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Viagem

O governo cubano passou a exigir seguro viagem para autorizar a entrada de estrangeiros no país. A medida já está em vigor. Leia mais aqui.

A reportagem do Viagem fez um mochilão por Cuba no ano passado. Confira os detalhes e a galeria de fotos do país:

Ninguém fica indiferente a esta ilha
A alegre e musical Havana
Fique atento às abordagens criativas
Da revolução à arte nos museus
Boas faixas de areia a leste de Havana
Endereços favoritos de Hemingway
Trânsito mostra criatividade cubana
Festeje, você está em Trinidad
Santiago mostra dois lados
Sinta-se em casa em Baracoa

Fábrica de charutos Partagás, Havana

Fábrica de charutos Partagás, Havana

Centro de Havana

Centro de Havana

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Veículos dos anos 50 e 60 são a marca das ruas de Havana. Fotos Mônica Nóbrega/AE

Veículos dos anos 50 e 60 são a marca das ruas de Havana. Fotos Mônica Nóbrega/AE

Além dos carros vintage, uma das marcas de Cuba, o trânsito local está cheio de provas de criatividade no quesito meios de transporte. Confira:

Cocotáxi: o triciclo com uma cabine amarela em formato de ovo (foto) tem lugar para duas pessoas, mais o condutor

Cocotáxi

Cocotáxi

Bicitáxi: o condutor pedala e você vai atrás, em um banco coberto para dois  passageiros

Bicitáxi

Bicitáxi

Charrete: só turista desavisado aceita pagar para fazer um city tour de charrete. Na frente do Capitólio, uma volta panorâmica que não vai muito além de Havana Velha sai por até 25 pesos conversíveis (R$ 62), um passeio que você pode muito bem fazer a pé

Charrete, só para desavisados

Charrete, só para desavisados

Guagua: sinônimo de transporte público. Os melhores são antigos ônibus escolares amarelos. Já os “camelos” são sequências de carrocerias de caminhão, usados por moradores da periferia.

Ônibus escolar faz papel de transporte público

Ônibus escolar faz papel de transporte público

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Um fotógrafo, um homem idoso e uma vara de pesca são os únicos que se movem  no fim de tarde de Cojímar. As poses e o local evidenciam o objetivo de  reproduzir cenas de O Velho e o Mar (1952), talvez ilustrar o trecho “tudo  nele era velho, exceto seus olhos”, o mais famoso da obra. O livro que  rendeu o Prêmio Pulitzer a Ernest Hemingway (1899-1961) foi inspirado na  vila de pescadores, 10 quilômetros a leste de Havana, onde o escritor  gostava de ancorar o barco pesqueiro El Pilar.  Boêmio, polêmico e empenhado em se tornar um mito, o americano viveu 21 anos  em Cuba e virou um ícone. Hoje, os lugares que ele frequentava, a exemplo do  silencioso vilarejo de poucas ruas e casinhas de alvenaria, usam a  preferência do escritor para chamar a atenção. Eis outras paradas  indispensáveis do tour Hemingway:

OS BARES
Em Havana Velha, os restaurantes Bodeguita del Medio (Calle Empedrado, 207)  e El Floridita (Callle Obispo, 557) estampam, na fachada de cada um, a sua  metade da famosa frase “mi mojito en la Bodeguita y mi daiquirí en El  Floridita”. Ambos mantêm a qualidade dos drinques celebrizados pelo  escritor, mas servem comida cara e insossa. Em Cojímar há outro restaurante  da lista dos preferidos de Hemingway, o La Terrazza (Calle Real, 161). Fotos  do autor com Fidel Castro decoram o lugar, especializado em frutos do mar. 

O HOTEL
O quarto 511 do Hotel Ambos Mundos (diária a partir de R$ 207), onde Hemingway  morou e teria escrito alguns capítulos de Por Quem os Sinos Dobram (1940),  foi transformado em museu com objetos pessoais do autor. 

O MUSEU
Em Finca Vigía, a casa onde Hemingway morou em São Francisco de Paula, a 15  quilômetros de Havana, estão os resquícios mais interessantes do escritor na  ilha. Das relíquias de caça, como cabeças de animais, à piscina onde Ava  Gardner nadou nua e, claro, o barco El Pilar, há vários objetos expostos na  propriedade convertida em Museu Hemingway.

