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Viagem

Ama Dablam, aclimatação em Pheriche a mais de 4.600 metros – Fotos: Felipe Mortara/Estadão

Felipe Mortara

O sexto dia de viagem trouxe à tona outro desafio que será constante daqui por diante: o frio. Saindo de Pangboche sentimos a neve que caía por vezes implacável com o vento, embelezando por instantes o horizonte. Mas, no fim das contas, a caminhada de 2h30 anunciaria a noite mais gelada da viagem.

Dentro dos quartos dos lodges não há calefação. Tal conforto é encontrado, em geral, em apenas um ambiente, normalmente no restaurante. Ou seja, fomos dormir e acordamos soltando vapor pela boca. O sleeping se faz muito muito útil e, no Himalayan Hotel, ainda há uma coberta que ajuda. Mas o problema maior é durante a madrugada, quando precisamos ir ao banheiro. Aí, sim, no meio da noite a coisa fica realmente sofrida.

Por conta da altitude – já estamos acima dos 4 mil metros -, mantemos um ritual constante de hidratação, seja com água ou chá. Esta tem sido uma recomendação desde o começo por parte dos guias da Grade 6 Viagens, que acompanham o tempo todo se o grupo está bebendo quantidades suficientes de água.

Equipe planeja os próximos passos da expedição

Como estamos cada vez mais longe de grandes centros urbanos, a água vai ficando mais rara – e cara. Se no primeiro dia de viagem uma garrafa custava 100 rupias nepalesas (R$ 2,30), hoje não sai por menos de 250 rupias (R$ 5,70). Pelo menos a parte dos chás alegra a vida, já que costumam ser abundantes e saborosos, como o chá de limão e o de rododendro – árvore típica do Nepal que produz um chá encorpado e perfumado, com um quê de canfora e mentol no final.

Ansioso para a noite de hoje, deveremos nos agasalhar ainda mais. Amanhã seguiremos viagem de Pheriche rumo a Lobuche, onde o acesso à internet deve ser mais escasso. No entanto, estamos na expectativa de uma grande novidade para contar para vocês em breve. Fiquem ligados!

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Templo dedicado a São Jorge foi erigido pelo rei Lalibela no século 12 – Fotos: Daniel Nunes Gonçalves

Diz a lenda que as igrejas de Lalibela foram construídas pelos homens durante o dia e pelos anjos à noite. A arquitetura é, de fato, divina – e tão bela quanto os ritos e tradições locais

Daniel Nunes Gonçalves / ESPECIAL PARA O ESTADO / LALIBELA

Uma multidão de véus brancos se destaca na escuridão das ruas de terra de Lalibela como se levitasse silenciosamente. Jogo o foco da lanterna sobre meu relógio, que marca 4h30 da manhã e, em seguida, ilumino as almas que caminham ao meu lado. São seguidores do cristianismo ortodoxo, que se instalou na Etiópia no século 4 d.C., e que têm o mesmo destino que eu: as igrejas escavadas em pedra, no século 12, nessa charmosa cidade de montanha no norte do país. Pela quantidade de gente, parece que boa parte dos 15 mil lalibelenses, muitos deles moradores da zona rural, não se importa de sair de casa antes do nascer do sol. Afinal, na chamada “Jerusalém africana”, todo dia é dia de reza.

Alguns amanheceres, como esse, merecem bênçãos especiais. É o caso dos dias de santo, da Páscoa, do Natal e da Epifania, como é chamada a data em que Jesus Cristo teria sido batizado. Para os seguidores do cristianismo ortodoxo, que correspondem a quase metade da população do país, estas são datas auspiciosas para orar na Terra Santa etíope.

Para minha sorte, sou levado pelo meu guia, Desew Weday, diácono há 15 anos, para pisar na igreja de Bet Maryam, que homenageia a mãe de Jesus, justamente no seu dia, o 21 da folhinha local. Com um calendário próprio, a Etiópia chama de dia 21 do sétimo mês de 2006 este dia que corresponde, na agenda ocidental dos seguidores do calendário gregoriano como eu, ao 30 de março de 2014.

Ao avistarmos, da rua, o buraco de 11 metros onde foi escavada a igreja de Nossa Senhora, uma música chorosa entoada por vozes graves domina o ambiente. Os beatos e as beatas de véu branco descem as escadas, tiram os sapatos e reverenciam o monólito beijando o chão ou a parede, ajoelhando-se ou simplesmente rezando com a testa colada na parede. Faz lembrar o Muro das Lamentações da Jerusalém original. “Só homens podem cantar, e sempre em ge’ez”, explica o guia Desew, referindo-se ao antigo alfabeto etíope que se tornou a língua litúrgica dos ortodoxos.

Sacerdote com beatos em Lalibela

O sonho do rei santo. Quem desvia (ou tropeça) dos calçados deixados no portal e adentra entre as colunas do prédio começa a ter uma ideia da proeza arquitetônica – descrita como milagrosa por muitos – empreendida pelo rei Gebre Mesqel Lalibela. Membro da dinastia Zagwe, que comandou a Etiópia entre o fim do século 12 e o início do 13, é considerado santo e entrou para a história por erigir esta e as outras dez casas de oração na então Roha, capital do império – cidade que hoje leva seu nome. Não há registros exatos sobre quantas pessoas e quantos anos teriam sido necessários para realizar tal proeza.

