O senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) apresentou uma defesa aritmética à Comissão de Ética que julgará a sua suposta falta de decoro. Para convencer os colegas de sua relação com o preso Carlinhos Cachoeira não era especial, Demóstenes disse que seu gabinete originou 26 mil chamadas telefônicas e ele teria recebido 100, 200, 500 mil ligações. Logo, as centenas de conversas entre o doutor e o professor -como se tratavam- eram proporcionalmente poucas. Para completar, o senador disse que queria ser julgado pelo que fez, não pelo que disse. Faz sentido.

Se, como ele diz, foram 500 mil chamadas atendidas, e cada uma demorou, em média, um minuto, Demóstenes teria passado 8.333 horas colado ao bocal do telefone. Como o senador não especificou o período em que isso ocorreu, vamos estimar que tenha sido nos últimos dois anos, o que coincide e supera o período das investigações a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, quando foram “grampeadas” as conversas dele com Cachoeira.
Por essa conta, Demóstenes teria que ter passado quase 12 horas por dia -sábados, domingos e feriados, inclusive- apenas recebendo as tais 500 mil ligações. Se assim fosse, o senador não teria tido tempo de fazer mais nada além de falar ao telefone. Logo, se seu pedido de ser julgado pelo que fez e não pelo disse for atendido, Demóstenes seria automaticamente absolvido. Não sobraria mais nada para incluir no processo.
O único problema da matemática Demosteneana é o seu confronto com a realidade. Nesse período, o senador deu centenas de entrevistas, compareceu ao plenário do Senado com assiduidade, viajou com regularidade de Brasília a Goiânia, de Brasília a Santa Catarina e a São Paulo. Deu palestras, fez lobby. Foi a Praga, a Buenos Aires, a Berlim. Almoçou, jantou, dormiu. Seria, portanto, impossível para o senador fazer tudo isso e atender 500 mil chamadas, ou mesmo 100 mil. Tampouco fazer, ele próprio, outras 26 mil ligações. É blablablá demais para uma pessoa só, mesmo um político.
As conversas de Demóstenes com Cachoeira não eram apenas muito frequentes. Sua linguagem cifrada implicava um conhecimento intimamente compartilhado dos assuntos tratados. Nunca precisavam explicar um ao outro do que estavam falando. Um papo engatava no outro com a cumplicidade típica de quem comunga interesses, conhecidos, problemas, favores, pedidos, demandas e ações. Uma associação proveitosa, enquanto durou.
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Faltam 15 milhões de árvores nas cidades brasileiras. O número é estimado a partir da pesquisa de indicadores urbanos divulgada na sexta-feira pelo IBGE. Parece uma floresta, mas é um capão se comparado ao que as motosserras cortam por ano. Desde 2002 foram derrubadas mais de 2,6 bilhões de árvores na Amazônia brasileira. Os 15 milhões que faltam nas cidades é 0,6% dessa devastação, as árvores cortadas a cada 19 dias. É pouco em proporções amazônicas, mas plantá-las transformaria radicalmente a paisagem urbana do Brasil -e a sorte de alguns milhares de prefeitos.
Os recenseadores do IBGE anotaram dez melhoramentos urbanísticos que havia (ou faltava) na frente de cada domicílio urbano brasileiro. A arborização é um deles: diminui as ilhas de calor ao regular o microclima local, conserva o asfalto, retém água da chuva e captura carbono da atmosfera. E isso sem contar os benefícios indiretos que o plantio de árvores requer e provoca.
Dois em cada três moradias brasileiras já desfrutam de uma árvore próxima à sua fachada. O terço que falta corresponde às 15 milhões de árvores que precisariam ser plantadas. O problema é mais grave nos 25% dos municípios brasileiros onde menos da metade dos domicílios têm arborização à porta. Candidatos a prefeito dessas 1.412 cidades poderiam inovar no seu slogan de campanha: um voto para cada árvore plantada. Definir a arborização como “a” prioridade de um governo pode soar como blague. Não é.
Quando Paul O’Neill assumiu o comando da Alcoa, a gigante mundial do alumínio perdia clientes e lucratividade. Foi com esperança que investidores encontraram o novo CEO, em outubro de 1987, para ouvir seus planos. Mas a estupefação tomou o salão quando O’Neill, um ex-burocrata governamental, anunciou sua maior prioridade: “Pretendo fazer da Alcoa a empresa mais segura dos Estados Unidos. Acidente zero”. Nenhum blá do blablablá tradicional sobre “sinergia”, “redução de custos” e “maximização de lucros”. A estupefação virou venda desenfreada de ações. Foi um mau negócio para quem vendeu.
Um ano depois, o lucro da Alcoa já batia recordes. Quando O’Neill se aposentou, em 2000, o faturamento líquido da empresa era cinco vezes maior do que quando ele lançou a política de “acidente zero”. Quem comprara as ações dos estupefatos investidores em 1987 tinha visto seu investimento quintuplicar de valor em 13 anos, além de embolsar em dividendos um dólar para cada dólar investido. A história está em “The Power of Habit”, lançado este ano pelo jornalista Charles Duhigg, do The New York Times.
E tudo isso aconteceu só por causa da redução dos acidentes de trabalho? Não. O’Neill usou uma meta que todos os milhares de funcionários entenderam (acidente zero) para revolucionar a produção e o gerenciamento da Alcoa. Ele promoveu uma mudança de hábitos. Para ter zero acidentes, peões, gerentes e executivos precisaram, por exemplo, se comunicar melhor.
“Eu tinha que transformar a Alcoa, mas não podia simplesmente mandar as pessoas mudarem. Não é assim que o cérebro funciona. Por isso decidi focar em uma coisa. Se conseguíssemos quebrar os hábitos em torno dessa coisa, isso se espalharia através de toda a empresa”, explicou O’Neill a Duhigg. Do mesmo modo que zerar os acidentes transformaram a Alcoa, plantar árvores tem o potencial de mudar o jeito que as prefeituras e prefeitos trabalham.
Arborizar não é caro. Entre muda e plantio, cada nova árvore sai por R$ 300 na cidade de São Paulo. Estudos acadêmicos -um feito em Curitiba e outro na Esalq-USP- chegaram a valores semelhantes. Plantar as 828 mil árvores que faltam nas ruas paulistanas, por exemplo, custaria menos de R$ 250 milhões -uma fração do que o prefeito Gilberto Kassab (PSD) guardou para investir no ano de sua sucessão. O problema não é dinheiro. É hábito.
Para plantar uma árvore, é preciso que a rua esteja pavimentada, que a calçada e o meio-fio existam. Ou seja, a urbanização precede o plantio. Se um prefeito impuser a meta de zerar o déficit de árvores de sua cidade, terá que melhorar a urbanização junto. Duas cidades brasileiras têm 100% de ruas pavimentadas, com calçadas, meio-fio e uma árvore na frente de cada casa. Poderiam ser 5.565. Custa R$ 4,5 bilhões e novos hábitos.
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PS: Após a publicação deste texto, o secretário municipal do Meio Ambiente de São Paulo, Eduardo Jorge, enviou a seguinte nota:
“Nos últimos sete anos a cidade de São Paulo ganhou 1.480.879 novas árvores. O plantio anual pulou de uma média histórica de 20 mil a 25 mil para 200 mil já em 2009.