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As boas praias de Havana ficam nos tranquilos bairros costeiros do leste da  capital, onde altos funcionários do governo costumam ter casas de veraneio.  Seguindo pela Via Blanca no sentido Varadero, cerca de 20 quilômetros adiante já se encontram trechos com boas areias para se esticar ao sol. 
A forma mais em conta de chegar às Praias do Leste é tomar um ônibus  turístico da Habana Bus Tour – o ponto final das linhas fica quase em frente  ao Capitólio. O tíquete custa 5 pesos conversíveis (R$ 12) e dá direito a um  dia inteiro de viagens, com quantas descidas você quiser, entre 9 e 21  horas. Os horários estão marcados nas placas dos pontos, mas não são lá  muito respeitados. O motorista costuma ter informações mais precisas. 
Nas praias, as paradas principais são as dos hotéis Tropicoco e Atlantis.  Prefira esta segunda, menos concorrida e mais limpa. Mas qualquer ponto da  Praia Santa Maria tem areia bem clara, corais e mar azul um tanto gelado. 
A infraestrutura deixa um pouco a desejar. Quiosques improvisados alugam  equipamentos de lazer e vendem passeios de barco. No Don Pepe, a cadeira de  praia custa 2 pesos conversíveis (R$ 5) por hora, mesmo preço cobrado pelo  caiaque. Já o snorkel sai por 4 pesos conversíveis (R$ 10) por hora. 
Apenas tome cuidado para não se afastar muito da costa. Não há salva-vidas a  postos até onde a vista alcança.

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Havana, toda ela um museu a céu aberto, tem notável prazer em contar sua  história. Narrativa que ganha alguns toques de ficção, remendos não  exatamente sutis para adequar o passado às conveniências dos burocratas da  vez. A dica é nunca confiar em tudo o que vê, lê e ouve nos 61 museus da  capital cubana. Mas não deixe de visitá-los. Há acervos sobre assuntos  variadíssimos e muito a aprender. 

REVOLUÇÃO
O Museu da Revolução exalta sem pudores os irmãos Castro e o herói nacional Che Guevara. Isto posto, garante horas divertidas e instrutivas se você  deixar de lado a preocupação com coisas como linha do tempo da Revolução  Cubana – falta uma boa curadoria para organizar a coleção – e concentrar a  atenção em curiosidades e detalhes. Há um belo acervo fotográfico, pouco  divulgado, com instantâneos de mulheres revolucionárias. O prédio do museu  foi residência oficial de presidentes cubanos até o ditador Fulgêncio  Batista (1901- 1973) ser deposto por Fidel. De arquitetura colonial  espanhola, tem em seu interior um ambiente tão rococó quanto ninguém  esperaria encontrar em Cuba, uma sala dos espelhos inspirada no Palácio de  Versalhes. No anexo, o Memorial Granma exibe armamento militar pesado, como  tanques e helicópteros.

REAL FUERZA
O Castillo de la Real Fuerza é a fortaleza mais antiga do país. Foi erguido  no século 16 como armazém dos tesouros que as colônias centro e  sul-americanas eram obrigadas a pagar em impostos à metrópole espanhola.  Fica bem diante da Baía de Havana, na Plaza de Armas, em Havana Velha. O bem  conservado castelo é cercado por fossos e grades. Nas salas há exemplares  originais de moedas que circulavam na Cuba colonial e placas enormes de  prata e ouro. Várias peças foram encontradas no fundo do mar a partir de  1980 e pertenciam a embarcações que naufragaram. O telhado é o local para  uma foto panorâmica da baía. A entrada é grátis, mas os atenciosos guias  esperam uma gratificação no fim da visita. Em geral, 1 ou 2 pesos  conversíveis são suficientes. 

PINTURA MURAL
O mesmo esquema de gratificar o guia vale para o Museu da Pintura Mural (Calle Obispo, s/n.º), na  casa do século 16 que, dizem, é a mais antiga da cidade ainda de pé. As  paredes foram descascadas para expor afrescos de séculos passados e há  também fragmentos de paredes de outras residências, além de fotos. As  varandas superiores ao redor do átrio central formam um dos lugares mais  poéticos de Havana. 