Diz a lenda que os humanos trabalhavam de dia e os anjos, à noite. A cultura oral repassada ao longo dos últimos oito séculos preservou outro mito que está na ponta da língua dos guias. “Foi durante o tempo que passou em coma, após ter sido envenenado, que o rei Lalibela visitou Jerusalém em sonho”, conta Desew. “Ao acordar, ele obedeceu a ordem de Deus e passou a construir as igrejas para fundar aqui a Nova Jerusalém.” Na época, em 1187, a Jerusalém original tinha sido tomada pelos muçulmanos.

Dentro das grossas paredes da igreja de Bet Maryam, a primeira a ser escavada, o cenário é único. Além do coral masculino, a divisão de homens de um lado e mulheres de outro faz lembrar o protocolo dos judeus nas sinagogas, que imperava nas primeiras igrejas cristãs do planeta. Como não há bancos, as pessoas se esparramam pelo chão coberto por tapetes pesados. Na parte central do fundo, onde em uma igreja católica estaria um altar, há apenas uma cortina vermelha pesada, que esconde objetos cerimoniais acessíveis a padres e bispos, exibida ao público só nos festivais.

Fé sólida como pedra. Mais sólida que aquelas paredes sagradas, a fé do povo de Lalibela é demonstrada de forma intensa. Padres de mantos coloridos e coroas que fazem lembrar as dos reis passam pesadas cruzes ortodoxas no corpo dos fiéis que se amontoam para ganhar suas bênçãos. Após semanas e semanas de jejum parcial, cristãos se esforçam para ter a chance de acender uma vela ou um incenso dentro das igrejas lotadas, para ganhar na testa o desenho de uma cruz de cinzas ou para pegar um pedaço do pão bento.

Devoto nas cercanias das igrejas escavadas no chão

Duas madrugadas depois da minha visita à Casa de Maria, acompanho um ritual semelhante na igreja de São Jorge, a mais famosa de Lalibela. No templo do santo guerreiro, me surpreendo com o prazer que cristãos ortodoxos demonstram ao receber, na cara, fortes jatos d’água. Eles são jogados pelas mãos de uma criança que se ajoelha à beira do tanque batismal do lado de fora do templo.

Os primeiros raios de sol tornam o ambiente especialmente mágico. Na Etiópia, o novo dia começa às 6 horas da manhã – e não à meia-noite, como no relógio ocidental. É quando, ao fim das primeiras orações matinais, a multidão de véus brancos começa a se dissipar, deixando as igrejas de pedra para seguir para casa por estradas poeirentas.

  • SAIBA MAIS
  • Aéreo: SP – Adis-Abeba – SP: desde US$ 1.965,60 na Ethiopian Airways, com escala em Lomé, Togo
  • Moeda: 1 birr equivale a R$ 0,11
  • Idiomas: o oficial é o amárico; a Etiópia é o único país que o utiliza
  • Igrejas: para visitar as igrejas de Lalibela há um ingresso único, que custa US$ 50 e tem validade de quatro dias
  • Vacina: obrigatória contra a febre amarela
  • Visto: pode ser tirado na hora; custa US$ 20. Alguns hotéis já providenciam o visto
  • Site: tourismethiopia.gov.et/english

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Templo esculpido na rocha – Fotos: Daniel Nunes Gonçalves

 

LALIBELA

Ainda que as igrejas sejam a principal atração de Lalibela, mesmo quem não se interessa por religiosidade costuma se encantar. Primeiro, porque este povoado de nome simpático está encarapitado no topo de um morro a quase 2.800 metros de altitude – e acessível por um zigue-zague de estradas cênicas. O clima é agradável, os principais hotéis oferecem vistas panorâmicas fantásticas e dá para conhecer a gastronomia nativa sem grandes problemas de higiene. Além disso, o lugar não se rendeu ao artificialismo que por vezes descaracteriza destinos turísticos e conserva a alma de uma autêntica aldeia etíope.

Como em toda cidade pequena, as pessoas se cumprimentam na rua – e não serão poucas as crianças que tentarão praticar o inglês com “hello”, “how are you?” e “which country?”. Responda saudando na língua deles – “Salam!” – e as portas se abrirão. A quantidade impressionante de pessoas usando camisetas do Brasil denuncia o óbvio: futebol aqui é paixão séria, e quem confessa que vem da terra de Neymar encontra anfitriões ainda mais simpáticos.

Com frequência, os meninos pedem gorjetas para comprar uma nova bola para o time. Outros mostram o boletim em busca de ajuda para novos cadernos. E há aqueles que convidam para tomar café na casa deles – o que pode ser uma experiência antropológica interessante por apenas uns trocados.

Família em trajes típicos

Aproveite a luz boa para fotos pela manhã, o incrível pôr do sol por trás das montanhas à tarde, mas evite o calor forte do meio do dia. Ainda que os dois agrupamentos em que se dividem as 11 igrejas estejam a menos de um quilômetro um do outro, não é preciso conhecer todas em um só dia. Cada uma tem sua peculiaridade e vale entregar-se ao ritmo manso do lugar. A mais famosa, de São Jorge, se destaca por não ter coberturas artificiais sobre seu teto em forma de cruz. As proteções contra a chuva, colocadas em 2008 e idealizadas pela Unesco, estragaram um bocado o cenário para as fotos, ainda que pelo bem da preservação arquitetônica.

