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Viagem

24.março.2009 17:38:37

A alegre e musical Havana

O Cadillac americano e o Lada russo estão lado a lado. Em Havana, a cena representa um dos poucos exemplos de convivência natural entre ícones de  undos tão diferentes. A capital do único país socialista do Ocidente tem  uma relação ambígua com o avanço do capitalismo, que conquista espaço aos  poucos, pelas frestas. 

Alegre, colorida e musical, a cidade transpira experiências intensas, a  começar pela forma como seus habitantes abordam os estrangeiros: sempre  prontos a vender qualquer coisa, seja produto ou serviço, por preço  invariavelmente exorbitante. Guias turísticos de ocasião surgem aos montes e  não é exatamente fácil dispensá-los, mas faça isso. Para manter a salvo seus  caros pesos conversíveis, mas também porque Havana é para ser vista e vivida  no seu próprio ritmo. 

Em Havana, artistas de rua se apresentam em feira de livros ao ar livre. Foto Mônica Nóbrega/AE

Em Havana, artistas de rua se apresentam em feira de livros ao ar livre. Foto Mônica Nóbrega/AE

O que não significa ficar afastado de todo e qualquer cubano. Ao contrário.  Com alto nível educacional e extremamente politizados, eles são ótimos interlocutores. Basta identificar as oportunidades de conversa. 
Que podem surgir na visita a lugares como o Capitólio, no Paseo de San Martí  (entrada a 3 pesos conversíveis ou R$ 6,49). O prédio mais fotografado de  Havana é cópia do de Washington, mas foi erguido em 1929 – muito antes,  portanto, de os Estados Unidos tornarem-se o inimigo número 1 de Cuba. Foi  sede do parlamento e endereço de episódios históricos. Do alto da escadaria  principal Fidel Castro celebrou o triunfo de sua revolução – a foto continua  exposta lá dentro. Hoje, além de museu, o prédio é sede da Biblioteca  Nacional de Ciência e Tecnologia.
Atrás do Capitólio começa o bairro de Centro Havana. Aproveite e passe na fábrica de charutos Partagas, fundada em 1845, a mais tradicional do país, e na Chinatown local. 
A fachada principal do Capitólio está voltada para Havana Velha, o bairro turístico da capital. Há praças arborizadas, prédios de arquitetura colonial espanhola transformados em museus, rum e charutos nas esquinas. Carros são proibidos de circular no perímetro, o que torna o local ainda melhor para caminhadas curiosas. 
Um dos aspectos apaixonantes de Havana é a forma como moradores ocupam o espaço público. Cadeiras e varais invadem as ruas. Áreas mais amplas, como a  recém-reformada Plaza Vieja e a frente da catedral, monumento do século 18, viram campo improvisado de beisebol, o esporte nacional. 
Bem perto da avenida costeira, a Igreja de São Francisco de Assis fica no  centro de um largo que lembra as pracinhas góticas de Barcelona, com cafés e mesas ao ar livre. Nas ruas ao redor espalham-se galerias de arte. Adiante está a Praça de Armas, onde Havana nasceu, endereço de uma feira de livros ótima para encontrar obras sobre os heróis nacionais. Completar o tour por  Havana Velha inclui descer o Passeio do Prado pelo canteiro central até o  Malecón, o calçadão à beira-mar. Por seus seis quilômetros chega-se a pé ao Vedado, bairro construído entre 1940 e 1950. Há uma saborosa justificativa  para ir até lá: a sorveteria Cooppelia, na Calle 23.

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Cuba. Só essa combinação de um nome e um ponto final seria suficiente para  encher de significados as fotos desta página, ainda que mais nada houvesse  escrito nas próximas linhas e parágrafos. Cuba atrai interesses desde meados  do século 20 como nenhum outro país e desperta pelo caminho reações  fervorosas de amor e ódio.  A respeito da ilha todos têm suas crenças, independentemente de já terem ou  não pisado em seu território.

