Pode desfazer a careta. Embarcar em uma viagem rumo ao universo das comidas de rua exige um certo desprendimento. Por isso, livre-se dos preconceitos, pegue seu talher de plástico e o guardanapo (se estiverem disponíveis) e dê uma abocanhada, com gosto. Parabéns: você acaba de ter uma autêntica experiência gastronômica.
Afinal, nessas barraquinhas, espalhadas por quase o mundo todo, não são vendidos apenas petiscos ou lanches rápidos. Nelas encontra-se também um resumo dos hábitos alimentares daquela região, ingredientes típicos e sabores que dificilmente poderão ser reproduzidos em outro lugar.
O Brasil tem inúmeros (e excelentes) exemplos de boa gastronomia de rua. Onde houver uma grande concentração de pessoas, seja na praia, no estádio de futebol ou em uma rua movimentada, haverá uma barraquinha. A chef Flávia Quaresma, formada na França, não dispensa esse tipo de iguaria. “Adoro. Meu pai diz que tenho o estômago blindado”, brinca. Em suas viagens – muitas delas, realizadas no extinto programa Mesa pra Dois, da GNT – ela faz questão de provar os quitutes locais.
Flávia, que adora o pastel vendido em frente à quadra da Magueira, dá algumas dicas para provar seu petisco sem medo: “Busco sempre informações com os locais e dou uma olhada nas condições de higiene da barraca”, recomenda Flávia. “Barraca cheia e com boa fila abre o apetite. Afinal de contas, com a rotatividade a comida deve ser sempre mais fresquinha.”
Abaixo, uma pequena amostra do que se pode encontrar nas ruas de cidades pelo Brasil. Bom apetite!
Salvador – BA

Programa obrigatório na Bahia, acarajé é preparado apenas pelas "filhas de Xangô" e não pode ter a receita alterada. Sentiu o privilégio? Foto Solange Rossini/Divulgação
Comer acarajé em Salvador é tão obrigatório quanto visitar o Pelourinho (onde as versões vendidas não são das melhores) ou o Elevador Lacerda. Para saborear o tradicional bolinho feito de massa de feijão fradinho frito em óleo de dendê sem medo, o melhor é seguir para as barracas famosas e sempre cheias do Rio Vermelho.
Mas se você já é um expert no quitute, pode degustá-lo como petisco de praia – em Salvador e arredores, sempre há um tabuleiro estrategicamente armado para matar a fome depois de um dia inteiro de sol e mar. O acarajé – que se tornou patrimônio da cidade de Salvador – normalmente vem acompanhado de vatapá, caruru e, em alguns casos, salada (quase um vinagrete) e camarão salgado. Pode ser comido como um sanduíche ou no prato, com o acarajé picado em pedacinhos. Uma delícia literalmente dos deuses.
Sim, porque o acarajé é servido como oferenda a Xangô, no candomblé. Considerado uma comida santa, é preparada apenas pelas “filhas de Xangô” e não pode ter a receita alterada. Sentiu o privilégio? Só não esqueça da recomendação básica: se a baiana perguntar se quer quente ou frio, responda sempre frio. A não ser que queira a pimenta para lá de caprichada.
São Paulo – SP
Não há programa mais paulistano que ir à feira no domingo e pedir um pastel com caldo de cana. Pode comer em pé ou nos banquinhos de plástico, adicionando vinagrete, catchup ou o que mais o dono da barraca inventar. Dependendo da quantidade que se compre, alguns até oferecem um outro pastel, de brinde. Afinal, vale tudo para fidelizar a clientela.

Pastel de feira só vale se for feito na hora Foto: Sergio Neves/AE
Os indefectíveis sabores de carne, queijo e palmito há tempos não são mais os únicos do cardápio. As opções ficaram tão variadas quanto os menus das pizzarias da cidade, com misturas conhecidas como frango com catupiry, camarão, portuguesa… Das redondas, os pastéis imitaram também os sabores doces: banana com canela, brigadeiro e por aí vai.
No ano passado, um concurso elegeu as melhores barracas de feira da cidade para saborear o quitute. A vencedora foi a Barraca da Maria, que bate ponto às quintas-feiras na Praça Charles Miller, no Pacaembu.