Entre as igrejas do Grupo Norte, a de Bet Golgotha se destaca pelas esculturas de santos em tamanho real. Se Bet Maryam e Bet Gyiorgis, as “casas” de Maria e São Jorge, foram inteiramente cavadas no subsolo, de cima para baixo, outras como a dos anjos Gabriel e Rafael, já do outro lado do Rio Jordão, no Grupo Leste, foram esculpidas em paredes monolíticas de pedra, ganhando ares de caverna.

Experiência à la Indiana Jones

Caminhar por túneis e fendas estreitos proporciona uma experiência à la Indiana Jones (especialmente em meio à superlotação dos rituais). E os padres e diáconos que atuam como guardiães de cada templo vão sempre parecer posar para fotos – alguns não consideram pecado receber uns birrs de gratidão.

O santuário de Yemrehane Kristos, a 42 km de Lalibela

Instalada em uma caverna de verdade, a igreja de Yemrehane Kristos fica a 42 quilômetros de Lalibela, mas vale a visita de meio período. Mais antiga (consta que foi erguida no século 11) que as da vizinha famosa, a construção que homenageia o rei de mesmo nome exibe nos fundos uma assustadora montanha de esqueletos – dizem que de 10 mil peregrinos que ali morreram.

Chegar ao alto desse vale verdinho requer alguma paciência com os solavancos da estrada de cascalho. O caminho, porém, é responsável por boa parte da graça do passeio. Dá para observar os tukuls, típicas moradias circulares feitas em adobe e cobertas por palha, acompanhar o vai e vem de vaqueiros e pastores de cabras, testemunhar o esforço de quem caminha léguas, às vezes com lenha nas costas, para comprar ou vender produtos no mercado de Lalibela.

Fazendo a feira. Estar na cidade na manhã de sábado, por sinal, é outro must. A grande feira semanal que congrega moradores dos povoados vizinhos mostra a vida como ela é em um típico país pobre da África. Falta dinheiro até para ter uma barraquinha de madeira. Grãos de lentilha, montes de sal e pilhas de alho são dispostos no chão, com um vendedor grudadinho no outro. Vacas e jegues são comercializados no espaço vizinho.

Não será aí, no entanto, que você encontrará souvenirs típicos, como os potes de couro usados como marmiteiras ou as mil variações de cruzes ortodoxas – algumas copiadas com precisão das originais que estão no pequeno museu vizinho à bilheteria das igrejas. Para isso, há algumas poucas barracas no centro de Lalibela.

A cidade oferece uma meia dúzia de bons lugares para comer, seja no gramado da despojada pousada Seven Olives, nos restaurantes de hotéis bacanas como Mountain View e Panoramic View ou em casas de família como a da simpática Sisco Kase, que batizou sua humilde sala elegantemente de Unique.

À noite, quando o calendário espiritual permite, rola música ao vivo no aconchegante Torpito Bar. Mas é no Ben Abeba, no alto de um dos precipícios, que os turistas se encontram para o pôr do sol. O lugar foi idealizado pela escocesa Susan Aitchison e pelo seu sócio local, Habtamu Baye. Susan ali chegou para trabalhar como professora e se apaixonou pelo lugar. “Em Lalibela moro nas alturas, pertinho de Deus.” /D.N.G.

 

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Ritual da Fasika, a Páscoa etíope – Foto: Haroldo Castro/Arquivo Pessoal

“Ainda que viajar para a Etiópia pareça a volta a um mundo parado no tempo, em Lalibela as igrejas de pedra se mostram vivas, especialmente em rituais estonteantes como a Fasika, a Páscoa etíope”, descreve o fotógrafo Haroldo Castro, que acompanhou ali a celebração da ressurreição de Cristo em 2010. Idealizador da operadora Viajologia Expedições, especializada em destinos exóticos, Castro desembarca em Lalibela nesta semana guiando 11 brasileiros. Eles estarão entre os milhares de peregrinos esperados para acompanhar, nas profundezas de santuários que jamais se tornaram peças estáticas de um museu, reverências marcantes como a vigília da noite de sábado, vivida com muita música e danças devocionais.

Movimentação semelhante ocorre em janeiro, nos outros dois grandes festivais da cidade. No dia 7 (do nosso calendário gregoriano), mais de 50 mil pessoas festejam a Geena, o Natal local, em cerimônias solenes como o acendimento de velas à meia-noite. Já no dia 19 é a vez do Timkat ou Epifania, quando o batismo de Jesus é lembrado por meio de rituais como banhos em água benta e procissões que seguem as tabots, réplicas da arca da aliança que toda igreja ortodoxa etíope possui. Acredita-se, por sinal, que a arca original, que teria abrigado a tábua dos dez mandamentos, encontra-se na cidade de Aksum, considerada tão sagrada quanto a quase vizinha Lalibela. / D.N.G.

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O vaivém nas ruas da maior cidade etíope – Fotos: Daniel Nunes Gonçalves

Caldeirão cultural e arqueológico e centro diplomático do continente, Adis-Abeba mistura festivais artísticos contemporâneos a danças tribais com uma autenticidade inconfundível

ADIS-ABEBA

Seu nome completo é Adis-Abeba, mas pode chamá-la intimamente de Adis, como fazem os locais e os muitos estrangeiros que a habitam. Com mais de 3 milhões de habitantes, a capital política da Etiópia se destaca também como capital diplomática de todo o continente: ficam ali os prédios-sede da União Africana (que pode ser visitado sob agendamento prévio) e da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África.

O bairro de Bole, onde fica o aeroporto, é também o que concentra o maior número de edifícios empresariais. Ou seja: basta pousar e observar o movimento de engravatados, carros e shoppings para entender que estamos em uma metrópole como tantas outras, dotada de uma vibrante cena cultural.

