigrantes maior do que era a sua população nativa de então, a capital paulista abriga apenas 28% de moradores que não nasceram no Estado de São Paulo. Mas a distribuição dessas pessoas que escolheram viver na cidade está longe de ser homogênea. Varia de 49% de imigrantes na periférica Anhanguera a 14% na tradicional Vila Carrão.
Os imigrantes – originários majoritariamente de outros Estados e, em menor parte, do exterior – se concentram em duas grandes áreas espacialmente distantes, mas economicamente semelhantes: a extrema periferia e o centro histórico de São Paulo. Entre elas, a formar um anel de distritos com maior presença de paulistas, encontram-se as regiões mais ricas da cidade e os bairros de moradia da tradicional classe média paulistana.
Esse anel está pintado com as cores mais claras no mapa que ilustra esta página. Ele compreende 56 distritos cuja renda domiciliar média é de R$ 5 mil. Só 1 em 5 de seus moradores veio de outros Estados ou países. Os outros 78% são, em grande parte, a segunda ou terceira geração de ondas migratórias mais antigas. Numa cidade que teve o maior crescimento entre as metrópoles mundiais no século 20, poucos não são imigrantes ou seus descendentes.
Os outros 40 distritos – identificados pelas cores mais vivas no mapa – têm uma presença de migrantes bem acima da média da cidade: 35%. Não por coincidência, o rendimento médio em suas habitações é metade do resto da cidade: R$ 2,5 mil. Nos mais pobres é a metade da metade. A desigualdade de renda é reflexo de como se deu a ocupação dessas regiões nos últimos 50 anos.
A maioria dos imigrantes recentes foi morar em áreas nos extremos da cidade que foram sendo incorporadas à mancha urbana sem planejamento e com carências de todo tipo de serviço público: do transporte à assistência médica, de escolas ao saneamento básico. Nos anos 70 e 80, esse movimento criou gigantescos distritos dormitórios, como o Grajaú, onde vivem mais de 100 mil moradores nascidos fora de São Paulo.
Esse movimento expansionista transbordou para os municípios vizinhos a São Paulo nos anos 80 e 90. Na cidade em si, até por falta de espaço, ele ficou restrito a poucas regiões. A mais dinâmica delas é Anhanguera. No extremo noroeste da cidade, é o distrito que forma a ponta de uma das orelhas do cachorro imaginário que muitos vêem quando olham o mapa paulistano. Sua renda domiciliar é de apenas R$ 1.788.
O restante dos imigrantes reocupou áreas do centro histórico – muitas vezes em habitações coletivas – em distritos como o Pari, onde nada menos do que 46% dos moradores são imigrantes. Nessas regiões mais centrais a renda média é maior do que na periferia. Chega a R$ 2.784 no Brás e a R$ 2.984 no Pari. Um dos motivos é que nessas áreas vive um outro tipo de imigrante, o estrangeiro.
As ondas mais recentes de migração do exterior para a cidade de São Paulo miraram principalmente o centro. Os distritos paulistanos com maior concentração de estrangeiros são o Bom Retiro (16% de seus moradores nasceram em outros países) e Pari (14%), seguidos por Brás, Belém e República.
Repetem-se os destinos dos imigrantes italianos e espanhóis que desembarcaram em São Paulo na virada do século 19 para o 20. Mas, em vez de europeus, as novas onda migratórias vêm da Bolívia, da China e da Coreia do Sul. Os bolivianos como mão-de-obra, os coreanos como empregadores dos bolivianos, e os chineses em ambas as posições.
METODOLOGIA
As informações analisadas no projeto “96 vezes São Paulo” são fruto de uma parceria do Estadão Dados com o Ibope. Usando métodos estatísticos e de georreferenciamento, o instituto conseguiu associar aos 96 distritos paulistanos as respostas do questionário estendido do Censo 2010.
Aplicado a apenas uma parcela das habitações recenseadas, a chamada “amostra” do Censo inclui informações sobre migração, religião, rendimento, trabalho, condições e bens presentes nos domicílios. Elas serão objeto de reportagens ao longo das próximas semanas e de mapas interativos no blog do Estadão Dados.
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A concentração de imigrantes de outros Estados é uma das chaves para entender o padrão geográfico de votação na cidade de São Paulo. Historicamente, os candidatos petistas a cargos majoritários são mais votados nas periferias, enquanto os anti-petistas costumam vencer no centro expandido. Esse comportamento tem menos a ver com a renda e a escolaridade do que com a origem do eleitor.
Uma pesquisa inédita realizada pelo Ibope e pelo Estadão Dados conseguiu demonstrar, estatisticamente, que nenhuma variável sociodemográfica guarda uma correlação mais forte com o voto dos eleitores paulistanos do que o bairro onde ele mora. A descoberta virou um estudo cientifico que será apresentado pela CEO do Ibope, Marcia Cavallari, no congresso mundial de opinião pública (66ª Wapor) este mês, em Boston, nos EUA.
Os resultados de um teste estatístico chamado Chi-quadrado encontraram valores mais altos para a associação da preferência eleitoral dos paulistanos com o distrito de moradia do que com outras variáveis estruturais do voto, como cor, renda e grau de escolaridade do eleitor. Novos testes descobriram, depois, que isso se deve, em grande parte, à origem dos moradores.
“A proporção de migrantes (de outros municípios, inclusive de outras cidades paulistas) na área petista é maior do que nas demais áreas”, constata o estudo: 42% contra 35% no resto da cidade. Mas a maior diferença ocorre entre os eleitores que vieram do Nordeste: 55% dos imigrantes nordestinos moram nas áreas onde os candidatos do PT sempre são os mais votados.
