Seleção brasileira: da idolatria ao aborrecimento
- 11 de setembro de 2011|
- 6h00|
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Sou de uma geração que começou a acompanhar futebol nos anos 80. De lá para cá, vi o esporte mudar muito. Antigamente, o jogador ficava mais tempo num clube, o que ajudava na identificação com a torcida. Tudo era mais improvisado, ingênuo, romântico. Hoje os contratos são mais curtos, a preparação física é muito mais rigorosa, os jogos são mais dinâmicos e exigem muito mais dos atletas. A medicina avançou brutalmente e permitiu o prolongamento de várias carreiras. Os salários saltaram à estratosfera, o que deixou a gestão dos clubes um pouco mais profissionais (mas bem pouco). E também o marketing que, apesar dos pesares, ajuda a manter craques aqui no Brasil. São épocas diferentes. Não existe “melhor” ou “pior”. É assim que as coisas são. Se o mundo muda, o futebol muda junto. Certamente algumas coisas melhoraram, como Campeonato Brasileiro mais longo (e por pontos corridos) e, principalmente, o fim das viradas de mesa (a la Eurico Miranda). O que mudou para pior, penso eu, foi a nossa relação com a seleção brasileira.
Antigamente, por mais que houvesse rivalidade clubística (sem esse fascismo e intolerância de hoje), todos se reuniam para ver o Brasil jogar. Era um orgulho para os torcedores dos clubes ceder jogadores à seleção. E creiam-me: era comum ouvir coisas como “meu time é melhor, pois tem x jogadores na seleção”. Todo mundo parava o que estava fazendo para ver o jogo. Era assunto em todas as mesas de bar e rodas de futebol. Cada um tinha a sua escalação ideal na ponta da língua. Ainda me lembro da primeira derrota que o Brasil sofreu num jogo de Eliminatórias, um 2 a 0 diante da Bolívia em 1993. Na época, aquilo foi tratado como um escândalo nacional. Para o bem e para o mal, as reações exacerbadas deixavam claro que as pessoas realmente se importavam.
Essa semana teve mais um amistoso da seleção. Dei uma olhada em volta aqui na redação. Todas as TVs estavam ligadas no jogo, mas ninguém estava olhando. Exceto pela editoria de esportes, era cada um cuidando da sua vida. Nem aí para o jogo. Fui no Twitter para ver se havia alguma hashtag, alguma piada, algum comentário… Nada. Pouca gente parecia se importar. Esse pequeno recorte me fez lembrar um fato que nem é tão recente: nas rodas de futebol ninguém mais tem a sua seleção ideal, todo mundo só fala dos clubes — exceto em copas do mundo, por razões óbvias. Aí fiquei pensando porque o sentimento geral em relação à seleção mudou tanto. Hoje, se a seleção ganha, ninguém fala nada, talvez por achar que não fazem nada além da obrigação. Mas se perder, aí sim, é uma boa oportunidade para o achincalhe geral.
Claro que um desgaste como esse não é fruto de um fato isolado. É uma somatória de fatores. Não é de hoje que se sabe que esses amistosos, além de tirarem o brilho e a graça de torcer, servem apenas como vitrine para atender a interesses particulares de empresários oportunistas e cartolas corruptos, que faturam milhões com transações e merchans. Somam-se a isso os horários esdrúxulos dos jogos (a mercê da grade televisiva); as dificuldades em ajustar os amistosos com as ligas nacionais; a marquetagem excessiva, a arrogância e o cinismo de alguns “boleiros-celebridade” e a própria CBF, que se tornou um curral particular do Ricardo Teixeira. Mas o sintoma mais claro hoje é que, quando um jogador que atua no Brasil é convocado, chovem reclamações. Primeiro porque ele desfalcará o time no Campeonato Brasileiro e segundo porque fatalmente a convocação lhe renderá polpudos contratos no exterior — e, por consequência, o clube o perderá em breve (ou terá de dobrar o seu salário). Ou seja, o torcedor continua torcendo fanaticamente pelo seu time, já pela seleção…
Mas há também uma porção de brasileiros que torcem abertamente contra o Brasil. Embora seja um fenômeno que ainda precise ser mais bem estudado, é claro que se trata de um reflexo natural das interferências políticas em questões da bola (e, principalmente, dos “preparativos” para a copa de 2014). Mas para a maior parte da torcida, a seleção brasileira passou da idolatria mais cega ao aborrecimento mais atroz. O que se pode ler nessas entrelinhas é que a seleção se tornou algo estranho, alheio para nós, uma ideia distante da nossa realidade aqui. É como se o Brasil não se visse mais representado, espelhado ou identificado com essa gente. Aos nossos olhos, é um time de “estrangeiros” formado por pessoas que foram trabalhar fora do país muito cedo e hoje ganham o salário de uma arquibancada inteira. Não que haja algo de errado em faturar seus milhões fora do país antes mesmo de se profissionalizar. Cada jogador tem o direito de procurar o melhor contrato para si (e atire a primeira pedra quem não o faria). Agora, exigir adesão e fidelidade absoluta a uns caras que nunca comemoraram um gol num alambrado brasileiro é um insulto até mesmo a uma inteligência mediana. O resultado disso é que a grande maioria parece já ter abandonado o estádio onde a seleção joga para fazer coisas mais importantes ou simplesmente cuidar da vida. Aos que ficam, boa sorte. O último a sair, apague a luz.
