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Segunda-feira, 24 de Novembro de 2014
Trágico e Cômico
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Horário político

“Acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder.”

“Essa gente que fala o tempo todo contra a corrupção está apenas cuspindo no prato em que não comeu.”

“Esse pessoal aí anda tão ocupado em salvar país que nem tem tempo de ser honesto.”

Millôr Fernandes, que saudades…

Mais homenagens ao mestre Millôr

Depois que Millôr Fernandes nos deixou, ainda estou revirando pensamentos, lembranças, citações… tudo o que já li e escrevi sobre ele. Aqui mesmo no blog, tem a resenha que fiz sobre o livro O Mundo Visto Daqui e a minha tese sobre o legado do mestre. Eu poderia ficar aqui horas e horas agradecendo-o mais uma vez, debatendo sua obra, sua genialidade, o quanto ele mudou nossas vidas, mas fico com essas duas homenagens das quais tive o prazer, o orgulho e a honra de participar.

A primeira é da exposição “Ao Millôr Com Humor”, em cartaz no Shopping Plaza Sul (SP) até o final do mês. São 50 caricaturas do mestre feitas por alguns de seus discípulos. Entre eles, eu.

A outra é a minha participação no “Especial Millôr Fernandes” no Digestivo Cultural, onde conto o por que de tanta admiração por ele. Tá aqui o link.

Millôr, o cânone do humor

Toda vez que tentavam lhe colar o rótulo de “gênio“, Millôr Fernandes se esquivava, criando um campo de proteção contra adulações. É comum entre os humoristas mais respeitados esse cacoete, de não se levar a sério e negar louvores. A necessidade de parodiar a tudo e a todos (inclusive a si mesmo) vem sempre à frente. Em suas próprias palavras, o humorista é um “subhomem que escolhe um submomento para falar de um subassunto”. Mas, ao mesmo tempo, tal atitude inibe um estudo mais correto sobre seu trabalho. Não surpreende que o humor, de modo geral, tenha sempre habitado uma espécie de gueto do mundo artístico, literário e intelectual. A aparente falta de seriedade, os chistes e as tiradas desconcertantes escondem uma pesada carga crítica que expõe a mesquinhez da sociedade e o torpor mental das classes dirigentes. Para influentes e poderosos, é mais confortável ver esse tipo de humor associado ao pastelão televisivo do que às rodas literárias e aos formadores de opinião. Ranço típico brasileiro: o que é sério, tem de ser levado a sério.

Nascido Milton Viola Fernandes, em 16 de agosto de 1923 (e registrado quase um ano depois), teve o destino mudado pela má caligrafia do escrivão que, ao errar o corte do “t” e o “n”, deu a senha para que se criasse uma das maiores logomarcas do humor nacional. Filho de um imigrante espanhol, Millôr perdeu o pai em 1925, quando tinha apenas dois anos de idade. Aos dez, teve seu primeiro desenho vendido para O Jornal através de um tio. Aos doze, ele perderia a mãe, vítima de câncer aos 36 anos (mesma idade do marido ao morrer).

Depois do velório de sua mãe, Millôr deixou de acreditar em Deus. Voltou para casa, deitou-se debaixo da cama e chorou copiosamente. Após horas de choro, sentia-se desamparado, mas também aliviado. Era o marco zero daquilo que posteriormente ele definiria como “a paz da descrença”. Um ceticismo que carregaria por toda a vida e que moldaria sua obra. A maneira como essa descrença se desenvolveu em Millôr pode ser percebida pelo relato — vívido e desprovido de qualquer autocomiseração — de quando ele, já órfão, foi morar com a tia. Nesse “período dickensiano”, como ele define, o bife podia faltar em seu prato, mas nunca no prato dos primos.

Tudo começou a mudar em março de 1938, quando o garoto de quinze anos iniciou como contínuo na pequena revista O Cruzeiro. Começava ali uma das mais longevas e frutíferas carreiras da imprensa brasileira. Sob o pseudônimo de Vão Gogo, ele começava a cavar trincheiras, com criatividade e coragem. Sempre ancorado em sua “paz da descrença”, questionou valores da sociedade, fustigou autoridades de todo o espectro político e criou uma assinatura própria.