Isso significa que dois eleitores com diploma de nível superior ou com renda semelhante têm mais chance de votar em dois candidatos diferentes a prefeito ou a presidente do que se eles tiverem a mesma origem (no caso, os Estados do Nordeste do Brasil) e/ou morarem no mesmo bairro.
A preferência do eleitorado nordestino radicado em São Paulo por candidatos petistas transcende em muito os programas federais de transferência de renda. Uma parcela estatisticamente desprezível deles recebe benefícios do Bolsa Família ou equivalentes. O “petismo” desses eleitores paulistanos parece estar mais ligado à ascensão social e, principalmente, de consumo experimentada por seus conterrâneos ao longo dos últimos 10 anos.
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A presidente Dilma Rousseff está perdendo o pé de sua popularidade. O poder de compra do consumidor que lhe dá sustentação voltou a cair, deixando a taxa de aprovação de seu governo a flutuar – nas alturas, é fato, mas a flutuar. Inércia sustenta popularidade por algum tempo, mas não indefinidamente. De duas, uma: ou o bolso do consumidor volta a encher, ou as opiniões positivas sobre Dilma podem começar a diminuir.
É cedo para a oposição comemorar com frevo e tutu de feijão orgânico, mas a situação financeira do consumidor é a menos satisfatória desde a posse de Dilma. Os que dizem que a situação é melhor do que era há 3 meses ainda são o dobro dos que acham que piorou. Mas a diferença entre os dois grupos está diminuindo. Rapidamente.
Em novembro, quando a confiança do consumidor estava no auge, 41% dos brasileiros afirmavam ao Ibope em pesquisa para a CNI que sua situação financeira havia melhorado, contra apenas 11% que diziam o contrário. Em abril, a taxa de melhora caiu a 33%, e a de piora subiu para 17%. A diferença estreitou de 30 para 16 pontos percentuais. Se os números são bons, a tendência é ruim.
Tão importante quanto o volume no bolso do consumidor no presente é o otimismo quanto ao que acontecerá com sua renda no futuro. Em novembro, 47% apostavam em melhora nos próximos seis meses. Agora, os otimistas são 36%. Ultrapassam os pessimistas por 25 pontos, mas sua vantagem caiu um terço desde novembro.
A situação financeira atual e a perspectiva do que acontecerá com a renda são os dois indicadores que guardam mais forte correlação estatística com a popularidade presidencial. Suas curvas têm mais semelhança com a sorte do governante do que as da inflação, do crescimento do PIB ou do medo do desemprego.
Não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito, porém. Garantir que é a segurança financeira do consumidor que determina a aprovação do presidente é apenas uma hipótese, mas sabe-se que ambos andam de mãos dadas. Se um oscila numa direção, o outro, mais cedo ou mais tarde, acaba seguindo no mesmo caminho. Qual vai seguir qual é questão de fé.
A oposição torce para que a confiança do consumidor puxe a popularidade de Dilma para baixo, e o governo reza no sentido oposto. Seja para onde for, as duas curvas devem convergir. Vai depender de qual santo é mais forte e tem a máquina de propaganda mais azeitada.
A insatisfação com o poder de compra aumentou mais entre os consumidores do Nordeste do que do Sudeste, e mais entre os pobres do que entre os ricos. Isso sugere uma influência grande do aumento dos preços dos alimentos. Se foi o “tomate”, trata-se de um fenômeno sazonal e não contínuo. Impossível cravar, porém.
O governo conta com o otimismo de sua base eleitoral. A euforia dos consumidores nordestinos diminuiu, mas 51% ainda estão crentes de que sua situação financeira vai continuar melhorando. Os pobres perderam menos a esperança de ver sua renda aumentar no futuro próximo do que os ricos. Manter essa chama acesa é o problema de Dilma.
Enquanto isso, Aécio Neves (PSDB-MG) assopra um balão de ensaio. O presidenciável tucano cogita propor o fim da reeleição. Brinca com fogo.
Foi o PSDB que inventou a reeleição, quando o partido ainda sonhava permanecer 20 anos no poder. Acabar com ela agora que o sonho virou pesadelo, e já a partir 2014 (o que daria anos extra de mandato para os políticos sem consentimento do eleitor), é tão casuístico quanto mudar as regras eleitorais para deixar Marina Silva sem tempo de propaganda na TV. Incoerência queima.
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Contrariamente ao provérbio português, jabuti sobe em árvore – desde que ela esteja plantada em Brasília. Na capital do poder, quelônios praticam arvorismo todo dia. Surgem trepados em galhos com tanta frequência e há tanto tempo que só pode ser por vontade própria. Apareceu outra tartaruga ninja na semana passada.
A Câmara dos Deputados aprovou em regime de urgência projeto de lei que praticamente inviabiliza a candidatura presidencial de Marina Silva (sem partido) em 2014. A pressa não teve nada a ver com a ex-petista aparecer no Ibope como o nome de maior potencial para enfrentar Dilma Rousseff (PT). Foi coincidência.
O projeto peemedebista é pura boa intenção. Cria barreiras à proliferação de nano-partidos que infestam o Congresso. Ao impedir que siglas recém-criadas ganhem tempo de propaganda graças à adesão de deputados eleitos por outra agremiação, quebra um ciclo vicioso. Acaba com barganhas por minutos de TV. De quebra, deixa Marina falando sozinha.
Foi com esse espírito desinteressado que peemedebistas, petistas e pessedistas se juntaram para aprovar o projeto. Não importa que o PSD tenha sido criado exatamente assim e hoje seja um pilar de sustentação do governo no Congresso. O que passou passou.