Foi o universo das artes que levou o jornal New York Times a incluir Adis-Abeba entre as 15 primeiras recomendações da sua lista de cidades a visitar em 2014. Festivais de fotografia, de jazz e de world music estão agendados para este ano. Em março, o Teatro Nacional alimentava filas de espectadores para seu festival de cinema.

Espaços de residência artística, como o Centro de Arte Contemporânea Zoma, e de atuação de coletivos artísticos, como a Galeria Asni, sempre abrem novas exibições. E o jornal já anuncia como blockbuster a exposição Ras Tafari – A Majestade e o Movimento, dedicada ao rei Haile Selassie I e ao Rastafarianismo, que está agendada para maio e junho no Museu Nacional – o mesmo que abriga no acervo permanente os fósseis dos nossos tatatataravôs Lucy, Selam e Ardi.

Museu Nacional guarda fósseis de nossos ancestrais

“Nosso país tem uma riqueza cultural milenar e é impossível não se apaixonar por ela”, defende a colecionadora Selamawit Alene, que comanda com sua irmã, a designer de móveis Saba Alene, a galeria St George. Pausa para uma explicação: extremamente popular no país, o santo que matou o dragão dá nome a lojas, igrejas e à cerveja mais famosa da Etiópia.

O espaço das irmãs Alene, localizado em um casarão centenário, desfila o que há de melhor no cenário artístico etíope. Com peças que custam de US$ 80 a US$ 5 mil, o acervo inclui os belos móveis de Saba, quadros de artistas contemporâneos como Afewerk Tekle e peças tradicionais, entre elas jarras, cestos e pinturas de inspiração cristã.

Por preços bem mais acessíveis, o artesanato etíope pode ser encontrado em barracas de rua na região central ou no Mercato, apresentado como o maior mercado ao ar livre de toda a África. Caótico e barulhento, o labirinto de ruas e vielas repletas de portinhas e vendedores ambulantes comercializa de tudo: de gasolina a roupa de bebê. Mas não deve ser visitado sem guia, pois você não saberia nem por onde começar a andar. Ainda assim, é um retrato vibrante da vida real na periferia de Adis.

Culinária típica. Turistas de primeira viagem vão se sentir mais confortáveis em restaurantes de comida típica como o Yode Abyssinia e o 2000 Habesha. Eles são apenas as opções mais clássicas para conhecer o prato nacional por excelência: as porções de wots sobre a injera (diz-se “injira”).

Simpatia no atendimento é regra em Adis-Abeba

Feito de um grão local chamado teff, a injera é uma espécie de pão fino e esponjoso, servido no tamanho e no formato de uma pizza. Com a mão (direita, sempre), o comensal picota parte dessa massa porosa (disposta também em pequenos rolos à parte) e faz conchinhas para pegar os wots, como são chamados os ensopados acompanhantes e normalmente colocados sobre o próprio disco de injera. Os wots podem ser feitos com legumes, grãos ou pedaços de carne, frango ou carneiro, quase sempre picante, temperado com especiarias e bem saboroso.

Nesses “restaurantes culturais”, a experiência costuma ser brindada com uma dose de tej, espécie de vinho etíope feito à base de mel. No palco são realizadas as apresentações de danças tribais – repare no jeito impressionante de movimentar os ombros. Ainda que o espetáculo-pra-gringo-ver tenha boas performances de cantos e instrumentos tradicionais, vale a pena sair do circuito turístico e curtir um show contemporâneo do chamado ethio-jazz em casas noturnas como o Jazzamba. Coisa de cidade cosmopolita. / DANIEL NUNES GONÇALVES, ESPECIAL PARA O ESTADO

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Cerimônia do café, experiência clássica para os viajantes – Fotos: Daniel Nunes Gonçalves

ADIS-ABEBA

Nativo das montanhas de Kaffa, perto da fronteira com o Sudão, o café foi uma das maiores contribuições da Etiópia para a sociedade em geral. Pesquisadores acreditam que já era bebido ali no século 10 a.C., e teria ganhado o mundo a partir das relações estreitas da antiga Abissínia com o Egito e o mundo árabe. A primeira rota comercial para transportá-lo teria sido o Rio Nilo, que tem uma de suas origens na própria Etiópia, na região do chamado Nilo Azul. Milênios depois, o café ainda brilha como a principal commodity do país. O fruto da Coffea arabica, espécie que representa 70% do consumo mundial, responde por mais de metade das exportações.

Tanto em cidades grandes, como a capital Adis-Abeba, quanto nos povoados do interior, a cerimônia do café é uma experiência clássica para visitantes. Os grãos costumam ser lavados e torrados na hora, em fogo feito com madeira, diante de quem vai tomá-lo. Depois, o café passa a ser moído em um pilão até que seu pó seja colocado na jebena, uma linda garrafa de argila cujo design varia de acordo com a região do país. Só depois de uns 15 minutos a bebida negra é oferecida nas xícaras – às vezes acompanhada de leite, manteiga ou especiarias –, enchendo de perfume o ar.

Movimento nos cafés da capital

Nas ruas de Adis, um dos melhores cafés do mundo pode ser degustado, sem tanta cerimônia, em pé nos balcões das cafeterias urbanas do bairro empresarial de Bole. “Todo morador de Adis tem sua cafeteria preferida”, conta o agente de viagens Ashenafi Kassa (ashucelebrityethiopia@gmail.com), que me levou para conhecer três delas.

