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Irlanda e Irlanda do Norte: Brinde aos clichês

Fabio Vendrame

terça-feira 08/04/14

Os estereótipos estão lá: pubs, ruivos hospitaleiros, paisagens inebriantes. Mas Dublin vai além – e oferece motivos de sobra para inspirar viajantes embalados por Bono Vox ou Oscar Wilde  Ana Carolina Sacoman / DUBLIN Sabe aquela coisa cafona e ultrapassada que a gente odeia quando um gringo fala que Brasil é caipirinha, samba e, sei lá, [...]

Cai a noite e os pubs começam a encher – Fotos: Ana Carolina Sacoman/Estadão

Os estereótipos estão lá: pubs, ruivos hospitaleiros, paisagens inebriantes. Mas Dublin vai além – e oferece motivos de sobra para inspirar viajantes embalados por Bono Vox ou Oscar Wilde 

Ana Carolina Sacoman / DUBLIN

Sabe aquela coisa cafona e ultrapassada que a gente odeia quando um gringo fala que Brasil é caipirinha, samba e, sei lá, belas mulatas? Pois eram exatamente esses estereótipos, na versão cerveja, U2 e lindos ruivos, que eu tinha na cabeça quando pensava em Irlanda e Irlanda do Norte. Estava errada? Assim como a galera equivocada que capricha na camisa estampada para curtir a noite em Copacabana, sim. Quer dizer, mais ou menos. O clichê é real e eles até alimentam isso, mas, vem cá: essa Europa cercada de água por todos os lados não é tão fácil assim de definir.

Sim, a cerveja é ótima. A Guinness, a real, encorpada, com um toque de café (para mim, pelo menos, me apedrejem mestres cervejeiros, se quiserem) e equivalente a uma refeição (para quem vive de regime) só se toma lá. Nem em Londres, ali do lado, se bebe essa maravilhosa invenção de 1759 em todo o seu esplendor.

Sim, o Bono, ainda é um gato (cresci nos anos 1980), mora lá, dizem os guias de turismo, no chiquérrimo bairro de Killiney, no sul de Dublin, e faz shows-surpresa pela cidade, como o do Natal, em que ele cantou em plena Grafton Street, a rua de compras e uma das mais movimentadas da cidade.

E, sim mais uma vez, os ruivos (e ruivas) são bonitos, simpáticos e têm uma paciência de Jó com os estrangeiros, apesar de, às vezes, o sotaque deles fazer você acreditar que estão falando do papa (pope) em vez do pub ali da esquina.

Quer mais motivos para enfrentar um longo voo com escala obrigatória em algum lugar (não tem direto do Brasil)? Pois bem. Ali viveram, se inspiraram e criaram suas obras-primas James Joyce, George Bernard Shaw e Oscar Wilde, entre outros. É possível fazer tours guiados por onde esses gênios passaram ou simplesmente andar, especialmente pela região central de Dublin, esbarrando na casa em que um nasceu, no pub em que outro escrevia, e por aí vai.

Centro de Belfast, capital da Irlanda do Norte

Na outra ponta da ilha, já na Irlanda do Norte, Belfast entra no circuito exótico-para-contar-para-os-amigos. De lá saiu o Titanic rumo à (triste) história, e esses caras não estão brincando quando dizem que têm uma “rota cênica”, com praias e penhascos espetaculares.

E, se ainda resistir a tudo isso, aí vai a minha cartada final: vale a pena conhecer a(s) Irlanda(s) simplesmente porque é uma viagem diferente. Você já foi mil vezes para Londres, conhece Paris de ponta-cabeça e pega o metrô em Berlim com mais tranquilidade do que em São Paulo, mas não conhece Dublin nem Belfast. Que tipo de globetrotter é você, afinal?

Comece por Dublin. A cidade sofreu seus baques com a crise mundial de 2008, mas, tal qual uma Scarlett O’Hara europeia, fez das cortinas de veludo um vestido de festa e deu a volta por cima. Ali ninguém tem muita paciência para se lamentar do desemprego (atualmente em 12,5%, mais baixo do que já foi, mas ainda alto para padrões locais) nem que a quebradeira geral corroeu economias e está criando uma geração perdida. Eles são duros na queda e não parecem se abalar facilmente.

