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Redescubra o Harlem em roteiros alternativos

Fabio Vendrame

terça-feira 22/04/14

Os corais gospel ainda estão lá, mas o centro afro-americano em Manhattan tem mais: alma latina, bares descolados e um quê de história Seth Kugel / NOVA YORK / THE NEW YORK TIMES No século 18, a metade norte da Ilha de Manhattan servia como bucólico refúgio para os nova-iorquinos que podiam pagar o preço e [...]

Os corais gospel ainda estão lá, mas o centro afro-americano em Manhattan tem mais: alma latina, bares descolados e um quê de história

Seth Kugel / NOVA YORK / THE NEW YORK TIMES

No século 18, a metade norte da Ilha de Manhattan servia como bucólico refúgio para os nova-iorquinos que podiam pagar o preço e dispunham de uma charrete com cavalos para levá-los até lá. Hoje em dia é mais fácil visitar a região (a linha A, Eight Avenue Express, que passa pelo Harlem, é apenas uma das muitas rotas de acesso) e se deslocar por ela, com a abundância dos modernos táxis verdes nos bairros em que antes era raro encontrar os táxis amarelos.

Há também muito mais para fazer atualmente. O Harlem, assentamento holandês que se converteu na capital negra dos Estados Unidos, está passando por uma gentrificação: uma mistura de antigo e novo, de missas nas igrejas frequentadas pelos negros até bares modernos frequentados por jovens profissionais de todas as raças.

Enquanto isso, mais ao norte, entre a casa mais antiga da ilha e seu maior pedaço de terra não urbanizada, há um bairro latino do tipo que não se vê mais ao sul do Central Park. Abaixo, um roteiro de fim de semana para desbravar o pedaço. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

SEXTA-FEIRA: Depois das trilhas, enchiladas
Pegue a linha A (Eight Avenue Express) do metrô – mas não até o Harlem, como diz a música famosa, gravada até por Ella Fitzgerald. Em vez disso, vá até o fim, na estação de 207th Street, bairro de Inwood. Alguns quarteirões a oeste há uma Manhattan irreconhecível (a não ser para os membros da tribo Lenape, habitantes originais da ilha).

O Inwood Hill Park tem montanhas, cavernas e florestas que se abrem para revelar vistas do Rio Hudson e de Spuyten Duyvil Creek. É lá que fica Shorakkopoch Rock, onde teria ocorrido a compra da Ilha de Manhattan da tribo Lenape por Peter Minuit. As trilhas são um emaranhado labiríntico (mal sinalizado), por isso, imprima o PDF do mapa se não quiser colher frutinhas silvestres para o jantar.

Melhor ir ao La Condesa (3.508 Broadway), aconchegante e de alto padrão, que serve uma deliciosa enchilada. É também opção para um drinque – as sofisticadas margaritas (US$ 8,50) têm variações de infusões caseiras, como a de mezcal com chipotle e abacaxi.

Continue os trabalhos em Washington Heights, bairro predominantemente dominicano desde os anos 1980. Ali Margarita Santana pilota o Margot (2.822 Broadway), restaurante simpático de ótima reputação. Os sorrisos complementam o inglês limitado dos funcionários enquanto a mesa desaparece sob travessas de bife com cebolas (US$ 13) e bode cozido com arroz, feijão vermelho e bananas fritas com arepas de yuca sabor anis (US$ 12).

O clima latino segue noite adentro – faz tempo que Washington Heights e Inwood têm casas do gênero, mas antigos estabelecimentos movidos a merengue deram lugar (em parte) a clubes modernos estilo lounge. O Apt. 78 (na 189th Street com a Fairview Ave) é uma casa noturna cujo nome remete ao antigo clube Apt, que ficava no Meatpacking District. Jovem, o público gosta de reggae e hip-hop tanto quanto de ritmos latinos. Na primavera, o melhor lugar é o La Marina (348 Dyckman Street), às margens do Rio Hudson. Dali, todos têm uma bela vista da ponte George Washington.