O futebol mostra quem realmente somos
- 31 de julho de 2011|
- 6h00|
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Todas as discussões mais importantes aqui no Brasil são aquelas que preferimos não participar. Pra quê cutucar a ferida se grande parte do problema está em nós mesmos? Uma dessas discussões é sobre o futebol, mas pouca gente quer questionar o porque de o esporte bretão ter se tornado terreno fértil para as mentes mais áridas. Sempre com fintas desconcertantes, driblamos a bola para mostrar a nossa face mais sórdida — e não me refiro apenas à corrupção dos coronéis da bola. Falo de certas atitudes da torcida. Eu poderia citar nossa rivalidade contra os argentinos sendo usada como combustível para alimentar sentimentos xenófobos em relação aos hermanos. Mas fico com dois exemplos domésticos: o elitismo contra corintianos e a homofobia contra sãopaulinos. “Ah, é só piada”, dizem alguns, tentando fugir da questão, como sempre. Pode parecer falta de humor, mas se olharmos mais de perto, constatamos que perdeu-se completamente a noção de onde termina a brincadeira e onde começa o preconceito. Esse tipo de humor — gratuito e pouco inteligente — não passa de uma brincadeira tosca com estereótipos e em nada difere da infeliz piada de Danilo Gentilli com os judeus de Higienópolis ou de Rafinha Bastos com sua piada de estupro. Se por um lado a “piada” se traveste como uma inocente brincadeira, por outro lado, há uma inegável intenção de ofender — é é aí que o preconceito prospera, pois ele reflete (e se propaga) em seus interlocutores.
Esqueça o clichê “futebol é paixão”, pois é esse argumento obscurantista que sempre tiram da gaveta para justificar os comportamentos mais abomináveis dos torcedores (incluindo a violência nos estádios). Vejam bem, isso não tem nada a ver com o ato de proferir palavrões durante um jogo, pois estes são absolutamente necessários como força de expressão e ajudam liberar o ogro que existe em cada um de nós. Falo aqui das discussões pós-jogo, que sempre giram (ou deveriam girar) em torno das jogadas, dos gols, de quem ganhou o clássico, quem jogou melhor, se foi pênalti ou não, se foi impedimento ou não, se o juiz errou, etc… Sou totalmente favorável às brincadeiras e provocações quando um time perde um clássico e/ou leva de goleada, pois está aí todo o divertimento de uma rivalidade sadia. Mas se numa mesa redonda a intenção for apenas difamar torcedores adversários, onde é que fica o futebol nessa? O problema é que uma tentativa tola de ofensa não se restringe apenas a um comentário. Ele gera outros e outros, até não parar mais. Aí notamos que muitas pessoas não têm outras “opiniões” a oferecer além dessas em que assinam o recibo da idiotice e do preconceito. Minha conclusão, após muito observar, é que quem sempre apela para isso não está nem aí para futebol, não sabe quanto foi o jogo, não sabe nem quem joga. Discutir futebol com gente assim seria a mesma coisa que exigir argumentos adultos de uma criança chorona te chamando de “bobo, feio, chato, cara de mamão”.