Havana, Cuba. Foto Mônica Nóbrega/AE

Havana, Cuba. Foto Mônica Nóbrega/AE

Matéria-prima para tanto não falta. Estamos em  pleno ano do cinquentenário da revolução que levou Fidel Castro ao poder. Só  no último mês, fuga de boxeadores, anúncio do fechamento da prisão de  Guantánamo e troca de dez ministros foram temas explosivos que frequentaram  o noticiário, ainda mais atento desde que o comandante passou o poder a seu  irmão Raúl. Cuba está em transformação. Na medida para viajantes curiosos. 
Se você quiser, a ilha pode ser apenas mais um destino caribenho, com  resorts e praias na badalada Varadero – na verdade, o Caribe tem pontos com  águas até mais azuis. Essa é uma forma de relaxar sem pensar em nada, mas  também de passar batido pelo que Cuba tem de singular. Toda a herança  comunista e o modo muito próprio de viver dos seus habitantes ficam mais  evidentes quanto mais longe se está de Havana e seus bairros históricos. 
De todo modo, a viagem começa na capital. Turistas, cerca de 2 milhões por  ano, chegam pelo Aeroporto José Martí e devem levar idêntico susto diante do  cenário inacreditavelmente arruinado que se revela conforme o táxi avança.  Sem manutenção desde que os revolucionários tomaram o governo, faz pouco  tempo que a cidade começou a colocar em prática um tímido plano de restauro.
As primeiras reformas miraram o bairro de Havana Velha e o Malecón, o  calçadão à beira-mar.  Seis dias são um bom intervalo para ver as principais atrações de Havana e ter tempo de flanar pelas ruas sem direção definida, ao sabor das descobertas, entre mojitos, charutos e muita música. Depois dessa primeira  imersão, meu roteiro seguiu por outras três cidades, de oeste a leste do  país, escolhidas pela sua importância histórica e pelas possibilidades de  contato com a cultura local. 
A viagem pelo interior permite conhecer mais peculiaridades do país.  Trinidad, Santiago de Cuba e Baracoa são diferentes entre si e da capital.  Nelas há resquícios do passado colonial misturados às casas térreas de  poucos cômodos, cobertas por lajes simples, típicas da arquitetura  comunista.
Nessas cidades, palavras de ordem sobrevivem em muros gastos pelo tempo e seus moradores defendem com mais fervor o sistema político. Orgulham-se de suas escolas. Mas nem por isso deixam de lamentar sua condição de prisioneiros do próprio país (em Cuba, só se viaja ao exterior com uma autorização especial do governo e data para voltar).  Lamentam também o apartheid social em que vivem em relação aos estrangeiros. Tudo em Cuba, lojas, restaurantes, transporte, tem duas versões: a que cobra em pesos conversíveis, moeda turística com valor variável entre o dólar e o euro, e a cotada em pesos cubanos.
Diante disso, minha opção por seguir de ônibus se mostrou inócua para atender ao objetivo de viajar na companhia de cubanos. As passagens nos veículos com ar-condicionado da Viazul têm preços proibitivos para os nativos. O trecho entre Havana e Trinidad, por exemplo, custa 27 pesos conversíveis, equivalentes a US$ 30, mais que os US$ 20 (R$ 46) mensais que correspondem ao salário médio de cada habitante. Os ônibus para moradores cobram em moeda local, vetada aos estrangeiros.
Certifique-se de ter um espírito mochileiro para optar pelos ônibus. Os deslocamentos são longos e é preciso levar lanche para compensar a alimentação precária nos trajetos. Em compensação, o público que viaja assim  está interessado tanto no caminho quanto no destino. São estrangeiros tão dispostos quanto eu estava a conversar, a trocar impressões e sensações sobre Cuba. Porque, você verá, cada descoberta na ilha surpreende, abala certezas e revela novos aspectos de uma vida em tudo diferente da nossa.  Nessa viagem, as conclusões são o que menos importa.

