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Viagem

Felipe Mortara

Viajantes não são todos iguais. Portanto, não é de se espantar que haja lembrancinhas de viagem voltadas aos mais variados públicos. No entanto, nos últimos tempos, alguns países da Europa têm se sentido, digamos, incomodados  diante de produtos que supostamente ofendem a moral e os bons costumes.

Na Itália, por exemplo, prefeitos de cidades da Toscana têm conseguido multar em € 500 comerciantes que vendem  objetos de gosto duvidoso, como cuecas e camisetas que fazem alusão fálica à Torre de Pisa.  Mas será que as autoridades vão conseguir limitar o senso de humor dos turistas por muito tempo?

Foi também com o humor, ou melhor, com o sarcasmo de certos souvernirs que a prefeitura de Barcelona implicou e retirou de circulação. Por lá estavam sendo vendidos broches e imãs de geladeira que ironizavam aspectos ruins da cidade, como a prostituição, batedores de bolsas e carteiras, assim como a truculência policial. As lembrancinhas foram desenhadas pelo arquiteto Arcadi Royo e a designer Margalida Montoya, e estavam sendo vendidas nas lojinhas dos museus de história e de arte contemporânea.

Segundo um porta voz do governo local, a medida foi tomada porque os objetos não transmitiam a imagem que a cidade quer passar. Para os criadores, trata-se de censura, e dizem defender a liberdade de expressão e de crítica com senso de humor.

E você,  o que acha?

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Na semana passada, quando foi lançado o edital do leilão de concessão do trem-bala que ligará Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro, Lula afirmou que acha plenamente possível inaugurar a mega inovação antes dos Jogos Olímpicos de 2016. Se a suposição do presidente virar mesmo realidade, este será um dos passos importantes para alavancar ainda mais o potencial turístico da região sudeste.

E por que mais algum país desejaria ser sede de eventos esportivos de grande porte se não para investir em infraestrutura? O Brasil tem grandes exemplos passados a se espelhar e, ao que tudo indica, Barcelona é o melhor deles.

Antes dos Jogos Olímpicos de 1992, a zona portuária da cidade catalã estava decadente, com baías poluídas e sem nenhum tipo de atrativo. A Vila Olímpica que receberia atletas do mundo todo foi planejada justamente para aquela região, fazendo-a renascer e transformando-a em um centro moderno, cultural e com vida noturna. Hoje, bares, restaurantes e baladas da Barceloneta, como é conhecida a área, está no roteiro de todos os turistas que visitam o destino.

Barceloneta pós Jogos 1992: parada obrigatória dos turistas. Foto: Mônica Nóbrega/AE

Barceloneta pós Jogos 1992: parada obrigatória dos turistas. Foto: Mônica Nóbrega/AE

Os apartamentos usados pelos esportistas viraram opção de residência para os moradores – que podiam comprá-los a preços subsidiados. Os centros esportivos que foram erguidos para os Jogos se tornaram áreas de lazer, sempre com muito verde e atraindo famílias e visitantes.

O transporte público foi totalmente remodelado, com total integração entre as linhas de trem, metrô e ônibus.

O porto passou a ser o principal no Mediterrâneo. Os apartamentos usado pelos esportistas viraram moradias. A população pôde comprar os imóveis a preços subsidiados, o que fez o governo local reduzir o déficit habitacional. Atualmente, Barcelona tem uma rede de metrô de 164 quilômetros, com 125 estações -  enquanto o Rio dispõe, hoje, de 42 quilômetros e somente 33 estações.

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Andei muito de bicicleta na adolescência, mas o trânsito cada vez mais intenso de São Paulo  foi me desanimando, desanimando até que aposentei completamente a magrela, que ficou anos a fio enferrujando na garagem de casa. A paixão pelo pedal só foi retomada recentemente em Berlim, em um tour sobre a história do muro. Tudo bem light, mas suficiente para fazer com que na mesma viagem,  já em Barcelona, eu usasse a bike como um excelente meio de transporte.

Comparando Berlim e Barcelona, não há dúvidas de que a capital alemã é mais amigável aos ciclistas. Há ciclovias por todas as partes, ora na própria rua, ora nas calçadas – rebaixadas em todas as esquinas. O asfalto liso e as calçadas padronizadas permitem que se possa pedalar tanto apressado, como fazem os moradores, como apreciando a paisagem, o corre-corre da cidade, os grafites. Sem o risco de cair num buraco.