Voltando aos dois exemplos propostos no início, cabe uma análise sobre a reação dos torcedores. De um lado, temos os corintianos. Alguns, curiosamente, se vangloriam quando são chamados de “bandidos” ou “marginais”. O sentimento — que deveria ser de repúdio — se torna uma virtude, já que vivemos no país da malandragem (no mau sentido) e reforça o orgulho “dos mano”. Outro rótulo atribuído aos corintianos é “favelado”, mas esse só envaidece o núcleo mais abastado da torcida, que tem vergonha de ter dinheiro num país como esse. Quanto aos corintianos pobres, pacíficos e honestos, a estes resta se conformar com o bullying elitista e aceitar a desigualdade (fazer o quê, né?). Já do outro lado, a recíproca se revela verdadeira, pois muitos sãopaulinos que se ofendem ao serem chamados de “bambis”, “gays” e “bichas”, vão à forra replicando a mesma homofobia. A partir daí se cristaliza o fato de que no futebol esse tipo de comportamento de alvinegros e tricolores não só é tolerado, como também é incentivado. E não adianta fugir: todas as torcidas padecem desse mal. Obviamente que o grito da violência e da intolerância não é surpresa para ninguém, principalmente quando vem das arquibancadas onde predomina a covardia e a truculência das “organizadas”. Irônico é ver gente que se diz “educada” e “civilizada” adotando o mesmo discurso fascista de um neandertal chefe de torcida. No que tange o homossexualismo, me parece aquela coisa típica de “macho-man” latino, sempre inseguro de sua própria masculinidade e precisando reafirmá-la ao mundo através da violência. Aliás, essa é uma boa hora para perguntar: não seria esse “macho-man” brigão dos estádios tão afetado quanto uma drag-queen mostrando suas partes pudentas numa parada gay? Mesmo que os signos estejam em campos diametralmente opostos, ambos “soltam a franga” e “extravasam” da maneira mais caricata, cada um à sua maneira… Ou não? (seja sincero!).
A situação fica ainda mais degradante quando vejo gente supostamente “progressista” que adora posar de defensora das minorias, mas que, na hora de discutir futebol, recita todos os mandamentos da cartilha do Jair Bolsonaro (só falta sair pela rua decepando orelhas). Vamos combinar uma coisa: não dá para defender os gays e sair do armário como homofóbico. Que assumam seus preconceitos de uma vez. Seria mais honesto, pelo menos. Aí está todo o cerne dessa discussão, que sempre preferimos deixar para a próxima temporada: o futebol serve para nos mostrar quem realmente somos. Claro que não estou querendo revogar o direito das pessoas de agirem como imbecis. Afinal, até mesmo o direito de ser preconceituoso, hipócrita e estupidamente reacionário está assegurado pela constituição. Tampouco estou propondo que as questões da bola devam ser todas intelectualmente elevadas. Proponho apenas que as rodas futebolísticas não saiam nas quatro linhas. “Quem tem mais títulos”, “quem é o líder do campeonato”… É esse tipo de small talk que estimula a rivalidade que nos agrega, por mais contraditório que isso pareça. Uma pena que os neandertais, os preconceituosos e os hipócritas estejam em ampla maioria e acabem estragando tudo. Pessoalmente, sinto vergonha alheia dessa gente toda. Prefiro continuar a ignorá-los, pois estou mais preocupado com uma coisa que considero mais importante, chamada futebol.
Estatuto do torcedor
- 28 de julho de 2010|
- 19h27|
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Com esse novo estatuto vigorando (será?), é bom tomar muito cuidado na hora que for xingar o juiz (ou qualquer um) a partir de agora. Sei não, mas acho que vai ter gente xingando o próprio estatuto…
Cheio de dedos
- 27 de março de 2010|
- 6h00|
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Depois de ter dado uma dedada na torcida, Ronaldo se arrependeu. E agora está cheio de dedos. Só que, agora, na véspera do clássico contra o São Paulo, a fiel já avisou: é bom o Corinthians ganhar. Caso contrário, adivinha quem vai levar uma dedada fenomenal?…
Muricy à pururuca
- 18 de fevereiro de 2010|
- 19h40|
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Indigesto para palmeirenses, suculento para torcedores adversários.
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