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18.março.2009 20:47:46

Bêbados a bordo

Sem enviar noticias de seu atual paradeiro, nosso correspondente apenas responde a correspondência da semana:

Mr. Miles: está muito claro que o senhor aprecia beber seu scotch e espero que o faça com moderação. Não há nada mais desagradável do que viajar, num vôo longo, ao lado de um bêbado. O senhor não concorda?
William Gonzales, por email

Well,my friend: depende do bêbado, se me permite. A mim, for instance, incomoda voar ao lado de pessoas mal-cheirosas ou excessivamente perfumadas. Também me desagradam os passageiros desrespeitosamente espaçosos, que ocupam, sem consulta prévia, os braços das poltronas, apoiam seus joelhos sobre as vértebras do vizinho da frente and so on. Os bêbados, in fact, estão sumindo das companhias aéreas. Houve um tempo, indeed, em que a bebida farta vertia generosamente das garrafas de aeromoças sorridentes. Nowadays, however, o máximo que se obtém na maior parte das aerovias são doses pífias, previamente engarrafadas e olhares recriminadores quando se ousa solicitar um refill. It’s disgusting, isn’t it? Ainda outro dia, em um vôo entre Londres e Atlanta, a comissária de bordo teve o desplante de oferecer-me uma dose de whisky dentro de um sachê similar aos que as lanchonetes de má qualidade usam para servir mostarda e os hotéis vulgares para oferecer shampoo. Trashie, que estava, as always, silenciosa aos meus pés, teve um mal súbito ao ver o desprezível whisky em saquinho. Foi preciso que eu usasse a minha velha amizade com o comandante do avião — o bom Frank Taylor —, para obter, no bar da Primeira Classe, duas garrafinhas de single malt que tiveram o condão de trazê-la de volta aos sentidos.
Anyway, sou obrigado a concordar com sua tese, no que diz respeito aos bebedores exagerados de outros tempos, quando era permitido trazer líquidos a bordo. Certa feita, viajei ao lado de um simpático otorrinolaringologista que, entretanto, após ingerir uma quantidade notável de gin and tonic, cismou que precisava examinar meus ouvidos. Tanto fez meu vizinho, que fui obrigado a despejar um sonífero no seu copo, providência que, by the way, resolveu o problema.
Confesso, however, que o excesso de sobriedade também pode ser um porre. Diversas vezes me ocorreu de ter de ouvir sermões de passageiros que só bebem água, indignados, oh my God!, com a presença de Trashie na cabine. Aos olhos da lei, of course, eles estão cobertos de razão. Minha raposa-das-estepes-siberianas deveria viajar no compartimento de cargas, ao lado de outros animais de porte médio. Ocorre que Trashie é uma lady — e uma viajante experimentada. Senta-se sob a minha poltrona, não emite um único ruido durante o vôo e é incapaz de saciar suas necessidades antes de desembarcar em local apropriado. As comissárias que a conhecem (e pode ter certeza de que são muitas), fazem, therefore, vistas grossas para sua delicada presença na cabine. Nada disso, porém, impede que os chatos de plantão entrem em ação as soon as possible.
Enfim, fellow, é como dizia, wisely, meu caro Winston (N.da R.: Winston Churchill, estadista inglês): ” Miles, my friend: existem dois tipos de bêbados absolutamente insuportáveis: os que bebem demais e os que bebem de menos”. Don’t you agree?

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Ora, porque aposto que você também adora bodas nupciais e acompanhou o
malfadado casamento entre our Prince Charles and the beautiful Diana. Pois saiba que foi no castelo medieval que domina esta simpática cidade cipriota – também chamada Limassol – ,que um antigo soberano nosso de muito maior reputação, o célebre Rei Ricardo Coração de Leão contraiu matrimônio com Berengaria de Navarra, cuja beleza era
incomparavelmente melhor que seu nome. E já que você está em Lamasos,
não deixe de aproveitar a very warm costa azul do Mediterrâneo, com muitas e muitas imersões, para, of course, curar a ressaca do extraordinário pifão que lhe dará, na noite anterior, a deliciosa degustação de um autêntico mezedes. Trata-se, fellows, de uma espécie de coleção de tapas cipriotas, que incluem azeitonas, frutos do mar, carnes diversas, a deliciosa skordalia (uma temperada mistura de
batata com alho) – numa quantidade que, usually, supera o total de trinta alentadas porçõezinhas. Que, believe me, é costume tomar na companhia do agradável vinho local, em taças intercaladas com tragos de zivania, um aguardente mais poderoso do que as boas vodkas. Depois da farra, dizem, há quem encontre Berengaria e Ricardo caminhando pela cidade. Can you believe me?

