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Viagem

18.fevereiro.2010 11:58:21

California dreamin

Olá Mr. Miles, tenho 22 anos e sou da capital de São Paulo. Gostaria de lhe pedir um conselho sobre a seguinte situação: estou de férias marcadas entre abril e maio em Los Angeles, mas viajarei sozinha pois nenhum dos meus amigos pode me acompanhar. Passarei 20 dias entre LA, San Diego e San Francisco, tenho algumas atrações já agendadas, mas tenho medo de que, por estar só, acabe não me divertindo tanto quanto como se estivesse com alguma companhia, e até mesmo não consiga organizar meus passeios. O senhor teria alguma sugestão para mim?

Danielle Yessenhart, por email

Well, my dear: eu teria uma ótima solução para todos os seus problemas mas, unfortunately, acabei de consultar minha agenda e descobri, que, devido a compromissos anteriormente assumidos, não vou poder, pessoalmente, acompanhá-la em sua american journey. Seria delightful.
Anyway, darling, não vejo motivo para preocupações. Se você tivesse programado suas ferias para o Tajiquistão, que é um dos países mais pobres e primitivos da Ásia Central, eu certamente recomendaria que você contratasse uma dupla de vigorosos guarda-costas. Mas, embora a Califórnia seja governada por Conan, o Bárbaro (também reconhecido como o Exterminador do Futuro), trata-se de um estado de pessoas civilizadas — a não ser, é claro, que você acenda um cigarro, situação que as transforma em uma horda de hunos.
Viajar sozinho, as I do, oferece algumas vantagens preciosas. A primeira delas é o total domínio que você terá sobre sua agenda, podendo manipulá-la do jeito que preferir, sem aquelas crises de relacionamento que se observam quando o seu (ou sua) colega de jornada manifesta interesses divergentes. Não sou poucos — I can testify —, os amigos do peito que, no decorrer de uma viagem, transformaram-se em inimigos mortais em virtude do acúmulo de pequenas desavenças no dia-a-dia de suas férias.
A outra regalia oriunda de uma viagem solitária é a extraordinária possibilidade que você terá de fazer novos amigos. Verifico, em suas linhas, que essa é a questão que a preocupa. Pois fique tranquila, darling. A não ser que você sofra de algum tipo patológico de timidez, como meu falecido amigo Jerome (N.da R: J.D. Salinger, escritor Americano, autor de O Apanhador no Campo de Centeio, célebre por sua permanente reclusão), suas chances de conhecer gente com quem compartilhar as emoções da jornada são remarkable.
Para isso, of course, você terá de fazer tours (haverá outros estrangeiros na mesma situação que a sua), frequentar bares e baladas adequados à sua idade e, eventualmente, dormir em albergues. Haverá chatos pelo caminho.That’s unavoidable. Mas não se preocupe: os da Califórnia são iguais aos de São Paulo.
Em Los Angeles, desde que você não se perca naquelas intermináveis alças de viaduto em que um único erro pode levá-la diretamente à Tijuana, no México, eu diria que você tem boas chances de encontrar alguém à espera de uma vaga como figurante em um filme B de uma produtora independente — que, claro, um dia talvez venha a tornar-se Tom Hanks.
Em San Diego, conforme o swell, os surfistas são sua melhor chance. Já em San Francisco, well, você pode até achar um chinês divertido, mas, estatisticamente, suas maiores oportunidades são os hippies velhos do Height-Ashbury ou os gays do Castro. Vai ser igualmente divertido, don’t you agree?

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18.fevereiro.2010 11:52:51

Sobre viagens temáticas

Nosso excêntrico viajante encerrou sua viagem para St. Barthélémy satisfeito com a temperatura do mar e a beleza das praias, mas ligeiramente enfastiado pelo que chamou de “french atmosphere”. ” É, de fato, um lugar très chic, mas não pude evitar a sensação de que estava na avenue Montaigne com iates ancorados. Confesso que prefiro Tortola, onde, pelo menos, os carros rodam pelo lado certo”. A seguir, a resposta da semana:

Mr. Miles: qual é a sua opinião sobre as viagens temáticas, que parecem ser uma tendência crescente no mundo do turismo? O senhor acha que as pessoas aproveitam alguma coisa dos lugares ou só se dedicam aos assuntos específicos de que vão tratar?
Osvaldo Cançado Flores, por email