Vindo de uma geração fortemente influenciada por André François e, principalmente, por Saul Steinberg, Millôr definiu a partir dali com quais texturas e cores viria a trabalhar. A forma de Steinberg transformar experiências sensoriais em arte se tornaria decisiva em sua carreira. Principalmente depois de 1955, quando ele dividiu com o próprio Steinberg o primeiro lugar da Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires. O traço de Millôr encontrava similaridades com o de Steinberg, mas sua abordagem — ora ácida, ora agridoce — trazia um estilo único, inimitável, com balões anarquicamente diagramados pelo desenho.

Uma luta constante em sua carreira foi contra a censura. Quando saiu a peça de teatro Por que Me Ufano de Meu País, teve de ser rebatizada para Um Elefante no Caos. Escrita em 1955 — quatro anos antes de a revolução cubana acontecer — , fazia menção a uns barbudos metidos a revolucionários. Era um retrato sombrio do próprio ufanismo do título, desenhado por personagens “tontos, corruptos, marginais ou marginalizados, funcionando dentro de uma aparente normalidade”. Só depois de cinco anos, a peça foi levada aos palcos pelo Teatro da Praça.

Mas a censura que o atingiu de uma forma brutal aconteceu em 1963, na revista O Cruzeiro que, naquele tempo, era a maior do Brasil. Millôr lançou um olhar iconoclasta para a história de Adão e Eva no paraíso e desagradou aos religiosos. Em editorial, a revista se eximiu de qualquer culpa e atacou seu autor por debochar da hagiografia cristã. “Confiamos na honestidade intelectual de nosso colaborador. Confiamos e erramos”, dizia o texto. A atitude, baixa por si só, foi também oportunista, pois aproveitou-se de uma viagem que Millôr fazia a Portugal e, portanto, não estava lá para se defender. Alertado por Juca Chaves, correu para o consulado brasileiro e pegou um exemplar da revista. Ao chegar ao Brasil, depois de 25 anos trabalhando em O Cruzeiro, encontrou sua carta de demissão e uma acusação de fazer uma “matéria insultuosa às convicções religiosas do povo brasileiro”. A censura, dessa vez, não vinha de órgãos do governo ou de partidos políticos, mas de uma sociedade conservadora e de sua revista mais lida.

A reviravolta do caso aconteceu quando setores da imprensa se colocaram contra sua maior publicação e ofereceram um jantar de desagravo a Millôr. Lá compareceram diretores e presidentes dos maiores veículos de imprensa, além de centenas de artistas, escritores e jornalistas como Paulo Francis, Rubem Braga, Otto Lara Resende, Sérgio Porto, Fernanda Montenegro, entre outros. “Me sinto como um navio abandonando os ratos”, disse Millôr, em seu discurso. Embora a vitória moral já tivesse sido conquistada, ele processou a revista, ganhou e saiu-se com mais um de seus epítetos: “a justiça farda, mas não talha”. Na esteira, veio o inevitável declínio da revista, que fechou as portas dez anos depois desse incidente — e trazendo a soldo os Diários Associados. O humor, quando usado de uma forma tão elegante e sofisticada, pode se tornar uma arma letal.

Um ano depois, em 1964, apenas quarenta dias após o golpe militar, Millôr lançou a revista O Pif-Paf. Sem propostas políticas ou ideológicas, o mote da publicação era o humor e a liberdade. “Em todos os números do Pif-Paf falaremos de Liberdade. É um assunto que nos tem presos.” Como era de se esperar, quatro meses e oito edições depois, O Pif-Paf bateu de frente com a censura, desta vez oficial, fardada. Mas antes de a publicação deixar de circular — e mesmo enterrado em dívidas —, Millôr não perdeu a piada: “se o governo continuar deixando que circule esta revista, com toda sua irreverência e crítica, dentro em breve estaremos caindo numa democracia”.

As marcas deixadas dessa experiência ficariam para sempre na imprensa nacional. Sem se dar conta disso, Millôr e seu Pif-Paf tinham deixado o caminho aberto para futuros veículos da imprensa alternativa e também a senha para uma reinvenção da grande imprensa. Foi seguindo esse rastro que, cinco anos depois (no auge da repressão), surgiria O Pasquim. O que viria depois é história.

Muitos tendiam a tachá-lo de pessimista, influenciados por sua aparente visão sombria do mundo. Afinal, como alguém que via o homem como “um bípede inviável” e a vida como “um pau de sebo com uma nota falsa em cima” poderia ter alguma esperança na humanidade? Porém, testemunhos de amigos e personalidades apontam na direção oposta. Geraldo Carneiro o define como um “monstro de delicadeza”, mas quem fecha a questão é o próprio Millôr: “sou indecentemente feliz”.