2005 = 37.855 novas árvores
2006 = 168.576 novas árvores
2007 = 172.988 novas árvores
2008 = 185.164 novas árvores
2009 = 202.949 novas árvores
2010 = 541.043 novas árvores
2011 = 172.304 novas árvores”
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Boa dose das decisões políticas é gestada no fígado. Para muitos eleitores, mais grave do que não eleger seu candidato preferido é ver um político que odeia ganhar a eleição. Votam em adversário “menos pior” para evitar mal maior. A decisão sugere pragmatismo, mas é difícil precisar onde termina o raciocínio e começa a racionalização -a justificativa lógica construída após o ato feito. O voto útil nasce pingando bile.
É mais comum do que gostamos de admitir. Basta lembrar das tardes de domingo. Quantas vezes cada um de nós ouviu um grito de prazer escapar da janela do vizinho -quiçá da nossa- quando o time rival toma um gol? Imperativos fazem coro com expletivos e saturam o ar de animosidade. O futebol se alimenta de paixões devotas e ódios consagrados. Com a política é igual. Saem as janelas e estádios, entram as redes sociais e blogs.
Por isso não convém menosprezar o poder do ódio nas eleições. De tão decisivo, tornou-se presença obrigatória nas pesquisas de intenção de voto. Foi revestido de circunstância para soar menos cru. A pergunta clássica nos questionários é: “Em quais destes candidatos você não votaria de jeito nenhum?”. A causa subjacente às respostas é ojeriza, repulsa, antipatia, mas pode chamar de rejeição.
É muito difícil um candidato ganhar as graças do eleitorado. Mais difícil do que isso, só livrar-se da bile eleitoral. Uma vez impregnada, não sai nem lavando. A rejeição é persistente como um pernilongo. Podemos não lembrar por que sufragamos este, mas não esquecemos a razão pela qual não votamos naquele. O eleitor amadurece e envelhece abraçado ao seu rancor (apud João Antônio).
A rejeição pode inviabilizar políticos famosos e populares. Em São Paulo há casos notórios. O mais recente é de Marta Suplicy.
A petista começa quase toda eleição que disputa como favorita. Foi assim nas brigas pela prefeitura em 2000 e 2008, e na corrida por uma das duas vagas no Senado em 2010. Marta sai na frente, mas raramente termina em primeiro lugar. Elegeu-se senadora atrás de Aloysio Nunes (PSDB), e perdeu no segudo turno para José Serra (PSDB) em 2004 e para Gilberto Kassab (então no DEM) em 2008. Culpa da rejeição.
Antes dela, houve Paulo Maluf (PP). Até desencantar nos pleitos majoritários, Maluf tentou ser prefeito, presidente, governador. Por mais eleitores que tivesse, sempre era barrado pela rejeição dos demais. Em 1992, quando conseguiu vencer um segundo turno, pareceu ter iniciado um novo ciclo. Mas a maré não durou e o ex-prefeito nunca mais ganhou um mata-mata. A rejeição voltou dobrada.
Como a bile eleitoral vai influir na disputa para prefeito de São Paulo? A pesquisa Ibope mostra que, por ora, Serra é o mais rejeitado pelos eleitores de 7 dos outros 9 pré-candidatos. Ao menos metade dos eleitores de Celso Russomanno (PRB), Paulinho da Força (PDT), Netinho (PC do B), Gabriel Chalita (PMDB) e até de Soninha (PPS) dizem que não votaria em Serra. Quando elegeu-se prefeito de São Paulo, em 2004, Serra tinha apenas 15% de rejeição (Datafolha). Hoje, segundo o Ibope, 35% dos paulistanos dizem que não votariam no tucano de jeito nenhum.
Por causa da rejeição, Serra está mais perto de seu teto de votos do que seus adversários diretos. Teria menos chance que os demais de ganhar novos eleitores caso um dos seus adversários desistisse. Esse é o risco de largar muito na frente quando se é tão conhecido quanto ele e a rejeição é alta: há mais espaço para cair do que para subir.
As próximas pesquisas mostrarão se a trajetória do tucano será igual à de 2004, quando largou no patamar em que está hoje, subiu e terminou o primeiro turno com 10 pontos a mais do que quando começou a campanha, ou se repetirá Geraldo Alckmin (PSDB) em 2008, que também começou com cerca de 30% de intenção de voto, foi caindo, caindo e terminou quase com metade do cacife inicial. Tudo vai depender dos adversários com menos rejeição, se eles conseguirão sair do anonimato.
Para Fernando Haddad (PT), a única vantagem de ser tão desconhecido é que a maioria dos eleitores de outros candidatos não sabe quem ele é e, por isso, não pode rejeitá-lo. Mas essa taxa vai crescer à medida que mais gente descobrir que Haddad é o candidato do PT. Ele terá mais facilidade de assimilar a rejeição do partido do que ganhar a confiança de seus eleitores. Conquistar o voto depende de competência, o ódio vem por inércia.
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Muito antes que alguém formulasse o chavão -informação é poder-, o poder já controlava a informação. Desde sempre e o quanto fosse possível. Para perpetuar-se, esse controle foi se adequando às mudanças sociais e às novas tecnologias. Enquanto ninguém sabia ler e não havia meios de comunicação de massa, perdurou o monopólio da informação, por milênios. Após Gutemberg, o poder institucionalizou a censura. E quando a censura se incompatibilizou com a democracia, o poder carimbou o que interessava esconder como segredo de estado -ou, mais eficiente ainda, enterrou a informação nos escaninhos da burocracia.
A beleza da Lei de Acesso às Informações Públicas (Leinfo) que -com 40 anos de atraso- entra em vigor nesta quarta-feira no Brasil é que ela inverte as regras do jogo. Até agora, cabia ao cidadão descobrir ou imaginar quais informações de interesse público estavam em poder do estado e pedir aos seus agentes que as publicassem. Se esses agentes se recusassem a fazê-lo ou simplesmente ignorassem o pedido, nada lhes acontecia. Bastava, portanto, esconder o documento que interessava no meio de um milhão de pilhas de documentos desinteressantes. Não mais.
A Leinfo obriga a publicidade de tudo. A iniciativa de divulgar -ou ao menos a sua obrigação- passou a ser do estado. Para assegurar o cumprimento desse dever, a Leinfo deu à sociedade civil o poder de cobrar. O burocrata que contrariar a lei está sujeito a punição. Ele tem prazo de até 30 dias para atender os pedidos de informação.
A muleta do segredo de estado também foi encurtada. Os limites do que pode ser sigiloso estão previstos na Leinfo. Mais importante: cada órgão que carimbar “sigiloso” em um documento terá que divulgar sua lista de documentos secretos, as justificativas e o prazo de duração do sigilo.
É fato que boa parte da lei ainda está sujeita a regulamentação e que muitas dúvidas sobre seu alcance precisarão ser arbitradas pela Justiça. Mas a sociedade brasileira pode e deve comemorar uma conquista que os norte-americanos desfrutam há mais de quatro décadas. Só pode comemorar porque mobilizou-se para isso.