Líder de mercado, a marca Tomoca se reproduz, desde 1953, em várias unidades como se fosse a Starbucks americana ou o Juan Valdez colombiano. Tanto é que a grife tem souvenirs próprios e vende pacotes e mais pacotes para exportação.

No menos pop Cafe Mankira, no vizinho bairro de Piassa, onde ficam hotéis frequentados por mochileiros (como o Taitu), a frequência é de nativos interessados também em assistir a jogos de futebol na tevê enquanto fazem o coffee break do trabalho.

Mais informal, o café Qawa Arada, também em Piassa, mantém um ambiente tradicional no fundo de um corredor discreto. Os jovens clientes, muitos estudantes, se esparramam por sofás baixos em um ambiente de lounge. E a folclórica torra é sempre apresentada por uma bela etíope do jeito original da “cerimônia do café”: no chão. / D.N.G.

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Rastafari tem raízes na Etiópia dos tempos de Haile Selassie – Foto: Daniel Nunes Gonçalves

ADIS-ABEBA

Esqueça aquela cena das criancinhas raquíticas miseráveis com rostos cobertos de moscas. As fotos que denunciaram ao mundo o grave problema da fome na Etiópia, especialmente nos anos 1980, foram tão impactantes que até hoje refletem a imagem que boa parte do planeta tem a respeito desse lindo país localizado no Chifre da África. Nas últimas duas décadas, a Etiópia tem se reinventado. Nesse período, a mortalidade infantil entre menores de cinco anos foi reduzida em dois terços. Sede da União Africana e da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África, o país é hoje um dos que mais crescem no continente.

“Queremos que turistas do mundo todo descubram que aquela velha Etiópia mudou”, defende Ted Adefris, diretor da Ethiopian Holidays, braço da Ethiopian Airlines. Ainda que não ofereça condições para explorar os safáris, que ajudaram a impulsionar o turismo em países africanos como o vizinho Quênia e a Tanzânia, a Etiópia tem atributos só dela. Entre seus nove sítios identificados como Patrimônio da Humanidade pela Unesco – o maior número de todo o continente –, estão exclusividades mundiais como as igrejas de pedra de Lalibela. “O roteiro histórico do Norte é o que mais tem atraído viajantes, especialmente europeus, mas temos uma infinidade de atrações naturais e culturais que poucos turistas conhecem”, diz Ted.

Para a arqueologia, não há lugar mais essencial para entender a origem humana do que esse ponto do leste africano. Na região de Afar foram localizados, em 2009, os restos mortais de Ardi (Ardipithecus ramidus), nosso mais antigo ancestral já identificado, com cerca de 4,4 milhões de anos. A descoberta superou em importância a de Lucy, a famosa Australopithecus afarensis com esqueleto de uns vinte aninhos, que em 1974 surgiu na mesma região impressionando com seus 3,2 milhões de primaveras. Batizado como Selam, um menino que morreu aos três anos de idade, achado em Dikika no ano 2000, morou na Etiópia há 3,3 milhões de anos. Parte da ossada dos três hominídeos pode ser vista no simplório Museu Nacional, na capital Adis-Abeba.

Um dos únicos dois países da África que nunca foram colonizados (o outro é a Libéria), a Etiópia conseguiu preservar arte, cultura e gastronomia autênticas. A diversidade das tribos etíopes mostra-se evidente especialmente para quem avança país adentro.

Espiritualidade. Sua tradição espiritual também é única e heterogênea. O cristianismo virou religião oficial em 330 d.C., antes mesmo de Roma o fazer. Aqui teria nascido, no século 10 a.C, a notória rainha de Sabá, citada tanto na Bíblia quanto na Torá e no Alcorão. O apóstolo São Mateus, um dos quatro evangelistas cristãos, também teria morrido no país. E até a arca da aliança, aquela das tábuas dos dez mandamentos, estaria abrigada até hoje em Aksum.

A Etiópia é preciosa também para os muçulmanos: o antes chamado Império Aksumita teria sido o destino da primeira migração islâmica da história – a região foi o asilo onde os fiéis de Maomé puderam rezar livremente antes mesmo de o islamismo triunfar na Arábia. Atualmente, Harar é considerada a quarta cidade mais sagrada do Islã (depois de Meca, Medina e Jerusalém).

O Movimento Rastafari, que despontou na Jamaica na primeira metade do século 20, também guarda suas raízes sagradas na pátria onde reinou Haile Selassie, último imperador da Etiópia (1930-1974) e considerado reencarnação do filho de Deus. Nas ruas de Adis-Abeba, é possível ver seguidores do deus Jah vendendo souvenirs com a bandeira nacional, o Leão de Judá, símbolo de Selassie, e as imagens do antigo rei (cujo nome original era Tafari Makonnen), que foram difundidos mundialmente pela cultura pop e pelo reggae. O ritmo e a filosofia dos rastas, no entanto, não são nem de longe tão populares na Etiópia como se mostram na América. / D.N.G.

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O aconchego à mineira acompanha fartas porções refogadas, entretenimento e boa dose de boemia

Mônica Nobrega

Talvez seja a comida, um sem-fim de refogados temperados sem parcimônia nem preocupação com dieta. Ou a fala suave do povo, que só no primeiro momento sugere timidez, para logo revelar um ritmo boêmio de levar a vida. Quem sabe o horizonte tomado por montanhas? O caso é que Minas Gerais é uma das porções mais confortáveis do Brasil. E sua capital, Belo Horizonte, anfitriã de seis partidas da Copa, uma coleção de mineirices do passado e do presente.