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A propósito da questão do confisco de guarda-chuvas no consulado americano de São Paulo — a que nosso grande viajante referiu-se na semana passada —, alguns leitores, como Suzana Mello e Carla Miranda, anunciaram que vão se lembrar de levar capas na bolsa quando precisarem atualizar seus vistos para aquele país. Mr. Miles, que levou sua cadela Trashie para passear na ilha de Rhodes — onde a primavera começa a dar as caras —, enviou-nos, pouco antes de partir de Londres, a sua colaboração semanal.


Mr. Miles: gosto de ler suas crônicas semanais. Acho, porém, que o senhor não viaja no mesmo nível que eu. Parece-me que o senhor gosta mesmo é de luxo. Estou certo?

Cosimo Nandi, por email

Well, mio caro Cosimo: dessa distância, I believe, fica muito difícil que eu avalie qual é o seu nível de viagem para estabelecer uma comparação confiável. Don’t you agree? However, se você vem acompanhando minhas mais que dispensáveis narrativas, há de ter percebido que sou o que se pode chamar de um viajante eclético. Unfortunately, a fortuna que herdei de uma longínqua contraparente esvaiu-se há muitas décadas. Como você sabe, o que me permite continuar perambulando mundo afora são os amigos que conquistei durante esse tempo, muitos dos quais são meus compadres e afilhados que, felizmente, me convidam a visitá-los com frequência. Além, é claro, dos inúmeros planos de milhagem dos quais me tornei sócio remido enquanto desfrutava do inesquecível (porém finito) legado.
Nowadays, sinto-me igualmente à vontade em uma pequena hospedaria no interior do Perú, dividindo o quarto com galinhas e cuyes (N.da R.: espécie de porquinhos-da-India, muito apreciados na gastronomia peruana), ou num hotel de sólida reputação e mobiliário refinado em Viena ou Chicago.
Que péssimo hóspede eu seria, by the way, se assim não me comportasse quando confrontado com a generosidade de quem me recebe com um abraço e um sorriso franco.
A meu ver, Cosimo, o nível de uma viagem é resultado direto da qualidade do viajante — muito mais, anyway, do que de seu poder de compra. Aqui mesmo, nesta ilha de Queen Elisabeth, vivem inúmeros cidadãos de posse que levam sua empáfia para perambular por terras estrangeiras, hospedam-na em suítes imperiais, servem a ela os melhores vinhos e as mais nobres iguarias mas, my God, são incapazes de lançar um único olhar para as cidades em que se encastelam ou para o povo que carrega suas malas.
São de nível muito superior, in my opinion, os que, com qualquer quantidade no bolso, levam a argúcia para viajar. Porque, ao contrário da empáfia, ela lhes revela soberbos detalhes em qualquer situação. Quem conduz a sagacidade em suas jornadas, está sempre pronto a farejar um encanto, vislumbrar uma descoberta adquirir um ensinamento.
Esse é o verdadeiro luxo que me atrai, fellow. O que não significa, of course, que eu seja refratário à hotéis espantosamente requintados, com suítes extraordinariamente amplas, camas vergonhosamente confortáveis, restaurantes gloriosamente apetitosos e outros pequenos prazeres que só muito dinheiro (or great friends) podem proporcionar.