A lição que tiramos disso é que existe, sim, espaço para a felicidade no mundo dos céticos. O fato de não acreditar na virtude do ser humano não o tornou mal humorado, amargo ou ranzinza. A “paz da descrença” é um olhar de distanciamento, um lugar onde as mazelas não o atingem. Em O Mundo Visto Daqui, Millôr dá outra pista: “sou um cético. Isso quer dizer um homem de profundas e variadas crenças que, porém, nunca estão colocadas numa sigla, numa fé institucionalizada e politizada, num grupo e, sobretudo, numa pessoa”. Já o humor, esse sim, deve sempre ser contra — seja o governo, regime ou valores. E serve também para o jornalismo. Vem daí uma de suas frases mais festejadas entre jornalistas: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.

Millôr não inventou a roda, mas mudou-a. Anterior a ele, o humor crítico da sociedade e da política era restrito aos grandes caricaturistas e chargistas, como Ângelo Agostini, Nássara e J. Carlos ou a sátiros como Barão de Itararé, Bastos Tigre e Juó Bananére. Millôr ampliou essa percepção, mostrando uma visão oblíqua do humor, conferindo-lhe um caráter multifacetado e mostrando que não há classificações ou subdivisões possíveis. O humor pode estar no traço, mas está também nas letras, no teatro, na poesia, no soneto, no aforismo, no haicai. Assim, o brilho do humorista Millôr se confundiu com o do dramaturgo, do jornalista, do cronista, do cartunista. E também do linguista. Com aforismos elípticos, jogos de palavras e trocadilhos surrealistas, sua desobediência sintática e semântica o permitiu brincar com as palavras e com as contradições da língua. Sem impor seu estilo como norma, passou por cima das normas do estilo, ignorando regras gramaticais e criando neologismos. Vem daí a sua auto-definição: “um escritor sem estilo“.

Tudo o que foi feito de melhor no humor nos últimos cinquenta anos provavelmente é uma variável (ou resultante) de um conceito que passou pelas suas mãos, com maior ou menor grau de influência. A exemplo do que Machado de Assis é para a nossa literatura ou Heitor Villa Lobos é para a música brasileira, Millôr Fernandes é para o humor brasileiro: um cânone. Um dos maiores gênios de seu tempo, uma referência atemporal. E se, em vida, ele certamente negaria o título por uma questão moral, cabe aos que aqui ficaram reconhecê-lo como tal.

O adeus do mestre Millôr Fernandes

O humorista é o último dos homens, um ser à parte, um tipo que não é chamado para congressos, não é eleito para academias, não está alistado entre os cidadãos úteis da República. (…) Assim, o humorista tem de ser mais infeliz que outros artistas, porque não pode aceitar o louvor precário que lhe oferece a falível humanidade que critica. No momento em que o aceita e passa a se julgar com direito a ele, já perdeu substância como humorista.
Millôr Fernandes

Devaneios de um estivador do traço

Dia desses, eu estava lá, cuidando da minha vida, quando fui surpreendido por uma mensagem do amigo (e também cartunista) Érico San Juan. Começou dizendo que tinha feito uma longa visita aqui no blog e elogiou a minha “visão de mundo”. Complementou dizendo que a maioria dos cartunistas de hoje só se preocupam com o virtuosismo gráfico — o que, segundo ele, os tornam clones uns dos outros.