RUM
O acervo do Museu do Rum, mantido pela Fundação Havana Club, descreve o  processo de produção da bebida nacional e mostra a importância do açúcar na  economia cubana. No mesmo prédio, erguido no século 18, ficam galeria de  arte, loja e um bar-restaurante para encerrar o passeio, quem sabe, com um  mojito bem gelado.

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24.março.2009 17:38:37

A alegre e musical Havana

O Cadillac americano e o Lada russo estão lado a lado. Em Havana, a cena representa um dos poucos exemplos de convivência natural entre ícones de  undos tão diferentes. A capital do único país socialista do Ocidente tem  uma relação ambígua com o avanço do capitalismo, que conquista espaço aos  poucos, pelas frestas. 

Alegre, colorida e musical, a cidade transpira experiências intensas, a  começar pela forma como seus habitantes abordam os estrangeiros: sempre  prontos a vender qualquer coisa, seja produto ou serviço, por preço  invariavelmente exorbitante. Guias turísticos de ocasião surgem aos montes e  não é exatamente fácil dispensá-los, mas faça isso. Para manter a salvo seus  caros pesos conversíveis, mas também porque Havana é para ser vista e vivida  no seu próprio ritmo. 

Em Havana, artistas de rua se apresentam em feira de livros ao ar livre. Foto Mônica Nóbrega/AE

Em Havana, artistas de rua se apresentam em feira de livros ao ar livre. Foto Mônica Nóbrega/AE

O que não significa ficar afastado de todo e qualquer cubano. Ao contrário.  Com alto nível educacional e extremamente politizados, eles são ótimos interlocutores. Basta identificar as oportunidades de conversa. 
Que podem surgir na visita a lugares como o Capitólio, no Paseo de San Martí  (entrada a 3 pesos conversíveis ou R$ 6,49). O prédio mais fotografado de  Havana é cópia do de Washington, mas foi erguido em 1929 – muito antes,  portanto, de os Estados Unidos tornarem-se o inimigo número 1 de Cuba. Foi  sede do parlamento e endereço de episódios históricos. Do alto da escadaria  principal Fidel Castro celebrou o triunfo de sua revolução – a foto continua  exposta lá dentro. Hoje, além de museu, o prédio é sede da Biblioteca  Nacional de Ciência e Tecnologia.
Atrás do Capitólio começa o bairro de Centro Havana. Aproveite e passe na fábrica de charutos Partagas, fundada em 1845, a mais tradicional do país, e na Chinatown local. 
A fachada principal do Capitólio está voltada para Havana Velha, o bairro turístico da capital. Há praças arborizadas, prédios de arquitetura colonial espanhola transformados em museus, rum e charutos nas esquinas. Carros são proibidos de circular no perímetro, o que torna o local ainda melhor para caminhadas curiosas. 
Um dos aspectos apaixonantes de Havana é a forma como moradores ocupam o espaço público. Cadeiras e varais invadem as ruas. Áreas mais amplas, como a  recém-reformada Plaza Vieja e a frente da catedral, monumento do século 18, viram campo improvisado de beisebol, o esporte nacional. 
Bem perto da avenida costeira, a Igreja de São Francisco de Assis fica no  centro de um largo que lembra as pracinhas góticas de Barcelona, com cafés e mesas ao ar livre. Nas ruas ao redor espalham-se galerias de arte. Adiante está a Praça de Armas, onde Havana nasceu, endereço de uma feira de livros ótima para encontrar obras sobre os heróis nacionais. Completar o tour por  Havana Velha inclui descer o Passeio do Prado pelo canteiro central até o  Malecón, o calçadão à beira-mar. Por seus seis quilômetros chega-se a pé ao Vedado, bairro construído entre 1940 e 1950. Há uma saborosa justificativa  para ir até lá: a sorveteria Cooppelia, na Calle 23.

