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Homem da bengala

Luiz Ventura

12 agosto 2014 | 13:48

“Idosos, gestantes, pessoas com crianças de colo ou pessoas com deficiência podem descer no subsolo e utilizar a rampa que dá acesso à rua”

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O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

Imagem: Reprodução

Dentro daquele elevador cabem seis pessoas. Quando a porta se fechou, ainda no nono andar, uma placa me chamou atenção. “Idosos, gestantes, pessoas com crianças de colo ou pessoas com deficiência podem descer no subsolo e utilizar a rampa que dá acesso à rua”. A acessibilidade do prédio, na esquina da Avenida Conselheiro Nébias com a Rua Alexandre Herculano, em frente à sede do Detran, em Santos, havia melhorado bastante, com a instalação de mais de uma rampa, piso tátil, placas em braille e outros equipamentos.

Três mulheres que conversavam em voz baixa, mas pareciam atrasadas para algum compromisso, entraram comigo no elevador. No sétimo andar, onde há o consultório de um ortopedista, a porta se abriu e entrou um casal. O homem estava apoiado em uma bengala. Deduzi que ele havia machucado o pé ou a perna. Dei um passo para trás, o homem se encostou na parede, bem perto da porta, e me agradeceu. O casal ficou na ‘primeira posição’ para sair. Ele olhou para moça que o acompanhava e sorriu.

A porta se fechou. Durante o trajeto, silêncio total. Imaginei que o homem da bengala desceria no subsolo, para acessar a rua pela rampa, porque a escada do andar térreo tem uns 20 degraus. Me enganei.

Quando a porta se abriu no térreo a mulher saiu primeiro e, com a mão, manteve a porta automática parada, para que o homem da bengala pudesse dar um passo. Não houve tempo. As três mulheres apressadas sairam juntas, sem nenhuma cerimônia ou qualquer palavra. Apenas atropelaram o casal. O homem perdeu o equilíbrio, a bengala caiu no chão, e ele despencou para trás. Não havia como sua acompanhante segurá-lo.

Ele, certamente, teria sofrido uma queda violenta, algo que não aconteceu porque eu ainda estava dentro do elevador. E, apesar do empurrão e do pé machucado, o homem conseguiu se agarrar em meu braço. Olhamos um para o outro e eu falei: “As moças estão com pressa”. Ele sorriu e agradeceu por meu apoio.

Com a bengala novamente na mão, ele andou ao meu lado até a escada de saída. Perguntei: “Você desce os degraus sem problema?”. Ele disse que sim e acrescentou que usou a rampa do subsolo até outro dia, porque estava na cadeira de rodas. Finalizamos a conversa e saí do prédio em tempo de ver a três mulheres apressadas correndo e gesticulando em direção a um ônibus, que não parou.

O homem da bengala ainda descia a rampa do prédio quando entrei no táxi. Ele e sua acompanhante sorriam.

Edifício na esquina da Avenida Conselheiro Nébias com a Rua Alexandre Herculano, em Santos (SP). Imagem: Reprodução/Google Maps