Barraca da Maria, vencedora do concurso das feiras Foto: Sergio Neves/AE
Fora da capital, o Pastel do Trevo, em Bertioga, na Rio-Santos, começou como uma barraquinha. O tamanho generoso de 30 centímetros (vale por dois de tamanho normal) e a fartura de recheio deram fama ao lugar, que ganhou mais espaço na entrada da cidade. E até filiais, como a do Tatuapé, na zona leste de São Paulo, e da Pompeia, na zona oeste. O preço também cresceu: alguns sabores chegam a custar R$ 12. Seja qual for o endereço escolhido para saborear o pastel, o caldinho de cana para acompanhar é de praxe. Quer combinação melhor?
Olinda
Subir a ladeira da Misericórdia, em Olinda, não é tarefa das mais fáceis. É preciso fôlego e disposição para encarar a rua para lá de íngrime que leva ao Alto da Sé. O sacrifício vale a pena, e não apenas pela bela paisagem que se avista lá do alto. Afinal, lá em cima você poderá repor as energias com as famosas tapiocas.
São aproximadamente 30 barracas, que vendem a massa de fécula de mandioca recheada dos mais variados sabores. Queijo coalho, frango, charque e até opções doces, com doce de leite e goiabada, por exemplo estão no cardápio. Os preços variam de R$ 3 a R$ 5.

O mais difícil é ter de escolher o recheio… Foto: Mônica Nóbrega/AE
Em 2005, o Sebrae acompanhou as tapioqueiras, oferecendo, em parceria com a Prefeitura, cursos para melhoria no atendimento e na manipulação dos alimentos. Houve até a tentativa de uma padronização de roupas e logomarca, que não vingou. Mas as tapiocas continuam deliciosas.
Belém – PA

De tão típico, o tacacá ganhou também os restaurantes do Norte do País. Foto: Jean Barbosa/Paratur
O primeiro gole do tacacá pode travar a língua. Seu buquê não é daqueles de dar água na boca. Mas é obrigatório incluí-lo na lista “do que conhecer” quando se está em território nortista. Mesmo porque esta é só a primeira impressão dos desavisados, que acham que vão tomar alguma sopinha mais básica.
Na verdade, trata-se de uma iguaria indígena. E o que dá o gostinho típico é o tucupi (ou, em outras palavras, o suco da mandioca), além das folhas de jambu, responsável por, segundo dizem, dar um toque afrodisíaco ao preparado.
Não se assuste com o “travar” da língua logo nos primeiros goles – outra das responsabilidades do jambu. Nada que um paladar apurado e o envolvimento com o exotismo de sua história não supere.
De tão típico, o tacacá ganhou espaço também no cardápio da grande maioria dos restaurantes do Norte do País. Mas se mantém, firme e forte, pelas esquinas de Belém e no tradicional mercado Ver-O-Peso. (Cristina Vieira)
Para os amantes de vinho, novembro é o mês do Beaujolais Nouveau. A partir de hoje, cerca de 30 restaurantes paulistanos começam a recebem a nova safra da bebida. E em seguida, iniciam a preparação de uma noite especial, regada a muito vinho e um cardápio harmonizado.
O que temos aqui é uma pequena versão do que é feito na região de Beaujolais, que vai de Lyon até o limite de Burgundy, na França. Lá, todo mundo festeja a chegada da safra anual com grandes festas em bares e restaurantes.
Ao contrário do que se diz por aí, a maioria do vinho é produzida artesanalmente, por famílias que estão em Beujolais há tempos e se dedicam a plantação da uva gamay. Numa visita, você é rapidamente cativado pela simpatia das pessoas locais.
Visitei a casa do senhor e a senhora Callandres que, apesar de seus 70 anos cuidam, sozinhos, de 9 hectares de plantação. Parte da casa é do século XVI, outra do século XIX, toda construída com as típicas pedras amarelas (golden stones) que caracterizam a região e com jardins floridos ao redor. A área plantada fica ao fundo, onde se pode avistar os Alpes. Tudo é milimetricamente bem cuidado.
Num galpão, o típico cheiro do vinho sendo fermentado. Eles produzem de oito a dez mil garrafas de de dois tipos da bebida: Beaujolais e Beaujolais Villaje, que podem ser comprados ali mesmo. Cada garrafa sai por 4,80 euros.
E se você tiver sorte, o sr. Callandres pode se empolgar e mostrar seu museu particular. Estão guardadas ali as ferramentas que a família usava no passado, todas feitas à mão.
Ao final da visita, a prova do produto, conduzida pela dona da casa. O vinho é leve e frutado. Deve ser consumido ainda jovem e pode ser servido gelado. Talvez por isso haja certo preconceito contra ele. Talvez por isso também, é uma boa pedida para refrescar o calor que começa forte no Brasil.
Para os admiradores de arquitetura você pode contar que foi a Eixample vistoriar as Casas Milà e Batlló, obras-primas do delirante Antoni Gaudí. Com os consumistas, use o argumento de que esteve nesse charmoso bairro de Barcelona para conferir vitrines Armani, Burberry e Louis Vuitton. Mas só revele a verdade aos amigos: o arquiteto catalão e as grifes estiveram em seu caminho. O prazer máximo, porém, você encontrou na Cacao Sampaka.