SÁBADO: Pegada africana no berço do bebop
A Serengeti Teas and Spices (2.292 Frederick Douglass Blvd.) é a primeira loja da empresa de chás da liberiana Caranda Martin nos Estados Unidos e, por trás do balcão de mogno e mármore, o dono pode sugerir o chá preto Masai Lion’s Head (US$ 4), com toques defumados, para começar o dia. Esqueça os salgados e doces e peça um rugelach (US$ 1, torça para vir com um damasco) quentinho e crocante na Lee Lee’s Baked Goods, a poucos quarteirões dali.

Depois, a sugestão é um roteiro de 2,4 quilômetros: comece na Frederick Douglass Boulevard – conhecida como corredor de restaurantes, mas também com lojas estilosas – e siga para o leste para ver sinais da população com origem na África Ocidental (repare nos cestos senegaleses da Adja Khady Food Distributor). Entre na Lenox Avenue e vire para o oeste na 125th Street, a principal via do Harlem – recentemente ocupada pela American Apparel e lojas do tipo, sem perder os camelôs vendendo baralhos com fotos de Obama.

No centro do bairro, o Studio Museum in Harlem traz artistas da diáspora africana; dali, rume ao Billie’s Black para um almoço gourmet: filé de peixe-gato cozido sobre carne de caranguejo (US$ 14). Ou vá para o leste até o Harlem hispânico, lar espiritual da comunidade porto-riquenha, e visite El Museu del Barrio (1.230 5th Ave.) antes de almoçar mofongo de pernil (banana frita amassada com pernil assado) olhando as obras de arte da La Fonda Boricua.

Erguida em 1765, a Mansão Morris-Jumel, onde George Washington dormiu (e planejou batalhas) em 1776, mantém intacta sua mobília de época e é a casa mais antiga de Manhattan – fica na 65 Jumel Terrace. Se for até lá, pare na Jumel Terrace Books, livraria que atende com hora marcada, especializada em história local. O proprietário, Kurt Thometz, mora no andar de cima e deve saber mais sobre Uptown do que todos os seus livros somados.

A noite pode render no Milton’s Playhouse – o original, dos anos 1940, berço do bebop, fechou nos anos 70. Mas um novo Milton’s acaba de nascer na forma de clube noturno, projeto do ex-diretor executivo da Time Warner, Richard Parsons, e do inovador da culinária sulista, Alexander Smalls. À mesa, garoupa com cremolata acompanhada de espinafre refogado (US$ 36).

DOMINGO: ‘Aleluias’ e uma surpresa com ar medieval
A visita a uma igreja batista, com pastores pregando, coros dançantes de música gospel e a animada congregação que os acompanha em todos os passos já se tornou um programa básico do turismo no Harlem. Escape das filas e vá até a Canaan Baptist Church of Christ com a Harlem Heritage Tours; o pacote de US$ 39 inclui um passeio após a missa, orientado pelo enérgico Neil Shoemaker, nativo do Harlem que faz questão de dizer isso o tempo todo, ou Andi Owens, um guia de 85 anos que conhece no mínimo uma tirada engraçada para cada ano de vida que tem.

Depois da bênção, a comilança. A julgar pela primeira impressão, seria de se pensar que os moradores do Harlem lotam o iluminado e animado Lido nos almoços de domingo para provar a mimosa (coquetel cítrico à base de champanhe) de US$ 13. Mas o verdadeiro destaque é a comida. É claro que o cardápio traz todos aqueles pratos derivados das panquecas e da maionese, mas o restaurante é italiano e, por isso, prove o ravióli de abóbora com creme de gengibre, salpicado com xarope balsâmico e sálvia (US$ 18). Ou faça uma concessão meio italiana, meio brunch: o amanteigado panini de ovo com queijo de cabra, bacon e tomates (US$ 13).

Antes de partir, siga para o Fort Tryon Park, que oferece impressionantes vistas do Rio Hudson e das Palisades de Nova Jersey, mas é mais conhecido pelos Cloisters, parte do Metropolitan abrigada em um edifício semelhante a um monastério, com três jardins de claustro parcialmente construídos a partir de elementos arquitetônicos de estruturas medievais transportadas desde o outro lado do Atlântico. No interior há esculturas, vitrais e manuscritos com iluminuras, e talvez as obras medievais mais famosas do Met, as Tapeçarias do Unicórnio.