Good question, dear Osvald. De forma geral, considero qualquer tipo de viagem uma bem-vinda ruptura do cotidiano. Não há dúvida, however, que é o espírito do viajante que a torna mais ou menos valiosa. Vou lhe dar um exemplo: alguns anos atrás, em Veneza, vi um transatlântico ancorar para uma dessas visitas de um dia. Observando o desembarque, não pude deixar de reparar em um grupo de senhores que desceu do navio com seu tacos de golfe a tiracolo. Em Veneza? Wasn’t it weird? Aonde, raios, eles iriam exercitar seus swings e puts? No Ca’ d’Oro? No Canareggio?
Perguntei a um deles que, apressado, me informou que eles já tinham um carro a sua espera para levá-los a um campo de golfe no continente. Ou seja: Veneza, para aqueles golfistas, era apenas um porto mal-localizado. Is it possible?
Nevertheless, não se pode dizer o mesmo da maioria dos assim chamados viajantes-temáticos. Eu mesmo sou um deles, as you know. Com a freqüência possível, viajo para praticar birdwatching.
Tenho enorme prazer em avistar pássaros raros e colecionar, na minha cabeça, suas imagens fugidias. Sempre que o faço, porém, aproveito cada momento de minha estadia para explorar os arredores, conversar com as pessoas, provar os sabores e entender as idiossincrasias locais. Trata-se, neste — como em muitos outros casos —, de uma viagem comum com um hobby acoplado. Suponho que vivam as mesmas sensações aqueles que saem de casa para fazer turismo gastronômico ou que percorrem regiões inteiras de bicicleta. É, a meu ver, uma maneira inteligente de estabelecer limites para uma jornada e tornar mais intensa e qualificada a experiência.
Exceto no caso das chamadas viagens religiosas, nas quais o interesse pelo destino é quase sempre mitigado pelo ardor da fé, os que optam por roteiros temáticos costumam ser viajantes mais experimentados, que sabem exatamente o que querem. Isso os torna, também, mais exigentes quanto à qualidade dos serviços que estão adquirindo. Assim são os que partem, por exemplo, para cavalgar ou pescar. Dê a um cavaleiro uma montaria inadequada… do you say pangaré?… e ele vai exigir seu dinheiro de volta. O mesmo ocorrerá com adeptos de fly-fishing que forem levados a rios pouco piscosos.
On the other hand, existem temas que provocam viagens, mas é como se não levassem a lugar algum. Tenho um amigo que só sai de sua casa em Cardiff para eventos de numismática. Conheço outros que percorrem o mundo para encontros de heráldica ou hagiologia. Esses, my fellow, não são viajantes temáticos. Seus próprios temas é que são uma viagem. Don’t you agree?

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09.fevereiro.2010 16:03:48

Aventura no Salto Angel

Nosso incansável viajante aceitou o convite de um velho amigo, hoje gerente do Hotel Guanahani e, para aquecer os ossos enregelados pelo inverno europeu, pousou na ilha de Saint Barthélémy, no Caribe, reduto de chiques e famosos. Refrescando-se nas águas turquesas da Anse des Colombiers e caminhando pelas ruas elegantes do porto de Gustavia, mr. Miles conta-nos que não há ilha menos caribenha naquelas águas famosas. “Não há rumbas, calipso, bandas de metal, tererês ou loiras européias à caça de nativos. E, believe me: bebe-se mais champanhe que rum!”
De uma mesa no Eden Rock, onde pretendia alongar sua noite, o correspondente inglês responde a correspondência da semana:

Mr. Miles: não sou um homem muito viajado, mas já fui à Foz do Iguaçu e nunca vi tamanha maravilha. Afinal, existe queda d’água mais impressionante do que a nossa?
Joel Capelas, por email