Nesta semana, tão desinteressadamente quanto seus colegas, tucanos, socialistas e anexos tentarão aprimorar o texto aprovado. Vão a voto suas propostas de jogar para 2015, ou quem sabe para 3015, a entrada em vigor da nova regra saneadora. Se por acaso se beneficiam diretamente do adiamento, o que podem fazer? O que é justo é justo.
O PSB também propõe excluir do projeto a distribuição do dinheiro vindo do Fundo Partidário. Afinal, os novos partidos só não são partido no nome. Nada mais de acordo com os ideais socialistas: se é seu, é meu, é nosso.
E assim, pensando apenas no bem comum, na coisa pública e nos princípios republicanos, nossos representantes rescrevem as leis do mundo. Às vezes, revogam até postulados matemáticos.
No ano passado, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou parecer favorável a projeto que transforma em crime punível com prisão a publicação de pesquisa eleitoral cujo resultado fique fora da margem de erro. E se a pesquisa foi divulgada dias antes da eleição? Cadeia. E se o eleitor mudou de opinião? Xilindró.
Os deputados querem obrigar o eleitor a escolher seu candidato até cinco dias antes da eleição, sem direito a mudar de ideia. Se mudar, é crime. Mas a culpa não é dele, é de quem ousar constatar que o eleitor pensava em votar de um jeito e passou a votar de outro. Esse sim é quem vai passar até um ano em cana e pagar R$ 1 milhão de multa. Resumindo: cala-te ou te prendo.
Os deputados agiram com a melhor das intenções, sem nem sequer cogitar que isso fosse uma forma de censura, muito menos de legislar em causa própria. É mero acaso que políticos processem institutos por atribuir às pesquisas – e não à vontade do eleitor – a falta de votos que os impede de vencer eleições.
Tampouco os deputados têm obrigação de saber que a margem de erro só faz sentido se considerado o intervalo de confiança no qual ela se insere. Nem que todas as pesquisas eleitorais divulgadas no Brasil adotam e divulgam um intervalo de confiança de 95% – o que significa que sabe-se de antemão que o resultado de 5 a cada 100 pesquisas estará fora da margem de erro. Segundo a CCJ, isso não é estatística, é fraude criminosa.
Uma legislação que os deputados ainda estão por aprovar é a que pune – não com cadeia, mas com inelegibilidade – a apologia do cinismo. Promoveria salutar renovação do Congresso.
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Enquanto presidenciáveis da oposição falam para empresários e públicos já catequizados, Dilma Rousseff (PT) acelera a própria sucessão. Transforma inaugurações em comícios, e pronunciamentos formais em discursos de campanha. O descompasso entre a velocidade da presidente e a lentidão dos opositores faz parecer que são eles e não ela a ostentar intenção de voto recorde.
Dilma têm 35% das intenções de voto espontâneas tanto no Ibope quanto no Datafolha. É uma taxa inédita para um presidente disputando reeleição a um ano e meio do pleito. Mas grande parte desses eleitores são cativos, declaram voto no candidato petista seja ele quem for. Partidários, aprovam qualquer gestão do PT.
É o que acontece com o prefeito paulistano Fernando Haddad, cujo saldo de aprovação com cem dias de mandato só não é maior do que o de outra prefeita petista de São Paulo: Marta Suplicy. Mas Marta não conseguiu se reeleger – porque o eleitorado cativo do PT nunca basta para um petista alcançar maioria absoluta.
A questão, portanto, não é quão intenso está ou não o apoio do terço de petistas ao seu candidato, mas qual a força da candidatura do PT nos outros dois terços do eleitorado -seja o brasileiro ou o paulistano.
Segundo o Datafolha, quase metade dos 35% de votos espontâneos de Dilma vem hoje de eleitores que se declaram petistas ou simpatizantes. É um fato contra o qual a oposição pode pouco.
O peso dos petistas no total dos que declaram voto em Dilma diminui quando a intenção de voto é estimulada. Isso ocorre porque mais eleitores não-petistas tomam conhecimento, pelo pesquisador, de quem são os candidatos e, a partir dessa informação, escolhem um nome. Se só conhecem ou ouvem falar do nome de Dilma, tendem a citá-lo com mais frequência.
Esse é o campo de manobra dos oposicionistas. Mas, para manobrar, os candidatos a presidente da oposição precisam se tornar conhecidos e ter um discurso com apelo às aspirações desses eleitores não-petistas. Por enquanto, nenhum presidenciável oposicionista encontrou seu público nem seu mote.
“Faremos uma campanha permanente de oposição clara ao governo do PT porque, para o Brasil, esse ciclo de governo do PT precisa e deve ser interrompido”, disse Aécio Neves (PSDB-MG), em seminário promovido pelo PPS na Câmara dos Deputados.
A frase joga a oposição ao futuro, como algo a ser feito. Antes tarde do que nunca. Mas ao chamar sua campanha de “permanente”, as palavras do candidato contradizem os votos do senador.
Nos dois primeiros anos de mandato, Aécio foi mais governista do que opositor nas votações nominais no Senado: votou com o governo 55% das vezes. Foi superado em “oposicionismo” por seis colegas da bancada tucana, mas em “governismo”, por apenas três. Não é das mais claras e permanentes demonstrações de oposição.