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25.fevereiro.2009 13:00:04

O enigma do guarda-chuvas

Olá Mr. Miles,

Veja o que me aconteceu no consulado americano de São Paulo. Cheguei bem cedo para evitar as longas filas e conseguir o visto. Como estava chovendo, tive de comprar um guarda-chuvas. Relutei, no início, pois custava R$20,00. Como chovia forte, porém, não tive muita escolha. Quando entrei para a entrevista pediram-me que deixasse, na entrada, pertences como o celular e o guarda-chuvas. Até aí tudo bem. Mas na saída, qual não foi a minha surpresa ao descobrir que os funcionários confiscaram o meu guarda. Eu e outras pessoas sofremos com esse abuso e, claro, não tivemos com quem discutir. Saímos inconformados e até agora não entendo porque fizeram isso.
Ernesto Marques, por email

Well, my friend, não compreendo o seu inconformismo. Você não tem lido os jornais ou a internet? A crise está brava! Mais do que nunca, os americanos estão procurando, of course, os valores perdidos na imensa crise de crédito em que afundaram todo o planeta. Não me parece, however, que essa decisão tenha partido da assessoria econômica de Obama. Prefiro imaginar que, nos extertores finais de seu mandato, o notável presidente Bush tenha emanado ordens do tipo ” precisamos ganhar dinheiro de todas as maneiras possíveis”. Isso, I presume, inclui as umbrellas. Don’t you think so? Parece irrelevante, mas não é bem assim. Imagine só, my dear Ernesto. Os Estados Unidos da América devem ter, entre embaixadas e consulados, cerca de mil representações espalhadas pelo mundo. Suponhamos que cada uma delas seja visitada, at least, por cinquenta pessoas por dia — o que, convenhamos, é um cálculo modestíssimo. Chegamos, portanto, a 50 mil guarda-chuvas por dia, ou 250 mil guarda-chuvas por semana, ou, ainda, sete milhões e meio por ano. Há que se descontar, of course, os dias e os lugares em que os visitantes não precisem recorrer a guarda-chuvas por razões meramente meteorológicas. Presumamos, therefore, que as representações norte-americanas confisquem apenas três milhões de guarda-chuvas a cada ano. Ao preço pífio de 10 dólares — o custo poderia ser cinquenta vezes maior no caso de um guarda-chuvas Briggs (aqui mencionado na semana passada como o preferido do Príncipe de Gales) — ,a modesta operação de confisco resultaria em trinta milhões de dólares para os caixas de Tio Sam. Você há de me dizer, fellow, que esse valor não representa nada ante a imensidão de dívidas revelada por essa crise. Mas pense bem, Ernst: centenas, talvez milhares de outras pequenas operações quase invisíveis como essa por você relatada, podem estar em andamento.
Perfumes, colônias, barbeadores, isqueiros e canivetes confiscados nos aeroportos de todo o planeta. Tratados internacionais que multiplicam, em muitas vezes, o valor da operação umbrella e de suas similares. Um mar de dinheiro jorrando, silencioso, dos mecanismos burocráticos — seja em nome da segurança, seja em nome da autocracia, ou de Dow Jones. O único inconveniente desse confisco inexplicável é que, o posterior retorno dos produtos ao mercado informal acaba inibindo toda uma cadeia produtiva.
Meu amigo Lon Tsu Xian, fabricante de quinquilharias em Xangai, contou-me, recentemente, que estava sentindo uma forte retração no mercado de guarda-chuvas e atribuiu essa queda às mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global. Poor Xian. Mal sabe ele com quem está competindo…

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Nosso solerte correspondente envia seus agradecimentos a leitores ilustrados como Marcello Borges, “um bom anglófilo, que não dispensa o bom-humor, o guarda-chuvas Briggs” e, a propósito do artigo publicado na semana passado, as gravatas. “Tenho algumas da Turnbull & Asser, a loja que fornece para o príncipe de Gales”.
Já de malas prontas para uma nova e ainda não revelada aventura, mr. Miles responde à pergunta da semana:

Dear Mr. Miles,

Notei em sua coluna de hoje, em que aparece ao espelho, dando o nó windsor na gravata, que está bem mas jovem do que nas fotos habituais. Será que aproveitou a última viagem ao Brasil para fazer um lifting ? By the way, qual a sua opinião sobre o “turismo da cirurgia plástica” promovido na Malásia, no Brasil e em outros destinos exóticos? Parabéns pela coluna!… adoro seus textos!
Vera Passos, por email

