Foram sete dias em meio ao Pantanal. Uma oportunidade das crianças e adolescentes da Casa Taiguara conhecerem uma realidade muito diferente da sua. As histórias tristes, de abusos, violência e abandono ficaram para trás. As grandes preocupações durante os dias na Fazenda Santa Sophia eram andar a cavalo, acompanhar os peões na lida com o gado, tomar banho de rio… Dias repletos de sorrisos e brigas, lágrimas e gargalhadas, paqueras e brincadeiras. Como saldo, lembranças que, certamente, ficarão para o resto da vida. E muitas, muitas fotos.

Pôr do sol na Santa Sophia

O onipresente tuiuiú

E o igualmente onipresente jacaré

Café da manhã

Pescaria em dia de churrasco no retiro

Churrasco no retiro

Saldo de um dia de brincadeiras no retiro

Vida de gado…

…e de boiadeiro: Carlinhos e Flavio aprendem a dominar bezerro

No caminho para o Rio Negro

Daniel como acrobata durante brincadeiras no Rio Negro

Carlinhos no passeio de barco pelo Rio Negro

Futebol no fim de tarde

Brincadeiras em volta da fogueira em noite de festa

Voltando para casa
O último post da viagem dos meninos e meninas da Casa Taiguara pelo Pantanal poderia simplesmente descrever a cansativa volta a São Paulo, que começou antes das 5 horas da manhã e só terminou lá pelas 3 da manhã do dia seguinte. Mas achei que seria mais interessante discorrer sobre as impressões que a expedição deixou em todos – inclusive em mim.
Os jovens de 12 a 18 anos que foram na viagem têm histórias complicadas. Espancamento, abandono, abuso, tráfico, vida nas ruas. Mas tudo isso ficou para trás durante os sete dias de convivência. Ali, eles eram apenas adolescentes cheios de sonhos, que gostam de brincar no rio, paquerar, dar risada. Que brigam e fazem as pazes, que ajudam uns aos outros e quem está ao seu redor, sem reclamar (vá lá, às vezes reclamando um pouquinho). Cada um com suas aptidões, defeitos e qualidades. Como quaisquer outros de sua idade.
Como disseram os organizadores da expedição, não é possível saber, imediatamente, de que maneira a viagem vai transformá-los. Talvez fique apenas uma boa recordação - algo excelente, considerando as dificuldades com que se depararam em tão pouco tempo. Ou seja encontrado ali algum talento escondido, como a facilidade de Carlinhos na lida com os cavalos (os educadores querem conseguir um curso para o garoto).
É certo que a convivência em viagens é reveladora. Não há maneira melhor de conhecer alguém do que nesses poucos dias. Relacionamentos são reforçados, amizades encerradas. Para os meninos e meninas da Casa Taiguara, foi uma maneira de conseguir outras referências. De descobrir um mundo muito diferente ao que estão acostumados, de andar a cavalo e brincar no rio, ajudar os peões com o manejo do gado, trabalhar em grupo.
Para os educadores, a viagem ajudou a trabalhar aspectos psicológicos. Quem estava se sentido pertido teve a oportunidade de pensar num ambiente tranquilo, sem barulhos ou interrupções. Foi a oportunidade de descobrir maturidades e imaturidades e tentar encontrar novos caminhos para esses jovens.
Já para mim, que entrei no grupo como mera observadora, foi a oportunidade de conhecer um grupo incrível, inteligente e gentil, educado e cheio de sonhos, que não teve oportunidades. Digo, sem influência emocional ou exagero, que todas as vezes que me deparar com meninos dormindo sob viadutos, catando latinha na Praça da Sé, pedindo trocados na Praça da República, vou enxergar Flávio, Carlinhos, Clayton, Wallace, Leandro e tantos outros. E ter a certeza de que o futuro de cada um deles pode ser diferente.
Logo no primeiro dia, na Fazenda Santa Sophia, Beatriz Rondon perguntou se havia algum aniversariante no grupo. Cleiton ia completar 16 anos na sexta-feira, e ela logo determinou “vamos fazer um bolo”. O tal bolo se transformou em uma festa com fogueira alta e sanfona – tocada pela própria Beatriz.
Os meninos e meninas da Casa Taiguara aproveitaram também para agradecer a receptividade não só da dona da fazenda, mas dos funcionários da Santa Sophia que vinham acompanhando o grupo nas andanças pelo Pantanal. Em algum momento, alguém se lembrou de fogos de artifício armeazenados. E o São João estilizado de repente ganhou ares de Ano Novo.
A festa não pôde ir até muito tarde porque o dia seguinte seria puxado. Metade a cavalo e metade em trator, o grupo foi até o retiro, área de apoio dos peões quando estão levando o gado para outras pastagens.
A turma que foi na frente trabalhou: cortou madeira e montou a churrasqueira – um autêntico fogo de chão. Enquanto a comida não ficava pronta, alguns aproveitaram para pescar. Do outro lado da ponte, jacarés se aqueciam sob o sol quente, deixando a beira do lago tão lotada quanto um dia de verão em Copacabana.
Depois de forrar o estômago, uma sonequinha. Ou para quem preferiu ficar acordado, uma roda de tereré – espécie de chimarrão gelado muito usado pelos pantaneiros para matar a sede. O ritual é o mesmo. Tem de tomar a bebida até o final, encher a guampa novamente com água e passar adiante. Só quando se está satisfeito é que se diz obrigado.
A janta teve como extra os peixes pescados no retiro. Ninguém conseguiu ficar acordado muito além disso. O dia seguinte seria de praia. Mas em pleno Pantanal? Exato, praia de água doce é claro, em um dos braços do Rio Negro. Os jacarés até estavam pelas redondezas, mas acharam melhor se afastar das brincadeiras de pega-pega e cambalhotas que ocuparam toda a tarde.
De quebra, um passeio de barco e a oportunidade de ver capivaras, antas e o sempre presente tuiuiú – não à toa símbolo do Pantanal. Na volta, um pôr-do-sol espetacular e uma linda lua cheia. Apesar de haver mais um dia na fazenda, o show teve ares de despedida.