A Leinfo é de iniciativa do governo federal porque assim manda a legislação brasileira. Por criar novas despesas, não poderia ter sido proposta pelo Legislativo. Foram necessários anos de lobby junto ao Congresso e ao Planalto para que a Leinfo saísse. Esse lobby do bem foi coordenado pelo Fórum de Acesso às Informações Públicas, uma paupérrima entidade sem fins lucrativos que une 25 organizações da sociedade civil, como OAB, Associação dos Juízes Federais, Movimento do Ministério Público Democrático, Federação Nacional dos Jornalistas e Associação Nacional dos Jornais.
Duas entidades capitanearam a formação do Fórum e o lobby pela Leinfo: Transparência Brasil e Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). Dentro delas, duas pessoas lideraram o processo: Claudio Weber Abramo e Fernando Rodrigues. Sozinhos, eles não teriam conseguido nada, mas sem eles a lei muito provavelmente não entraria em vigor hoje.
O acesso às informações públicas é uma batalha permanente e coletiva. Vencê-la depende de pressão da sociedade por transparência sobre todos os níveis de governo -do federal às menores prefeituras- e esferas de poder: Congresso, assembleias, câmaras municipais e tribunais. Informação ainda é poder, e controlá-la continua sendo uma ambição dos poderosos.
Como tem feito há milênios, o poder vai se adequar às novas regras. Aliás, já vem fazendo. Criaram-se dezenas de páginas de “transparência” com final “.gov” na internet. A Controladoria Geral da União arejou o acesso a uma parte importante das informações de interesse público. Mas não é hora de a sociedade relaxar.
O poder não vai abrir de mão do controle da informação. Contraria sua natureza. Em vez de omitir, esconder e censurar, o mais provável é que os descontentes com a transparência embolem bilhões de dados em formas e formatos incompreensíveis. Daí a necessidade crescente de ferramentas de análise e visualização de informações brutas, como o Basômetro, desenvolvido pelo Estadão Dados.
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A maioria dos partidos brasileiros sofre de “caudismo” crônico. A divergência entre seus deputados é tão grande que a cauda formada pelos dissonantes é mais pesada do que o corpo partidário. Se fossem répteis, essas siglas seriam serpentes. A dispersão dos votos dos deputados de um mesmo partido começa no mais desapegado governismo e termina em destemida oposição. Pode significar tudo, menos coesão ideológica.
O caso mais extremo de “caudismo” é o do PSD, que foi pensado para ser assim. Seu fundador definiu o PSD como um partido que não está nem à direita, nem à esquerda, nem no centro. Proféticas palavras. Quântico, o PSD está em todo lugar ao mesmo tempo. E não está sozinho. O “caudismo” não tem lado. Vai da oposição à base governista, do DEM ao PDT, do PPS ao PR, passando por PP e PV.
O Basômetro, desenvolvido pelo Estadão Dados, revela que a taxa de governismo da bancada do PSD na Câmara está em 86%. Mas um único número não traduz o comportamento dos pesedistas. Essa taxa embute um desvio padrão que é sete vezes maior do que o do PT, o mais coeso dos grandes partidos. O governismo do PSD varia dos 95% de votos pró-Dilma de João Lyra (AL) até os 36% de Nice Lobão. A independente deputada maranhense é mulher de Edison Lobão, ministro das Minas e Enegia.
Nice Lobão não está sozinha no lado oposicionista do PSD: 7 deputados do partido votaram mais vezes contra o líder do governo na Câmara do que seguiram sua orietanção. Na outra ponta, oito pessedistas obedeceram o governo em mais de 90% das vezes. E o resto dos deputados do partido ficou no meio do caminho, entre um extremo e outro, sem deixar espaço vazio no espectro de governismo. O corpo de votos tem o formato de uma cauda.
O fenômeno se explica pela origem dos deputados do PSD. Eles foram eleitos por outras legendas, e só se juntaram na nova sigla em outubro do ano passado. Os que emigraram do PMDB, do PR e do PTB, como João Lyra, carregavam na bagagem de votações uma alta taxa de governismo. Já os que vieram do DEM, como Nice Lobão, tinham um passado oposicionista.
Depois que o PSD formou sua bancada na Câmara, o comportamento de seus deputados tornou-se majoritariamente governista, votando quase sempre de acordo com a vontade de Dilma. Nas 26 votações nominais ocorridas entre outubro e dezembro do ano passado, a taxa de governismo do PSD foi de 97%: 45 dos 48 deputados do partido votaram com o governo em mais de 90% das vezes. Mas isso mudou no começo deste ano.
Desde fevereiro, aumentaram os votos oposicionistas do PSD. Só sobraram dois pessedistas no “núcleo duro” do governo na Câmara. Na média, a taxa de governismo do PSD caiu de 97% para 68%. A causa dessa mudança de comportamento é a eleição municipal. Em fevereiro, o presidente do partido, Gilberto Kassab, trocou a aliança com o PT em São Paulo pelo apoio a José Serra, do PSDB. A troca de aliado refletiu-se em outras cidades.
Seria injusto dizer que o PSD inventou o “caudismo”. Ele só aperfeiçou-o. Tome-se o partido de onde migraram mais pessedistas, o DEM. Nas 53 votações nominais anteriores à defecção de seus parlamentares para o PSD, o DEM tinha uma taxa média de governismo de apenas 22%. Só 4 de seus 43 deputados tinham votado mais de metade das vezes com o governo. Desde então, o governismo do DEM subiu para 29%, e 5 demistas deram mais de 50% dos seus votos para Dilma. Um deles, Lael Varela, é um renitente membro do “núcleo duro” do governo: tem 100% de votos pró-Dilma em 2012.
É tentador identificar o “caudismo” como um reflexo do comportamento caudatário que a maioria dos partidos tem em relação ao governo. Afinal, apenas 4 das 23 legendas com representação na Câmara podem dizer que fazem oposição a Dilma. Na média, suas bancadas votaram mais de metade das vezes contra o governo em 98 votações nominais: PSDB (78% de oposicionismo), DEM (74%), PSOL (72%) e PPS (66%).
Mas enquanto PSDB e PSOL são razoavelmente coesos nos votos de seus deputados, os outros dois sofrem de “caudismo”. Entre os deputados do PPS, a taxa de governismo varia dos 25% de Roberto Freire (SP) a mais do que o dobro disso, como é o caso de Almeida Lima (SE), que votou mais vezes com o governo do que contra ele. O desvio padrão dos votos da bancada do PPS é 26% maior do que a dos tucanos, por exemplo.
Não é coincidência que PT e PSDB, os partidos que polarizam a política brasileira há 18 anos, estejam entre os mais coesos. Nem que PSB e PMDB, que buscam romper essa polarização, rivalizem com eles em coesão.
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A eleição paulistana tem dez candidatos, mas só duas candidaturas e meia. Com 31% no Ibope, José Serra (PSDB) catalisa, por ora, o eleitorado anti-petista. A outra candidatura é a do PT, mesmo que só 3% do eleitorado declare voto em Fernando Haddad por enquanto. O PT tem a simpatia de 31% do eleitorado paulistano e nunca ficou fora de um segundo turno na cidade. A terceira candidatura está em fase de projeto: há espaço, mas falta um nome. Oito candidatos tentam ser o tertius, a alternativa à bipolarização tucano-petista. Juntos, os oito têm 44% de intenção de voto estimulada.