Aécio Neves mirava o governador Eduardo Campos (PSB-PE), um aliado que sobe em palanques com Dilma enquanto aguarda e torce por uma oportunidade para lançar-se em voo solo à Presidência. O governador de Pernambuco faz um discurso oposicionista que mais assopra do que morde, à espreita de uma crise econômica que ainda não chegou – e talvez não chegue em tempo para a sucessão.
As chances de Campos residem num fracasso claro de Dilma na área econômica. Não um fracasso de índices e indicadores, mas de percepção popular. Algo que seja sentido no bolso antes de ser propagandeado em campanhas de comunicação. Mas a eventual derrocada da presidente não poderia ser rápida e forte a ponto de ressuscitar um fantasma hoje esquecido: a volta de Lula.
O problema do governador de Pernambuco, portanto, não é apenas o timing da pressuposta crise econômica, mas também a sua intensidade. Ele não controla nenhum desses fatores e, portanto, sua candidatura será, se for, fruto apenas de oportunidade – salvo, é claro, a hipótese de Campos assumir um discurso frontalmente oposicionista e abrir mão das benesses federais.
Outra banda da oposição tenta fazer do tomate uma limonada. No desejo de provar a si mesma que o precipício econômico está logo ali em 2014, confunde preço alto com inflação. Na busca de um ícone popular para a crise ansiada, trocou o PIB pelo fruto.
O que corrói a renda são aumentos sucessivos de preços, não oscilações sazonais exorbitantes. Só será possível extrair sumo eleitoral do tomate se seu preço continuar a subir sem parar. E não basta ser só o tomate e a cebola. Tem que subir todo o resto do churrasco: a carne, o arroz, o pão. Tem que subir e não cair. Fora esse cenário, a piada com tomate já vem pronta e repisada.
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Um é o mais despreocupado do mundo com a economia, nunca teve tão pouco medo de perder o emprego e está confiante de que vai poder gastar mais. O outro desconfia do futuro econômico do país, teme por seu negócio e segura investimentos. Seria irrelevante se um não consumisse o que o outro produz. Raras vezes consumidores e empresários brasileiros divergiram tanto.
Esse desencontro de pontos de vista fica claro em uma série de indicadores e pesquisas divulgados ao longo dos últimos dez dias – todos eles positivos quando o pesquisado eram os consumidores, e todos negativos quando as respostas vinham dos industriais.
O descompasso entre oferta e demanda não costuma sair de graça. Quando há mais gente disposta a comprar e não há contrapartida na oferta de produtos, o mercado tende a subir preços. Se quem demanda tem renda maior do que costumava ter, a margem de manobra fica ainda mais favorável a quem controla a oferta, e os preços tornam-se especialmente altos, como no Brasil hoje.
Mas isso não tem afetado a disposição do consumidor de fazer o que aprendeu a fazer melhor: comprar. Em parte, porque o governo tem buscado compensar os aumentos de preços com redução de impostos e taxas. E também porque os salários continuam com poder de compra alto, apesar da inflação.
O índice de confiança do consumidor voltou a subir em março. Mais do que a retomada, o indicador calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra a sustentação do otimismo em patamares historicamente altos.
Pré-governo Dilma, só em dois momentos o INEC chegou aos níveis atuais: nos finais do primeiro e do segundo mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não é coincidência. A confiança do consumidor tem alta correlação com a popularidade do governante – sobem e caem juntas. Logo, não é de surpreender que o presidente busque manter o consumidor confiante quando se aproxima a eleição que decidirá quem vai sucedê-lo.
O INEC é um índice composto a partir de seis perguntas que medem a expectativa de inflação e do emprego, a satisfação com a renda atual e a perspectiva da renda futura, o grau de endividamento e os planos do consumidor de comprar bens de valores altos. Três desses fatores se correlacionam especialmente com a popularidade presidencial: os dois relativos à renda e o medo do desemprego.
Na semana passada, a CNI divulgou pesquisa mostrando que o medo do desemprego está no menor patamar da série histórica – em linha com o que mostram as taxas de desemprego. E os dois indicadores de renda que compõem o INEC só não têm performance melhor do que o do emprego. Essas são as chaves para entender a popularidade recorde da presidente Dilma Rousseff.
O brasileiro não considera mais o emprego e o salário suas principais preocupações na vida. Com a sobrevivência garantida, ele pode se ocupar de outras questões e eleger outras prioridades. Uma pesquisa feita em 56 países e divulgada na semana passada mostrou que, entre todos, o brasileiro é o mais despreocupado com a economia – a perfeita antítese do espanhol.
Indagado sobre quais os principais problemas do mundo (leia-se o mundo ao seu redor), só 14% dos brasileiros citaram problemas econômicos. A taxa não é apenas baixa, é ridiculamente baixa. O dobro de chineses, indianos e russos disseram que as questões econômicas são as que mais os preocupam.
Essa diferença entre o Brasil e os outros BRICS é a prova de que o crescimento do Produto Interno Bruto tem muito pouco ou quase nada a ver com o grau de satisfação da população. Por isso é do interesse da oposição trocar o disco – mesmo que o crescimento econômico do Brasil medido pelo PIB seja medíocre. Importante para o país, o índice é insignificante na eleição.
A mesma pesquisa global dá uma pista para os adversários de Dilma. O levantamento mostra o que mais causa preocupação no Brasil hoje: as drogas e a criminalidade – associadas ou não. Nada preocupa mais o brasileiro, e ninguém se preocupa tanto com esses problemas. Os brasileiros têm as maiores taxas de preocupação com drogas e crime entre os 56 países.
Na economia, o presidente tem todo o bônus quando acerta e todo o ônus quando erra. No combate ao tráfico de drogas, à epidemia do crack e na repressão à violência, a responsabilidade – aos olhos do público – é compartilhada entre todos os governantes: da prefeitura ao Planalto, passando pelos palácios estaduais.