No, my friend: as cataratas do Iguaçu são, indeed, as mais belas e breathtaking que eu já vi. Ainda que menores, em extensão e volume d’água que as Victoria Falls, no Zimbabwe, elas provocam um efeito mais arrebatador, dada sua configuração em forma de anfiteatro. No caso de Victoria, trata-se de um corte em linha reta, cujo conjunto só é possível visualizar em um sobrevôo. Quanto às Niagara Falls, well, o máximo que posso dizer é que os americanos as adoram.
De minha parte, tenho especial apreço pelo Salto Angel, a mais alta queda d’água do mundo, que se precipita do alto do Auyan Tepui e, 979 metros abaixo encontra as terras da Grande Savana da Venezuela. Não apenas por sua altura vertiginosa — equivalente a um prédio de 326 andares —, nem pelo estrondo de mil sinos gigantes que produz quando cai na época das chuvas (durante a seca, só uma névoa alcança o solo).
Minha ligação com o Salto Angel é, também, de certa forma, histórica. Conheci Jimmy Angel nos anos 30 do século passado em um pequeno bar em Panamá City. Discorrendo incessantemente sobre o salto que havia avistado pouco antes pilotando seu avião na região, ele, of course, aguçou meu espírito aventureiro. Jimmy planejava voar novamente e pousar sobre o tepui. Consegui convencê-lo a levá-lo comigo na empreitada, lembrando-o que o primeiro provável relato sobre a existência dessa maravilha foi feito, no século 16, por sir Walter Raleigh, um compatriota em busca do Eldora. Em outubro de 1937, com sua esposa Mary e seu amigo Gustavo Heny, fizemos a viagem a bordo de uma pequena aeronave Flamingo. Unfortunately, Jimmy era melhor explorador que piloto e nosso pouso foi um disaster. A área era um charco, o Flamingo chafurdou e tivemos duas semanas de notáveis privações para conseguir descer da montanha até o acampamento de Karamata.
Durante a viagem, however, vi, maravilhado, o salto que iria levar o nome de Jimmy. E voltei, anos depois, em um barco a motor subindo o rio Churún. Ainda alimento a esperança de retornar para esse unbelievable acidente geográfico. Mas confesso que tenho aguardado que mr. Chavez, a essa altura, já tenha se exilado em Cochabamba, onde, com certeza, será muito bem recebido por mr. Morales. Dos destinos que pode ter o meu bowler hat, não antevejo nenhum pior do que vê-lo expropriado por um ditador impulsivo. Don’t you agree?

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Nosso estimado viajante recebeu e manda agradecer diversas emocionadas correspondências versando sobre a sua coluna da semana passada, que continha ilações sobre o ato de viajar no crepúsculo da vida. Devastado pela tragédia que se abateu sobre o Haiti, mr. Miles esboçou uma carta de solidariedade ao presidente René Préval mas não encontrou, entre as palavras, alguma que tivesse qualquer significado face à magnitude do cataclisma.
Impotente, enterrou-se num pub e, segundo confessa, bebeu além da conta.
A seguir, a pergunta da semana:

Prezado Mr. Miles: suponho que as leis devam variar muito de país para país. O senhor já cometeu alguma infração por desconhecimento? E o que se deve fazer para evitar situações como essa?
Theo Montenegro, por email