A pesquisa Ibope dá pistas de quem tem mais chances de ser a terceira via da eleição paulistana. Mais importante do que a intenção de voto nesta fase fria da campanha, é o potencial de crescimento. E isso depende de uma baixa rejeição dos eleitores e de mais oportunidade de exposição quando a campanha chegar à TV.
À esta altura, quando 4 em cada 5 eleitores não têm o nome de nenhum dos candidatos na ponta da língua, as intenções de voto são mais um exercício de memória do que a decisão definitiva do eleitor. Hoje, a pesquisa espelha o grau de conhecimento do eleitorado sobre os candidatos. É algo que tende a mudar muito à medida que a propaganda se intensificar e a eleição se tornar uma preocupação real para os eleitores.
Entre os candidatos a tertius, Celso Russomanno (PRB) é o mais conhecido. Tem 16% no Ibope, mas bateu no teto e lhe falta tempo de propaganda eleitoral. Ele é alavancado pela exposição constante na TV, especialmente na Record, onde trabalha. Mas a partir de 10 de junho -manda a lei- Russomanno não poderá mais apresentar seu quadro de defesa do consumidor. Para ele se manter com chances, precisaria se aliar a partidos que têm muitas inserções na TV. Está difícil.
Netinho de Paula (PC do B) também deve seus 8% no Ibope à TV. Na eleição para senador, ele largou bem, mas perdeu terreno à medida que a rejeição a seu nome aumentava. Desta vez, será obrigado a se afastar dos programas televisivos sem a contrapartida da propaganda eleitoral que a aliança com o PT lhe garantiu dois anos atrás. É um caso semelhante ao de Russomanno, agravado por uma rejeição três vezes maior: 38%, contra 13% do rival.
Por sua origem petista, Soninha (PPS) teria chances de se viabilizar como terceira via pela esquerda. Mas a aliança do PPS com o PSDB em São Paulo, além de sua participação pessoal no mal-avaliado governo do prefeito Gilberto Kassab (58% desaprovam), fragilizam o discurso oposicionista. Soninha tende a ficar espremida pela candidatura de Serra. Também lhe falta tempo de propaganda. A seu favor, é a única mulher na disputa.
Na terceira via, Gabriel Chalita (PMDB) tem o maior potencial. Sua rejeição (11%) é a mais baixa. Ele patina em 6% de intenção de voto desde janeiro, mas tem algo que nenhum outro candidato a tertius tem: tempo de TV. Como Haddad, o peemdebista dependerá de um bom desempenho na TV. Sua missão é duplamente difícil: em 45 dias de horário eleitoral, precisará se firmar como terceira via e suplantar uma das candidaturas supostamente favoritas.
Se chegar ao segundo turno, Chalita tem potencial para roubar votos de Serra ou de Haddad. Pode posar de aliado tanto de Dilma Rousseff (PT) quanto de Geraldo Alckmin (PSDB). O difícil é chegar lá.
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O mundo nunca foi tão adolescente. A cada quatro terráqueos, um tem entre 10 e 24 anos. São 1,8 bilhão de pessoas nessa idade especial. Mas desde quando um marmanjo de 24 anos é adolescente? Num passado recente não era, mas passou a ser -ou melhor, não deixou de ser. E isso pode virar um problema. Segundo a revista científica “The Lancet”, a adolescência vem espichando a cada geração, nas duas pontas: a puberdade chega mais cedo, e a maturação do papel social dos jovens ocorre cada vez mais tarde.
Basta observar como tem avançado a idade média dos jovens ao terminar os estudos, com que conseguem seu primeiro emprego fixo, quando se casam, e com que as mulheres se tornam mães. Todos esses marcos do fim da adolescência foram adiados nas últimas gerações. As repercussões sociais dessa mudança são maiores do que nos damos conta. Daí o dossiê da “The Lancet”.
A palavra “adolescente” deriva do latim “adolescere”, que significa “crescer”, “desenvolver-se”. Adolescente é quem está crescendo, e adulto, quem já cresceu, já se desenvolveu. Mas o crescimento não se mede pelo número do sapato nem pelo comprimento da barra da calça ou da saia. É uma questão de amadurecimento, de andar com as próprias pernas sem a muleta dos pais.
A adolescência começa quando os hormônios da puberdade mudam a fisiologia e a fisionomia das crianças. É uma revolução que transforma todo o corpo, com repercussões do comportamento à capacidade cognitiva do cérebro. Jovens púberes, por exemplo, tendem a questionar regras, buscar novas experiências e tomar atitudes de risco com mais frequência que os impúberes.
O coquetel hormonal em ebulição tem impactos diretos sobre a mortalidade. O gosto por arriscar-se faz com que os adolescentes estejam entre as principais vítimas das mortes violentas. Se a adolescência se prolonga, a chance de sucumbir aos seus efeitos também. Nas últimas décadas, o mundo conseguiu reduzir drasticamente a morte na infância. Mas os avanços na redução da mortalidade de adolescentes foram bem menos impressionantes. O Brasil não é exceção.
De 1996 a 2010, as mortes de crianças brasileiras com menos de cinco anos caíram praticamente à metade, de 88 mil para 47 mil por ano. A taxa de mortalidade por 100 mil habitantes dessa faixa etária regrediu quase na mesma proporção. Já as mortes e a mortalidade de adolescentes de 10 a 24 anos permaneceram estáveis. Em 2008, pela primeira vez na história do Brasil, morreram mais adolescentes do que crianças. E a tendência só se acentuou desde então.
Nesses 15 anos, as mortes por causas naturais diminuíram, e as violentas aumentaram. Morreram mais adolescentes brasileiros por tiro e acidentes de carro e moto, e menos por doenças infecciosas como Aids, ou por problemas cardíacos. Foram e continuam sendo vítimas de causas de morte evitáveis, que podem ser amainadas por políticas públicas. Esse não é o único impacto sobre a longevidade. É na adolescência que se formam os hábitos alimentares que vão influenciar a saúde pelo resto da vida.
A adolescência tardia também tem consequências positivas, principalmente econômicas. A extensão do período sob o mesmo teto dos pais permite aos adolescentes permanecerem mais tempo na escola. Por isso as novas gerações têm potencial para formarem a força de trabalho mais qualificada que o Brasil já teve, com impactos positivos sobre a produtividade e a renda. Mas para esse potencial se concretizar é preciso que haja oportunidades de emprego compatíveis com essa escolaridade mais alta.
O ano de 2011 foi rico em exemplos de como a adolescência estendida tem impactos profundos sobre áreas improváveis, como a política. Os levantes árabes foram impulsionados por essa população adolescente, gente tão jovem quanto os indignados espanhóis, os saqueadores de Londres e os ocupadores de Wall Street. Todos eles buscando seu lugar na sociedade e topando com obstáculos maiores do que seus pais para encontrá-lo. E enquanto não encontram, sua adolescência é interminável.
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O Ibope está fazendo uma pesquisa sobre a eleição paulistana neste fim-de-semana. Ela foi registrada na sexta-feira e, pelos prazos da legislação eleitoral, poderá ser divulgada a partir de quarta-feira. A pesquisa está sendo custeada pelo próprio Ibope: R$ 45,6 mil. Serão 805 entrevistas, o que corresponde a uma margem de erro máxima de 3 pontos porcentuais, para mais ou para menos. Seu número de protocolo é SP-00027/2012.