O candidato de oposição que conseguir mostrar serviço nessas áreas terá agenda própria e um discurso pós-econômico. Se a economia piorar, como prevêem os empresários, ele se beneficiará junto com todos os adversários do governo, mas com a vantagem de não parecer ter torcido para que isso acontecesse.
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Tratada como remendo eleitoral, a reforma da política está se encaminhando para, na melhor das hipóteses, acabar num fetiche gregoriano: uma mexida de calendário para valer daqui a 10 anos. No pior cenário, a maior interessada, a sociedade, perderia o direito de saber quem financia quem no jogo político-eleitoral.
Depois de muitas reuniões inconsequentes, os líderes partidários concordaram que são incapazes de chegar a acordo sobre a pretensa reforma política. O impasse vai ser decidido no voto na próxima semana – se os nanicos deixarem. Caso os PRs e PSCs da Câmara permitam, os deputados devem votar um par de emendas à Constituição e um ou dois projetos de lei sobre o tema.
Presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) escreveu em seu Twitter que “coincidência de eleições municipais e federais no mesmo ano foi o ponto de maior consenso entre os líderes”. Por “maior consenso”, entenda-se menor dissenso.
Nem todos acham boa ideia dar seis anos – e não quatro – de mandato aos prefeitos que vierem a ser eleitos em 2016. Mas é o jeito para que todas as eleições passem a coincidir a partir do longínquo ano de 2022 sem que haja prefeitos-tampão ou, ainda pior, prorrogações de mandato sem consulta ao eleitor.
Sempre à frente de seu tempo, nossos representantes também divergem sobre a conveniência de incluir na mesma urna até oito votações diferentes: vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, dois senadores, governador e presidente. Tantas digitações requereriam aulas de piano para o eleitor.
Há quem proponha que a coincidência de eleições se limite ao ano. As votações ocorreriam em datas distintas: para presidente, senadores e deputados federais em – digamos – setembro, e para vereadores, prefeitos, deputados estaduais e governadores um mês depois. Brilhante e econômica solução.
Não importa que os custos sejam dobrados, ou que o segundo turno de uma eleição coincida com o primeiro turno da seguinte. Com quatro meses perdidos entre propaganda eleitoral, duas eleições e dois segundos turnos, daria para emendar todo o processo eleitoral com Natal, Copa do Mundo, Semana Santa, Carnaval e decretar um ano facultativo. Faria pouca diferença no Congresso.
Outra das emendas é daquelas inutilidades pomposas que os parlamentares se esmeram em aperfeiçoar: para não mais atrapalhar suas viagens de Réveillon, querem adiar a posse de prefeitos para 5 de janeiro, de governadores para 5 dias depois, e de presidente para o dia 15. A não coincidência de datas é para poderem ir às cerimônias e festas uns dos outros, é claro.
Depois que essas mudanças constitucionais de primordial importância forem votadas, os deputados finalmente poderão se dedicar ao que mais lhes preocupa: o dinheiro – ou como farão para financiar suas campanhas. O debate é se usarão mais do seu, do meu, do nosso, e se doações de empresas e pessoas continuarão sendo de conhecimento público ou se serão camufladas.
Ironicamente chamada de “financiamento público exclusivo”, a proposta petista que deve ir à votação prevê que todas as campanhas eleitorais sejam bancadas por um fundo único. Esse fundo receberia dinheiro do Tesouro Nacional e – a despeito do nome – de empresas e pessoas. O dinheiro seria dividido entre os partidos na proporção dos votos recebidos na eleição anterior. É o chamado fundo perdido.
O brilhantismo da proposta é acertar duas conveniências com uma penada só. Ao privilegiar três de cada quatro reais às campanhas de quem já manda, assegura-se grande vantagem aos incumbentes. Ao misturar tudo em um fundo só, ocultam-se as doações de empreiteiras, bancos e quem quer que seja aos candidatos.
Os partidos que têm as maiores bancadas parlamentares teriam também os maiores repartes financeiros, perpetuando-se no poder. Por mero acaso, o PT tem o maior número de deputados federais. Com as novas prefeituras ganhas em 2012, mais petistas devem eleger-se para a Câmara e Assembleias em 2014, o pleito que serviria de referência para o novo sistema. Muito conveniente.
Se sobrar tempo, os deputados devem votar uma proposta que – essa sim – poderia eliminar boa parte dos vícios que consomem o sistema partidário brasileiro: o fim das coligações nas eleições de deputados e vereadores. Sem esse artifício, partidos nanicos e partidos fisiológicos perderiam sua carona para o poder.
É coligando-se a outras siglas que os nano partidos garantem suas vagas na Câmara. Sem os votos dos coligados, o PSC elegeria 7 em vez de 16 deputados federais – e não teria peso para fazer o pastor Marco Feliciano tornar-se presidente da Comissão de Direitos Humanos. Mas, na lógica dos deputados, isso é menos importante do que dar um tapa no calendário eleitoral.
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Quando um candidato dispara tão na frente dos outros quanto Dilma Rousseff (PT), o risco é dar-se a corrida eleitoral por terminada antes de ela começar. Hoje a presidente é imbatível. Nunca antes na história eleitoral brasileira um incumbente abriu tanta distância dos outros presidenciáveis a tanto tempo da eleição. Há dois problemas embutidos nessa frase, porém.