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Cuba. Só essa combinação de um nome e um ponto final seria suficiente para  encher de significados as fotos desta página, ainda que mais nada houvesse  escrito nas próximas linhas e parágrafos. Cuba atrai interesses desde meados  do século 20 como nenhum outro país e desperta pelo caminho reações  fervorosas de amor e ódio.  A respeito da ilha todos têm suas crenças, independentemente de já terem ou  não pisado em seu território.

Havana, Cuba. Foto Mônica Nóbrega/AE

Havana, Cuba. Foto Mônica Nóbrega/AE

Matéria-prima para tanto não falta. Estamos em  pleno ano do cinquentenário da revolução que levou Fidel Castro ao poder. Só  no último mês, fuga de boxeadores, anúncio do fechamento da prisão de  Guantánamo e troca de dez ministros foram temas explosivos que frequentaram  o noticiário, ainda mais atento desde que o comandante passou o poder a seu  irmão Raúl. Cuba está em transformação. Na medida para viajantes curiosos. 
Se você quiser, a ilha pode ser apenas mais um destino caribenho, com  resorts e praias na badalada Varadero – na verdade, o Caribe tem pontos com  águas até mais azuis. Essa é uma forma de relaxar sem pensar em nada, mas  também de passar batido pelo que Cuba tem de singular. Toda a herança  comunista e o modo muito próprio de viver dos seus habitantes ficam mais  evidentes quanto mais longe se está de Havana e seus bairros históricos. 
De todo modo, a viagem começa na capital. Turistas, cerca de 2 milhões por  ano, chegam pelo Aeroporto José Martí e devem levar idêntico susto diante do  cenário inacreditavelmente arruinado que se revela conforme o táxi avança.  Sem manutenção desde que os revolucionários tomaram o governo, faz pouco  tempo que a cidade começou a colocar em prática um tímido plano de restauro.
As primeiras reformas miraram o bairro de Havana Velha e o Malecón, o  calçadão à beira-mar.  Seis dias são um bom intervalo para ver as principais atrações de Havana e ter tempo de flanar pelas ruas sem direção definida, ao sabor das descobertas, entre mojitos, charutos e muita música. Depois dessa primeira  imersão, meu roteiro seguiu por outras três cidades, de oeste a leste do  país, escolhidas pela sua importância histórica e pelas possibilidades de  contato com a cultura local. 
A viagem pelo interior permite conhecer mais peculiaridades do país.  Trinidad, Santiago de Cuba e Baracoa são diferentes entre si e da capital.  Nelas há resquícios do passado colonial misturados às casas térreas de  poucos cômodos, cobertas por lajes simples, típicas da arquitetura  comunista.
Nessas cidades, palavras de ordem sobrevivem em muros gastos pelo tempo e seus moradores defendem com mais fervor o sistema político. Orgulham-se de suas escolas. Mas nem por isso deixam de lamentar sua condição de prisioneiros do próprio país (em Cuba, só se viaja ao exterior com uma autorização especial do governo e data para voltar).  Lamentam também o apartheid social em que vivem em relação aos estrangeiros. Tudo em Cuba, lojas, restaurantes, transporte, tem duas versões: a que cobra em pesos conversíveis, moeda turística com valor variável entre o dólar e o euro, e a cotada em pesos cubanos.
Diante disso, minha opção por seguir de ônibus se mostrou inócua para atender ao objetivo de viajar na companhia de cubanos. As passagens nos veículos com ar-condicionado da Viazul têm preços proibitivos para os nativos. O trecho entre Havana e Trinidad, por exemplo, custa 27 pesos conversíveis, equivalentes a US$ 30, mais que os US$ 20 (R$ 46) mensais que correspondem ao salário médio de cada habitante. Os ônibus para moradores cobram em moeda local, vetada aos estrangeiros.
Certifique-se de ter um espírito mochileiro para optar pelos ônibus. Os deslocamentos são longos e é preciso levar lanche para compensar a alimentação precária nos trajetos. Em compensação, o público que viaja assim  está interessado tanto no caminho quanto no destino. São estrangeiros tão dispostos quanto eu estava a conversar, a trocar impressões e sensações sobre Cuba. Porque, você verá, cada descoberta na ilha surpreende, abala certezas e revela novos aspectos de uma vida em tudo diferente da nossa.  Nessa viagem, as conclusões são o que menos importa.

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