A pesquisa estimua apenas um cenário, com 10 candidatos, distribuídos em uma cartela circular para evitar que um deles seja favorecido por aparecer acima dos demais. Os nomes estimulados são os de Soninha (PPS), Carlos Gianazzi (PSOL), Celso Russomanno (PRB), Fernando Haddad (PT), Gabriel Chalita (PMDB), José Serra (PSDB), Levy Fidelix (PRTB), Luiz Flavio Borges D’Urso (PTB), Netinho (PC do B) e Paulinho da Força (PDT). Os partidos dos pré-candidatos não aparecem na cartela, para não influenciar o eleitor nem forçar uma associação que ele pode desconhecer.
A pesquisa será importante para o jogo de alianças partidárias. O eventual crescimento das intenções de voto de Haddad e/ou de Chalita poderia ajudá-los na busca de coligações com outros partidos para aumentarem seu tempo de propaganda na TV e no rádio. Resultados que apontem estagnação ou retrocesso de um deles ou de ambos, ao contrário, podem aumentar o custo dos apoios que eles buscam e facilitar a vida de Serra.
Após aferir a intenção de voto espontânea e estimulada, e a rejeição aos pré-candidatos, o questionário do Ibope pede ao eleitor para avaliar a administração do prefeito Gilberto Kassab (PSD) e indaga quais áreas (calçamento, saúde, educação, por exemplo) têm mais problemas na cidade de São Paulo. Ao final, pede ao entrevistado para avaliar os governos estadual, de Geraldo Alckmin (PSDB), e federal, de Dilma Rousseff (PT).
Pode-se dizer que esta é a primeira pesquisa pública feita pelo Ibope sobre a atual corrida eleitoral paulistana que leva em conta todos os pré-candidatos que mais têm se destacado até agora. O cenário estimulado desta vez não é comparável a pesquisa do Ibope feita em dezembro do ano passado porque os cenários testados então não incluíam Russomanno.
A nova pesquisa poderá ser comparada com a anterior na parte da intenção de voto espontânea. Em dezembro, 45% dos eleitores paulistanos não sabiam responder em quem votariam sem o estímulo de uma cartela com o nome dos candidatos, e outros 29% diziam que votariam branco/nulo. Apenas 15% dos eleitores tinham na ponta da língua o nome de um dos pré-candidatos: Serra foi citado por 5% dos eleitores; Haddad e Netinho, por 3%; Soninha, por 2%; Paulinho e Chalita, por 1%.
A pesquisa Ibope também pode ser comparada à mais recente sondagem do Datafolha, feita nos dois primeiros dias de março. Naquela pesquisa, levada a campo após Serra ter se lançado à disputa paulistana, o tucano aparece com 12% de intenções de voto espontânea, contra 2% de Russomanno, 1% de Chalita e 1% de Haddad.
No cenário mais parecido com o estimulado pelo Ibope desta vez, Serra aparecia no Datafolha de março com 30% das intenções de voto estimuladas, contra 19% de Russomanno, 10% de Netinho, 8% de Paulinho, 7% de Soninha, 7% de Chalita, 3% de Haddad, 1% de D’Urso e 1% de Fidelix. Os cenários não são idênticos, porque o do Datafolha não incluía Gianazzi.
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Ao mudar as regras da caderneta de poupança, a presidente Dilma Rousseff começou a gastar o que poupou em popularidade. A medida foi precedida por uma redução agressiva dos juros, o que melhorou ainda mais sua imagem junto à opinião pública. Mas como os que a antecederam descobriram, mexer na poupança é mexer em vespeiro. Além de ser uma piada pronta.
Méritos econômicos e trocadilhos à parte, a mudança evoca o trauma do confisco collorido. Tem acesso direto a uma parte do imaginário popular onde nenhum presidente se atreve a entrar já se vão 22 anos. Se a oposição sentir cheiro de sangue, pode aproveitar a ocasião para sair do armário. Mas Dilma resolveu correr o risco. Já que é para arriscar, melhor agora, quando tem popularidade para gastar.
Se for bem sucedida, será um investimento: usará as reservas de boa vontade da população para destravar a queda dos juros e empurrar a economia para um novo ciclo de crescimento -baseado no consumo popular e em investimentos do setor privado. Pode recuperar o que aplicou de sua popularidade mais à frente. Talvez com juros. Se falhar, seu cacife ficará menor. Quão menor, ninguém sabe.
A atitude de Dilma foge à regra. Presidentes relutam em usar seus cacifes para fazer mudanças cujo resultado é incerto aos olhos da opinião pública. Mas a presidente parece ter birra com o status quo. Quer mudar mesmo quando, eleitoralmente, não precisaria. É diferente dos antecessores que promoveram mudanças -ou ao menos tentaram- por necessidade.
Fernando Collor de Mello foi eleito no auge da hiperinflação da era Maílson-Sarney. Fez uma jogada que os praticantes do poker chamam de “all in”. Apostou todas as fichas no plano que, para coroar, levava seu nome. Usou a única bala que tinha na agulha. Como se sabe, o tiro saiu pela culatra.
Itamar Franco herdou o desastre e saiu por cima ao bancar o Plano Real e domar a inflação. Quem faturou o sucesso foi seu ministro da Fazenda e sucessor, Fernando Henrique Cardoso. Eleito no primeiro turno, virou sigla. FHC acumulou um cacife inédito, e gastou boa parte dele aprovando a emenda constitucional que lhe deu o direito à reeleição. Reeleito, nunca recuperou o investimento.
Lula foi eleito para mudar. Mudou, mas não como se previa. O petista aproveitou o legado da inflação controlada na era FHC e surfou a onda da expansão econômica mundial. Não mexeu na política econômica nem no jeito de fazer política. Multiplicou o Bolsa Família, alavancou o crédito popular e criou um mercado de massa. A massa de eleitores neoconsumidores o reelegeu, com Mensalão e tudo.
Dilma é o fruto politico dessa mudança econômico-social. Foi eleita para continuar, não para mudar. Mas a mexida nas regras da popuança sugere que ela não está satisfeita com mais do mesmo. É o gesto de ruptura mais drástico que tomou até agora. Faz algo que Lula não quis fazer.
Na faxina ministerial, a presidente trocou ministros mas manteve as estruturas que sustentam sua coalizão. Centralizou o controle de verbas, mas as transações permaneceram franciscanas. No corte de juros feito até agora, operou dentro de uma margem de manobra pré-estabelecida. Com as novas regras da poupança, furou essa margem. É pouco, dirá quem clama por reformas mais profundas. É um começo? A ver. Mas certamente é uma novidade.
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Doutor e Professor cresceram juntos, não na vida, mas no poder. Trajetórias sincronizadas: a cada favor trocado, um passo adiante e um degrau acima. De sua simbiose política surgem negócios, nomeações, sentenças, manchetes, facilidades. Doutor é a face pública da dupla, reluz nos palanques, tonitrua aos microfones. Professor articula nos bastidores. Deveria ser opaco, pois brilhar nas profundezas onde opera atrai atenção indesejada. Mas a vaidade nem sempre é controlável.