A história eleitoral brasileira é curta. Só dois presidentes disputaram a reeleição. Saíram vitoriosos – é fato -, e um deles foi o presidente mais popular desde a redemocratização, mas não dá para criar uma teoria a partir de dois ou três casos apenas. A dimensão do feito de Dilma é notável, especialmente para um “poste”. Mas ter perspectiva é bom e conserva os saltos baixos.
A inédita vantagem de Dilma ocorre a um ano e meio da eleição. É mais provável que a vantagem aumente ou diminua até 2014? A presidente está em ascensão, mas ficou tão perto do teto que corre risco de bater a cabeça. Se ela oscilar do “excelente” para o “ótimo”, a manchete será “Dilma caiu”. O desempenho de Dilma na opinião pública é excepcional – o “timing”, nem tanto.
Se algo pode dar errado para Dilma, o que será? A popularidade da presidente está nas nuvens. O julgamento do mensalão ficou para trás. A economia começa a dar sinais de recuperação. Justamente.
Marqueteiro eleitoral da presidente, João Santana deve coçar a cabeça quando vê o ministro da Fazenda, Guido Mantega, projetar um crescimento de 4% do PIB brasileiro para 2013. Não por medo de que ele erre novamente, mas de que acerte.
Com os reservatórios das hidrelétricas do Sudeste 40% mais vazios do que a média histórica recente, o crescimento acelerado da indústria produziria uma demanda extra por eletricidade que pode não casar bem com o período de secas que se avizinha. Esgotar as represas em 2013 implica comprometê-las para 2014.
Se a economia logo começar a crescer mais depressa, antecipa-se o risco de descompasso entre oferta e demanda. Mais filas nos portos e aeroportos, atrasos nos suprimentos. Resultado plausível: preços sobem, pressionando ainda mais a inflação.
Excitação demais antes da hora costuma resultar em comemoração precoce. Por isso, por mais paradoxal que pareça, um pibinho pode ser melhor que um pibão em 2013 – se não para a presidente e o país, ao menos para a candidata. Há precedente. Mesmo com o PIB crescendo 0,9% em 2012, Dilma chegou onde está.
E como a candidata petista chegou tão longe? Por mérito próprio e ajuda dos adversários.
Dilma conseguiu uma coesão partidária em torno do seu nome de dar inveja a Aécio Neves (PSDB). Mantendo a popularidade alta e o consumidor confiante, ela liquidou as especulações sobre uma volta de Lula. O Ibope mostrou que o eleitor lulista também compreendeu isso e, nos últimos quatro meses, intensificou a migração para Dilma. Daí os 35% dela na pesquisa espontânea.
Uma série de anúncios televisivos com apelo popular, como corte de impostos da cesta básica e das tarifas de energia (a nuvem de palavras com a cara de Dilma que ilustra este texto reproduz o discurso presidencial), criou um clima de opinião favorável à presidente. Tanto faz a oposição chamar de populismo. As medidas miraram e acertaram no lugar certo: o bolso da maioria. Consumidor feliz, eleitor contente.
Como resultado, Dilma não só desceu ao patamar de desprezíveis 20% de rejeição, como transfere rejeição para os outros. É difícil crer que 1 a cada 3 brasileiros diga que não votaria de jeito nenhum em Eduardo Campos (PSB) para presidente quando o governador é desconhecido por 1 a cada 2 eleitores. Metade da rejeição a Campos são dilmistas rejeitando quem quer que seja.
Se Eduardo Campos aparecer sozinho na Praça da Sé, na Cinelândia ou até no Pelourinho, corre mais risco de ser assaltado do que assediado. O único lugar onde é reconhecido em São Paulo, Rio e Salvador é nos escritórios de grandes empresários. Pode vir a ser bom para o caixa da campanha, mas não dá voto.
Aécio está um degrau adiante. Compartilha a mesma taxa de rejeição, mas tem um potencial de voto duas vezes e meia maior que Campos. Ao contrário do presidente do PSB, porém, o mineiro não comanda seu partido. Para sua sorte, o Ibope confirmou que José Serra, com 50% de rejeição, é virtualmente inelegível.
Aécio e Campos se complementam eleitoralmente. Concorrendo um contra o outro, mas juntos contra Dilma, diminuem a vantagem da presidente. Mas eles precisam de mais nomes na cédula eletrônica para haver chance de segundo turno. Daí a importância de Marina Silva. A ex-petista divide a preferência de 4 a cada 10 eleitores potenciais de Dilma. É, hoje, quem mais pode tirar votos da presidente. Só lhe falta um partido.
Até 2014, a oposição tem que correr, se multiplicar e torcer para que, desta vez, Mantega acerte sua previsão sobre o PIB.
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Se todos os presidenciáveis tivessem o mesmo grau de conhecimento pelo eleitor, Dilma Rousseff (PT) continuaria franca favorita, mas, no PSDB, Aécio Neves alcançaria um potencial de voto equivalente ao de José Serra. O mineiro chegaria a 41% de eleitores que poderiam votar nele, contra 42% do paulista. É o que mostra pesquisa nacional sobre a sucessão de 2014 feita pelo Ibope a pedido do Estado.
“Apesar de os dois estarem tecnicamente empatados quando excluímos quem diz desconhecer os candidatos, Aécio teria mais espaço para conquistar novos eleitores”, diz Marcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência. O teto de Serra é mais baixo porque ele é conhecido por 86% do eleitorado e tem 50% de rejeição. Para Aécio, essas taxas são de 61% e 36%, respectivamente.
A rejeição a Serra aumentou muito desde abril de 2010, quando ele disputava a eleição presidencial pela segunda vez. Foi a última vez que o Ibope mediu o potencial de voto do tucano usando a mesma técnica empregada desta vez. À época, apenas 32% dos eleitores diziam que não votariam nele de jeito nenhum.