Well, my friend: eu diria que é virtualmente impossível lidar com esse assunto, tantas e tão variadas são as normas que regem nações ou estados com parlamentos próprios. Use como regra o senso comum: os piores crimes são crimes em todas as partes, exceto, perhaps, em algumas tribos isoladas, que, por esse motivo, você, for sure, não vai visitar.
Confesso que, indeed, eu já cometi uma infração por desconhecimento. Anos atrás, na direção de um motorhome pela Alemanha, resolvi estacionar em uma rua onde não havia restrições. Quando retornei ao veículo, descobri, incredulous, que tinha sido multado. O motivo era justo, mas impensável: veículos demasiadamente largos eram obrigados, por lei, a parar com duas rodas sobre a calçada.
O universo das leis estranhas, however, é muito divertido e tenho prazer em colecionar algumas que conheci com o tempo e a experiência. Aproveito a oportunidade para citar algumas situações que os prezados leitores devem evitar, caso queiram evitar problemas com as autoridades. Na Inglaterra, por exemplo, só os homens podem urinar em público. Mas, para não ficar fora da lei, é obrigatório que se aliviem na roda de trás de seus carros e — sempre! —, com a mão direita apoiada sobre eles. Muito mais grave, por aqui, é uma mulher deitar-se com o príncipe consorte. O ato é considerado traição ao estado e pode ser punido com a pena de morte. Em Toronto, no Canadá, se você transportar um cavalo morto pela Yonge Street aos domingos, está arriscado de parar na cadeia. Amazing, isn’t it? Pois, atenção: há outras leis versando sobre animais. Em Atlanta, é ilegal amarrar uma girafa em poste de luz ou em uma cabine telefônica. Don’t do it! No Arizona, burros são terminantemente proibidos de dormir na banheira. Prefira alojá-los no sofá ou no quarto de hóspedes. No Alasca, vai para o xilindró quem der bebida alcoólica para um alce. Refrigerantes são bem-vindos.
Também não ouse tentar vender uma Enciclopédia Britânica no Texas: a coleção toda está banida daquele estado porque, em um de seus verbetes, ensina como fazer cerveja em casa. Fair enough, isn’t it?
Se você for à Tailândia, my fellow, não ouse pisar em qualquer nota ou moeda do dinheiro local. É crime! Como é crime, para os tailandeses, sair de casa sem estar usando underware.
A falta de espaço, unfortunately, não me permite avançar ainda mais no tema nessa coluna. Mas prometo, eventualmente, divulgar outras leis em vigor ao redor do mundo, de modo que você e os demais leitores possam viajar sem medo de serem conduzidos aos tribunais.

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21.janeiro.2010 11:37:39

A viagem e a vida

A surpreendente onda de frio que assola o hemisfério norte do planeta está fazendo nosso bravo viajante reconsiderar suas avaliações sobre o aquecimento global e a ideia de investir em praias da Groenlândia para criar futuros novos balneários. Mr. Miles conta-nos que não se lembra de ter visto tanta neve no Reino Unido desde os tempos em que as escolas do Condado de Essex ainda tinham, pendurado em suas paredes, a foto do rei George VI.
Ainda indignado com as novas tendências da segurança aeronáutica, “que breve obrigarão o surgimento de aviões naturistas”, nosso correspondente observa que o choque térmico decorrente do encontro entre passageiros nus e invernos gélidos será potencialmente muito mais letal do que os atentados terroristas. A seguir, a mórbida correspondência da semana:

Mr. Miles: um amigo me contou que muitos navios de cruzeiro são equipados para receber os corpos de passageiros muito idosos que morrem durante a viagem. A história me pareceu tétrica. Isso de fato existe?
Sólon Soure Ramos, por email

Well, my friend, não espere esta resposta de uma companhia de cruzeiros, mas, de fato, a situação que você descreve é real. Meu bom e velho amigo Ruud Kolningen, um comandante norueguês de larga experiência, falou-me sobre o assunto certa vez, entre doses de acquavit. Lembro-me de ter ficado astounded as you are now. Logo em seguida, however, o velho marujo levou-me a compreender a poesia que existe na decisão que alguns tomam de partir bravamente para novos horizontes, ainda que cientes da possibilidade de que aquela seja sua última viagem.
“É uma homenagem à vida!”, bradou Kolningen naquele bar, com os olhos firmes de quem passou a vida levando pessoas de porto em porto.
He was right, my friend. Hoje, quando vejo um passageiro de idade provecta ou de aparência doentia em um navio de turismo ou em um hotel de lazer, sinto-me inclinado a reverenciá-lo com admiração. Porque, de várias e curiosas maneiras, o ato de viajar costuma ter fortes ligações com a vontade que as pessoas têm de fortalecer suas relações com a vida. Seja como uma forma de melhor entendê-la e justificá-la, seja, simplesmente, para preenchê-la com novos ares, outros sabores e diferentes entendimentos. Você se espantaria, my dear Sólon, ao ver quantos homens e mulheres abatidos, frequentemente atormentados por doenças crônicas, recuperam o viço e afastam-se de seus males quando decidem partir em novas jornadas. Unfortunately, isso não é uma regra, porque a única regra, in fact, é a finitude da vida.
E, by the way, se ela tem mesmo de acabar, melhor que seja longe. Don’t you agree? Longe do presente, porque, exceto os que perderam a esperança, todos nós ainda temos projetos e expectativas. Longe, sobretudo, dos hospitais, onde sempre dá-se um jeito de transformar nossas lembranças em tubos, cabos, seringas de uma assepsia que, oh my God, nem de longe pertence à vida real.
Não faço projeções a esse respeito, mas por mera probabilidade estatística, suponho que eu também vá morrer viajando. Pois que seja assim: apenas um novo e fascinante destino na minha jornada.