Para entrosar o jogo, falam-se várias vezes ao dia, encontram-se sempre que possível. Ao telefone, Professor só chama o parceiro de doutor. Doutor retribui, íntimo: “Bom dia, professor. Tranquilo aí? Sossegado?”. Ler os diálogos de Doutor e Professor no inquérito em que se transformou sua parceria é uma aula sobre como funciona parte do Brasil. A de cima.
Aprende-se como usar o Estado para agradar o esposo, resolver problemas familiares ou alavancar grandes oportunidades de investimento. Do trivial completo ao banquete de verbas públicas, o cardápio satisfaz magros, gordinhos e ex-gordos.
Doutor quer comprar uma mesa na Argentina, presente para a mulher. Custa-lhe mais do que ganha em um mês como senador. Ao amigo, não reclama do preço, mas da alfândega: “Até que não é cara, mas é difícil de trazer”. O mimo excede 35 vezes o limite de compras no país vizinho. Pede uma mãozinha. “Pode comprar que eu dou um jeito”, tranquiliza Professor.
Professor precisa de um cargo público para a prima, mas em outro estado. Se fosse no seu, dispensaria intermediários. Como não é, pede a Doutor que interceda junto ao colega de Senado que manda naquelas plagas. Após falar com o ex-governador, Doutor explica que as nomeações de chefes regionais no estado vizinho são feitas pelo deputado da região. Carece aprovar com ele também, o que não chega a ser problema. Menos de duas semanas depois a prima está nomeada.
Trivialidades desse tipo são cacos nas conversas da dupla. Na frequência dos bate-papos, banalidades são entremeadas com questões de Estado. Decisões de tribunais superiores misturam-se ao regozijo com a queda de um desafeto comum. Discussões de estratégias eleitorais seguem-se a considerações sobre negócios milionários.
Doutor liga para professor e comemora que um magistrado supremo “mandou buscar” processo em instância inferior para julgar na sua corte. A ação envolve empresa do estado deles. “Deu repercussão geral pro trem aí”, resume Doutor, no palavreado que reserva às conversas com Professor. Não quer dar uma de tribuno com o amigo.
Noutras vezes, a conversa tem que ser em pessoa. Professor não mede recursos para ter o associado por perto com rapidez. Manda buscá-lo onde for: “Não esquece do avião, taí (te) esperando”. Doutor se desculpa: “Dei uma enrolada aqui. Tô chegando aí. Você vai estar na sua casa?”
Professor representa os interesses da empreiteira que mais recebe verbas do governo federal: pelo menos R$ 3,7 bilhões nos últimos 9 anos. Está preocupado com reportagem publicada sobre a empresa. Se o assunto esquentar, a empreiteira pode perder dezenas de milhões em contratos públicos. Doutor aciona seus contatos entre jornalistas e explica ao parceiro: o foco da investigação não é a empresa, mas um inimigo da dupla, que também fazia negócios com a empreiteira.
Até que o azar cruzou a sorte da dupla. Mais especificamente os jogos de azar, atividade que impulsionou a carreira do Professor.
Desde a prisão do Professor, há dois meses, seu nome e o de Doutor ganharam manchetes como nunca. Os dois caíram na boca do povo e nos dedos dos internautas. As pesquisas sobre ambos na internet viraram febre, especialmente no seu estado de origem. Nos primeiros 30 dias de estrelato involuntário, apareciam sempre na mesma frase. Mas isso mudou.
No último mês, Doutor se recolheu, fugiu da ribalta e seu nome perdeu evidência, enquanto o do Professor pipoca cada vez mais. Pela primeira vez em anos os caminhos dos parceiros se separaram. Não há mais telefonemas, muito menos visitas. A estratégia de um é se desvencilhar do outro: provar que as provas de cumplicidade, mesmo que verdadeiras, são formalmente inúteis. Querem apagar seu passado comum.
Já houve tempo em que Doutor e Professor rivalizavam para ver quem bebia os vinhos mais caros, quem tinha a mulher mais jovem e bonita, quem podia mais. Agora, disputam quem tem o advogado mais caro. Sua ascensão simbiótica foi interrompida. Outros doutores e professores se preparam para ocupar o seu lugar.
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Tags: corrupção, CPI, gasto público, poder
Que o Distrito Federal é uma ilha da fantasia, sempre se desconfiou. Mas os “Resultados gerais da amostra do Censo 2010″, divulgados nesta sexta-feira pelo IBGE, transformam a suspeita em constatação oficial. O rendimento médio nominal dos domicílios brasilienses é mais do que o dobro do Brasil. A renda média de Brasília é R$ 5.663. A do Brasil, R$ 2.653.
A desproporção da riqueza da capital brasileira é um caso único, não importa a referência. Em comparação a São Paulo, cujos moradores estão em segundo lugar no ranking de renda do país, o Distrito Federal tem um rendimento médio 63% maior -com a diferença de que Brasília só produz leis, decretos e sentenças. Pior, a renda dos brasilienses é, em média, quase três vezes maior do que a dos maranhenses, donos do rendimento mais baixo do Brasil.
Essa disparidade da riqueza dos moradores da capital federal em relação ao resto do país é incomparável em termos internacionais. Distrito federal norte-americano, Washington DC também foi fundado para ser capital da República e ocupa uma área restrita. Sua renda domiciliar é 13% maior do que a dos Estados Unidos. No Brasil, a desproporção é de 113%. Por comparação, Brasília tem 100 pontos porcentuais de renda a mais do que o país que a circunda. Quais as razões de tanto exotismo?
O principal motivo é que em Brasília os funcionários mais bem remunerados definem seus próprios salários. E estes servem de referência para quem está abaixo na hierarquia funcional. Essa regra provoca uma -digamos- cachoeira para o resto do funcionalismo. Como os servidores do topo da carreira de cada Poder são generosos com sua própria remuneração, o efeito riqueza se espalha para boa parte dos domicílios brasilienses.
Tanto é assim que o valor dos imóveis na capital varia em função da política salarial do governo de plantão. Quando o funcionalismo tem seus rendimentos reajustados, os preços das casas e apartamentos sobem junto.
Alguém pode argumentar que é injusto comparar uma cidade-estado, como Brasília, com as demais unidades da Federação, que têm áreas muito maiores e disparidades regionais muito mais acentuadas. Pois consideradas apenas as cidades brasileiras e os salários de quem tem emprego formal, Brasília fica em 5º lugar entre 5.565 municípios. Só perde para quatro cidades onde unidades da Petrobras, a maior empresa estatal, são responsáveis por grande parte dos empregos.
A segunda razão para Brasília ter uma renda média tão mais alta do que o resto do país é que a capital federal exportou seus pobres. Eles vivem no chamado entorno brasiliense, em cidades como Águas Lindas de Goiás. O salário médio dos brasilenses é 3 vezes e meia maior do que o dos vizinhos goianos menos afortunados. Isso faz a média brasiliense se elevar, pois não computa a base de sua própria pirâmide econômica.
É uma síntese do comportamento do centro do poder no Brasil: pega e paga o que quer, e descarta o resto no quintal do vizinho.
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A cada novo “grampo” vazado da Operação Monte Carlo se aprende um pouco mais sobre o funcionamento da República. Sabe-se, por exemplo, que o senador Demóstenes Torres (ex-DEM) era um ágil despachante dos interesses do empresário preso Carlinhos Cachoeira: pedia favores, cobrava contrapartidas, intercedia junto a agentes públicos. Tudo em nome do amigo com quem manteve mais de 300 conversas telefônicas em curto período de tempo.