Vera, my darling: de fato, o desenhista responsável por ilustrar minha humilde coluna foi bastante generoso ao rejuvenescer-me daquela maneira. Sou obrigado a confessar, however, que jamais tive a aparência que o artista imaginou. Fui, in fact, ligeiramente assemelhado à foto que ilustra esta seção — a única, como se sabe, jamais divulgada de minha pessoa. Mas mesmo esse instantâneo, capturado longos anos atrás em Notto, na Sicília, não conta uma história fidedigna. Era comum, naquela época, a manipulação de fotografias por meio de retoques com pincel e tinta. E foi apenas ao ver o resultado final que pude perceber que o retocador em questão não era nenhum Tintoretto. Jamais fiz, therefore, nenhum tipo de soerguimento facial — aquilo que, com propriedade, você chama de lifting.
Sobre a sua questão, I’m very sorry to say mas tenho uma certa dificuldade em classificar este tipo de movimentação como turismo. Minha velha amiga Connie, de Sacramento, já esteve mais de dez vezes no Brasil, sempre no Rio de Janeiro e jamais foi à praia, nunca ouviu falar do Corcovado e não conhece o sabor do tremoço de um pé-pra-fora. Em compensação, seu antigo delicado sorriso é hoje uma permanente gargalhada. Is she a tourist?
Considero ótimos os viajantes que partem abertos à mudanças — e quase sempre as encontram. Mas não é preciso ser tão literal… don’t you agree? Sei, of course, que os cirurgiões plásticos brasileiros são muito mais qualificados do que o retocador de que lhe falei há pouco. Tenho, however, enorme dificuldade de compreender as pessoas que reformam a si mesmas (exceto, é claro, em caso de deformidades acidentais). As orientais, que gastam fortunas para ocidentalizar seus olhos, for instance. Ou my dear Elza Soares, que hoje poderia chamar-se Mitiko Soares, tão nipônicos se tornaram seus olhos de sambista.
Devo, indeed, ser um homem de outro tempo. Ouso pensar que quando as pessoas estão infelizes com o que são, o problema está por dentro, não por fora. De que vale buscar um funileiro (ou lanterneiro, as you say in Rio) se a avaria está por baixo da carenagem? Well, my dear: é só uma opinião, pela qual serei certamente execrado. E para que não me julguem um radical, proponho aos seguidores de Connie que sigam viajando para a Malásia, o Rio ou qualquer outro belo lugar onde exista um bom cirurgião plástico.
But do me a favor, please: antes da cirurgia, visitem o lugar com a alma aberta para descobertas. Se ainda assim não funcionar, então ponham seus narizes onde quiserem.

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11.fevereiro.2009 11:42:03

Gravatas e croatas

Nosso impávido viajante viu-se obrigado a calçar as botas com grampões que usa para escalar picos nevados devido à inesperada nevasca que cobriu a Inglaterra e, particularmente, o Condado de Essex, nos últimos dias. Feliz com o que chamou de “reação dos céus contra o global warming“, mr. Miles escreveu-nos a bordo de um single malt, aos pés da lareira e ao lado de Trashie. Aproveitou para enviar suas apologies aos muitos argentinos que se sentiram ofendidos com a brincadeira que fez sobre a Guerra das Falkland, dizendo however, que aceita, em troca qualquer chiste portenha. ” If you can do it, of course“.
A seguir, a carta da semana:

Prezado mr. Miles: o senhor poderia me dizer se a gravata ainda é um acessório obrigatório na Europa, para onde estou viajando? Aliás, de onde veio este hábito estranho?
João Marcelo Cançado, por email