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15.janeiro.2010 10:09:40

A origem do passaporte

Nosso incansável viajante partiu de Samoa diretamente para os Estados Unidos, atendendo ao convite de seu jovem amigo Gordon Ramsay para degustar algumas de suas novas criações gastronômicas para 2010. Ainda não temos noticias de como foi o jantar realizado no restaurante que Ramsay conduz na rua 54, em Nova York, mas mr. Miles fez questão de registrar sua indignação com a ” humiliating inspection” a que foi submetido antes de seu embarque para terras americanas. “Despiram-me como a um recém-nascido; apalparam-me como a tomate de feira; farejaram minhas roupas como se tivessem algum tipo de fetiche e nem meu bowler hat escapou de suas mãos imundas. Mas o mais incompreensível é que, mesmo depois de ter sido aprovado no teste, continuei a ser observado como uma ameaça em potencial”.
A seguir, a pergunta da semana:

Caro Mr. Miles: quando surgiram os primeiros passaportes e quantos o senhor possui?
Everaldo Contabile, por email

Interesting question, my friend. Infelizmente, vou ficar lhe devendo a segunda parte da resposta, porque estou longe de Essex, onde guardo os meus passaportes, encadernados, em tomos de 24 unidades, por um inigualável profissional de Aleppo, na Síria, a quem costumo visitar de quando em quando. Unfortunately, durante estes anos como viajante, cinco ou seis deles foram extraviados por motivo de furto ou descuido de minha parte. Nessas ocasiões, fui obrigado a solicitar salvos-condutos em representações diplomáticas britânicas de modo a poder retornar para casa. By the way, o salvo-conduto é o antecessor do passaporte tal qual o conhecemos. A literatura registra que já em 450 antes de Cristo, o oficial persa Neemias, em viagem para Judá, solicitou ao rei Artaxerxes uma carta destinada aos governantes requisitando segurança enquanto ele estivesse em terras estrangeiras.
Foi, of course, um caso isolado, já que em muitos séculos vindouros, os raros viandantes movimentaram-se sem qualquer burocracia, ainda que expostos a muitos perigos.
Novas referencias aos documentos de viagem surgem apenas a partir do século 15, quando alguns monarcas — including our king Henry V —, passaram a emitir “pedidos-de-passagem” para seus súditos em trânsito. Algumas fontes dizem que o termo passport era uma requisição de passagem pelos portos (ports em francês). Outras sugerem que a intenção era liberar o tráfego pelas portas (portes em francês) das cidades, então quase sempre cercadas por muros.
O uso desses papéis disseminou-se até o século 19, quando o advento dos trens provocou, however, um incremento tão notável no número de viagens que os controles tornaram-se insuficientes.
A solução encontrada — very clever, I must say —, foi acabar com a burocracia e abolir a exigência dos documentos. Que, unfortunately, acabaram voltando com a eclosão da Primeira Grande Guerra e a posterior criação da Liga das Nações.
Lembro-me, como se fosse hoje, que, na Inglaterra ficamos chocados com a obrigação de envergar, a partir dos anos 20 do século passado, um caderninho que continha uma foto do portador, uma descrição detalhada de suas características físicas e, pior que tudo, era obrigatoriamente grafado em francês! Considerávamos aquela exigência uma nasty dehumanisation.
Por fim, acabamos aceitando a derrota com nosso tradicional fairplay. E, cá entre nós, hoje tenho até um certo apego pelos sinetes e estampilhas que registraram minhas andanças pelo mundo, tanto tempo depois de Neemias.

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Nosso incorrigível viajante ainda não retornou de sua expedição à Micronésia onde, conforme planejado, passou um réveillon duplo em ilhas próximas, porém separadas pela Linha Internacional da Hora. Segundo a última mensagem que nos enviou, sua intenção era prolongar a estadia em Samoa, onde estava sentindo-se muito confortável. É do remoto arquipélago norte-americano que ele envia sua correspondência desta semana.