Quando se recalcula o potencial de voto excluindo-se aqueles que não conhecem os candidatos, todos os presidenciáveis ficam em uma mesma base comparável, como se fossem igualmente reconhecidos pelo eleitor – explica Marcia. Nesse cenário, Dilma chega a um potencial de 79%. Marina Silva (sem partido) fica em segundo lugar, com 50%. As taxas somadas superam 100% porque há eleitores que admitem poder votar em mais de um candidato.
Não por acaso, as duas candidatas têm a maior sobreposição de eleitores entre todos os nomes testados pelo Ibope. Nada menos do que 41% dos eleitores que dizem que votariam em Dilma falam o mesmo sobre Marina. Isso indica que a ex-senadora tem o maior potencial de crescimento caso a presidente perca popularidade.
Isso implicaria, entretanto, uma reversão da tendência do eleitorado. Dilma tem uma rejeição menor hoje do que tinha em abril de 2010, quando disputou a Presidência pela primeira vez. À época, 34% diziam que não votariam nela de jeito nenhum. Na atual pesquisa essa taxa está em apenas 20%.
Para a CEO do Ibope, só há duas hipóteses para a rejeição a Dilma aumentar: um descontrole da economia que possa ser sentido no bolso pelo eleitor, ou a eventual necessidade de racionamento de energia elétrica – como aconteceu em 2001 e afetou a avaliação do então presidente Fernando Henrique Cardoso.
“Não bastam indicadores econômicos ruins”, diz Marcia. Na sua opinião, seria necessário o eleitorado sentir uma perda de poder de compra provocada pelo descontrole da taxa de inflação, por exemplo, ou um inesperado aumento do desemprego. “As pessoas estão percebendo que têm oportunidades, pela facilidade de emprego e de crédito. Se isso não mudar, há pouco risco para a popularidade da presidente”, completa a pesquisadora.
A margem aberta por Dilma sobre seus adversários é inédita em uma corrida presidencial no Brasil quando o incumbente tenta se manter no cargo. Houve candidatos que começaram muito na frente e terminaram atrás, mas nunca um presidente. “Há um conjunto de notícias positivas, a percepção favorável do eleitor e uma consolidação alta”, enumera a diretora do Ibope.
Por isso – completa – os candidatos de oposição têm que crescer ainda em 2013 para manterem suas chances. Não é só a popularidade de Dilma que está no caminho deles. Também a Copa do Mundo de futebol tende a atrapalhar.
“No ano que vem tem férias, Carnaval e, logo em seguida, já vai começar o clima de Copa, dividindo a atenção do eleitor. Serão poucos meses úteis para que os candidatos apareçam na mídia e se tornem mais conhecidos”, adverte a CEO do Ibope.
O calendário é especialmente cruel com aqueles presidenciáveis que são menos conhecidos, como Eduardo Campos, do PSB. “Se deixar para mostrar a que veio apenas em agosto ou setembro de 2014, durante o horário eleitoral, não vai dar tempo de crescer. Ou começa a aparecer agora, ou vai ficar tarde”, diz Marcia.
Nunca é demais lembrar, entretanto, que esse é o cenário atual. “Os tetos e potenciais são dinâmicos: vão mudando à medida que os candidatos se tornam mais conhecidos e novos fatos vão se desenrolam”, ressalva a pesquisadora.
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José Roberto de Toledo
Daniel Bramatti
A presidente Dilma Rousseff larga na corrida para sua sucessão com um eleitorado espontâneo três vezes maior do que a soma de todos os seus adversários. Segundo pesquisa nacional do Ibope feita em parceria com o Estado, ela alcança maioria absoluta em todas as simulações de primeiro turno testadas e é a única entre os presidenciáveis com potencial de voto positivo: tem mais eleitores que admitem votar nela do que rejeitam essa hipótese.
Nunca houve uma candidata como Dilma – nem um candidato – na redemocratização. Desde 1989, nenhum presidenciável alcançou, a um ano e meio da eleição, 35% de intenção de voto espontânea – pesquisa na qual o eleitor diz em quem pretende votar sem que o entrevistador mostre ou diga quem são os candidatos.
Quando foram reeleitos, os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) só chegaram a essa taxa após a propaganda eleitoral na TV. Em março de 2006, a seis meses de reeleger-se, Lula tinha 27% na pesquisa espontânea. Em julho de 1998, três meses antes de sua reeleição, Fernando Henrique marcava 25% nesse tipo de pergunta.
Dilma é a candidata à reeleição mais precocemente bem sucedida entre todos os presidentes brasileiros: suas aparições na TV anunciando cortes de impostos e tarifas lhe renderam nove pontos a mais na pesquisa espontânea desde novembro do ano passado. Ela pulou de 26% para 35% em quatro meses. O fato é tão inédito que não há parâmetro histórico para saber se o fenômeno é duradouro.
Em boa parte, a vantagem comparativa de Dilma se deve à falta de outros candidatos com presença marcante na cabeça do eleitor. Adversária com maior potencial segundo o Ibope, Marina Silva (sem partido) tem apenas 2% de intenção de voto espontânea. Os tucanos José Serra e Aécio Neves têm 4% e 3%, respectivamente. Eduardo Campos (PSB) e Joaquim Barbosa têm 1%. Lula tem 12%.