Well, my friend: leve sempre pelo menos uma, just in case. Aquilo que você chama de estranho hábito já não tem o vigor de antigamente, mas, of course, há diversos lugares onde o uso do curioso suplemento é exigido e inúmeros outros onde ele será, at least, bem-vindo. Como é de conhecimento dos leitores, sou de um tempo onde o uso da gravata era tão disseminado que, in fact, sinto-me quase despido se não a visto. Olhando de outro prisma, however, usar uma tira de tecido — não importa quão valioso e bem estampado seja ele —, pendurada ao pescoço é tentar assemelhar-se a um cão com a língua de fora. Don’t you agree?
O costume de portar panos sobre os ombros é mais que milenar e derivou da necessidade do homem enxugar o suor de seu rosto durante o trabalho. Sir Alex Calmingham, um velho amigo gravatófilo capaz de executar todos os nós existentes com a destreza de um espadachim, relatou-me, certa vez, que os primeiros a tentarem dar status a esse adorno foram os romanos, com seus primitivos focale. A moda não pegou. E vejam a ironia: foi justamente de uma linhagem de reis cujos pescoços acabaram cortados pela guilhotina que derivou a moda do uso da gravata. O precursor foi Luis XIV, da França. Durante a Guerra dos Trinta Anos, o chamado Rei Sol viu-se diante de um batalhão de mercenários croatas a seu serviço e encantou-se com uma espécie de cachecol de linho e musselina usado pela tropa. Pediu, então, aos reais alfaiates que lhe produzissem lenços à moda croate (croate, em francês), de onde derivou a palavra cravate. A Croácia (Hrvatia, em croata), é, portanto, a pátria da gravata, embora seus cidadãos gostem mesmo é do modelo tipo toalha-de-cantina nas cores azul, vermelho e branco, as mesmas que estampam sua bandeira nacional.
Luiz XIV, therefore, foi apenas uma espécie de divulgador do acessório entre as cortes européias, que, como sempre, acabaram sendo copiadas pela burguesia e assim alcançaram os dias de hoje. De minha parte prefiro a bow-tie (N.da R.: gravata-borboleta), que leva a grande vantagem de jamais mergulhar no prato de sopa. Mas, no dia a dia, pratico a gravata tradicional com um sóbrio nó de Windsor. O curioso, fellow, é que a gravata acabou se tornando uma espécie de simbolo da cultura ocidental. Povos que usam túnicas, sarongues ou galabéias — entre outros tantos trajes para nós exóticos —, jamais se vestem à maneira ocidental envergando jeans e camiseta. A forma que encontram de aproximar-se de nós é através do uso da gravata. Uma história muito enrolada, isn’t it?

COMENTÁRIOS SOBRE A COLUNA:

Caro Mr Miles,

Como bom anglófilo que sou, a ponto de não dispensar meu bom e fiel guarda-chuvas Brigg antes de sair de casa nesta chuvosa paulicéia, gostei muito do seu comentário sobre a gravata. Tenho algumas da Turnbull & Asser, a loja que fornece para o príncipe de Gales.

A propósito, enganchando com o que você disse no final da sua coluna, os orientais procuram ser até mais realistas do que o rei: veja os japoneses, que, após a 2ª Guerra Mundial, passaram a se vestir como os londrinos, a ponto de chamarem o terno ou costume de sebiro – uma corruptela de Saville Row, a rua dos mais famosos alfaiates britânicos… Ou seja, para os elegantes japoneses, um costume só seria bom de verdade se fosse feito (ou ao menos inspirado) em Londres!

Best regards,

Marcello Borges

————————————————————————–

Dear Mr. Miles,

Notei em sua coluna de hoje, em que aparece ao espelho, dando o nó windsor na gravata, que está bem mas jovem do que nas fotos habituais. Será que aproveitou a última viagem ao Brasil para fazer um lifting e agora se recupera ao pé do fogo em sua velha Essex, bebericando single malt na companhia da Trashie e jogando a culpa no global warming?…

By the way, qual a sua opinião sobre o “turismo da cirurgia plástica” promovido na Malásia, no Brasil e outros destinos exóticos?

Parabéns pela coluna!… adoro seus textos!

