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Cada um faz o seu papel

Maria Dolores

28 agosto 2014 | 11:33

- Você está indo numa reunião? – perguntou a minha irmã adolescente, que mora comigo.

- Como é que você sabe? – questionei, começando a considerar que talvez ela tivesse poderes mediúnicos sobrenaturais não aproveitados,  o que poderia ser uma ótima alternativa em tempos de crise.

Mas a resposta foi por outro caminho:

- Você está de camisa social, sua melhor calça jeans, sapato de couro, rímel, blush, batom e – tcham tcham – brinco!

Ela estava certa. Eu estava indo para uma reunião, com meu devido figurino. Não gosto de acessórios. Além de não ter a menor paciência para coloca-los no meu corpo e achar que fico parecendo uma árvore de natal, não tenho talento para a causa. Tenho muitas qualidades nessa vida, mas fazer combinações visuais definitivamente não é uma delas. Só consigo combinar se as roupas e acessórios forem todos da mesma cor. Ou seja, de um modo ou de outro o resultado geralmente é trágico. Por isso optei por um tipo de uniforme para reuniões. Mas não estou aqui para falar sobre modo de vestir – ou não vestir.

O que me chamou a atenção ao ouvir o comentário da minha irmã, foi que passamos a nossa vida nos dividindo em diferentes papéis, muitos deles sobrepostos ao longo de um único dia. Papéis esses guiados pelo nosso interlocutor, que em poucas palavras quer dizer: a quem nos referimos, com quem conversamos e o que queremos que seja percebido. É um processo tão natural e inconsciente quem não dos damos conta. Mas, se quisermos fazer um exercício simples, basta reparar no modo como uma pessoa fala ao telefone. Dá para saber exatamente com quem está falando. Considerando variações, funciona mais ou menos assim:

Amigo – entonação espontânea, vocabulário informal, uso de gírias ou demonstrações do que está sentindo, como gargalhadas, xingamentos, etc.

Colega de trabalho – entonação formal, mas com certa cumplicidade, vocabulário entre o formal e informal.

Chefe – entonação e vocabulário formais, geralmente gaguejando em alguns momentos, voz prestativa e alta (para mostrar que está ouvindo, como se falar alto tivesse alguma coisa a ver com isso).

Marido – nesse caso há duas possibilidades: entonação carinhosa, vocabulário recheado de palavras de amor e até infantis (menos provável); ou entonação impaciente e ameaçadora, vocabulário repleto de verbos imperativos (mais recorrente).

Telemarketing – entonação de “pelo amor de Deus, não liga mais pra mim”.

O fato é o seguinte: passamos a nossa vida procurando, da melhor forma possível, representar papéis que tenham algum tipo de conexão com as pessoas com as quais convivemos. É uma maneira natural de nos colocarmos no mundo e nos fazermos entender. Damos ao interlocutor os sinais daquilo que queremos que ele perceba sobre nós.

Na política, infelizmente, esse processo é levado ao extremo. Os debates, as propagandas, o horário eleitoral são um festival de candidatos se vestindo, comportando e falando aquilo que acreditam que o eleitor quer ouvir. Isso não seria o fim da picada se houvesse alguma coerência entre o que falam e o que realmente fazem – ou farão. Pode haver, e provavelmente existem exceções. Mas, na maioria dos casos é possível perceber de maneira clara que estão ali apenas para dizer o que queremos ouvir, para ganhar votos e passar adiante.

Mas, se de um lado representamos papéis, do outro somos o interlocutor e nossa função é assimilar o que nos foi representado. Nessa situação temos como identificar (ou podemos aprender) e compreender a representação, para separar o que faz parte da realidade ou não. Essas eleições são uma boa oportunidade para fazermos um exercício.