Aprende-se também que para ser nomeado para um cargo público de chefia no governo de Minas Gerais (e em Goiás, em Brasília etc) não é preciso nem currículo. Basta uma sequência de telefonemas entre poderosos e seus cupinxas e o emprego se materializa com rapidez de corar burocrata.
Mônica Vieira liga para o primo Carlinhos Cachoeira, que liga para o amigo Demóstenes Torres, que liga para o colega de Senado Aécio Neves, que obtém o aval do governador Antonio Anastasia para o secretário de Governo de Minas Gerais ligar para Mônica comunicando sua nomeação. O ciclo se fecha com 4 graus de separação, ou melhor, de conhecimento. Na contabilidade do repórter Fausto Macedo, bastaram 12 dias e 7 telefonemas.
Se todo brasileiro desfrutasse de tanta presteza e gentileza do poder público o Brasil não seria o Brasil.
Mônica disse à reportagem do Estado que foi nomeada para ser chefe regional da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social de Minas por sua “competência”, por seus 25 anos de carreira. Pode ser, mas quem apadrinhou sua nomeação não sabia disso.
Aécio perdera o currículo de Mônica. Foi o que Demóstenes relatou a Cachoeira, em telefonema na noite de 20 de maio do ano passado. Aos repórteres, o senador tucano disse desconhecer a origem do pedido de nomeação. Mesmo sabendo muito pouco ou quase nada, passou-o à frente. Talvez retribuísse algo, ou quisesse ficar com crédito junto a Demóstenes, contra quem até então “não recaía questionamento”, nas escolhidas palavras de Aécio.
Patrocinador da nomeação de Mônica, Cachoeira não enfatiza as qualidades profissionais da prima ao despachar com o amigo Demóstenes. O apelo é pessoal: “É importantíssimo pra mim. Você consegue por ela lá com o Aécio (…). Pô, a mãe dela morreu. É irmã da minha mãe”. Só se preocupam com o salário, que não pode ser menos do que R$ 10 mil -“se não estou perdida”, na expressão de Mônica. E quem não estaria? Uns 190 milhões de brasileiros.
Em outro “grampo”, descobre-se que Demóstenes -mais uma vez no papel de despachante de Cachoeira- deixou “intranquilo” Maguito Vilela (PMDB), um ex-governador de Goiás que agora é prefeito de Aparecida de Goiânia. A intranquilidade seria fruto de conversa do senador com o político goiano. Demóstenes relata ter dito que Cachoeira estava “uma onça” com Maguito, por causa da falta de celeridade no cumprimento de um acordo entre ambos.
Não fica claro o porquê de Demóstenes ser o intermediário da cobrança, de ser ele a dizer que seu representado estava uma fera, em lugar de o próprio Cachoeira arreganhar os dentes para Maguito. Pelo jeito, cada um com seu papel.
Entre um despacho e outro com Cachoeira, Demóstenes encontrava tempo para cobrar honestidade de seus pares, em entrevistas a meios de comunicação e em discursos na tribuna do Senado. Antes dos “grampos”, só essa parte de sua vida pública era de conhecimento público.
Com a CPI que se instala nesta quarta-feira, mais “grampos” devem ser desengavetados. Mais lições sobre o funcionamento da República serão oferecidas aos interessados. Mais bastidores da vida pública aparecerão.
O maior bem que a CPI pode fazer à sociedade é liberar todos os “grampos”. Os vazamentos pontuais implicam uns mas podem omitir outros. O controle do fluxo de informações em escândalo dessa magnitude é o que todos os partidos buscam, para defenderem-se e atingirem os adversários. Só a liberação geral e irrestrita das gravações minimiza o uso político e eleitoral da CPI. A alternativa deixa o público a quatro ou mais “grampos” de separação da verdade.
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A popularidade de Dilma Rousseff vai subindo: chegou a 64% de avaliação positiva. Praticamente dois em cada três brasileiros acham seu governo bom ou ótimo. Dilma só perde para Lula no auge. Em um mês, o saldo de aprovação presidencial (“ótimo+bom” menos “ruim+péssimo”) subiu 11 pontos porcentuais: de 48 pontos no Ibope de março para 59 pontos no Datafolha de abril. Vai ter gente xingando a opinião pública. De novo.
A aceleração da popularidade presidencial sugere que o corte dos juros no atacado e no varejo foi um gol aos olhos do público. Era previsível. Juros altos são mal vistos pela população. Ao derrubar as taxas do Banco Central e obrigar os bancos federais a fazerem o mesmo, Dilma ampliou o crédito e facilitou a vida do consumidor. De quebra, como o Banco do Brasil está descobrindo, cai a inadimplência.
É um paradoxo aparente: enquanto a economia está em expansão, quanto mais gente toma empréstimo ou faz crediário, menor o risco de quem empresta o dinheiro. Os caloteiros se diluem na massa de bons pagadores. Pobres tendem a pagar suas dívidas mais em dia do que ricos, logo, quanto mais gente tomando emprestado, melhor para os bancos. Em tese.
Na prática, depende da posição relativa de cada banco no mercado de crédito. Para não verem sua fatia murchar, os bancos privados precisam correr atrás do consumidor. Mas não é fácil recuperar o terreno perdido. Quem saiu na frente leva vantagem, capturou a clientela.
No Brasil pré-consumo de massa, os bancos se acostumaram à alta rentabilidade de poucos empréstimos. Agora, com os juros menores do BB e da CEF, os bancos precisam compensar a perda de margem de lucro com ganhos de escala. Nem todos vão conseguir. A gritaria vai piorar.
Nessas horas desponta o discurso de autoridade. Especialistas esgrimem argumentos técnicos e jargão incompreensíveis ao senso comum. Agouram o crescimento e alertam para a catástrofe na esquina. Embora o retrospecto não lhes favoreça, podem ter razão. Ou pode ser que estejam apenas defendendo o status quo.
Não é incomum. No Brasil como nos EUA, toda vez que as coisas não saem como quer a minoria, a culpa é da maioria ignorante e manipulada. Nem se imagina a possibilidade de a opinião pública agir racional e pragmaticamente em prol de seus próprios e egoísticos interesses.
Por essa versão, o republicano George W. Bush foi um dos presidentes mais impopulares da história norte-americana simplesmente porque a mídia liberal manipulou a verdade (e não porque ele foi incompetente). O democrata John Kerry tomou uma lavada eleitoral do mesmo Bush por causa da propaganda mentirosa dos republicanos (e não porque ele foi inapto). É reconfortante. Exime a autocrítica. Dá férias ao superego.
No Brasil, quando Lula perdeu três eleições presidenciais seguidas foi por culpa da mídia, que manipulou a massa de manobra que, afinal de contas, deve ser o eleitorado. Quando o petista ganhou três eleições presidenciais seguidas foi culpa do mesmo eleitor manobrável. A minoria muda de lado, suas desculpas não.
No último meio século, estudo após estudo tem chegado à mesma constatação: o eleitor é mais esperto do que seu estereótipo nos faz acreditar.