O circuito turístico para iniciantes está confinado pela Avenida do Contorno, anel que cerca os bairros do Centro, Savassi, Lourdes e mais três ou quatro. O Mineirão, estádio da Copa, fica fora e longe dali, nas vizinhanças da Pampulha, a lagoa-parque-complexo arquitetônico que é o cartão-postal de “beagá”. Atenção: as visitas guiadas ao Mineirão (R$ 14, inclui o Museu Brasileiro do Futebol) serão interrompidas a partir de 30 de abril até a Copa.

O passeio pode até fazer falta, sim, mas não vai diminuir a delícia dos dias em Belo Horizonte. Aliás, se for para a capital antes do início dos jogos, aproveite o tradicional Comida di Buteco, festival que ocorre até 15 de maio lá e em outras 15 cidades do País.

DIA 1: De olhos (e boca) bem abertos
Um dos ícones arquitetônicos de Belo Horizonte, o Palácio da Liberdade (grátis) foi inaugurado em 1897, no mesmo dia da fundação da cidade, para ser a sede do governo local. Reformado e reaberto aos visitantes em julho passado, é indispensável, da deslumbrante escadaria do hall, em estilo art nouveau, ao salão de banquetes com lustre de cristais. Aberto só em fins de semana e feriados; se não for o caso, a fachada e a Praça da Liberdade, inspirada nos jardins franceses de Versailles, já valem o tour. Por ali mesmo está a unidade mineira do Centro Cultural Banco do Brasil, inaugurada em agosto em um prédio de 1930, com teatro, cinema, artes visuais e música.

Para abrir os trabalhos gastronômicos, comida mineira, claro. O Dona Lucinha é um bufê competente – tente, nem que seja só para experimentar a carne com ora-pro-nóbis, verdura que só tem em Minas. Todo o resto está lá: torresmo, feijão tropeiro, frango com quiabo e angu…

Saindo do Dona Lucinha você estará na Savassi, o trecho mais turístico do bairro de Funcionários. É uma área para bater pernas entre lojas e cafés, que tem seu centro nervoso na recém-reformada Praça Diogo de Vasconcelos. A loja do estilista mineiro Ronaldo Fraga fica na Rua Fernandes Tourinho, 81. Para uma pausa, o Café com Letras é um misto de livraria, espaço cultural e gastronômico.

A parada seguinte é no vizinho bairro de Lourdes, onde estão as lojas mais chiques: vá às Ruas Rio de Janeiro, Santa Catarina e Curitiba. Se der fome, siga para o charmoso A Favorita para comida contemporânea com pretensão. Ou vá de táxi para o trecho norte do centro e ocupe uma das mesas do Café Palhares  cafepalhares.com.br), boteco afinado com o espírito de BH, aberto desde 1938 e cuja especialidade é o kaol, prato com arroz, ovo e linguiça que pode ser acompanhado de pernil, carne, dobradinha ou língua. Por cima vai molho de tomate. Melhor voltar ao hotel a pé.

DIA 2: Passeio de domingo
Aviso: guarde este roteiro para o domingo. Comece no Parque Municipal, no centro, junto ao qual, na Avenida Afonso Pena, são montadas as mais de 2 mil barracas da feira hippie – que de hippie, aliás, não tem quase nada. Moda e decoração são o forte, a preços acessíveis. Até as 14 horas. O Palácio das Artes, centro cultural mais importante da cidade, fica no parque, caso você queira ir a um show noturno.

Próxima escala: Mercado Central, uma imersão no jeito mineiro de ser, com seus ingredientes, cachaças e tradições. Almoce ali (aos domingos fecha às 13 horas) ou siga para a Pampulha, rumo ao Xapuri, restaurante mineiro de Nelsa Trombino, referência no tema.

Se ficou pelo centro, é hora de ir à Estação Central, onde está o Museu de Artes e Ofícios (R$ 5). Ali também fica o Centro Cultural CentoeQuatro, com boa programação artística em um prédio de 1908.

DIA 3: Bate-volta
Não tem como negar: apesar de ficar em Brumadinho, a 60 quilômetros de BH, o Inhotim (de R$ 20 a R$ 30) é, hoje, a principal atração turística da capital. Misto de museu de arte contemporânea e jardim botânico, é passeio para um dia inteiro, no mínimo – leve as crianças. Os ônibus partem da rodoviária de Belo Horizonte às 8h15 (R$ 22,45) e retornam às 16h30 (R$ 22); compre com antecedência.

Outra opção de bate-volta é Ouro Preto, a 100 quilômetros, que guarda o maior conjunto arquitetônico do barroco brasileiro e quilos e mais quilos de ouro na decoração das igrejas. Um dia é pouco: o circuito básico inclui o Museu da Inconfidência e a Igreja de São Francisco de Assis, projetada por Aleijadinho e cuja pintura do forro da nave, de Mestre Ataíde, é a nossa versão da Capela Sistina. Na feira do Largo de Coimbra, em frente, compre enfeites em pedra-sabão. Ali também está o Bené da Flauta, que serve os clássicos feijão tropeiro, tutu, torresmo…

Use o mapa para se orientar. Para ver Brumadinho e Ouro Preto, basta arrastar a tela do mapa com o mouse.