Grafton St., a rua comercial mais movimentada do centro de Dublin

Os irlandeses simplesmente se viraram para o óbvio: além de cortar salários e gastos do governo, perceberam que turistas dispostos a gastar sempre vão existir. E investiram, especialmente nos programas de intercâmbio. Resultado: é fácil, fácil ouvir português nas ruas da cidade, sejam turistas comprando meia Grafton St. ou jovens aprendendo ou aprimorando o inglês.

Fonte da juventude. Gente jovem, aliás, é o que parece deixar Dublin especialmente vibrante. A cidade tem um bairro da balada, o Temple Bar (nome do bar que define toda a região), estilo Vila Madalena, com um pub a cada dois passos. scolher onde entrar é um tiro no escuro, mas, quase que invariavelmente, será um lugar bacana, com boa música (ao vivo quase sempre) e cerveja a preços camaradas.

E já que estamos falando de balada, vale um lembrete: o pessoal não é muito chegado numa paquera mais, digamos, intensiva. Se alguém te interessar, você precisará fazer o meio de campo. Mas, embalado por Guinness, Smithwick’s ou qualquer outra das sensacionais cervejas de lá, isso não será um problema tão grande assim.

Trinity College guarda relíquias como o ‘Book of Kells’

Além do intercâmbio, a fonte da juventude de Dublin atende pelo nome de Trinity College. Com mais de 400 anos de história, a universidade recebe gente do mundo todo, e seu câmpus é um passeio bem bacana. Ali estão a Old Library, suntuosa biblioteca com 200 mil exemplares lindamente encaixados em estantes de madeira (passeio de primeira, pode anotar), e o Book of Kells, manuscrito do século 9.º feito por monges celtas.

O pessoal de Dublin também se orgulha dos arredores da cidade. Um passeio clássico é rumo ao Castelo Malahide, no norte. Não vá esperando aquela coisa castelo-da-Cinderela-igual-ao-da-Alemanha. Trata-se de um castelo moderno, que ficou nas mãos de uma família podre de rica até 1973. Daí, a última herdeira perdeu a propriedade para o governo (impostos, seus vilões). Então, o lugar virou ponto turístico. Ponto. Vale a pena? Sim, mais pela viagem até lá (uns 15 minutos de carro, partindo do centro da cidade) do que pela construção em si.

Castelo Malahide, no norte de Dublin

Outro passeio interessante é o Phoenix Park, o maior da cidade. Tem 707 hectares e fica aberto 24 horas, todos os dias, o ano inteiro (morra de inveja, Parque do Ibirapuera). Ali há jardins lindos, cafés, e o Zoo de Dublin. A casa do presidente da Irlanda e a Embaixada dos Estados Unidos estão dentro do parque (morra de inveja, mundo).

Para completar, fica ali também a Cruz do Papa, monumento erguido quando da visita de João Paulo II ao país, em 1979. Na ocasião, a missa com a presença do pontífice reuniu algo como 1,25 milhão de pessoas, ou mais de um terço dos moradores da cidade na época. Nada mal para um país predominantemente católico.

VIAGEM A CONVITE DA TOURISM IRELAND E DA BRITISH AIRWAYS

SAIBA MAIS:

  • Aéreo: o trecho São Paulo–Belfast–São Paulo custa desde R$ 3.973 na Air France; R$ 4.543 na TAP; R$ 4.577 na British. Já o voo ida e volta para Dublin, também com saída de São Paulo, custa desde R$ 3.050 na Air France; R$ 3.419 na TAP; R$ 4.596 na British; R$ 4.624 na Iberia
  • Terrestre: os 166 quilômetros que separam Dublin e Belfast podem ser percorridos em cerca de duas horas. A viagem custa a partir de 15 euros na Irish Rail. Outra opção é seguir de ônibus: o percurso tem quase a mesma duração do que sobre os trilhos e custa a partir de 10 euros na Air Coach
  • Moeda: a Irlanda adota o euro (1 euro vale R$ 3,11); já a Irlanda do Norte usa libras esterlinas (1 libra vale R$ 3,76)
  • Sites: ireland.com e discovernorthernireland.com