Os eleitores votam de acordo com sua percepção dos méritos e do passado dos candidatos. O eleitor identifica diferenças nas propostas dos candidatos e vota nas que gosta mais. Apesar dos seus limites de tempo e conhecimento, os eleitores encontram guias para votar de acordo com seus interesses. São conclusões das ciências sociais, calçadas em pesquisas de opinião.
Se, como diz a ciência, o eleitor não é um cordeiro temperado para digitar na urna o que lhe mandam, quem ganha com a repetição interminável da ideia de que ele é manipulável? Os pretensos manipuladores, é claro.
Como escreve o professor emérito da Rutgers University (EUA), Gerald Pomper, “se o eleitor é um idiota, por comparação os especialistas são espertos; se o eleitor não tem noção, ele precisa de alguém sabido para lhe indicar o caminho”. Ou seja, mesmo que o estereótipo do eleitor manobrável seja falso, a sua propagação abre um rico mercado de “manipulação” para marqueteiros, politicólogos, consultores, jornalistas e blogueiros. Além de servir de consolação para a minoria derrotada na batalha da opinião pública.
No limite, quem compra acriticamente a ideia de que o eleitor é um inocente útil está pronto para comprar também os pretensos serviços de manipulação do eleitorado. Quem é manipulável, afinal?
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O brasileiro é antes de tudo um otimista. Ele acredita que as coisas vão melhorar, sempre. Se estão ruins, ele aposta na virada. Se já estão boas, ele crê que vão melhorar ainda mais. Essa característica se acentuou nos últimos tempos, fruto da percepção da maioria da população de que andou para frente. O otimismo é, portanto, uma projeção do passado recente. Mas não precisávamos exagerar.
Segundo pesquisa do Gallup, o Brasil é onde há proporcionalmente menos pessoas “sofrendo” no mundo. A sondagem foi feita em 146 países, ao longo de 2011. Juntos, eles representam mais de 95% da população mundial. Computadas as dezenas de milhares de entrevistas, o instituto concluiu que só no Brasil menos de 1% da população se enquadra na categoria “sofrimento”.
Para comparar, na média mundial, 13% estão “sofrendo”. Em 18 países, pelo menos 1 em 4 habitantes está nessa situação. São aqueles pintados de verde claro no mapa que ilustra este texto. O pior é a Bulgária: 45% da população está “sofrendo”.
Se não “sofrem”, como estão os brasileiros?
Segundo o Gallup, 59% estão “prosperando”, e os demais 41%, “batalhando”. O Brasil é o 9º colocado na proporção de “prósperos”, empatado com a Áustria. Só perde para Dinamarca (74% “prosperando”), Holanda e Canadá (66% ambos), Israel e Suécia (65%), Austrália e Finlândia (64%) e, por pouco, para a Nova Zelândia (60%).
Segundo o instituto, há proporcionalmente mais brasileiros “prosperando” do que há norte-americanos (56%), sul-coreanos (50%), britânicos (50%), franceses (46%), alemães (42%) e japoneses (26%). Todas essas nações aparecem muito à frente do Brasil tanto no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) quanto no da renda per capita.
Mesmo em comparação a outros países ditos emergentes o Brasil aparece muito mais bem colocado na pesquisa. Tem 37 pontos porcentuais de “prosperidade” a mais do que a Rússia (22% “prosperando”, 58% “batalhando” e 19% “sofrendo), 41 pontos mais do que a China (18%, 70% e 12%, respectivamente) e inacreditáveis 48 pontos a mais do que a Índia (11%, 66% e 24%).
O Brasil é, portanto, um ponto muito fora da curva. O que explica esse resultado literalmente excepcional? O otimismo.
Para compreender o porquê, só entendendo com funciona a metodologia do índice de bem-estar. Um dos maiores institutos do mundo, o Gallup desenvolveu seu indicador a partir da tradicional escala Cantril de auto-avaliação, e vem usando-o há décadas.
Pioneiro no estudo da opinião pública, Hadley Cantril desenvolveu um método que se tornou referência. Ele permite a cada indivíduo estabelecer sua própria escala de valores sem, todavia, abrir mão da capacidade de compará-las. A “escada de Cantril” também elimina o viés provocado pelas diferenças de significado que o mesmo conceito tem para diferentes pessoas, ou que uma expressão tem em diferentes idiomas.
O grau de “sofrimento” no indicador de bem-estar do Gallup não é fruto de uma pergunta direta do entrevistador, mas de uma combinação de resultados. O entrevistado é convidado a imaginar uma escada que vai de 0 a 10, onde o topo representa a melhor condição de vida possível, e o zero, a pior. Em seguida, o pesquisador pergunta em qual degrau o entrevistado se encontra e em qual degrau ele estará daqui a cinco anos.
A divisão em três grupos (“prosperando”, “batalhando” e “sofrendo”) é obtida pela combinação das respostas. Para entrar no grupo da “prosperidade”, o entrevistado tem que estar hoje no degrau 7 ou acima dele, mas não só. Ele tem também que enxergar um futuro melhor, ou seja, deve projetar estar no mínimo no degrau 8 daqui a cinco anos. Já para cair no grupo “sofrendo”, o entrevistado tem que se ver em má situação hoje (degrau 4 ou inferior) e achar que o futuro permanecerá ruim (abaixo do 5º degrau). Quem não se encaixa em nenhuma dessas categorias está “batalhando”.
Os 59% de brasileiros classificados pelo Gallup como “prosperando” não estão hoje no topo da escada, nem a um passo de chegar lá. Estão concentrados entre o 7º e o 8º degraus. Porém, quando indagados onde estarão daqui a cinco anos, a grande maioria afirma que chegará ao último degrau, ou seja, à melhor condição de vida que pode imaginar.
Mesmo aqueles brasileiros que estão abaixo do 7º degrau acham que chegarão, no futuro próximo, ao topo da escada, ou muito perto disso. Quase ninguém acha que está mal (abaixo do 5º degrau) e vai continuar assim ou piorar. Por isso menos de 1% está “sofrendo”. Se essa auto-avaliação otimista dos brasileiros é exagerada, só saberemos daqui a cinco anos. Mas certamente é uma jabuticaba. Só tem aqui.
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Carlinhos Cachoeira e Demóstenes Torres subiram juntos, pelo menos no interesse do público. A pesquisa pelos seus nomes (e apelido) no Google Trends revela a exposição recorde que ambos tiveram nos meios de comunicação nas últimas semanas. Nunca nenhum deles despertou tanta atenção.
No caso do senador, as buscas pelo seu nome e o noticiário a seu respeito nunca chegaram nem à metade do pico que alcançaram desde 27 de março, quando foram divulgadas suas conversas com o acusado de comandar o crime organizado em Goiás e arredores.
O senador corre o risco de ter acertado em cheio quando disse a colegas que estava morto politicamente. O Estado onde mais internautas buscaram por seu nome e pelo de Cachoeira foram os de Goiás, especialmente de Anápolis e Goiânia, dois redutos eleitorais seus.
Para a defesa do senador goiano, um outro problema: o noticiário redivivo sobre Cachoeira puxa novos títulos e textos sobre o seu cliente. Ou seja, não adianta Demóstenes se fingir de morto que o caso não será esquecido enquanto houver notícias novas sobre a extensão da rede de tráfico de influência montada pelo amigo preso. Cachoeira e Demóstenes estão colados como siameses no imaginário dos internautas.
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