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Linda’s Tavern, último lugar em que Kurt Cobain foi visto com vida – Fotos: Stuart Isett/NYT

A biografia do líder do Nirvana, ‘Mais Pesado que o Céu’, serve de base para um roteiro entre Aberdeen, sua cidade-natal, e Seattle, onde o músico alcançou o sucesso que tanto o atormentava

Dave Seminara / SEATTLE / THE NEW YORK TIMES

Quando soube que Aberdeen, cidade-natal de Kurt Cobain, planejava criar um dia para homenageá-lo em razão de sua morte, em 5 de abril de 1994, e que o Nirvana estava entrando no Hall da Fama do Rock’n’ Roll, decidi ver de perto de onde veio meu ídolo adolescente e as coisas que o influenciaram. Como não há nenhum tour organizado do Nirvana, criei o meu próprio, baseado em Mais Pesado que o Céu (Globo Editora, R$ 49,90), a biografia definitiva de Kurt Cobain, escrita por Charles R. Cross.

Comecei pelo Marco Polo, motel na periferia de Seattle que Cobain frequentava nos seus últimos dias, já tomado pelo vício em heroína. De acordo com o documentário da BBC As Últimas 48 horas de Kurt Cobain, ele costumava fugir de sua mansão no aristocrático bairro de Denny-Blaine para encontrar seu traficante na Aurora Avenue. Dali, partiu para o quarto 226 do Marco Polo, onde se matou com um tiro.

A recepção estava fechada quando cheguei naquela noite de segunda-feira, então toquei a campainha. Em seguida, uma janela se abriu e um homem chamado Jonathan apareceu. Ele me olhou de alto a baixo sem dizer uma palavra, fechou a janela e reapareceu momentos depois na recepção, vestido de camiseta, cueca boxer e meias de lã.

Local onde o líder do Nirvana se matou com um tiro

“Este lugar era o Velho Oeste na época de Kurt”, disse, enquanto me dava o quarto favorito do músico. “Havia prostitutas jogando TVs pela janela, traficantes, viciados, tudo.”

Cobain costuma ser associado a Seattle, mas ele passou menos de dois anos na cidade. O ícone grunge morou em vários lugares em Aberdeen, dormiu em incontáveis camas nas vizinhas Montesano e Hoquiam e escreveu muitas canções famosas da banda em Olympia antes de chegar a Seattle, em 1992.

Fui a Montesano pela manhã – Kurt viveu no número 413 da Fleet St. South com seu pai entre 1978 e 1982. Ali em frente, um de seus vizinhos, John Bell, contou-me que, quando a mãe de Kurt vinha visitá-lo, era possível ouvir as brigas do outro lado da rua. Segundo Bell, a centenária e modesta casa com jornais cobrindo as janelas fica fechada a maior parte do tempo.

Dali, dirigi alguns minutos até o estacionamento de trailers Country Estates, onde Cobain viveu com seu avô paterno, Leland, ao sair da Fleet St. Estacionei na entrada e um homem de nome Jerry se ofereceu para me apresentar a Gary Cobain, filho de Leland e tio de Kurt. “Meu pai recebia fãs do Nirvana do mundo todo aqui”, disse Gary, que se mudou para lá depois da morte de Leland, há um ano.

Acompanhando o Rio Chehalis, segui pela Olympic Highway até Aberdeen. A próxima parada seria o número 1.210 da East First St.: a casa onde Cobain viveu quando criança. A região, conhecida como Felony Flats, é repleta de casas pré-fabricadas. Sua mãe, Wendy O’Connor, que hoje vive na Califórnia, colocou a modesta casa, avaliada em US$ 67 mil, à venda por US$ 500 mil.

A casa onde morou com a mãe, em Aberdeen

À venda. Um corretor me mostrou o imóvel, anunciado como “uma oportunidade única de possuir um pedaço da história do rock”. Foi como viajar aos anos 1970: cozinha vintage, corredor com lâminas de madeira e o quarto de Cobain, exatamente como ele o deixou: com o buraco de um soco na parede e muitos grafites de suas bandas favoritas, Led Zeppelin e Iron Maiden.

O ponto alto do tour é o Kurt Cobain Landing, um parque, aberto em 2011 pela Fundação Kurt Cobain, aos pés da Ponte Young Street, que inspirou a canção Something in the Way. O líder do Nirvana dizia ter vivido um tempo debaixo da ponte – e apesar de poucos acreditarem nisso, sabe-se que este era um de seus lugares favoritos.

A ponte Young Street inspirou ‘Something in the Way’

Localizado ao longo do turvo Rio Wishkah, o parque guarda uma imagem de Cobain com a letra de Something in the Way, uma lápide com algumas frases do músico (como “Sou uma infecção bacteriana ambulante”), uma escultura de Cobain simulando tocar guitarra e grafites relacionados ao Nirvana.

Dois meses depois de ser pago para tocar pela primeira vez, Cobain deixou Aberdeen e mudou-se para a boemia Olympia. Minha primeira parada ali foi no 114 da Pear St., uma casinha no centro dividida em três apartamentos – no número 3, Cobain viveu com Tracy Marander, sua namorada na época. Ali ele compôs muitas das canções de Nevermind. Depois que se separaram, Cobain manteve seu miniapartamento até julho de 1991.

Scott Taylor, cantor e guitarrista da banda local Hard Way, vive ali e me mostra um pôster do Nirvana com Kurt posando no que é hoje seu jardim. O fato de um músico morar no mesmo endereço de Cobain não é simples coincidência: para uma cidade pequena, Olympia tem uma vibrante cena musical.