O grupo se levantou a tempo de ver o sol nascendo em um céu limpo e sem nuvens que se manteve ao longo de todo o dia. O motivo que tirou os meninos da Casa Taiguara da cama tão cedo foi um rodeio. Nada de música sertaneja, arquibancada, barracas de comida. Aqui, laçar bois e bezerros faz parte de mais um dia de trabalho.
O ritual é feito semanalmente na época conhecida no Pantanal como Aparição – ou seja reprodução. Nesse período, que vai de maio à outubro, é preciso marcar os bezerros que nasceram durante a semana. Parte do grupo acompanhou os peões a cavalo e o restante seguiu no trator até a área onde o gado estava reunido. Muitos estavam com dó dos animais. “Se eu tiver uma fazenda vou colocar um brinco neles para identificar, que não dói tanto”, dizia Tiago.
Os peões fizeram um fogueira para aquecer o ferro com a marca da fazendo Santa Sophia e começaram a laçar os bezerros um a um. Além dos que precisavam ser marcados, os funcionários trouxeram também os machucados, que tomaram vacinas e remédios. As crianças, então, se empolgaram e quiseram ajudar – não a marcar, mas a dominar os animais. Só uma menina se arriscou, Carol, que contou com a ajudinha dos colegas.O grupo retornou à fazenda para o almoço e depois da digestão foi hora de participar da rotina pantaneira mais uma vez e ajudar a juntar o gado espalhado.
Como preveria a Saracura, com seu canto noturno, o dia seguinte amanheceu nublado. Meninos foram acompanhar a castração dos bois para a engorda – onde meninas não podem participar. Isso porque, segundo a lenda local, quando uma mulher vê o processo, o boi morre.
Enquanto isso, as meninas saíram no jipe de Beatriz Rondon, a dona da fazenda, para conhecer outras áreas. O chacoalhar do carro entre o terreno lamacento arrancou gritinhos e muita risada. Araras azuis, um tuiuiú, garças e até um pica-pau foram o saldo do passeio. Ao final, caras felizes e uma constatação. “Estou aprendendo muita coisa aqui”, diz Carol.
Pouco mais de 24 horas depois do voo para Campo Grande ser cancelado por problemas meteorológicos, era hora de uma nova tentativa. As malas nem foram desarrumadas e mantiveram a exagerada quantidade de roupas de frio de dias de atrás. Na unidade Casa Verde da Casa Taiguara, ponto de encontro do grupo que iria ao Pantanal, os ânimos estavam bem mais calmos. Nada de passar a noite em claro: dessa vez, todo mundo achou melhor tirar um cochilo antes.
O aeroporto mais vazio e os trâmites de embarque agilizados por funcionários da companhia aérea já familiarizados com o grupo fez com que o check-in ocorresse com muito mais rapidez que na tentativa anterior. Dessa vez, tudo certo com o voo 6382 da Avianca, que decolou às 5h38, com apenas três minutos de atraso.
Dentro da aeronave as expectativas se multiplicaram. Taís e Caroline não conseguiram esconder o medo e choraram na hora da decolagem. Cidia, por sua vez, não parava de fazer perguntas, queria entender os detalhes que se escondiam por detrás do voo. E a viagem de duas horas seria apenas o começo da jornada.
O trajeto ainda incluiria outra viagem com duração de mais de 7 horas, dividida em várias partes. Primeiro, de van até o Refúgio Ecológico Caiman, em cerca de 4 horas. Depois de uma merecida pausa, outros 40 minutos no mesmo veículo até o Rio Aquidauana, onde foi servido o almoço: arroz, feijão, salada e torta de frango, com refrigerante para acompanhar. E frutas, bolo e goiabada de sobremesa.
No caminho, várias paradas para fotos. O sol voltou a brilhar depois de dias de chuva e frio intenso, e os animais resolveram aparecer para encantar os meninos e meninas da Casa Taiguara. Tuiuiús, gaviões, veados, tamanduás-bandeira, araras azuis e muitos, muitos jacarés se exibiram para os cliques frenéticos. Um descanso breve no redário e já era hora de pegar o terceiro meio de transporte do dia, o barco que nos levaria até a fazenda Santa Sophia, nossa base até a volta a São Paulo, no dia 27. Foram três viagens para trazer as 26 pessoas e as mais de 30 malas até a outra margem do rio. E, então, o último meio de transporte: o trator, única forma de atravessar a planície pantanosa até a fazenda.
O grupo desembarcou exausto, quase às 17 horas – ou seja, mais de 12 horas depois da partida da unidade Casa Verde –, mas ávido para conhecer os atrativos locais. Alguns até se animaram em jogar futebol com funcionários da fazenda, como é rotineiro nos fins de tarde na Santa Sophia.
Para caber todo mundo, foi preciso dividir meninos e meninas em três casas. Beatriz Rondon, proprietária da área, avisou: “Aqui vocês estão isolados.” Não era exagero. Nada de celular ou internet nos domínios da fazenda.
É por este motivo, aliás, que você está lendo este texto sem imagens – ele foi ditado pelo telefone fixo da fazenda para a Redação do Viagem. Mas prometo uma galeria com fotos incríveis ao fim da expedição. É só esperar para ver.
O encontro estava marcado para as 2h30 na Unidade Casa Verde da Casa Taiguara. Ali eu encontraria o grupo, formado por 26 pessoas – jovens em situação de risco social, educadores e voluntários – para uma viagem rumo ao Pantanal. Empresários cederam passagens aéreas, transporte e hospedagem para que meninos e meninas que vivem na casa, com idades entre 13 e 18 anos, passassem 9 dias na parte sul da planície alagada.
A ansiedade da experiência fez com que todo mundo passasse a noite em claro. Bolacha, café e vitamina de frutas ajudaram a forrar o estômago antes da chegada do ônibus nos levaria ao aeroporto de Guarulhos para pegar o voo das 5h35 até Campo Grande. Tiago, um garoto falante e animado, pergunta, antes do motorista acelerar: “Tio, a gente vai pegar a estrada?” Apesar de essa não ser a primeira viagem dos integrantes da Casa Taiguara – no Natal, um grupo ainda maior, de 70 pessoas, passou uma semana em Ubatuba -, a primeira viagem de avião conferia expectativa extra à aventura.