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Bundestag, em Berlim

No metrô, existem vagões próprios para transportar a bike, com áreas livres para se encostar com a magrela sem atrapalhar a passagem de ninguém. Dá para perceber que a cultura de andar de bicicleta passa de pai para filho: crianças de todos os tamanhos pedalam nas cilovias ou, quando são pequenas demais para isso, vão em cadeirinhas junto com os pais. Há quem pedale antes e depois da balada, para ir e voltar do trabalho, de salto alto e sobretudo. De cachecol e gorro, no inverno. De bermuda e boné, no verão.

Barcelona tem menos ciclovias (em algumas avenidas, é preciso disputar espaço entre os táxis e ônibus) e algumas ladeirinhas enjoadas – melhor deixar a bike de lado se o destino for o Parc Güell, por exemplo. Mas não há nada que se compare a pedalar pela Barceloneta em um dia de sol. 

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Barceloneta. Fotos Adriana Moreira/AE

Além de uma ótima opção de passeio, pedalar na cidade espanhola é também um eficiente meio de transporte. Você desce do metrô e ao invés de pegar um ônibus o que faz? Passa o cartão exclusivo dos moradores (que pagam cerca de 30 euros por ano para usufruir do serviço) e sai pedalando. O programa Bicing oferece bicicletas públicas, com pontos espalhados por toda a cidade. Depois de usar, é só devolver na estação – de Bicing, não de metrô, que fique claro – mais próxima. Literalmente, uma mão na roda.

Depois de um mês usufruindo desta confortável e saudável rotina, voltei a São Paulo, disposta a enfrentar todos os percalços e selvagerias da metrópole para continuar a pedalar. Descobri, por exemplo, que andar de bicicleta no Parque do Ibirapuera à noite é incrível. Tranquilo, sem ser deserticamente perigoso. De quebra, uma bela vista da cidade com as luzes refletidas no lago.

A ciclofaixa, que liga o Parque das Bicicletas ao Parque do Povo, aos domingos, é bacana. Mas insuficiente. Sem nem entrar no mérito de haver poucas horas de apenas um dia da semana para ter a preferência em um pequeno trecho de ruas, só há duas opções para chegar até o início da ciclofaixa: ir de carro ou acender uma vela para o anjo da guarda e andar pelas avenidas. Calçadas? Como enfrentar degraus e buracos, frutos da falta de padronização, além dos carros estacionados? O meio-fio alto também dificulta - e não apenas para os ciclistas, mas também para os deficientes físicos e mães com carrinhos de bebê.

Por aqui, a Porto Seguro também criou sua versão do Bicing de Barcelona, o UseBike. Uma iniciativa louvável e pioneira, mas que esbarra nas dificuldades da falta de estações para devolução da magrela. Merecia mais divulgação, parceiros, estações.

É claro que não dá para destrinchar todos esses aspectos em apenas um post. Em breve, voltaremos no tema. Mas, enquanto isso, respondam: que outras cidades são bacanas para pedalar?

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12.maio.2010 15:18:05

Lost em Barcelona

Do lado de fora, o hexágono emoldurando o trocadilho com a marca mais consumida na Ilha de Lost revela que estamos no lugar certo. Vindos não de um acidente aéreo, mas da estação de metrô Llacuna, ali pertinho, a faixa “Namaste new recruits” dá as boas-vindas ao Bharma, o divertido bar para os aficionados por Lost.

Já na entrada, avista-se a parte traseira do avião (cheia de galhos e cipós) que trouxe os personagens de Lost diretamente do aeroporto de Sydney para o maior perrengue de suas vidas. A porta da escotilha descoberta na primeira temporada da série fica perto de um dos dois bares do espaço.  Espaço, aliás, que não é muito grande: quatro ou cinco mesinhas redondas com bancos altos e um balcão estreito nas paredes laterais compõem quase toda a mobília do Bharma.

Fãs de Lost se divertem ao redor do avião acidentado. Foto Adriana Moreira/AE

Quase, porque ainda faltam as duas televisões LCD que passam temporadas diferentes da série continuamente. Sem som: afinal, fã que é fã sabe de cor e salteado o que está acontecendo no episódio. Com a iluminação baixa, o DJ capricha na trilha sonora com o melhor do rock e do pop no volume exato que permite tanto que você arrisque uns passos nas suas músicas favoritas como consiga conversar sem ter de gritar no ouvido de ninguém.