A princípio, me pareceu aquela famosa discussão entre criar um trabalho autoral ou privilegiar apenas a técnica. A explicação para tal fenômeno é simples: numa sociedade que exige retornos financeiros imediatos, a maioria opta pelo virtuosismo gráfico, pois é isso que traz clientes, dá uma boa visibilidade no mercado, dá bons prêmios em dinheiro nos salões de humor, além de um certo respeito dentro do meio. A busca autoral vai na direção contrária: é infinita, solitária, não dá dinheiro e, sejamos francos, ninguém se importa com isso. Tem também o fato de que, hoje, os profissionais estão preferindo se tornar generalistas e acabam fazendo um pouco de tudo: caricatura, charge, cartum, ilustra, quadrinhos, o que vier. Não existe certo ou errado. Se essa é uma exigência do mercado, cada um traça o seu caminho da maneira que preferir (ou puder). Como resultado direto disso, a caricatura passou a ser a categoria mais cobiçada nos salões de humor. Ao mesmo tempo, o mercado de quadrinhos nos últimos anos cresceu exponencialmente, o que ajudou a revelar novos talentos na área. Porém, na contramão, ficou a charge política, que viu sua relevância diminuir dramaticamente. A charge política — que, no passado, foi usada como instrumento contra a repressão —, hoje é vista apenas como uma piadinha sem grande importância. Em tempos de extremo governismo, onde todo mundo parece ser a favor de tudo, a charge perdeu aquele caráter corrosivo de outros tempos. Isso posto, não chega a ser uma surpresa que os bons profissionais de hoje, muito antes de serem chargistas, sejam primordialmente quadrinhistas ou caricaturistas.

Mas o Érico não arredou o pé: “originalidade dá trabalho. Os cartunistas não arriscam mais. Querem ganhar salão, ganhar frila (…) Estão querendo queimar etapas muito rápido. Isso, lá na frente, causa uma baita crise existencial. A gente não escapa de si mesmo.” Realmente, a sensação geral é a de que os novos profissionais que surgem hoje estão apenas correndo atrás do pote de ouro. Mas, por outro lado, não queimar etapas também tem o seu preço, porque o resultado só se enxerga lá na frente. Leva-se muito tempo não só para melhorar o traço, mas para se adquirir alguma cultura política, através da imersão em livros e debates. Quem tem blog, sabe como é desgastante ficar se metendo em diatribes políticas e ideológicas. Pode ser divertido em alguns momentos, mas, muitas vezes pode ser perigoso. PT x PSDB; Lula x FHC; Pinheirinho; privatizações; eleições; corrupção; politicamente correto… Quem tem tempo, estômago, ou paciência para isso? As pessoas, de alguma forma, preferem se acomodar em certas verdades que criam para si, para poder se ocupar com coisas que consideram mais importantes. Só que eu considero essa uma das maiores lacunas que ficaram nos dias de hoje. Por isso, resolvi ocupar esse espaço vazio, transformando-o em prioridade. Pessoalmente, gosto bastante da definição do cartunista francês Plantu: “o cartunista deve chacoalhar as certezas do leitor”. Derrubar mitos, questionar verdades, esculhambar certezas (especialmente se forem “absolutas”). Numa época em que a cultura do consenso — agora em versão 2.0 — parece irreversível e o humor parece patinar entre o politicamente correto e a ofensa gratuita, acho que o pensamento crítico se tornou crucial. E esse pensamento, assim como a arte, deve ser livre… Livre de preconceitos, livre de regras impostas pela sociedade, livre de dogmas religiosos, livre de ideologias políticas, livre de influências partidárias.

Talvez por ter misturado a minha verve de charge política com a escrita, acabei me tornando uma espécie de outsider tanto entre cartunistas, quanto entre jornalistas. A charge é uma espécie de zona morta nos dois circuitos. Nos salões de humor é uma categoria menor, pois não é nela em que os artistas exibem sua exuberância gráfica. E nas premiações de jornalismo meus trabalhos também não têm muito potencial, pois o humor é considerado sub-jornalismo [OBS: eu discordo visceralmente disso, mas reconheço que a briga contra o consenso é inglória]. A urgência da charge faz com que ela perca o viço. Tem seus admiradores, claro, mas no geral não é algo que se costuma levar tão a sério — tanto pelo lado gráfico quanto pelo jornalístico. Levei um tempo para me dar conta disso, até que fui salvo por uma frase do Millôr: “o humor é a vitória de quem não quer concorrer”. Me autoconcedi uma licença poética para aceitar essa única frase como verdade na minha profissão. E, assim, acabei ficando de fora também do circuito das premiações, embora eu tenha consciência de que isso tenha seus prós e contras. Se, por um lado, a falta de competição pode significar para muitos a aceitação prévia da derrota, por outro, a falta prêmios nos mantêm alertas e determinados a seguir em frente, sem cair em deslumbres e acomodações.

Enfim, não tenho uma tese totalmente acabada sobre o assunto. São apenas devaneios. Minha única conclusão é que o negócio é deixar o ego de lado e seguir trabalhando. Afinal de contas, é isso que sou: um estivador do traço.