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Etiópia: com as bênçãos

Fabio Vendrame

15 abril 2014 | 04:00

Templo dedicado a São Jorge foi erigido pelo rei Lalibela no século 12 – Fotos: Daniel Nunes Gonçalves

Diz a lenda que as igrejas de Lalibela foram construídas pelos homens durante o dia e pelos anjos à noite. A arquitetura é, de fato, divina – e tão bela quanto os ritos e tradições locais

Daniel Nunes Gonçalves / ESPECIAL PARA O ESTADO / LALIBELA

Uma multidão de véus brancos se destaca na escuridão das ruas de terra de Lalibela como se levitasse silenciosamente. Jogo o foco da lanterna sobre meu relógio, que marca 4h30 da manhã e, em seguida, ilumino as almas que caminham ao meu lado. São seguidores do cristianismo ortodoxo, que se instalou na Etiópia no século 4 d.C., e que têm o mesmo destino que eu: as igrejas escavadas em pedra, no século 12, nessa charmosa cidade de montanha no norte do país. Pela quantidade de gente, parece que boa parte dos 15 mil lalibelenses, muitos deles moradores da zona rural, não se importa de sair de casa antes do nascer do sol. Afinal, na chamada “Jerusalém africana”, todo dia é dia de reza.

Alguns amanheceres, como esse, merecem bênçãos especiais. É o caso dos dias de santo, da Páscoa, do Natal e da Epifania, como é chamada a data em que Jesus Cristo teria sido batizado. Para os seguidores do cristianismo ortodoxo, que correspondem a quase metade da população do país, estas são datas auspiciosas para orar na Terra Santa etíope.

Para minha sorte, sou levado pelo meu guia, Desew Weday, diácono há 15 anos, para pisar na igreja de Bet Maryam, que homenageia a mãe de Jesus, justamente no seu dia, o 21 da folhinha local. Com um calendário próprio, a Etiópia chama de dia 21 do sétimo mês de 2006 este dia que corresponde, na agenda ocidental dos seguidores do calendário gregoriano como eu, ao 30 de março de 2014.

Ao avistarmos, da rua, o buraco de 11 metros onde foi escavada a igreja de Nossa Senhora, uma música chorosa entoada por vozes graves domina o ambiente. Os beatos e as beatas de véu branco descem as escadas, tiram os sapatos e reverenciam o monólito beijando o chão ou a parede, ajoelhando-se ou simplesmente rezando com a testa colada na parede. Faz lembrar o Muro das Lamentações da Jerusalém original. “Só homens podem cantar, e sempre em ge’ez”, explica o guia Desew, referindo-se ao antigo alfabeto etíope que se tornou a língua litúrgica dos ortodoxos.

Sacerdote com beatos em Lalibela

O sonho do rei santo. Quem desvia (ou tropeça) dos calçados deixados no portal e adentra entre as colunas do prédio começa a ter uma ideia da proeza arquitetônica – descrita como milagrosa por muitos – empreendida pelo rei Gebre Mesqel Lalibela. Membro da dinastia Zagwe, que comandou a Etiópia entre o fim do século 12 e o início do 13, é considerado santo e entrou para a história por erigir esta e as outras dez casas de oração na então Roha, capital do império – cidade que hoje leva seu nome. Não há registros exatos sobre quantas pessoas e quantos anos teriam sido necessários para realizar tal proeza.

Diz a lenda que os humanos trabalhavam de dia e os anjos, à noite. A cultura oral repassada ao longo dos últimos oito séculos preservou outro mito que está na ponta da língua dos guias. “Foi durante o tempo que passou em coma, após ter sido envenenado, que o rei Lalibela visitou Jerusalém em sonho”, conta Desew. “Ao acordar, ele obedeceu a ordem de Deus e passou a construir as igrejas para fundar aqui a Nova Jerusalém.” Na época, em 1187, a Jerusalém original tinha sido tomada pelos muçulmanos.

Dentro das grossas paredes da igreja de Bet Maryam, a primeira a ser escavada, o cenário é único. Além do coral masculino, a divisão de homens de um lado e mulheres de outro faz lembrar o protocolo dos judeus nas sinagogas, que imperava nas primeiras igrejas cristãs do planeta. Como não há bancos, as pessoas se esparramam pelo chão coberto por tapetes pesados. Na parte central do fundo, onde em uma igreja católica estaria um altar, há apenas uma cortina vermelha pesada, que esconde objetos cerimoniais acessíveis a padres e bispos, exibida ao público só nos festivais.

Fé sólida como pedra. Mais sólida que aquelas paredes sagradas, a fé do povo de Lalibela é demonstrada de forma intensa. Padres de mantos coloridos e coroas que fazem lembrar as dos reis passam pesadas cruzes ortodoxas no corpo dos fiéis que se amontoam para ganhar suas bênçãos. Após semanas e semanas de jejum parcial, cristãos se esforçam para ter a chance de acender uma vela ou um incenso dentro das igrejas lotadas, para ganhar na testa o desenho de uma cruz de cinzas ou para pegar um pedaço do pão bento.

Devoto nas cercanias das igrejas escavadas no chão

Duas madrugadas depois da minha visita à Casa de Maria, acompanho um ritual semelhante na igreja de São Jorge, a mais famosa de Lalibela. No templo do santo guerreiro, me surpreendo com o prazer que cristãos ortodoxos demonstram ao receber, na cara, fortes jatos d’água. Eles são jogados pelas mãos de uma criança que se ajoelha à beira do tanque batismal do lado de fora do templo.

Os primeiros raios de sol tornam o ambiente especialmente mágico. Na Etiópia, o novo dia começa às 6 horas da manhã – e não à meia-noite, como no relógio ocidental. É quando, ao fim das primeiras orações matinais, a multidão de véus brancos começa a se dissipar, deixando as igrejas de pedra para seguir para casa por estradas poeirentas.

  • SAIBA MAIS
  • Aéreo: SP – Adis-Abeba – SP: desde US$ 1.965,60 na Ethiopian Airways, com escala em Lomé, Togo
  • Moeda: 1 birr equivale a R$ 0,11
  • Idiomas: o oficial é o amárico; a Etiópia é o único país que o utiliza
  • Igrejas: para visitar as igrejas de Lalibela há um ingresso único, que custa US$ 50 e tem validade de quatro dias
  • Vacina: obrigatória contra a febre amarela
  • Visto: pode ser tirado na hora; custa US$ 20. Alguns hotéis já providenciam o visto
  • Site: tourismethiopia.gov.et/english