Caro Mr. Miles: possuo uma casa no Litoral Norte de São Paulo há quinze anos e, sempre que tenho férias, venho para cá. Gosto daqui, mas ela me dá muito trabalho e me impede de viajar para outros lugares. O que o senhor me aconselha a fazer?
Robson Moraes Elidio, por email

Well, my friend: esse tema já foi abordado em uma de minhas colunas, mas não custa nada reavivá-lo, sobretudo porque é justamente nesta época do ano que os proprietários de casas de veraneio no Brasil são obrigados a trocar o prazer de expandir seus horizontes pela incumbência de usufruir do mesmo destino de sempre.
E eu já posso vê-los, suarentos, procurando quem conserte seus refrigeradores afetados pela maresia ou pela falta de uso. Outros estarão em busca de mão-de-obra que ajude-nos a reposicionar as telhas deslocadas durante a estação de chuvas, responsáveis, portanto, por inconvenientes goteiras na sala que, of course, está cheirando a mofo.
Um terceiro grupo, afetado pelas freqüentes interrrupções no fornecimento de água que afeta balneários superlotados, terá, unfortunately, de encher seus baldes no próprio mar, além de enfrentar as longas filas nas portas dos mercados em busca de água potável.
Oh, que maravilha de férias!
Atividades sem fim, noisy neighbours e, mais que isso, a fatídica certeza de que será preciso voltar no ano seguinte, e no outro, e no outro, pois enquanto um cidadão possuir uma casa de veraneio ele dela será seu escravo, os custos de manutenção, unless he is a millionaire, não permitirão que ele viaje para qualquer outro lugar senão para a casa que possui e que provoca a inveja de seus amigos.
Believe me, my friends: esse é um fenômeno mundial. Tenho inúmeros amigos ingleses que antes viajavam mundo afora e acabaram cedendo à tentação de adquirir uma casa desse tipo no sul da Espanha, ou no Algarve ou nas ilhas Canárias. A história é exatamente a mesma. O entusiasmo inicial pela aquisição revela-se o que de fato é: um golpe fatal na possibilidade de sentir-se atraído por um outro destino. África never more. Forget South America.
Admito, however, que essa é uma opinião incorrigivelmente contaminada por meus ideais de viajante. Com certeza, existem prazeres escondidos por trás desses sacrifícios que mencionei e eu sou demasiadamente míope para enxergá-los.
Quanto a sua questão, fellow, não tenho senão respostas óbvias a oferecer. Ou você aluga sua casa por temporadas (e, of course, nesse caso, prepara-se para custos de manutenção ainda maiores) ou tenta colocá-la à venda. Se você optar por este último caminho, aceite um conselho especial: por motivos óbvios, evite oferecê-la os leitores desta coluna. Got it?

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07.janeiro.2010 14:31:35

Revéillon em dobro

Nosso sempre bem-disposto viajante recebeu votos de boas festas e feliz ano novo de uma grande quantidade de leitores e, of course, manda retribuí-los, na sempre positiva expectativa (segundo ele) de poder encontrá-los “somewhere around the world“. Conforme mencionado em sua coluna da semana passada, mr. Miles partiu para uma empreitada inédita e excêntrica, na companhia de de sua alternativa amiga Sarah Scott, uma fanática adepta de rituais de passagem e, claro, de sua inseparável mascote Trashie, a raposa das estepes siberianas.
A intenção da expedição é comemorar o réveillon em duas noites consecutivas, utilizando-se, para isso das vantagens proporcionadas pela Linha Internacional da Hora. É o próprio viajante britânico quem explica:

Well, my friends: como deve ser de seu conhecimento, a Linha Internacional da Hora divide o hoje do amanhã de forma abstrata e convencionada. Trata-se, in fact, de um traço imaginário esticado sobre o globo na altura do meridiano de 180 graus que, however, sofre convenientes desvios de modo a jamais passar sobre áreas habitadas.
Caso isso ocorresse, as you know, poderia ocorrer de que uma pessoa solidamente posicionada ao meio-dia de uma segunda-feira fosse obrigada a dar as mãos à outra que ainda estivesse em pleno almoço do domingo anterior, com estranhas consequências metafísicas. Don’t you agree?
Eis que, analisando o mapa do Pacífico, verifiquei que, se eu estiver nas ilhas Wallis e Futune no dia 31 de dezembro, serei um dos primeiros cidadãos do mundo a comemorar a entrada de 2010. Sem contar o fato de que, por uma falha de meu currículo, jamais estive nesse pequeno arquipélago francês, que contém interessantes atrativos arqueológicos.
A viagem, I presume, é um pouco longa. Vou para a Austrália, pego um vôo de linha para Nouméa, na Nova Caledônia e um pequeno avião da Aircalin para a ilha de Uvea, em Wallis.
Prevejo uma deliciosa noite etílica à beira-mar para receber o Ano Novo, observando as mandingas de Sarah e cuidando para que Trashie não se exceda na bebida. Há um único avião em Wallis, que já reservamos para o dia seguinte, após o almoço. Com Jean-Paul, que me disse ser um piloto experiente, voaremos os 300 quilômetros que separam Wallis de Upolu, no arquipélago norte-americano de Samoa. Em pouco mais de duas horas, vejam só, aterrisaremos again no ano de 2009.
É claro que é só um truque, mas recuperar um dia e poder refazê-lo é uma experiência que cada um de nós saberia usar com inteligência para corrigir aquele erro que alterou nossos destinos ou reviver aquela alegria que nunca mais experimentamos. Don’t you agree?
Well: after that passaremos mais uma noite festiva no hotel de minha saudosa amiga Aggie Grey, que, durante a Segunda Guerra, produzia os hamburgueres mais sonhados de todo o Pacífico. Com vista para o Porto de Apia e um copo de scotch na mão (sorry, champagne não), entrarei pela segunda vez em 2010, na expectativa de, nesse ano duplicado, viajar duas vezes mais, conquistar duas vezes mais amigos, apaixonar-me em dobro e, of course, ter duas vezes mais histórias para compartilhar com meus prezados leitores. Happy new year, fellows!

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23.dezembro.2009 22:33:40

Gigantismo nos mares

O homem mais viajado do mundo prepara-se para um excêntrico final de ano. Na companhia de sua alternativa amiga Sarah Scott e de sua inseparável mascote Trashie, mr. Miles planeja fazer uma longínqua viagem até as proximidades da Linha Internacional da Hora, de modo a comemorar, duas vezes em vinte e quatro horas, a entrada de 2010. Na próxima semana, nosso viajante conta como isso é possível. A seguir, a correspondência da semana:

Mr. Miles: li, na semana passada, sobre o novo maior navio do mundo lançado ao mar recentemente. O que o senhor acha de embarcações desse tipo?
Juarez Tillo Menezes, por email

Well, my friend, a tendência parece irreversível: eles não param mesmo de crescer. Recordo-me, a few years ago, quando vi, pela primeira vez, o colossal Queen Mary 2, na ocasião o maior de todos os navios. Eu estava em uma pequena pousada com vista para o porto de St. Thomas, nas Ilhas Virgens Americanas, tomado por enormes navios de cruzeiros. Conversava animadamente com outros viajantes e bebericava meu scotch enquanto, silenciosamente, o QM2 entrou na baia e fundeou ao largo.
Suddenly, virei-me para contemplar a paisagem e levei um susto: os grandes navios de minutos atrás pareciam ter se tornado modestos iates de passeio. Havia uma cidade em frente ao porto de Charlotte Amalie e era como se, então, o porto fosse apenas um apêndice do titã ancorado.
Desde então, fellow, novos recordes de gigantismo naval são sobrepujados ano após ano. Uma grande conquista dos engenheiros que, however, significa um revés indiscutível para o glamour da navegação.
Ouso supor que os passageiros dessas metrópoles flutuantes ficam cada dia mais afastados dos mares em que trafegam. Dos elevadíssimos decks desses navios, o oceano é quase uma abstração. Não se ouve o som da água vergastando o casco, tampouco é possível acenar lenços brancos para os que ficam na lonjura disforme do cais.
São navios com ruas, praças, shopping-centers e tão variada opção de lazer que, oh, my God, sequer importa se estão de fato navegando. Os gigantes do futuro, I presume, já não terão apenas ruas, mas rodovias. Os passageiros poderão alugar carros e viajar por estradas cênicas que circundarão campos de golfe, vinhedos e montanhas artificiais. Em alguns desses navios, será possível praticar esqui alpino; em outros, perhaps, até safáris africanos estarão à disposição dos viajantes.
I’m sorry to say, mas parece que não há limites para esse crescimento. A não ser o próprio limite dos mares. Temo que, algum dia, o mundo veja um meganavio com a proa ancorada em Nova York e a popa amarrada em La Rochelle. Mas, como otimista que sou, imagino que até lá, os projetistas navais terão desenvolvido a brilhante idéia de criar enseadas, praias e — why not?, — até mesmos portos encaixados na estrutura da embarcação. E quando esse dia chegar, os mares, at last, vão precisar de novo de navios menores para ancorar nos maiores.
As pessoas, of course, vão estranhar no começo. Mas logo, I’m sure, vão redescobrir o prazer de navegar como no passado.