A mistura faz com que mesmo quem  não seja fã da série consiga se divertir a valer por lá. Talvez pela localização afastada do Gracia, o bairro oficial das baladas em Barcelona, o Bharma não chega a ser um endereço turistão. Não cobra entrada e a cerveja (de marca própria e bem honesta) custa 3 euros, um alívio em relação às boates que chegam a extorquir 8 euros por uma gelada.

A honesta cerveja temática do Bharma. Foto Adriana Moreira/AE

No fim da noite, você ainda pode levar uma das lembrancinhas para casa: caneca com a marca Bharma, a tal cerveja de marca própria ou camisetas diversas. Kit completo para acompanhar, roendo as unhas, o último episódio da série, que vai ao ar nos Estados Unidos dia 23 – 25 por aqui.

Decorando a entrada, uma referência à primeira temporada da série

Decorando a entrada, uma referência à primeira temporada da série. Fotos Adriana Moreira/AE

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Para os admiradores de arquitetura você pode contar que foi a Eixample vistoriar as Casas Milà e Batlló, obras-primas do delirante Antoni Gaudí. Com os consumistas, use o argumento de que esteve nesse charmoso bairro de Barcelona para conferir vitrines Armani, Burberry e Louis Vuitton. Mas só revele a verdade aos amigos: o arquiteto catalão e as grifes estiveram em seu caminho. O prazer máximo, porém, você encontrou na Cacao Sampaka.

Vitrine parece joalheria Carla Miranda/AE

Vitrine parece joalheria – Carla Miranda/AE

A chocolateria nasceu em 2000, marcada pela estrela de Albert Adrià (sim, o irmão caçula de Ferrán), e utiliza em suas criações apenas o mais puro chocolate cubano, equatoriano, venezuelano, brasileiro… Em tempo: Albert desistiu da sociedade, mas suas invencionices continuam dando o tom.  

A loja de Eixample – o nome significa extensão, em catalão, pois o bairro surgiu quando Barcelona não tinha mais para onde crescer – foi a primeira da grife, que agora tem unidades em lugares tão diferentes quanto Dubai e Tóquio. Quando estiver na esquina da Rambla Catalunya com a Calle Consell de Cent, recém-saído das tais butiques do Paseo de Gracia, reduza o passo. A fachada negra e a vitrine com visual de joalheria podem fazer você passar direto pela Cacao Sampaka. Lembre-se disso e fixe o endereço para não correr riscos: número 292 da Consell de Cent.

 

As joias da Sampaka - Carla Miranda/AE

As joias da Sampaka – Carla Miranda/AE

A entrada já é uma festa, com chocolates de todos os formatos dispostos em cestos retangulares de vime. Há também embalagens com palitos de laranja amarga cobertos de chocolate escuro, amêndoas com chocolate branco, barras de chocolate com flocos de arroz. Enfim, você pode se perder sem antes ver as “joias” da Cacao Sampaka.

São oito coleções. Especiarias, Flores e Ervas, Vinhos, Licores e Aguardentes, e Inovações Gastronômicas estão entre as caixinhas prontas para degustação. Mas você pode montar sua própria seleção, como eu fiz. Minha atenção se voltou primeiro para a seção das inovações. De lá retirei um bombom de trufa negra do bosque, que deixou algo de tempero na boca. E outro de queijo parmesão, de sabor bem pronunciado a princípio, mas que se equilibrou aos poucos. O melhor dessa linha foi o de azeite, que confere textura ao recheio molengo de chocolate amargo.

Na sequência, investi nas Especiarias: pimenta da Jamaica (envolvente), açafrão (perfumado) e café com cardamomo (amarguinho sensacional). As flores foram uma decepção, com um quê de sabonete. Entre as bebidas, palmas para o bombom de cassis, um dos melhores da seleção que fiz naquele dia. O de avelã também agradou.

Antes de você deixar a Cacao Sampaka, vá até o fundo da loja, onde há um pequeno café, e confira o cardápio de chocolates cremosos, nas versões tradicional (cacau 70% e canela), azteca (cacau 80% e especiarias) e suíço (chocolate com chantilly). Uma orgia para chocólatra nenhum botar defeito.

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