O Ibope mediu o potencial de voto dos candidatos, que, a esta altura da campanha, é o melhor termômetro para avaliar a viabilidade de cada um. Dilma tem potencial de 76%. É a soma dos 52% que dizem que votariam nela com certeza com os 24% que poderiam votar. Como outros 20% não votariam nela de jeito nenhum, a presidente tem um saldo positivo de 56%. Ninguém afirmou desconhecer a presidente.
Marina fica zerada no potencial de voto: enquanto 40% dizem que votariam nela com certeza (10%) ou poderiam votar (30%), outros 40% afirmam que não votariam na ex-senadora de jeito nenhum. Ela é desconhecida por 19% do eleitorado. Todos os outros cinco presidenciáveis testados estão, por ora, com saldo negativo.
Aécio tem 25% de eleitores que votariam ou poderiam votar nele hoje, contra 36% que rejeitam seu nome: saldo negativo de 11 pontos. Já Eduardo Campos tem saldo negativo de 25 pontos: 10% admitem votar nele contra 35% que não votariam de jeito nenhum. Em favor de ambos, uma grande parte dos eleitores não os conhece o suficiente para opinar: 39% desconhecem Aécio; 54%, Campos.
José Serra (PSDB) é o caso oposto. Duas vezes derrotado na eleição presidencial, o tucano só é desconhecido por 14% dos eleitores brasileiros. Apesar de reconhecido, seu saldo é negativo em 15 pontos: 35% admitem poder votar nele, contra 50% que afirmam que não votariam de jeito nenhum. Ao contrário dos outros nomes da oposição, Serra tem pouco espaço para crescer.
A alta rejeição de Serra e o baixo conhecimento dos nomes dos demais oposicionistas tornam as simulações do que seria a eleição de 2014 mais favoráveis para Dilma, por enquanto.
As taxas de intenção de voto estimulas da presidente variam de 53% a 60%, de acordo com o número de presidenciáveis na disputa. A comparação dos três cenários testados pelo Ibope revela que quanto mais candidatos estiverem no páreo, maior a probabilidade de segundo turno. Mesmo assim, se a eleição fosse hoje, a maior chance seria de que Dilma se reelegesse no primeiro turno.
Num cenário “todos contra todos” que inclui sete candidatos, inclusive dois que, hoje, estão no mesmo partido, Dilma chega a 53% do total de intenções de voto contra 33% da soma de seus adversários: 12% de Serra, 8% de Marina, 7% de Aécio, 3% de Joaquim Barbosa (presidente do STF), 2% de Campos e 1% de Fernando Gabeira (PV). Outros 6% dos eleitores anulariam ou votariam em branco, e 8% não souberam responder.
Num segundo cenário, com apenas quatro presidenciáveis, Dilma vai a 58% das intenções de voto, contra 12% de Marina, 9% de Aécio e 3% de Campos. A presidente ganharia cinco pontos em comparação ao cenário “todos contra todos”, enquanto a soma dos rivais perderia nove pontos.
Se Eduardo Campos não fosse candidato, Dilma iria a 60% do total de votos, enquanto Marina ganharia um ponto e passaria a 13%, e Aécio permaneceria com 9%.
Segundo Marcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência, “esta pesquisa tem o menor índice de eleitores que não sabem dizer espontaneamente em quem votar a esta altura da sucessão presidencial. Isso se deve à alta aprovação de Dilma, e à exposição que ela ganhou pela força do cargo. Mas há espaço e tempo até a eleição para outros candidatos se tornarem mais conhecidos e melhorarem ou não sua posição na pesquisa.”
O Ibope entrevistou face a face 2.002 eleitores em 142 municípios de todas as regiões do Brasil entre os dias 14 e 18 de março. A margem de erro é de dois pontos porcentuais, para mais ou para menos.
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A maior parte dos brasileiros (38%) acha que o noticiário foi mais favorável à presidente Dilma Rousseff nos últimos três meses. Pela primeira vez desde que ela tomou posse essa fatia é maior do que a dos que consideram que houve mais notícias neutras (34%) ou negativas (17%). Dilma não é popular só por causa disso, mas a comunicação ajudou a presidente.
Das dez notícias mais lembradas pelos brasileiros nos últimos três meses, apenas uma (aumento do preço da gasolina) foi francamente negativa para o governo – e mesmo assim, foi citada por apenas 3% das pessoas.
A grande maioria foi de boas notícias para Dilma: redução da tarifa de energia elétrica, corte de impostos da cesta básica, aumento do salário mínimo, e a presença solidária da presidente em eventos trágicos, como o incêndio em Santa Maria, ou notórios, como a despedida do papa e o enterro de Hugo Chávez.
Isso mostra que a comunicação presidencial está mais ativa, seja criando fatos positivos – como o anúncio em cadeia de TV do corte de impostos da cesta básica -, seja aproveitando bem as oportunidades que aparecem. É mais um sinal de que a campanha eleitoral de 2014 começou e com força, ao menos para Dilma.
Comunicação é o que as pessoas entendem, não o que quem falou pensa ter dito. Por enquanto, o governo está dando um banho na oposição nesse quesito. O anúncio da redução da tarifa de eletricidade, por exemplo, foi cinco vezes mais lembrado do que o noticiário sobre o pibinho. Talvez porque um afete diretamente o público, e o outro não.
Não por coincidência, o único segmento social onde a popularidade de Dilma aumentou foi entre os mais pobres, justamente aqueles que mais se beneficiam do aumento do salário mínimo e da prometida redução do preço dos alimentos e da energia.
Nada garante que o vento continue soprando a favor de Dilma até a eleição, mas é mais fácil navegar uma tendência do que revertê-la. Esse é o desafio da oposição.
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