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O homem mais viajado do mundo manda agradecer aos leitores que têm se manifestado sobre suas colunas e aproveita para dirigir um comentário ao leitor Norberto Margulies, que também perdeu uma longa amizade durante uma viagem em que o relacionamento entre os amigos foi colocado à prova e acabou reprovado. ” Sinto muito por sua história, my fellow, mas coisas assim realmente acontecem, como pude relatar em crônica recente. O título de seu email, ‘Amigos, amigos, viagens à parte’ é muito espirituoso, ainda que ligeiramente exagerado.”
De Lanzarote, onde comeu um frango assado pelas emanações vulcânicas de uma cratera no Parque Nacional de Timanfaya, mr. Miles responde a correspondência da semana.

Mr. Miles: o senhor já passou o Natal em lugares onde o ritual é diferente do nosso? Como foram suas experiências?
Isis Bachanello, por email

Well, my dear
, você ficaria espantada em ver como o Natal é comemorado de forma diferente em distintas partes do mundo. A gastronomia varia, a figura de Papai Noel muda de forma, de função e até de sexo conforme o país e as canções, of course, são outras de acordo com a latitude em que se está. Tenho tido a oportunidade de passar a noite do dia 24 de dezembro em muitos lugares desse planeta. Em muitos deles, by the way, não há sequer uma menção à data, exceto nas comunidades cristãs minoritárias.
Você não poderia imaginar um Papai Noel muçulmano ou budista, could you? Anyway, já que você me pergunta, vou contar-lhe sobre duas inusitadas experiências natalinas dessa minha existência viajora. Não sei precisar o ano, mas era em um tempo em que o Iraque vivia em relativa paz. Ocorreu de eu estar na véspera de Natal, em Bagdá, na casa de Rachid Safadie, de tradição católica. Não havia árvore de Natal ou mesa posta com perús e nozes. Quando a noite chegou, Rachid pôs-se a ler uma Bíblia arábica enquanto os outros membros da família ¬– inclusive eu, muito honrado – ficamos segurando velas em um páteo ao ar livre. Later on, Rachid e a família acenderam uma fogueira com folhas muito espinhudas e esperaram até que ela se transformasse em cinzas, sinal de sorte e prosperidade. Enquanto o fogo queimava, todos entoavam belos salmos e, ao final, eram instados a pular sobre as cinzas ainda quentes, com o direito de fazerem seus desejos secretos para o novo ano. It was very charming. Quanto ao meu desejo, devo confessar que pedi para nunca mais ter de pisar de novo numa superfície tão quente. Can you understand?Muito mais estranho do que isso, my dear, foi o Natal que passei em certa tribo da Nova Guiné, durante uma longínqua expedição. Os nativos locais aprenderam noções de cristianismo com um missionário canadense mas, I´m afraid, entenderam tudo errado. Sabe o que eles fazem no dia de Natal? Um intercâmbio de crianças entre as tribos rivais. A criança escolhida, a partir de então chamada Criança da Paz, passa a viver no povoado rival e será bem tratada e protegida.
Crêem as pessoas que, se algo de mal ocorrer a algum desses petizes eleitos, um novo período de guerras assolará a região. A intenção, as you see, é muito nobre. Mas, cá entre nós, eu ainda prefiro panetones. Don´t you agree?

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