Um abraço,
Vera Passos

comentários (2) | comente

04.fevereiro.2009 18:50:39

Atenção aos falsários

Em resposta aos leitores que comentaram as dicas sobre fotos de viagem que mr. Miles publicou na semana passada, o afamado viajante manda dizer que não fez senão algumas ilações de senso comum. Informa, ainda, que não costuma carregar a velha Rolley-Flex em suas andanças porque têm as mãos ocupadas por sua inseparável bengala e, quase sempre, por algum romance representativo do lugar que está visitando. “Besides, não me agrada carregar equipamentos pendurados ao corpo, como se fosse uma árvore de Natal. Só o faço, as you know, em minhas incursões de birdwatching, quando os binóculos são absolutamente indispensáveis”.
Nosso correspondente também foi inquirido sobre a crise que se esboça entre Brasil e Itália em função da concessão do asilo político a Cesare Battisti. Sem entrar no mérito da contenda, mr. Miles apenas mandou dizer que soube, através de suas ligações com o submundo, da existência de algumas dezenas de terroristas, traficantes e serial-killers já munidos de sandálias havaianas, bronzeadores e passagens para o Brasil — onde pretendem desfrutar ” de mr. Genro’s magnamity. Nenhum deles, of course, provém de Cuba, da Venezuela ou da Coréia do Norte”.
A seguir, a correspondência da semana:

Prezado mr. Miles: informo, indignado, que recebi notas falsas de peso argentino ao trocar meus reais em uma agência bancária de Buenos Aires. Pior que isso: o banco ignorou minha queixa, como se o desonesto fosse eu. Como escapar desse tipo de cilada?
Ricardo Sacerdote, por email

Well, my friend: eu seria demasiado cruel se atribuísse apenas aos argentinos o golpe mais velho e disseminado deste mundo de tantas moedas. E, veja bem, o problema aplica-se tanto aos países onde a moeda é mais forte — e portanto vale o esforço dos velhacos por uma cópia notável — quanto aos países mais pobres, onde a quantidade de zeros em cada nota é tão astronômica que um viajante acaba sendo facilmente enganado. Eu mesmo, anos atrás, paguei um café em Moçambique, que custava 50 mil meticais com uma nota de 1 milhão de meticais. Meu troco, em notas miúdas, foi de 50 mil meticais — um incalculável bolo de dinheiro que, entretanto, gerou-me um prejuízo equivalente a dezoito cafezinhos. Can you believe me?
O caso por você relatado, fellow, envolve, I presume, a má fé de um caixa de banco. Não há formas de defender-se, a não ser conservar a atenção — e mesmo essa providência não evita uma falsificação bem feita, que, por outro lado, terá grandes chances de ser passada adiante.
Quando há um surto de má fé monetária acometendo determinado país (informe-se com o concierge de seu hotel), uma sábia providência é pedir uma retroca imediata. Ou seja: se o caixa ou o operador da casa de câmbio lhe deu um punhado de notas de cinqüenta, diga, sem verificar, que você prefere notas de vinte. É improvável que o golpista tenha um estoque variado de cédulas feitas em casa. Se, ainda assim, however, o golpe lhe for aplicado, volte ao estabelecimento e cumprimente o safardana. Ele realmente fez por merecer. Don’t you think so?

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Well, porque viajantes de verdade são curiosos, por definição e nessa gélida localidade, na costa norte da Islândia — um país tão cheio de
consoantes quanto de geisers — fica um dos mais bizarros museus de que se tem notícia. Escondido sob a inocente fachada de um sobradinho escandinavo repousa o acervo, believe me, do Museu do Falo — e eu vos digo que esse falo não pertence ao verbo falar, mas trata-se do substantivo masculino cujo sinônimo menos deselegante atende pelo nome
de pênis. Quite weird, isn’t it?
Não se apressem em suas conclusões, however. O pequeno museu que
notabilizou Husavik não é dedicado à exposição de falos humanos. Sua
mostra permanente inclui exemplares de membros masculinos estirpados
de grandes mamíferos islandeses, tais como baleias, golfinhos, ursos,
antílopes…em um total de 49 disgusting displays. Saibam os prezados leitores que a insólita exibição esconde nobres propósitos. De acordo com o curador (sim, existe um curador no museu de Husavik) Sigurdur Hjartarson, a mostra permite aos interessados “desenvolver sérios estudos no campo da falologia”, seja lá o que isso quer dizer. Amazing, isn’t it?

Museu do Falo

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