Em baixa, cena grunge está quase extinta

Ouvindo a trilha do Nirvana a caminho de Seattle, sinto que seguir os passos de Cobain é perseguir uma sombra. Especialmente em Seattle, que mudou tanto desde que Cobain morreu que se tornou quase irreconhecível.

Bruce Pavitt, fundador do selo Sub Pop (que contratou o Nirvana) e autor do e-book Experiencing Nirvana: Grunge in Europe 1989 (disponível na Amazon), disse que um dos lugares que pouco mudaram desde que a banda tocou ali é o Central Saloon, bar mais antigo de Seattle, de 1892. Os especialistas consideram um show no Vogue (hoje um salão de cabeleireiros) como o primeiro do grupo, mas Pavitt insiste que foi um concerto em 10 de abril de 1988 no Central Saloon. “Ninguém se lembra porque apenas eu, o porteiro e umas três pessoas estavam lá”, diz.

O Central ainda é uma grande taverna, mas hoje recebe um público arrumadinho. Outro point do roteiro Nirvana é The Crocodile, outrora um clube grunge, hoje reformado; o OK Hotel, primeiro lugar em que a banda tocou Smells Like Teen Spirit, hoje um condomínio aristocrático; e a Beehive Records, onde a banda fez um concerto legendário pouco antes do lançamento de Nevermind – hoje, um pet shop. Linda’s Tavern, reduto grunge ainda aberto, foi o último lugar em que o músico foi visto com vida.

Caminhando em Denny-Blaine, último endereço de Cobain, percebi que o filho mais famoso de Aberdeen nunca se encaixou em Seattle – especialmente nesse bairro. E comecei a pensar como Cobain veria o atual cenário de Seattle, Olympia e Aberdeen.

Olympia se tornou mais artística, com músicos lutando para serem reconhecidos por toda parte – até no antigo apartamento de Cobain. As casas dilapidadas em Aberdeen conversam com a depressiva realidade de onde muitos jovens ainda tentam escapar. E o fato de que muitos dos pontos grunge onde o Nirvana tocou em Seattle morreram – ou se transformaram totalmente – é um testemunho da atual especulação imobiliária. /D.S.

  • SAIBA MAIS
  • Aéreo: SP – Seattle – SP: desde R$ 2.685 pela United e R$ 2.971 na American. Voos com conexão
  • Visto: baixe o formulário em oesta.do/visto-para-eua. Reserve ao menos duas semanas para o processo de entrevista e retirada do documento
  • Exposição: o EMP Museum de Seattle realiza a exposição Nirvana: Taking Punk to the Masses, com mais de 150 itens à mostra até meados de setembro

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Stand-up paddle em Balneário Camboriú – Foto: Ricardo Freire/Estadão

Fora da Região Sul, Balneário Camboriú é um destino relativamente pouco conhecido. Costumamos errar até o nome: “Camboriú” se refere à cidade vizinha, sem praia, da qual “Balneário” (como é mais conhecida) se emancipou. Veja por que você deveria pôr Balneário no seu mapa:

1. É a melhor base para o Beto Carrero World. Fica a apenas 40 quilômetros do parque (de Floripa ao Beto Carrero são 120 quilômetros). Agências locais vendem ingressos com transporte incluído por R$ 90, praticamente o preço da bilheteria.

2. É mais amigável para o turista do que Florianópolis. Com calçadão à beira-mar, Bondindinho (uma jardineira que percorre a orla) e ônibus de linha para as praias fora da cidade, Balneário Camboriú dispensa o uso de carro.

3. Tem beach lounges sofisticados. A Praia Brava Sul, que fica em Itajaí, mas está colada a Balneário, tem clubes de praia à la Jurerê, a exemplo do Brava Sushi, do Solem e do Guka Beach. Na praia do Estaleirinho, na temporada funcionam os descolados Sky Beach e Parador Estaleiro.

4. Tem praias selvagens nos arredores. Os arranha-céus fazem sombra na praia central já no meio da tarde. Em compensação, ao longo da rodovia Interpraias, como nas praias de Taquara ou Estaleiro, quase não se veem edificações.

5. A praia dos nudistas está menos xiita. A Praia do Pinho agora tem uma zona de adaptação, fora da areia, onde é permitido ficar vestido. Homens desacompanhados de mulheres já são aceitos pela entrada principal.

6. A localização é ótima para passear. Além de ir ao Beto Carrero World, você pode pegar o teleférico para o parque Unipraias, fazer passeios em barco de pirata, subir ao Cristo Luz e dar um pulinho em Blumenau e Pomerode, a 100 quilômetros.

7. Tem balada o ano inteiro. O Warung, na Praia Brava Norte de Itajaí, é um dos clubes de música eletrônica mais cultuados do país. Na cidade, Green Valley (pop), Taj (restaurante com balada), Shed e Wood’s (baladas sertanejas) disputam o público que vem de Curitiba, Blumenau e até de Floripa.

8. Tem aeroporto pertinho. É Navegantes, a 30 quilômetros. Uma van leva à rodoviária de Balneário por R$ 28,50.

9. Não é um destino caro. Apesar do boom imobiliário, que tem erguido prédios de altíssimo padrão e feito surgir restaurantes sofisticados, Balneário Camboriú continua relativamente em conta – se encarecesse, perderia dois de seus públicos cativos: os aposentados e os argentinos.

10. Dá praia no outono. As frentes frias são rápidas e deixam um lastro de dias secos e quentes, com noites frescas.

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