Vitrine parece joalheria – Carla Miranda/AE
A chocolateria nasceu em 2000, marcada pela estrela de Albert Adrià (sim, o irmão caçula de Ferrán), e utiliza em suas criações apenas o mais puro chocolate cubano, equatoriano, venezuelano, brasileiro… Em tempo: Albert desistiu da sociedade, mas suas invencionices continuam dando o tom.
A loja de Eixample – o nome significa extensão, em catalão, pois o bairro surgiu quando Barcelona não tinha mais para onde crescer – foi a primeira da grife, que agora tem unidades em lugares tão diferentes quanto Dubai e Tóquio. Quando estiver na esquina da Rambla Catalunya com a Calle Consell de Cent, recém-saído das tais butiques do Paseo de Gracia, reduza o passo. A fachada negra e a vitrine com visual de joalheria podem fazer você passar direto pela Cacao Sampaka. Lembre-se disso e fixe o endereço para não correr riscos: número 292 da Consell de Cent.

As joias da Sampaka – Carla Miranda/AE
A entrada já é uma festa, com chocolates de todos os formatos dispostos em cestos retangulares de vime. Há também embalagens com palitos de laranja amarga cobertos de chocolate escuro, amêndoas com chocolate branco, barras de chocolate com flocos de arroz. Enfim, você pode se perder sem antes ver as “joias” da Cacao Sampaka.
São oito coleções. Especiarias, Flores e Ervas, Vinhos, Licores e Aguardentes, e Inovações Gastronômicas estão entre as caixinhas prontas para degustação. Mas você pode montar sua própria seleção, como eu fiz. Minha atenção se voltou primeiro para a seção das inovações. De lá retirei um bombom de trufa negra do bosque, que deixou algo de tempero na boca. E outro de queijo parmesão, de sabor bem pronunciado a princípio, mas que se equilibrou aos poucos. O melhor dessa linha foi o de azeite, que confere textura ao recheio molengo de chocolate amargo.
Na sequência, investi nas Especiarias: pimenta da Jamaica (envolvente), açafrão (perfumado) e café com cardamomo (amarguinho sensacional). As flores foram uma decepção, com um quê de sabonete. Entre as bebidas, palmas para o bombom de cassis, um dos melhores da seleção que fiz naquele dia. O de avelã também agradou.
Antes de você deixar a Cacao Sampaka, vá até o fundo da loja, onde há um pequeno café, e confira o cardápio de chocolates cremosos, nas versões tradicional (cacau 70% e canela), azteca (cacau 80% e especiarias) e suíço (chocolate com chantilly). Uma orgia para chocólatra nenhum botar defeito.
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