O trânsito livre da madrugada proporcionou que o percurso não levasse mais de meia hora, e às 3h30 já estávamos no aeroporto. Pausa para uma foto da galerinha repleta de malas antes de dar início ao check-in. A pasta de documentos é grande: o juiz precisa autorizar a viagem de cada um deles e a companhia aérea xeroca toda a papelada. Problema extra: uma das meninas não tem documentos originais, apenas xerox. Parece que ela não vai conseguir embarcar mas a Anac verifica os papéis emitidos pelo juiz e dá o ok final. Ufa.
O relógio passava das 4h30 quando todo o imbróglio foi resolvido e todos puderam, finalmente, entrar na sala de embarque. Os aviões estacionados no pátio, fazendo manobras, chamava a atenção. O embarque parecia iminente, mas… “Por causa de problemas meteorológicos, o Aeroporto de Campo Grande se encontra fechado. O próximo boletim será divulgado às 6 horas”, informou a atendente pelo autofalante, emendando um “pela atenção, obrigada”.
O avançado da hora fez com que um grupo tentasse cochilar sob a escada rolante. Outros jogavam cartas e houve quem preferisse apenas jogar conversa fora até que a hora do aviso seguinte chegasse, trazendo finalmente a notícia que… seria preciso esperar mais um boletim meteorológico, às 7 horas.
Quando os ânimos pareciam esmorecer, alguém reconhece a cantora Tati, da banda de reggae gaúcha Chimarruts. Meninos e meninas pedem para tirar fotos e são recebidos com sorriso, simpatia e muito bate-papo, desafiando o tempo que parece não passar na cadeira do aeroporto. “Já valeu a espera só para ver ela (Tati)”, diz Cidia, uma das fãs.
As conversas ainda giravam sobre o encontro com a cantora quando chegou o boletim derradeiro: a densidade da neblina cancelou os voos de todas as companhias para a capital sul-matogrossense. Decepção geral. Alguém diz que não quer voltar mais. Outro não entende porque aeronaves para outros destinos conseguem decolar, mesmo com as explicações técnicas.

É preciso telefonar para Campo Grande, remarcar os transfers, conseguir uma maneira de retornar à Casa Verde. O preço do Airport Bus Service até a Barra Funda (R$ 31 por pessoa) inviabiliza a volta. Mas o empresário que cedeu o ônibus escolar para levar os meninos até o aeroporto concorda em buscá-los novamente. Só seria preciso esperar.
Com as passagens remarcadas para a madrugada de segunda para terça-feira e tempo para descansar da infortúnia maratona, quase todos usaram os bancos para cochilar e se recuperar para a aventura de fato. Se o tempo melhorar, é claro. São Pedro, dá uma ajudinha?
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